Discos do mês - Maio de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 02/06/2017

Soundgarden: Down on the Upside

Que coisa mais deselegante, eu falando mal da reunião do Soundgarden nos dias que se seguiram à morte do Chris Cornell. O Sid, nos comentários daquele post, tem toda a razão: se os caras se divertiram nos shows e nas sessões de estúdio que resultaram em King Animal, a coisa esteve plenamente justificada. Também o Alexandre, aqui, disse mais ou menos a mesma coisa, com outras palavras. E mesmo que os motivos da volta tivessem sido todos de ordem meramente pecuniária, isso não é da conta de ninguém: eles fazem o que querem com a banda que eles mesmos criaram. Vou tentar compensar minha grosseria falando do Down on the Upside, que escutei uma única vez no mês que passou, uma audição marcante pelas circunstância e pelo poder que o disco conserva ainda intocado em suas 16 faixas. Era uma noite que já avançava e eu começava a ficar com sono, mas o som me despertou imediatamente, tão logo apertei o play e veio aquela lembrança contundente de que Pretty Noose é mais do que uma música excepcional: ela traz também em si, em mensagem cifrada porém perfeitamente recebida e decodificada por qualquer um que tenha já uma sensibilidade mais treinada para música, o anúncio de que ela abre um discaço, a promessa implícita de que toda a mais de uma hora de música que vai se seguir a partir dali será impecável, não tem como ser diferente. Além do mais, se cada disco da banda era como uma depuração de seu anterior, e o Superunknown é magnífico, então ao Down on the Upside só podem ser aplicados adjetivos ainda mais superlativos. É um dos meus discos de rock favoritos — nada menos que isso. Da monumental Pretty Noose, passando por Burden in my Hand e Switch Opens, chegando ao desfecho opaco e enigmático de Boot Camp, o nível do álbum permanece o tempo todo nas alturas — creio que seja o sublime citado pelo Alexandre em seu post —, cada segundo é argumento suficiente para desmoralizar qualquer um que tente hoje em dia relativizar a qualidade da música saída de Seattle naqueles anos. De determinado ponto de vista, não havia como a banda fazer algo melhor do que Down on the Upside; a retomada feita com o King Animal talvez mereça então um pouco mais de condescendência, um outro enfoque. No conjunto da obra, são pouquíssimas as bandas que têm uma discografia do quilate da do Soundgarden para se orgulhar.

R.E.M. - Monster

Esse talvez caia na vala dos discos menores do R.E.M., mas é um dos meus favoritos, me vejo escutando-o muito frequentemente, e sempre que o faço enquanto estou andando na rua, eu desacelero o passo para que a caminhada seja mais longa e eu tenha oportunidade de ouvir ao máximo possível de suas canções. Adoro as guitarras altas e distorcidas que se repetem em praticamente todas as faixas, uma presença insistente que faz com que o disco tenha essa índole altamente elétrica e padronizada, quase que uma única longa canção com modulações de melodia, mais ou menos como o NYC Ghosts & Flowers do Sonic Youth: suas músicas, se tomadas individualmente, são irregulares ou mesmo simplesmente uma droga (foi o que disseram na época do lançamento do CD do Youth), mas juntas elas conjuram algum feitiço que faz com que o disco funcione como obra completa, indivisível, um pouco mais exigente de atenção e cuja jornada no fim das contas tem suas recompensas se atravessada inteira e sem interrupções (pelo menos é o que eu digo). No caso do Monster, talvez seja exagero dizer que nenhuma canção ali se destaca individualmente — afinal, temos no tracklist pérolas como What’s the Frequency, Kenneth?, Star 69 e Bang and Blame — mas o forte do disco, ao contrário dos álbuns anteriores do R.E.M., é a sua soma. E quando a coisa ameaça tornar-se cansativa, lá pro terço final, quando a eletricidade toda começa a confundir um pouco o cérebro e ao iniciar I Took Your Name você tem certeza que essa música já tocou antes — surge então, na sequência, a belíssima Let Me In, supostamente uma homenagem ao então recém-falecido Kurt Cobain, o suicida que (é o que dizem) escutava ao Automatic for the People no momento em que disparou uma arma contra sua própria cabeça. E o disco fecha muito bem com Circus Envy e You. Que saudade do R.E.M.! Era uma daquelas bandas de presença inabalável em nossas vidas, e que muitos de nós, em algum momento de nossas adolescências, consideramos que nunca haveria de deixar de existir, mais ou menos como em algum momento de nossas infâncias pensamos que nossos pais nunca haveriam de morrer, e também os antagonistas de nossos pais, os Ramones, também eles seriam eternos. Mas as bandas se vão; as pessoas se vão. E tudo indica que não está previsto no roteiro do drama humano o dia em que aprenderemos a lidar com essas mortes todas, a nos conformarmos com o fim das coisas. A finitude parece ser, ao mesmo tempo, a maravilha e a tragédia da existência: aqui ficamos a lamentar enquanto lá estarão para sempre em paz os que partiram. Percebi que a morte de Cornell (voltando ao tema) comoveu muita gente; foi, além de tudo, uma parte de nós, uma parte de nossa música e de nossas memórias — mais uma — que morreu também. Fica o consolo da paz eterna, que há de chegar para todos, cada qual em seu tempo.

Brigitte Engerer - Frédéric Chopin: Nocturnes

Pensei muito em Chris Cornell nesses últimos dias, e também em Layne Staley e Cobain, estes tão imperfeitos e tão queridos ídolos musicais da minha geração, todos mortos tão cedo, e um som que me acompanhou nessas reflexões, além de suas respectivas bandas — as melhores de Seattle?, quero dizer, as melhores depois do Melvins? — foram os Noturnos de Chopin, que tenho em CD gravados pela pianista Brigitte Engerer. Essa música é uma das proezas de nossa espécie, não? Aqui está, na minha opinião, o equilíbrio insuperável entre som, serenidade e beleza. Mesmo quem não se aventura muito pelo repertório clássico há de conhecer uma ou duas das peças desse conjunto do compositor polonês, que são 21 no total, escritas entre 1827 e 1846. O nome não é fortuito; é música noturna mesmo, que parece flutuar pelos ares dos mundos opostos ao da consciência. Música-sonho. Um bom sedativo para esses dias tão exasperantes, e algo que poderíamos exibir com orgulho para alguma espécie de algum outro planeta, e comprovar para eles que nós também, apesar de todas essas pulsões de morte e violência tão latentes em nosso planeta ultimamente, nós também compartilhamos algo do inexaurível poder de criação do universo.

Categoria(s) associada(s): Discos do mês



6 comentários:

  • Sid Costa em 03/06/2017

    Esse argumento sobre o Soundgarden é bem pertinente. Eles chegaram a um limite. Acredito que mesmo que se eles tivessem continuado, a tarefa de dar sequência a trinca Badmotorfinger/Superunknown/Down on seria ingrata. Ou eles se reinventariam completamente ou entrariam na zona de conforto como aconteceu com o Pearl Jam pós Binaural.

    Já o REM mudou quando isso aconteceu. Seria fácil lançarem novos Automatic ou Out of Time, mas daí vieram o* Monster, New Adventures* e Up que os levaram a terrenos que se não novos eram pouco percorridos. Sobre o Monster ainda, não o acho menor ou oportunista (como eu já escutei de algumas pessoas) e além das faixas citadas, tem o falsete em Tounge. O que é aquilo, um flerte com a Motown?

    Uma hora dessas vou atrás desses discos clássicos que vc tem tanto escutado. E sim Melvins está em outra esfera.

  • Vicente em 07/06/2017

    O interessante do Monster é a habilidade do R.E.M. se apropriar de uma tendência da época (o “grunge”) e seguir sendo a mesma banda dentro de um novo contexto sem soar oportunista. Eu acho ele um pouquinho datado hoje mas os timbres das guitarras seguem instigantes e imponentes. E Let Me In é a minha preferida.

  • Fabricio em 07/06/2017

    Pois é, também não vejo oportunismo algum no disco de 1994 do R.E.M.. Nem nunca havia pensado nisso, para dizer a verdade. Não é como R.E.M. e guitarras tivessem sido apresentados um ao outro no estúdio em que gravaram esse disco, certo? Se aqui elas soam mais distorcidas e barulhentas do que nos discos anteriores, bem, também não é razoável exigir que uma banda mantenha-se completamente surda às tendências e predileções de sua época, creio eu. De todo modo, não soa em momento algum falso ou cópia artificial de qualquer outra banda. É o bom e velho R.E.M., apenas um pouco mais arranhado e taciturno.

  • Vicente em 08/06/2017

    Na verdade não era minha intenção taxá-los de oportunistas mas sim de enaltecer a habilidade deles absorverem o zeitgeist musical em seu favor. E eles mostrariam essa habilidade novamente no Up quando o mundo todo se deliciava com as possibilidades da música eletrônica (Smashing Pumpkins é notório quando optou pelo Flood) e a banda superou a saída do Bill Berry incorporando os beats naquele disco. Enfim, o R.E.M. sempre se superou e terminou as atividades quando o que tinha a dizer já havia começado a parecer pouco. Um show de respeito pela carreira.

  • Fabricio C. Boppré em 08/06/2017

    Sim, eu tinha entendido, Vicente! O lance do “oportunismo” eu puxei ali do comentário do Sid, e compreendi que tu foi na mesma linha do que disse ele. Concordei com ambos. Tenho esse link guardado aqui para ler faz algum tempo, mas não o li ainda; recomendo-o, mesmo assim: https://tinyurl.com/cakrjn8

  • Alexandre em 11/06/2017

    Eu até fui ouvir de novo o King Animal esses dias pois não sabia da opinião do Fabrício sobre a volta deles. Continuo achando bem ok. Claro que é um disco de outra grandeza comparando com o que veio antes, mas não tinha como, outros tempos.

    Sobre o Monster, acho que o movimento da banda foi se afastar da sonoridade mais acústica que eles vinham desenvolvendo desde o Green e que atingiu o ápice no Automatic. Até porque se for ver quando o Monster saiu o grunge já tava começando a entrar no clima de fim de feira.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.