Réquiem para Chris Cornell

Por Fabricio C. Boppré em 22/05/2017

É tentador falar em premonição ou algo do tipo, mas é claro que não foi nada mais do que uma triste coincidência: já há alguns dias eu vinha escutando gravações diversas de Requiem, a missa fúnebre de Gabriel Fauré, quando chegou a notícia da morte de Chris Cornell. O obituário veio dividindo as páginas dos jornais com as notícias escatológicas acerca da divulgação das gravações onde a ratazana que ocupa atualmente o posto máximo da República é flagrada costurando acordos com o bandido dono do famoso matadouro de animais, dois personagens asquerosos tramando rapinagens na calada da noite em plena residência oficial do presidente, fora da agenda oficial, encontro que por si só já seria motivo para escândalo em qualquer país decente — não precisaria nem divulgar o teor da conversa. Ao menos o filho da puta teve a decência de não vazar da presidência naquele mesmo dia, dado que seria bem difícil acomodarmos no mesmo estado de espírito a tristeza pela morte de Cornell e a felicidade pela sua renúncia. Devo dizer que não sou o maior entusiasta da volta do Soundgarden; eles eram, para mim, uma dessas raríssimas bandas que ao encerrar deixou legada ao mundo uma discografia quase perfeita, de álbuns praticamente sem falhas, cada qual melhor que seu predecessor, todos eles igualmente extraordinários. A coisa estava encapsulada em cristal precioso, irrepreensível, intocável — mas por qualquer motivo que seja, resolveram tocar, e para mim o King Animal é um arranhão na trajetória do Soundgarden, uma mancha de dedos engordurados, e agora a coisa acabou assim, truncada e um pouco maculada. Escutei ao disco novamente nos últimos dias com bastante boa vontade, e não tem jeito, na minha opinião nada ali justifica a volta da banda — nada ali chega sequer perto do momento mais fraco que possa haver em Down on the Upside, e fica então essa desconfortável desconfiança que a volta se deu por outros motivos menos nobres. Mas talvez eu não devesse estar dando essas opiniões agora, elas pouco ou nada importam; a morte estúpida de Cornell é lamentável demais e o importante é nos despedirmos agradecendo-o pela música fenomenal que ele nos deixou, música que reverbera alto ainda, música cuja potência e esplendor os deixarão no zênite do rock ’n’ roll por muito tempo ainda, quiçá eternamente. E recomendado fica, se alguém se interessar em prestar um outro tipo de homenagem a Cornell: a Requiem gravada por Philippe Herreweghe com o seu grupo coral La Chapelle Royale, lançada em 2002 pela Harmonia Mundi. Os segundos iniciais deste disco, assim como os segundos iniciais de Pretty Noose, são de arrepiar a espinha. Mais do que isso: serão eternos.

Categoria(s) associada(s): Memória

Créditos da imagem: Copiada daqui.



5 comentários:

  • william em 22/05/2017

    Parabéns pelo texto, tive sentimentos parecidos aos seus, fui dormir com o país se desfazendo, sem rumo, largado quase a deriva, acordei e vi a notícia de Nick Hayden lutando pela vida num hospital, depois me deparo com a morte do Cornell, esse dia foi de “tempestade, enchente e avalanche”.

    Descanse em paz Chris.

  • Sid Costa em 25/05/2017

    O guitarrista do Dillinger Escape Plan que era a banda de abertura dessa última tour disse que os caras estavam contentes. E sabe, isso já justifica uma reunião, mesmo que renda discos menores como King Animal, Indie Cindy ou Sol Invictus. Nessa semana assisti um pedaço de um show do Pixies num festival francês e sem sacanagem me emocionei vendo os caras no palco aparentemente se divertindo, o Joey Santiago tocando com uma toalha na cabeça, David Lovering mandando ver em La La Love you e a Paz nos backings. Em menos de um mês duas perdas grandes nas artes, Belchior e Cornell, gigantes que fazem falta. E o Temer ainda resiste.

  • Fabricio em 26/05/2017

    Sim, Sid, concordo contigo, isso talvez já justifique a coisa toda. Acho que já fiz uma consideração desse tipo em algum outro texto, sobre alguma outra banda. Por isso evito maiores especulações, pois sinto como se tivesse me metendo na vida alheia.

  • Alexandre em 31/05/2017

  • Vicente em 07/06/2017

    O Cornell talvez tenha sido a personalidade de Seattle que mais flertou com o mundo mainstream. Nem o Ed Vedder ousou alçar vôos tão altos, sendo ele uma personalidade até mais imponente que o agora falecido vocalista. O fato do Cornell ter gravado um disco pop solo produzido pelo Timbaland permite interpretar que o músico buscou por vários caminhos a sobrevivência pelos meios artísticos e de certa forma pode explicar (talvez?) sua triste e final atitude. Imagino que lidar com as ascendências e descendências dessa profissão não seja algo suave e de alguma forma impõe um sentimento de impotência e urgência em não se sentir “fora do jogo”. Nunca fui o maior fã do Soundgarden mas pelo menos seus discos não perderam muito do encanto à medida que as décadas passaram.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.