Discos do mês - Março de 2026
Fabricio C. Boppré |Imagem principal:

Crédito(s): Der Bart ist das Gras des Kahlköpfige de Friedensreich Hundertwasser, copiada daqui.
Texto:
Depois de passar alguns dias na companhia de música clássica e trilhas sonoras, fui fisgado pelas belezas umbrosas do doom metal. (Doom metal é um negócio que exige que utilizemos palavras como "umbrosas".) Às vezes penso que não escuto tanto doom metal quanto gostaria; às vezes penso que é mais na teoria do que na prática que eu gosto deste subgênero... Fico oscilando entre estas duas hipóteses. Algumas bandas me fazem tender à primeira: o Katatonia, por exemplo. Estes suecos talvez não sejam os representantes mais exemplares do doom conforme sua definição mais rigorosa, mas pelo menos em minha concepção de uma coisa e outra — subgênero e banda — há uma confluência bastante clara, ainda que uma concernente a questões mais abstratas de atmosfera e de paleta tonal, digamos, e nada a ver com questões técnicas sobre como afinar a guitarra ou tocar a bateria. Mas não precisamos perder tempo em tais minúcias; falemos logo da banda, que eu ouvi com frequência de pouca para média em fins dos anos 90 e logo deixei de lado pois havia algo de bonito demais em suas canções, algo de refinado, talvez até de demasiadamente açucarado para alguém como eu, que começava a gravitar em direção ao Morbid Angel. Acho que o vocal de Jonas Renkse, elegante e caloroso, me incomodava mais do que tudo. Mas me aconteceu de escutar o disco Viva Emptiness uns dias atrás, e depois voltei a ele para confirmar se era mesmo tão bom, e é. Escutei também ao Tonight's Decision, que em seu equilíbrio sofisticado de peso, melodia e penumbra gótica acabou me soando melhor do que jamais havia soado antes. Não que eu precise de mais uma banda para amar, mas parece que vai se forjando uma relação íntima entre mim e o Katatonia. Seguiu-se uma diversificação, e depois de alguns discos do Paradise Lost e do Candlemass, cheguei enfim ao farol que desde lá o começo, eu pressentia, despontava ao longe, sólido e fatal: o My Dying Bride. Mas esta banda eu perfilo entre as que justificariam a segunda hipótese mencionada no começo deste texto. Quero dizer: ao menos dois discos de sua discografia eu admiro com fervor, os monumentais The Angel and the Dark River e The Light at the End of the World. São álbuns exigentes porém extremamente recompensadores. Mas entre eles, e antes e depois, há uma maioria de outros que, em outras ocasiões, me foi custoso escutá-los até o fim. É algo que lastimo e planejo revisar nos próximos dias, aproveitando este estado de espírito favorável. De todo modo, foi bom relembrar que The Light at the End of the World continua tão distintamente belo, uma beleza feroz, densa e teatral. Foi bonito — tem sido bonito, na verdade, já que por estes primeiros dias de abril continuo envolvido com estas mesmas bandas — mas houve algo mais lá por meados de março. Certo fim de tarde, cansado do trabalho, do calor e de guitarras massivas, deitei-me na rede para descansar e escutar alguma coisa diferente. Passando os olhos pela estante dos discos topei com o único CD que tenho de Cecil Taylor, este pianista — na falta de termo mais preciso — fenomenal. Cecil parece vindo de outro mundo; a música criada pela sua habilidade e visão extraordinárias é um feitiço impossível de descrever. São como (impossível de descrever, mas a gente sempre tenta) intricados labirintos sonoros, labirintos dentro de labirintos que nunca falham em me deixar mesmerizado. Este CD — uma edição meio estranha que se parece com algo lançado por uma revista — eu salvei de uma caixa de papelão que ia acabar sabe-se lá onde, talvez até no caminhão do lixo, da casa de um amigo que já não via mais sentido em possuir CDs e doava os poucos que ainda tinha, ele próprio não sabendo nada sobre Cecil Taylor, não lembrava de como aquele disco havia parado ali. É, portanto, a continuação de um mistério eu possuir este CD, mistério prolongando a cada audição e aprofundado pela música árdua às raias do inacessível, deslumbrantemente inacessível. E naquele fim de tarde já virado em noite, finda a audição de Taylor, eu queria ouvir ainda mais alguma coisa... Mas o que, em nome dos céus, dos santos e dos acasos, o que escutar depois de Cecil Taylor? Lá vai o olhar deslizar novamente pelos caminhos aleatórios do grande mapa desenhado pelas lombadas enfileiradas dos meus CDs, ser sugado e saltar para fora de seus vórtices, quando então dou com os olhos na lombada do Olé de John Coltrane. E logo lá estava eu esticado novamente na rede. De cabo a rabo este disco é magnífico: a introdução de contrabaixo da primeira faixa, a flauta de Eric Dolphy, o piano de McCoy Tyner; o formato do álbum, três longas faixas que parecem sustentar uma estrutura arquitetônica, o funcionamento de um organismo. As melodias de Coltrane. É tudo uma extraordinária alegria. E assim passou-se mais uma noite, ainda outra, para a minha crônica pessoal. E da minha coleção de discos, sr. Spotify, dos meus numerosos CDs e pesados vinis, dona IA, estejam certos de que eu não me desfaço nunca.
Comentários:
Não há nenhum comentário.



