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Relato de meio de caminho - Março '26

Fabricio C. Boppré |
Relato de meio de caminho - Março '26

Crédito(s): cena do filme Tár, imagem original copiada daqui.

Assistimos a dois filmes muito bons no começo deste mês, Sentimental Value e Tár. Do filme como um todo acho que gostei mais do segundo; da trilha sonora eu gostei mais da do primeiro. Sobre Tár (o filme), li um comentário bastante contrariado de Marin Alsop, que foi maestra da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo entre 2012 e 2019. Para Alsop, o filme prestou um grande desserviço ao retratar uma mulher homossexual (minoria) e regente profissional (minoria dentre as minorias) como uma "abusadora", o que talvez seja um termo meio forte — "manipuladora" me parece mais condizente com o que o filme sugere e efetivamente mostra. Em todo caso, entendo o aborrecimento de Alsop: eu também já me incomodei muitas vezes ao assistir personagens estereotipados, que parecem servir apenas como emblemas de certa identidade, serem retratados com vícios e defeitos de caráter que se subentendem automaticamente como vícios e defeitos de toda sua classe, em geral alguma minoria ou grupo marginalizado (quando não simplesmente um país estrangeiro do ponto de vista norte-americano, quando se trata de um filme de Hollywood, e no mais das vezes é). Esse tratamento, contudo, eu não percebi em nenhum momento enquanto assistia Tár. Sim, a personagem principal é lésbica e parece ter diversas falhas de caráter, mas ela é ao mesmo tempo uma personalidade bastante individualizada e verossímil, complexa como somos todos nós no mundo real fora dos arquétipos tradicionais da ficção, repletos de contradições, fraquezas, belezas e virtudes. (A sexualidade de Lydia Tár me pareceu até um aspecto secundário do filme, e tratada com elegância, sem as cenas apelativas habituais de Hollywood.) Em outras palavras: Lydia escapa aos esquemas e alegorias, apresenta-se antes como ser humano do que como lésbica e/ou profissional em um ramo dominado por homens. Suponho que muita gente considere essa separação impossível e talvez seja mesmo uma grande ingenuidade de minha parte, mas foi esta a minha experiência com o filme, e a esta impressão acrescento o reforço da inegável paixão da personagem pela música, sua servitude em relação aos seus heróis e heroínas, sua entrega e devoção, manchadas, é claro, pela sua conduta profissional condenável — e ainda assim tocantes e genuínas. A ênfase do filme nisso (algo que entendo...) me convenceu quanto à legitimidade de Lydia. Ao diretor de cinema que é um dos personagens principais de Sentimental Value me pareceu faltar um pouco dessa verve humana, desta carne, mas, curiosamente — por não ser um filme sobre música como é Tár — eu gostei mais de sua trilha sonora. A trilha de Tár traz vários trechos de Elgar e Mahler que não são novidade alguma, com a ótima música da compositora islandesa Hildur Guðnadóttir não se alinhando muito bem com eles, enquanto que a trilha de Sentimental Value flui lindamente como obra avulsa e completa. Já mencionei algumas vezes por aqui sua autora, a polonesa Hania Rani, cuja música delicada e levemente desterrada tem minha atenção já faz bastante tempo. A última peça de sua autoria que eu havia escutado, Non Fiction, um concerto para piano gravado ao lado do Manchester Collective, poderia sugerir que Hania está iniciando sua travessia em direção às obras mais tradicionais e compostas para conjuntos maiores, mas isto é apenas meia verdade. Non Fiction é um concerto à moda Rani: não há arroubos dramáticos do tipo Tchaikovski ou Rachmaninoff; há a fragilidade do piano de Hania, que por vezes soa como um minúsculo feixe de água cristalina correndo escondido por entre a mata; há uma atmosfera de sonambulismo e a melancolia resignada que parece ser ainda uma herança incontornável de quem nasceu por aquelas partes cinzentas e martirizadas do mundo. O Manchester Collective é companhia de luxo e fornece linda densidade às passagens mais inflamadas do concerto, uma riqueza textural típica da música clássica contemporânea que sabe se valer da tecnologia no estúdio. A trilha de Sentimental Value é bastante parecida: há alguns poucos momentos mais expansivos (a primeira faixa com seu conjunto de flauta, clarinete e cordas ascendentes; a penúltima com sintetizadores que parecem saídos de algum dos álbuns da série Ambient de Brian Eno), porém a maior parte do disco apoia-se sobre o piano intimista de Rani, uma música que parece esquivar-se dos ouvidos do mundo, habitando o cérebro de alguém que anda distraído por aí. A última faixa do álbum é uma pequena joia preciosa, umas dessas composições que soam antes de mais nada como uma ode à beleza imortal do piano. Rani tem um talento e tanto. E considerando que a moça nasceu em 1990, é instigante imaginar que suas melhores obras ainda estão por vir.

Categoria(s): Opinião

Comentários:

Ivan Jerônimo | 16/03/2026

Tive a sorte de ver os dois filmes no cinema. Na época de Tar, fui atrás da trilha, por causa do tema. Fiquei contente que era da Hildur Guonadóttir, que eu conhecia da trilha de Chernobyl.

A trilha de Valor Sentimental ainda vou ouvir. Lembro que era muito sutil, como você descreve.

PS: pra quem viu o Tar, a capa da trilha sonora é uma boa sacada, não?

Fabricio | 16/03/2026

Ivan, se gostares da trilha do Sentimental Value, procure pelo restante da discografia da Hania Rani. Todos os discos dela são ótimos. E, sim, a capa da trilha do Tár é uma boa sacada! Acho até que a capa clássica que ela homenageia — uma gravação da quinta sinfonia do Mahler conduzida pelo Claudio Abbado — passa no próprio filme, naquela cena em que ela está avaliando possibilidades para a capa do disco que ela irá gravar.

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