Impressões auditivas, Vol. XIX

Por Fabricio C. Boppré em 27/10/2020

  • Sugeri, dia desses, que covers de Neil Young deveriam ser proibidos. Embora continue acreditando na premissa, a versão rarefeita de Michael Hedges para After the Gold Rush (neste disco) me faz pensar que alguma espécie de sistema de permissões excepcionais deveria ser previsto… Também a versão de Patti Smith para a mesma música (aqui), lembrei-me depois, é ótima e exige tais exceções. Primeira versão do parágrafo que dispõe sobre as possíveis ressalvas à lei geral da proibição de versões covers das músicas de Neil Young: versões de After the Gold Rush, se você for um artista do naipe de Smith e Hedges, estão liberadas.
  • After the Gold Rush na voz de Patti Smith (e das crianças que aparecem no final) é daquelas coisas que existem para nos curar dos piores desânimos, dos mais desalentadores dos cansaços. O cansaço de ser brasileiro, por exemplo. Se os desgostos e os infortúnios da vida servem (segundo doutrinas milenares e também os livros de auto-ajuda) para viabilizar as alegrias e as bençãos — anverso e reverso só existiriam em função um do outro, dizem-nos algum asceta hindu e Lair Ribeiro — devemos considerar seriamente a possibilidade do Brasil estar esticando demasiadamente esta corda, exigindo dos artistas deste mundo uma imaginação quase ilimitada para conceber as obras que poderão, neste jogo kármico, algum dia nos compensar e descansar das ruínas em que estamos nos tornando. A continuar nesta toada, em breve não haverá absolutamente proficuidade alguma em ser brasileiro…
  • Fascistas e demais degenerados, contudo, ainda não vencem algo como Patti Smith e R.E.M. juntos.

Música como algo que começa e termina (2)

Já faz mais de um ano que iniciei esta pequena série e apesar de ter anotado diversas ideias para continuá-la, a disposição para fazê-lo, nos últimos tempos, não vinha aparecendo. Um disco do Popol Vuh, quem diria — um fim de disco, para ser mais exato — aniquilou esta inércia. Meu interesse pelo Vuh começou com o nome da banda e com a trilha-sonora de um Nosferatu, e foi minguando ao longo de discos que fui experimentando e que me diziam pouca coisa ou quase nada. Eu amo intensamente o krautrock [1]: adoro todos aqueles loucos do Can, Amon Düül, Kraftwerk, Tangerine Dream, Neu!, e seus discos alucinantes, transbordantes de experimento e psicodelia; somente o Vuh, de tudo quanto escutei até aqui, costuma divergir, e creio que só continuo a explorar (muito lentamente) sua longa discografia devido à esta predileção geral pelo krautrock, longe de algum interesse particular pela banda ou algum pressentimento. Essa insistência, em todo caso, já foi bem recompensada. Foi numa tarde preguiçosa e pouco produtiva (me lembro bem da luz que entrava filtrada pelas venezianas na janela) que, sem maiores entusiasmos, coloquei para tocar Agape – Agape / Love – Love — a preguiça parecia afluir da minha dificuldade para continuar o trabalho para a de escolher alguma música que pudesse propulsioná-lo, numa daquelas auto-sabotagens semi-conscientes que todo mundo que trabalha sozinho experimenta vez ou outra… O disco transcorreu durante quase todo o tempo como apenas mais um disco do Popol Vuh; apenas um entre tantos, alguns minutos de som que não solicitariam rememoração alguma após escorrerem desbotados para o passado. Porém mal começa a última faixa e me vejo imediatamente transfixado. É um fio de música: um piano esparso, perdido e sem rumo, e o dedilhar ainda mais apagado de uma guitarra; ao fundo, um chiado ambiente revela a gravação amadora ou descuidada. (Talvez seja o contrário: em primeiro plano o chiado; ao fundo, a guitarra e o piano…) Não demora e o piano de Why Do I Still Sleep parece encontrar para si um rumo, circular, e aí ela se detém por tempo indeterminado, vagando abstraída e abstrata, sussurrando um mantra instável, até que a coisa da mesma maneira que começou — inesperada e incógnita — termina. É pouco, e é, ao mesmo tempo, daqueles milagres luminosos que não consentem descrições… Pode ser que Why Do I Still Sleep não justifique toda a discografia do Popol Vuh, mas certamente justificou a existência de uma das tardes de minha vida.


[1]: Já cheguei a pensar que este termo seria, provavelmente, pejorativo ou ofensivo, mas depois li em algum lugar que os próprios alemães o adotaram de modo meio zombeteiro, e ninguém nunca se importou muito com isso… O rótulo certamente tem um quê de ridículo, mas por encapsular, com a anuência de todos, a música de certa época e de certo lugar — música que, embora vasta, compartilha também de um certo espírito — por conta disso tudo krautrock tem simplicidade e eficiência irresistíveis. De modo que, enquanto ninguém inventar algo melhor (o que, a essa altura, talvez seja evidente que jamais irá ocorrer), eu permaneço usando krautrock

Categoria(s) associada(s): Opinião

Créditos da imagem: Patti Smith em foto de Rebecca Miller, copiada daqui.



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