Impressões auditivas, Vol. XI

Por Fabricio C. Boppré em 30/07/2019

  • É como a figura da imagem acima que eu me sinto muito frequentemente ouvindo certas músicas: me esforçando para entender sua mensagem, concentrando-me na possibilidade de captar um fio que esteja escondido por entre os sons e que revele o significado do todo. Em outras palavras, tentando entender o que me assopra o compositor, no mais da vezes uma voz extinta há séculos. No caso das sinfonias, é frequente abrir os livretos que acompanham os CDs e encontrar textos que são inúteis e cansativas sequências de descrições do tipo “tal movimento é seguido por um adagio” ou “tal tema é re-introduzido pelo fagote”, como se fossem destinados às pessoas que não têm um aparelho para ouvir ao som que vem gravado nos discos: ao menos você vai poder lê-los. Ora, não precisaria vir junto o CD então, bastava o livreto. Outros fazem um esforço em contextualizar as obras e dar uma ou outra indicação das intenções de seus compositores — estas sim são dicas valiosas. Porém há sempre muita coisa escondida no mar das melhores sinfonias, ideias e segredos inesgotáveis, e nem sempre, como a esfinge acima, elas parecem dispostas a revelá-los, nem mesmo para quem lhes grude os ouvidos à boca.
  • Há cenas muito reveladoras de Bob Dylan no documentário Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese — ou, pelo menos, muito reveladoras para quem, como eu, nunca viu muitos vídeos de Dylan. Finalmente vi a correspondência entre certas expressões de fúria e exasperação — que, antes, eu percebia apenas enquanto escutava aos seus discos ao vivo, e portanto deixavam em mim impressões incompletas, às vezes até mesmo dúbias — com o rosto, a fisionomia, o corpo que as exprimia. Era algo que eu não conseguia imaginar muito bem antes, encontrar a simetria, sei lá por qual motivo — provavelmente alguma incompreensão até bem recente sobre a história da música folk. E sempre foi uma das coisas que mais me intrigou e fascinou sobre Dylan.

Música como algo que começa e termina (1)

Começo essa série (uma série dentro de outra) com uma música que talvez não exemplifique bem o que pretendo explorar por aqui de vez em quando, isso que é uma das tantas pequenas obsessões que tenho penduradas à minha obsessão-mor: os começos e os fins das músicas e dos discos. Trata-se do começo de Exodus, disco que, de certo modo — e daí a dúvida passageira quanto à sua adequação — não exatamente começa: talvez seja melhor dizer que ele ressurge, ou é trazido à tona, tendo já começado em algum outro tempo. É um simples efeito de fade-in, porém não se pode desencantá-lo dessa forma: o que ficamos tentados a pensar é que Natural Mystic (a primeira faixa do disco) é trazida pelo vento; desde a primeira vez ela é uma lembrança antes de ser uma afirmação ou novidade. É um dos meus começos de disco favoritos. Assim que a música se estabelece, a voz de Bob Marley aparece para relatar, calmamente, certo misticismo no ar, e de pronto imaginamos que lá vem uma ode à natureza embalada em voz macia e perfumada, mas logo esta mesma voz muda de tom e de volume e passa a lamentar os tantos que ainda vão morrer e sofrer sem necessidade. Tal assunto é inescapável para Marley e sua gente, mas para toda a gente de todas as cores e cantos o deveria ser, na verdade. A majestade de Exodus é, ao mesmo tempo, inexaurível e leve o suficiente para vir com o vento: perturba muito pouco o ar à sua volta e desvanece-se sem gritos ou estampidos; sua mensagem e sua força espiritual, contudo, seguem inabaláveis.

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Créditos da imagem: The Questioner of the Sphinx, de Elihu Vedder.



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