Discos do mês - Junho de 2020

Por Fabricio C. Boppré em 04/07/2020

Elbow - Little Fictions

Até que não está mal dito o que eu disse antes a respeito deste disco do Elbow, mas como ele praticamente monopolizou nossa vitrola nos últimos dias, e deixou uma penca de outros discos recostados ali perto pegando poeira — uma sequência de audições que havia sido planejada mas até já perdeu o sentido, discos do Hawkwind, do Led Zeppelin e do Sleep que vão voltar amuados para as estantes — é minha obrigação então comentar algo breve sobre ele. Breve e ousado: é o melhor disco do Elbow, não? Melhor até do que o excepcional A Cast of Thousands, que eu achava que seria para sempre o meu favorito da banda, insuperável; melhor até do que o festejado The Seldom Seen Kid, que ganhou não sei quê prêmios, que ganhou versão com orquestra e o diabo a quatro, e que é de fato um disco muito bom, porém um pouco bombástico para o meu gosto hoje em dia… Este Little Fictions, por outro lado, é de um fineza quase sem falhas. Cada faixa é uma pérola cheia de personalidade e delicadeza, músicas que basta apenas uma audição de cada para que façam morada prolongada em nossos pensamentos. Mas o que eu gostaria de saber é: que banda lança o seu melhor disco ao fazê-lo pela sétima vez? Antigamente isso era comum — o melhor disco dos Beatles deve ser seu décimo-quinto ou décima-sexto; o dos Stones é algo entre o seu décimo e o seu vigésimo, já que ninguém sabe direito a ordem dos discos da banda, mas qualquer um daqueles lançados entre 1965 e 1975 pode ser o melhor —, porém hoje em dia os grupos de rock com fôlego para lançar coisas verdadeiramente relevantes a partir do terceiro álbum são as exceções dentre as exceções. O Elbow, alheio às insuficiências de seus contemporâneos e à volubilidade da música pop de nossa época, parece que vai melhorando à medida que envelhece, o que reforça a impressão de que se trata de uma banda especial, uma banda fora de seu tempo.

Melvins & Mudhoney - White Lazy Boy

E olha quem deu o ar da graça: o Melvins! Dia desses eu me perguntava se King Buzzo não teria sido vítima do Covid-19, afinal, entre 2010 e 2018 foram nada mais nada menos do que oito os LPs (sem contar uns tantos EPs) lançados pela melhor banda já surgida em Seattle, EUA, mas depois disso, da casa malucona onde reside a família Melvin, por algum tempo só se ouviu um enorme e inquietante silêncio sepulcral, algo com que nenhum fã da banda está acostumado. (Se o Covid tivesse de fato nos levado Buzzo, “silêncio sepulcral” não seria apenas metáfora…) Minhas desinformação e preocupação, no entanto, foram breves: logo descobri que Buzzo lançou há pouco um disco solo e agora temos este EP gravado junto com o Mudhoney. É uma espécie de nova banda, na verdade: Mark Arm e Steve Turner do time Mudhoney e King Buzzo e Dale Crover do time Melvins, reforçados por Steve McDonald do Redd Kross, tocam juntos nas quatro faixas deste pequeno disco, sendo que duas delas são covers: My War do Black Flag e Drive Back do Neil Young. My War abre os trabalhos botando tudo abaixo sem reserva alguma, com Mark Arm se esgoelando de um jeito como poucas vezes o escutei fazer antes. Se ele cantasse sempre assim eu certamente seria mais fã do Mudhoney… Walking Crazy eu desconfio que seja composição da lavra de King Buzzo & cia pois lembra muito a faceta bronco-esquisitona mais dominante na discografia do Melvins lá pelo começo dos anos 2000. Ten Minute Visitation tem mais cara de Mudhoney no seu modo curtição rock ’n’ roll habitual e Drive Back na voz de King Buzzo (acho que Arm canta com ele; não dá de ter certeza, a voz de Buzzo domina quase tudo) ficou muito boa, ainda que uma música de Neil Young sem as guitarras de Neil Young será sempre, antes de qualquer coisa, algo espúrio. A coisa toda é bastante curta, possivelmente insatisfatória para aqueles que se tornaram mal-acostumados com incontinência fonográfica do Melvins… Mas, ao menos, é bom saber que eles estão vivos.

Vários - What Is This That Stands Before Me?

Dentre os muitos discos-tributos lançados em homenagem ao Black Sabbath que eu já escutei, este é o melhor de todos. Compilado pela Sacred Bones Records a partir do seu elenco de bandas, What Is This That Stands Before Me? mistura gêneros e até mesmo idiomas, e o resultado é sensacional. O milagre original da música do Sabbath é em boa parte responsável por isso, evidentemente, mas os artistas e suas abordagens também muito contribuem. Tem Marissa Nadler em belíssima versão arcana de Solitude; Zola Jesus transformando Changes em um gélido e (mais) amargurado poema, recitado com vagar e agora tornado dela em definitivo (destino inevitável, suspeito, de qualquer coisa que seja cantada pela magnífica voz de Zola Jesus); uma versão eletrônica (praticamente dance music) de Heaven & Hell, cantada em russo, que é a coisa mais distante possível da música original, e tão boa quanto; tem até mesmo, pasmém!, metal bruto com a versão do Thou para Supernaut. Aproveitando o gancho: Supernaut é uma das músicas que justificam plenamente o meu uso do termo “milagre” algumas linhas acima, não é verdade? Como descrever a glória expansiva e desvairada que é esta música? E são muitos os prodígios semelhantes no catálogo da banda — em especial, naqueles seis primeiros discos lançados entre 1970 e 1975. O portento inigualável destes primeiros álbuns do Black Sabbath não cessa de me assombrar. Eu li a biografia que Mick Wall escreveu sobre o Sabbath; é espantosa a história sobre os primórdios da banda, a história daqueles jovens medíocres — o talento maior, sem dúvida, sempre foi o de Iommi, porém justamente ele se revela o mais cretino do grupo —, quatro vadios suburbanos [*] aparentemente desprovidos de qualquer coisa sequer próxima à genialidade que seria razoável supor ser necessária para a invenção de uma música tão deslumbrante e cultuada… E, no entanto, é isso mesmo, aqueles quatro vadios — em cujos futuros, antes da música, só se vislumbrava encrenca e prisão, ou coisa pior — inventaram essa música e compuseram e gravaram estes álbuns miraculosos. A biografia de Wall explica algumas coisas, elabora alguns contextos, porém a história toda permanece em boa parte um maravilhoso mistério para mim.


[*] A Sacred Bones fez excelente serviço ao utilizar na capa do disco uma imagem que posiciona a música do Sabbath em meio a carros, prédios, etc. Embora recorra vez ou outra a elementos de fantasia — e por isso as tradicionais capas retratando monstros e castelos, vide esta da Earache — a música do Sabbath sempre teve, para mim, um intenso sabor urbano, o sabor acre das cidades pequenas inglesas, o palco tristonho e descolorido da vida das classes baixas trabalhadoras do mundo pós-industrial e suas formas atenuadas de escravidão. Toda a variada temática das letras das músicas do Sabbath, na verdade, pode bem ser resumida assim: qualquer coisa que os fizesse momentaneamente escapar da realidade do mundo em que viviam, mundo que, não obstante, por conta do que revelam esta fuga e este desespero (e o restrito talento deles para as letras…), não cessa de estar presente nas sombras da música da banda.

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