Discos do mês - Março de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 03/04/2017

Elbow - Little Fictions

Mas que excelente este novo disco do Elbow! E que bela e sólida discografia vem construindo essa banda, uma trupe de boas-praças cujos sotaques do norte da Inglaterra parecem calibrados para soarem apenas levemente cômico, e cuja inadequação para as praxes do mundo do rock mainstream inglês — aquilo que outrora chamávamos de brit-pop — essa sim é total. Colocar o Elbow numa mesma frase em que constam bobagens como Oasis e Blur me parece um despautério — acho que essas bandas nem existem mais, devem ter evaporado junto com a etiqueta e as revistas que lhes davam o sentido da existência. O Elbow, por outro lado, prova disco após disco ter música para continuar existindo de forma saudável e independente (mesmo tendo perdido recentemente um de seus pilares, o baterista Richard Jupp), sem precisar de rótulos sazonais e polêmicas adolescentes servindo-lhes de mídia e anteparo. Não há em sua discografia dois álbuns em sequência sem que pelo menos um não seja excepcional. O anterior, The Take Off And Landing Of Everything, eu admitido não ter escutado muitas vezes, mas já escolado pelos antecedentes da banda, eu nunca apostaria contra eles… E aí está o recém-lançado Little Fictions me dando razão. Belíssimo CD, de produção esmerada, cada camada de som soando como que cuidadosamente elaborada e executada. A gravação de um disco é um trabalho cheio de componentes tecnológicos, mas os álbuns do Elbow sempre trazem essa agradável sensação de um dedicado trabalho artesanal, algo de certo modo tangível, humano, e enobrecido por uma distinguível marca individual, um padrão de qualidade próprio que os impedirá para sempre de lançar algo ruim ou meramente banal. Acho que de muitas poucas bandas contemporâneas — pelo menos dentre as que fazem sucesso comercial e nos é dada a chance de conhecê-las — podemos dizer algo desse tipo.

O Grande Dragão Branco (trilha-sonora)

O novo disco do Elbow é mesmo excepcional e estamos escutando ele quase todos os dias de noite aqui em casa; eu continuo explorando e me maravilhando com um monte de música de outros séculos — a última descoberta que preciso compartilhar: as lindas sonatas para piano de Domenico Scarlatti; e ainda: as novas edições em vinil do No Code e do Yield finalmente chegaram e também estes dois discaços — velhos amigos de muitos verões — eu venho ouvindo frequentemente. Mas a tônica desse mês que passou, na verdade, foi outra. Um pouco diferente. Digamos assim: gostar das trilhas-sonoras criadas pelo John Carpenter e pelo Tangerine Dream nos anos 80 pode até ser um pouco esquisito, ou antiquado, mas não é nada que chegue a colocar em dúvida a saúde mental de alguém, certo? Agora, gostar da trilha-sonora de O Grande Dragão Branco — sim, o filme do Van-Damme; sim, Jean Claude Van-Damme, ele mesmo — e não apenas gostar, mas gostar muito, e escutá-la frequentemente, isso muito provavelmente já é caso para um eletroencefalograma urgente, não é mesmo? Se bem que eu já fiz um exame desses e o médico disse que estava tudo normal… Pois é, admito logo: eu gosto muito dessa trilha-sonora! O filme, a despeito de sua imensa ruindade, é idolatrado como um clássico por toda uma geração de garotos, e muitos devem se lembrar ainda hoje do rock-tonificante Fight to Survive, o tipo de música que não pode faltar nestes filmes desde o surgimento da imortal Eye of the Tiger em Rocky III. São as composições instrumentais de Paul Hertzog, contudo, que se destacam em O Grande Dragão Branco: a música que escutamos nas cenas da cidade murada de Kowloon e nas indefectíveis sessões de treinamento, essas são sensacionais! Ótima trilha-sonora para uma tarde de trabalho entediante.

Erasure - Wild!

E depois da trilha-sonora do O Grande Dragão Branco, falar que eu gosto do Erasure só pode significar que a máquina onde fiz o eletroencefalograma estava com defeito, não? Provavelmente sim, não fosse o fator nostalgia. Eu muito frequentemente me vejo com vontade de voltar aos primeiros discos que comprei na vida, os Bon Jovis, Dire Straits e a-has que menciono tantas vezes aqui nestes textos, e tenho a sincera curiosidade de saber se isso acontece com todo mundo ou se em mim falhou algum mecanismo biológico previsto para desenvolver-se na adolescência e que faz com que as pessoas, gradativamente, percam o interesse pela música de sua infância — recurso adquirido e aperfeiçoado ao longo dos milhares de anos de evolução e cujo objetivo deve ser ajudar os indivíduos da espécie a serem mais respeitados por seus pares e terem mais parceiros sexuais e serem mais aptos para os desafios da vida, etc. Afinal, não deve haver absolutamente nenhuma vantagem ou justificativa de qualquer outra natureza para alguém ainda ouvir Erasure, ou a-ha, certo? Bem, o Erasure na verdade eu não ouço muito, mas nas últimas semanas, movido por uma estranha obsessão, botei para tocar diversas vezes o Wild!, disco lançado em 1989 e o terceiro CD que eu comprei na vida. Há em seu tracklist um mega hit radiofônico da época, uma tatuagem no córtex de todo mundo da minha geração chamada Star; o objeto da minha fixação, porém, é outro: a ligeiramente alienígena Blue Savannah, uma dessas canções difíceis de se precisar o que exatamente há de insólito nela, e no entanto é evidente que algo há — algo sutil, fugidio, e ao mesmo tempo completamente manifesto. Não somente o efeito de eco nos vocais, que fazem com que a coisa pareça transcorrer em espaços extra-terrenos… Talvez algo que não resida na física das ondas sonoras, e sim, na metafísica? Quem sabe o contraste abissal entre o espírito da canção e o destes nossos sombrios tempos atuais? Ou quem sabe seja hora de um novo eletroencefalograma?

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2 comentários:

  • Sid Costa em 11/04/2017

    Essas justificações por afeições musicais peculiares são totalmente aceitáveis. Já lembrei dos seus* A-ha’s* enquanto eu ia fazer caminhada ao som de o Papa é Pop no walkman.

    Impressionante como o Elbow vai se apossando de suas virtudes com o passar do tempo. Não sou fã assíduo deles, mas sempre me surpreendem. Aquele flerte com King Crimson e Queens of the Stone Age em Fly Boy Blue/Lunette do disco anterior foi massa!

  • Fabricio em 11/04/2017

    Eu tinha uma fita K7 com esse disco do Engenheiros do Hawaii!

    Cara, o Elbow tá se transformando em algo tipo o Talk Talk, um som sofisticado, inclassificável. A referência ao King Crimson é muito boa também, não tinha me ocorrido ainda.

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