Discos do mês - Abril de 2020

Por Fabricio C. Boppré em 01/05/2020

R.E.M. - Monster [25th Anniversary Reissue]

Eu não esperava nada muito radical da versão remixada do Monster que ocupa o terceiro CD desta edição especial lançada há pouco em comemoração aos 25 anos do álbum do R.E.M.. Imaginava algo resultante de uma leve polida das fitas originais, algum espanar superficial de poeirinhas ínfimas destas que nós, os donos de ouvidos normais, mal percebemos a presença. Como são, afinal, a maioria destas remixagens, cujos objetivos principais da vinda ao mundo costumam ser mais de ordem pecuniária do que artística. O que escutei, portanto, me surpreendeu bastante, pois é praticamente um outro álbum, até mais do que é outro aquela versão remixada do Ten, do Pearl Jam (que ficou conhecida como Ten Redux). Sendo um disco tão querido e familiar, é muito difícil julgar de maneira desapaixonada o resultado desta reconstrução. Gostei, logo de saída, da sonoridade mais crua e cristalina de What’s the Frequency, Kenneth?; já a segunda faixa, Crush with Eyeliner, essa eu estranhei bastante: fiquei com a impressão de que algo de sua unidade se perdeu, se dissipou nesta revisão… E o disco assim segue, alternando surpresas e estranhamentos, com algum predomínio desta última sensação, que eu nem sei, para dizer a verdade, se está justa e corretamente denominada através deste termo, “estranhamento” — essas emoções que envolvem coisas inscritas na memória são sempre muito ambíguas e tendenciosas, cheias de agendas próprias das quais muitas vezes nem mesmo o próprio dono da sensação e da memória tem conhecimento. “Estranhamento” pode muito bem ser síntese imperfeita de algo mais complexo, ou que preferiríamos não admitir; talvez a reação enciumada de alguma parte específica do cérebro, aquela onde estão calcificadas, há anos, as referências e predileções pessoais, e que, ao ver-se subitamente confrontada e desafiada, prefere evitar o enfrentamento com uma desculpa esfarrapada qualquer e depois fica melindrada lá num canto, desamparada, resmungando e emitindo sinais confusos ao pobre sujeito que é supostamente seu dono e senhor, que fica sem saber o que fazer com aquilo. “Estranhamento” é simples, genérico, vem bem a calhar. Por isso hesito um pouco antes de concluir que não consigo imaginar quem possa preferir este novo Monster ao original, e que sua valia deve ficar restrita à esfera da curiosidade… Em todo o caso, por mim, tudo bem: a curiosidade dos fãs mais devotos e saudosos — e, quem sabe, alguma frustração antiga por parte da banda com o resultado final da mixagem do disco original — justifica ou justificam plenamente a existência deste Monster reformado. Em nenhum momento eu quis dizer o contrário! O que eu realmente queria dizer desde o princípio deste texto é que eu sempre sinto muita saudade do R.E.M. quando escuto algumas de suas canções, seja das mais antigas ou da última fase, originais ou remixadas. Lembro muito bem daquele dia em que foi anunciado o fim da banda: lembro perfeitamente do baque, e de como o dia transcorreu tristonho e um pouco irreal, como se algo muito fundamental houvesse sido extraído do ambiente ao redor, da própria tessitura da vida, algo em que talvez nem mais reparássemos com muita frequência ou com muita atenção, mas quando ele nos faltou — que falta imensa e atordoante fez. Tornou-se outro mundo.

Chelsea Wolfe - Birth of Violence

É com muitas sobras que Birth of Violence redime o erro que penso ser Hiss Spun. Aquele disco me aborreceu ao ponto de eu ter deixado registrada aqui neste blog minha decepção, coisa que raramente faço — quando ouço algo que me frustra ou desagrada, em geral eu simplesmente esqueço, deixo para lá. Isso aqui não é crítica musical; gosto de falar apenas da música que amo. Hiss Spun, no entanto, depois da sequência magnífica de Pain is Beauty e Abyss, mereceu aquela triste exceção. Mas esqueçamos aquele disco; seu sucessor é bonito na mesma medida em que aquele é desnecessário. Menos tétrico do que Pain is Beauty e Abyss e valendo-se mais dos sons acústicos do violão, Birth of Violence parece finalmente inserir Wolfe em certa linhagem folk ao longo da qual ela esteve sempre tangenciando, fazendo-o, porém, ao seu modo, abrindo nesta descendência uma nova vertente (será nova mesmo? posso estar mal informado), aquela das cantoras que, embora nascidas na Califórnia, provavelmente se sentiriam mais em casa em algum vilarejo medieval britânico, algum lugar perdido onde se toma cerveja quente e velhas superstições ainda ditam horários e costumes. O tipo de lugar em que também eu gostaria de morar… Por aqui, no Brasil medieval do século 21, estamos já no outono. O tempo tem passado lentamente. Pressinto que esse disco terá alta rotação aqui em casa.

John Carpenter - The Fog Soundtrack

A trilha sonora de Halloween é certamente a mais celebrada, porém minha favorita é a do The Fog. (Ocorre mais ou menos o mesmo com os filmes: Halloween e The Thing são os clássicos pelo quais John Carpenter será lembrado para sempre, e embora eu idolatre esses filmes, tenho uma dessas preferências pessoais idiossincráticas pelo sucinto e salino The Fog, filme claramente inferior aos outros dois, e claramente insuperável para mim…) Adoro a ameaça incerta e esparsa que a música faz pairar durante praticamente todo o filme: em alguns momentos ela é quase imperceptível, como que perdida em meio à estranha bruma que, por dois dias seguidos, chega à Antonio Bay trazendo consigo visitantes não muito amistosos. E os momentos em que os sintetizadores fazem dobradinha com o piano são, para mim, o auge da obra musical de Carpenter. Adoro os dois Lost Themes, mas o estrondo daquelas guitarras não chega nem perto de criar algo próximo ao efeito tenebroso da trilha de The Fog.

Pink Floyd - The Division Bell

Talvez esse disco já tenha aparecido por aqui um par de vezes, mas como não há regra alguma impedindo tal repetição, cá está ele novamente. Venho escutando-o frequentemente desde o começo da última semana de abril. Bem sei que não é nenhum obra-prima e posso até mesmo desculpar os floydianos mais radicais que sequer o consideram digno de carregar na capa e na lombada a sacrossanta alcunha “Pink Floyd”… Não obstante tudo isso, eu o amo incondicionalmente. Trata-se de um daqueles discos que, para mim, é bem mais do que um simples repositório de música: é todo um arcabouço de memórias e sensações, um verdadeiro ritual de alegria muito íntima e de difícil descrição que inicia-se tão logo a agulha encosta no vinil (ou quando começa a acontecer seja lá o que for o que acontece dentro de um CD-player). Um verdadeiro reduto de paz e revigoramento. Há algumas preciosidades entre suas 11 faixas, porém o magnetismo parece residir na atmosfera geral do álbum, no curso ameno e equilibrado das canções. Amparado na voz e na guitarra de Gilmour, esse fluxo têm lá suas doses de sentimentalismo piegas e certas limitações, mas também, em seus melhores momentos, uma beleza e uma pureza nas quais é impossível não se deixar abandonar. Não tenho economizado nestes mergulhos, nos últimos dias. É como suspender provisoriamente tudo o que nos desgasta — o tempo, a consciência, a própria lucidez — e permitir que algo antigo neutralize a decadência e reabilite o futuro. Nesses tempos em que a manutenção da fé e da sanidade começa a se transformar em guerra sangrenta, é um tremendo d’um privilégio ter uma aliado desses em casa.

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