Discos do mês - Junho de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 02/07/2018

Nessa época do ano, eu, que em condições normais já sou um sujeito bastante caseiro, torno-me ainda mais avesso a saídas noturnas, e os meus melhores amigos deixam de ser aqueles que moram por aí para tornarem-se aqueles que moram nas minhas estantes de discos. Oras, quem precisa de muitos amigos se você é amigo do King Diamond? (Meus bons camaradas que me lêem sabem que esta é apenas uma introdução zombeteira para um texto pouco inspirado.) Pena que King anda meio sumido; há tempos não tenho notícias suas. Terá ele se aposentado? Será que décadas e décadas de agudos inacreditáveis arruinaram suas cordas vocais? Seu último disco é de 2007, e da sua outra banda, o Mercyful Fate, tampouco anda-se falando muito por aí… Por sorte The King deixou muitos discípulos espalhados pelo globo, dentre os quais tornei-me fã recentemente dos suecos do Ghost. Certamente um bando para quem eu pagaria uma rodada de boa cerveja! Sim, eu sei que há controvérsias em torno do grupo: o teste de DNA que comprovaria a afiliação com King é histericamente contestado por alguns. Parece-me, no entanto, que a turma que torce o nariz para o Ghost é a mesma que, indo aos extremos do seu excesso de seriedade, ou de sua falta de sutileza, já andou cometendo homicídios e queimando igrejas por aí. Se a música do Ghost obedece ou não aos graus mínimos de metalicidade necessários para poder utilizar o selo oficial de pureza comprovada, na verdade, pouco importa: uma banda que tenha o mínimo traço que seja de metal em sua música e que faz covers de Eurythmics, Pet Shop Boys, ABBA e Depeche Mode merece todo o meu respeito justamente por tirar um belo sarro das normas e diretrizes que um dia sancionaram a existência de um, digamos, Manowar (para ficar num só nome suficientemente constrangedor). Este último disco do Ghost, Prequelle, lançado há pouco, me pareceu ainda mais ousado e divertido, um passo a mais para longe da ortodoxia tradicional do metal, ao qual eles eram indiscutivelmente mais ligados no começo. Talvez eles estejam deixando alguns fãs antigos pelo caminho e arrebanhando outros novos cuja sofisticação do gosto musical ninguém nunca saberá se está acima ou abaixo da dos agora ex-fãs — ninguém nunca saberá se o Ghost está evoluindo ou regredindo ou o que diabos está acontecendo com esta banda, e para mim, repito, pouco importa: adorei aquela música cujo refrão é “I just wanna be / wanna bewitch you in the moonlight”, uma mistura improvável de deboche, filme de terror e refrão de disco do Van Halen que, sabe-se lá como, funciona muitíssimo bem. Tem até saxofones em outras faixas do disco!

Para ficar nas bandas que embaraçam as fronteiras do que é ou não é metal: o Thou já lançou dois discos este ano e parece que vem mais por aí. Será difícil, porém, superar este belíssimo Inconsolable, pequena obra-prima de 33 minutos e climão acústico soturno e aconchegante, para ser apreciado numa noite invernal daquelas. A impressão que dá é que a banda gravou estas oito canções enquanto exilada numa casa perdida nas profundezas de um arvoredo incógnito, entre álamos esparsos e lobos que nunca se deixam ver, sem eletricidade, à luz de velas, floresta vizinha a território indígena que por séculos mantiveram-se longe de suas margens por temerem os espíritos malignos que sem dúvida por lá habitam. Dá de sentir cada mínima partícula desse lindo cenário — suas cores, luzes filtradas, névoas, murmúrios noturnos — enquanto se escuta este disco, mesmo que você o faça em seu apartamento localizado na avenida mais barulhenta da metrópole onde mora. A última faixa ameaça, por um momento, trazer o bom e velho Thou infernal e elétrico de sempre, mas fica só na ameaça, que se desvanece como o último fiapo de fumaça saindo da chaminé e se perdendo na escuridão da noite gelada.

Agora, uma decepção: acho os dois discos anteriores da Chelsea Wolfe magníficos — sem tirar nem relativizar peso algum desse superlativo: realmente dois discaços fabulosos. Chelsea não precisou em nenhum momento desses álbuns recorrer aos recursos tradicionais do metal para construir uma música tétrica e sinistra do tipo raro que pode desequilibrar qualquer um que escutá-la com atenção. Neste Hiss Spun que ela lançou ano passado, contudo, e sabe-se lá porque motivo, Chelsea resolveu encher suas músicas de guitarras pesadonas, vocais de monstrinhos típicos de black metal e coisas do gênero, uma massa sonora vulgarmente colérica e fatigante, totalmente desnecessária em face do que já conhecemos de suas capacidades de compositora. Até a capa do disco parece um mau clichê de filme de terror contemporâneo. Pode-se especular que ela estivesse talvez imbuída de um espírito de inconformismo, algo em geral elogiável, porém este costuma vir acompanhado por aspirações exploratórias, de avançar sobre o que não se sabe ainda o que é, ao invés de ir (ou voltar, o que nem é o caso dela aqui) em direção ao ultra-conhecido e apelativo — um inconformismo preguiçoso, portanto, este, na melhor das hipóteses. O disco melhora um pouco na segunda metade (algumas de suas canções são tão boas como as menos boas de Abyss e Pain is Beauty), mas, ao menos para mim, não se salva: naufraga clamorosamente devido ao peso descabido da primeira metade.

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