Impressões auditivas, Vol. XIV

Por Fabricio C. Boppré em 08/03/2020

  • Deve haver perdidas aí pelas páginas mais antigas deste blog duas ou três tentativas minhas de falar sobre a música de Cecil Taylor, tentativas que seguramente não dizem nada de relevante sobre a música, apenas realçam o seguinte paradoxo: ao mesmo tempo que é uma das músicas mais ricas e instigantes que conheço — e, portanto, que mais me dá vontade de escrever sobre ela — é também das que menos me sinto apto a discorrer sobre, a elaborar qualquer coisa que fique minimamente à altura de sua imensa exuberância. Quero dizer, a escrita não tem que ser tão exuberante quanto a música — obviamente não seria eu o encarregado desta tarefa —, mas o que eu gostaria de poder fazer é dar uma medida justa desta exuberância, comentar um ou outro aspecto da minha percepção pessoal sobre ela e sobre este artista extraordinário. E mesmo isso acho muito difícil. Quando se fala sobre a possibilidade incomparável de transcendência na arte musical (certamente não foram apenas dois ou três os poetas ou filósofos a mencionar isso), talvez tal abstração nada mais seja do que uma outra forma de exprimir essa dificuldade, um olhar mais generoso e compreensivo acerca da limitação dos nossos instrumentos de linguagem quando diante da tarefa de descrever certas músicas e as sensações que elas evocam — uma expressão menos derrogatória sobre nós mesmos, ou pelo menos sobre estes pobres seres que somos os que não nasceram com o talento de Cecil Taylor, este talento que é o de poder criar sua própria linguagem e, assim, expressar-se livre e plenamente.
  • Ora, ora, será que aquela minha intuição a respeito do novo disco do Pearl Jam irá se confirmar? Porque essa primeira música que apareceu, Dance of the Clairvoyants, é muito interessante, muito boa. Será uma agradabilíssima surpresa descobrir que o Pearl Jam ainda tem o que dizer e lenha para queimar.
  • Uma impressão de um outro: “I automate whatever can be automated to be freer to focus on those aspects of music that can’t be automated. The challenge is to figure out which is which.” (Laurie Spiegel)
  • Fico tentado a acreditar que na terra da qual emana uma música como esta deve haver alguma espécie de força vital extremamente resiliente. Essa música é quase que fibra pura; é beleza e resistência diante de tantas e tantas dificuldades, de tanta usura e crueldade. O disco é de 1991, mas tenho certeza que ainda há muita música magnífica desse porte sendo criada Brasil afora, circulando por conta exclusiva da força motora de sua beleza e sua necessidade intrínsecas, pois de resto, a depender de outros meios e interesses, ela bem que poderia ser totalmente suprimida e censurada e destruída. O Brasil parece que está sendo permanentemente testado; se resistirmos às provações atuais, bem que poderíamos passar a cuidar melhor de nossa música e de nossos músicos, ouvi-los e cultivá-los com mais carinho, celebrá-los e exibi-los orgulhosos ao mundo, e torná-los parte importante de um sistema de anteparo e salvaguarda culturais contra o fascismo degenerado que, mesmo se ora derrotado, haverá de voltar ciclicamente. Uma música que parece saída da própria terra — e não uma terra qualquer, mas provavelmente a mais rica e fértil do planeta — é um sistema natural de defesa do qual não podemos abrir mão.

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Créditos da imagem: Cecil Taylor fotografado por Andrew Putler. Imagem copiada daqui.



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