Impressões auditivas, Vol. XIII

Por Fabricio C. Boppré em 21/01/2020

  • A partir de muito pouco, pode-se mesmo dizer de um quase nada, enquanto eu lia alguma coisa sobre o novo disco do Pearl Jam, surgiu a intuição de que este será enfim um bom disco. Acho que foi após o Riot Act, de 2002, que passei a não esperar grandes coisas do quinteto sobrevivente de Seattle, e os últimos dois discos que eles lançaram são, francamente, muito fracos. Mas Gigaton será um bom disco, uma voz anda me dizendo, e esta continuada dedicação à banda irá finalmente se justificar. (Para um brasileiro, hoje, comprar um disco de vinil em dólares — e não poucos dólares, mas os muitos que as bandas grandes podem pedir em troca de seus lançamentos —, um disco sequer escutado antes, incógnita total de uma banda que há tempos não lança nada relevante — pouca dedicação isso definitivamente não é.)
  • Uma impressão de um outro: “There is a certain courage of letting yourself fall asleep and allowing dreams to come, which resembles the courage of allowing art to affect you. Hallucinatory phantasms are a condition of possibility for seeing anything at all. Hearing is a chiasmic crisscross between sounds emitted by my ear and pressure waves perturbing the ear’s liquids from the outside. The not-me beckons, making me hesitate.” (Timothy Morton no livro Being Ecological.)
  • Acredito que mesmo entre aqueles que não costumam admirar as virtudes técnicas e as proezas individuais dos grandes bateristas (eu sou um destes indiferentes) e mesmo entre os muitos que torcem o nariz ao Rush (eu não sou um destes), mesmo entre essa gente toda creio que devem existir muitos admiradores de Neil Peart. Pois o sujeito era mesmo um colosso, era difícil não percebê-lo, mesmo que o conjunto de suas habilidades estivesse sempre a serviço da música, ou seja, a batida de Peart enriquecia consideravelmente o som da banda, era o eixo muscular e luxuoso das canções, mas sem nunca ofuscá-las, nem à música como um todo e nem sequer aos outros instrumentos e vozes — era, sim, essencial, mas, antes disso, elemento estrutural sem nenhum protagonismo evidente, apenas parte componente de uma arte esmerada e preciosa que o trio forjou ao longo de tantos e tantos anos de trabalho. Vez por outra, contudo, ricos detalhes vindos das baquetas de Peart, lá do fundo, sobressaíam-se — quero dizer, aos ouvidos dos especialistas provavelmente todas as batidas de Peart devem soar excepcionais em quase todas as músicas do Rush, porém, aqui do meu ponto de vista de não-especialista e de não-admirador de solos de bateria (indulgência a qual Peart e seus companheiros se permitiam nos shows, provavelmente como válvula de escape para o virtuosismo reprimido do baterista), aqui deste meu ponto de vista de diletante eram alguns pequenos e sutis detalhes que me chamavam ainda mais a atenção para o baterista do Rush. Cito dois exemplos: em Dreamline, a formidável faixa de abertura de Roll the Bones, de 1991, aos 3 minutos e 56 segundos, enquanto Geddy Lee recomeça a cantar “when we are young / wandering the face of the earth (…)”, inicia-se também uma série de curtos e rápidos “estalidos” (na falta de termo melhor; desconheço os nomes que identificam os tipos de som de uma bateria) nos pratos do kit de Peart que tornam a faixa, que já era muito boa, em algo quase mágico. (Nesta versão original da música, estes pequenos sons cintilantes passam quase desapercebidos por baixo das guitarras e teclados e diversas outras camadas criadas no estúdio; já no disco ao vivo Different Stages, que traz, obviamente, um som bem mais cru e desadornado, eles soam bem mais altos e perceptíveis.) E em Test for Echo, de 1996, temos alguns floreios similares no interlúdio instrumental de The Color of Right, uma sutil e graciosa ornamentação que, a exemplo do que ocorre em Dreamline, não passa sequer perto de exibição vaidosa de atributos individuais, muito pelo contrário, é algo discreto e perfeitamente integrado ao corpo da música, e ao mesmo tempo capaz de enriquecê-la de forma exponencial — e o caso de The Color of Right talvez seja ainda mais emblemático, pois Peart, com este muito pouco, consegue alçar uma música apenas mediana a um outro patamar. São tênues detalhes deste tipo, estes breves e perfeitos segundos tão precisa e harmoniosamente encaixados nas músicas do Rush que me fazem pensar que se algum dia eu me meter a fazer uma lista dos meus 10 instrumentistas favoritos na história do rock ’n’ roll, haverá um único baterista na lista, e seu nome será Neil Peart.
  • Por fim, não consigo imaginar melhor tributo ao recém-falecido baterista do que este vídeo:

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Créditos da imagem: Foto de Neil Peart copiada daqui.



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