Discos do mês - Fevereiro de 2020

Por Fabricio C. Boppré em 03/03/2020

George Steiner costumava dizer que música é o principal “privilégio do existir”. Steiner, que faleceu no mês passado aos 90 anos, era claramente de um outro tempo e outra circunstância, haja visto que de privilégio a música já foi promovida (ou rebaixada?) a tábua de salvação, a garantidora de sanidade. Voltar à mera condição de privilégio exigirá que sobrevivamos ao inferno; a nossa sorte é termos estocado já esse tanto de música, um imenso legado que há de nos ser de grande valia nesta missão. O Sunn O))) é uma destas bandas improváveis que me faz pensar na variedade desta nossa herança. Já houve uma aura inigualável de misticismo e malignidade em torno do som da dupla, coisa que muito me atraía, porém essa aura suavizou-se bastante com o tempo, diluiu-se na sequência de discos, na inevitável transmutação de “som esfíngico de outra dimensão” em “produto industrial manufaturado e vendido por quantias monetárias pré-definidas que podem ser divididas em três prestações sem juros“, ou algo assim. É evidente que não critico a banda por gravar e vender sua música: é apenas que vir a existir neste mundo tem também seus custos, tanto quanto seus benefícios. Ou talvez a experiência da música do Sunn O))) tenha se tornado um pouco aguada para mim depois que vi uma apresentação da dupla, isso tem já mais de 10 anos, e embora o show tenha sido ótimo, minha lembrança maior daquela noite — a lembrança que fixou-se mais persistente em minha memória — é que sentada atrás de mim estava uma família perfeitamente urbana e convencional, pai e mãe bem vestidos e penteados com dois filhos pequenos e loirinhos que passaram boa parte do show dando risadas, se divertindo à beça com tudo aquilo, como se estivessem num circo deveras diferente. No palco aquelas duas figuras estranhíssimas, vestidas como monges alienígenas empunhando guitarras, quase invisíveis em meio à fumaça e às gigantescas caixas de som de onde jorrava um volume de som elétrico que quase estourava os tímpanos; atrás de mim, às gargalhadas, dois moleques que mal tinham todos os dentes. Foi tudo ótimo, é claro — foi daqueles imprevistos que não nos deixa outra opção que não aceitar e incorporar ao evento. Mas acho que algo mudou na minha relação com a banda a partir de então. Estes últimos discos lançados pelo Sunn O))) já não me inspiram coisas dramáticas como estas aqui (me dêem um desconto, eu tinha apenas 35 anos quando escrevi isso!), mas continuo admirando-os bastante, principalmente a lentíssima — quase imperceptível, o que é parte, claro, do ethos da banda — evolução de sua música, que se dá pelo ajuntamento de pequenos detalhes, como que pequenas mutações ao longo de muitas e lentas gerações — o violoncelo de Hildur Guðnadóttir em Pyroclasts, por exemplo, parece algo surgido durante a era paleozóica do som do Sunn O))). Este Pyroclasts não me fez pensar em catedrais desmoronando (na verdade, o disco me deu vontade de comer aquelas barras de chocolate branco com frutas cristalizadas), mas é um belo disco mesmo assim. Não é de toda e qualquer música, afinal, que podemos exigir que mantenha intactos para sempre seus poderes evocativos: nem todo mundo é Beethoven. Ou Iron Maiden. Ontem mesmo fui assaltado por uma vontade irreprimível de escutar ao The Number of the Beast. Como esse disco continua magnífico! E de tudo o quanto eu adoro nele, o que ainda mais gosto é o toque esdrúxulo e surreal que o trecho “This can’t go on, I must inform the law” dá à faixa título. Oras, o que aqueles lerdos e meio apalermados policiais ingleses, que sequer portam armas de fogo, poderão fazer contra Lúcifer? (Mais estranho do que isso apenas o fato de que a melhor música do álbum, Total Eclipse — certo, concedo que Hallowed Be Thy Name seja tão boa quanto —, não está presente em todas as suas edições e versões.) Deixo para o fim a citação de ao menos um disco de música séria e plenamente incontestável: trata-se deste último do Sleater-Kinney, The Center Won’t Hold. Este sim é vital, música rejuvenescedora e necessária para a absurdidade dos dias que correm, música-hino para reunir as forças e lutar. Esta é uma parceria muito potente: música e feminismo. Apostaria nelas todas as minhas fichas se acaso nos decidirmos de uma vez por todas que vale a pena tentar salvar o planeta e a humanidade.

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1 comentário:

  • Alexandre Luzardo em 04/03/2020

    Opa, gostei muito desse disco do Sleater-Kinney também!

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