Dying Days
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Discos do mês - Setembro de 2014

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Setembro de 2014

Bruce Dickinson: Skunkworks

Skunkworks, terceiro disco solo de Bruce Dickinson, ex-vocalista do Iron Maiden, causou apreensão entre os fãs de metal na época do seu lançamento (1996). "Um disco de rock alternativo?!", comentavam muitos desses fãs, ressabiados, já decididos a não gostar antes mesmo de ouvi-lo. Era a época pós-Nirvana e também a época de uma nova ameaça ao "true metal", ameaça que atendia pelo nome de nu metal, e o ex-frontman da mais adorada das bandas dessa turma lançar um álbum desse tipo (entenda-se de qualquer tipo que não o convencional; nu metal, rock alternativo, tanto faz) não parecia um presságio muito animador para essa batalha que eles imaginavam estar iniciando-se, ainda mais com esse título cheio de evocações de inovação e originalidade, dois inimigos da ortodoxia típica dos círculos metálicos. "Até tu, Bruce?", perguntavam-se... Quanta bobagem. É um ótimo disco, que eu comprei logo que saiu, e ouço até hoje. É verdade que está muito mais para Soundgarden do que para Iron Maiden, mas os dois primeiros álbuns-solos de Dickinson tampouco lembravam Iron Maiden, estavam muito mais para hard-rock, ou heavy metal de outras estirpes bem diferentes da do Maiden. Tentei mostrar Inertia, Meltdown, Inside the Machine, Strange Death in Paradise e outros ótimos sons de Skunkworks para a turma com quem eu dividia os micro-ônibus para ir ver shows do Iron Maiden em Curitiba e Porto Alegre, mas não adiantou; antes da primeira cerveja ser derrubada no carpet do veículo, Skunkworks já estava jogado de lado e The Trooper cavalgava alto nas caixa de som. Não tem jeito, o destino de Skunkworks já estava selado desde que Dickinson resolveu cortar os cabelos para as fotos do encarte do álbum. (A mágoa dos fãs, porém, não durou muito: na sequência Bruce lançou dois belíssimos discos de heavy metal, e depois, a expiação definitiva de seus pecados: voltou para o Iron Maiden.)

Pantera: Official Live - 101 Proof

Esse disco é uma prova dos temores que atormentavam os headbangers nos anos 90 e que comentei acima. Antes devo dizer que é um disco fantástico, possivelmente um dos meus cinco discos favoritos de metal ao vivo (no topo do ranking, inalcançável, está o Live After Death do Maiden, e o resto da lista eu não sei, nunca parei para fazê-la, mas tem que ter esse do Pantera). Cowboys from Hell, Vulgar Display of Power e Far Beyond Driven são todos discos fundamentais que eu acho até que aprecio mais hoje do que em suas épocas de lançamento (eu não era muito fã de Pantera nos anos 90), mas costumo ouvir mais frequentemente esse ao vivo, que é meio que uma dose de Pantera mais intensa e concentrada, principalmente devido ao extraordinário empenho do Phil Anselmo; é impressionante que esse cara tenha ainda uma garganta que funcione nos dias de hoje, a julgar pelo compromisso demonstrado por ele nas apresentações que compõe esse álbum. Mas, retomando o que eu falava no começo, esse disco contribui também para o rico anedotário do metal, com os comentários de Anselmo entre uma faixa e outra sobre o suposto fim da música pesada e como eles estavam ali reunidos, público e banda, para provar que isso era uma bobagem, e dá-lhe fuck yous para todos que não são do clã. Passados aí uns 20 anos de tudo isso, pensar na ingenuidade dessa época dispara sensações sinestésicas diversas, lembranças saudosas e muito divertidas.

Danzig: II - Lucifuge

Eu gosto do Danzig. Não, preciso ser justo e dizer: eu gosto muito do Danzig! Pelo o que me consta, ele inventou esse tipo de música, essa mistura improvável de metal, blues, Misfits, baladas, etc. Não tem disco ruim na discografia do cara, excetuando-se talvez aquele Blackacidevil, que é um experimento com sons eletrônicos que eu só ouvi uma única vez e foi suficiente. Ouço com muito prazer todos os outros, mas meu preferidão acho que é mesmo esse Danzig II: Lucifuge, que andei ouvindo repetidamente nos últimos dias. Nem precisaria o uivo dramático sem igual que é o vocal de Glenn Danzig para tornar esse um discaço. E acabo de descobrir que ele tem não um, mas dois discos de música clássica! Preciso escutá-los.

Sunn O))): Monoliths & Dimensions

Em algumas ocasiões, para dar um descanso aos ouvidos desse tanto de barulho que os discos acima testemunham eu ter ouvido nas últimas semanas, eu colocava esta obra-prima do Sunn O))), e também algumas sessões restauradores de Brian Eno, sobre quem eu já comentei alguma coisa no post do mês passado. Esse Monoliths & Dimensions é um disco lindo demais. É claro que se fôssemos nos restringir às categorias mais básicas e tradicionais de música, como numa loja, ele seria também catalogado na prateleira do metal, mas isso é muito pouco --- afigura-me até que mesmo "música" seja insuficiente para dar conta de suas dimensões. Acho que já comentei aqui: o mais intrigante nesse disco, para mim, é o seu fim: é como se ele tivesse sido todo construído com vistas para aquele trecho final, um erguer lento e imperturbável, minucioso e obstinado, de uma descomunal catedral de pedra cheia de sombrios vitrais representando os trágicos eventos descritos nos livros sagrados de alguma religião alienígena, e de altura imensurável pois suas torres perdem-se de vista entre astros e estrelas de um céu noturno violáceo, toda essa construção tendo o propósito único de ser demolida ao encaixar da última pedra e então revelar em seu interior, em seu exato e intacto núcleo, um pequeno púlpito de madeira bem trabalhada pelas mãos de um humilde artesão, obra claramente humana na recognição da delicadeza e esmero que diluíram-se na perenidade de uma civilização que se mede em milhões de anos, púlpito servindo de altar para um filete de fumacinha de incenso e uma oferenda qualquer iluminados pelo primeiro raio de luz de um planeta que vivia sob a escuridão há incontáveis eras. E é isso: das mais loucas fantasias Lovecraftianas somos trazidos para a dimensão terráquea humana num passe de mágica, um contraste de uma beleza absurda e que ninguém poderia antecipar, e eu realmente invejo quem nunca ouviu esse disco e está ainda para fazê-lo pela primeira vez...

Comentários:

Vicente | 01/10/2014

"Esse Monoliths & Dimensions é um disco lindo demais."

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