Recalibragem

Por Fabricio C. Boppré em 23/10/2019

The Terminator é, para mim, um dos pináculos do cinema americano. Embora praticamente nada que saia de Hollywood nos dias hoje me interesse, entre 1940 e 1990 os estúdios deste enclave meio alienígena de Los Angeles e todos aqueles roteiristas e diretores revolucionários às suas margens produziram um conjunto de obras que, na minha opinião, jamais será superado. Cinema para mim é quase que exclusivamente isso: filmes americanos destas cinco décadas, e 95% do meu tempo dedicado à sétima arte é assistindo e reassistindo a eles. The Terminator, que eu já devo ter visto mais de 20 vezes, é perfeito do início ao fim: denso, tétrico, imaginativo, intransigentemente pessimista e recheado de questões humanas que permanecem contemporâneas, e ainda por cima com uma mulher como personagem principal e heroína. O pior dos pesadelos, o mais sufocante e implacável vilão já projetado numa tela de cinema — não um mero tirano malvado, um malfeitor de desígnios próprios e vulgares, mas sim um indiferente instrumento tecnológico enviado por um apenas vagamente mencionado poder oculto, um poder complexo e global — este pesadelo quase imortal vai atrás de uma mulher, uma simples e jovem garçonete, e ela o derrota, e no fim do filme (o meu final favorito dentre todos os milhares de filmes que já assisti) ela ainda encara de frente a tempestade que está por vir e vai direto para dentro dela, solitária e destemida, resoluta em direção ao olho da tormenta que apenas começara, ao futuro sombrio da humanidade. Um mulher, enquanto os homens todos ficam pelo caminho. Em 1984. Tenho a impressão que The Terminator não tem o crédito que toda sua gama de virtudes e sua coragem merecem. O segundo filme, que no imaginário coletivo talvez seja um clássico ainda maior do que o primeiro, é praticamente uma refilmagem de seu antecessor, porém dessa vez com orçamento maior, Guns N’ Roses na trilha-sonora, menos niilismo e mais efeitos especiais — Terminator 2: Judgment Day é The Terminator versão blockbuster. E se The Terminator é brilhante do início ao fim, também o é a trilha-sonora (o score) de Brad Fiedel. O tema principal, impregnado de fatalismo e ameaça, tributário dos sintetizadores e melodias de John Carpenter mas também, igualmente, da fluência e das atmosferas de Vangelis e Tangerine Dream, é parte indissociável do prodígio que é este filme. E igualmente ele foi reciclado para a sequência de 1991, ganhando um tom mais épico e sumptuoso mais adequado para a ambição daquele filme de atingir um público maior. É também muito boa a trilha-sonora do T2 (e também o filme) porém fico com a obra original, mais árida e minimalista, mais assustadora e insólita. Junto das trilhas-sonoras de John Carpenter, Ennio Morricone e Basil Poledouris, e das do Tangerine Dream e do Vangelis, a trilha de Brad Fiedel para The Terminator é uma das minhas favoritas absolutas.

Revi o filme dia desses, estimulado não apenas pela estréia desta nova sequência (sobre a qual, na verdade, não tenho grandes expectativas, mas acho que vou ao cinema vê-la mesmo assim, amolecido pela lembrança nostálgica da noite memorável que foi aquela em que fomos ao shopping assistir ao T2, eu e o bando de moleques que éramos a turma do prédio, acompanhados de dois ou três de nossos pais porque ninguém ali tinha mais do que 12 anos) — revi ao primeiro filme também porque ando ouvindo bastante música eletrônica, principalmente Zola Jesus, Tangerine Dream e Aphex Twin, e The Terminator cabe perfeitamente nesse estado de espírito. Tudo começou com Nicole Hummel, essa americana que também se chama Zola Jesus, cujo disco Okovi foi o último que botei para tocar num fim de tarde em que eu já dava por terminado o dia de trabalho e permanecia mais um pouco no computador apenas para organizar alguns arquivos e responder aos últimos emails, tarefas rotineiras e protocolares. Gosto da música espessa e ominosa de Zola Jesus desde que a ouvi pela primeira vez numa compilação gravada em CD-R que ganhei de brinde da Rough Trade após uma compra particularmente dispendiosa, isso acho que já tem mais de 10 anos (faz tempo, mas lembro ainda muito bem do olhar meio confuso do caixa enquanto ele ensacava os tantos vinis e CDs que comprávamos naquela ocasião; ele parecia considerar que merecíamos bem mais do que aquele único CD-R de brinde). Fazia algum tempo, contudo, que não a escutava. Naquele dia, arrumando arquivos e me preparando para o descanso noturno, envolvido em tarefas mecânicas que me liberaram os sentidos para a música, Okovi me hipnotizou e me desequilibrou, e no fim reabriu diante de mim diversas portas e possibilidades para exploração, portas pelas quais eu não transitava fazia alguns meses. Já foi-se, há muito, o tempo em que eu não gostava de música eletrônica; ficou perdido lá na época do colégio (quando eu até entrava, vez ou outra, naquelas discussões tolas sobre rock ’n’ roll vs. música eletrônica) o desprezo por algo que é, na verdade, um maravilhoso e imensurável universo de música (e que diferença faz a forma como ela é produzida?), um universo que se manifesta ora como sons intensamente belos e audaciosos, ora herméticos e difíceis, e nas infinitas combinações e variações possíveis entre essas características. Hoje tenho admiração profunda por magos e feiticeiras como Haxan Cloak e Helena Hauff, Tim Hecker e Björk, além das pioneiras Laurie Spiegel, Pauline Oliveros e Eliane Radigue e dos mestres John Carpenter, Klaus Schulze e Steve Roach. A lista de nomes poderia ir bem mais longe. Logo após Okovi, naquele fim de tarde que já se transformava em noite, me repreendi pela ausência dessa turma nas minhas audições dos últimos dois ou três meses, mas logo percebi que isso era uma bobagem: não fosse essa circunstância — sobre a qual, ademais, pouco tenho controle — e talvez o efeito daquele disco não tivesse sido tão surpreendente e oportuno.

Zola Jesus e seu Okovi mudaram minha direção naquele dia — expandiram bastante minha visão, digamos, visão que andava meio estreita e cansada devido a uma série de viagens e compromissos, maratona que nem sequer terminou ainda, porém agora tenho atravessado-a bem mais atento e revigorado. No dia seguinte a Okovi eu acordei sedento de música, e não apenas de música na linha de Zola Jesus: naquele dia e nos seguintes eu escutei metal e krautrock (Judas Priest, Gnaw Their Tongues e Manuel Göttsching), música clássica de vanguarda e free jazz (Schoenberg, Pharoah Sanders e Don Cherry), rock ’n’ de todos os tipos e naturezas (Bon Jovi, R.E.M. e King Crimson) e horas e mais horas de Aphex Twin e Tangerine Dream, e terminava os dias com discos quietos e acústicos (Tiny Vipers e Marissa Nadler, sonatas para violoncelo e para piano) enquanto anotava algumas ideias de audições para o dia seguinte, bandas e artistas que não tinha tido tempo de escutar nas últimas horas mas que meus ouvidos me imploravam. Uma série de coisas maravilhosas cabem em um espírito desatado pelos sons de Zola Jesus, e pela música gigante e imersiva do Tangerine Dream, e pela precisão e sutileza de Aphex Twin: não são, estes, criadores de músicas alegres ou pacificadoras; são artistas ilimitados que nos enfiam o universo ouvidos adentro, expõe-nos ao infinito e ao bizarro e nos expandem a percepção, recalibrando nossos ritmos para algo mais adaptável às complexidades que não param de se multiplicar ao nosso entorno. Impedem, enfim, a atrofia e também o medo. Lembro que em algum momento mais lá para o começo desse mês, antes de Okovi, eu me perguntava se teria tempo e ânimo de escrever um “Disco do mês — Outubro de 2019” uma vez que até aquele momento eu não vinha escutando a praticamente nada mais além de Necks e Thelonious Monk, já meio contrariado prevendo que a resposta era não, não teria tempo, e, se acaso tivesse, não teria nada de muito novo para escrever, tendo já dedicado o post anterior exclusivamente ao meu amado trio australiano e algum outro recente ao Monk. De resto, depois das férias e da euforia do show do Necks, os dias começavam a correr meio acabrunhados e cansativos, o inverno chegando aqui na metade de cima do mundo… E agora, após Okovi e da farta correnteza de música que dali se seguiu, minha preocupação é não achar tempo para escrever sobre o tanto de coisas incríveis e diversas que tenho ouvido e como elas têm me feito bem. A maratona continua, mas me sinto preparado como Sarah Connors diante da tempestade.

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Créditos da imagem: A cena final de The Terminator, de James Cameron, copiada aqui.



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