Discos do… The Necks

Por Fabricio C. Boppré em 01/10/2019

No começo de Setembro saí de férias, viajei, fui para longe visitar cenários muitas vezes lidos e admirados tanto em livros de história quanto em revistas de companhias aéreas e em cartazes nas vidraças das agências de turismo — uma metrópole de tamanho descomunal e magníficos museus cercada por ilhas que parecem saídas diretamente dos sonhos das gentes da cidade, ilhas deslumbrantes mesmo para quem, como eu, teve a sorte de viver boa parte de sua vida em uma outra ilha também muito bonita, mas estas que visitei nessas férias têm o sol mais exuberante dentre todos os que já colaboraram com o envelhecimento das minhas retinas e as águas mais cristalinas nas quais já tive a oportunidade de rejuvenescer o meu espírito, e todo esse conjunto, ilhas e cidade, beneficiado ainda pelo fato de ter sido o berço fragmentado e milenar dos primeiros pensadores e dos primeiros cientistas e de muitas das lendas que povoam o imaginário coletivo da humanidade. Há uma aura mágica por aquele lugar, uma reverberação longínqua de calma, reflexão e natureza invencíveis, um acúmulo insuperável de história. E também um vinho delicioso. Foram dias inesquecíveis onde, ocupado que estava visitando museus, nadando e mergulhando, comendo e bebendo muitíssimo bem, fazendo trilhas antiquíssimas por entre vales e montanhas, dormindo o sono sólido e despregado que raramente durmo durante o resto do ano, nesse dias mal tive tempo (e devo dizer que pouco senti falta) de ouvir música, e por isso esse mês não tem “Discos do mês”. Mas, nas poucas vezes em que coloquei algo para tocar, quase sempre lembrei de colocar The Necks, uma vez que, mesmo durante aqueles dias idílicos de sol e mar, muitas vezes me veio à lembrança que lá (aqui) em casa tenho ingressos comprados para, no dia 13 de Outubro, assistir ao mítico trio australiano cujas apresentações, leio isso em todo o lugar, são sempre experiências inesquecíveis. Lembrava disso e pensava: não vai ser tão traumático assim quando acabarem-se as férias e eu voltar para casa. Eu coloco o Necks, sem pensar duas vezes, entre as minhas cinco bandas favoritas de todos os tempos; eu reverencio arduamente esses caras, e seus discos estão sempre entre os mais cotados quando quero ouvir algo realmente especial, quando tenho tempo e disposição para isso, nas noites mais tranquilas, nos fins de semana mais descansados. Enfim, acabaram-se as férias, mas está sendo fácil readaptar-me à rotina de trabalhador e de testemunha cínica das catástrofes fatais de nosso tempo: um fascista corrupto e covarde continua presidente do Brasil, as notícias vão de mal a pior e a humanidade continua correndo serelepe rumo à extinção, mas eu, devo confessar, neste momento estou bastante feliz.

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Créditos da imagem: Foto de Anne Zahalka, copiada aqui.



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