Discos do mês - Junho de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 03/07/2019

Umas notas rápidas que eu não quero deixar de rabiscar apesar de estar viajando, apesar de estar muito quente, apesar de eu ainda estar meio atordoado após uma indisposição estomacal que quase me fez desmaiar enquanto atravessava uma rua — um baita piriri, como se diz no maravilhoso léxico popular brasileiro — e ainda outros apesares que me fazem estar com pouquíssimo tempo para ficar diante do computador escrevendo. Não quero deixar de registrá-las, apesar de tudo, pois nestes dias assisti a muita música incrível — orquestras em imponentes salas de concerto; rock ’n’ roll em um teatro construído no século 19; jazz e recitais em parques e esplanadas — e também porque sempre que estou viajando a música nos fones de ouvido se torna uma companheira ainda mais valiosa, ainda mais repleta de coisas para dizer, de coisas que me ajudam a atribuir algum sentido, mesmo que bastante subjetivo, à zorra em que está se transformando esta nossa aventura humana. E também porque comprei mais um monte de discos, que tenho carregado de um lado para outro na mala e na mochila e escutado sempre que me deparo com um toca-discos nas hospedagens e casas de amigos em que temos feito pouso. Os dias têm sido assim, abafados e agitados, mas neste momento estou num trem com mais três horas de viagem pela frente, então lá vai. Já ouvi tudo isso com muita atenção e deleite, mas estou ouvindo tudo de novo pois é música para se ouvir para sempre: Friedrich Gulda tocando as sonatas de Mozart, uma alegria sem fim. Encontrei à venda uma caixa que, apesar do nome The Complete Gulda Mozart Tapes, não é tão completa quanto aquela outra que comentei no post associado à frase anterior: enquanto aquela (que eu tenho apenas em arquivos digitais) traz as gravações das sonatas e dos concertos para piano em dez discos, esta que encontrei traz apenas as sonatas em seis. Não descobri ainda se há algum motivo para esta incongruência, e pouco importa: comprei a caixa porque o que mais me interessa são de fato as sonatas. Andei lendo umas coisas muito interessantes sobre Gulda e qualquer hora comento elas por aqui — sei que oportunidades para isso não faltarão, pois estes CDs eu vou gastá-los de tanto ouvir. Outro nome que deve aparecer com alguma frequência por aqui nos próximos meses é o do Bob Dylan, de quem, além de estar ouvindo muita música, estou também lendo a autobiografia, a Chronicles - Volume 1 (ninguém sabe se virá ao mundo um volume 2, algo bastante dylanesco). Dylan é um artista extraordinário já constituído em mito, talvez o último ainda vivo. Quero dizer, tenho muitos heróis ainda vivos — Neil Young, Patti Smith, Keith Jarrett, Chico Buarque, Van Morrison — mas a obra e a relevância de nenhum destes se equiparam as de Dylan (talvez apenas as de Chico Buarque, se deixarmos de lado questões relativas ao alcance das culturas em que um e outro estavam/estão inseridos) e, por um motivo e outro, “mito” cai bem apenas quando aplicado a Dylan. The Bootleg Series Vol. 14: More Blood, More Tracks, em sua versão expandida, é item obrigatório para qualquer dylanmaníaco: horas e horas de ensaios e versões demos das faixas que viriam a compor o clássico Blood on the Tracks. Já sua versão reduzida — que traz apenas uma versão de cada uma dessas faixas — é, ou deveria ser, item obrigatório para todo o resto da gente do mundo. Creio já ter escrito algo similar sobre algum outro disco desta série de bootlegs oficias, mas não há nada de errado em dizê-lo para este também: é, além de tudo, um ótimo argumento a ser oferecido para quem ainda tem birra contra Dylan devido à esquisitice de sua voz e sua aparente falta de jeito para cantor (reza a lenda que Stephen Stills teria dito, na primeira vez em que assistiu Dylan, que se tratava de um ótimo compositor mas um péssimo músico). É o Dylan de sempre quem canta nestes discos, evidentemente: lá está sua voz ainda jovem mas já começando a ficar fanha, cheia de ritmos erráticos e entonações descompassadas; a beleza primitiva destas músicas, no entanto, aliada à pureza das gravações e à riqueza inigualável do lirismo dylaniano, todo esse pacote tão especial está presente aqui em uma dose impossível de ignorar, e improvável de não convencer ao mais resoluto dylanfóbico, e totalmente justificadora deste hábito bobo que alguns temos de inventar adjetivos a partir do nome do sujeito, dylan-isso e dylan-aquilo. Para finalizar, uma nota sobre jazz: eu já conhecia alguma coisa do Avishai Cohen (o contra-baixista, não o trompetista) e gostava. Não o suficiente para mantê-lo no meu círculo mais próximo de audições, de leitura de notícias, de compra de discos — mas gostava descompromissadamente, digamos, mais ou menos como gosto dos discos do Chick Corea, de cuja banda Avishai Cohen fez parte antes de tornar-se ele mesmo um bandleader. Alguns dias atrás, entretanto, descobri que teria a chance de assistir a uma apresentação de Cohen, e por conta disso tratei de me atualizar sobre sua discografia e ouvir mais alguma coisa. Descobri um disco muitíssimo bom que eu ainda não conhecia, este Seven Seas, de 2010, que venho escutando mais frequentemente; comprei também o Arvoles ainda quentinho recém-saído do forno (lançado no mês passado), porém este não escutei ainda com a devida atenção. Ouvi também mais uns dois ou três álbuns do israelense que achei para download, e estou gradualmente gostando mais e mais de sua obra. O comentário final que quero fazer, contudo, é que toda essa música gravada empalidece diante de uma apresentação do trio que Avishai comanda (ele no contra-baixo, Noam David na bateria e Elchin Shirinov no piano), e isso parece ser regra geral no jazz. Adoro escutar jazz em casa, tenho muitos discos e é das nossas trilhas sonoras favoritas para os fins de semana, e ainda assim minha percepção de que a forma correta de se apreciar o gênero, o canal que faz alguém realmente compreender o que essa música tem de especial é assistir a uma boa banda ao vivo, minha certeza quanto a isso é plena e irrevogável. Talvez se possa dizer o mesmo de quase todo tipo de música, mas no jazz a amplitude disso é maior, sei disso por intuição e experiência. A construção gradual das canções e a interação entre os músicos — e destes com a platéia, que nunca hesita em aplaudir os ápices de uma peça em andamento, e assim efetivamente participa do que está acontecendo no palco — é das minhas experiências favoritas em todo o mundo da música. Os discos todos de jazz que tenho em casa, centenas de CDs e vinis, às vezes me parecem apenas deliciosos aperitivos para o próximo momento futuro em que poderei assistir a um bom trio ou quarteto em ação, ou então, em alguns casos não tão auspiciosos, epitáfios melancólicos para os grandes mestres que infelizmente não temos mais entre nós: Coltrane, Monk, Miles, etc.

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