A estratégia para a noite de hoje

Por Fabricio C. Boppré em 06/06/2019

Ontem, entre o fim da tarde e o início da noite, antes de ir deitar-me, escutei uns dois ou três discos de The Mozart Tapes - Concertos & Sonatas, magnífica caixa lançada pela Deutsche Grammophon com este senhor da foto acima, Friedrich Gulda, tocando uma porção de Mozart. Há dias, na verdade, venho saboreando estes discos, e creio que finalmente tornei-me aquilo que todo fã de música clássica parece ser desde sempre: fã de Mozart. E tornei-me também fã de Gulda, evidentemente. Sempre tive essa relação difícil com Mozart: algo em sua música, uma certa leveza ou amenidade, construiu lentamente em meu cérebro uma rede de associações que, durante muito tempo, obstinadamente, barrou a entrada do célebre salzburguiano em meu panteão pessoal de preferidos, mesmo o de segundo escalão, onde estariam, deixe-me ver: Chopin, Haydn, Messiaen, Liszt, Prokofiev, Vivaldi, entre outros. Mozart sempre esteve abaixo destes todos, que por suas vezes já estavam abaixo de Brahms, Bártok, Beethoven, Ligeti, Mahler, Bach, Shostakovich e Debussy. Essas associações — pertinentes ou não, e também a pertinência do meu julgamento da música de Mozart como algo leve e sem profundidade, nada disso importa nesse momento — rendiam-me visões de festas em salões de nobres, realezas refestelando-se em banquetes, bailes de máscaras, coisas desse tipo, lugares e circunstâncias que eu nunca suportaria frequentar (assim como suas equivalentes contemporâneas eu também as detesto) e, portanto, uma música que eu não me importaria em não ouvir. Um certo antagonismo com o gênio dramático e insofismável de Beethoven também não lhe concedia benefício algum, pelo menos não perante mim, que sempre fui mais chegado na seriedade e na tragédia do que na leviandade e na comédia. É claro que adoro Eine kleine Nachtmusik, e alguns dos concertos para piano, mas eles nunca chegaram a ser suficientes para reverter minha opinião e meus preconceitos acerca do jovem Wolfgang (que morreu muito cedo, então jovem permanecerá para sempre, certo?). Quero dizer, tudo isso até então, porque essa caixa de Friedrich Gulda é coisa mágica. Escutem, quem puder, a essa música — escutem sua alegria, sua clareza, sua naturalidade! Não chegou a ser para mim uma revelação, uma epifania inesperada, ou coisa que o valha; foi, antes, uma compreensão seguida de uma felicidade que eu só poderia alcançar mediante a descoberta da execução perfeita, a execução que tirasse do caminho todos os entulhos e cismas, que me apresentasse ao Mozart mais depurado, e fizesse derreter meus preconceitos. E aqui está ela. Diante de horas de tudo isso — principalmente as horas dos seis primeiros discos, que trazem as sonatas — eu finalmente me rendi. Essa música decerto não foi escrita por alguém de segundo escalão. E o fenômeno Gulda não é menor, afinal, eu já tinha escutado muitas dessas composições dezenas de vezes anteriormente. Mas eu comecei dizendo que ouvi os discos ontem de noite: ouvi dois ou três deles e fui dormir, e não demorou para que a música pura e radiante de Gulda & Mozart aparecesse nos novos capítulos dos sonhos febris que ando tendo nestes últimos dias, nestas noites mal-dormidas por conta duma desgraçada duma gripe que está me atrapalhando totalmente a vida desde o fim da semana passada. Ontem, ainda fui inventar de tomar uns goles de uma bebida forte antes de deitar, imaginando que ela poderia me ajudar a relaxar, desobstruir alguns vasos entupidos, dar uma esquentada geral, e acho até que a estratégia funcionou em parte porque dormi um pouco melhor. Mas os sonhos foram ainda mais delirantes. Em um deles, eu escutava Gulda tocando Mozart e conversava com Sylvester Stallone. Conversávamos sobre o gorro que Gulda aparece usando na imagem que ilustra a caixa: eu explicava que já tinha visto fotos do baterista do Rush usando uns gorros parecidos e que eu os achava bonitos, e que qualquer hora arranjaria um para mim. Stallone concordava sem dizer muita coisa. Lembro-me que eu admirava a música com o mesmo entusiasmo e a mesma reverência de quando a escutava enquanto acordado, horas antes, um sentimento cuja permanência na mente mesmo adormecida me é totalmente compreensível. E é claro que isso, sonhar com música, não é nada inusitado ou incomum sendo eu quem sou; a grande questão é: como foi que Sylvester Stallone apareceu em meus sonhos? A centelha de machismo ridículo que não pude evitar herdar me obriga a fornecer uma explicação alternativa à atração homossexual represada: durante o dia eu tinha assistido na internet ao trailer do novo filme do Rambo, o que provavelmente inscreveu o brutamontes americano no meu inconsciente, e este, por fim, forneceu-o como personagem para um dos meus devaneios noturnos. Deve ter sido isso. (Freud diria que não é tão simples, afinal, o conteúdo latente dos sonhos, etc.) Bem, eu gostaria de sonhar novamente com Gulda tocando Mozart. Conversar com Sylvester Stallone, por outro lado, eu posso passar sem — ele não parecia ter muito o que dizer, de todo modo. A estratégia para hoje de noite, portanto, será continuar na companhia de The Mozart Tapes - Concertos & Sonatas; já o uísque, esse vou trocar por um copo de leite quente com mel.

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Créditos da imagem: Imagem copiada daqui, onde não há referência ao autor da foto.



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