Discos do mês - Maio de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 04/06/2019

Van Morrison - Common One

Quando Common One foi lançado, em 1980, a crítica da época espinafrou o novo álbum de Van Morrison. Os comentários negativos tinham quase todos o mesmo teor, o mesmo descontentamento com o lirismo de Morrison, cada vez mais poético e rebuscado, e isto, supostamente, prejudicava o resultado musical como um todo. Seria um álbum muito “sentencioso” — li esse parecer em mais de uma opinião republicadas por aí em algum lugar da internet. Apenas Lester Bangs previu que o álbum teria sua reabilitação algum dia, pondo a má-vontade dos críticos da época na conta da inépcia que os impedia de compreender as ambições líricas de Morrison, que, afinal, tinha o direito e o dever (e isso sou eu quem digo, embora Lester provavelmente viesse a concordar comigo) de transformar suas letras em confissão ou poesia ou qualquer outra coisa, se assim o quisesse. Bem, não sei se o disco foi afinal reabilitado; sei que gosto muito dele, assim como de tudo que já escutei deste inigualável norte-irlandês. Não vejo Common One como tão diferente assim dos clássicos anteriores: sua serenidade e placidez não vêm de outro mundo; são, antes, o resultado natural da evolução que se espera de qualquer verdadeiro grande artista, ou deste em particular, que não haveria de se acomodar e ficar gravando e regravando as mesmas músicas de seus discos anteriores mais bem-sucedidos, velhas faixas da juventude que, de qualquer maneira, são todas tão íntegras e peculiares que nunca admitiriam ser recicladas, nunca permitiriam duplicações que soassem sequer minimamente legítimas — seria como querer recriar em um laboratório as exatas condições atmosféricas que pudessem reproduzir um relâmpago exatamente igual a outro testemunhado muito tempo atrás, uma cópia perfeitamente similar em todas as suas luzes, cores e raios rasgados no céu. Não tem como, é impossível. Ademais, quando se tem algo a dizer, é natural que se queira refinar sucessivamente a mensagem. O meio — a música — se adequa: se alonga, se acalma, se transfigura, ou mesmo se enfurece ou se degenera, tanto faz — o que for necessário. É o preço que um artista como Morrison tem de pagar, sua dádiva e sua maldição. Tudo isso é evidente para mim em Common One (a belíssima travessia de When Heart is Open não me deixa dúvida alguma), conhecendo intimamente como conheço Moondance e Astral Weeks e mais uns três ou quatro outros álbuns de Morrison. Sim, muito pouco levando-se em conta que o sujeito já gravou perto de quarenta discos. Vou começar em breve uma exploração desta enorme discografia, mas já sabendo, deste ponto de partida em que me encontro, muito do que me espera.

Neil Young - Songs for Judy

Não creio que a demanda por livros de Neil Young seja tal que vá fazê-lo considerar a hipótese de abandonar suas guitarras e tornar-se escritor em tempo integral. Em contrapartida, esse tanto de discos que o velho canadense parece não terminar nunca de lançar continua justificando plenamente sua estendida carreira musical, seja como cantor e guitarrista ainda na ativa, ainda gravando discos e apresentando-se ao vivo, seja como pesquisador e organizador de seu próprio legado, e isso tudo sem desconsiderar o fato de que Young lança discos desde 1966, quando saiu o primeiro do Buffalo Springfield. Façam as contas aí para ver quanto tempo dá isso. Enquanto lia os últimos capítulos de sua autobiografia, eu escutava Songs for Judy, uma compilação de canções gravadas ao vivo em 1976 e lançada no fim do ano passado. É Neil Young solo puro-sangue: voz, violão, ocasionalmente gaita e piano. Há dezenas de discos ao vivo (oficiais) de Young por aí e não dá de acusá-lo de querer apenas faturar em cima da fraqueza completista de seus fãs mais maníacos, posto que a grande maioria desses discos é de fato excepcional e compensa com folgas os danos ao meio ambiente infligidos pelos montes de plásticos e papel e sei lá que outros produtos venenosos necessários à sua fabricação. Songs for Judy consegue até mesmo destacar-se entre estes discos todos: o repertório é um banquete completo; a qualidade da gravação não poderia ser melhor; Neil parece estar no ápice da desenvoltura e de suas habilidades de cantor e instrumentista. Destaques para White Line (uma favorita pessoal, que apesar de já aparecer nos shows daquela época, só veio a ser lançada em um disco de estúdio em 1990, no Ragged Glory), Human Highway, Too Far Gone (precedida pelo relato do “encontro” com Judy Garland — a Judy do título do álbum), Here We are in the Years (uma menos famosa, pinçada do segundo disco solo de Young) e, claro, Pocahontas. O álbum todo, na verdade, é um longo e generoso destaque. Se fosse para ter na coleção apenas um único disco de Neil Young ao vivo e em modo acústico, eu não pensaria duas vezes antes de escolher este.

Mark Knopfler - The Ragpicker’s Dream

Enquanto escrevia aquele texto sobre o Mark Knopfler, eu pensava que deveria escolher algum dos seus discos pós-Dire Straits para citar aqui nesta edição de “Discos do mês”, pensamento que me deixou meio aflito, afinal, não consigo distingui-los muito bem entre si, me parecem todos absolutamente iguais em sua sensaboria moderada e em suas humildes e honestas virtudes, a saber, a simples presença da voz e da guitarra de Knopfler, configuradas sempre numa inspiração mediana, algo automática porém sempre confortante, como escrevi naquele post. Como escolher?, eu já me preocupava por antecipação. Ia acabar citando um qualquer, talvez o que tivesse escutado por último, coisa que já fiz anteriormente, mas aconteceu de nos últimos dias eu me afeiçoar um pouco mais por este The Ragpicker’s Dream. Ele não é melhor nem pior do que qualquer um dos outros: conta apenas com a parca distinção de algumas de suas melodias terem se afixado na minha cabeça, entre elas Hill Farmer’s Blues (que infelizmente termina bem quando começava a ficar muito boa, quase que uma provocação de Knopfler) e Daddy’s Gone To Knoxville. Por ora, eu diria que é este meu disco solo favorito de Mark Knopfler, ainda que qualquer um dos outros tenha sobre mim os mesmos efeitos balsâmicos.

Ennio Morricone - Days Of Heaven Soundtrack

Quando Terrence Malick ainda fazia filmes decentes (seus dois primeiros filmes, ainda lá na década de 70, são bem mais do que decentes, na verdade), certa ocasião ele teve a brilhante idéia de convidar Ennio Morricone para compor a música de seu próximo trabalho. O resultado — a música do magnífico Days of Heaven — é daquelas trilhas-sonoras que fazem o filme ser ainda melhor do que é, ou talvez seja justamente o fator decisivo que faça o filme ser o que é. Ou (e?) vice-versa: a bela fotografia do filme torna a música ainda melhor — torna a música inesquecível. Em resumo, trata-se de uma daquelas raras simbioses entre música e imagem que tornam o resultado final muito maior do que a simples soma de seus fatores (e fazem reacender, de vez em quando, minha paixão por cinema, eu que muito frequentemente me desencanto com a tal da sétima arte). Da parte de Ennio Morricone, apenas mais uma confirmação do gênio musical do italiano; da parte de Malick, me faz ficar pensando: como esse cara perdeu a mão tão desastradamente?

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