On the human highway

Por Fabricio C. Boppré em 06/05/2019

Comecei a ler a autobiografia do Neil Young no começo de 2013. Em geral, não costumo lembrar datas tão exatas de pormenores desse tipo, a menos que determinado evento fique, em minhas lembranças, associado a outro cuja data é algo mais amplamente estabelecido. Por exemplo: coisas me aconteceram durante a Copa do Mundo da França, aquela que o Brasil perdeu a final para a própria França por 3 a 0, em Paris. Aqueles eventos da minha juventude, portanto, eu vou sempre me lembrar que ocorreram em 1998, por causa da Copa do Mundo em que o Ronaldinho teve um piriri pouco antes da partida final (e não apenas isso acontecia por aqueles dias: a UFSC, onde eu estudava, estava em greve). Com o início da leitura da biografia do Neil Young — que originalmente chama-se Waging Heavy Peace mas no Brasil ficou só A autobiografia mesmo — acontece coisa semelhante: não vou me esquecer que foi no começo de 2013 pois foi logo depois de termos retornado ao Brasil após um tempo morando na Inglaterra. Naquela temporada inglesa eu trabalhava um monte, bebia litros de Guinness e escutava Neil Young quase todos os dias. Levei alguns quilos de Neil Young comigo de volta ao Brasil: CDs, vinis, a biografia escrita por Jimmy McDonough, a caixa The Archives Vol. 1 1963–1972 (cujo volume 2 talvez saia finalmente no fim deste ano). Escutava Neil Young trabalhando, descansando em casa no fim da tarde, na rua — eu devia ser um chato, só queria saber de Neil Young! Assim que voltamos ao Brasil, nos primeiros dias de 2013, topei com esta sua autobiografia e resolvi encará-la, e só fui terminar a leitura há pouco, mais de seis anos depois de iniciada, porque o volume é, de modo geral, sofrível. Eu lia uns três ou quatro capítulos e largava o livro em algum canto onde ele ficaria esquecido durante meses, e só recentemente resolvi fazer um esforço em terminá-lo porque uma das minhas manias é não conseguir deixar nada inacabado. Terminei-o neste último sábado, e o último capítulo é até mesmo surpreendentemente bonito, então valeu a pena. Na verdade, para um fã do músico Neil Young como eu, a leitura toda pode valer a pena porque o livro é honesto e revelador como só um mau escritor pode ser. São muitos os momentos comoventes e ridículos; as tentativas destrambelhadas de acertar contas com o passado; os discursos completamente desinteressantes sobre suas manias e seus empreendimentos fora da música; sua paixão por trens e carros. Dentre os momentos ridículos e comoventes: já no fim do livro, nas últimas páginas, Young narra uma viagem de carro em que, a certa altura, olha no espelho retrovisor e constata que sua aparência não está tão mal, as rugas da idade não estão tão aparentes; noutro momento, ele lamenta ter de comparecer a uma reunião com seus advogados onde provavelmente terá que ser definida a venda de uma de suas cinco fazendas e talvez também uma de suas três casas no Hawaii. Nesta última história, não há traços de esnobismo ou exibicionismo: são vários os episódios ao longo do livro em que Neil relembra sessões de gravação ou de improvisos com os amigos e parceiros de bandas nestas casas e fazendas; sua tristeza em ter que se desfazer desses lugares cheios de memórias é sincera. A aparente falta de noção sobre como vive a imensa maioria do resto da humanidade, no entanto, não deixa de ser patética. Durante a leitura, aos poucos vai ficando claro que o texto foi escrito em parte para ocupar um tempo em que Neil não estava conseguindo escrever música alguma, e tampouco avançar em suas dezenas de outros projetos; uma forte sensação de frustração, provavelmente agravada com o acúmulo de mortes de amigos queridos (David Briggs em 1995, Ben Keith e Larry Johnson em 2010), vai ficando cada vez mais forte. Também a recomendação médica de parar com o consumo de bebida alcoólica e cannabis parece afetar sua vida e sua produção, e em vários momentos Neil parece prestes a confessar: “só estou aqui digitando isso porque não consigo fazer outra coisa”. Talvez até o tenha feito de fato, e seu editor, posteriormente, recomendou-lhe remover este capítulo, garantindo que não seria bom para a sequência de seus negócios literários… Young, afinal, não é um escritor (seu pai era). “Empreendedor”, que é uma imagem que ele tenta o tempo todo colar em si mesmo, tampouco ele parece ser, nem mesmo um mais ou menos. Um bom companheiro para sua esposa, coisa que ele garante, no alto de seus 65 anos (quando escreveu o livro), estar tentando finalmente se tornar — isso também parece não ter dado muito certo: ele passa boa parte do livro idolatrando Pegi, sua esposa desde 1978, mas veio a separar-se dela em 2014, dois anos depois do lançamento da A autobiografia. Pegi, mãe de dois de seus três filhos, faleceu no começo deste ano. Neil Young parece querer ser muitas coisas, e tem dificuldades com quase tudo; há várias lições a se tirar disso. Parece ser, no entanto, alguém bastante franco e honesto, ciente de seus defeitos e tentando, aos trancos e barrancos, remediá-los, recebendo as bordoadas da vida e reerguendo-se, buscando sempre alento e inspiração para continuar adiante, e é isso o que rende os bons momentos do livro. E — não precisaria dizê-lo — ao menos uma coisa ele quase sempre fez muitíssimo bem: como comprovam esses montes de discos que ele continua lançando, como cantor, guitarrista e compositor ele já tem garantido seu lugar dentre os maiores.

Categoria(s) associada(s): Literatura musical

Créditos da imagem: Neil Young em foto de Henry Diltz, em 1975.



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