A música que não tenho escutado

Por Fabricio C. Boppré em 14/05/2019

Perdoem-me caso eu esteja injetando amargura e pessimismo demais cá nestes meus textos, sempre que me meto a falar de coisas que estão além do mundo da música. Se é que há um mundo da música e outro separado onde fica todo o resto, o que, na hipótese mais provável de não haver, me desculparia e justificaria totalmente. Em todo o caso, sinto-me compelido a pedir quando menos “com licença”, afinal, ninguém vem aqui para ler mais uma crônica da desgraça político-social brasileira, não é mesmo? Ela já está por toda parte, narrada e lamentada em todos seus muitos sórdidos detalhes por gente muitíssimo mais qualificada para isso do que eu. Creio, contudo, que as notícias nos jornais me justificam em qualquer dos casos e das alternativas: como ignorar a tragédia em curso no Brasil? Como viver e escrever sobre algo desta vida sem fazer menção a isso, como se nada disso fosse me (nos) afetar, como se nada disso me (nos) dissesse respeito? Nessa semana que passou creio que conseguimos atravessar alguns limites que não muito tempo atrás julgávamos impensáveis: é possível haver alguém em um estado mínimo de sanidade, de capacidade intelectual por mais atrofiada que seja, que realmente considere razoável a idéia de se construir um futuro cortando verbas para a educação e liberando e estimulando o armamento da população de um país que já é um caos de violência fora de controle e sempre um dos piores em todos os rankings de instrução e educação mundo afora? Li, certa vez, que presidentes quando eleitos costumam passar por testes físicos e psicológicos que atestem sua capacidade para o cargo. Teria esse imbecil que preside o Brasil, cujo nome me recuso a escrever ou pronunciar, teria ele sido aprovado nestes testes? Caso sim, passou muito da hora de rever-lhes a eficácia. Bem, este preâmbulo desalentado é para dizer o seguinte: acabo de perceber que a violência que estão tentando promover à condição de bandeira e linguagem oficiais brasileira — violência que sempre foi um dos pilares da nação, mas oficialmente um pilar meio oculto, disfarçado, arquitetado e celebrado à portas fechadas e em reuniões de gabinetes, exercido e refinado nos morros e periferias — essa violência exterminadora de índios, pretos e pobres prestes a ser banalizada tem influído nas minhas audições ainda mais do que eu já descrevi aqui anteriormente. Antes de me explicar melhor, uma outra reflexão preliminar, que já aviso de antemão se tratar de pura conjectura, haja visto que não sou especialista em nenhum campo sequer adjacente a estas questões: tenho a impressão de que a violência, em seu sentido mais amplo e físico, é algo bastante humano, um apetite codificado em nossos genes e parte de nossos instintos. Não faz tanto tempo assim, afinal, que ferir e fazer sangrar outros animais, combater e retirar-lhes a vida, eram recursos decisivos para a sobrevivência dos indivíduos da nossa espécie. Era matar ou morrer, naqueles tempos em que habitávamos cavernas. A tal pulsão de morte de que falam os psicanalistas deve ser um rescaldo disso, dessa agressividade que foi aos poucos sendo controlada e refreada pela civilização e pela cultura, mas que ainda não sumiu de todo da índole geral de nossa espécie. Suponho que existam por aí teorias que explicam o fato de continuarmos sendo carnívoros, de continuarmos matando outros seres vivos para comê-los a despeito de já termos há muito tempo compreendido que com isso lhes causamos dor e sofrimento e de já possuirmos tecnologias de cultivo e produção de outros tipos de alimentos — deve haver teorias que associam este nosso mortífero hábito alimentar com um persistente hábito psicológico de violência e dominação. Até aqui creio não estar dizendo novidade alguma: é o animal ainda presente na natureza humana, como todos sabemos por experiências próprias. O ponto é que eu acredito que a arte serve também para a restrição — ou talvez seja melhor dizer a satisfação — destes nossos antigos ímpetos. Arte pode ser, além de muitas outras coisas, também um cerco a tudo que nos resta de selvagens, uma tentativa de domar aquilo que a urbanidade e a civilidade ainda não apagou de nós por completo: no mundo circunscrito da ficção e das imagens, dos sons e das narrativas, podemos dar livre vazão às pulsões de morte e de destruição, podemos dar curso aos sentimentos mais recônditos e inconfessáveis, seja como apreciadores ou artífices, e, assim, na vida não-fictícia, conviver saudavelmente e nos mais altos níveis possíveis de respeito e harmonia com todos os seres de carne e osso que nos cercam. Creio que todo mundo sabe de quais sentimentos estou falando. É por isso que a conversa sobre proibir games violentos, a conversa moralista sobre a violência no cinema, etc., não é apenas uma cortina de fumaça estúpida: pode vir a ser efetivamente nociva caso venha a ganhar tração e materializar-se em políticas de censura e proibições. Se acaso viermos a proibir games onde o jogador elimina outros personagens, assassinatos não irão parar de acontecer na vida real, pelo contrário: vão aumentar em número, eu apostaria nisso. Diminuir as estatísticas funestas da violência no mundo real não tem a ver com controlar a arte e o entretenimento; tem a ver com educação, redução da desigualdade social, saúde pública, proibição da venda de armas (cuja comercialização liberada isso sim é um estímulo ao homicídio), ampliação do entendimento e da aplicação dos direitos humanos, etc. Pena que nada disso pareça estar muito na moda. Voltando à música e ao Brasil: estamos combinados então que em vez de arte e educação, de direitos humanos e controle de armas, vamos fazer tudo ao contrário. Tudo bem. O Brasil gostou da ideia e ofereceu ao seu mais depravado proponente o cargo de mandatário da república; este, sem perder muito tempo com baboseiras como estudos, discussões, consultas, já colocou seu grande plano em andamento. O que então começou a acontecer comigo é algo que agora eu percebo como uma espécie de tentativa de adaptação, algo no início irrefletido, inconsciente, porém agora já plenamente desvendado. É isso: estou iniciando a substituição de toda a violência que sempre consumi na música — em particular, nas formas mais extremas de metal — pela violência que logo estará permitida e vulgarizada por aí, pelas ruas e cidades do Brasil. Não serei eu a aplaudi-la e muito menos cometê-la, é evidente que não, mas testemunhá-la diariamente será inevitável, seja nas notícias, nos relatos, nas conversas escutadas nos ônibus. Talvez andando na rua, in loco, bem à nossa frente. De algum modo faremos todos parte deste grande bacanal da brutalidade. Estou, portanto, me adiantando e reorganizando as fontes das doses de violência que me são necessárias: não mais a arte, a música, os filmes do Walter Hill, os discos do Napalm Death; agora o Brasil puro, a vida diária, a pátria cumprindo finalmente a vocação e destino de cujos prenúncios nunca deixamos de duvidar, o Brasil das pessoas de bem fazendo justiça com as próprias mãos, montando milícias via grupos de WhatsApp, limpando as cidades destas xexelentas escórias humanas, destes pardos e inúteis vagabundos. O impávido e destemido Brasil, de braços másculos e calibre grosso. Finalmente o fim do politicamente correto! Em plenos trópicos, agora não mais tristes, a mais avançada forma de lei e liberdade que o mundo já concebeu, livre dos tentáculos intrometidos do estado marxista! Tento fazer graça, mas não há graça possível nisso. Ao menos agora eu compreendo: é por isso que há meses eu não escuto metal algum. Nada de Thaw, Entombed, Hooded Menace, Cobalt ou Kylesa; nem sequer um inofensivo Metallicazinho, muito menos um Morbid Angel ou um Sepultura das antigas. Qualquer tipo de violência sonora, aludida nas letras ou incorporada ao som dos instrumentos, tornou-se fútil, redundante, desnecessária. O disco novo do Inter Arma está lá no bandcamp já faz algumas semanas eu e não consigo me animar de ir escutá-lo. Tudo isso perdeu seu apelo, perdeu seu propósito. Música agora não é mais questão de fantasia: é questão de sanidade. Daqui a pouco também já não vou mais conseguir ver filme algum, ou talvez substitua os westerns e filmes de terror que tanto adoro por comédias e dramas onde não pingue uma única gota de sangue, onde personagem algum dê sequer uma bofetada em ninguém. A ficção não terá como superar a realidade. Quanto ao videogame: eu tinha planos de comprar um novo console este ano. Para quê? Custa mais barato olhar pela janela.

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Créditos da imagem: Le Meurtre, de Paul Cézanne, copiada daqui.



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