Impressões auditivas, Vol. X

Por Fabricio C. Boppré em 26/04/2019

  • Nesta semana que começa a terminar, foram poucos os dias em que eu acordei e não coloquei para tocar imediatamente o Earth and Sun and Moon do (adivinha?) Midnight Oil. Já escrevi sobre esse disco anteriormente, sobre o fato de que, durante muito tempo um dos meus menos queridos álbuns do Oil, ele vinha aos poucos avançado posições e me interessando cada vez mais. Pois hoje digo sem titubear que se trata de um dos meus favoritos! Reconheço ainda a “dose demasiada de pompa e açúcar nas melodias e nos refrões” que apontei naquele texto; a questão é que este açúcar tem me feito bem ultimamente, ao contrapesar a amargura de (quase) todo o resto, a tristeza com o caminho que tem tomado isto que um dia já imaginamos como uma irmandade humana vivendo em sintonia com uma generosa Mãe Natureza. Quanta ingenuidade. Fora do reino do mundo da música, no que diz respeito ao nosso planeta e à nossa gente, tenho me tornado um “pessimista radical”, como li dia desses em algum lugar. Sim, é verdade, há cada vez mais gente dando-se conta das ameaças que pairam sobre nós, suas causas, nossos dilemas; os absurdos da desigualdade e das fortunas vêm sendo cada vez mais frequentemente denunciados; há também cada vez mais mulheres e minorias em posições representativas, e isso já não é sem tempo. Do outro lado, no entanto, avançam em fileiras ainda mais cerradas os estúpidos, os boçais, os que se informam via WhatsApp, os xenófobos e os fanáticos. A vida desses é muito fácil: não é necessário pensar, escutar, abrir mão de coisa alguma; não é necessário humildade ou reflexão, generosidade ou respeito. Por estarem se tornando maioria, estão cada vez mais no comando, e por isso ganharão, e no fim das contas, perderemos todos. Quero dizer, perderemos nós, humanos; a natureza e a Terra, por outro lado, exultarão ao se verem livres destes parasitas ingratos que somos, e isso me dá um certo consolo: a ideia de que a nossa extinção salvará (se ainda estiver em tempo) aquilo que é muito mais precioso do que nós, aquilo que, afinal, foi justamente o que tornou possível esta nossa breve experiência de observadores do universo. E quem pode dizer que uma nova jornada, a ser empreendida por novos seres dotados de um pouco mais de consciência coletiva e de bastante menos ganância, não haverá de iniciar depois de alguns milhões de anos? Como diz a minha música favorita do disco mencionado acima: ”Earth and sun and moon will survive”.
  • Vale à pena, contudo, continuar vivendo e resistindo — pelo menos aqui do meu ponto de vista bastante privilegiado, tenho total convicção nisso. Nem que seja para o bem de nossas consciências individuais (daqueles que podem se dar ao luxo de cultivar algo desse tipo), e não falta quem diga que é por aí que começam as mudanças em escalas globais. Mas eu já não consigo ver tão longe, ou de forma tão otimista. Tenho já quarenta anos contados sobre a Terra, e o que quero agora é abusar dela cada vez menos e encontrá-la por aí cada vez mais. Trabalhar cada vez menos e caminhar cada vez mais, e falar cada vez menos e escutar cada vez mais. Ocupar menos e menos espaço com minhas tralhas e um dia, finalmente, aliviar o chão até mesmo do peso do meu corpo e desaparecer em paz. Mas, antes disso, caminhar nos morros e nos litorais, escutar ao clima e aos pássaros, enquanto temos a sorte de tê-los ainda em alguma quantidade. São atividades frugais que percebo que têm, pouco a pouco, se convertido também em atos de rebeldia, em posições políticas, em resistência pacífica: caminhar, pacientemente, o tempo que for necessário; parar para observar pássaros cantando e árvores respirando; ficar quieto por uma hora lendo um livro ou escutando música. Digo isso porque uma das mudanças que tenho presenciado no decorrer do curto tempo da minha vida é que as pessoas têm se dedicado cada vez menos a estas coisas, e não consigo deixar de ver uma ligação, uma relação de causalidade inequívoca entre a míngua destes hábitos que exigem atenção e quietude e o calamitoso estado geral das coisas. Não sei bem qual é a ordem destes eventos, o que causa o que, mas a relação para mim é evidente. E se este meu pessimismo radical me informa que, a essa altura, o esforço de uns poucos em prol destas coisas abandonadas não vai fazer grande diferença no panorama geral, ao menos, como cogitei acima, poderá servir às nossas consciências pessoais, aos nossos acertos de contas íntimos, já que disto tudo é possível extrair um modo de vida que é frontalmente oposto ao dos ignorantes cujo arrastão estamos testemunhando mundo afora e cujas consequências não tardarão. É, na melhor das hipóteses, a forma de resistência possível aos pessimistas, aos menos belicosos, àqueles com menos aptidões para o ativismo, como eu; na pior das hipóteses, quando chegar a hora de ir-me embora, creio que este modo de viver terá me garantido o direito de ir serenamente, com a certeza tranquila de não ter me deixado arrastar, de não ter feito parte daquilo que nos destruirá a todos. Para mim será suficiente.
  • Não é incrível a diferença entre o som do gralhar dos corvos e os uivos das gaivotas? Não é incrível que consigam comunicar uns aos outros tudo que lhes é necessário comunicar através destes sons que são — esta é a única coisa que eles têm em comum — tão limitados em sua variedade? É como ter apenas um punhado de letras com as quais é possível formar apenas uma dúzia de palavras. Ou serão eles limitados apenas do nosso ponto de vista humano, que parece ter por natureza essencial a insatisfação? Afinal, do ponto de vista das árvores, corvos e gaivotas talvez sejam barulhentos e tagarelas muitíssimo além do necessário…

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Créditos da imagem: Obra de Xenia Kokorina, copiada daqui.



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