Discos do mês - Janeiro de 2019

Por Fabricio C. Boppré em 01/02/2019

Maurizio Pollini - Debussy: Preludes II

Se eu tivesse escutado este disco ainda no ano passado, ele certamente teria entrado na minha lista dos preferidos de 2018. Pois é, não demorei quase nada para escrever a frase que, aqui, adivinhei que escreveria em algum momento ao longo deste ano. O disco é o do mestre italiano Maurizio Pollini tocando Debussy. Dentre as tantas homenagens ao centenário da morte de Debussy que tive a oportunidade de escutar até o momento, essa é a mais fina de todas, e devo acrescentar que foram muitas as que escutei (a de Stephen Hough está na lista do fim do ano passado e a de Fazil Say estaria se a lista tivesse 20 itens). Pollini acaba de completar 77 anos; não é necessário escrever muito sobre ele. Há um ensaio de Edward Said sobre os pianistas e sua arte, suponho que escrito há pelo menos 30 anos (não consegui achar sua data e local originais de publicação), em que o intelectual palestino-americano diz que o que distingue Pollini dos outros grandes pianistas é o fato de que acompanhar suas performances e suas gravações é como observar uma carreira unfolding in time (algo como “desdobrando-se no tempo”). Em certa medida, trata-se de uma obviedade — afinal, estamos todos inseridos e sujeitados ao tempo, não? — porém eu já havia pensado anteriormente coisa similar a respeito de muitas das minhas bandas de rock favoritas: Pearl Jam e B.R.M.C., por exemplo, continuam entre as minhas mais queridas e que acompanho mais de perto por perceber em suas trajetórias a mesma coisa, as mudanças e amadurecimentos que ora produzem vacilos, hesitações, cansaços, mas também revelações, vozes pessoais e originais, e não menos importante: um senso de caráter e honestidade inegociáveis. Isso tudo pode nem sempre produzir música impecável, mas gera intimidade, fidelidade para além de momentos e modismos, coisa que, uma vez alçados ao mundo das celebridades artísticas, nem sempre é fácil sustentar, e tampouco é o caminho mais fácil de trilhar. Uma pena Said, falecido em 2003, não poder testemunhar os estágios atuais deste longo caminho percorrido até aqui por Pollini, pois estes são de uma beleza refinadíssima. Said também cita, no referido ensaio, que Pollini toca (já tocava naquela época) como que sem grandes esforços, de maneira quase didática, calmamente desvendando ao público a obra e o pensamento dos grandes compositores, e este público deixa uma performance sua como que informado, evoluído, mais esclarecido. Pois esta qualidade permanece proeminente na arte de Pollini, esta e todas as outras, reunidas e depuradas neste disco lançado pela Deutsche Grammophon, tardia continuação de um outro lançado pelos mesmos selo e pianista em 1999, aquele trazendo a primeira parte dos Prelúdios, este, além da segunda parte, também uma peça menor chamada En blanc et noir na qual o mestre italiano toca acompanhado de seu filho também pianista Daniele. O disco é fascinante, e informativo, e hipnótico; assim como o primeiro volume, uma generosa demonstração daquilo que de mais especial há na obra de Debussy para o piano solo: a atmosfera lúdica e vaporosa, a beleza etérea à qual é impossível resistir o abandono. A clareza e a leveza balsâmicas. Debussy tocado pelos grandes é sempre uma visita a um espaço mágico: música que é como um véu indutor ao mundo dos sonhos, onde estamos todos desarmados, inocentes e repousados. Um mundo que é como um grande esquecimento.

Márta Kurtág & György Kurtág - György Kurtág: Játékok

Neste precioso disco lançado pela ECM em 1997 há uma interpretação da transcrição que o compositor húngaro György Kurtág elaborou para o movimento inicial da cantata Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit, também conhecida como Actus tragicus, uma das primeiras cantatas religiosas compostas por Johann Sebastian Bach (enumerada 106 no catálogo Bach-Werke-Verzeichnis). A transcrição é para um piano e quatro mãos; neste disco, as mãos são do próprio Kurtág e mais as de sua esposa Márta. Esta é uma das maravilhas de Bach — aquela que, inclusive, finalmente me atraiu ao infindável universo de sua música: existem as obras monumentais, os espetaculares concertos para violino, as missas insuperáveis, os épicos cheios de segredos e mistérios para o teclado solo, peças magníficas e grandiosas que continuam intrigando músicos e audiências quase três séculos depois da morte de seu compositor… Mas há, também, aqui e ali, pequenas peças, movimentos e trechos de música muito mais simples e acessível, e igualmente belíssima, músicas nas quais a virtude reside, antes de tudo, num maravilhamento imediato e descomplicado, melodias serenas e triviais de impacto emocional quase garantido. Posso ser minoria, mas acredito que são estes pedaços de música que dão a mais justa medida do gênio que foi este Johann Sebastian: a ária das Variações Goldberg; este primeiro movimento da cantata BWV 106; o segundo movimento da Suite No. 3 in D major (BWV 1068); o coral da cantata Herz und Mund und Tat und Leben (BWV 147), entre outros. São estes pequenos trechos de música que comprovam que Bach possuía algo muito raro e especial, e todo o restante de sua obra imortal muitas vezes parece apenas, por contraste, reforçar essa possibilidade: o homem era capaz de compor algo do porte da Missa em Si Menor e, ao mesmo tempo, esse pequeno milagre que é a abertura das Variações Goldberg, a mais bela música de todos os tempos. A transcrição de Kurtág explica isso tudo que pretendi dizer até aqui de forma bem mais eficiente: neste vídeo, ele e sua esposa, dois velhinhos lentos e simpáticos, apresentam-se em Paris, e incluem a música no programa (clique aqui para ir direto até ela). Disco e vídeo são maravilhosos, mas o vídeo tem a vantagem de, lá no final, já no terceiro ou quarto bis, os Kurtágs protagonizarem um delicioso momento cômico: voltam eles ao palco, sem pressa, um ajudando ao outro, e começam a vasculhar as partituras deixadas sobre as banquetas em busca da música que pretendem tocar. Cadê a partitura? O público se diverte e aplaude enquanto os Kurtágs folheiam as tantas e tantas páginas, algo confusos mas aparentemente nada embaraçados, como se estivessem em casa, tomando chá e praticando ao piano, vestindo pantufas e pijamas e resmungando: “Hol van a kibaszott oldal?” (“Onde está a maldita página?” em húngaro, de acordo com o Google Translate). Márta, de vez em quando, volta-se para o público e balança os braços, a platéia responde com mais aplausos e risadas, e a coisa se estende por alguns minutos numa muito bem-vinda quebra dos empolados protocolos das salas de concerto. Finalmente eles encontram a página desejada e juntos tocam novamente a transcrição do movimento inicial de Actus tragicus. Um final perfeito.

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