Meus discos preferidos de 2018

Por Fabricio C. Boppré em 04/01/2019

Um ano em que tivemos o lançamento de não apenas um, mas dois discos do Keith Jarrett, não pode ter sido de todo um mal ano. Dentre os dois CDs lançados por Jarrett — os dois pela ECM e os dois fabulosos — gostei mais de La Fenice, gravação de uma apresentação do mestre americano em Veneza, em 2006. Acho que de todos os músicos vivos sobre a Terra, de todos os meus ídolos que continuam trabalhando e se apresentando mundo afora, aquele que eu mais gostaria de ver ao vivo (e que não tive a oportunidade ainda) é Jarrett. E está mais do que na hora de cumprir essa missão, afinal, ele já não é mais nenhuma criança.

Dois outros pianistas figuram alto na minha lista de preferidos do ano: Lubomyr Melnyk com seu Fallen Trees e Yuja Wang com The Berlin Recital. O disco da chinesa, lançado pela Deutsche Grammophon, é de uma beleza de tirar o fôlego, em especial a interpretação da sonata de número 8 de Sergei Prokofiev, que fecha o CD. São 30 minutos mágicos, magistrais, que só resta agradecermos por terem sido gravados e estarem aí à disposição de nosso deleite individual privado e do futuro coletivo da raça humana perante algum júri cósmico vindouro. A eloquente e imediata ovação que a pianista recebe do público assim que mal termina de ressoar a última nota (o disco, como seu título deixa claro, é a gravação de uma apresentação ao vivo em Berlin) é justíssima. Que inveja dos afortunados que estavam lá assistindo! O ucraniano Melnyk também vem contribuindo, há tempos, para uma melhor figura da humanidade para além da nossa suja e alquebrada atmosfera: só fui escutar Fallen Trees nos últimos dias do ano, e não me esqueço do choque que foi a primeira faixa, Requiem for a Fallen Tree. Aqui estou inerte, rendido, sem palavras para descrever a beleza daquela voz sobre o piano de Melnyk, uma inesperada voz humana, melíflua e misteriosa, pairando quase sobrenatural por sobre o fluxo contínuo de notas de Melnyk, cortesia da cantora inglesa Hatis Noit. Esta primeira faixa, sozinha, é o tipo de prova inconteste de que música é a maior das artes, aquela que deveríamos eleger para preservação se fôssemos obrigados a manter apenas uma e dispensar todas as outras, pois é apenas através dela que certas coisas são acessíveis e expressáveis, coisas que de resto, sem a música, sequer teríamos desconfiança de suas existências. (E enquanto algumas outras vozes aparecem em duas ou três faixas mais adiante, entrelaçadas quase imperceptivelmente à tessitura do piano de Melnyk, confesso um ligeiro desapontamento com o fato da participação de Hatis Noit ficar restrita à primeira faixa: o que esses dois artistas juntos podem fazer e demonstrado assim logo de saída cria uma expectativa e uma hipnose sonora que infelizmente encerra-se ali mesmo. Ainda assim, o disco permanece magnífico o suficiente para ter sua posição assegurada aqui, e não apenas pelos inigualáveis méritos de Requiem for a Fallen Tree.)

Outro disco que tem Prokofiev como estrela entra na minha lista dos 14 preferidos: a violinista Lisa Batiashvili tocando obras do russo acompanhada do maestro Yannick Nézet-Séguin e da Chamber Orchestra of Europe, também este lançado pela DG. Na primeira peça, um excerto do balé Romeu e Julieta, a orquestra atrás da solista soa densa, grave, exatamente como eu acho que esta música exige, um sólido muro contra o violino de Lisa, que ainda assim, fazendo o papel que originalmente foi escrito para toda uma seção de cordas, ergue-se não sem certa petulância, sem certa rebeldia. Um começo e tanto. É a partir do Concerto para Violino nº 1, contudo, que os ricos contrastes e melodias da música de Prokofiev se tornam mais evidentes, com o violino da georgiana soando ainda lírico e liberto, porém encontrando, frequentemente, belos momentos de consolo e conciliação com a orquestra conduzida por Nézet-Séguin. O concerto de número 2, que ocupa a segunda metade do álbum, é não menos sensacional.

Está também entre meus favoritos de 2018 Steve Tibbetts e sua música líquida esparramando encanto e generosidade pelo mundo — que não tenhamos que esperar mais oito anos para que ele volte a gravar um novo disco! Vai saber o que pode nos acontecer até lá, considerando os lunáticos assassinos que estão tomando conta do mundo. Sobre os outros álbuns listados abaixo, alguns deles apareceram em meus comentários ao longo do ano; daqueles sobre os quais não falei nada, nem antes nem agora, digo o óbvio: são excepcionais. Nunca falta música excepcional no mundo. A estupidez e a violência nunca cessam; a reação contra elas também não.

E, como sempre, há dezenas de discos de bandas e artistas queridos(as) que ainda não escutei: Neil Young (tenho a impressão que estas listas complementares de não-escutados sempre começam com ele), No Age, Fucked Up, B.R.M.C., Dead Can Dance, Mudhoney, Mogwai, Ty Segall, Kurt Vile, Jeff Tweedy, Courtney Barnett, Behemoth, Mournful Congregation, Marduk, Body, a trilha-sonora que o Thom Yorke gravou para a refilmagem do Suspiria, Maurizio Pollini tocando Debussy, Angela Hewitt tocando Beethoven… Sobre alguns destes eu provavelmente comentarei algo no futuro, e prevejo que não faltará a anotação “se tivesse ouvido antes, este disco certamente teria aparecido na minha lista de preferidos de 2018”.

Bem, aqui vamos nós, mais um ciclo ao redor do sol, mais um ano que não demora muito e estaremos relembrando com nostalgia (a nostalgia, afinal, sempre manipula um pouco as lembranças), mais um ano a ser, em breve, acrescido em nossas contas pessoais, ou decrescido, conforme prefira-se ver. Da forma como vejo as coisas, nunca é inoportuno relembrar que nossa passagem pela Terra é uma ridícula d’uma efemeridade, uma gota no oceano, portanto irmos um pouco mais devagar, prestando um pouco mais de atenção ao caminho e em tudo que encontramos ao longo dele, não deve ser tão mal conselho assim. Atentemos, principalmente, às vozes que vivem sob o risco permanente de serem restringidas ou silenciadas. Na música e fora dela. Feliz 2019.

Os 14, em ordem alfabética:

  • And Nothing Hurt, Spiritualized
  • Bach: Goldberg Variations, Quatuor Ardeo
  • Bad Witch, Nine Inch Nails
  • Debussy, Stephen Hough
  • Fallen Trees, Lubomyr Melnyk
  • For My Crimes, Marissa Nadler
  • La Fenice, Keith Jarrett
  • Life Of, Steve Tibbetts
  • Lucus, Thomas Strønen & Time Is A Blind Guide
  • Music For Six Musicians: Hommage A Olivier Messiaen, Steve Swell
  • Rhea Sylvia, Thou
  • The Berlin Recital, Yuja Wang
  • The Polish Violin, Jennifer Pike & Petr Limonov
  • Visions of Prokofiev, Lisa Batiashvili, Yannick Nézet-Séguin & Chamber Orchestra of Europe

Categoria(s) associada(s): Melhores do ano



Nenhum comentário.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.