As belezas fugidias

Por Fabricio C. Boppré em 17/11/2017

Já faz mais de um ano que a música clássica tornou-se uma companhia praticamente diária em minha vida e eu queria dizer algo sobre isso, mas antes de começar me permitam um parênteses: publicar aqueles relatos mensais sobre discos escutados traz a vantagem adicional de me permitir localizar com precisão uma ou outra coisa na minha linha do tempo, o que resolve um problema que tenho desde que comecei a fazer um uso razoavelmente consciente da memória: o de nunca conseguir dizer, como tantas pessoas o fazem tão naturalmente, que tal coisa me aconteceu quando eu tinha 12 anos, outra foi em 2010, e assim por diante. Os fatos da minha vida nunca se colam às datas em que aconteceram; é como se fossem duas linhas retas (marcação do tempo e lista de eventos) correndo paralelas, ou seja, lado a lado mas sem nunca se tocarem para uma futura recordação de qual ponto de uma corresponde a determinado ponto da outra. Não que isso tenha alguma importância vital, e acho até que quando alguém diz “certa vez, quando eu tinha 7 anos…”, na maioria das vezes as pessoas estão chutando uma idade aproximada qualquer… Porém, agora eu posso dizer com plena certeza, pois pude conferir na lista de posts cá deste blog, que foi em 2016 — quando eu tinha 37 anos — que eu me tornei, finalmente, um amante da música erudita. (Pensando sobre isso dias atrás, eu achava que aquelas audições revelatórias de Schoenberg tinham se dado em 2015.) Foi quando saí do armário, por assim dizer, já que o interesse sempre existiu e audições esparsas também, mas desde o ano passado, quando penso em música, o que primeiro vem em minha mente são sonatas, sinfonias, quartetos de cordas, música de câmera, até mesmo missas e oratórios, e quando me perguntam o que eu tenho escutado, eu respondo: música clássica. Beethoven, Debussy e Prokofiev. E o que eu queria dizer a esse respeito é o seguinte: embora as explosões estelares previstas naquela ocasião não tenham se concretizado, algo em minha vida mudou, sim. Com essa música ao fundo da maioria dos meus pensamentos — a música e seus caminhos ora errantes e especulativos, ora arrojados e impetuosos; seus silêncios carregados e desvarios brincalhões; suas sofisticações e delicadezas — creio que passei a ver as coisas de modo diferente, tentando enxergar sempre além das superfícies, de forma mais compreensiva e paciente. Algumas leituras em paralelo têm também me ajudado a trilhar o caminho para este novo patamar, cuja visão em perspectiva diferente daquela a que eu estava habituado me confere uma calma que eu nunca havia experimentado antes, e isso tudo parece chegar no momento perfeito, uma sincronia que não sei se fruto de um felicíssimo acaso ou se de algum mecanismo biológico, alguma intuição dessas cuja origem reside nos instintos ainda não anulados, os que dão conta de captar os níveis de hostilidade no ambiente e, se for o caso, procuram modos de defender-se, mesmo que não se perceba de forma muito consciente esse processo em andamento. Em se tratando desta última hipótese, claro, não seria acaso nem sincronia coisa alguma — seria apenas o meu senso de sobrevivência em ação, a natureza perseverando por meio do meu corpo. Bem, não sei. Fato é que somente esse equilíbrio, essa serenidade, me parecem capaz de deter o desespero que, não fosse este o meu estado de espírito, pressinto que poderia invadir-me diante das visões sinistras do que vem ocorrendo mundo afora, a tragédia social no Brasil (que querem resolver, como é de praxe neste país, dificultando ainda mais a vida das multidões dos andares de baixo e salvaguardando os pouquíssimos dos andares de cima), a violência sem fim causada por fanáticos de todos os credos nos EUA e na Europa, a crueldade com que são tratados imigrantes por todos os portos e cidades do mundo, o inacreditável assanhamento de neo-nazistas por toda parte, enfim, parece-me às vezes que estamos perdendo o controle sobre as possibilidades de convivência global e está se tornando inequivocamente claro o quão ilusória foi, durante tanto tempo, essa bonita idéia de civilização. A calma dentro de mim, contudo, vem do olhar paciente e da música, da reflexão e da compreensão das causas e efeitos, dos motivos que nos enredaram e nos levaram a esta provação; vem de não sucumbir a estes motivos, de manter-se puro e generoso, mesmo contra tudo e contra todos, como um abnegado e resoluto cristão em tempos de bancada evangélica e de ganância e pecúlio como motores oficiais da sociedade; vêm, finalmente, de saber conservar em si, apesar de aqui na nossa escala humana as coisas estarem indo de mal a pior, saber exercitar e conservar a capacidade de maravilhar-se com este infinito que nos abriga, esse espaço sem intenções e ainda repleto de enigmas do qual somos apenas um ínfimo desdobramento, vagando por aí meio aturdidos e desamparados. “Receber de bom grado as belezas fugidias e ter pena dos sofrimentos fugidios, sem esquecer, por um momento sequer, o quanto são fugidios”, é um trecho de Santayana que li dia desses. Mesmo sendo essa insignificância cósmica, vassalos desses átimos fugidios todos, nós o constatamos — a seta do tempo nos dotou destes sentidos que nos permitem perceber, mesmo que parcialmente, a nós mesmos e ao universo, e assim vamos desvendando esta trama, pedacinho por pedacinho, expressando uns aos outros nossas visões por meio de modelos teóricos, fórmulas, filosofias, imagens, vamos diminuindo nossa importância perante tanto tempo e tanto espaço, e transformando tudo isso, também, em música. Não raro, o fazemos com máxima beleza através de quartetos de cordas, e o paradoxo da economia de recursos deste formato conseguir alcançar tão amplos resultados — tocar o zênite daquilo que se pode ver e sentir através de sons — é isto o mais fascinante de tudo. A chave, creio eu, está na beleza elusiva do som desses instrumentos, que parecem falar diretamente àquela parte nossa que, mesmo que não queiramos escutar sua voz silenciosa, mesmo que nos esforcemos em soterrá-la sob alguma crença de imortalidade ou qualquer outro tipo de negação da morte, a parte nossa que sabe que iremos, em breve, desaparecer, nosso sentido inato de saber-se passageiro, um amontoado circunstancial de matéria auto-consciente, fugidia tal qual o som de um violino. Parecem compartilhar algum segredo, os violinos e nossas almas; “aproveite o privilégio e agarre-se à beleza instantânea do real e do imediato”, é a dica que o instrumento se permite nos confidenciar. Sempre tenho impulsos de sair indicando para todo mundo os melhores discos com quartetos de cordas que escuto, pois não consigo imaginar forma melhor de exercer esta minha preferência radical por altruísmo e bondade, não consigo imaginar que a beleza destes discos vá passar desapercebida por quem escutá-los… Não, algumas dessas obras enriquecem e mudam vidas, mudanças decisivas que, multiplicando-se, podem finalmente nos desviar dessa rota funesta em que nos metemos. Pureza e generosidade; “… sem esquecer, por um momento sequer, o quanto são fugidios”. Cedendo então a este impulso, vou indicar aqui três discos de quartetos que me assombraram e me comoveram nos últimos dias. O primeiro é francês do início ao fim: Constellations traz três dos maiores filhos da França — Ravel, Debussy e Dutilleux — interpretados pelo Quatuor Psophos, grupo nascido no Conservatoire National de Lyon. Tenho a impressão de que não são muitas as obras para quarteto de cordas escritas por franceses; esses três compositores, por exemplo, escreveram somente uma cada um deles. E, no entanto, que tesouros! Admiro particularmente o quarteto de Ravel, um compositor de quem tenho aprendido a gostar cada vez mais. O segundo disco é o quarto volume da série Harmonia Nova, projeto que o grande selo francês Harmonia Mundi iniciou este ano com o intuito de divulgar artistas jovens e promissores (solistas ou conjuntos de câmara), e que nesta edição traz o espanhol Quartet Gerhard tocando obras de Schumann, Berg e Kurtág. Por fim, a terceira dica traz os veteranos suíços do Carmina Quartet tocando os dois quartetos do polonês Karol Szymanowski. Tenho uma queda pelos compositores do leste europeu e sua música, em geral, plangente e enigmática, e estes dois quartetos são justificativas cabais para esta minha preferência. E tem espaço no disco ainda para Langsamer Satz, pequena e lindíssima peça de Webern cuja melodia de abertura é daquelas coisas que se escuta uma vez e não se esquece nunca mais, talvez por assemelhar-se a alguma espécie de protótipo perfeito das melhores trilhas-sonoras dos anos de ouro de Hollywood… E olha que Webern estava no núcleo duro da Segunda Escola de Viena, o grupo radical que praticamente fundou a música contemporânea com seus experimentos com atonalidade, dodecafonismo, serialismo, etc. Pois é, os mestres são os mestres, e música é música.

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Créditos da imagem: Quatuor Psophos em foto de Marie Julliard, copiada daqui.



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