Discos do mês - Junho de 2016

Por Fabricio C. Boppré em 06/07/2016

Midnight Oil: 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1

A notícia da reunião desses moços para uma turnê em 2017, que li no final de maio, reativou minha sede de Midnight Oil. Eu nunca fico muito tempo sem escutá-los, mas seria pouco provável isso acontecer com a intensidade com que de fato aconteceu naquela ocasião, sob aquele frio glacial que vinha fazendo umas semanas atrás. Temperaturas congelantes, que nos põem sob quilos de roupas e cachecóis e nos fazem travar uma cansativa batalha por aquecimento, de preferência dentro de casa, esse tipo de clima costuma designar às minhas trilhas-sonoras os sons mais densos ou então os mais acolhedores, sons que de uma maneira ou de outra sirvam como abrasadores, uma conveniência que — pelo menos de acordo com os meus critérios e manias muito particulares — em nada combina com a experiência que é ouvir estes amotinados da costa australiana reclamar histericamente de corporações e interesses privados loteadores de praias e florestas, o que fazem por meio de um híbrido extravagante de pós-punk e melodias perfeitamente radiofônicas. Não, não era a época para ouvi-los… Mas o Midnight Oil é a minha banda. Digo isso de forma definitiva. Bem sei que já devo ter dito algo similar sobre o Jane’s Addiction, talvez Pearl Jam ou R.E.M., que são todos grupos que eu amo… Mas é o Oil! São eles a banda de quem primeiro me tornei fã com toda a seriedade possível para esse tipo de coisa na infância — um despertar para o que viria a ser a música na minha vida, digamos. Evidente que muitas outras estavam naquele caldeirão inicial alimentado pelas rádios e amigos e trilhas-sonoras de novelas, porém a grande maioria delas hoje é só fetiche, ao contrário do Oil, com quem meu relacionamento foi ficando mais e mais sério à medida que a adolescência avançava, o que teve como efeito torná-los a banda mais frequente no fundo musical de muitas das minhas memórias mais queridas. Foi também o primeiro grande show de rock que eu fui, e, como se já não bastasse tudo isso, é daquelas raras bandas que autorizam plenamente aos seus fãs o requinte de se ter orgulho de ser fã — orgulho insolente mesmo, de fazer tatuagens e colar pôsteres na parede do quarto e tudo mais — devido à postura e ao ativismo político que sempre foram parte fundamental do espírito do grupo, e nada de jogo de cena aqui para engabelar jovens rebeldes de classe média, como na maioria dos casos — as histórias a corroborar a genuinidade das posições da banda são muitas. Enfim, botei pra tocar algumas vezes o Breath, um dos meus amuletos sagrados, e também o Scream in Blue, esse disco ao vivo em que o “eletrizante” normalmente empregado para descrevê-lo é algo quase literal, e principalmente o 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1, o quarto LP da carreira do Oil, altivamente recheado de clássicos como Short Memory, Read About It, US Forces (que nunca faltou nos setlists da banda, mesmo nos show nos EUA), Power and the Passion e Tin Legs and Tin Mines. Poucas vezes uma voz soou tão perfeitamente aninhada nos veios de uma torrente de guitarras como a de Peter Garret soa em Only the Strong (que por mais sensacional que soe aqui em sua encarnação oficial de estúdio, é a versão maníaca e incendiária do Scream in Blue que vai ficar para a eternidade); poucas bandas, dentre as que falavam às massas, escreveram músicas mais incisivas sobre as grandes questões de nosso tempo (“wake up in a sweat at dead of night, and in the tents new rifles, hey, short memory!”); poucas bandas fazem mais falta ao mundo do que o Midnight Oil, a quem não se aplica, de maneira alguma, as suspeitas que sempre recaem sobre os grupos que se reúnem anos após se separarem. Ainda há razão e motivos para o Oil existir, então, como dizem os fãs: let the Midnight Oil burn again!

Lou Reed - Legendary Hearts

Minha intimidade com a discografia solo do Lou Reed é irrisória, vergonhosamente quase nula. Ouvindo esse Legendary Hearts, é com certa tristeza que eu me dou conta disso. Ocupados que passamos nossas adolescências com os sons bombásticos e tonificantes como Pearl Jam, Nirvana e Midnight Oil, os de beleza incomensuráveis como Pink Floyd e Led Zeppelin, e os infantis e escapistas como Iron Maiden e Ramones, acabamos por vezes deixando passar os que não contam com nenhum desses predicados, mas cujas virtudes advindas do comedimento e da poesia de métrica justa aos poucos vão nos atraindo. Sem epifanias ou eloquências arrebatadoras, mas de forma persistente e calorosa, como um descansado sol de outono em oposição às lascividades do verão. E então se dá a mágica e encontramos finalmente espaço para mais música no baú de tesouros de nossas vidas. O Transformer — o único disco do Lou Reed de que eu posso dizer ter já uma afinidade mais antiga — já deveria ter me ensinado tudo isso há mais tempo, mas tudo bem: a descoberta é sempre um prazer, um deleite de efeito até mesmo rejuvenescedor, portanto bem-vindo a qualquer época.

LaSalle Quartet - Schoenberg: Complete String Quartets

Então, finalmente, o inverno fez valer suas prerrogativas, e é isso que venho escutando nos últimos dias: Debussy, Liszt, Ligeti, Strauss, Schoenberg. Assim falou Zaratustra, de Richard Strauss, é algo tão monumental e acachapante que eu nem me atrevo a escrever sobre. As sinfonias de Mahler, ouso dizer aqui do alto do meu amadorismo no assunto, deveriam conferir a este compositor a mesma estatura colossal de Beethoven. E as maravilhas de Bach, e Mozart… De todo modo, tenho me interessado mais pelas coisas que vieram depois dos grandes mestres daquele antiquíssimo mundo pré-fotografia, mestres eternizados em lendas e bustos de feições severas: venho ouvindo principalmente àquilo que convencionou-se chamar de “A segunda escola de Viena”, formada pelos herdeiros da venerável patota vienense, rebeldes de monóculos e comportamentos ambíguos que ousaram experimentar e levar adianta a musica clássica, debatendo-se sobre questões acerca da então nascente música popular, o papel da música erudita no século XX e a, porque por que não?, quebra das normas e regras estabelecidas pelos cânones, o que passava por questões técnicas como a atonalidade e a emancipação de acordes e harmonias que eram tidos como anátemas entre compositores, público e crítica. Debatiam também muito acerca de sexo, religião e política — era o início dos anos 1900, afinal, era a Viena de Freud — mas isso não vem ao caso. É também aqui um aprendizado; meus primeiros contatos com música clássica datam da infância, pois eu tinha um avô que gostava e escutava muito, e depois que ele faleceu eu herdei muitos de seus discos, uma porção de vinis e CDs que atravessa uns bons três séculos de música e aos quais sempre escutei de forma esparsa e desatenta, sem ter até hoje sustentando um período mais longo de interesse e audições a ponto de poder dizer que eu manejo bem os vocabulários da música clássica. Não, longe disso — contudo, pressinto que isso pode iniciar-se a qualquer momento, e será como a explosão de uma super-nova e o consequente nascimento de um buraco-negro! Uma pequena revolução em minha vida, quero dizer, retomando aqui o equilíbrio e a sobriedade. Ópera, na verdade, não me interessa muito; já entre as sinfonias clássicas existem coisas que soam maravilhosas aos meus ouvidos, mas muitas também, confesso aqui um pouco encabulado, muitas não conseguem prender minha atenção por muito tempo. Já as peças para piano e para cordas dessa turma do segundo advento de Viena (Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg formam o triunvirato), e também Béla Bartok e Stravinsky e outros mais contemporâneos como György Ligeti e Arvo Pärt, isso tudo me fascina enormemente, sem nenhuma dificuldade ou estranhamento. Os Quartetos para Cordas de Schoenberg têm sido até mesmo uma monomania nos últimos dias, uma música que não sai da minha cabeça, uma tensão controlada e estendida que me faz sentir permanentemente dentro de um filme, e um filme muitíssimo bom, de fotografia hipnótica e uma atmosfera de mistério e sutilezas. Apesar do caráter fluído, o mais intrigante desse ciclo de música é o seu começo, precisamente o começo do quarteto número 1, pelo qual sempre inicio: é como acordar de um pesadelo, mas ao contrário: é imergir em um pesadelo, desacordar diretamente em seu âmago mais constrito. Nada de violência ou desespero, mas ainda assim uma forma de instabilidade, uma música que parece estar em conflito consigo mesma, totalmente alheia, um drama de vultos esvanecentes que se passa em esferas mais elevadas, o que nos permite, no fim das contas — e de fato acenando, convidando-nos maliciosamente — a permanecer dentro dela, em segurança, apenas admirando a intempérie desenrolar-se ao redor.

Categoria(s) associada(s): Discos do mês



Nenhum comentário.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.