Discos do mês - Julho de 2017

Por Fabricio C. Boppré em 01/08/2017

Savages: Silence Yourself

O mais recente disco das Savages — aliás, antes de começar: eu sempre uso o artigo “o” ou a contração “do” para me referir a um grupo, justamente porque sempre penso em “grupo” como o termo subentendido, mas no caso das Savages, excepcionalmente, me parece mais adequado “as” e “das”, então assim vou me referir à elas, e não, isso não tem importância alguma, mas não consegui deixar de explicar isso, não sei porquê — eu dizia, o último disco das Savages, Adore Life, lançado no ano passado, é muito bom, mas na minha opinião não bate o primeiro, Silence Yourself. Ouçam esse disco, quem não o fez ainda, e me digam se é possível não amar essa banda. Ali está um conjunto de canções que não têm lá grandes virtudes especiais em termos de composição, nenhumas delas é memorável a ponto de entrar para o panteão das melhores canções de rock de todos os tempos, nenhuma delas é aspirante a clássico eterno; a precisão e a paixão da banda na execução de cada uma delas, no entanto, a convicção dessas moças no que fazem, é de arrepiar. É a convicção de um olhar do Bruce Lee, mirando 30 oponentes e sabendo que vai derrubar todos eles, um por um e em tal e tal ordem. O disco é feroz e impetuoso, cada momento é como o último da vida, e elas, as Savages, parecem ter uma missão: é disso que são feitas as bandas de rock que realmente interessam.

Paul Lewis: Liszt - Sonata in B minor

Certa vez, me vi numa loja de discos com três ou quatro gravações da Sonata in B minor (“em Si menor”, em português) de Franz Listz em mãos, em dúvida de qual levar. Aquela que eu procurava, a mítica versão gravada pela pianista argentina Martha Argerich em 1971, eu não encontrara, infelizmente — acho até que está fora de catálogo, só sendo possível adquiri-la, atualmente, se não for uma cópia usada do disco original com muita sorte achada em um sebo, então através de algum dos muitos box sets ou compilações que saem anualmente em homenagem à obra de Argerich. As versões que eu tinha em mãos eram todas de pianistas que eu não conhecia, à exceção de um deles, o inglês Paul Lewis, de quem eu já ouvira algumas boas gravações de Schubert e também já o havia visto in concert, em uma apresentação do Concerto para Piano No. 1 de Brahms junto à Filarmônica de Paris. Sendo este o único fator de desempate possível naquele momento, acabei levando a versão de Lewis. A sonata de Liszt é uma dessas músicas absolutas, incompreendida em seu tempo (como é tão comum — quase regra — ter acontecido com as obras-primas quando analisadas em retrospectiva) devido principalmente à estrutura de seus movimentos, mas para além das questões históricas e conceituais, ela é simplesmente magnífica, música universal. A performance de Lewis, no entanto, começa meio incerta, ao meu ver. Sua mão está meio pesada nas notas iniciais, e a construção da melodia — a apresentação do tema, como costumam dizer — vai se dando de maneira algo mecânica. Mas parece ser apenas uma questão de aquecimento, no fim das contas; já na metade do primeiro movimento Lewis começa a apresentar sinais de possessão pelo espírito do compositor húngaro, e dali em diante a coisa segue excepcional até o fim. Em tempo: comparações com a versão de Martha Argerich são covardia. A argentina, em sua gravação desta sonata, incorporou Liszt plenamente (além de compositor, ele era também um virtuoso no piano) e parece deslizar sobre as teclas do instrumento movida por forças outras que não meramente as motoras exercidas por dedos feitos de carne e ossos.

Maurizio Pollini: Beethoven - Complete Piano Sonatas

Essa habilidade sobre-humana, no entanto, não é exclusividade de Argerich. É muito difícil assistir ou escutar às performances extraordinárias dos maiores pianistas de todos os tempos e não ceder ao impulso de atribuir-lhes poderes miraculosos. Mas são apenas hipérboles, claro, os elogios entusiasmados que esses mestres merecem. O italiano Maurizio Pollini é outro pleno merecedor destes louvores que têm que buscar nas metáforas sobrenaturais um termo justo de descrição. Enquanto Mitsuko Uchida é, para mim, a psicógrafa definitiva de Schubert, Pollini é o mestre insuperável das sonatas de Beethoven. Sobre este conjunto de obras do mais famoso dos alemães (o sujeito deplorável que talvez algumas pessoas se lembrem primeiro não era alemão: era austríaco), não é necessário dizer muita coisa: poucas criações humanas ombreiam-se com elas. A atuação de um pianista, no entanto, é sempre um fator decisivo, e depois de ouvir Pollini tocando, por exemplo, a sonata de número 29, apelidada Hammerklavier, somos obrigados a render a ele quase que a mesma exaltação daquela dirigida ao compositor da música. Tenho a impressão que é muito difícil identificar as fronteiras dos méritos e dos talentos, quando a coisa chega em um determinado altíssimo nível — uma espécie de exosfera musical — é muito difícil separar e dedicar esse ou aquele elogio ao compositor e esse ou aquele elogio ao instrumentista, pois este e aquele estão, de algum modo, por alguns momentos, um dentro do outro, um falando pelas mãos do outro, outro olhando pelos olhos do um. Nem o pequeno inconveniente de um deles estar morto há quase dois séculos parece importar nessa hora. Para se atingir os tantos momentos sublimes que há na caixa das sonatas completas de Beethoven gravadas por Pollini, é certo que só os talentos naturais do pianista não bastam: é também necessária essa forma de mediunidade, de recuperar o momento da criação e trazê-la ao presente e ambos os protagonistas atuarem simultaneamente com as fronteiras entre os seus espíritos embaralhadas. São poucos, evidentemente, os que dominam essa arte, mas Maurizio Pollini e Martha Argerich são duas unanimidades.

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