Discos do mês - Novembro de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 30/11/2015

a-ha - Scoundrel Days

Nos últimos dias, finalmente, apareceram algumas frestas na trilha-sonora metálica que vem sendo a tônica dos meus últimos dois ou três meses. É que o calor do verão fez uma primeira e intensa aparição, e em dias quentes e suarentos eu não consigo ouvir metal, por maior que seja o meu entusiasmo atual com o gênero: o peso e os berros e a rispidez generalizada tornam ainda mais desconfortável algo que já me é, por si só, bastante incômodo e desagradável, nessa época da vida quando já não se pode ou não se tem mais a disposição de simplesmente largar tudo e ir para a praia se está muito quente (deve ser o que chamam de “fase adulta”). E andei também bastante atarefado com muitos trabalhos acontecendo simultaneamente, e nessas situações, quando não há muito tempo ocioso para ficar navegando pela discoteca para escolher o que ouvir, acabo frequentemente indo direto aos meus discos mais velhos e queridos, aqueles de quem eu sou totalmente íntimo e que me transportam para as zonas mais familiares e aconchegantes. Os últimos dias, por exemplo, comecei-os todos ouvindo o Scoundrel Days, do a-ha, que descobri ser, junto de uma bela xícara de café com leite e o ar ainda fresco das primeiras horas da manhã, o arranjo perfeito para estabelecer logo cedo um estado de espírito propício para o trabalho concentrado. Amo muito esse disco, e tenho alguma dificuldade em distinguir se ele tem de fato algum mérito artístico ou se essa afeição toda se dá pelo fato muito pessoal de ter sido meu primeiro CD e eu tê-lo escutado já infinitas vezes a ponto de poder dizer, atravessando a fronteira última da metáfora com o literal, que esse disco faz parte de mim. Sim, porque suas dez músicas estão — creio que podemos especular essas coisas sem ofender demais os neurologistas, já que, pelo o que eu sei, o cérebro ainda conserva grandes mistérios para a ciência — estão todas elas entranhadas em meu cérebro da maneira mais física e biológica possível. Mas, fazendo um esforço para me distanciar um pouco de mim mesmo, acho que ele tem sim algum mérito, não? A música de abertura, para uma banda que ficou inicialmente famosa por frivolidades como Take on Me, é altamente ousada e intrigante: começa a fluir misteriosa como uma história de suspense bastante requintada e algo sobrenatural, para muito além da toada new age tão em voga à época, até explodir em um magnífico refrão que nesta sua primeira ocorrência muda o curso da trama, do suspense apenas sugerido e levemente inquietante para o de pesadelo acelerado e asfixiante. E por fim, a redenção. Acho-a fantástica, verdadeiramente uma ótima música que eu nunca, se não o soubesse com antecedência, acreditaria ter sido composta pela mesma banda de You Are The One. The Swing of Things é outra cujo mérito não acho possível atribuir somente à nostalgia, tampouco The Weight Of The Wind, que sempre me soou o tipo de coisa que poderia vir das cinzas do Joy Division caso fosse o destino incontornável delas se tornar uma banda de synthpop, mas que dessa predestinação tivesse surgido afinal algo melhorzinho do que o New Order. Por fim, The Soft Rains of April é simplesmente linda, mesmo que você odeie com todas as suas forças os anos 80 e defenda que deve ser atribuída ao a-ha a paternidade das boy bands que vieram logo na sequência, New Kids on the Block e Backstreet Boys e aberrações desse tipo. O que não é de todo impreciso, devo concordar… Mas nesse disco, pelo menos nesse disco, estou quase certo de que há a forte sugestão de que existia alguma coisa mais além da superfície do trio norueguês.

Sunn O))) - Terrestrials

Tem disco novo do Sunn O))) prestes a chegar às melhores lojas do ramo, confere? Então é bom já ir me acostumando com a idéia de não saber quando deverei finalmente escutá-lo. Afinal, uma loja que tenha o novo disco do Sunn O))) não é uma loja circunscrita a um raio de 10.000 quilômetros a partir de onde moro. Encomendá-lo, no momento, não parece boa idéia, pelas questões econômicas todas expostas em letras garrafais 24 horas por dia nas capas dos jornais e portais de notícias, como se fossem a performance da economia, o PIB e as taxas de câmbio as coisas mais fundamentais para a continuidade do universo. Tampouco baixá-lo em mp3 é uma opção: Sunn O))) é pra ouvir através do ritual sagrado do álbum físico e uma hora toda dedicada unicamente a ele. Então, e não havendo viagem prevista para os próximos meses, o negócio é resignar-se e controlar a curiosidade, ou mesmo tentar desfrutar dessa expectativa, afinal, já diziam nossas mães às vésperas das festinhas de aniversário da infância, o melhor da festa é esperar. Não que naquela época adiantasse muito acreditar nisso, mas hoje que somos finalmente adultos, tem que funcionar. Além do que, tenho ainda coisas deles por escutar: Soused, lançado ano passado em colaboração com o cantor Scott Walker, eu vou adiando sem maior interesse pois tenho a suspeita forte de que não vou gostar; já a outra colaboração do ano passado, Terrestrials, com o Ulver, esse eu tenho escutado e gostado muito. É música que parece vazar de um céu baixo e apocalíptico, um apocalipse lento e bonito de se ver, música sacra para as novas gerações que já não se preocupam muito com o fato de sermos, cada um de nós, o resultado de um ato carnal impuro e hediondo praticado pelos pecadores desavergonhados dos nossos pais, mas que temos todos ainda, em maior ou menor grau, essa atração pelo desconhecido, pelo mistério, pelos enigmas insondáveis — enfim, que temos ainda anseios por algum tipo de religiosidade. Para nós, seres da primeira era internética, Sunn O))) é a igreja!

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6 comentários:

  • Vicente em 30/11/2015

    Vou baixar e comprar o O))) novo, vou enfrentar os paradigmas econômicos, vou encarar a besta nos olhos às custas de meu árduo suor. Por sinal vazou nesse final de semana, porém, um rip de vinil pois o disco foi um dos títulos da RSD 2015 e nesse momento compõe a coleção vinílica de alguns ouvintes apressadinhos que já trataram de colocar seus TDs USB em ação. Não ouvi, ou melhor, ouvi um pouco e achei que o rip do vinil não é mínimo para transmitir o básico do earthshaking que um bom MP3 conseguirá produzir. Parei, deletei, foquei na iminiência de um leak melhor.

    Quanto ao Terrestrials, acho o disco mais fraco deles, disparado. Nunca conseguiu me convencer, nunca me passou um senso de unicidade. Soa como um disco do Ulver que ganhou coberturas irrelevantes de guitarras via internet para justificar a insígnia, o que provavelmente corresponde com o que de fato ocorreu. Ouvi novamente esses dias… não é uma audição intrigante o suficiente para mim. Sorry!

    O disco com o Scott Walker é melhor, embora ache que ele foi um pouco “corrido”. Ele está para o Sunn O))) como o Mirrorball está para o Pearl Jam: por mais que a banda tenha integrado a totalidade da criação, ainda é um disco do Neil Young acima de qualquer coisa. Pois bem, Soused é um novo capítulo da discografia do Sr. Walker. Quem não curte o som dele, dificilmente será convertido pelo fato dos metaleiros darem sua mão pesada.

  • Fabricio C. Boppré em 30/11/2015

    Estás completamente errado em relação ao Terrestrials. [risos]

  • Fabricio C. Boppré em 30/11/2015

    Por [risos] entenda-se alguma dessas carinhas amarelas que as pessoas usam, especificamente aquela que significa “estou só brincando”, mas que como sou um estúpido para muitas coisas do mundo internético, eu não sei como usá-las, nem sei se o site aqui comporta as carinhas, então vai o bom e velho [risos] mesmo, do qual não abro mão desde 1999.

  • Vicente em 01/12/2015

    Plenamente compreendido. :-D

    E voila:

    http://www.rollingstone.com/music/news/hear-sunn-o-s-bright-drone-metal-return-lp-kannon-20151130

  • Fabricio C. Boppré em 01/12/2015

    Pois é, eu vi, mas vou resistir, cara… Vou deixar para escutá-lo no dia (indeterminado) que tiver o disco em mãos.

    Tu vais encomendar pela Southern Lord, Vicente? Aliás, se o fizéssemos juntos, será que haveria alguma vantagem para nós?

  • Vicente em 02/12/2015

    Na verdade, já foi encomendado há algumas semanas. De qualquer forma, depois que há uns dois anos a USPS reavaliou os preços dos transportes, eles meio que atrelaram os valores aos pesos, não havendo mais vantagens em aumentar o peso por entrega pois se criou uma proporcionalidade a partir dali. Mais um desafio para quem aceita contrariar a nova ordem mundial de se escutar música.

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