Discos do mês - Outubro de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 31/10/2015

Que me perdoem os meus quatro ou cinco amigos que mantêm o excêntrico hábito de vir aqui mensalmente ler sobre o que eu andei ouvindo nas últimas semanas, mas novamente eu só posso escrever sobre metal. Outubro, além de ser o mês do Halloween, tem sido chuvoso e sorumbático, de modo que não há como escapar desta trilha-sonora. Correndo o sério risco de me tornar um chato monotemático, começo dizendo novamente que a atual variedade de bandas, estilos, ambições e influências retroalimentando-se e expandindo fronteiras tornam o cenário metálico muito rico e estimulante, mas dessa vez vou ainda mais longe e acrescento o seguinte: tem sido a experiência mais intensa e memorável de toda minha trajetória de viciado em discos e música. Sim, mais extraordinário do que os anos 90, aos quais eu ainda sou todo ternura e nostalgia e gratidão, mas terei obrigatoriamente de colocar em segundo lugar caso alguma dia tenha que fazer uma lista de quais foram as coisas que mais me entusiasmaram em matéria de música, em toda minha vida.

O fator crucial dessa empolgação toda é que o metal continua sendo, essencialmente, um marginal, uma forma de expressão insubmissa e feroz que insiste em operar seguindo única e fielmente os seus princípios e filosofias originais, não tendo sido arregimentada por interesses externos de nenhum tipo, pelo menos não na quantidade mínima necessária ao contágio fatal do todo — refiro-me, principalmente, às forças mercadológicas que todos sabemos quais são, e para às quais o rock revela, vez ou outra, uma perfeita aptidão que põe tudo a perder, por pelo menos algum período de tempo, fechando e reabrindo ciclos interminavelmente. O metal não se presta a isso, não tem como se prestar, pois está em seu código genético ser justamente o contraponto, o amparo dos rebeldes, o refúgio final para aqueles que não fazem concessões e cujos ouvidos apurados (eu ia escrever “refinados”, mas de algum modo essa palavra não me parece adequada aqui…) exigem que sua música seja acima de tudo íntegra e humana, mesmo com todas suas falhas e peculiaridades, de tal modo que se possa acreditar incondicionalmente nela e até mesmo viver por ela. Uma questão de independência e pureza. É isso que faz o metal ser aparentado — já meio distantes a essa altura da história, evidententemente, mas essa essência distintiva é ainda reconhecível em ambas as derivações — à música clássica e não raro o fã de uma é fã da outra também, ou ao menos se respeitam e dialogam em algum nível meio torto de afinidades.

E tem sido uma aventura fantástica acompanhar a evolução disso que já foi apenas um gueto de cabeludos desajustados. Pegue o Thaw, por exemplo, que eu recomendei no post anterior. Seu primeiro disco é de uma fúria tão selvagem e lancinante que parece o tempo todo prestes a transbordar os limites de sua existência sonora, a brutalidade em sua forma mais convicta e limítrofe. E, tendo chegado à beira do abismo logo em seu primeiro disco, só lhes restou dar o passo adiante e mergulhar e ir além: eles acabam de lançar um novo álbum, chama-se St. Phenome Alley e é esplêndido. Duas longas músicas instrumentais, mas nada de fúria descontrolada destruidora de tímpanos, e sim uma longa textura sonora que vai lentamente coagulando e criando uma atmosfera de tal modo densa que é quase como emergir em meio ao cenário daquele obscuro filme pós-apocalíptico russo, tão depressivo e sufocante que quando enfim lhe ocorre a pergunta óbvia — “por que diabos é que eu amo esse cenário e gostaria de morar dentro dele, sendo ele tão horrível?” — aí então você tem a resposta esfíngica para o mistério da arte, aquela que ninguém ensina para ninguém: aprendê-la é possível apenas solitária e intimamente. O tipo de revelação que cria sentidos ainda mais amplos para a vida. Sim, eu tenho perfeita noção do quão bombástica e pretensiosa é essa última frase, e mantenho-a aqui mesmo assim, para ver se consigo dar uma dimensão do meu entusiasmo com essa banda polonesa.

O Thaw é um exemplo dessa vertente experimental que tateia caminhos novos e profundos, que podem até fazer alguém se perguntar se isso é realmente metal (a resposta é sim, isso é muito metal, ainda que misturado com outras coisas afins), mas também as bandas cujo som é mais calcado nas trilhas já percorridas pelos mestres do passado vivem um momento iluminado. O Bandcamp se consolidou como meu segundo site favorito, e lá descobri o Indesinence, cujo disco III, lançado em julho desse ano, eu tenho escutado quase todos os dias. Lembro que na primeira audição a coisa não estava empolgando particularmente; eu adoro doom metal, esse veneno entorpecente que foi fervido pela primeira vez no caldeirão da banda-mãe de todas as bandas do mal, mas muitas vezes esse tipo de som funciona melhor como uma trilha de fundo para te colocar num ritmo de trabalho, ou num transe para outras atividades menos produtivistas, enfim, não raro a coisa transcorre meio vaporosa e inerte, e a audição desse disco vinha sendo exatamente assim, até que de repente, inesperadamente, a faixa número cinco, Mountains Of Mind/Five Years Ahead (Of My Time), me nocauteou de maneira espetacular. Vai lá e ouve.

Para fechar, duas menções rápidas, que não posso omiti-las: o Kylesa não decepciona nunca. Também o som deles está em franca evolução rumo ao desconhecido, e o convite para acompanhá-los é irrecusável. O novo capítulo desta jornada que ganha cada vez mais ares de cósmica chama-se Exhausting Fire e estará provavelmente entre meus discos do ano. E outra banda que conheci via Bandcamp deverá estar também na minha lista de melhores de 2015, o Thou. Diferente do Indesinence citado acima, o Thou posicionou logo no início de Heathen a sua música mais monumental. Ouça pelo menos essa primeira faixa e me diga: quando aquele vocal vindo de profundezas abissais começa a revelar malignamente que “we are the stone that starts the avalanche, we are the cough that spreads the plague, we are the spark that lights the inferno, we aaaaaaareeeee…”, aquilo ali é algo muito arrepiante e maravilhoso, né não? Bem, é claro que eu consigo compreender que indivíduos de inclinações mais solares ou delicadas percebam esse som como algo absolutamente intragável… Mas a virtude de enxergar a beleza dessa ruína em forma de música torna a nós, os metaleiros, no mínimo, seres com maiores habilidades de adaptação e apreciação da natureza, afinal, o futuro me parece cada vez menos com aquele plácido paraíso cheio de famílias e animais em sorridente comunhão que ilustravam os folhetos que as Testemunhas de Jeová nos entregavam antigamente, quando vinham aos pares bater em nossas portas para tentar nos converter.

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2 comentários:

  • Sid Costa em 01/11/2015

    Minha bronca com o heavy metal vem de bandas do famigerado Metal Melódico e com o esteriótipo do metaleiro clássico e sua camisa do Powerslave. Eita coisa chata do cacete. Vez ou outra eu até escuto um Judas Preist ou Iron Maiden, mas o que eu gosto mesmo é de sons pesados, lentos e densos. Acho as cenas Drone e Stoner muito boas, afinal sou fã do Sabbath e sabe como é… A última banda que é mais aparentada do heavy/trash tradicional que me ensusiasmou foi o Mastodon, que à propósito, fez um puta show no rock in rio. Esse Thau é bom mesmo. Quando você falou que eles havia se jogado no abismo lembrei daquela frase clichê, quando você olha para o abismo, o abismo olha de volta para você.

  • Fabricio C. Boppré em 01/11/2015

    “sons pesados, lentos e densos”: maior delícia do mundo, Sid! (Musicalmente falando.) Metal melódico eu também não suporto, cara. Falando em stoner: já ouviu Uncle Acid? Não é bem stoner da linha Kyuss, mas acho que tu vai gostar.

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