Sobre cisnes e espíritos

Por Fabricio C. Boppré em 09/07/2015

Aqueles 43 dias passaram muito rápido. O show do Swans foi ontem, e me encontro neste momento ainda algo aturdido e sob forte impressão do que vi, ouvi e senti. Pensei em escrever um longo e elaborado relato lá para a nossa empoeirada seção de shows, mas sabendo que não terei muito tempo disponível para isso nos próximos dias, tentarei então ao menos esboçar umas notas rápidas por aqui, aproveitando que a experiência ainda está trepidando por todo meu corpo e as poucas horas de sono pós-show não foram suficientes para engavetar de vez boa parte das lembranças que em breve, eu sei, irão passar a habitar alguma parte menos conscientemente acessível da minha memória. Foi o show da minha vida, isso eu digo logo de uma vez; houve um momento, quando a apresentação, embora recém-iniciada, já estava repleta de uma intensidade sensorial colossal, que eu tive a nítida impressão de que tinha atravessado toda minha vida, 36 anos até aqui, apenas para chegar ali naquele momento — aquele era o ápice da minha vida e também conclusão prévia e irrevogável de que tudo valeu muito a pena, aconteça o que acontecer daqui por diante. A alegria era imensa, mas esse pensamento me angustiou um pouco, confesso, pois ainda me sinto jovem e sadio e curioso. Depois percebi que era uma bobagem, o típico entusiasmo hiperbólico que nasce desse tipo de euforia profunda, e relaxei e aproveitei o resto da noite. Deixo, porém, esse pequeno episódio registrado pois acho que não há como ilustrar melhor o que foi este show, esse enlevo religioso e prolongado que por várias vezes deu um nó na minha garganta, e esse nó subia para algum ponto atrás do crânio e transferia-se para o fundo dos olhos e eu pensava, vou chorar. (A primeira vez que isso me aconteceu foi num show do Medeski, Martin & Wood, e naquela ocasião eu me segurei; sobre ontem eu já não posso dar nenhuma garantia de ter conseguido novamente.) Uma descrição factual plena e justa sobre o show em si é inconcebível dadas as limitações das palavras — ou, pelo menos, impraticável dadas as minhas limitações no manejo delas —, mas uma coisa em relação ao Swans, algo que muita gente tenta articular depois de assisti-los e só é mesmo possível compreender depois de presenciar, é que a massa sonora radical que aqueles senhores criam no palco não é mais uma mera questão de forma, ou de técnica, e de equipamentos bons o suficiente em providenciar volume: ela é forma e também conteúdo, e possivelmente mais alguma outra coisa ainda não compreendida e decifrada por ninguém, alguma outra coordenada oculta inerente ao mistério fundamental da vida, tudo isso conjurado numa substância que todos ali de frente à banda sentem atravessar seus corpos, em ondas orquestradas sobretudo por Michael Gira, pelas mãos deste senhor de porte excelso e imperturbável, mãos e dedos nem sempre dedicados apenas a fazer vibrar as cordas de sua guitarra, mas frequentemente gesticulando e conduzindo um certo fluxo que ia do palco até a platéia, e eu via claramente, da posição meio lateral e privilegiada em que eu estava, num nível um pouco mais alto, eu via que o que ele mandava para o público ecoava e repercutia ali, e voltava ao palco, e a música, ou a performance, ou seja lá como deve-se chamar a isso, ia seguindo um curso liberto e imprevisível. Em alguns momentos eu saia do transe e tentava compreender o que se passava, era extraordinariamente bonita a simbiose entre banda e público, expressa em movimentos rituais e hipnóticos, e não só essas duas entidades pareciam estar envolvidas neste jogo: espíritos antigos e já quase que completamente alheios aos homens pareciam voltar momentaneamente a se interessar por nós, e a comungar com um pequeno grupo de pessoas reunidas em torno de uma celebração, revalidando assim, por pelo menos mais uma geração, o valor da elevação mística. Pois é, não tinha como não cair no clichê do místico, sempre citado em qualquer texto sobre a banda, mas acreditem-me: num show do Swans, isso é coisa muito séria e real.

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Créditos da imagem: Poster criado por Cyrille Rousseau, copiado daqui.



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