Fragmento de um diário inexistente

Por Fabricio C. Boppré em 27/05/2015

A chuva vem caindo sobre esta ilha, nestes muitos últimos dias, como uma música do renascido Swans: já não se sabe se houve um começo, se haverá um fim. Já transformou-se em presença cotidiana e inquestionável, como mais uma parede a ser contornada nos movimentos diários, e me faz voltar décadas de páginas na memória, para relembrar um evento similar (pois, de alguma maneira inextricável, relembrar da ocorrência passada de algo parece sempre nos ajudar a suportar melhor sua reincidência), voltar ao capítulo daquele verão que não foi exatamente um verão pois só choveu e ficamos dias intermináveis dentro de casa, sem poder ir ao mar, sem poder jogar bola no gramado, sem arranhar braços e pernas no arame farpado que cercava o gramado, as bicicletas tristemente acorrentadas na garagem, pois só chovia durante o dia todo, sem cortar a grama (parte entediante) e no fim da tarde, com a grama que fora cortada já seca, amontoá-la e fazer fogueiras (parte extraordinariamente divertida), e só o que dava para fazer era ler e desenhar e ouvir música, e ler e desenhar e ouvir música podíamos perfeitamente fazer no apartamento mesmo, que era mais amplo e assim ocasionava menos exibições de luta-livre entre irmãos agoniados com o pouco espaço da velha casa de praia, ilhados nela que estávamos pela chuva, e estar ilhado metaforicamente estando já ilhado literalmente, não poder usufruir da literariedade do nosso ilhamento natural, apenas ter que suportar a metáfora daquele ilhamento atípico, que implicava em água caindo do céu e encharcando a grama e todo o resto fora de casa e não apenas nos circundando em trechos demarcados de nosso pequeno reino, estar ilhado também verticalmente, e naquele ilhamento vertical só nos restava ficar permanentemente sob um teto, ao contrário do horizontal cujo único aborrecimento era lembrar de passar o filtro solar lá pelas 10h45 por causa do temível sol das 11h, sol este que era praticamente a razão e o ápice de nossas vidas de crianças, isso, em pleno verão, em plenas férias escolares, foi difícil para nós mas ainda mais para nossos pais que tinham de controlar a nós, alimentar a nós, acalmar a nós, daí que voltamos para o apartamento e acho que esse foi o único verão da minha infância que não foi passado na praia, quero dizer, foi o único ano da minha infância que não houve verão. E agora, novamente, essa mesma chuva por dias e dias. Mas desta vez, diferente daquela outra — e finalmente vou dizer o que vim aqui dizer desde o princípio — agora pouco me importa a chuva interminável aí fora, pelo contrário, adoro-a, é muito bonita, tudo aliás anda muito bonito e estimulante, a cada dia que passa e é um dia a menos, no momento exatos 43, para eu ver o Swans ao vivo.

Categoria(s) associada(s): Memória

Créditos da imagem: printscreen do desktop de um ilhado.



Nenhum comentário.

Não é mais possível adicionar comentários para este post.