Discos do mês - Março de 2015

Por Fabricio C. Boppré em 30/03/2015

Quando o mês de março começou, eu ainda estava naquele embalo hippie-psicodélico-60s/70s do mês anterior, e tudo o que eu ouvi por alguns dias seguidos foi Led Zeppelin, principalmente os discos ao vivo, que por eu nunca tê-los escutado muitas vezes, traziam alguma coisa de novidade para mim. Eu sou capaz de entender algumas pessoas não gostarem do Led: o vocal do Robert Plant que soa um tanto barroco hoje em dia; a foto em frente ao avião com o nome da banda estampado evocando valores que hoje em dia associamos mais com coisas vindas de Dubai do que com grupos de rock; os excessos dos shows, eternizados nestes discos ao vivo. Dazed and Confused, Whole Lotta Love e Moby Dick, todas essas passavam tranquilamente dos 20 minutos ao vivo, e por mais que eu adore Dazed and Confused e consiga escutá-la por muitos e muitos minutos, Whole Lotta Love e Moby Dick, por outro lado, mesmo com vários pequenos trechos de outras músicas enxertados, nunca foi exatamente o meu programa favorito ouvir essas duas estenderem-se por quase meia-hora. A mágica do Led sempre esteve em outra parte, para mim. Está, sobretudo, no disco III, nas sublimes The Battle of Evermore e Going to California do IV, e em boa parte do Physical Graffiti. Mas, voltando aos discos ao vivo, este recente Celebration Day e o BBC Sessions deixam-se escutar com muito prazer e curiosidade, só que o real deal ainda é o clássico The Song Remains the Same, lançado em 1976, com a banda no auge de suas forças retumbantes, e ao qual mais recentemente veio se juntar o How the West Was Won. Este último, em particular, ouvi várias e várias vezes. A banda soa bombástica como no The Song Remains the Same, mas o disco triplo de 2003 tem o diferencial da pequena sessão acústica no fim do primeiro CD, formada por Going to California, That’s the Way e Bron-Yr-Aur Stomp. Estou convencido de que é ali naqueles 15 minutos de voz e violão, mais do que em todas as outras 2 horas e 15 minutos de rolo compressor elétrico, que a banda se credencia à eternidade, e o faz com a pungência irresistível dos criadores que ultrapassam sem maiores esforços os limites que soerguem-se intransponíveis diante de praticamente todo o resto, e o conseguem com muito pouco barulho e muito pouco dispêndio de energia.

Eu realmente não me importo em soar antiquado falando de discos ao vivo do Led Zeppelin em pleno 2015, esse ano que parece saído de filmes de ficção científica assistidos não muito tempo atrás, mas o fato é que depois houve uma súbita mudança de direção, que começou com o resgate de dois discos muito queridos que eu não escutava fazia um tempinho: o The Moon & Antarctica, do Modest Mouse, e o Rated R, do Queens of the Stone Age. Talvez as temáticas não mudem muito em relação ao que cantava o Led Zeppelin 40 anos atrás… O disco do Queens para mim é um indispensável clássico de verão, acho que eu já disse isso por aqui: é um dos meus grandes álbuns para temporadas de férias e viagens e dias ensolarados e aventureiros, de mochilas nas costas, manhãs de sono com o sal do mar ainda na pele, quantidades variáveis de substâncias intoxicantes no organismo a qualquer hora do dia. Fica ali junto dos meus Doors e Midnight Oils na estante. Já o The Moon & Antarctica é um disco que — percebi meio desconcertado uns dias atrás — eu deveria ter escutado já muito mais vezes do que de fato escutei. É um disco para deitar e ouvir com atenção e dedicação, e planejo reparar essa lacuna nos próximos dias.

E então o universo conjurou e aconteceu até mesmo algo bem raro de acontecer comigo: conheci uma banda nova muito boa, nova a ponto do seu primeiro disco ser de 2010. Ou seja, para alguém como eu, que ainda tem Led Zeppelin, Doors e Pink Floyd como itens constitutivos fundamentais de sua trilha-sonora habitual, esta é praticamente uma banda que ainda vai nascer no futuro e cuja música desembarca por aqui numa máquina do tempo. Chama-se Warpaint e este seu primeiro CD, chamado The Fool, é uma preciosidade. São umas meninas de Los Angeles (e acabo de me lembrar que também a última banda nova muito boa que eu tinha conhecido é só de meninas: La Luz) que parecem ter ouvido muito My Bloody Valentine na infância e têm na grande banda de Kevin Shields sua maior influência, mas sem incorrer no erro comum de querer adaptar o MBV para as gerações perfeitamente despertas que ouviram muito Smashing Pumpkins nos anos 90: ao contrário, elas mantém sua música na esfera imprecisa do sonho, tal qual fizeram ainda sem concorrência até hoje o MBV, diferenciando-se destes apenas por serem um pouco menos densas, mais afáveis. Acho que é o que chamam de dream pop. Um shoegazing com um pouquinho de leite, digamos. Em suma, gostei muito, coroaram um mês que foi intenso aqui com uma música muito bonita e inebriante. Um mês acompanhado de um admirável arco de música: de Led Zeppelin, que se refugiava em casas de campo sem eletricidade para compor seus discos, à Warpaint, que devem colocar no Facebook fotos e vídeos do andamento diário das gravações de suas músicas.

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