Dying Days
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Discos do mês - Fevereiro de 2015

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Fevereiro de 2015

Beatles: Rubber Soul

Já vou logo avisando: passei o feriado de carnaval ouvindo Pink Floyd. Mas antes disso, uma palavrinha sobre o Rubber Soul, que eu ouvi muito atentamente numa sexta-feira de noite enquanto caía um pé d'água colossal: é curioso como, três ou quatro faixas adentro deste álbum, a gente já começa a antever exatamente quando as músicas irão terminar, sejam em cortes instrumentais planejados ou então em fade-outs meio abruptos e apressados em sua pontualidade. Esse disco é tão clássico e axiomático que suas faixas --- todas elas parte da memória musical de qualquer cidadão urbano que esteve em contato sistemático com qualquer aparelho de comunicação de massa durante sua vida --- suas faixas são até algo difíceis de se escutar de uma outra forma que não a de breves e perfeitas lições musicais, que vão se sucedendo num ritmo cada vez mais persuasivo, e por isso essa coisa do final das canções, que acabam sendo tipo transições disciplinadas entre as lições. Claro, o disco é muito mais do que isso: é extraordinário e altamente inventivo, tem até uns detalhes meio maníacos que eu não sei dizer o quão vanguardísticos foram para aquela época porque eu não sou nenhum estudioso, e mais um monte de coisa comprimida em 35 minutos... Enfim, são os Beatles em plena transmutação de ídolos juvenis para entidade mítica imortal.

Pink Floyd: Wish You Were Here

Não é raro, nos últimos tempos, eu parar para escutar um disco mas não conseguir chegar até sua última música. O que acontece é que, lá pela metade --- ou ainda antes, dependendo do disco ---, a mente começa a ficar inquieta e a atenção a dispersar-se, procurando por qualquer coisa para folhear ou papel para rabiscar. Provavelmente um sintoma destas mudanças neurológicas anunciadas pelos especialistas que estudam o comportamento do cérebro do homem contemporâneo imerso em informação e internet. Uma coisa muito triste e cujas consequências a longo prazo e em escala planetária eu prefiro nem parar para pensar. Mas algumas obras ainda triunfam gloriosamente sobre nossos cérebros, e o Wish You Were Here é o soberano delas todas: esse álbum captura o ouvinte do começo ao fim, sem trégua, para uma viagem por um vasto território ora árido por entre máquinas de prognósticos psicodelicamente desconfiados de futuro, cheias de botões redondos verdes e vermelhos, ora celestial ascendendo até constelações de estrelas que parecem comunicar-se entre si. Visões que vão do opressivo ao libertador a ressaltar a distância do que ainda somos e do que ainda poderemos ser. É um disco que ultrapassa as fronteiras do que propõem os seus vizinhos de prateleira e que reinvidica os mais belos e tranquilos amanheceres para si, pois este é o momento ideal para apreciá-lo, com a mente fresca e descansada, pronta para ser despachada para outras dimensões. Eu o ouço regularmente estimo que há mais de 20 anos, e com a maturidade parece vir o entendimento do porquê de certas bandas, ou escritores e pintores, ficarem imunes ao tempo e continuarem pertinentes e admiráveis por gerações sucessivas, independente de suas modas e convulsões e readptações cerebrais: às vezes parece ser, acima de tudo, uma questão de precisão. Shine On You Crazy Diamond é impregnada de técnica, inegavelmente, mas se ouvida com a devida atenção, ela pode extrapolar as sensações normalmente despertadas pelas melhores músicas, e passar a funcionar como um rearranjo refinado de unidades de tempo e espaço, acomodadas de uma forma que se nos afigura então mais adequada para a vida, como que se então pudéssemos enfim entrar num acordo razoável com a nossa finitude, o que acaba por recapitular aquele desejo infantil de querer transportar-se para dentro de uma música, ou de livro, ou de filme (ou de um brinquedo: meu irmão, quando pequeno, pedia para que o colocassem dentro de uma pequena nave espacial Playmobil que nós tínhamos), naquilo que é provavelmente uma preconização infantil ainda não muito clara e compreensível de certas questões que ainda irão, com o passar do tempo, render muita reflexão e, em muitos casos, boas doses de pânico também. E o que dizer de Wish You Were Here? Talvez soe um exagero (e o digo mesmo assim porque a essa altura vocês já devem estar acostumados com meus exageros...), mas sempre que ouço essa música, ela me soa como uma amostra antecipatória da futura e redentora vitória do espírito humano diante das coisas que mais tememos e ainda não compreendemos --- do horror do espaço infinitamente vazio e possivelmente desprovido de qualquer outra forma de vida, orgânica ou demiúrgica. Estamos sozinhos nessa imensidão (ou em uma "fish bowl, year after year..."), mas e daí?, se podemos preenchê-la com coisas como... essa música? Ela ainda há de ser um dos primeiros indícios reconhecíveis, aos olhos de uma civilização de um futuro ainda muito além dos nossos horizontes atuais --- uma civilização a estudar retrospectivamente como foi que ela conseguiu sobreviver à destruição do planeta e às guerras mundiais que ainda estão por vir ---, um dos primeiros sinais inequívocos em seu prenúncio de que mesmo entre aqueles seres primitivos e violentos que éramos/somos nós, já era possível distinguir alguma esperança, esperança para nós mesmos, anulando a hipótese mais ou menos aceita hoje em dia daquilo que disse certa vez um escritor tcheco, de que havia esperança sim, mas não para nós.

Comentários:

Sid Costa | 08/03/2015

Sem querer parecer piegas, mas Shine On é transcendente. Poucos grupos conseguem chegar perto do que foi produzido nessa obra, traduzir em som a solidão, a expectativa, a esperança e outros sentimentos. Não parece uma colcha de retalhos, mas uma torrente. Sem falar na parte lírica que é tocante e reflexiva.

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