Dying Days
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Em memória de Éliane Radigue (1932—2026)

Fabricio C. Boppré |
Em memória de Éliane Radigue (1932—2026)

Crédito(s): Éliane Radigue em foto de autor desconhecido, copiada daqui.

Desta vez não demorei tantos dias para saber da morte de mais um de meus heróis — heroína, no caso: "Éliane Radigue has Died, Aged 94", estava na capa do The Quietus quando por lá passei na terça-feira de noite em minha ronda semanal em busca de novos textos e nova música. A notícia havia sido publicada naquela manhã. Mal dá de lamentar o falecimento de alguém que tinha 94 anos e deixa como legado uma produção artística da ordem do sublime, mas lamento mesmo assim, como se inconscientemente cogitasse a improvável possibilidade de encontrá-la algum dia para lhe agradecer pela generosidade. Na noite seguinte, uma pilha de CDs novinhos reluzia sobre a mesa, cortesia de minha paciente companheira, que os trouxera para mim de sua viagem de trabalho à Europa. O convite que a pilha me fazia era tentador, mas antes fui à estante e puxei Triptych, de Radigue, para prestar-lhe o devido tributo. Coloquei os fones de ouvido e estiquei-me na rede com lápis e caderno, pretendendo rabiscar algumas linhas sobre a música que escutava... Mas descrever a música de Radigue é tarefa bastante difícil. Ela solicita algo diferente de seus ouvintes, uma disposição, uma abertura. Munida da paciência que me parece estarmos todos perdendo irremediavelmente, Radigue criou auras sonoras que, encontrando ouvido e espírito receptivo, fazem-no retroceder e pensar em origens, entrever o que não se percebe cotidianamente, confrontar a filosofia (a ocidental, pelo menos). Imersos no burburinho permanente da vida humana, é quase um choque físico encontrar-se de repente envolvido por estas texturas elásticas que parecem recortadas de ciclos eternos, ao mesmo tempo delicadas e imortais, e que pulsam animadas por um ritmo que sentimos vestigialmente compreender mas cujo acesso à origem se perdeu pelo caminho, soterrado sob este império do barulho — o ruído acumulado dos choques incessantes dos detritos à deriva pelo universo agora transformados em automóveis, mensagens chegando nos celulares, cães enlouquecidos encarcerados em apartamentos, o vento esbarrando no concreto, furadeiras e martelos, aumentando em escala e onipresença dia após dia, sem parar. Radigue escutou com atenção, captou as subjacências e registrou-as em fitas magnéticas. (Desconfio que o fez antes de tudo para si mesma, mas em um ato de piedade, compartilhou.) O resultado talvez seja o som da vida interior da compositora, talvez o som da irradiação da vida do universo. Talvez sejam ambos uma única e mesma coisa. Adieu, madame!

Categoria(s): Opinião

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