Dying Days
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Discos do mês - Setembro de 2021

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Setembro de 2021

Simple Minds - Street Fighting Years

Tornei-me fã do Simple Minds quando ouvi pela primeira vez Don't You (Forget About Me) (da trilha sonora do filme The Breakfast Club) e finalmente me dei conta de que aquela banda não poderia ser a mesma do ruivo que cantava “I wanna fall from the stars... straight into your arms... ”. Pois até então eu achava que Simple Minds e Simply Red eram uma mesma banda: eu trocava os nomes, e quando lembrava de um, esquecia-me do outro, e assim foi por muito tempo, ou seja, por muito tempo ignorei o Simple Minds já que eu detestava a canção do sujeito que queria cair das estrelas direto nos braços de algum ou alguma infeliz. Sou, portanto, um fã bastante tardio do Simple Minds. Gosto de todos os seus discos lançados ao longo dos anos 80 (em especial Once Upon a Time, de 1985), mas Street Fighting Years, de 1989, é uma espécie de apoteose e tem alguma coisa de especial. É, de longe, o álbum mais ambicioso e bombástico da banda; inspirado pelo U2 (com quem pareciam irmanados em mais do que apenas um ou dois trejeitos) e pelos dramas sociais do mundo daquela época, o Simple Minds de Street Fighting Years é claramente uma banda imbuída de uma missão. Estilisticamente, não são poucas as faixas em que as guitarras parecem ecoar por entre as paredes de vastos canyons enquanto a banda canta e toca na beirada de um deles, sendo filmada por uma câmera circulando rapidamente ao seu redor, as roupas e os cabelos esvoaçando com o vento, as guitarras desplugadas, o cantor de braços abertos mirando o céu. Tudo isso é de gosto muito duvidoso, evidentemente, mas as músicas, mesmo que não tenham mudado o mundo, são melhores do que tais imagens. De um ponto de vista do tipo “copo meio vazio”, alguém pode dizer que elas demonstram o oportunismo da música pop, sua vacuidade inofensiva; do ponto de vista do “copo meio cheio”, quem pode garantir que a consciência política de mais do que apenas um pequeno punhado de adolescentes não foi despertada por Mandela Day ou Belfast Kid?

Bruce Dickinson - Alive In Studio A

Embora não tenha encontrado ainda o que de tão novo ou surpreendente o disco tem (era o que prometiam alguns membros da banda em entrevistas que li pouco antes do lançamento), tenho gostado bastante do novo Maiden. É mais do mesmo, na minha opinião, e não há absolutamente nenhum problema nisto, haja visto que este “mesmo” vem rendendo ótimos discos um atrás do outro, desde Brave New World, de 2000. Há quem diga até que a banda vive seu verdadeiro período áureo agora, em sua quarta década de vida, o que acho um pouco de exagero, mas talvez não tanto… Mas não vim falar do Iron Maiden; o que andei escutando mais frequentemente nas últimas semanas foram os discos solos da voz do Maiden, Bruce Dickinson (presumo que a essa altura só considere Paul Di’Anno a voz oficial do Maiden quem morreu em 1982… Bem, estes têm também direito a uma opinião, diria a personagem de Bette Davis neste filme). Primeiro voltei ao Skunkworks, que muitos consideram o Load de Dickinson, mas eu o adoro (assim como adoro Load, que é o Load do Metallica). Depois fiquei com vontade de escutar aos sons mais hard rock dos seus dois primeiros álbuns, mas ao invés de voltar a eles, lembrei-me deste ótimo Alive In Studio A, que traz regravações e versões ao vivo das melhores faixas daqueles dois. As tais regravações aconteceram já com uma nova banda (aquela que viria a gravar Skunkworks) e soam muito boas, melhores até do que em seus discos originais, mais pesadas e viscerais. O som cristalino do primeiro disco (gravado em estúdio) colabora bastante: a guitarra de Alex Dickson é rasgada e feroz, fazendo um ótimo par com a voz limpa e melodiosa de Bruce "Air-Raid Siren” Dickinson. Tenho a impressão que os primeiros esforços de Dickinson como artista solo não angariaram muita simpatia por parte dos fãs do Maiden (que, suponho, foram reconquistados depois com Accident of Birth), mas esse disco poderia muito bem mudar algumas mentes e corações quanto a isso, se dessem uma chance a ele. Faixas favoritas: Hell No e Cyclops são monumentais; Sacred Cowboys tem um dos melhores refrões de Bruce e tem "You can sell people crap and make them EAAAAAAT it”; e, por último, Tattooed Millionaire tem também um ótimo refrão e uma mensagem bem pouco sutil que, infelizmente, é bem pouco provável que Dickinson volte a cantar algum dia, já que, agora sabemos, aos apelos dos milhares de dólares, quando eles lhe bateram à porta, ele não conseguiu resistir…

Oranssi Pazuzu - Mestarin Kynsi

Apesar de ter colocado o último disco do Oranssi Pazuzu na minha lista de favoritos do ano passado, a verdade é que, àquela altura, eu o havia escutado apenas um par de vezes. Passaram-se então vários (desgraçados) meses e fui escutá-lo novamente somente alguns poucos dias atrás. Eu lembrava que era um disco muito bom — um dos meus favoritos do ano passado, afinal — mas ele é muito, muito mais do que isso. É um disco fenomenal. Ilimitadamente visionária e aventureira, a banda rompe com quaisquer convenções e amarras de gênero sem nem sequer pensar nisso, sem que isso sequer pareça ter sido uma questão a ser considerada em algum momento — verdadeiros artistas, estes finlandeses. Há um momento em Mestarin Kynsi em que você simplesmente não se preocupa mais em compreender o que está ouvindo, que instrumentos são aqueles, o que é aquilo que passou diante de seus olhos... O chamado e a atração desta música são avassaladores e irresistíveis. Porém, não obstante esta profusa riqueza e variedade sonora, a maestria da banda no fim das contas está em fazer o álbum soar incrivelmente coeso e orgânico, uma jornada cósmica sem sequer um único segundo supérfluo ou desnecessário, ao cabo da qual o ouvinte se vê subitamente de volta ao local em que estava antes de ter dado play no disco, confuso e atordoado, e com um único pensamento a fervilhar na cabeça: retornar a Mestarin Kynsi o quanto antes. São 51 minutos de barulho sublime, de outra dimensão. Obra-prima.

Roy Montgomery - Scenes From The South Island

Este disco inscreve-se naquela mesma categoria dos discos de Daniel Lanois e Steve Hiett recentemente citados neste blog: música de sonho, vagamente nostálgica, vagamente litorânea, escrita e executada por alguém que não parece estar em completo controle de sua consciência e de seus sentidos. As faixas flutuam alheias — ao mundo e também entre si — em meio a uma espessa atmosfera de ecos e eletricidade, e o efeito que vai se acumulando é acima de tudo entorpecente, um narcótico ao qual tenho dedicado uma quota generosa dentro das minhas centenas de horas mensais de música. Roy Montgomery, pelo o que pude entender, não era lá muito famoso fora da Nova Zelândia onde vive desde a infância (tendo nascido em Londres), mas sujeitos como eu, que não têm a sorte de viver na Nova Zelândia, tiveram a chance de conhecer este e outros de seus discos quando Liz Harris começou a relançá-los através de seu selo, o Yellow Electric. Ou seja, não é apenas pelos maravilhosos discos do Grouper que devemos infinitos agradecimentos à Liz.

Comentários:

Sid | 15/10/2021

Cara, se tem uma coisa que o Iron está provando é que não tem nada de errado em ligar o f... e ir tocando a carreira do jeito que se quer. Sem ligar pra pressões, o que de certa forma dá credibilidade ao argumento que eles estejam atravessando o ápice de sua carreira. Os caras depois de quarenta anos de banda conseguiram chamar atenção de que não é "metaleiro", mandando um quase southern rock no primeiro single. Eles não estão reinventando a roda, o Rush fazia isso com maestria, ser essencialmente os mesmo e ter a manha de trazer coisas diferentes. Outra banda que está em seu segundo ou terceiro auge é o Deep Purple, tem uma música no disco do ano passado que sua introdução poderia ser algo do Elbow.

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