Dying Days
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Discos do mês - Junho de 2026

Fabricio C. Boppré |
Discos do mês - Junho de 2026

Crédito(s): aquarela de Diego Rivera, imagem copiada daqui.

Minha primeira audição de Virga III, de Matthew Robert Cooper (alcunhado Eluvium), me remeteu imediatamente às Disintegration Loops no que ambas as obras têm de intensamente evocativas: música que parece se propagar não através do ar mas por alguma outra dimensão imaterial da qual cada um de nós tem sua quota privada, construída gradualmente ao longo da vida, encorpada lentamente pela experiência e pela memória. Música que por este meio se desloca costuma chegar ao ouvinte impregnada de uma forte sensação de conexão pessoal, de pertencimento a um mobiliário íntimo e primordial, como algo escutado há muito tempo e jamais esquecido. Ou talvez seja literalmente isso? Uma explicação menos esotérica e mais mundana: talvez, de fato, eu tenha escutado em minha infância um som parecido com este, cheio de eco, de austeridade de igreja, de gravidade de música medieval. Quem sabe uma canção vinda de longe, de uma estação de rádio AM, ou captada momentos antes de cair no sono... Tenho esta lembrança de origem irrastreável, vaga e incompleta, mas por algum motivo fixada em mim, como muitas das lembranças da infância são. E por isso este novo disco do Eluvium — e as Disintegration Loops de William Basinski, e alguns discos da Julianna Barwick — me tocam tão profundamente e me parecem tão familiares: a música ressoa de imediato com algo que carrego comigo há muito tempo, algo cuja forma diáfana não contradiz sua importância de fundamento do que sou. Seja como for, Eluvium, Barwick e Basinski parecem buscar sons antigos, reverberações produzidas por objetos que vivem agora os prelúdios de suas extinções, confinados em museus ou em porões abandonados. E da fragilidade da música destes arquivistas para a brutalidade do metal, para mim, basta uma pequena inflexão cognitiva; um gesto combinado entre pensamento e sobrancelhas e logo posso estar escutando Enforced, por exemplo. Que ninguém reclame de sentir-se órfão após o fim do Power Trip. O primeiro disco do Enforced, At the Walls, segue a mesmíssima fórmula campeã: thrash metal furioso e incisivo com infusões de hardcore cepa anos 80, uma mistura de Agnostic Front com Slayer que não tem como dar errado dada a proficiência dos guitarristas e os urros do vocalista — uma máquina avassaladora de música pesada. Descobri esta banda uns poucos dias atrás através deste primeiro disco e agora estou feliz da vida sabendo que tenho ainda dois outros e mais um EP para escutar (meu apreço pelas pequenas alegrias não tem fim). Mas, por ora, estes discos repousam na fila de espera. Depois de uns dias arruinando meus ouvidos com Enforced, Slayer, Kreator e Converge, o cérebro pediu nova trégua e foi na música do Popol Vuh que ele encontrou o descanso perfeito. (A ideia de que a música destes alemães é um sedativo para alma e ouvidos já deve estar registrada em outros textos deste blog. Desconfio que muito do que ando escrevendo por aqui é mera repetição de ideias já escritas antes... Estou ficando velho, me perdoem. Espero ao menos utilizar palavras e metáforas diferentes.) Dentre os dois ou três discos do venerável Vuh que escutei nos últimos dias de junho, Affenstunde, estreia de Florian Fricke e companhia, foi o que mais me marcou. É um álbum maravilhoso. Na superfície, trata-se de uma música bastante rítmica, percussiva, mas sua riqueza e mistério reside entre as batidas, no som subjacente que preenche os espaços e sustenta a viagem do ouvinte, som que se ainda hoje soa inovador e singular, imagine em 1970. O que é aquela transmutação que ocorre por volta dos 7 minutos da faixa-título? Parece o súbito resultado de um longo ritual, uma abertura no céu, a revelação de uma divindade, quando ninguém mais esperava. E apenas um dos tantos milagres da música experimental na Alemanha entre fins dos anos 60 e fins dos 70. Vai vendo o que teremos por aqui em julho: krautrock, black metal, quadrilhas e arrasta-pé.

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