Dying Days
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Os Beatles encaixotados

Fabricio C. Boppré |

Fazia um tempo já que eu estava namorando estas caixinhas que trazem os discos dos Beatles em versões remasterizadas. E a atração não era motivada somente pelas festejadas remasterizações, mas também pela possibilidade de enfim ter os discos do Fab Four --- até então, eu tinha na estante somente aquele Let It Be... Naked lançado uns poucos anos atrás, e um vinil velho do Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. O resto, só em MP3. Essa lacuna na coleção de discos tem a ver com o fato de que não sou lá dos maiores entusiastas do Fab Four, apesar de reconhecer que a obra dos caras é inegavelmente fantástica, e alguns dos discos eu realmente gosto como obra-primas que são (White Album e Let It Be em especial). Mas, no meu retrospecto de colecionador/consumidor de música, nunca investi muito nos Beatles em função de outras preferências mais intensas, e acho até que eu ia demorar ainda mais um pouco para fazer uma proposta de casamento à uma dessas caixinhas porque, no Brasil, elas não custam menos do que 750,00 reais --- isso pela internet, pois nas lojas de Florianópolis nunca vi por menos de 1.000,00.

Isso se não fosse o fato de eu estar viajando pela França e, numa Virgin Megastore, vê-las em promoção por cerca de 150,00 euros (na cotação de hoje, cerca de 330,00 reais). A caixinha preta, que traz os discos remasterizados em stereo, um pouco mais barata do que a branca, cujos discos são remasterizados em mono. Não podia perder a oportunidade, então me pus a analisar qual delas levar. A princípio, stereo é melhor do que mono, certo? Nem sempre. Mas eu não sou nenhum audiófilo, então o fato da caixinha preta ser mais barata e trazer todos os discos --- a branca não inclui Yellow Submarine, Abbey Road e Let It Be, devido ao fato destes discos nunca terem sido lançados em versão mono --- definiu minha escolha.

Aqui no nosso apartamento alugado tem um aparelhinho de som vagabundo, e eu pensei em deixar para ouvir os discos no aparelho de som minimamente decente que tenho em casa, assim que voltasse. Mas não resisti à tentação e já estou ouvindo alguns deles, e apesar do déficit na qualidade da reprodução dos discos, a coisa toda já é muito apreciável; a caixinha é fantástica, com encartes recheados de fotos e histórias, o que não é pouco, pois ler as histórias dos Beatles é muito mais do que ler histórias de uma banda, é ler histórias sobre um bom naco da história musical de nosso tempo.

Mas fica aí a dica, para quem pensa também em comprar a caixa, do que levar em conta na hora de decidir qual. Se você for audiófilo, considere bem o que diz a matéria do Gizmodo referenciada acima e leia também este artigo da Pitchfork, publicado na época do lançamento das caixas, em setembro do ano passado. Em favor da caixinha branca, este trechinho aqui pode fazer diferença:

(...) Why mono? Two reasons. First, pop music in stereo was still a novelty through most of the 60s. Radio was dominated by single-channel AM, and the young people who bought LPs were far more likely to have a mono record player as a sound source. Given their audience and the technology of the time, for much of the Beatles' run, the band themselves considered the mono mix as the "real" version of the record and devoted more of their attention to it. Mono mixes were prepared first with the involvement of the band, and in some cases, George Martin and EMI engineers completed stereo remixes of the albums later, after the group had left the studio. So mono, first off, presumably hews closer to the intentions of the Beatles themselves. It's what the Beatles had in mind, their vision of the records. (...)

E o parágrafo seguinte, não somente para os audiófilos, mas para todos os Beatle-maníacos, pode bater o martelo em favor da caixa branca:

(...) Secondly, since the mono and stereo mixing sessions happened at different times, there are differences between the two versions, not just in the balance of the sound but also in the actual content. Different takes were sometimes used for punching in overdubs, or an alternate vocal take might make its way into the mix. Sometimes tracks were edited differently, and would be shorter or longer, and in some cases the tape ran at a slightly different speed, changing the pitch slightly. Some of the differences are subtle, and some are not. The mono version of "Helter Skelter", to take one example, is a minute shorter, as the "false" ending fadeout is presented as the track's true ending (and it thus omits the closing scream of "I got blisters on my fingers!") The significance of these differences will depend on the level of one's Beatles fandom; of course, those shelling out for the In Mono box will likely enjoy poring over the details. (...)

Ah, mas você ouve música com headphones? Bom, então continue lendo o artigo lá na Pitchfork, pois alguns argumentos que vêm na sequência podem reverter a decisão tomada acima...

Enfim, como não sou um Beatle-maníaco e muito menos um audiófilo, e portanto mal devo perceber esses detalhes sonoros diferenciados, estou bem satisfeito com a caixinha preta. E não vejo a hora de voltar para casa para ouvir Helter Skelter explodindo nos headphones, apropriadamente sentado no meu sofá, focado na música e nos encartes.

PS1: Este artigo da Pitchfork, além de falar das diferenças no áudio, fala também das outras diferenças entre as duas caixas, em termos de conteúdo, embalagens, livretos, etc.

PS2: O curioso é que no Brasil, pesquisando os preços pelo site da Americanas, percebi que a caixinha mono é mais barata que a caixinha stereo, enquanto que aqui na França é o contrário.

Categoria(s): Opinião

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