Dying Days
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Expo 70: um case de sucesso no questionável mundo do ambient

Vicente M. |
Expo 70: um case de sucesso no questionável mundo do ambient

Crédito(s): [2008] Beta Lactam Ring Records

Nas minhas incessantes procuras por sonoridades excêntricas, acabei me embrenhando, de uns anos para cá, pelo rótulo que se convenciona como drone, e descobri que nesse formato, o inimigo pode manifestar-se ao se dobrar uma esquina. Assim como no noise, no momento em que se explora a ambiência, a técnica convencional fica em outro plano, dando brechas para que se discuta o talento de quem não necessariamente saiba tocar um instrumento/equipamento, mas sim tirar sons interessantes dele. Partindo desse pressuposto, qualquer um pode fazê-lo, e disso sai uma imensidão de porcarias e obras desnecessárias, colocando o ouvinte em inúmeras arapucas.

Quando aparecem discos como Black Ohms, do projeto Expo 70, a satisfação é instantânea, assim como a certeza de que coisas boas surgem quando quem as produz sabe muito bem o que faz. Justin Wright já tinha quase que uma dezena de CD-Rs editados por aí, além de um CD como convencionalmente conhecemos, onde explorava o encontro de guitarras, violões e sintetizadores em busca de sonoridades ambientes, da força que os tons podem alcançar. Cada um desses capítulos merecia sua atenção especial pois Justin, embora prolífico, não deixa seus trabalhos saírem por aí sem que antes passem por um filtro de qualidade. Black Ohms é mais obscuro, baseado em ressonância de guitarras distorcidas, tons graves e amplificadores meticulosamente explorados, tudo intercalado e invadido por sintetizadores, pianos e texturas indecifráveis. Embora a linguagem seja arrastada e não cause impacto imediato aos não-iniciados, é um trabalho diferenciado que prova o quanto esse tipo de som pode crescer, se manipulado pelas mãos corretas.

Categoria(s): Opinião

Comentários:

Fabricio Boppré | 09/11/2008

Vicente, eu não manjo nada de ambient, mas o BRMC soltou um disco aí dito de ambient music. Se conseguires, dá uma escutadela, e me diz se é bom [risos]. Bom, falando sério, eu gostei de uma ou outra coisa, acho que não coincidentemente, as faixas que tem algum resquício de melodia... tens mais conhecimento de causa, diga-me depois se os caras têm futuro, se forem apostar neste caminho, daqui por diante. Não que algo aponte para isso -- suponho que tenha sido só mais um momento de inquietude da banda.

Vicente | 10/11/2008

Sério? Putz, algo totalmente inesperado hein? Deve ter baixado o espírito dos Liars, que mudam radicalmente de som sem dar pistas. Ambient é apenas um rótulo, você pode enfiar qualquer coisa ali dentro, contanto que soe como música, hmmm, "ambiente". Geralmente é instrumental, meio trilha-sonora, mas pode também não ser [risos]. Vou tentar conferir e comento.

Vicente | 11/11/2008

Bom, Fabricio. Escutei o "The Effects of 333" e dá sim para dizer que se trata dum disco de ambient, embora hoje em dia as coisas não se encaixem tão facilmente em conceitos. Se me apresentassem o som eu automaticamente tentaria vincular a uma banda que faz ambient, drone, noise... então acho que é por aí. Interessante observar que do ponto de vista artístico a era do MP3 trouxe essa liberdade de se perder compromisso com formatos. A banda "lança" o que bem entender e o público compra se gostar. O máximo que se perde é alguns megas num HD, hospedagem e trabalho de masterização.

Resta agora descobrir se o BRMC se inspirou em trabalhos de artistas de ambient (que por mais bizarro que pareça é um os gêneros que mais ascendeu nessa década) ou lançou o disco para polemizar e mostrar que o gênero está ao alcance de qualquer um que quiser fazê-lo. Pela profundidade do resultado, não diria que foi feito em um final de semana, dá para sentir um interesse da banda em explorar o som.

Fabricio Boppré | 11/11/2008

Legal, Vicente. Tenho gostado do disco, apesar de ser leigo total em termos de ambient.

Quanto ao teu comentário sobre o MP3, é a revolução, cara. Acho louvável o que fez o BRMC, e antes dele Radiohead, NIN. A coisa caminha para algo nesse sentido, ao meu ver. Estamos presenciando os precursores, mudanças de paradigmas, o declínio de uma indústria...

Vicente | 11/11/2008

O interessante é que o BRMC talvez seja, dessa safra de bandas "novas" com relativa popularidade, uma das que mais poderia dar uma virada dessas. São como os Liars, seus discos são acessíveis mas sempre têm alguma coisinha que os difere do lugar-comum. Ainda sobre o disco, eles não fizeram feio, embora eu tenha gostado mais das faixas em que eles cruzam os violões com a proposta experimental do disco. Embora não pareça BRMC, ocorre a conexão entre o DNA deles e o clima geral do disco, num resultado interessante. As outras, mais ortodoxas dentro do gênero ambient, não fazem feio, mas também não se assustam as bandas que estão na ponta desse tipo de som. Se eu fosse fã da banda, encararia o "Effects" como um disco paralelo à discografia e tentaria extrair o que me agradasse no som.

Vicente | 15/11/2008

Li tua resenha sobre Effects. Se te interessas pela proposta desenvolvida pela banda, algumas sugestões:

  • Nadja : Trembled (o meu preferido de Aidan Baker);
  • Oren Ambarchi : Grapes From The Estates (excelentes explorações de tons);
  • Earth: Hex... (esse sim, um crossover mais explícito entre música e ambient, mais "musicado");
  • Birchville Cat Motel : Gunpowder Temple Of Heaven (tão ambiente que é quase budista);
  • Sunn O))) : White 1 (sou suspeitíssimo para falar, mas é um dos discos deles que mais misturam conceitos de ambient e metal);
  • KTL : Ikki (o meu preferido deles);
  • Eleh : qualquer um deles (tributo a La Monte Young, ambient/drone até a medula).

Cada um a seu estilo, mas com refrências de alguma forma se encontrando em algum momento.

Fabricio Boppré | 15/11/2008

Valeu, Vicente. Ia te mandar mesmo um e-mail pedindo por essas dicas. Das citadas, conheço Earth (gosto bastante) e algo do SunnO))). Irei me aprofundar nisso.

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