{"posts":[{"id":907,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2026","post_timestamp":"2026-04-02T00:04:53+00:00","url":"Discos_do_mes_Marco_de_2026","post":"Depois de passar alguns dias na [companhia de m\u00fasica cl\u00e1ssica e trilhas sonoras](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Relato_de_meio_de_caminho_Marco_26), fui fisgado pelas belezas umbrosas do doom metal. (Doom metal \u00e9 um neg\u00f3cio que exige que utilizemos palavras como \u0022umbrosas\u0022.) \u00c0s vezes penso que n\u00e3o escuto tanto doom metal quanto gostaria; \u00e0s vezes penso que \u00e9 mais na teoria do que na pr\u00e1tica que eu gosto deste subg\u00eanero... Fico oscilando entre estas duas hip\u00f3teses. Algumas bandas me fazem tender \u00e0 primeira: o Katatonia, por exemplo. Estes suecos talvez n\u00e3o sejam os representantes mais exemplares do doom conforme sua defini\u00e7\u00e3o mais rigorosa, mas pelo menos em minha concep\u00e7\u00e3o de uma coisa e outra \u2014 subg\u00eanero e banda \u2014 h\u00e1 uma conflu\u00eancia bastante clara, ainda que uma concernente a quest\u00f5es mais abstratas de atmosfera e de paleta tonal, digamos, e nada a ver com quest\u00f5es t\u00e9cnicas sobre como afinar a guitarra ou tocar a bateria. Mas n\u00e3o precisamos perder tempo em tais min\u00facias; falemos logo da banda, que eu ouvi com frequ\u00eancia de pouca para m\u00e9dia em fins dos anos 90 e logo deixei de lado pois havia algo de bonito demais em suas can\u00e7\u00f5es, algo de refinado, talvez at\u00e9 de demasiadamente a\u00e7ucarado para algu\u00e9m como eu, que come\u00e7ava a gravitar em dire\u00e7\u00e3o ao Morbid Angel. Acho que o vocal de Jonas Renkse, elegante e caloroso, me incomodava mais do que tudo. Mas me aconteceu de escutar o disco *Viva Emptiness* uns dias atr\u00e1s, e depois voltei a ele para confirmar se era mesmo t\u00e3o bom, e \u00e9. Escutei tamb\u00e9m ao *Tonight\u0027s Decision*, que em seu equil\u00edbrio sofisticado de peso, melodia e penumbra g\u00f3tica acabou me soando melhor do que jamais havia soado antes. N\u00e3o que eu precise de mais uma banda para amar, mas parece que vai se forjando uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre mim e o Katatonia. Seguiu-se uma diversifica\u00e7\u00e3o, e depois de alguns discos do Paradise Lost e do Candlemass, cheguei enfim ao farol que desde l\u00e1 o come\u00e7o, eu pressentia, despontava ao longe, s\u00f3lido e fatal: o My Dying Bride. Mas esta banda eu perfilo entre as que justificariam a segunda hip\u00f3tese mencionada no come\u00e7o deste texto. Quero dizer: ao menos dois discos de sua discografia eu admiro com fervor, os monumentais *The Angel and the Dark River* e *The Light at the End of the World*. S\u00e3o \u00e1lbuns exigentes por\u00e9m extremamente recompensadores. Mas entre eles, e antes e depois, h\u00e1 uma maioria de outros que, em outras ocasi\u00f5es, me foi custoso escut\u00e1-los at\u00e9 o fim. \u00c9 algo que lastimo e planejo revisar nos pr\u00f3ximos dias, aproveitando este estado de esp\u00edrito favor\u00e1vel. De todo modo, foi bom relembrar que *The Light at the End of the World* continua t\u00e3o distintamente belo, uma beleza feroz, densa e teatral. Foi bonito \u2014 tem sido bonito, na verdade, j\u00e1 que por estes primeiros dias de abril continuo envolvido com estas mesmas bandas \u2014 mas houve algo mais l\u00e1 por meados de mar\u00e7o. Certo fim de tarde, cansado do trabalho, do calor e de guitarras massivas, deitei-me na rede para descansar e escutar alguma coisa diferente. Passando os olhos pela estante dos discos topei com o \u00fanico CD que tenho de Cecil Taylor, este pianista \u2014 na falta de termo mais preciso \u2014 fenomenal. Cecil parece vindo de outro mundo; a m\u00fasica criada pela sua habilidade e vis\u00e3o extraordin\u00e1rias \u00e9 um feiti\u00e7o imposs\u00edvel de descrever. S\u00e3o como (imposs\u00edvel de descrever, mas a gente sempre tenta) intricados labirintos sonoros, labirintos dentro de labirintos que nunca falham em me deixar mesmerizado. Este CD \u2014 uma edi\u00e7\u00e3o meio estranha que se parece com algo lan\u00e7ado por uma revista \u2014 eu salvei de uma caixa de papel\u00e3o que ia acabar sabe-se l\u00e1 onde, talvez at\u00e9 no caminh\u00e3o do lixo, da casa de um amigo que j\u00e1 n\u00e3o via mais sentido em possuir CDs e doava os poucos que ainda tinha, ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabendo nada sobre Cecil Taylor, n\u00e3o lembrava de como aquele disco havia parado ali. \u00c9, portanto, a continua\u00e7\u00e3o de um mist\u00e9rio eu possuir este CD, mist\u00e9rio prolongando a cada audi\u00e7\u00e3o e aprofundado pela m\u00fasica \u00e1rdua \u00e0s raias do inacess\u00edvel, deslumbrantemente inacess\u00edvel. E naquele fim de tarde j\u00e1 virado em noite, finda a audi\u00e7\u00e3o de Taylor, eu queria ouvir ainda mais alguma coisa... Mas o que, em nome dos c\u00e9us, dos santos e dos acasos, o que escutar depois de Cecil Taylor? L\u00e1 vai o olhar deslizar novamente pelos caminhos aleat\u00f3rios do grande mapa desenhado pelas lombadas enfileiradas dos meus CDs, ser sugado e saltar para fora de seus v\u00f3rtices, quando ent\u00e3o dou com os olhos na lombada do *Ol\u00e9* de John Coltrane. E logo l\u00e1 estava eu esticado novamente na rede. De cabo a rabo este disco \u00e9 magn\u00edfico: a introdu\u00e7\u00e3o de contrabaixo da primeira faixa, a flauta de Eric Dolphy, o piano de McCoy Tyner; o formato do \u00e1lbum, tr\u00eas longas faixas que parecem sustentar uma estrutura arquitet\u00f4nica, o funcionamento de um organismo. As melodias de Coltrane. \u00c9 tudo uma extraordin\u00e1ria alegria. E assim passou-se mais uma noite, ainda outra, para a minha cr\u00f4nica pessoal. E da minha cole\u00e7\u00e3o de discos, sr. Spotify, dos meus numerosos CDs e pesados vinis, dona IA, estejam certos de que eu n\u00e3o me desfa\u00e7o nunca.","post_summary":"Mar\u00e7o foi uma ilha de jazz cercada de doom metal por todos os lados.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Der Bart ist das Gras des Kahlk\u00f6pfige* de Friedensreich Hundertwasser, copiada [daqui](https:\/\/hundertwasser.com\/en\/paintings\/498_der_bart_ist_das_gras_des_kahlkoepfigen_435).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":906,"title":"Relato de meio de caminho - Mar\u00e7o \u002726","post_timestamp":"2026-03-14T20:37:11+00:00","url":"Relato_de_meio_de_caminho_Marco_26","post":"Assistimos a dois filmes muito bons no come\u00e7o deste m\u00eas, [*Sentimental Value*](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt27714581\/) e [*T\u00e1r*](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt14444726\/). Do filme como um todo acho que gostei mais do segundo; da trilha sonora eu gostei mais da do primeiro. Sobre *T\u00e1r* (o filme), li um [coment\u00e1rio bastante contrariado](https:\/\/www.latimes.com\/entertainment-arts\/movies\/story\/2023-01-11\/marin-alsop-tar-cate-blanchett-conductor-statement-interview) de Marin Alsop, que foi maestra da Orquestra Sinf\u00f4nica do Estado de S\u00e3o Paulo entre 2012 e 2019. Para Alsop, o filme prestou um grande desservi\u00e7o ao retratar uma mulher homossexual (minoria) e regente profissional (minoria dentre as minorias) como uma \u0022abusadora\u0022, o que talvez seja um termo meio forte \u2014 \u0022manipuladora\u0022 me parece mais condizente com o que o filme sugere e efetivamente mostra. Em todo caso, entendo o aborrecimento de Alsop: eu tamb\u00e9m j\u00e1 me incomodei muitas vezes ao assistir personagens estereotipados, que parecem servir apenas como emblemas de certa identidade, serem retratados com v\u00edcios e defeitos de car\u00e1ter que se subentendem automaticamente como v\u00edcios e defeitos de toda sua classe, em geral alguma minoria ou grupo marginalizado (quando n\u00e3o simplesmente um pa\u00eds estrangeiro do ponto de vista norte-americano, quando se trata de um filme de Hollywood, e no mais das vezes \u00e9). Esse tratamento, contudo, eu n\u00e3o percebi em nenhum momento enquanto assistia *T\u00e1r*. Sim, a personagem principal \u00e9 l\u00e9sbica e parece ter diversas falhas de car\u00e1ter, mas ela \u00e9 ao mesmo tempo uma personalidade bastante individualizada e veross\u00edmil, complexa como somos todos n\u00f3s no mundo real fora dos arqu\u00e9tipos tradicionais da fic\u00e7\u00e3o, repletos de contradi\u00e7\u00f5es, fraquezas, belezas e virtudes. (A sexualidade de Lydia T\u00e1r me pareceu at\u00e9 um aspecto secund\u00e1rio do filme, e tratada com eleg\u00e2ncia, sem as cenas apelativas habituais de Hollywood.) Em outras palavras: Lydia escapa aos esquemas e alegorias, apresenta-se antes como ser humano do que como l\u00e9sbica e\/ou profissional em um ramo dominado por homens. Suponho que muita gente considere essa separa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel e talvez seja mesmo uma grande ingenuidade de minha parte, mas foi esta a minha experi\u00eancia com o filme, e a esta impress\u00e3o acrescento o refor\u00e7o da ineg\u00e1vel paix\u00e3o da personagem pela m\u00fasica, sua servitude em rela\u00e7\u00e3o aos seus her\u00f3is e hero\u00ednas, sua entrega e devo\u00e7\u00e3o, manchadas, \u00e9 claro, pela sua conduta profissional conden\u00e1vel \u2014 e ainda assim tocantes e genu\u00ednas. A \u00eanfase do filme nisso (algo que entendo...) me convenceu quanto \u00e0 legitimidade de Lydia. Ao diretor de cinema que \u00e9 um dos personagens principais de *Sentimental Value* me pareceu faltar um pouco dessa verve humana, desta carne, mas, curiosamente \u2014 por n\u00e3o ser um filme sobre m\u00fasica como \u00e9 *T\u00e1r* \u2014 eu gostei mais de sua trilha sonora. A trilha de *T\u00e1r* traz v\u00e1rios trechos de Elgar e Mahler que n\u00e3o s\u00e3o novidade alguma, com a \u00f3tima m\u00fasica da compositora islandesa Hildur Gu\u00f0nad\u00f3ttir n\u00e3o se alinhando muito bem com eles, enquanto que a trilha de *Sentimental Value* flui lindamente como obra avulsa e completa. J\u00e1 mencionei algumas vezes por aqui sua autora, a polonesa Hania Rani, cuja m\u00fasica delicada e levemente desterrada tem minha aten\u00e7\u00e3o j\u00e1 faz bastante tempo. A \u00faltima pe\u00e7a de sua autoria que eu havia escutado, *Non Fiction*, um concerto para piano gravado ao lado do Manchester Collective, poderia sugerir que Hania est\u00e1 iniciando sua travessia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s obras mais tradicionais e compostas para conjuntos maiores, mas isto \u00e9 apenas meia verdade. *Non Fiction* \u00e9 um concerto \u00e0 moda Rani: n\u00e3o h\u00e1 arroubos dram\u00e1ticos do tipo Tchaikovski ou Rachmaninoff; h\u00e1 a fragilidade do piano de Hania, que por vezes soa como um min\u00fasculo feixe de \u00e1gua cristalina correndo escondido por entre a mata; h\u00e1 uma atmosfera de sonambulismo e a melancolia resignada que parece ser ainda uma heran\u00e7a incontorn\u00e1vel de quem nasceu por aquelas partes cinzentas e martirizadas do mundo. O [Manchester Collective](https:\/\/manchestercollective.bandcamp.com) \u00e9 companhia de luxo e fornece linda densidade \u00e0s passagens mais inflamadas do concerto, uma riqueza textural t\u00edpica da m\u00fasica cl\u00e1ssica contempor\u00e2nea que sabe se valer da tecnologia no est\u00fadio. A [trilha de *Sentimental Value*](https:\/\/haniarani.bandcamp.com\/album\/sentimental-value) \u00e9 bastante parecida: h\u00e1 alguns poucos momentos mais expansivos (a primeira faixa com seu conjunto de flauta, clarinete e cordas ascendentes; a pen\u00faltima com sintetizadores que parecem sa\u00eddos de algum dos \u00e1lbuns da s\u00e9rie *Ambient* de Brian Eno), por\u00e9m a maior parte do disco apoia-se sobre o piano intimista de Rani, uma m\u00fasica que parece esquivar-se dos ouvidos do mundo, habitando o c\u00e9rebro de algu\u00e9m que anda distra\u00eddo por a\u00ed. A \u00faltima faixa do \u00e1lbum \u00e9 uma pequena joia preciosa, umas dessas composi\u00e7\u00f5es que soam antes de mais nada como uma ode \u00e0 beleza imortal do piano. Rani tem um talento e tanto. E considerando que a mo\u00e7a nasceu em 1990, \u00e9 instigante imaginar que suas melhores obras ainda est\u00e3o por vir.","post_summary":"Dois filmes, uma pol\u00eamica, duas trilhas sonoras, um concerto para piano.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"cena do filme *T\u00e1r*, imagem original copiada [daqui](https:\/\/www.wannabenerd.com.br\/2023\/01\/taar-de-todd-field-assista-nos-cinemas.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":905,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2026","post_timestamp":"2026-03-02T22:50:04+00:00","url":"Discos_do_mes_Fevereiro_de_2026","post":"Fevereiro, j\u00e1 por defini\u00e7\u00e3o um m\u00eas mais breve, passou por mim como que voando, e ao longo de seus dias estive mais envolvido com meus livros e leituras do que com minha m\u00fasica e meus discos. Quero dizer, provavelmente escutei a tanta m\u00fasica quanto escuto em qualquer outro m\u00eas, por\u00e9m, refletindo em retrospectiva, lembro-me mais da companhia dos McCaslins e Beauchamps dos contos de Faulkner, dos haikais e haibuns de um amigo querido e das especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de Xen\u00f3fanes, Pit\u00e1goras e outros gregos muito antigos. (Antes que me entendam mal: n\u00e3o sou especialista em filosofia e nem metido a erudito; apenas adoro ler sobre as ideias destes primeiros cientistas, o florescer do pensamento racional do homem, que vai dando pistas pouco a pouco sobre como de l\u00e1 chegamos at\u00e9 aqui.) Por isso escrevi \u0022envolvido\u0022: n\u00e3o se trata de quest\u00e3o quantitativa; ouvi, como sempre, discos \u00e0 be\u00e7a: ouvi discos no \u00f4nibus indo para a praia e depois sentado na areia diante do mar; ouvi discos trabalhando em casa de tarde e depois de noite antes de dormir. Muitos discos. Apenas que nada me deixou impress\u00e3o muito forte, ou t\u00e3o forte quanto as leituras. Vejamos. Das poucas audi\u00e7\u00f5es que se repetiram, *Am Universum*, do Amorphis, se destaca. Tenho escutado bastante a estes finlandeses pois estou escrevendo algo mais longo sobre eles, \u00e0 moda do que fiz para o Anthrax uns meses atr\u00e1s. Sempre gostei do *Am Universum*, \u00e1lbum que se seguiu ao meu favorito *Tuonela*, e nem mesmo o fato dele ser t\u00e3o parecido com seu antecessor o diminui em minha aprecia\u00e7\u00e3o. A banda estava em estado de gra\u00e7a em termos de inspira\u00e7\u00e3o desde pelo menos *Elegy*, de 1996, e algo parece culminar em *Am Universum*, o lado ruim disso sendo que quando se atinge o cume depois resta apenas a descida. Mas a banda soube descer com equil\u00edbrio e dignidade. Assunto para depois. Outra audi\u00e7\u00e3o que vale mencionar: *Nightvision* de Devon Allman\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E. Quem \u00e9 Devon Allman? \u00c9 uma pergunta genu\u00edna pois n\u00e3o fa\u00e7o ideia e n\u00e3o me ocorreu ainda ocasi\u00e3o de pesquisar. Sei que este *Nightvision* (cuja linda capa vista em algum lugar foi o que me fez ficar desejoso de ouvi-lo) \u00e9 um disco danado de bom, que se passa como a trilha-sonora de algum filme juvenil sobre aventuras e amizades, levemente delirante, levemente amargo, soando a maior parte do tempo como se Joe Satriani tivesse se juntado ao Tangerine Dream para uma parceria inesperada... E o resultado fosse bom. Eu, pelo menos, achei, e por ora o disco est\u00e1 inscrito em minha nascente lista de melhores de 2026. Papo reto, agora: para uma sess\u00e3o r\u00e1pida de death metal de primeir\u00edssima qualidade, o EP *Unblessing the Purity* do Bloodbath \u2014 que, se bem entendo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de super-grupo que s\u00f3 se re\u00fane vez ou outra \u2014 \u00e9 escolha bastante acertada, agress\u00e3o demon\u00edaca de bom gosto e t\u00e9cnica refinad\u00edssimos. Vai por mim. N\u00e3o tendo nada mais para recomendar assim de cora\u00e7\u00e3o sangrando e grande entusiasmo, encerro por aqui, me preparando para afundar mais seriamente no oceano dos meus discos, pois este, tudo indica, vai ser um longo, longo ano.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1:\u003C\/b\u003E O disco ainda n\u00e3o consta na base de dados do Discogs, por isso n\u00e3o aparecer\u00e1 na lista de mencionados abaixo. [\u21a9](#a1)","post_summary":"N\u00e3o \u00e9 que eu tenha escutado pouca m\u00fasica: os livros e a praia \u00e9 que estavam melhores.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/news.emory.edu\/stories\/2024\/10\/er_cinematheque_season_02-10-2024\/story.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":904,"title":"Em mem\u00f3ria de \u00c9liane Radigue (1932\u20142026)","post_timestamp":"2026-02-27T02:14:58+00:00","url":"Em_memoria_de_Eliane_Radigue_1932_2026","post":"Desta vez n\u00e3o demorei tantos dias para saber da morte de mais um de meus her\u00f3is \u2014 hero\u00edna, no caso: [\u0022\u00c9liane Radigue has Died, Aged 94\u0022](\r\nhttps:\/\/thequietus.com\/news\/eliane-radigue-has-died-aged-94\/), estava na capa do *The Quietus* quando por l\u00e1 passei na ter\u00e7a-feira de noite em minha ronda semanal em busca de novos textos e nova m\u00fasica. A not\u00edcia havia sido publicada naquela manh\u00e3. Mal d\u00e1 de lamentar o falecimento de algu\u00e9m que tinha 94 anos e deixa como legado uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica da ordem do sublime, mas lamento mesmo assim, como se inconscientemente cogitasse a improv\u00e1vel possibilidade de encontr\u00e1-la algum dia para lhe agradecer pela generosidade. Na noite seguinte, uma pilha de CDs novinhos reluzia sobre a mesa, cortesia de minha paciente companheira, que os trouxera para mim de sua viagem de trabalho \u00e0 Europa. O convite que a pilha me fazia era tentador, mas antes fui \u00e0 estante e puxei *Triptych*, de Radigue, para prestar-lhe o devido tributo. Coloquei os fones de ouvido e estiquei-me na rede com l\u00e1pis e caderno, pretendendo rabiscar algumas linhas sobre a m\u00fasica que escutava... Mas descrever a m\u00fasica de Radigue \u00e9 tarefa bastante dif\u00edcil. Ela solicita algo diferente de seus ouvintes, uma disposi\u00e7\u00e3o, uma abertura. Munida da paci\u00eancia que me parece estarmos todos perdendo irremediavelmente, Radigue criou auras sonoras que, encontrando ouvido e esp\u00edrito receptivo, fazem-no retroceder e pensar em origens, entrever o que n\u00e3o se percebe cotidianamente, confrontar a filosofia ([a ocidental, pelo menos](https:\/\/clotmag.com\/oped\/voltages-buddhism-and-an-infinite-listening-tribute-to-eliane-radigue-by-miguel-isaza)). Imersos no burburinho permanente da vida humana, \u00e9 quase um choque f\u00edsico encontrar-se de repente envolvido por estas texturas el\u00e1sticas que parecem recortadas de ciclos eternos, ao mesmo tempo delicadas e imortais, e que pulsam animadas por um ritmo que sentimos vestigialmente compreender mas cujo acesso \u00e0 origem se perdeu pelo caminho, soterrado sob este imp\u00e9rio do barulho \u2014 o ru\u00eddo acumulado dos choques incessantes dos detritos \u00e0 deriva pelo universo agora transformados em autom\u00f3veis, mensagens chegando nos celulares, c\u00e3es enlouquecidos encarcerados em apartamentos, o vento esbarrando no concreto, furadeiras e martelos, aumentando em escala e onipresen\u00e7a dia ap\u00f3s dia, sem parar. Radigue escutou com aten\u00e7\u00e3o, captou as subjac\u00eancias e registrou-as em fitas magn\u00e9ticas. (Desconfio que o fez antes de tudo para si mesma, mas em um ato de piedade, compartilhou.) O resultado talvez seja o som da vida interior da compositora, talvez o som da irradia\u00e7\u00e3o da vida do universo. Talvez sejam ambos uma \u00fanica e mesma coisa. *Adieu, madame!*","post_summary":"\u00c0 mestra com carinho.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"\u00c9liane Radigue em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/echoraum.at\/eliane-radigue-occam-ocean\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":903,"title":"Doom no ver\u00e3o","post_timestamp":"2026-02-12T11:54:20+00:00","url":"Doom_no_verao","post":"N\u00e3o o jogo, que joguei em outros ver\u00f5es mais antigos e despreocupados. Refiro-me ao subg\u00eanero do metal, mais especificamente ao Paradise Lost, mais especificamente ao seu \u00e1lbum mais recente, este glorioso *Ascension*. Tendo escutado-o em formato de, digamos, \u0022pr\u00e9via\u0022 no ano passado e inserido-o em minha lista de [favoritos de 2025](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Melhores_discos_de_2025), eu sabia que deveria p\u00f4r minhas m\u00e3os no CD assim que fosse poss\u00edvel, e assim o fiz, e quando o fiz aproveitei para comprar tamb\u00e9m a melhor cerveja que pude comprar sem ir muito longe de casa com a inten\u00e7\u00e3o de transformar em evento especial a noite em que finalmente rasgaria o pl\u00e1stico, desvendaria o encarte e escutaria ao CD. E assim o fiz tamb\u00e9m. \u00c9 destes discos que gera conforto e felicidade t\u00ea-lo na estante. \u00c9 a experi\u00eancia completa: h\u00e1 guitarras rasgadas, riffs emocionamentes, refr\u00f5es de gelar a espinha, belezas mil. O som \u00e9 denso, grave, austero, absorve por completo o ouvinte. \u00c9 isso o que eu quero do meu metal, como j\u00e1 tentei explicar [anteriormente](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Janeiro_de_2026). A diferen\u00e7a, aqui, \u00e9 que se trata do Paradise Lost. Deveria bastar deixar dito assim; caso n\u00e3o baste, censuro a ignor\u00e2ncia de meu leitor ou de minha leitora e secretamente invejo-o ou invejo-a por ter ainda pela frente a possibilidade de assombrar-se pela primeira vez com o jardim sonoro monumental destes ingleses. N\u00e3o que audi\u00e7\u00f5es sucessivas dissipem a for\u00e7a da banda \u2014 \u00e9 que a primeira vez \u00e9 sempre a primeira vez... Mas o que voc\u00ea deveria saber \u00e9 que n\u00e3o \u00e9, de modo algum, apenas uma banda entre outras. H\u00e1 um esmero e uma habilidade nas composi\u00e7\u00f5es que parece localiz\u00e1-los em outro tempo, quando ent\u00e3o artistas poderiam criar obras desta amplitude e desta pureza em que absolutamente nada sugere interfer\u00eancias de qualquer g\u00eanero, comercial ou o que seja, o tempo dos grandes poetas, de Virg\u00edlio, dos grandes pintores, de Michelangelo, artes\u00e3os solenes e circunspectos. O tempo das lentas transcri\u00e7\u00f5es \u00e0 luz de velas, o tempo da alquimia. Longe de mim lamentar n\u00e3o ter nascido em tal \u00e9poca, mas poder acess\u00e1-la com dois ou tr\u00eas gestos e um bom fone de ouvido \u00e9 certamente uma d\u00e1diva da modernidade. Que esta banda lance um disco como *Ascension* com quase 40 anos de estrada s\u00f3 refor\u00e7a o meu ponto. Que \u00e9, em resumo: uma banda fodida de maravilhosa. O ver\u00e3o arde a\u00ed fora e a esta\u00e7\u00e3o, em tese, pede sons mais leves e litor\u00e2neos... \u00e0s favas com tudo isso. Para o Paradise Lost estou sempre disposto a conceder todas as noites que me forem solicitadas.","post_summary":"\u00c9 isto o que eu espero do meu heavy metal.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido copiada [daqui](https:\/\/www.nuclearblast.com\/blogs\/news\/paradise-lost-announce-2nd-leg-of-their-ascension-of-europe-tour).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}}]}