{"posts":[{"id":915,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2026","post_timestamp":"2026-10-01T22:20:23+00:00","url":"Discos_do_mes_Setembro_de_2026","post":"S\u00e3o dois os motivos que me fizeram, nas \u00faltimas semanas, enveredar profundamente pelo mundo do crust\/punk\/hardcore\/grindcore: primeiro, o fato de que este tipo de m\u00fasica, com seus extremos de selvageria s\u00f4nica e caos apocal\u00edptico, tem me ajudado a abafar o ru\u00eddo vindo do mundo externo, principalmente as not\u00edcias sobre as elei\u00e7\u00f5es, a insanidade grotesca de um pa\u00eds que cogita seriamente eleger presidente um corrupto insignificante e abjeto cuja fama vem inteiramente do fato de ser filho de um golpista assassino. (Eu deveria ter percebido o olhar pasmado e a voz ensaiada das pessoas que me diziam, nos \u00faltimos anos, que tudo ia bem, que o pesadelo acabara.) Segundo: a consola\u00e7\u00e3o nascida do fato de que, nestas veredas da m\u00fasica extrema \u2014 e ao contr\u00e1rio do reacionarismo predominante no mundo do metal \u2014 prevalecem artistas politicamente conscientes e revoltos. Revoltos, ressalte-se, pelos motivos certos: autoritarismo, racismo, desigualdade social, big techs (antigamente eram as \u0022multinacionais\u0022, os logotipos de algumas delas estampados na capa do primeiro disco do Napalm Death), guerra, genoc\u00eddio e demais trag\u00e9dias decorrentes da din\u00e2mica capitalista neoliberal, que posa de superior moral enquanto financia a limpeza \u00e9tnica em Gaza, para citar apenas um exemplo contempor\u00e2neo. E n\u00e3o s\u00e3o poucas as bandas que v\u00e3o al\u00e9m e usam sua m\u00fasica como ve\u00edculo para causas veganas, feministas e demais bandeiras que costumam disseminar p\u00e2nico entre os cidad\u00e3os de bem. Prevalecem tamb\u00e9m, nestas vertentes da m\u00fasica extrema, os anarquistas, mas com este ideal j\u00e1 n\u00e3o posso dizer que nutro simpatias, pois para mim o anarquismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de irm\u00e3o sujinho do pr\u00f3prio neoliberalismo: ambos ideias muito bonitas e justas no papel e totalmente invi\u00e1veis na pr\u00e1tica. Mas isso \u00e9 outra conversa. Fato \u00e9 que em setembro danificaram severamente meus ouvidos os discos de bandas como [Napalm Death](https:\/\/napalmdeath.bandcamp.com), [Totalit\u00e4r](https:\/\/totalitaer.bandcamp.com), [Facada](https:\/\/facadagrind.bandcamp.com), [Rot](https:\/\/rotgrind.bandcamp.com), [Ratos de Por\u00e3o](https:\/\/ratosdeporao.bandcamp.com), Black Pantera (sem perfil no Bandcamp, infelizmente), [Cripple Bastards](https:\/\/cripplebastards.bandcamp.com\/music) e [Dropdead](https:\/\/dropdeadhc.bandcamp.com). Bastam as imagens que estes nomes invocam, mesmo que voc\u00ea nunca tenha escutado seus \u00e1lbuns, para descrever o tipo de m\u00fasica que fazem... Mas mantenho este blog para falar de sonz\u00eara, ent\u00e3o saudemos a exist\u00eancia desta banda monumental chamada Napalm Death, uma das inauguradoras da possibilidade da arte sonora radical como forma de mobilizar aten\u00e7\u00e3o em prol de minorias e popula\u00e7\u00f5es desassistidas. Precursora tamb\u00e9m desta forma brutal de punk rock, metalizado, que originou um ou dois subg\u00eaneros e incont\u00e1veis bandas. O Napalm Death mant\u00e9m o alto n\u00edvel de seus lan\u00e7amentos desde o primeir\u00edssimo \u00e1lbum, o cl\u00e1ssico *Scum* de 1987, mas deste s\u00e9culo sinistro que atravessamos talvez meu favorito seja o *Time Waits for No Slave*, de 2009. Vida longa ao Napalm Death! Mat\u00e9ria para muitos outros discos aparentemente n\u00e3o vai faltar, assim como n\u00e3o faltar\u00e1 para uma banda aqui da nossa quebrada sul-americana, o Ratos de Por\u00e3o. Desde antes do Napalm Death (embora influenciados por eles a partir dos anos 90) nossos Ratos favoritos j\u00e1 faziam barulho contra uma sociedade que denunciavam como putrefata, mas ser\u00e1 que estes arruaceiros da periferia paulista prognosticaram que o fascismo voltaria para nos assombrar, revivido pelo casamento de conveni\u00eancia com o tecnocapitalismo e pela nostalgia da barb\u00e1rie? Penso que n\u00e3o; este fen\u00f4meno assustador \u00e9 da natureza humana, egoc\u00eantrica e facilmente ludibri\u00e1vel, coisa deste nosso mund\u00e3o v\u00e9io que d\u00e1 um passo para frente e dois para tr\u00e1s, e assim seguimos aos trancos e barrancos, deixando uma trilha de ru\u00ednas e devasta\u00e7\u00e3o, crentes na renova\u00e7\u00e3o eterna da luz no fim do t\u00fanel. (Ademais, um [escritor](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bertolt_Brecht) nos alertara: o fascismo \u00e9 uma cadela que est\u00e1 sempre no cio.) Fato \u00e9 que o Ratos continua pertinente em 2026 e continuar\u00e1 pelos pr\u00f3ximos anos, Jo\u00e3o Gordo transformando-se em pilar moral de um pa\u00eds que vai abrindo m\u00e3o de seus brios e pudores mais b\u00e1sicos, de sua cultura e sua terra, entregando tudo enquanto acomoda-se pregui\u00e7osamente no mundo atoleimado da internet. Para finalizar, enfiei ouvidos adentro muito Black Pantera, em especial este seu mais recente disco, *Continental*. Talvez, sonoramente, a m\u00fasica mais suave que escutei nestes \u00faltimos dias; possivelmente a mais relevante. *Continental* \u00e9 urgente, afiado, por vezes furioso, uma mistura fervilhante de resist\u00eancia combativa e conhecimento, a ponto de misturar em uma mesma faixa \u0022hijo de la puta, n\u00f3s n\u00e3o vamos pagar pau\u0022 com a voz gravada de [Milton Santos](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Milton_Santos). Traz ainda participa\u00e7\u00f5es ex\u00f3ticas e sensacionais de Chico C\u00e9sar e Sandra S\u00e1 e figura, desde a primeira audi\u00e7\u00e3o, na minha lista dos melhores discos do ano.","post_summary":"Volume alto e caos sonoro contra um mundo pervertido.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Black Pantera em foto de Hugo Brito, copiada [daqui](https:\/\/g1.globo.com\/pop-arte\/musica\/blog\/mauro-ferreira\/post\/2026\/08\/21\/black-pantera-vai-alem-do-hardcore-thrash-no-album-continental-sem-diluir-a-furia-o-peso-e-o-ativismo-da-banda.ghtml).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":914,"title":"Aspernoter\u00edleo","post_timestamp":"2026-09-21T21:31:44+00:00","url":"Aspernoterileo","post":"Lembrei-me, dia desses, de uma brincadeira que eu fazia quando crian\u00e7a. Pensando bem, n\u00e3o era exatamente uma brincadeira: estava mais para um exerc\u00edcio intelectual imp\u00fabere, o nascer da curiosidade com a vastid\u00e3o do mundo e das gentes, um deslumbramento. Eu perguntava para mim mesmo: \u0022ser\u00e1 que existe algu\u00e9m em algum lugar do mundo, neste exato momento, dizendo esta mesma palavra que irei dizer agora?\u0022, e ent\u00e3o eu inventava e pronunciava em voz alta uma palavra maluca qualquer, que supunha existir em algum outro idioma. Zapuldeivester, empistaparquela, algo assim, em geral, com muitas s\u00edlabas. Pronunciava e ficava ent\u00e3o fascinado com o que poderia significar caso a resposta fosse sim, havia algu\u00e9m proferindo exatamente aquela mesma palavra naquele mesmo instante, talvez em algum lugar do outro lado do mundo, em um cen\u00e1rio varrido por ventanias e com uma cor diferente no c\u00e9u... Esta velha lembran\u00e7a veio-me \u00e0 mente quando decidi comprar o *Now and Zen* do Robert Plant uns dias atr\u00e1s: peguei o disco da estante de usados e levei-o ao caixa da loja, recordando o velho assombro infantil e formulando outro: \u0022ser\u00e1 que h\u00e1 algu\u00e9m no mundo, neste exato instante, comprando o *Now and Zen* do Robert Plant?\u0022. Seria uma esquisitice bastante intrigante, eu conjecturava, coisa de um mundo que ainda guarda seus segredos, suas maneiras desconhecidas de dirigir a natureza... Mas no fim conclu\u00ed que n\u00e3o, n\u00e3o haveria nada de especial nisto, e certamente mais chances de tal compra paralela acontecer do que algu\u00e9m ter pronunciado, simultaneamente a mim, l\u00e1 no tempo da inf\u00e2ncia, alguma daquelas palavras inventadas, inexistentes em qualquer idioma, salvo uma ou outra em alem\u00e3o. Pois este *Now and Zen* n\u00e3o \u00e9 um disco t\u00e3o extravagante assim de se escutar hoje; sei de muitos outros que, como eu, sofrem de nostalgia oitentista, que curtem um hard rock radiof\u00f4nico feito com capricho, sintetizadores, refr\u00f5es de beleza luminosa e backing vocals harm\u00f4nicos como os de *Helen of Troy* e *Why*. H\u00e1 tamb\u00e9m no tracklist deste disco, como frequentemente ocorria nos velhos discos do Led Zeppelin, uma faixa de beleza meio m\u00edstica, cadenciada, as cordas dedilhadas (aqui, *Ship of Fools*). Se me incomodam os truques de produ\u00e7\u00e3o t\u00edpicos daquela \u00e9poca, os samples e recortes inspirados no rap, as baterias cheias de ecos e sonoridade sintetizada, as guitarras derivadas do U2? N\u00e3o, nem um pouco. Se desconsiderarmos os cl\u00e1ssicos canonizados do Led Zeppelin e os mais recentes discos de sua carreira solo, j\u00e1 pertencentes \u00e0 sua fase \u0022s\u00e1bio anci\u00e3o\u0022, este \u00e9 meu \u00e1lbum favorito de Plant.","post_summary":"Um disco do Robert Plant e uma mem\u00f3ria de crian\u00e7a.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Rio Sumida \u2014 Entardecer*, de Hiroshi Yoshida, imagem copiada [daqui](https:\/\/ukiyo-e.org\/image\/artelino\/38720g1).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":913,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2026","post_timestamp":"2026-09-05T14:21:35+00:00","url":"Discos_do_mes_Agosto_de_2026","post":"N\u00e3o sei como \u00e9 que voc\u00eas fazem para dar conta desta fartura de m\u00fasica que h\u00e1 pelo mundo. Confesso que fico, \u00e0s vezes, um tanto agoniado. Nessas horas, lembro-me de entoar o mantra de um amigo \u2014 \u0022que diferen\u00e7a far\u00e1 daqui a 10 milh\u00f5es de anos?\u0022 \u2014 e s\u00f3 ent\u00e3o relaxo. Dito isto, tenho a relatar que em agosto resolvi duas faltas que vinham se pronlongando demais: as pouqu\u00edssimas horas dedicadas \u00e0 m\u00fasica de duas bandas que adoro, Samael e Candlemass. Dia ap\u00f3s dia outras audi\u00e7\u00f5es se impunham; a vida e seus imprevistos iam me atropelando (\u0022o homem planeja e Deus ri\u0022), me desfalcando diariamente das horas que eu gostaria de poder ficar em paz, feliz e sossegado ouvindo meu heavy metalzinho; por fim, chega a noite e, por volta das 22h, eu me sinto aniquilado, sem disposi\u00e7\u00e3o para muita coisa que exija estar acordado. E foi assim nesta toada desgovernada que o Samael e o Candlemass foram ficando desgra\u00e7adamente para tr\u00e1s, perdidos na lembran\u00e7a de audi\u00e7\u00f5es muito antigas. At\u00e9 o m\u00eas passado. Pois no come\u00e7o de agosto os astros se alinharam e voltei a tirar da estante, finalmente, o *Epicus Doomicus Metallicus* dos suecos do Candlemass. Essa banda praticamente se confunde com a defini\u00e7\u00e3o de doom, enquanto que a este disco nem precisamos ajuntar r\u00f3tulos e adjetivos \u2014 eles j\u00e1 v\u00eam todos convenientemente no pr\u00f3prio t\u00edtulo. Come\u00e7ando de forma inesquec\u00edvel com *Solitude* e terminando arrebatadoramente com *A Sorcerer\u0027s Pledge*, o primeiro \u00e1lbum do Candlemass \u00e9 da mat\u00e9ria da qual s\u00e3o feitos os mitos e as lendas. Da discografia do Samael talvez n\u00e3o se possa dizer algo t\u00e3o grandiloquente assim, mas ela tampouco autoriza dizer que \u00e9 uma banda como outra qualquer. *Ceremony of Opposites*, de [linda e ic\u00f4nica capa](https:\/\/f4.bcbits.com\/img\/a3777333508_10.jpg), foi um dos discos que nos anos 90 come\u00e7ou a separar o joio do trigo, quero dizer, a distinguir as bandas advindas do ominoso mundo do black metal (subg\u00eanero at\u00e9 ent\u00e3o mais associado com homic\u00eddios e igrejas queimadas) e trazer \u00e0 luz aquelas que de fato tinham alguma coisa interessante para nos oferecer. Samael, Gathering, Tiamat, Rotting Christ, Ulver... a porteira estava aberta. Cada uma com sua contribui\u00e7\u00e3o particular, cabendo ao Samael, a partir do *Passages*, de 1996, a miss\u00e3o de injetar m\u00fasica industrial na veia do black metal. Relato ainda que nos \u00faltimos dias do m\u00eas passei algumas divertidas horas com o *Testimony of the Ancients* do Pestilence, essa banda de nome t\u00e3o meigo. \u00c9 o terceiro disco destes holandeses e o primeiro a sugerir que tamb\u00e9m eles n\u00e3o ficariam para sempre confinados nos limites r\u00edgidos de seu subg\u00eanero original, no caso, o death metal. Sintetizadores, riffs tortuosos e atmosfera t\u00e9trica d\u00e3o o tom desta viagem cavernosa memor\u00e1vel. E para finalizar com algo mais recente: uma avalanche de promissores novos discos come\u00e7ou a desabar sobre n\u00f3s em fins de agosto e seguir\u00e1 ao longo de setembro \u2014 [Test](https:\/\/testgrind.bandcamp.com\/album\/goatest), [Static Abyss](https:\/\/peaceville.bandcamp.com\/album\/the-dying-hunt), [Mastodon](https:\/\/mastodon.bandcamp.com\/album\/marrow-deep), [Emma Ruth Rundle](https:\/\/emmaruthrundle.bandcamp.com\/album\/these-killing-times), [Sarah Davachi](https:\/\/sarahdavachi.bandcamp.com\/album\/the-will-of-tongues), [Chat Pile](https:\/\/chatpile.bandcamp.com\/album\/who-loves-the-sun), [Devil Master](https:\/\/devilmaster.bandcamp.com\/album\/bloody-dreams), [Sleep](https:\/\/sleep.bandcamp.com\/album\/hempispheres) e Black Pantera s\u00e3o alguns dos nomes que anotei. E embora sejam estas todas bandas e artistas que adoro, parece-me improv\u00e1vel que alguma delas lance um \u00e1lbum que eu v\u00e1 preferir ao primeiro que escutei da fornada, *The Dark*, da Chelsea Wolfe. Mas que \u00e1lbum muito bonito. Confesso que os discos de Chelsea me parecem, algumas vezes, flutuar a soldo de circunst\u00e2ncias externas \u00e0 sua voz art\u00edstica, que acaba soterrada ou estrangulada pela produ\u00e7\u00e3o. Tal coisa n\u00e3o ocorre em *The Dark*. Aqui talvez tenhamos o melhor e mais verdadeiro de Chelsea Wolfe, uma esp\u00e9cie de folk assombrado cujos adornos (ora el\u00e9tricos, ora eletr\u00f4nicos, ora at\u00e9 mesmo orquestrais) n\u00e3o interferem na ess\u00eancia. Sua identidade sobressai-se sem esfor\u00e7o; escutamos a artista aprendendo a conviver com suas ang\u00fastias e perplexidades, usando das t\u00e1ticas e armas de que disp\u00f5e para pelo menos distrair temporariamente um inimigo invenc\u00edvel. Chelsea n\u00e3o \u00e9 a primeira a transformar dor e tristeza em grande arte, mas no mundo da m\u00fasica contempor\u00e2nea, daqui de onde vejo e escuto \u2014 e mesmo que com seus altos e baixos \u2014 ela \u00e9 de longe a melhor.","post_summary":"Em agosto, na imin\u00eancia de ser soterrado por nova m\u00fasica, passei algumas horas com bons e velhos conhecidos.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Chelsea Wolfe em foto de Nicolas Sandino Moreno, copiada [daqui](https:\/\/www.spinmagazine.com\/2025\/05\/chelsea-wolfes-gothic-heart\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":912,"title":"Heavy metal roundup - Edi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-El Ni\u00f1o \u002726","post_timestamp":"2026-08-08T21:30:57+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Edicao_pre_El_Nino_26","post":"**Gutvoid - Liminal Shrines**\r\n\r\nO que primeiro chama a aten\u00e7\u00e3o neste disco \u00e9 a ilustra\u00e7\u00e3o na capa: uma cascata de fogo que se parece com algo pintado por J. M. W. Turner prestes a queimar e afogar (na impossibilidade de saber que tipo de morte deve ser pior, imponha-se logo as duas ao mesmo tempo) seres desesperados que bem poderiam estar em um quadro de Francis Bacon. Dois dos meus pintores favoritos; *Liminal Shrines* j\u00e1 saiu em vantagem. No que mais interessa o Gutvoid vai bem tamb\u00e9m. A m\u00fasica est\u00e1 em conson\u00e2ncia com a express\u00e3o distorcida das figuras estampadas: death metal lun\u00e1tico e selvagem, arrojando-se de cabe\u00e7a pela porteira aberta pelo Blood Incantation, sufocante, c\u00f3smico e brutal.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=847577835\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless=\u0022\u0022\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/gutvoid.bandcamp.com\/album\/liminal-shrines\u0022\u003E\u003Cem\u003ELiminal Shrines\u003C\/em\u003E by GUTVOID\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**\u00ccsink\u00fa - Damnatio Memoriae**\r\n\r\nAs florestas europeias, como tema para mitologia, hist\u00f3rias de horror e black metal, t\u00eam no Ulver e no Drudkh meus cronistas favoritos. As do noroeste dos EUA tem o Wolves in the Throne Room. As brasileiras tem o \u00ccsink\u00fa.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3693759446\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless=\u0022\u0022\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/isinku.bandcamp.com\/album\/damnatio-memoriae\u0022\u003EDamnatio Memoriae by \u00ccsink\u00fa\u003C\/a\u003E\r\n\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Disembodiment - Spiral Crypts**\r\n\r\n\u00c9 tudo de uma infantilidade extrema neste disco \u2014 a arte gr\u00e1fica, os temas, os grunhidos \u2014 mas como n\u00e3o amar o timbre das guitarras? E a atmosfera de p\u00e2ntano, e a recusa radical da dec\u00eancia e da civilidade?\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1273593951\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/everlastingspew.bandcamp.com\/album\/spiral-crypts\u0022\u003ESpiral Crypts by Disembodiment\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Cruel Force \u2013 Haneda**\r\n\r\nPara quem n\u00e3o gosta deste tipo de m\u00fasica (rock, metal, como queira chamar), o disco acima e este abaixo devem soar o mesmo barulho intrag\u00e1vel, a mesma balb\u00fardia incompreens\u00edvel e potencialmente prejudicial aos ouvidos. Para quem est\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas envolvido nisto, estas bandas representam quase que polos opostos. Embora o Cruel Force pratique algo que n\u00e3o esteja entre minhas prefer\u00eancias \u2014 chamam speed metal \u2014 vez ou outra uma banda destas cercanias fisga meus ouvidos, seja pela atmosfera fantasiosa que conjura, pelo brilho da produ\u00e7\u00e3o, pela cren\u00e7a comovente no que fazem. No caso do Cruel Force, assinaladas ficam as tr\u00eas hip\u00f3teses.\r\n\r\n\u003Ciframe class=\u0022aligncenter\u0022 style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1211602229\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/track=3953084378\/transparent=true\/\u0022 seamless=\u0022\u0022\u003E\u003Cspan data-mce-type=\u0022bookmark\u0022 style=\u0022display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\u0022 class=\u0022mce_SELRES_start\u0022\u003E\ufeff\u003C\/span\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/cruelforce.bandcamp.com\/album\/haneda\u0022\u003EHaneda by CRUEL FORCE\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Into Darkness - Route to the Other Side**\r\n\r\nAlgo neste *Route to the Other Side* me lembrou os primeiros discos do Dark Tranquillity, talvez o caldo sonoro resultante da produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se esfor\u00e7a particularmente em separar os instrumentos e faz\u00ea-los soarem l\u00edmpidos e cristalinos. N\u00e3o entendo nada de produ\u00e7\u00e3o musical, mas desconfio que optar por este tipo de sonoridade sem que a coisa acabe degradando para uma ma\u00e7aroca seja algum tipo de magia negra. Em todo caso, n\u00e3o apenas este trunfo t\u00e9cnico faz deste um \u00e1lbum sensacional, que ando cogitando inserir em minha lista de melhores do ano: *Route to the Other Side* \u00e9 empolgante e incans\u00e1vel, *old school* sem soar restringido, repleto de riffs ferozes que n\u00e3o permitem que se sinta falta de maiores elabora\u00e7\u00f5es mel\u00f3dicas. A\u00ed est\u00e1 uma banda convicta em suas paix\u00f5es e ambi\u00e7\u00f5es, e isto fica nitidamente evidente ao longo de todo o percurso. Disca\u00e7o.\r\n\r\n\u003Ciframe class=\u0022aligncenter\u0022 style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=4139060358\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless=\u0022\u0022\u003E\u003Cspan data-mce-type=\u0022bookmark\u0022 style=\u0022display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\u0022 class=\u0022mce_SELRES_start\u0022\u003E\ufeff\u003C\/span\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/dyingvictimsproductions.bandcamp.com\/album\/route-to-the-other-side\u0022\u003ERoute to the Other Side by Into Darkness\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Expurgo - Deformed by Law**\r\n\r\nE, finalmente, se tudo isso a\u00ed soa inofensivo para voc\u00ea, \u00e9 dos mineiros do Expurgo o que voc\u00ea anda precisando.\r\n\r\n\u003Ciframe class=\u0022aligncenter\u0022 style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3672237020\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless=\u0022\u0022\u003E\u003Cspan data-mce-type=\u0022bookmark\u0022 style=\u0022display: inline-block; width: 0px; overflow: hidden; line-height: 0;\u0022 class=\u0022mce_SELRES_start\u0022\u003E\ufeff\u003C\/span\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/dyingvictimsproductions.bandcamp.com\/album\/route-to-the-other-side\u0022\u003EDeformed by Law to the Other Side by Expurgo\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":"A perspectiva \u00e9 de muita chuva para os pr\u00f3ximos meses. Vou me preparando para uma temporada estendida dentro de casa conhecendo novas bandas. ","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Painting*, de Francis Bacon. Imagem copiada [daqui](https:\/\/www.moma.org\/collection\/works\/79204).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":911,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2026","post_timestamp":"2026-08-04T00:36:45+00:00","url":"Discos_do_mes_Julho_de_2026","post":"Estive viajando durante boa parte do m\u00eas de julho, o que n\u00e3o significa que tenha escutado pouca m\u00fasica neste per\u00edodo, pelo contr\u00e1rio: uma das minhas ocasi\u00f5es favoritas para enfiar os fones de ouvido \u00e9 justamente estar em tr\u00e2nsito, em translado de um lugar para outro, assistindo a novas e estrangeiras paisagens deslizando pela janela. E foram muitas as vans, os \u00f4nibus e os avi\u00f5es ao longo de duas semanas: muitas foram as janelas pelas quais observei pessoas, constru\u00e7\u00f5es, vilarejos, montanhas, c\u00e3es vagabundos, a est\u00e9tica geral de outros modos de viver, tudo ampliado e ressignificado pela m\u00fasica que eu carregava comigo. \u00c9 inevit\u00e1vel, no entanto, que nestas ocasi\u00f5es a mente dedique-se menos a elaborar ideias sobre a m\u00fasica sendo escutada, uma vez que a paisagem tende a ocupar quase que todo o espa\u00e7o cognitivo e as anota\u00e7\u00f5es mentais nascem mais daquilo que \u00e9 visto do que \u00e9 escutado. \u00c0 m\u00fasica, na maior parte das vezes, resta o papel de complemento de luxo \u00e0 experi\u00eancia do viajante\/observador. A verdade, enfim, \u00e9 que n\u00e3o tenho muito o que escrever sobre a m\u00fasica escutada em julho. Mesmo antes da partida o tempo vinha sendo empregado majoritariamente na prepara\u00e7\u00e3o da viagem e na maratona para finalizar as tarefas pessoais e profissionais que precisavam ser finalizadas. Mas lembro-me que nos dias corridos que antecederam a viagem ocorreu-me finalmente escutar com alguma aten\u00e7\u00e3o ao Dead Moon, essa banda de ares cult que algumas poucas pessoas idolatram \u2014 poucas, mas em geral pessoas que importam, importam muito. \u00c9 como se o Dead Moon fosse o [Sam Fuller](https:\/\/www.imdb.com\/name\/nm0002087\/) do rock \u0027n\u0027 roll. Escutei ao disco [*Stranded in the Mystery Zone*](https:\/\/deadmoonnight.bandcamp.com\/album\/stranded-in-the-mystery-zone) e adorei! Mais um nome anotado em minha extensa lista de bandas para procurar por todos os discos e conhecer a fundo. Lembro-me tamb\u00e9m de escutar, depois de eras, o Skid Row, que inicialmente apareceu-me em uma playlist que mantenho de can\u00e7\u00f5es not\u00e1veis da minha inf\u00e2ncia, uma playlist para sess\u00f5es de nostalgia, digamos assim. *In a Darkened Room* brilhou entre as outras faixas desta cole\u00e7\u00e3o, que interrompi para escutar *Slave to the Grind*, disco de 1991 que traz este e alguns dos outros hits do Skid Row que vieram na esteira do sucesso do Guns n\u0027 Roses. N\u00e3o \u00e9 m\u00fasica que esteja envelhecendo l\u00e1 muito elegantemente, mas isto n\u00e3o \u00e9 e nunca foi um problema para mim. Lembrei-me ent\u00e3o que o epis\u00f3dio do Sebastian Bach (cantor do Skid Row) na s\u00e9rie *What\u0027s in my bag* \u00e9 \u00f3timo e resolvi assisti-lo de [novo](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=dSGw8S8SMJ8). E ent\u00e3o, o erro: pesquisei sobre o que anda fazendo Bach e topei com not\u00edcias como [esta](https:\/\/www.metalsucks.net\/2026\/04\/24\/report-sebastian-bach-threw-an-embarrassing-drunken-bitch-fit-at-tuffs-stevie-rachelle-on-monsters-of-rock-cruise\/). (Mas tamb\u00e9m descobri, com bastante surpresa, que ele detesta o cr\u00e1pula boquirroto que preside seu pa\u00eds, assim como, ainda mais surpreendente, acabei descobrindo que tamb\u00e9m Axl Rose detesta o sujeito... No fim das contas, ap\u00f3s c\u00e1lculo escrupuloso, decidi que posso voltar a escutar Skid Row qualquer hora destas, sem muitos constrangimentos, quando bater forte a nostalgia.) Por fim, pelo menos um disco escutado durante a viagem eu posso mencionar: o deslumbrante *Harmony in Ultraviolet* de Tim Hecker. Posso mencionar pois ele \u00e9 t\u00e3o [deslumbrante](https:\/\/timhecker.bandcamp.com\/album\/harmony-in-ultraviolet) quanto a paisagem andina pela qual o \u00f4nibus em que eu estava serpenteava. Ambos \u2014 disco e paisagem \u2014 t\u00eam essa qualidade de mist\u00e9rio, de estarem inalcan\u00e7\u00e1veis em seus saberes, seus segredos. A m\u00fasica de Hecker \u00e9 borrada, \u00e1rida, tendendo ao escuro, de pouca cintila\u00e7\u00e3o; a Cordilheira dos Andes esmaga o observador com suas eras geol\u00f3gicas em fileiras verticais sem fim. Naquele dia eu n\u00e3o soube dizer se era a m\u00fasica que complementava a paisagem que eu observava ou se era a paisagem que complementava a m\u00fasica.","post_summary":"M\u00fasica como acess\u00f3rio de luxo. Com uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto minha, registrada em algum lugar entre Cusco e Puno, no Peru.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}}]}