{"posts":[{"id":908,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2026","post_timestamp":"2026-05-02T14:18:25+00:00","url":"Discos_do_mes_Abril_de_2026","post":"Se muito n\u00e3o me engano \u2014 pois estas j\u00e1 s\u00e3o coisas de um mil\u00eanio passado \u2014 o Enslaved costumava ter seu nome escrito e pronunciado frequentemente ao lado de Emperor, Immortal, Satyricon e demais malucos originais do black metal noruegu\u00eas, quando ent\u00e3o a coisa era inflexivelmente radical e underground. N\u00e3o me lembro de t\u00ea-los escutado em fins dos anos 90, quando passei a me interessar pelas margens mais extremas do metal e experimentei alguns dos discos desta s\u00facia de depravados; se escutei ao Enslaved naquela \u00e9poca, eles aparentemente n\u00e3o se diferiram em nada de seus conterr\u00e2neos mais famosos e nada deles subsistiu em minha lembran\u00e7a. Para falar a verdade, muito pouco mesmo destas outras bandas mais c\u00e9lebres subsistiu: o que elas tinham de mais marcante para mim eram t\u00edtulos de \u00e1lbuns apetitosos (*In the Nightside Eclipse*, *Pure Holocaust*, *Transilvanian Hunger*) e lindas artes gr\u00e1ficas que retratavam lobos, montanhas cobertas de neve e coisas do g\u00eanero. Corta para o presente: escuto ao disco *E*, lan\u00e7ado pelo Enslaved em 2017, e fico fascinado. Pesquiso e descubro: foi por volta da metade da primeira d\u00e9cada do novo mil\u00eanio que o Enslaved come\u00e7ou a se descolar da ortodoxia do black metal e passou a lan\u00e7ar \u00e1lbuns mais variados e sofisticados, j\u00e1 tendo congregado, nesta sua fase madura, um s\u00e9quito de f\u00e3s fi\u00e9is e o relativo respeito da cr\u00edtica (e, evidentemente, o desprezo dos black metal\u00earos mais intransigentes, o que \u00e9 sempre um bom sinal). Escutei depois mais dois ou tr\u00eas dos \u00e1lbuns mais recentes do Enslaved, todos excepcionais, e assim c\u00e1 estou agora \u00e0s voltas com mais uma generosa discografia para coletar e desvendar, sem saber de onde vou tirar tempo para isso. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a vida do sujeito fissurado em metal! *E* n\u00e3o chega a ser t\u00e3o vanguardista como os discos do Oranssi Pazuzu e do Blood Incantation (para citar duas outras bandas contempor\u00e2neas que andam empurrando as fronteiras da m\u00fasica pesada para cada vez mais longe), mas sua flexibilidade e riqueza sonora os coloca facilmente em outra categoria, se formos pensar nos modelos estreitos estabelecidos por Emperor, Immortal et caterva. Talvez voc\u00ea n\u00e3o me acredite, mas o Enslaved mescla com \u00eaxito e naturalidade seu black metal original com psicodelia, folk metal, rock progressivo, shoegaze \u2014 ou \u0022blackgaze\u0022, se preferir \u2014 e provavelmente mais alguma outra coisa que me esque\u00e7o ou que minha limitada capacidade de reconhecer subg\u00eaneros falhou em esquadrinhar. \u00c9 muito bonito e em v\u00e1rios momentos apote\u00f3tico. Ent\u00e3o, passada a febre do Enslaved, resolvi apimentar um pouco minhas audi\u00e7\u00f5es. Navegando pelas profundezas da minha lista de links com discos para ouvir no Bandcamp (a pasta onde salvo estes links possui no momento cerca de 7.400 itens, juro que \u00e9 verdade), esbarrei com o [primeiro disco do Coffin Mulch](https:\/\/coffinmulch.bandcamp.com\/album\/spectral-intercession). Bastaram 15 segundos adentro na primeira faixa para me fazer lamentar o tempo que demorei para conhecer esta banda \u2014 e teria sido ainda menos do que 15 n\u00e3o f\u00f4sse a introdu\u00e7\u00e3o dispens\u00e1vel. A matriz \u00e9 manjada: o timbre distorcido das guitarras \u00e0 moda Entombed faz a espinha gelar, o ritmo avassalador injeta deliciosas doses de euforia pelas veias. Incont\u00e1veis bandas seguem a cartilha sueca, mas o Coffin Mulch ganhou comigo uns pontinhos extras: quando entra o vocalista e ele come\u00e7a a berrar como se estivesse em uma banda de hardcore, a\u00ed sim a coisa fica seriamente excelente. Pois \u00e9. Sou capaz de apreciar e ter pensamentos elevados ouvindo Mahler e Beethoven, de me perder na m\u00fasica herm\u00e9tica do Aphex Twin e do Autechre, de me comover escutando a voz de M\u00f4nica Salmaso e o viol\u00e3o de Baden Powell. Mas alegre mesmo, de verdade, nos \u00faltimos anos, eu fico \u00e9 escutando heavy metal... Apesar disso, tento manter uma cota mensal de m\u00fasica que n\u00e3o seja metal, para n\u00e3o perder de todo o contato com o mundo real. Deixo ent\u00e3o registrada aqui a audi\u00e7\u00e3o deste bonito disco ao vivo de Neil Young, *Coastal*, trilha sonora de um document\u00e1rio sobre sua turn\u00ea de 2023. De particular interesse para mim neste tracklist est\u00e1 a inclus\u00e3o de tr\u00eas faixas do *Mirror Ball*, disco de 1995 que gosto muito e que traz o Pearl Jam como banda de apoio (embora esta informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o conste no encarte do \u00e1lbum por conta de embara\u00e7os contratuais ou algo que o valha). De fato, os cinco discos lan\u00e7ados por Young na d\u00e9cada de 90 s\u00e3o todos excepcionais; depois das tralhas lan\u00e7adas nos anos 80, quando se dedicava a sabotar contratos e brigar com gravadoras, os anos 90 foram um renascimento e tanto. \u00c9 uma pena que depois do \u00f3timo *Le Noise*, de 2010, entrei em descompasso com o velho Neil... Nada do que escutei com alguma aten\u00e7\u00e3o depois daquele \u00e1lbum conseguiu sustentar meu interesse em sua m\u00fasica atual. Mas \u00e9 bom saber, mesmo assim, que Neil Young continua por a\u00ed, ativo e brig\u00e3o, tendo trocado o alvo de suas escaramu\u00e7as dos executivos das gravadores para o presidente grotesco dos EUA.","post_summary":"Redescobrindo o Enslaved, ou descobrindo, j\u00e1 que se tornaram praticamente uma nova banda.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Enslaved em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/theobelisk.net\/obelisk\/2012\/08\/20\/enslaved-riitiir-review\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":907,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2026","post_timestamp":"2026-04-02T00:04:53+00:00","url":"Discos_do_mes_Marco_de_2026","post":"Depois de passar alguns dias na [companhia de m\u00fasica cl\u00e1ssica e trilhas sonoras](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Relato_de_meio_de_caminho_Marco_26), fui fisgado pelas belezas umbrosas do doom metal. (Doom metal \u00e9 um neg\u00f3cio que exige que utilizemos palavras como \u0022umbrosas\u0022.) \u00c0s vezes penso que n\u00e3o escuto tanto doom metal quanto gostaria; \u00e0s vezes penso que \u00e9 mais na teoria do que na pr\u00e1tica que eu gosto deste subg\u00eanero... Fico oscilando entre estas duas hip\u00f3teses. Algumas bandas me fazem tender \u00e0 primeira: o Katatonia, por exemplo. Estes suecos talvez n\u00e3o sejam os representantes mais exemplares do doom conforme sua defini\u00e7\u00e3o mais rigorosa, mas pelo menos em minha concep\u00e7\u00e3o de uma coisa e outra \u2014 subg\u00eanero e banda \u2014 h\u00e1 uma conflu\u00eancia bastante clara, ainda que uma concernente a quest\u00f5es mais abstratas de atmosfera e de paleta tonal, digamos, e nada a ver com quest\u00f5es t\u00e9cnicas sobre como afinar a guitarra ou tocar a bateria. Mas n\u00e3o precisamos perder tempo em tais min\u00facias; falemos logo da banda, que eu ouvi com frequ\u00eancia de pouca para m\u00e9dia em fins dos anos 90 e logo deixei de lado pois havia algo de bonito demais em suas can\u00e7\u00f5es, algo de refinado, talvez at\u00e9 de demasiadamente a\u00e7ucarado para algu\u00e9m como eu, que come\u00e7ava a gravitar em dire\u00e7\u00e3o ao Morbid Angel. Acho que o vocal de Jonas Renkse, elegante e caloroso, me incomodava mais do que tudo. Mas me aconteceu de escutar o disco *Viva Emptiness* uns dias atr\u00e1s, e depois voltei a ele para confirmar se era mesmo t\u00e3o bom, e \u00e9. Escutei tamb\u00e9m ao *Tonight\u0027s Decision*, que em seu equil\u00edbrio sofisticado de peso, melodia e penumbra g\u00f3tica acabou me soando melhor do que jamais havia soado antes. N\u00e3o que eu precise de mais uma banda para amar, mas parece que vai se forjando uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima entre mim e o Katatonia. Seguiu-se uma diversifica\u00e7\u00e3o, e depois de alguns discos do Paradise Lost e do Candlemass, cheguei enfim ao farol que desde l\u00e1 o come\u00e7o, eu pressentia, despontava ao longe, s\u00f3lido e fatal: o My Dying Bride. Mas esta banda eu perfilo entre as que justificariam a segunda hip\u00f3tese mencionada no come\u00e7o deste texto. Quero dizer: ao menos dois discos de sua discografia eu admiro com fervor, os monumentais *The Angel and the Dark River* e *The Light at the End of the World*. S\u00e3o \u00e1lbuns exigentes por\u00e9m extremamente recompensadores. Mas entre eles, e antes e depois, h\u00e1 uma maioria de outros que, em outras ocasi\u00f5es, me foi custoso escut\u00e1-los at\u00e9 o fim. \u00c9 algo que lastimo e planejo revisar nos pr\u00f3ximos dias, aproveitando este estado de esp\u00edrito favor\u00e1vel. De todo modo, foi bom relembrar que *The Light at the End of the World* continua t\u00e3o distintamente belo, uma beleza feroz, densa e teatral. Foi bonito \u2014 tem sido bonito, na verdade, j\u00e1 que por estes primeiros dias de abril continuo envolvido com estas mesmas bandas \u2014 mas houve algo mais l\u00e1 por meados de mar\u00e7o. Certo fim de tarde, cansado do trabalho, do calor e de guitarras massivas, deitei-me na rede para descansar e escutar alguma coisa diferente. Passando os olhos pela estante dos discos topei com o \u00fanico CD que tenho de Cecil Taylor, este pianista \u2014 na falta de termo mais preciso \u2014 fenomenal. Cecil parece vindo de outro mundo; a m\u00fasica criada pela sua habilidade e vis\u00e3o extraordin\u00e1rias \u00e9 um feiti\u00e7o imposs\u00edvel de descrever. S\u00e3o como (imposs\u00edvel de descrever, mas a gente sempre tenta) intricados labirintos sonoros, labirintos dentro de labirintos que nunca falham em me deixar mesmerizado. Este CD \u2014 uma edi\u00e7\u00e3o meio estranha que se parece com algo lan\u00e7ado por uma revista \u2014 eu salvei de uma caixa de papel\u00e3o que ia acabar sabe-se l\u00e1 onde, talvez at\u00e9 no caminh\u00e3o do lixo, da casa de um amigo que j\u00e1 n\u00e3o via mais sentido em possuir CDs e doava os poucos que ainda tinha, ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabendo nada sobre Cecil Taylor, n\u00e3o lembrava de como aquele disco havia parado ali. \u00c9, portanto, a continua\u00e7\u00e3o de um mist\u00e9rio eu possuir este CD, mist\u00e9rio prolongando a cada audi\u00e7\u00e3o e aprofundado pela m\u00fasica \u00e1rdua \u00e0s raias do inacess\u00edvel, deslumbrantemente inacess\u00edvel. E naquele fim de tarde j\u00e1 virado em noite, finda a audi\u00e7\u00e3o de Taylor, eu queria ouvir ainda mais alguma coisa... Mas o que, em nome dos c\u00e9us, dos santos e dos acasos, o que escutar depois de Cecil Taylor? L\u00e1 vai o olhar deslizar novamente pelos caminhos aleat\u00f3rios do grande mapa desenhado pelas lombadas enfileiradas dos meus CDs, ser sugado e saltar para fora de seus v\u00f3rtices, quando ent\u00e3o dou com os olhos na lombada do *Ol\u00e9* de John Coltrane. E logo l\u00e1 estava eu esticado novamente na rede. De cabo a rabo este disco \u00e9 magn\u00edfico: a introdu\u00e7\u00e3o de contrabaixo da primeira faixa, a flauta de Eric Dolphy, o piano de McCoy Tyner; o formato do \u00e1lbum, tr\u00eas longas faixas que parecem sustentar uma estrutura arquitet\u00f4nica, o funcionamento de um organismo. As melodias de Coltrane. \u00c9 tudo uma extraordin\u00e1ria alegria. E assim passou-se mais uma noite, ainda outra, para a minha cr\u00f4nica pessoal. E da minha cole\u00e7\u00e3o de discos, sr. Spotify, dos meus numerosos CDs e pesados vinis, dona IA, estejam certos de que eu n\u00e3o me desfa\u00e7o nunca.","post_summary":"Mar\u00e7o foi uma ilha de jazz cercada de doom metal por todos os lados.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Der Bart ist das Gras des Kahlk\u00f6pfige* de Friedensreich Hundertwasser, copiada [daqui](https:\/\/hundertwasser.com\/en\/paintings\/498_der_bart_ist_das_gras_des_kahlkoepfigen_435).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":906,"title":"Relato de meio de caminho - Mar\u00e7o \u002726","post_timestamp":"2026-03-14T20:37:11+00:00","url":"Relato_de_meio_de_caminho_Marco_26","post":"Assistimos a dois filmes muito bons no come\u00e7o deste m\u00eas, [*Sentimental Value*](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt27714581\/) e [*T\u00e1r*](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt14444726\/). Do filme como um todo acho que gostei mais do segundo; da trilha sonora eu gostei mais da do primeiro. Sobre *T\u00e1r* (o filme), li um [coment\u00e1rio bastante contrariado](https:\/\/www.latimes.com\/entertainment-arts\/movies\/story\/2023-01-11\/marin-alsop-tar-cate-blanchett-conductor-statement-interview) de Marin Alsop, que foi maestra da Orquestra Sinf\u00f4nica do Estado de S\u00e3o Paulo entre 2012 e 2019. Para Alsop, o filme prestou um grande desservi\u00e7o ao retratar uma mulher homossexual (minoria) e regente profissional (minoria dentre as minorias) como uma \u0022abusadora\u0022, o que talvez seja um termo meio forte \u2014 \u0022manipuladora\u0022 me parece mais condizente com o que o filme sugere e efetivamente mostra. Em todo caso, entendo o aborrecimento de Alsop: eu tamb\u00e9m j\u00e1 me incomodei muitas vezes ao assistir personagens estereotipados, que parecem servir apenas como emblemas de certa identidade, serem retratados com v\u00edcios e defeitos de car\u00e1ter que se subentendem automaticamente como v\u00edcios e defeitos de toda sua classe, em geral alguma minoria ou grupo marginalizado (quando n\u00e3o simplesmente um pa\u00eds estrangeiro do ponto de vista norte-americano, quando se trata de um filme de Hollywood, e no mais das vezes \u00e9). Esse tratamento, contudo, eu n\u00e3o percebi em nenhum momento enquanto assistia *T\u00e1r*. Sim, a personagem principal \u00e9 l\u00e9sbica e parece ter diversas falhas de car\u00e1ter, mas ela \u00e9 ao mesmo tempo uma personalidade bastante individualizada e veross\u00edmil, complexa como somos todos n\u00f3s no mundo real fora dos arqu\u00e9tipos tradicionais da fic\u00e7\u00e3o, repletos de contradi\u00e7\u00f5es, fraquezas, belezas e virtudes. (A sexualidade de Lydia T\u00e1r me pareceu at\u00e9 um aspecto secund\u00e1rio do filme, e tratada com eleg\u00e2ncia, sem as cenas apelativas habituais de Hollywood.) Em outras palavras: Lydia escapa aos esquemas e alegorias, apresenta-se antes como ser humano do que como l\u00e9sbica e\/ou profissional em um ramo dominado por homens. Suponho que muita gente considere essa separa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel e talvez seja mesmo uma grande ingenuidade de minha parte, mas foi esta a minha experi\u00eancia com o filme, e a esta impress\u00e3o acrescento o refor\u00e7o da ineg\u00e1vel paix\u00e3o da personagem pela m\u00fasica, sua servitude em rela\u00e7\u00e3o aos seus her\u00f3is e hero\u00ednas, sua entrega e devo\u00e7\u00e3o, manchadas, \u00e9 claro, pela sua conduta profissional conden\u00e1vel \u2014 e ainda assim tocantes e genu\u00ednas. A \u00eanfase do filme nisso (algo que entendo...) me convenceu quanto \u00e0 legitimidade de Lydia. Ao diretor de cinema que \u00e9 um dos personagens principais de *Sentimental Value* me pareceu faltar um pouco dessa verve humana, desta carne, mas, curiosamente \u2014 por n\u00e3o ser um filme sobre m\u00fasica como \u00e9 *T\u00e1r* \u2014 eu gostei mais de sua trilha sonora. A trilha de *T\u00e1r* traz v\u00e1rios trechos de Elgar e Mahler que n\u00e3o s\u00e3o novidade alguma, com a \u00f3tima m\u00fasica da compositora islandesa Hildur Gu\u00f0nad\u00f3ttir n\u00e3o se alinhando muito bem com eles, enquanto que a trilha de *Sentimental Value* flui lindamente como obra avulsa e completa. J\u00e1 mencionei algumas vezes por aqui sua autora, a polonesa Hania Rani, cuja m\u00fasica delicada e levemente desterrada tem minha aten\u00e7\u00e3o j\u00e1 faz bastante tempo. A \u00faltima pe\u00e7a de sua autoria que eu havia escutado, *Non Fiction*, um concerto para piano gravado ao lado do Manchester Collective, poderia sugerir que Hania est\u00e1 iniciando sua travessia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s obras mais tradicionais e compostas para conjuntos maiores, mas isto \u00e9 apenas meia verdade. *Non Fiction* \u00e9 um concerto \u00e0 moda Rani: n\u00e3o h\u00e1 arroubos dram\u00e1ticos do tipo Tchaikovski ou Rachmaninoff; h\u00e1 a fragilidade do piano de Hania, que por vezes soa como um min\u00fasculo feixe de \u00e1gua cristalina correndo escondido por entre a mata; h\u00e1 uma atmosfera de sonambulismo e a melancolia resignada que parece ser ainda uma heran\u00e7a incontorn\u00e1vel de quem nasceu por aquelas partes cinzentas e martirizadas do mundo. O [Manchester Collective](https:\/\/manchestercollective.bandcamp.com) \u00e9 companhia de luxo e fornece linda densidade \u00e0s passagens mais inflamadas do concerto, uma riqueza textural t\u00edpica da m\u00fasica cl\u00e1ssica contempor\u00e2nea que sabe se valer da tecnologia no est\u00fadio. A [trilha de *Sentimental Value*](https:\/\/haniarani.bandcamp.com\/album\/sentimental-value) \u00e9 bastante parecida: h\u00e1 alguns poucos momentos mais expansivos (a primeira faixa com seu conjunto de flauta, clarinete e cordas ascendentes; a pen\u00faltima com sintetizadores que parecem sa\u00eddos de algum dos \u00e1lbuns da s\u00e9rie *Ambient* de Brian Eno), por\u00e9m a maior parte do disco apoia-se sobre o piano intimista de Rani, uma m\u00fasica que parece esquivar-se dos ouvidos do mundo, habitando o c\u00e9rebro de algu\u00e9m que anda distra\u00eddo por a\u00ed. A \u00faltima faixa do \u00e1lbum \u00e9 uma pequena joia preciosa, umas dessas composi\u00e7\u00f5es que soam antes de mais nada como uma ode \u00e0 beleza imortal do piano. Rani tem um talento e tanto. E considerando que a mo\u00e7a nasceu em 1990, \u00e9 instigante imaginar que suas melhores obras ainda est\u00e3o por vir.","post_summary":"Dois filmes, uma pol\u00eamica, duas trilhas sonoras, um concerto para piano.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"cena do filme *T\u00e1r*, imagem original copiada [daqui](https:\/\/www.wannabenerd.com.br\/2023\/01\/taar-de-todd-field-assista-nos-cinemas.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":905,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2026","post_timestamp":"2026-03-02T22:50:04+00:00","url":"Discos_do_mes_Fevereiro_de_2026","post":"Fevereiro, j\u00e1 por defini\u00e7\u00e3o um m\u00eas mais breve, passou por mim como que voando, e ao longo de seus dias estive mais envolvido com meus livros e leituras do que com minha m\u00fasica e meus discos. Quero dizer, provavelmente escutei a tanta m\u00fasica quanto escuto em qualquer outro m\u00eas, por\u00e9m, refletindo em retrospectiva, lembro-me mais da companhia dos McCaslins e Beauchamps dos contos de Faulkner, dos haikais e haibuns de um amigo querido e das especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de Xen\u00f3fanes, Pit\u00e1goras e outros gregos muito antigos. (Antes que me entendam mal: n\u00e3o sou especialista em filosofia e nem metido a erudito; apenas adoro ler sobre as ideias destes primeiros cientistas, o florescer do pensamento racional do homem, que vai dando pistas pouco a pouco sobre como de l\u00e1 chegamos at\u00e9 aqui.) Por isso escrevi \u0022envolvido\u0022: n\u00e3o se trata de quest\u00e3o quantitativa; ouvi, como sempre, discos \u00e0 be\u00e7a: ouvi discos no \u00f4nibus indo para a praia e depois sentado na areia diante do mar; ouvi discos trabalhando em casa de tarde e depois de noite antes de dormir. Muitos discos. Apenas que nada me deixou impress\u00e3o muito forte, ou t\u00e3o forte quanto as leituras. Vejamos. Das poucas audi\u00e7\u00f5es que se repetiram, *Am Universum*, do Amorphis, se destaca. Tenho escutado bastante a estes finlandeses pois estou escrevendo algo mais longo sobre eles, \u00e0 moda do que fiz para o Anthrax uns meses atr\u00e1s. Sempre gostei do *Am Universum*, \u00e1lbum que se seguiu ao meu favorito *Tuonela*, e nem mesmo o fato dele ser t\u00e3o parecido com seu antecessor o diminui em minha aprecia\u00e7\u00e3o. A banda estava em estado de gra\u00e7a em termos de inspira\u00e7\u00e3o desde pelo menos *Elegy*, de 1996, e algo parece culminar em *Am Universum*, o lado ruim disso sendo que quando se atinge o cume depois resta apenas a descida. Mas a banda soube descer com equil\u00edbrio e dignidade. Assunto para depois. Outra audi\u00e7\u00e3o que vale mencionar: *Nightvision* de Devon Allman\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E. Quem \u00e9 Devon Allman? \u00c9 uma pergunta genu\u00edna pois n\u00e3o fa\u00e7o ideia e n\u00e3o me ocorreu ainda ocasi\u00e3o de pesquisar. Sei que este *Nightvision* (cuja linda capa vista em algum lugar foi o que me fez ficar desejoso de ouvi-lo) \u00e9 um disco danado de bom, que se passa como a trilha-sonora de algum filme juvenil sobre aventuras e amizades, levemente delirante, levemente amargo, soando a maior parte do tempo como se Joe Satriani tivesse se juntado ao Tangerine Dream para uma parceria inesperada... E o resultado fosse bom. Eu, pelo menos, achei, e por ora o disco est\u00e1 inscrito em minha nascente lista de melhores de 2026. Papo reto, agora: para uma sess\u00e3o r\u00e1pida de death metal de primeir\u00edssima qualidade, o EP *Unblessing the Purity* do Bloodbath \u2014 que, se bem entendo, \u00e9 uma esp\u00e9cie de super-grupo que s\u00f3 se re\u00fane vez ou outra \u2014 \u00e9 escolha bastante acertada, agress\u00e3o demon\u00edaca de bom gosto e t\u00e9cnica refinad\u00edssimos. Vai por mim. N\u00e3o tendo nada mais para recomendar assim de cora\u00e7\u00e3o sangrando e grande entusiasmo, encerro por aqui, me preparando para afundar mais seriamente no oceano dos meus discos, pois este, tudo indica, vai ser um longo, longo ano.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1:\u003C\/b\u003E O disco ainda n\u00e3o consta na base de dados do Discogs, por isso n\u00e3o aparecer\u00e1 na lista de mencionados abaixo. [\u21a9](#a1)","post_summary":"N\u00e3o \u00e9 que eu tenha escutado pouca m\u00fasica: os livros e a praia \u00e9 que estavam melhores.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/news.emory.edu\/stories\/2024\/10\/er_cinematheque_season_02-10-2024\/story.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":904,"title":"Em mem\u00f3ria de \u00c9liane Radigue (1932\u20142026)","post_timestamp":"2026-02-27T02:14:58+00:00","url":"Em_memoria_de_Eliane_Radigue_1932_2026","post":"Desta vez n\u00e3o demorei tantos dias para saber da morte de mais um de meus her\u00f3is \u2014 hero\u00edna, no caso: [\u0022\u00c9liane Radigue has Died, Aged 94\u0022](\r\nhttps:\/\/thequietus.com\/news\/eliane-radigue-has-died-aged-94\/), estava na capa do *The Quietus* quando por l\u00e1 passei na ter\u00e7a-feira de noite em minha ronda semanal em busca de novos textos e nova m\u00fasica. A not\u00edcia havia sido publicada naquela manh\u00e3. Mal d\u00e1 de lamentar o falecimento de algu\u00e9m que tinha 94 anos e deixa como legado uma produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica da ordem do sublime, mas lamento mesmo assim, como se inconscientemente cogitasse a improv\u00e1vel possibilidade de encontr\u00e1-la algum dia para lhe agradecer pela generosidade. Na noite seguinte, uma pilha de CDs novinhos reluzia sobre a mesa, cortesia de minha paciente companheira, que os trouxera para mim de sua viagem de trabalho \u00e0 Europa. O convite que a pilha me fazia era tentador, mas antes fui \u00e0 estante e puxei *Triptych*, de Radigue, para prestar-lhe o devido tributo. Coloquei os fones de ouvido e estiquei-me na rede com l\u00e1pis e caderno, pretendendo rabiscar algumas linhas sobre a m\u00fasica que escutava... Mas descrever a m\u00fasica de Radigue \u00e9 tarefa bastante dif\u00edcil. Ela solicita algo diferente de seus ouvintes, uma disposi\u00e7\u00e3o, uma abertura. Munida da paci\u00eancia que me parece estarmos todos perdendo irremediavelmente, Radigue criou auras sonoras que, encontrando ouvido e esp\u00edrito receptivo, fazem-no retroceder e pensar em origens, entrever o que n\u00e3o se percebe cotidianamente, confrontar a filosofia ([a ocidental, pelo menos](https:\/\/clotmag.com\/oped\/voltages-buddhism-and-an-infinite-listening-tribute-to-eliane-radigue-by-miguel-isaza)). Imersos no burburinho permanente da vida humana, \u00e9 quase um choque f\u00edsico encontrar-se de repente envolvido por estas texturas el\u00e1sticas que parecem recortadas de ciclos eternos, ao mesmo tempo delicadas e imortais, e que pulsam animadas por um ritmo que sentimos vestigialmente compreender mas cujo acesso \u00e0 origem se perdeu pelo caminho, soterrado sob este imp\u00e9rio do barulho \u2014 o ru\u00eddo acumulado dos choques incessantes dos detritos \u00e0 deriva pelo universo agora transformados em autom\u00f3veis, mensagens chegando nos celulares, c\u00e3es enlouquecidos encarcerados em apartamentos, o vento esbarrando no concreto, furadeiras e martelos, aumentando em escala e onipresen\u00e7a dia ap\u00f3s dia, sem parar. Radigue escutou com aten\u00e7\u00e3o, captou as subjac\u00eancias e registrou-as em fitas magn\u00e9ticas. (Desconfio que o fez antes de tudo para si mesma, mas em um ato de piedade, compartilhou.) O resultado talvez seja o som da vida interior da compositora, talvez o som da irradia\u00e7\u00e3o da vida do universo. Talvez sejam ambos uma \u00fanica e mesma coisa. *Adieu, madame!*","post_summary":"\u00c0 mestra com carinho.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"\u00c9liane Radigue em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/echoraum.at\/eliane-radigue-occam-ocean\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":903,"title":"Doom no ver\u00e3o","post_timestamp":"2026-02-12T11:54:20+00:00","url":"Doom_no_verao","post":"N\u00e3o o jogo, que joguei em outros ver\u00f5es mais antigos e despreocupados. Refiro-me ao subg\u00eanero do metal, mais especificamente ao Paradise Lost, mais especificamente ao seu \u00e1lbum mais recente, este glorioso *Ascension*. Tendo escutado-o em formato de, digamos, \u0022pr\u00e9via\u0022 no ano passado e inserido-o em minha lista de [favoritos de 2025](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Melhores_discos_de_2025), eu sabia que deveria p\u00f4r minhas m\u00e3os no CD assim que fosse poss\u00edvel, e assim o fiz, e quando o fiz aproveitei para comprar tamb\u00e9m a melhor cerveja que pude comprar sem ir muito longe de casa com a inten\u00e7\u00e3o de transformar em evento especial a noite em que finalmente rasgaria o pl\u00e1stico, desvendaria o encarte e escutaria ao CD. E assim o fiz tamb\u00e9m. \u00c9 destes discos que gera conforto e felicidade t\u00ea-lo na estante. \u00c9 a experi\u00eancia completa: h\u00e1 guitarras rasgadas, riffs emocionamentes, refr\u00f5es de gelar a espinha, belezas mil. O som \u00e9 denso, grave, austero, absorve por completo o ouvinte. \u00c9 isso o que eu quero do meu metal, como j\u00e1 tentei explicar [anteriormente](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Janeiro_de_2026). A diferen\u00e7a, aqui, \u00e9 que se trata do Paradise Lost. Deveria bastar deixar dito assim; caso n\u00e3o baste, censuro a ignor\u00e2ncia de meu leitor ou de minha leitora e secretamente invejo-o ou invejo-a por ter ainda pela frente a possibilidade de assombrar-se pela primeira vez com o jardim sonoro monumental destes ingleses. N\u00e3o que audi\u00e7\u00f5es sucessivas dissipem a for\u00e7a da banda \u2014 \u00e9 que a primeira vez \u00e9 sempre a primeira vez... Mas o que voc\u00ea deveria saber \u00e9 que n\u00e3o \u00e9, de modo algum, apenas uma banda entre outras. H\u00e1 um esmero e uma habilidade nas composi\u00e7\u00f5es que parece localiz\u00e1-los em outro tempo, quando ent\u00e3o artistas poderiam criar obras desta amplitude e desta pureza em que absolutamente nada sugere interfer\u00eancias de qualquer g\u00eanero, comercial ou o que seja, o tempo dos grandes poetas, de Virg\u00edlio, dos grandes pintores, de Michelangelo, artes\u00e3os solenes e circunspectos. O tempo das lentas transcri\u00e7\u00f5es \u00e0 luz de velas, o tempo da alquimia. Longe de mim lamentar n\u00e3o ter nascido em tal \u00e9poca, mas poder acess\u00e1-la com dois ou tr\u00eas gestos e um bom fone de ouvido \u00e9 certamente uma d\u00e1diva da modernidade. Que esta banda lance um disco como *Ascension* com quase 40 anos de estrada s\u00f3 refor\u00e7a o meu ponto. Que \u00e9, em resumo: uma banda fodida de maravilhosa. O ver\u00e3o arde a\u00ed fora e a esta\u00e7\u00e3o, em tese, pede sons mais leves e litor\u00e2neos... \u00e0s favas com tudo isso. Para o Paradise Lost estou sempre disposto a conceder todas as noites que me forem solicitadas.","post_summary":"\u00c9 isto o que eu espero do meu heavy metal.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido copiada [daqui](https:\/\/www.nuclearblast.com\/blogs\/news\/paradise-lost-announce-2nd-leg-of-their-ascension-of-europe-tour).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":902,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2026","post_timestamp":"2026-02-02T19:47:38+00:00","url":"Discos_do_mes_Janeiro_de_2026","post":"Eu acompanho alguns blogs de resenhas e (n\u00e3o contem para ningu\u00e9m) downloads de discos, sites nos quais, l\u00e1 pelo meio de janeiro, deparei-me com uma sequ\u00eancia de postagens sobre Ralph Towner e sua banda Oregon, sem desconfiar de nada, cogitando distraidamente que talvez fossem sinais de um entusiasmo renovado com a m\u00fasica gentil de Towner, algo que se alastrou de um site para outro, como se fosse contagioso. Um destes espor\u00e1dicos sinais de um mundo um pouco melhor. Foi apenas dois ou tr\u00eas dias depois que entendi o verdadeiro motivo, ao ler sobre o falecimento de Towner [neste site](https:\/\/www.overgrownpath.com\/2026\/01\/silence-of-candle.html). Creio n\u00e3o ter muito a acrescentar ao que j\u00e1 escrevi [aqui](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Maio_de_2022) sobre a m\u00fasica deste mestre que nos deixa. Talvez isto: muito provavelmente por conta de sua participa\u00e7\u00e3o \u00e9 que gosto bastante do Oregon, banda cuja m\u00fasica se aproxima bastante daquilo que as pessoas costumam chamar de fusion, o not\u00e1vel disso sendo o fato de que eu acho fusion uma tremenda chatice. Mas dos discos do Oregon que escutei eu gostei de todos; eu percebo o que eles tinham de fusion (ou, pior, de \u0022world music\u0022, como tamb\u00e9m j\u00e1 li por a\u00ed), mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma sabedoria na m\u00fasica da banda, algo ao mesmo tempo erudito e popular, e, sobretudo, h\u00e1 leveza e delicadeza\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E. Eu apostaria que era o esp\u00edrito de Towner quem prevalecia nas composi\u00e7\u00f5es do Oregon. Em tributo \u00e0 Ralph Towner \u2014 e aproveitando os links para downloads mencionados acima \u2014 eu escutei a um de seus discos solo lan\u00e7ado pela ECM que eu ainda n\u00e3o conhecia, *Time Line*, de 2006. S\u00e3o 16 pequenas rumina\u00e7\u00f5es ac\u00fasticas, entrecortadas por sil\u00eancios e hesita\u00e7\u00f5es, desprovidas de virtuosismos e vaidade. O artista some, a m\u00fasica \u00e9 como um som elemental que vem do pr\u00f3prio fluir do tempo. \u00c9 lindo e emocionante. E assim mais um dos grandes se despede nos deixando desamparados na cacofonia do caos... De resto, minhas tentativas de ouvir menos metal n\u00e3o t\u00eam sido l\u00e1 muito bem sucedidas. Ocorre que o metal abafa melhor a tal cacofonia, o ru\u00eddo estridente das not\u00edcias. O metal n\u00e3o deixa frestas. Melhor ainda quando aparenta ser obra de adultos razo\u00e1veis... J\u00e1 escrevi por aqui diversas vezes sobre o meu ressentimento com o reacionarismo e os chauvinismos (e n\u00e3o raro coisas piores) que infestam o g\u00eanero e desta vez n\u00e3o repetirei o queixume; desta vez saudarei as bandas que andei escutando nos \u00faltimos dias e que v\u00e3o na contram\u00e3o destes bolores mentais, as bandas que s\u00e3o as gloriosas exce\u00e7\u00f5es. Come\u00e7ando pelo Kreator, que n\u00e3o me canso de incensar por conta de sua postura pol\u00edtica, sua coragem de dar voz aos povos explorados deste mundo, al\u00e9m, claro, de seu thrash intenso e furioso. Estes alem\u00e3es arrombaram as portas de 2026 com *Krushers Of The World*, disco que comprova que envelhecer est\u00e1 fazendo muito bem a eles. Passo aos franceses do Gojira, que vagamente me recordo de ter escutado anos atr\u00e1s e n\u00e3o me atra\u00eddo; recentemente, no entanto, voltei a escut\u00e1-los e desta vez tornei-me f\u00e3 entusiasmado. O que talvez tenha me desinteressado antes tenha sido o tom e alguns cacoetes de guitarra que remetem ao new metal, mas isso s\u00e3o ninharias; a audi\u00e7\u00e3o atenta dos \u00e1lbuns do grupo revela algo muito maior, cheio de melodia e profundidade, al\u00e9m da aud\u00e1cia de incluir cantos de p\u00e1ssaros e uivos de baleias em suas faixas, e, principalmente, a aud\u00e1cia de fazer de sua m\u00fasica um apelo pela preserva\u00e7\u00e3o da natureza. H\u00e1 Metallicas demais por a\u00ed, Gojiras de menos. Finalizo com o Messa, esta fant\u00e1stica banda que descobri em fins do [ano passado](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Melhores_discos_de_2025). Embora estes italianos n\u00e3o cantem sobre a emerg\u00eancia clim\u00e1tica ou contra o capitalismo que devasta corpos e biomas, sua m\u00fasica \u00e9 inequivocamente obra de adultos: a riqueza instrumental de *Close*, o terceiro \u00e1lbum do Messa (lan\u00e7ado em 2022), revela uma banda de horizontes amplos, que vai longe em busca de sua inspira\u00e7\u00e3o, que se arrisca, que habita um mundo complexo e multifacetado e o espelha em sua arte. N\u00e3o h\u00e1 vozes tentando soar como monstros intergal\u00e1ticos, n\u00e3o h\u00e1 tem\u00e1tica necrol\u00f3gica, nada disso; \u00e9 metal para quem gosta de m\u00fasica pesada e j\u00e1 deixou a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia para tr\u00e1s faz tempo.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1:\u003C\/b\u003E Li tamb\u00e9m em algum outro lugar que costuma-se considerar o Oregon um dos progenitores da m\u00fasica New Age, isto dito em um tom constrangido de dem\u00e9rito da banda, ou efeito colateral indesejado de uma carreira que seria de resto impec\u00e1vel. A linhagem faz sentido; do entendimento disto como um dem\u00e9rito eu evidentemente discordo, estando eu na minoria da minoria que adora os sons da New Age... [\u21a9](#a1)","post_summary":"Em mem\u00f3ria de Ralph Towner (1940 - 2026).","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de Caterina Di Perri, copiada [daqui](https:\/\/jazz.pt\/breves\/ralph-towner-1940-2026).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":901,"title":"Melhores discos de 2025","post_timestamp":"2026-01-05T17:12:36+00:00","url":"Melhores_discos_de_2025","post":"Se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha, \u00e9 in\u00e9dito isso que temos na lista abaixo: dois discos de um mesmo artista. S\u00f3 poderia ser de algu\u00e9m que tenho em alt\u00edssima estima como \u00e9 o caso de Steve Gunn. N\u00e3o sei dizer qual dos dois \u00e9 melhor: *Music For Writers* \u00e9 mais na linha experimental-contemplativa que at\u00e9 ent\u00e3o o guitarrista costumava gravar em companhia de parceiros como David Moore e John Truscinski; *Daylight Daylight* \u00e9 o bom e velho Steve Gunn de preciosidades como *The Unseen In Between* e *Nakama*. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil gostar dos discos de Gunn, mas eu, particularmente, sinto que tenho uma rela\u00e7\u00e3o bastante \u00edntima com a m\u00fasica deste camarada, algo que me permito dizer de pouqu\u00edssimas outras bandas ou m\u00fasicos. E, n\u00e3o obstante esta pequena apologia, acho que nem um e nem outro disco eu penduraria no lugar mais alto da minha lista de favoritos de 2025 se tivesse que orden\u00e1-la por prefer\u00eancia. Talvez o posto ficasse com o estupendo *The Spin*, do Messa, disco (e banda) que fui descobrir nos \u00faltimos dias do ano. Se voc\u00ea que me l\u00ea gosta de m\u00fasica pesada e n\u00e3o conhece o Messa, saia imediatamente daqui e v\u00e1 [escut\u00e1-los](https:\/\/messa.bandcamp.com\/album\/the-spin). Se lembrar de voltar para continuar a leitura, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio agradecer-me, foi um prazer, amigo \u00e9 para essas coisas... Outro que talvez merecesse o posto mais alto \u00e9 o terceito volume disto que se parece uma s\u00e9rie chamada *Ghosted*, sempre pelas h\u00e1beis m\u00e3os de Oren Ambarchi, Johan Berthling e Andreas Werliin. Faz alguns meses que, ap\u00f3s muitos anos de resist\u00eancia, eu comecei a fazer exerc\u00edcios f\u00edsicos em uma academia. Vou me aproximando dos 50 anos, tenho que ganhar musculatura, cuidar do cardiovacular etc. Como tenho medo de que aqueles aparelhos, como se fossem grandes escorpi\u00f5es mec\u00e2nicos, podem a qualquer momento me ferroar e devorar, costumo fazer com o aux\u00edlio de uma treinadora, por\u00e9m ocorre \u00e0s vezes de eu ter que fazer sozinho, e nessas ocasi\u00f5es eu s\u00f3 consigo atravessar a sess\u00e3o de exerc\u00edcios com o aux\u00edlio dos fones de ouvido. Em *Ghosted III* descobri a [companhia perfeita](https:\/\/orenambarchi.bandcamp.com\/album\/ghosted-iii). A simplicidade dos sons, a repeti\u00e7\u00e3o, as formas longas e a perfeita coordena\u00e7\u00e3o entre os instrumentistas gera o tipo de m\u00fasica que extrai a mente do ouvinte do local f\u00edsico onde est\u00e1 seu corpo, como um mantra feito para a medita\u00e7\u00e3o \u2014 e exatamente o que preciso quando estou fazendo meus agachamentos, supinos e crucifixos. Lindo, lindo disco, que me desobriga de ouvir aquela horrenda, horrenda m\u00fasica da academia. Outro \u00e1lbum que gostaria de mencionar \u00e9 este do Chat Pile, banda que acompanho j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Hayden Pedigo, que os acompanha em [*In the Earth Again*](https:\/\/chatpile.bandcamp.com\/album\/in-the-earth-again), eu n\u00e3o sei direito quem \u00e9, mas o resultado da parceria \u00e9 muito bom e funciona de muitas maneiras imprevistas. E vejam quem voltou! Depois da aus\u00eancia nos \u00faltimos tr\u00eas anos (depois de estar presente nos tr\u00eas anteriores), Patricia Kopatchinskaja reaparece com *Exile*, novamente uma esp\u00e9cie de colagem feita a partir da m\u00fasica de diversos compositores, tendo desta vez como eixo tem\u00e1tico o ex\u00edlio. A despeito da burlesca can\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica inicial, a jornada \u00e9 grave e sombria. N\u00e3o haveria como ser diferente: exilados s\u00e3o emigrantes, e emigrantes, de acordo com a ret\u00f3rica pol\u00edtica fascista cada vez mais popularizada hoje em dia, n\u00e3o s\u00e3o bem vindos em lugar algum. Especialmente aqueles que n\u00e3o carregam consigo muito dinheiro: um emigrante pobre \u00e9 menos do que um ser humano e \u00e9 tamb\u00e9m o culpado por tudo, \u00e9 o bode expiat\u00f3rio da hist\u00f3ria. Este \u00e9 um assunto que me tira do s\u00e9rio. N\u00e3o basta a desventura, a fome, a oblitera\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes, o desamparo quase total; o exilado chega e ainda por cima acaba sendo tratado como esc\u00f3ria. Na arena pol\u00edtica, o cen\u00e1rio \u00e9 desalentador. Como testemunho art\u00edstico, o trabalho de Kopatchinskaja \u00e9 vital, se considerarmos que a cada ano que passa a esperan\u00e7a parece afunilar e se concentrar cada vez mais unicamente nisto: n\u00e3o perdermos a humanidade que nos resta. S\u00e3o meus votos para 2026.\r\n\r\n- Barbara Hannigan, Katia Lab\u00e8que, Marielle Lab\u00e8que \u0026 David Chalmin - Electric Fields\r\n- Chat Pile \u0026 Hayden Pedigo - In the Earth Again\r\n- Hooded Menace - Lachrymose Monuments Of Obscuration\r\n- Joona Toivanen Trio - Gravity\r\n- Kelly Moran \u2013 Don\u2019t Trust Mirrors\r\n- Messa - The Spin\r\n- Oren Ambarchi, Johan Berthling \u0026 Andreas Werliin - Ghosted III\r\n- Paradise Lost - Ascension\r\n- Patricia Kopatchinskaja, Thomas Kaufmann \u0026 Camerata Bern - Exile\r\n- Sanguisugabogg - Hideous Aftermath\r\n- Steve Gunn - Daylight Daylight\r\n- Steve Gunn - Music For Writers\r\n- Vacuous - In His Blood\r\n- William Tyler - Time Indefinite","post_summary":"Patricia Kopatchinskaja, Oren Ambarchi, Messa, Steve Gunn, Steve Gunn de novo... meus 14 discos favoritos de 2025.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Pitag\u00f3ricos celebrando o nascer do sol*, de Fyodor Bronnikov, copiada [daqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Bronnikov_gimnpifagoreizev.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":900,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2025","post_timestamp":"2025-12-31T13:42:26+00:00","url":"Discos_do_mes_Dezembro_de_2025","post":"No \u00faltimo m\u00eas do ano, antes tarde do que nunca, prestei tributo a dois vener\u00e1veis cl\u00e1ssicos que em 2025 tornaram-se cinquent\u00f5es: *Tonight\u0027s the Night* do Neil Young e *Horses* da Patti Smith. Estes discos s\u00e3o unanimidades que ningu\u00e9m precisa mencionar em suas listas de favoritos pois ambos t\u00eam lugares cativos na lista coletiva dos prediletos da humanidade, \u00e9 redund\u00e2ncia acrescent\u00e1-los \u00e0s listas individuais. Mas *Horses* talvez seja um disco mais importante, por inaugurar a carreira t\u00e3o peculiar e especial de Patti Smith. N\u00e3o sei se podemos dizer que Patti inventou o casamento da literatura e da poesia com o rock \u0027n\u0027 roll, mas muito provavelmente podemos dizer que com a autoridade de Patti essa am\u00e1lgama ningu\u00e9m fez. Jim Morrison tinha a mesma alma dionis\u00edaca de poeta, por\u00e9m escreveu muito pouco e esgotou-se muito r\u00e1pido, enquanto Patti resistiu aos golpes da vida (j\u00e1 naturalmente mais cru\u00e9is pelo fato de ser mulher) e fez de sua arte uma carreira, e ainda hoje ela faz shows, lan\u00e7a livros, faz leituras p\u00fablicas de poesia e mant\u00e9m-se intensamente ativa, fiel \u00e0 sua vis\u00e3o art\u00edstica e \u00e0s suas musas. Serei para sempre parte do culto a Jim Morrison, por\u00e9m perto de Patti, admito, Jim foi um nanico pregui\u00e7oso e eg\u00f3latra. Vida longa \u2014 ainda mais longa \u2014 a Patti Smith! *Tonight\u0027s the Night* \u00e9 tamb\u00e9m o disco de um artista peculiar, pela vis\u00e3o art\u00edstica, pelo senso de confronto e independ\u00eancia. Tamb\u00e9m Neil continua na ativa, n\u00e3o mais gravando discos ca\u00f3ticos e viscerais como *Tonight\u0027s the Night* mas tampouco se furtando ao seu of\u00edcio, lan\u00e7ando m\u00fasica com frequ\u00eancia e permanentemente disposto a comprar briga com os agiotas e bilion\u00e1rios cretinos deste mundo. Que ambos, Neil e Patti, atravessem 2026 com boa sa\u00fade e disposi\u00e7\u00e3o, para o bem de todos n\u00f3s. Com o ver\u00e3o j\u00e1 bem estabelecido e se sentindo totalmente em casa, lancei m\u00e3o de outro velho conhecido, este, de acordo com meus ritos e s\u00edmbolos pessoais, o disco que sa\u00fada a chegada da esta\u00e7\u00e3o: o *III* do Led Zepellin. Tal associa\u00e7\u00e3o vem desde o ver\u00e3o da adolesc\u00eancia em que o escutei pela primeira vez e uma coisa soldou-se a outra para sempre: desde ent\u00e3o, basta os dias come\u00e7arem a ficar mais longos e mais quentes e logo me vem a vontade de colocar o *III* para girar na vitrola. Nem tudo envelheceu com total dignidade neste disco, penso eu, por\u00e9m a companhia de um velhinho meio decr\u00e9pito, vez ou outra, pode ser bastante ben\u00e9fica... Os viol\u00f5es de *III*, ressalte-se, estes continuam perfeitos e emocionantes como sempre foram e n\u00e3o h\u00e1 sinal de que isso v\u00e1 mudar algum dia. E assim declaro aberta a temporada! Para finalizar com algo p\u00f3s-d\u00e9cada de 70: depois de [relembrar](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Relato_de_meio_de_caminho_Dezembro_25) o qu\u00e3o fant\u00e1stico \u00e9 o *How To Measure A Planet?* do Gathering, pus-me a escutar a alguns dos outros discos destes holandeses, em especial ao anterior, *Mandylion*, cuja lembran\u00e7a que eu tinha era tamb\u00e9m a de um disco sensacional, embora n\u00e3o nesta grande medida em que o reencontrei agora. *Strange Machines*, a faixa de abertura, assusta de t\u00e3o bonita que \u00e9 e pelo temor que levanta de que o \u00e1lbum n\u00e3o tem como permanecer no mesmo n\u00edvel, mas *El\u00e9anor* e *Sand and Mercury* n\u00e3o s\u00e3o faixas menores, de jeito algum, e o \u00e1lbum como um todo \u00e9 fant\u00e1stico. \u00c9 metal, \u00e9 pesado, mas o Gathering encontrava-se ent\u00e3o iniciando sua metamorfose para a m\u00fasica mais experimental e mais transl\u00facida dos discos posteriores, uma m\u00fasica que em muito boa hora me dei conta de que pode combinar bastante bem com uma temporada de f\u00e9rias na praia, junto ao mar. \u00c9 certo, portanto, que voltarei com frequ\u00eancia a este disco e ao *How To Measure A Planet?* nas pr\u00f3ximas semanas.","post_summary":"Abrindo a temporada de ver\u00e3o e um tributo ao cinquenten\u00e1rio de dois cl\u00e1ssicos.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Patti Smith em foto de Richard E. Aaron, copiada [daqui](https:\/\/www.loudersound.com\/features\/patti-smith-i-m-like-william-blake-in-the-industrial-revolution).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":899,"title":"Relato de meio de caminho - Dezembro \u002725","post_timestamp":"2025-12-14T16:40:05+00:00","url":"Relato_de_meio_de_caminho_Dezembro_25","post":"J\u00e1 estamos na metade de dezembro e l\u00e1 vai passada a hora de redirecionar minhas audi\u00e7\u00f5es, de mover-me em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica que combina mais com o calor do ver\u00e3o, que entendo ser praticamente toda e qualquer m\u00fasica que n\u00e3o seja metal. E, no entanto, metal continua sendo quase tudo o que venho escutando. Ao menos estive revisitando nos \u00faltimos dias um conjunto de bandas que, a partir de meados dos anos 90, protagonizou uma pequena revolu\u00e7\u00e3o nas zonas mais extremas do metal, enriquecendo seus \u00e1lbuns com produ\u00e7\u00e3o mais elaboradora, melodias mais sofisticadas (ou simplesmente \u0022melodia\u0022, coisa ent\u00e3o desconhecida entre as hordas do black metal primitivo, por exemplo), enxertando em sua m\u00fasica mais drama, beleza, teclados e sintetizadores. Houve a coisa mais teatral e, de certo modo, apelativa do Cradle of Filth e Dimmu Borgir, mas houve tamb\u00e9m um punhado de obras-primas audaciosas por parte de bandas como Tiamat, Gathering, Rotting Christ e Paradise Lost, todas elas oriundas de um mesmo c\u00edrculo da m\u00fasica extrema europ\u00e9ia. Um exemplo muito bem acabado deste movimento \u00e9 esta preciosidade chamada *Sleep of the Angels* dos gregos do Rotting Christ. Lan\u00e7ado em 1999, \u00e9 um disco irresist\u00edvel repleto de beleza g\u00f3tica, atmosfera carregada de misticismo e poesia her\u00e9tica, guitarras ao mesmo tempo \u00e1speras e mel\u00edfluas, talvez o ponto em que o Rotting Christ n\u00e3o mais poderia ser chamado black metal, em benef\u00edcio deles mesmos, cuja m\u00fasica n\u00e3o merecia mais ser assim t\u00e3o cruelmente simplificada. Outro disco que revisitei foi o *How To Measure A Planet?* dos holandeses do Gathering, este um \u00e1lbum ainda mais corajoso e complexo, que parece beber da mesma fonte que o Pink Floyd de 1994 bebeu para gravar seu *The Division Bell*. Ocupando dois CDs, *How To Measure A Planet?* talvez seja um pouco longo demais, por\u00e9m eu sempre apreciei aventuras exigentes deste tipo, mesmo quando elas trazem seus percal\u00e7os \u2014 os percal\u00e7os, talvez, valorizam os grandes momentos, e grandes momentos \u00e9 o que n\u00e3o falta neste disco. *Rescue Me* e *The Big Sleep* s\u00e3o can\u00e7\u00f5es deslumbrantes e dif\u00edceis de acreditar terem sido compostas por uma banda cujo primeiro disco, meros seis anos antes, era death metal puro e simples. \u00c9 verdade que os dois \u00e1lbuns anteriores do Gathering, os excepcionais *Nighttime Birds* e *Mandylion*, j\u00e1 demonstravam esta r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o da banda; ainda assim, *How To Measure A Planet?* \u00e9 um disco radical e original em muitos sentidos. Eu o adoro desde que o escutei pela primeira vez na biblioteca da faculdade, no intervalo entre duas aulas, sentado ao lado da parede envidra\u00e7ada que dava para uma esp\u00e9cie de jardim interno que havia no meio do pr\u00e9dio, os CDs alugados tocando no discman \u2014 lembro-me muito bem desta cena, como se um eu do futuro estivesse l\u00e1 escondido entre as estantes de livros cheios de etiquetas de cataloga\u00e7\u00e3o, a auto-observar-se com aten\u00e7\u00e3o, e agora, chegado o futuro, o eu do presente rememora esta cena testemunhada secretamente quase 30 anos antes: o magricela de olhar perdido sobre a grama, os livros e cadernos negligenciados, fascinado com as faixas finais do \u00e1lbum, *Probably Built In The Fifties* e *How To Measure A Planet?*. N\u00e3o \u00e0 toa fui t\u00e3o mau aluno na faculdade: ficava escutando CDs at\u00e9 mesmo na biblioteca, quando deveria estar estudando nas v\u00e9speras das provas. Por fim, andei escutando tamb\u00e9m algumas das obras-primas do Paradise Lost \u2014 sim, esta banda monumental possui algumas delas. Estes ingleses s\u00e3o os autores de alguns dos discos mais bonitos de todo o vasto reino da m\u00fasica sombria, *Draconian Times* e *Icon* pairando soberanos sobre todos os outros. Eu havia me esquecido, confesso, o qu\u00e3o fant\u00e1sticos s\u00e3o estes dois \u00e1lbuns. Eu havia me esquecido da deliqu\u00eancia que \u00e9 n\u00e3o t\u00ea-los em minha cole\u00e7\u00e3o... Oras, o natal est\u00e1 chegando; quem quiser me presentear, fique sabendo ent\u00e3o que s\u00e3o estas algumas das lacunas mais urgentes em minhas fileiras de CDs.","post_summary":"Dizem os term\u00f4metros que chegou o ver\u00e3o.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Ver\u00e3o*, de Giuseppe Arcimboldo, copiada [daqui](https:\/\/www.wikiart.org\/pt\/giuseppe-arcimboldo\/verao-1573).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":898,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2025","post_timestamp":"2025-12-01T22:41:04+00:00","url":"Discos_do_mes_Novembro_de_2025","post":"Eu adoraria saber se os tr\u00eas primeiros discos do a-ha t\u00eam de fato m\u00e9ritos art\u00edsticos leg\u00edtimos ou se minha enorme afei\u00e7\u00e3o por eles fica inteiramente explicada pelo fato de t\u00ea-los escutado muito cedo em minha vida, na \u00e9poca formativa em que nossas primeiras paix\u00f5es s\u00e3o registradas com tal vivacidade em nossos c\u00e9rebros que n\u00e3o h\u00e1 maturidade ou evolu\u00e7\u00e3o intelectual que v\u00e1 remov\u00ea-las de l\u00e1. \u00c9 uma banda pop orientada ao sucesso comercial e outras coisas menos confess\u00e1veis, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, mas *Stay on the These Roads* (para citar apenas uma faixa) me faz desconfiar que os rapazes tinham algo mais a oferecer. Ademais, nem sempre sucesso comercial vem desacompanhado de vis\u00e3o e express\u00e3o art\u00edsticas genu\u00ednas. Tenho esse preconceito, confesso, e n\u00e3o s\u00e3o poucos os exemplos que deveriam me tornar mais educado... Vou fazer disso uma prioridade de ano novo. Mentira, n\u00e3o vou n\u00e3o. Continuarei resolutamente fugindo do mainstream e dos algoritmos, escutando exclusivamente aos discos de minha pr\u00f3pria cole\u00e7\u00e3o, aos outros que estes mesmos v\u00e3o puxando para dentro dela e aos tantos outros que descubro em minhas observa\u00e7\u00f5es atentas e leituras. Foi, por exemplo, observando um patch na jaqueta do Fenriz que descobri o [Obliteration](https:\/\/obliteration.bandcamp.com\/album\/black-death-horizon), o oposto musical total do a-ha, n\u00e3o obstante a mesma nacionalidade. Onde o a-ha \u00e9 exuber\u00e2ncia e juventude, o Obliteration \u00e9 negrume e desespero. E quem acha que gostar simultaneamente destas bandas ant\u00edpodas \u00e9 incongruente \u00e9 porque ainda n\u00e3o viveu o suficiente, n\u00e3o experimentou de tudo um pouco do que a vida tem para oferecer. Diga-se, em todo caso, que as searas que est\u00e3o al\u00e9m do espa\u00e7o entre estes dois p\u00f3los \u00e9 o territ\u00f3rio amplo no qual tenho me refugiado com mais frequ\u00eancia nos \u00faltimos dias. Ter apenas uma ideia vaga do que escutarei \u2014 mas com algumas certezas sobre o que n\u00e3o escutarei \u2014 \u00e9 uma orienta\u00e7\u00e3o que passou a prevalecer em fins de novembro, outro m\u00eas tumultuado e cansativo. [Laurie Spiegel](https:\/\/lauriespiegel.bandcamp.com\/album\/unseen-worlds) e [Ulver](https:\/\/ulver.bandcamp.com\/album\/locusts) s\u00e3o alguns dos nomes que forneceram a m\u00fasica de formas mais livres que passei a buscar ent\u00e3o. Ocorre que, \u00e0s vezes, a m\u00fasica certa \u00e9 imponder\u00e1vel. \u00c9 um movimento de l\u00f3gica on\u00edrica, uma viagem sem rumo certo, um espa\u00e7o negativo. E, pedindo licen\u00e7a para divagar um pouco mais, talvez seja esta uma inclina\u00e7\u00e3o coerente com a impress\u00e3o que tenho tido ultimamente de que meu aprendizado mais frequente tem sido, na verdade, uma esp\u00e9cie de desaprendizado. Um esp\u00e9cie de afrouxar, de desarme, de concilia\u00e7\u00e3o com a fluidez e o incerto. Despojar-se das sensa\u00e7\u00f5es de controle e admirar o desconhecido, aproveitar o imenso da jornada... Algo a ser melhor elaborado outra hora, mas que confirma desde j\u00e1 \u2014 e uma vez mais \u2014 que \u00e9 principalmente a partir da m\u00fasica que me acompanha dia ap\u00f3s dia que tenho minhas melhores chances de extrair algum sentido desta vida.","post_summary":"Envelhecendo e desaprendendo.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Composi\u00e7\u00e3o X*, de Wassily Kandinsky.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":897,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2025","post_timestamp":"2025-11-04T09:22:12+00:00","url":"Discos_do_mes_Outubro_de_2025","post":"Quando outubro terminou eu mal havia percebido que tinha come\u00e7ado. Onde foram parar aqueles 31 dias? Por qual ralo escoaram? N\u00e3o vi quase nada. Mas lembro de um e outro disco escutado. Optei, quase sempre, por heavy metal, dado que, n\u00e3o obstante estar permanentemente cansado e atarefado, eu espreitava a proximidade do Dia das Bruxas. N\u00e3o me importa saber se o Halloween \u00e9 uma festividade importada, uma imposi\u00e7\u00e3o cultural imperialista, um golpe de marketing. Muito provavelmente \u00e9 isto tudo. Mas o fato \u00e9 que adoro o Halloween, adoro as origens remotas da comemora\u00e7\u00e3o, as crian\u00e7as fantasiadas, todo o clima que se instaura nesta noite encantada. Adoro os filmes e tamb\u00e9m, \u00e9 claro, as m\u00fasicas do King Diamond. Halloween \u00e9 o meu Natal \u2014 este sim um feriado para o qual n\u00e3o dou muito bola (al\u00e9m do que, em Florian\u00f3polis, no Natal quase sempre chove, o que nos impede de fazer o que de melhor se pode fazer em uma ilha em pleno fervor de ver\u00e3o: ir para a praia). Mas, retomando, deste pouco que me lembro do m\u00eas findo est\u00e1 o fato de que tornei-me f\u00e3 declarado desta banda de nome singular, [Sanguisugabogg](https:\/\/sanguisugabogg.bandcamp.com\/music). Eu j\u00e1 tinha escutado ao *Homicidal Ecstasy* (os rapazes n\u00e3o poupam sutileza antes de dar nome \u00e0s coisas) e por conta deste disco sabia que o \u0027Bogg era outro dos destaques da opulenta safra death metal de anos recentes, ao lado de nomes como Gatecreeper, Skeletal Remains, 200 Stab Wounds e Creeping Death. Uma claque e tanto! Admito que posso eventualmente confundir o disco de uma destas bandas como sendo de outra, mas n\u00e3o importa: death metal \u00e9 estado de esp\u00edrito, \u00e9 comunh\u00e3o via labor manual, \u00e9 fraternidade. Ningu\u00e9m est\u00e1 preocupado em soar melhor do que ningu\u00e9m. Mas o disco que o Sanguisugabogg soltou h\u00e1 pouco, *Hideous Aftermath*, para mim os coloca na lideran\u00e7a desta classe oper\u00e1ria. Aposto que todas as resenhas ir\u00e3o mencionar a faixa *Repulsive Demise* por conta de sua sonoridade industrial \u00e0 moda Godflesh, mas ela est\u00e1 longe de ser a melhor coisa do \u00e1lbum. O que vem antes e depois \u00e9 superior, \u00e9 death metal impec\u00e1vel que se esmera em riffs e passagens n\u00e3o-triviais \u2014 sem, no entanto, abusar e adentrar o cansativo territ\u00f3rio do \u0022technical death metal\u0022 \u2014 e se beneficia \u2014 aqui, sim, sem nenhum comedimento na t\u00e9cnica e no arrojo \u2014 de um baterista que \u00e9 um prod\u00edgio, um colosso. O trabalho de percuss\u00e3o neste disco \u00e9 algo realmente excepcional, soa muitas vezes como uma multid\u00e3o de m\u00e3os multiplicando sinais cifrados, um c\u00f3digo comunit\u00e1rio de alerta para alguma cat\u00e1strofe eminente. Vale a pena prestar aten\u00e7\u00e3o a este detalhe, por mais que o rolo compressor das guitarras de baixa afina\u00e7\u00e3o esteja sempre \u00e0 frente. Com *Hideous Aftermath*, o Sanguisugabogg n\u00e3o \u00e9 mais apenas a banda de nome mais peculiar da turma; eles s\u00e3o o Morbid Angel desta gera\u00e7\u00e3o. Algumas outras audi\u00e7\u00f5es das quais me lembro, que vale a pena deixar anotadas aqui para minha rememora\u00e7\u00e3o futura: uma vers\u00e3o remasterizada do *Load* do Metallica, com dois CDs b\u00f4nus. *Load* \u00e9 lend\u00e1rio pelos motivos errados, um dos discos mais detestados de todos os tempos, e eu continuo adorando-o intransigentemente. *Pain Is Beauty*, de Chelsea Wolfe: que disco magn\u00edfico. \u00c9 metal sem precisar de urros ou de guitarras pesadas; \u00e9 melhor do que metal. O trecho final com *The Waves Have Come* e *Lone* \u00e9 arrasador. E, por \u00faltimo, o novo disco do Hooded Menace: [*Lachrymose Monuments Of Obscuration*](https:\/\/hoodedmenace.bandcamp.com\/album\/lachrymose-monuments-of-obscuration) n\u00e3o poderia ser nada menos do que sensacional. Minha atual banda de metal favorita \u2014 dividindo a honra com o Tribulation, mas talvez um palmo \u00e0 frente desta agora \u2014 n\u00e3o me decepcionaria. E foram estas minhas companhias sonoras mais dignas de nota em outubro, al\u00e9m do Schubert mencionado no post anterior. Passado o Halloween, por aqui estamos agora em modo de espera pelo ver\u00e3o, esta\u00e7\u00e3o que costuma arejar um pouco minhas audi\u00e7\u00f5es. Death metal sob 40 graus de temperatura, combinemos, n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 grande prospecto.","post_summary":"Adivinhe qual g\u00eanero musical escutei com mais frequ\u00eancia no m\u00eas das bruxas.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"imagem de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.buzzfeednews.com\/article\/gabrielsanchez\/21-deeply-horrifying-vintage-pictures-from-halloween).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":896,"title":"A vida e a morte em Schubert segundo Patricia","post_timestamp":"2025-10-19T22:46:21+00:00","url":"A_vida_e_a_morte_em_Schubert_segundo_Patricia","post":"Uma parte de mim, de car\u00e1ter mais racional, sente avers\u00e3o pelas obras (filmes, livros, m\u00fasica) que tratam dos grandes temas: a vida e a morte, a origem de tudo, o destino da humanidade. Outra parte, mais xereta, sente uma irremedi\u00e1vel atra\u00e7\u00e3o. A obje\u00e7\u00e3o vem da certeza pr\u00e9via de que tais obras n\u00e3o respondem e nunca responder\u00e3o plenamente a nenhuma destas quest\u00f5es, pois a racionalidade assopra: n\u00e3o h\u00e1 respostas para coisas que sequer s\u00e3o perguntas. A atra\u00e7\u00e3o, de sua vez, vem da curiosidade em observar as tentativas e v\u00ea-las falhar miseravelmente, mas no processo aprender algo sobre o humano, sobre as peculiaridades das tantas experi\u00eancias poss\u00edveis, dos m\u00faltiplos pontos de vistas verbalizados pelos(as) artistas que se metem a tentar responder ou discutir tais coisas. *2001: A Space Odyssey* \u00e9 possivelmente o filme mais pretencioso de todos os tempos, e eu me arrepio toda vez que o revejo. No reino musical, as grandes sinfonias de Mahler e outros t\u00eam uma qualidade similar \u00e0 obra de Kubrick e Clarke: elas fascinam e assombram desde que voc\u00ea trate de domar previamente a voz interior da raz\u00e3o que denuncia o pat\u00e9tico de toda aquela grandiloqu\u00eancia. Ou que ao menos se sirva de um pouco de perspectiva. Citei algumas obras revestidas de grande pompa, mas h\u00e1 um nicho especial pelo qual tenho um afeto mais descomplicado: a m\u00fasica que n\u00e3o se furta a tais questionamentos sem deixar, contudo, de habitar o ch\u00e3o batido do povo comum, sem encerrar-se nas vetustas salas de concerto. E algumas obras do repert\u00f3rio cl\u00e1ssico \u2014 n\u00e3o tenho como especular se com ou sem inten\u00e7\u00e3o \u2014 se prestam especialmente a este fim. Eu pensava nisto tudo enquanto assistia \u00e0 performance de *A Morte e a Donzela*, de Schubert, por um pequeno conjunto de cordas em uma igualmente pequena igreja pr\u00f3xima de onde moro, constru\u00e7\u00e3o modesta cujo [interior foi pintado](https:\/\/static.ndmais.com.br\/2022\/04\/1-1.jpeg) por um dos mais populares e queridos pintores de Florian\u00f3polis. O evento era gratuito; o p\u00fablico variado lotou o pequeno espa\u00e7o. A pe\u00e7a de Schubert \u00e9 das minhas preferidas: ela marca, junto com o quarteto de cordas n\u00famero 8 de Shostakovitch, o in\u00edcio do meu interesse mais sustentado por m\u00fasica cl\u00e1ssica. O tema da composi\u00e7\u00e3o, como seu nome entrega de sa\u00edda, \u00e9 a [morte](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/String_Quartet_No._14_(Schubert)), e no fim ela n\u00e3o elucida patavinas a respeito deste assunto sobre o qual todos n\u00f3s, se n\u00e3o obsessivamente, ao menos muito frequentemente pensamos. Mas *A Morte e a Donzela* \u00e9 linda \u2014 linda de morrer, algu\u00e9m pode ressalvar. Seu primeiro movimento \u00e9 como um flecha que captura o ouvinte e o traz de imediato para junto do drama, sem que a partir de ent\u00e3o o largue durante um segundo sequer de seu desenrolar cheio de fraseados melodiosos e inesquec\u00edveis, animados por melancolia serena e espasmos de virtuosismo. A execu\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos da [OFiC](https:\/\/oficmusic.com) foi muito boa, intensa e incisiva. Ningu\u00e9m ali presente na audi\u00eancia tornou-se mais s\u00e1bio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 finitude humana, mas \u00e9 certo que isso n\u00e3o diminuiu em nada os aplausos efusivos e o sorriso das pessoas enquanto deixavam o local e penetravam na fresca noite ilh\u00f4a. E assim uma pe\u00e7a do romantismo europeu do s\u00e9culo 19 encontra um p\u00fablico no hemisf\u00e9rio sul dois s\u00e9culos depois; um lamento l\u00edrico sobre a morte iminente distrai a noite de umas poucas dezenas de trabalhadores e estudantes cansados e cansadas prestes a se preparar para o dia seguinte, quando continuar\u00e3o perfeitamente vivos assim como estavam no alvorecer daquele mesmo dia, indiferentes ao sofrimento de Schubert em seus \u00faltimos dias. E quem entendeu melhor do que todo mundo a riqueza desta pe\u00e7a e as possibilidades destes contrastes foi minha hero\u00edna Patricia Kopatchinskaja. Nas m\u00e3os de Patricia, *A Morte e a Donzela*, conforme gravada neste [primor de CD](https:\/\/www.discogs.com\/release\/9967186-Schubert-Patricia-KopatchinskajaSaint-Paul-Chamber-Orchestra-Death-And-The-Maiden-), se transforma quase que em uma longa can\u00e7\u00e3o popular. Seu sabor *folk* \u00e9 definitivo; duvido que mesmo Schubert anteviu isto. Intercalando os quatro movimentos originais com pe\u00e7as an\u00f4nimas e de outros compositores, a releitura de Patricia dissipa a erudi\u00e7\u00e3o sem deixar de tratar o tema com o respeito e a solenidade que merece. O povo tamb\u00e9m morre \u2014 celebremos a vida do povo. Na Igrejinha (assim conhecida pela comunidade), enquanto os m\u00fasicos se preparavam para a apresenta\u00e7\u00e3o tendo como fundo a vis\u00e3o de [Hassis sobre a humanidade](https:\/\/dac.ufsc.br\/obras-de-arte-no-campus\/mural-humanidade\/), n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a a segunda faixa deste CD, uma breve can\u00e7\u00e3o an\u00f4nima cujo clima de vida pequena, campestre, sempre me comove. Ela d\u00e1 o tom, emoldura o restante da m\u00fasica, que, embora tecnicamente exigente, dali por diante fala para todos os vivos, estabelece um di\u00e1logo com todos que temos o morrer como destino em comum. As pequenas pe\u00e7as seguintes de Dowland e Gesualdo, de forte teor piedoso, refor\u00e7am este compromisso; Schubert se acomoda entre elas, ergue a voz vez ou outra, clama aos c\u00e9us, mas em minha mente est\u00e1 inscrito em definitivo entre o povo nas aldeias, e agora, na Igrejinha em Florian\u00f3polis.","post_summary":"Schubert em uma quinta-feira de noite em Florian\u00f3polis e Schubert deslocado por Patricia Kopatchinskaja.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Noite de V\u00e9spera do Ivan Kupala* de Henryk Siemiradzki, copiada [daqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Ivankupala.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":895,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2025","post_timestamp":"2025-10-05T12:28:16+00:00","url":"Discos_do_mes_Setembro_de_2025","post":"Em setembro escutei mais ao canto dos p\u00e1ssaros do que a qualquer outra coisa. Em especial aos sabi\u00e1s, que por aqui andam berrando alucinadamente a qualquer hora do dia e da noite. Estufam seus peitinhos e trinam e se esgoelam como se anunciando o \u00faltimo dos dias, os bicos apontados para o c\u00e9u, a altivez em forma de bolota de penas. Li em algum lugar ou algu\u00e9m me falou que a cantoria madrugada adentro \u00e9 culpa das l\u00e2mpadas led que est\u00e3o sendo colocadas nos postes do meu bairro, que fazem os pobres bichinhos n\u00e3o mais distinguirem os dias das noites, e assim para eles qualquer hora \u00e9 hora. Isso n\u00e3o vai dar certo. Mas a cantoria \u00e9 muito bonita, toda r\u00edtmica e fraturada, \u00e0s vezes parece que um mesmo p\u00e1ssaro canta duas m\u00fasicas diferentes ao mesmo tempo, intercalando as notas. Me faltou m\u00fasica feita e executada por humanos porque as \u00faltimas semanas foram de uma correria insana, com mil tarefas e compromissos, e pouco estive em condi\u00e7\u00f5es de fazer qualquer coisa que me permitisse ter m\u00fasica como companhia, que dir\u00e1 ent\u00e3o sentar-me para ouvir aos meus discos. De mais not\u00e1vel, ou \u0022anot\u00e1vel\u0022, teve uma revisita aos dois primeiros discos do Smashing Pumpkins seguida de um pulo no tempo e umas duas ou tr\u00eas audi\u00e7\u00f5es deste \u00e1lbum esquisito chamado *Machina II\/The Friends \u0026 Enemies of Modern Music*, que nem sei se se trata de fato de um \u00e1lbum, \u00e1lbum no sentido tradicional da coisa. A revisita aos dois primeiros foi, confesso, mais para justificar ter estas gordas edi\u00e7\u00f5es especiais ocupando tanto espa\u00e7o nas estantes do que por apre\u00e7o \u00e0s suas m\u00fasicas. Do *Gish* nunca fui l\u00e1 muito f\u00e3, embora reconhe\u00e7a que seu charme psicod\u00e9lico n\u00e3o tratorado pelo grunge antecipe uma banda diferente. Do *Siamese Dream* \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o gostar, mas h\u00e1 algo de bobo nele, de a\u00e7ucarado demais da conta, que dessa vez n\u00e3o me caiu l\u00e1 muito bem \u2014 o que talvez seja perfeitamente natural, dado que entre os jovens que o gravaram e o adulto que sou hoje h\u00e1 32 anos de separa\u00e7\u00e3o. Mas *Rocket*, naquele trecho \u0022sooo-oooon I\u0027ll find myself alone...\u0022, continua me enlevando como quando eu era adolescente, e o trecho final de *Hummer* \u00e9 muito, muito bonito. *Machina II\/The Friends \u0026 Enemies of Modern Music* p\u00f5e ambos estes discos no bolso. \u00c9 um \u00e1lbum estranho, de grava\u00e7\u00e3o chiada e amadora, com pouca ou nenhuma das concess\u00f5es \u00e0s quais est\u00e1vamos acostumados, mas h\u00e1 can\u00e7\u00f5es t\u00e3o sublimes em seu tracklist que tais problemas n\u00e3o chegam nem perto de me incomodar. Eu continuo adorando a jornada trabalhosa do *Mellon Collie and the Infinite Sadness*, mas desconfio que \u00e9 em *Slow Dawn* e em *Speed Kills* que reside o ponto culminante do talento para a composi\u00e7\u00e3o de Billy Corgan. \u00c9 algo especial, sem esfor\u00e7o, puro e majestoso, de se ouvir mesmerizado. *Machina II* \u00e9 cheio de excessos e coisas descart\u00e1veis, mas quando brilha, \u00e9  fascinante. De t\u00e3o alto que o Smashing Pumpkins chegou, n\u00e3o me surpreende nem um pouco o qu\u00e3o pronfundo eles desabaram... Algumas coisas mais recentes que escutei me deixaram at\u00e9 meio constrangido. Uma pena. E pouco mais tenho a relatar: lembro de escutar ao primeiro disco do Talk Talk e \u00e0 reedi\u00e7\u00e3o de alguma coisa mais antiga do Aphex Twin, mas foram audi\u00e7\u00f5es desatentas, pura m\u00fasica de fundo; escutei tamb\u00e9m ao *Crooked Rain, Crooked Rain* do Pavement enquanto arrumava algumas caixas de livros e CDs ap\u00f3s uma reforma aqui em casa, e lembro de parar por um momento e ficar muito feliz quando come\u00e7ou *Range Life*. Pavement: a\u00ed est\u00e1 uma banda que eu deveria escutar mais vezes. Por fim, este sim com mais aten\u00e7\u00e3o, escutei ao novo disco de Steve Gunn, [*Music for Writers*](https:\/\/stevegunn.bandcamp.com\/album\/music-for-writers), um vaporoso e delicado interl\u00fadio intrumental, o viol\u00e3o tranquilo de Gunn costurado sobre ambi\u00eancia eletr\u00f4nica cintilante e fugidia. A m\u00fasica transcorre linda como um encantamento, uma manh\u00e3 em algum rinc\u00e3o afastado do mundo, onde as not\u00edcias urbanas n\u00e3o chegam. Belo disco j\u00e1 inscrito em minha lista de melhores de 2025. E \u00e9 isso \u2014 despe\u00e7o-me. A rotina vem aos poucos voltando ao normal, bem a tempo de desfrutar adequadamente da esta\u00e7\u00e3o das bruxas, o que significa ouvir generosas doses de metal. Quanto aos sabi\u00e1s, por ora nada indica que pensam em sossegar. Se a teoria da ilumina\u00e7\u00e3o noturna for furada e essa cantoria toda significa apenas acasalamento, claramente existe uma plano em execu\u00e7\u00e3o para se multiplicarem e dominar o mundo.","post_summary":"Escutando Pavement, Smashing Pumpkins e Steve Gunn em um mundo humano prestes a extinguir-se, e n\u00e3o por conta das guerras ou da trag\u00e9dia clim\u00e1tica.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Wren \u0026 Chicks*, de Robert E Fuller, copiada [daqui](https:\/\/www.robertefuller.com\/blogs\/blog\/brilliant-bird-nests-the-paintings).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":894,"title":"Uma maratona Anthrax","post_timestamp":"2025-09-21T10:58:11+00:00","url":"Uma_maratona_Anthrax","post":"A esta altura da vida algumas lembran\u00e7as mais antigas encontram-se j\u00e1 meio incertas e desodernadas cronologicamente, mas \u00e9 seguro afirmar que o Anthrax foi uma das primeiras bandas de metal que me interessaram e integraram minha cole\u00e7\u00e3o de discos (formada, \u00e0 \u00e9poca, por uma por\u00e7\u00e3o de fitas cassetes gravadas a partir do r\u00e1dio e de vinis e de outras fitas emprestados daqui e dali). Muito antes de eu passar a ouvir certas bandas incontorn\u00e1veis e mais ou menos associadas \u2014 Metallica, Slayer, Testament \u2014, eu j\u00e1 gostava do Anthrax. H\u00e1 um elemento extra-musical nesta predile\u00e7\u00e3o: o Anthrax tinha uma aura um pouco menos heavy metal e algo de punk\/hardcore; era frequente escut\u00e1-los nos document\u00e1rios de surf e ver seu logotipo nos shapes dos skates e nas camisetas dos skatistas, culturas ao redor das quais gravitei durante boa parte da adolesc\u00eancia. O Metallica, diga-se, tamb\u00e9m tinha seus f\u00e3s entre estas tribos (em parte por conta das [artes do Pushead](https:\/\/www.pinterest.com\/dylandead\/pushead-artwork\/)), mas eu sentia mais afina\u00e7\u00e3o com o Anthrax, que tinha mais groove e parecia ter mais *atitude*, enquanto o Metallica pr\u00e9-*Black Album* soava grosseiro e severo demais para o meu gosto em forma\u00e7\u00e3o (o *Master of Puppets*, por exemplo, na primeira vez em que o escutei, me soou simplesmente intoler\u00e1vel, me pareceu uma m\u00fasica *idiota*, puro peso obtuso e sem nuance alguma). Com o tempo e a expans\u00e3o dos meus interesses o Anthrax foi ficando meio de lado, mas manteve preservado, sempre, um lugar especial na malha hist\u00f3rica dos meus afetos musicais. Durante todo esse tempo senti-os por perto, como que um atalho seguro para uma boa dose de nostalgia e rebeldia adolescentes. E nas \u00faltimas semanas lancei m\u00e3o diversas vezes deste recurso. Era hora! J\u00e1 n\u00e3o tenho um toca-fitas para escutar \u00e0s fitas gravadas h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, mas tenho os onze \u00e1lbuns de est\u00fadio da banda no computador e me pus a escut\u00e1-los em ordem cronol\u00f3gica de lan\u00e7amento. Seguem algumas impress\u00f5es e meu ranking dos discos do Anthrax.\r\n\r\n![O Anthrax em 1984](\/img\/Post\/uma_maratona_anthrax_1.jpg)\r\n\u003Cspan\u003EO Anthrax em 1984, em foto de autor desconhecido (copiada [daqui](https:\/\/www.facebook.com\/mutiladorfanzine\/posts\/anthrax-1985\/5889659041093615\/)).\u003C\/span\u003E\r\n\r\nFoi uma viagem no tempo, direto para o tempo aconchegante da inf\u00e2ncia em que fascistas n\u00e3o passavam de aberra\u00e7\u00f5es em preto-e-branco nas p\u00e1ginas das enciclop\u00e9dias, h\u00e1 muito mortos e desprezados. O primeiro \u00e1lbum do Anthrax, *Fistful of Metal*, de 1984, na verdade eu s\u00f3 fui escut\u00e1-lo bastante tempo depois, e por conta disso o encaro como mera curiosidade de museu, pouco mais do que arruaceiros emulando o Judas Priest e levando \u00e0 d\u00e9cima pot\u00eancia a cafajestagem do Kiss e do AC\/DC. Mas \u00e9, sem d\u00favida, um peda\u00e7o importante da hist\u00f3ria do metal, an\u00e1rquico e veloz, com os m\u00e9ritos adicionais de ter ensejado o primeiro uso do termo *thrash metal* (assim o jornalista Malcolm Dome teria descrito a faixa *Metal Thrashing Mad* na revista Kerrang) e de ter tido sua arte gr\u00e1fica censurada na Alemanha. Com o segundo \u00e1lbum, a\u00ed sim entramos simultaneamente no territ\u00f3rio das minha mem\u00f3rias adolescentes e na \u00e9poca de ouro do Anthrax. *Spreading the Disease*, de 1985, traz composi\u00e7\u00f5es e um vocalista bem melhores do que as do primeiro \u00e1lbum, deixando no passado a contrafa\u00e7\u00e3o pouco distinta de Judas Priest. A produ\u00e7\u00e3o mais profissional faz os solos resplandecerem, os riffs s\u00e3o mais ferozes; \u00e9 o Anthrax se transformando em Anthrax. O auge viria dali a dois anos com *Among the Living*. Acho que este foi o primeiro \u00e1lbum do Anthrax que escutei e tenho certeza de que se trata do meu favorito. Adoro a aud\u00e1cia dos *gang shouts*, que aproximam a banda ao hardcore; as mudan\u00e7as de andamento nos refr\u00f5es, o baixo proeminente, os riffs em cascata. O ritmo man\u00edaco de *Caught in a Mosh* pode mudar o rumo da vida de qualquer adolescente, n\u00e3o sei bem se para melhor ou pior. Sei que *Among the Living* aparecer\u00e1 f\u00e1cil entre meus 10 discos de metal favoritos se algum dia eu fizer tal classifica\u00e7\u00e3o.\r\n\r\n\u003Cdiv class=\u0022video-container\u0022\u003E\r\n\u003Ciframe width=\u0022560\u0022 height=\u0022315\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zlLn0UicWrM?si=WAMeYi6b9lQEl0hM\u0022 title=\u0022YouTube video player\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allow=\u0022accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\u0022 referrerpolicy=\u0022strict-origin-when-cross-origin\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\u003C\/div\u003E\r\n\r\n*State of Euphoria* e *Persistence of Time*, de 1988 e 1990, s\u00e3o continuidades de *Among the Living*. Todos estes discos t\u00eam para mim um sabor sinest\u00e9sico de confronto, de subvers\u00e3o, e escut\u00e1-los hoje me faz reviver em quase perfeita similitude, como que preservada em \u00e2mbar, a euforia sentida quando escutei-os pela primeira vez em plena efervesc\u00eancia adolescente: o fr\u00eamito e a excita\u00e7\u00e3o da descoberta de uma m\u00fasica que era tamb\u00e9m uma forma de antagonismo contra os adultos que nos cercavam, de rebeli\u00e3o contra o mundo de pl\u00e1stico que v\u00edamos pela televis\u00e3o. N\u00e3o era a m\u00fasica de nossos pais e demais familiares; n\u00e3o era a m\u00fasica da grande maioria dos nossos colegas de escola: o Anthrax era um passo al\u00e9m do Guns N\u0027 Roses, era, enfim, a nossa m\u00fasica. (N\u00e3o era sequer a m\u00fasica de todos os meus amigos mais chegados; era a m\u00fasica de um subgrupo ainda menor, e tamb\u00e9m de alguns grupos de conhecidos mais velhos que observ\u00e1vamos meio de longe e dos quais fing\u00edamos fazer parte.)\r\n\r\n![O Anthrax no come\u00e7o dos anos 1990](\/img\/Post\/uma_maratona_anthrax_2.jpg)\r\n\u003Cspan\u003EO Anthrax no come\u00e7o dos anos 1990, em foto de autor desconhecido (copiada [daqui](https:\/\/consequence.net\/2020\/06\/anthrax-persistence-of-time-30th-anniversary-deluxe-edition\/)).\u003C\/span\u003E\r\n\r\nSuponho que seja razo\u00e1vel estimar que em 1993 cerca de 95% dos adolescentes de classe m\u00e9dia ocidentais ouviam uma \u00fanica e mesma coisa: grunge. Era inescap\u00e1vel. Continuava sendo uma m\u00fasica atrav\u00e9s da qual demarc\u00e1vamos nossas posi\u00e7\u00f5es, por\u00e9m ela vinha agora com mais nuance emocional, mais melodia e, n\u00e3o menos importante, era feita por jovens de vestu\u00e1rio e apar\u00eancia menos ex\u00f3ticos. Havia mais proximidade entre esta nova gera\u00e7\u00e3o de rebeldes e n\u00f3s e a identifica\u00e7\u00e3o foi imediata, fato que n\u00e3o passou desapercebido por muitas bandas de metal. *Sound of White Noise* anuncia esta nova era na trajet\u00f3ria do Anthrax. Eu gosto deste disco, o \u00faltimo que lembro de ter escutado logo ap\u00f3s ter sido lan\u00e7ado, ou seja, enquanto f\u00e3 ativo da banda. A inje\u00e7\u00e3o de influ\u00eancias contempor\u00e2neas \u00e9 evidente \u2014 *Black Lodge* (que tem a participa\u00e7\u00e3o de Angelo Badalamenti, o homem por tr\u00e1s da m\u00fasica de *Twin Peaks* e dos filmes do David Lynch) poderia estar nos discos de algumas das bandas de Seattle; *This Is Not An Exit* tem afina\u00e7\u00e3o de guitarra que lembra outras modernidades da \u00e9poca tais como o Biohazard \u2014 mas nada disso chega a solapar a banda e sua identidade, o que talvez seja uma opini\u00e3o pessoal pouco compartilhada com outros f\u00e3s do Anthrax. J\u00e1 *Stomp 442*, de 1995, este \u00e9 mais dif\u00edcil de defender. Enquanto sua \u00faltima faixa lembra o Stone Temple Pilots, o restante do \u00e1lbum vai na linha \u0022metal alternativo\u0022 prenunciada no \u00e1lbum anterior. Copiar o Helmet, na melhor das hip\u00f3teses, \u00e9 coerente; copiar o Stone Temple Pilots, por outro lado, ser\u00e1 sempre uma p\u00e9ssima ideia. Qual seja sua opini\u00e3o sobre estas bandas, o problema estava posto: neste disco quase nada resta do bom e velho Anthrax original.\r\n\r\n\u003Cdiv class=\u0022video-container\u0022\u003E\r\n\u003Ciframe width=\u0022560\u0022 height=\u0022315\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZWSPItDCOkI?si=gFfF9cwb3tBV8Tw5\u0022 title=\u0022YouTube video player\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allow=\u0022accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\u0022 referrerpolicy=\u0022strict-origin-when-cross-origin\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\u003C\/div\u003E\r\n\r\n*Volume 8: The Threat Is Real*, de 1998, se n\u00e3o agrava o problema, tampouco o resolve. Talvez fosse o caso de considerar que o Anthrax n\u00e3o estivesse passando por uma crise de identidade, mas havia de fato se transformado e vivia sob uma nova identidade, sem ter tido a coragem, no entanto, de trocar de nome. Do ponto de vista pessoal, em todo o caso, eu n\u00e3o andava por a\u00ed preocupado com isso, haja vista que \u00e0 medida em que nos aproxim\u00e1vamos da virada do mil\u00eanio eu me afastava gradualmente do metal (e das bandas que j\u00e1 haviam sido metal algum dia). Minha metaleirice \u00e0quela altura parecia destinada a ficar arquivada no passado \u2014 uma fase da adolesc\u00eancia, digamos, assim como os discos da Xuxa e do Domin\u00f3 haviam ficado arquivados no cap\u00edtulo \u0022inf\u00e2ncia\u0022. Mal podia eu saber que esta paix\u00e3o (o metal, n\u00e3o o Domin\u00f3) voltaria tempos depois com for\u00e7a brutal e responde hoje em dia por mais da metade de tudo quanto escuto diariamente, com sobras... Estes \u00faltimos discos do Anthrax, ent\u00e3o, eu s\u00f3 vim a escut\u00e1-los recentemente, j\u00e1 no contexto desta minha segunda fase de *headbanger*. E como estamos sempre dispostos a ser de novo e novamente condescendentes com nossas bandas mais queridas, lembremos que no fim dos anos 90 o mundo em sua loucura at\u00e1vica vivia o auge do nu metal, e o Anthrax teve ao menos o bom senso de n\u00e3o se espelhar no Korn. *We\u0027ve Come for You All*, de 2003, talvez seja um pouco melhor do que *Volume 8*, mas isso \u00e9 o mais que consigo dizer sobre ele.\r\n\r\n![O Anthrax em 2015](\/img\/Post\/uma_maratona_anthrax_3.jpg)\r\n\u003Cspan\u003EO Anthrax em 2015, foto de Jimmy Hubbard (copiada [daqui](https:\/\/www.anthrax.com)).\u003C\/span\u003E\r\n\r\nTemos enfim um disco digno do Anthax em 2011, com *Worship Music*. N\u00e3o apenas por conta da volta do vocalista Joey Belladonna, que havia deixado o grupo ap\u00f3s o lan\u00e7amento de *Persistence of Time*: soando mais agressiva, com os dentes arreganhados, a banda parece ter entrado em est\u00fadio com suas prioridades reorganizadas. *Fight \u0027Em \u0027Til You Can\u0027t*, por exemplo, tem um irresist\u00edvel sabor *Among the Living* sem deixar de soar um perfeitamente coerente Anthrax do s\u00e9culo XXI. *For All Kings*, lan\u00e7ado cinco anos depois, confirma que a banda voltara ao trilhos e autoriza os velhos f\u00e3s a tirarem de vez suas surradas camisetas do Anthrax dos arm\u00e1rios. Pena ter sido este o \u00faltimo disco de est\u00fadio da banda, l\u00e1 se v\u00e3o quase 10 anos. Mas esse n\u00famero redondo talvez n\u00e3o chegue a se concretizar: not\u00edcias d\u00e3o conta de que em breve poderemos ter um [novo \u00e1lbum deste experiente e querido tit\u00e3](https:\/\/blabbermouth.net\/news\/frank-bello-says-new-anthrax-album-is-done-its-going-into-mixing-now). Com minha condi\u00e7\u00e3o de f\u00e3 retificada e renovada, aguardo alegremente.\r\n\r\n## Ranking\r\n\r\n1. *Among the Living* (1987)\r\n2. *State of Euphoria* (1988)\r\n3. *Persistence of Time* (1990)\r\n4. *Sound of White Noise* (1993)\r\n5. *Spreading the Disease* (1985)\r\n6. *Worship Music* (2011)\r\n7. *For All Kings* (2016)\r\n8. *We\u0027ve Come for You All* (2003)\r\n9. *Volume 8: The Threat Is Real* (1998)\r\n10. *Fistful Of Metal* (1984)\r\n11. *Stomp 442* (1995)","post_summary":"Historiando minha rela\u00e7\u00e3o com o Anthrax, minha banda thrash favorita.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"imagem copiada [daqui](https:\/\/45-revolution.com\/item\/ANTHRAX_shirts_3).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":893,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2025","post_timestamp":"2025-09-01T21:37:17+00:00","url":"Discos_do_mes_Agosto_de_2025","post":"**Deftones - private music**\r\n\r\n\u0022Talvez esteja na hora de admitir que sou f\u00e3 do Deftones\u0022, eu pensava enquanto escutava a este rec\u00e9m-lan\u00e7ado *private music*. J\u00e1 ao fim da segunda audi\u00e7\u00e3o resolvi engavetar a ideia e deixar o Deftones habitando esse limbo que existe entre as bandas que ativamente gosto e as que ativamente desgosto. N\u00e3o sei bem o que ocorre: n\u00e3o pode ser somente a antiga associa\u00e7\u00e3o da banda com o nu metal, liga\u00e7\u00e3o esta que sempre me pareceu mais circunstancial do que propriamente estil\u00edstica \u2014 comparar um som rico e intenso como o do Deftones com a m\u00fasica repelente feita pelo Korn \u00e9 uma maldade. Talvez seja a impress\u00e3o que tenho de que o Deftones \u00e9 por demais auto-referencial, h\u00e1 uma f\u00f3rmula que se repete exaustivamente em seus discos. Eu, que nem escutei-os tantas vezes assim, sempre me pego adivinhando como ser\u00e1 o refr\u00e3o de qualquer nova faixa do Deftones enquanto escuto aos seus 10 ou 15 segundos iniciais pela primeira vez. Adivinho a melodia, a modula\u00e7\u00e3o da voz do cantor. \u0022Agora ele vai fazer assim com a voz\u0022 \u2014 pimba, ele vai l\u00e1 e faz. E isso vai ficando irritante. Dito isso, h\u00e1 uma hora e um lugar para o Deftones. *my mind is a mountain* e *milk of the madonna* n\u00e3o s\u00e3o faixas de uma banda que se descarte com facilidade. Continuo hesitando me declarar f\u00e3 de Deftones, mas que ningu\u00e9m estranhe se *private music* aparecer em minha lista de melhores de 2025.\r\n\r\n**Iron Maiden - Seventh Son of a Seventh Son**\r\n\r\nAssim como existe o conceito de \u0022comfort food\u0022, penso que deveria existir tamb\u00e9m o de \u0022comfort music\u0022 ou \u0022comfort records\u0022, e se j\u00e1 n\u00e3o existe, ent\u00e3o declaro que a partir de agora existe. E vou mais longe: considerando as discografias mais extensas nas quais o sujeito navega desde muito cedo em sua vida, poderia muito bem existir o conceito de \u0022comfort record\u0022 dentro da obra de tais bandas. Pois bem, meu \u0022comfort Iron Maiden record\u0022 h\u00e1 de ser o *Seventh Son of a Seventh Son*. Esse disco eu ponho para tocar e me afundo em boas lembran\u00e7as e alegria. Na minha opini\u00e3o seus teclados e sintetizadores (na maioria das vezes n\u00e3o sei distinguir uma coisa da outra) soam melhores e mais harmoniosos do que em *Somewhere in Time*, assim como o \u00e9pico de *Seventh Son of a Seventh Son* (a faixa que d\u00e1 t\u00edtulo ao disco) eu o prefiro ao seu correspondente naquele outro disco (l\u00e1 \u00e9 *Alexander the Great*). Favore\u00e7o tamb\u00e9m a sonoridade mais aveludada de *Seventh Son of a Seventh Son* em compara\u00e7\u00e3o com a produ\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica e algo hist\u00e9rica de seu antecessor \u2014 e a esta altura pode at\u00e9 parecer que n\u00e3o gosto de *Somewhere in Time*, mas gosto muito! Se, como dizem, o Maiden teve v\u00e1rios auges em sua longeva carreira, *Seventh Son of a Seventh Son* h\u00e1 de ser um deles: as melodias s\u00e3o inesquec\u00edveis, os duelos de guitarra envolventes, Bruce Dickinson \u00e9 uma multid\u00e3o de personagens, nem todos necessariamente feitos de carne e osso. Amo a introdu\u00e7\u00e3o de baixo de *The Clairvoyant*, e *Moonchild*, m\u00edstica e amea\u00e7adora, \u00e9 para mim a melhor faixa de abertura de um disco do Iron Maiden. F\u00e1cil um dos meus tr\u00eas \u00e1lbuns favoritos da banda.\r\n\r\n**Isabelle Faust, Alexander Melnikov \u0026 Salagon Quartet - C\u00e9sar Franck: Sonate Pour Piano Et Violon \/ Ernest Chausson: Concert**\r\n\r\nCerta vez um amigo viu [este disco](https:\/\/www.discogs.com\/release\/10418789-C\u00e9sar-Franck-Ernest-Chausson-Isabelle-Faust-Alexander-Melnikov-Salagon-Quartet-Sonate-Pour-Piano-Et) na estante aqui de casa e disse, entusiasmado: \u0022essa m\u00fasica \u00e9 para escutar deitado no ch\u00e3o, esparramado\u0022. Poxa, por que n\u00e3o me ocorrem descri\u00e7\u00f5es como esta? Uma imagem simples, poucas palavras, e tudo est\u00e1 devidamente esclarecido \u2014 muito diferente destes textos que derramo prolixamente por aqui, que muito raro d\u00e3o conta do que eu realmente gostaria de dizer. Pois \u00e9 isto mesmo: a sonata de Franck (ele se referia a esta obra) \u00e9 m\u00fasica para se ouvir desabado no ch\u00e3o, descansado e desguardado. De tudo quanto j\u00e1 escutei, digo seguro: jamais um piano e um violino fizeram t\u00e3o boa companhia um ao outro. A m\u00fasica enfeiti\u00e7a a alma desde seu primeiro fraseado, cheio de fragr\u00e2ncia e melancolia. Sobre a interpreta\u00e7\u00e3o da dupla Isabelle Faust e Alexander Melnikov, a de Faust \u00e9 contida, segura; os novos caminhos que seu violino vai experimentando nos tr\u00eas movimentos iniciais s\u00e3o tateados com prud\u00eancia, e mesmo a eloqu\u00eancia do movimento final soa como que enquadrada por uma moral po\u00e9tica inflex\u00edvel. O piano de Melnikov: n\u00e3o consigo imaginar melhor. Sim, m\u00fasica para se ouvir estatelado, desamparado, assim se deixar morrer e assim ser revivido.","post_summary":"Um disco novo do Deftones, um disco velho do Iron Maiden. No departamento da m\u00fasica adulta, um \u00e1lbum para se ouvir desabado no ch\u00e3o.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Study of a Man Lying Down*, de Edward Hopper. Imagem copiada [daqui](https:\/\/whitney.org\/collection\/works\/21782).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":892,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2025","post_timestamp":"2025-08-05T01:17:11+00:00","url":"Discos_do_mes_Julho_de_2025","post":"**Black Sabbath - Sabotage**\r\n\r\nDo meu totalmente irrelevante ponto de vista, o Black Sabbath \u00e9 a mais importante de todas as bandas. Mais importante do que eles apenas aquele grupo an\u00f4nimo de homens das cavernas que inventou o pr\u00f3prio conceito de m\u00fasica, conforme nos foi explicado no filme do Mel Brooks. Foi combinando certos ritmos, certas afina\u00e7\u00f5es de guitarra e certos temas que o Sabbath abriu a picada do metal em meio \u00e0 floresta da m\u00fasica el\u00e9trica. Mas, principalmente: Tony Iommi, se n\u00e3o inventou, ao menos amplificou, como ningu\u00e9m havia feito antes ou veio a fazer depois dele, o poder e a majestade do riff. Atrav\u00e9s de seus dedos e de sua imagina\u00e7\u00e3o, o riff tornou-se esplendoroso, m\u00e1gico, um pequeno fragmento que fundia estranheza e \u00eaxtase como se fosse uma nova ci\u00eancia. Como descrever *After Forever*? E *Children of the Grave*? Este elemento b\u00e1sico do rock \u0027n\u0027 roll \u00e9 m\u00e9rito de Tony Iommi sua transforma\u00e7\u00e3o em algo que muitas vezes, na m\u00fasica do Black Sabbath, \u00e9 ainda mais do que a ess\u00eancia de uma can\u00e7\u00e3o: muitas vezes \u00e9 todo um universo em pouqu\u00edssimas notas, glorioso e auto-suficiente. Tudo isso para dizer que muito me entristeceu a morte do Ozzy, o dono da voz desesperada dos melhores discos do Sabbath, mas discordo dos tantos tributos que li nos \u00faltimos dias que associam a grandeza da banda majoritariamente ao seu primeiro cantor. Correndo o risco de soar indelicado (haja vista que, no momento em que escrevo, n\u00e3o faz nem uma semana da morte deste her\u00f3i popular), devo dizer que considero essa avalia\u00e7\u00e3o bastante despropositada... Entendo a como\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 injusta. O que a m\u00fasica do Sabbath tem de mais belo e eterno \u00e9 de autoria de Tony Iommi. Estive escutando repetidamente ao *Sabotage* nos \u00faltimos dias; basta o disco come\u00e7ar, basta aquele in\u00edcio exaltado e descontrolado de *Hole in the Sky* explodir nas caixas de som para compreendermos onde reside a alma da banda. *Sympton of the Universe* decerto n\u00e3o seria a mesma sem a voz torturada de Ozzy, mas tenho plena certeza de que seu riff n\u00e3o deixaria de conferir a imortalidade ao Sabbath fosse outro o vocalista. Muito obrigado por tudo, Ozzy, e descanse em paz! Mas confesso que, antes de pegar um *Blizzard of Ozz* ou um *Bark at the Moon* para escutar, eu ainda prefiro qualquer um dos discos menos c\u00e9lebres do Sabbath nos anos 80 ou 90, um *The Eternal Idol* ou um at\u00e9 mesmo um *Headless Cross*...\r\n\r\n**Celtic Frost - To Mega Therion**\r\n\r\nDo primeiro disco do Black Sabbath (em 1970) at\u00e9 o *Black Metal* do Venom foram 12 anos. Ent\u00e3o as coisas se aceleraram e, tr\u00eas anos depois, o Celtic Frost lan\u00e7a *To Mega Therion*. Em 1985 as porteiras do inferno estavam definitivamente escancaradas. \u00c9 claro que, neste per\u00edodo, sa\u00edram muitos outros discos fundamentais para o g\u00eanero, mas percebo nestes tr\u00eas um caminho espec\u00edfico, o tra\u00e7ado mais arrojado que levaria \u00e0s bandas e sonoridades que mais me interessam: o lado mais art\u00edstico e independente do metal, ouso dizer, feito para nichos e esp\u00edritos afins. Os primeiros \u00e1lbuns do Iron Maiden, do Slayer e do Metallica, todos desta mesma \u00e9poca, contribu\u00edram para o aumento no n\u00edvel de atrocidade deste neg\u00f3cio do capeta chamado heavy metal \u2014 o aumento da agress\u00e3o, do veneno, da velocidade e, claro, da iconografia sat\u00e2nica \u2014, mas coloquemos assim: se eu frequentasse igrejas, *To Mega Therion* seria o alvo preferencial das minhas pragas. Iron Maiden, Slayer e Metallica encontraram seu p\u00fablico na multid\u00e3o de jovens americanos sem futuro, no proletariado ingl\u00eas cheio de rancor para desafogar; os f\u00e3s do Celtic Frost, por outro lado, estes t\u00eam algum outro problema. Estes eu tentaria desesperamente salvar. Porque tem algo de errado com esta m\u00fasica \u2014 quero dizer, algo de muito certo do meu real ponto de vista, o de algu\u00e9m que s\u00f3 entra em igrejas para assistir a concertos de \u00f3rg\u00e3o. As guitarras s\u00e3o insidiosas, parecem um lancha-chamas apontado para o ouvinte; o cantor, Tom G. Warrior, parece sempre prestes a parar de cantar e cair na gargalhada. O restante da banda \u00e9 pura energia man\u00edaca, como que um Mot\u00f6rhead ressurgido no inferno, e n\u00e3o nos esque\u00e7amos das trompas, que d\u00e3o um toque tenebroso e surreal a um punhado de faixas. Se eu tivesse que escolher uma trilha sonora para o momento exato em que vieram abaixo as tais porteiras mencionadas no come\u00e7o deste par\u00e1grafo, seriam estas faixas do Celtic Frost com trompas. \u00c9 tudo malignamente divertido ou vice-versa, mas \u00e9, antes de tudo, an\u00e1rquico e insubmisso, o disco anunciador (para o bem e para o mal) do black metal.\r\n\r\n**Da m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 metal**\r\n\r\nAh, sim, teve tamb\u00e9m. Nossas noites \u00e0 meia luz t\u00eam sido frequentemente encantadas pela voz e pelo piano de Nina Simone, de quem confesso gostar mais da performance ao piano do que da voz, e n\u00e3o me surpreendeu nada ler recentemente que ela nunca quis ser cantora; Nina queria ser pianista cl\u00e1ssica, estudou e treinou para isso, mas, sofrendo preconceitos e sabotagens sucessivas em suas ambi\u00e7\u00f5es \u2014 era, afinal, uma mulher negra nos EUA dos anos 60 \u2014, acabou sobrando-lhe apenas a op\u00e7\u00e3o de cantar e tocar em bares, e t\u00e3o formid\u00e1vel era seu talento que ela acabou se tornando um \u00edcone assim mesmo. Curiosamente, ando tamb\u00e9m escutando bastante ao pianista Friedrich Gulda, personagem em tudo inverso \u00e0 Nina: homem branco austr\u00edaco, foi m\u00fasico erudito quase que a vida toda, mas no fim, de saco cheio das rigorosidades e formalidades da m\u00fasica cl\u00e1ssica, jogou fora o fraque e tornou-se pianista de jazz. Por\u00e9m o Gulda que conhe\u00e7o e amo \u00e9 o pianista cl\u00e1ssico mesmo, principalmente aquele que gravou as sonatas para piano de Mozart. Tenho um box de seis CDs com estas grava\u00e7\u00f5es, e a alegria, meus amigos, digo-lhes que mora nestes discos. Uma vez ao ano, pelo menos, cumpro o ritual de atravessar a maratona completa. Em seus melhores momentos \u2014 no famoso *Rondo alla Turca*, por exemplo \u2014 Gulda parece uma crian\u00e7a esmurrando o piano, em ext\u00e2se, em comunh\u00e3o perfeita com o esp\u00edrito de seu conterr\u00e2neo mais c\u00e9lebre. Saio feliz e renovado da audi\u00e7\u00e3o de cada um destes discos. Suponho que seja, para mim, o que \u00e9 o carnaval para a maioria das pessoas.","post_summary":"Na morte de Ozzy, uma ode a Tony. As almas que eu salvaria. Pianistas frustrados e seus desvios.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Tortura no Inferno*, de Kawanabe Ky\u014dsai, imagem copiada [daqui](https:\/\/pinktentacle.com\/2009\/07\/sketches-of-hell-by-kyosai\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":891,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2025","post_timestamp":"2025-07-10T01:37:30+00:00","url":"Discos_do_mes_Junho_de_2025","post":"O massacre continua. Dos palestinos e dos meus ouvidos \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/span\u003E. Enquanto no Oriente M\u00e9dio a limpeza \u00e9tnica \u00e9 tocada por Benjamin Netanyahu e sua rede global de apoiadores oportunistas e depravados, aqui no cen\u00e1rio dom\u00e9stico os respons\u00e1veis pela gradual aniquila\u00e7\u00e3o dos meus ouvidos atendem pelos nomes de (para citar apenas alguns) Vacuous e Hooded Menace. Os primeiros rec\u00e9m-chegados; estes \u00faltimos velhos conhecidos j\u00e1 mencionados [anteriormente](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Setembro_de_2024). Eu n\u00e3o conhecia o [Vacuous](https:\/\/vacuousdeath.bandcamp.com\/music) at\u00e9 poucos dias atr\u00e1s, mas ao escut\u00e1-los pela primeira vez foi praticamente de imediato que me acamaradei deles. Tamb\u00e9m pudera: *In His Blood* come\u00e7a com um urro primal que remete ao *Left Hand Path* do Entombed, ou seja, s\u00e3o sujeitos bem informados, cultos, gente distinta. Mas, apesar desta refer\u00eancia logo nos segundos iniciais, da\u00ed em diante o disco toma um rumo diferente do tra\u00e7ado pelos lend\u00e1rios suecos: o death metal do Vacuous \u00e9 moderno, soa mais urbano, em muitos momentos pode-se at\u00e9 mesmo dizer que se trata de m\u00fasica agressiva para quem n\u00e3o se identifica com o metal, para quem se constrange com a figura\u00e7\u00e3o fantasiosa do metal. H\u00e1 momentos que lembram um Unsane mais recalcitrante, um Helmet possu\u00eddo, embora os vocais provavelmente afastem o cidad\u00e3o m\u00e9dio que chegou algum dia a gostar destas duas bandas, garantindo assim a sensa\u00e7\u00e3o de exclusividade que tanto prezam os exc\u00eantricos que circulam pelas extremidades do mundo do metal. E mesmo assim, talvez os mais puristas descartem esta banda... Eu, pouco exc\u00eantrico e nada purista, estou adorando. Mais do que o Vacuous devo ter escutado apenas ao *Never Cross the Dead*, minha segunda aquisi\u00e7\u00e3o do Hooded Menace. Que coisa gloriosa! Essa banda \u00e9 uma preciosidade: seus discos exigem ser escutados nos fones de ouvido (e de noite, naturalmente), pois cada pe\u00e7a \u2014 cada segundo de cada faixa \u2014 parece algo bem pensado, executado, caprichado; cada faixa \u00e9 um pequeno universo m\u00f3rbido em si pr\u00f3pria e move-se em uma velocidade estranha e peculiar. S\u00e3o contos de terror cujas contrapartes liter\u00e1rias teriam que vir da pena de Poe ou Lovecraft para serem t\u00e3o bons quanto. Lindo demais. Junho teve tamb\u00e9m tributo aos mestres pioneiros: no pacote em que veio *Never Cross the Dead* veio tamb\u00e9m o *Black Metal* do Venom. Sobre este n\u00e3o \u00e9 preciso que eu escreva nada, afinal, \u00e9 um cl\u00e1ssico que mora l\u00e1 no alto ao lado dos \u00e1lbuns do Jimi Hendrix, do Black Sabbath e outros imortais. O fato de que at\u00e9 outro dia eu n\u00e3o possuia ainda este disco em minha cole\u00e7\u00e3o s\u00f3 pode ser explicado pelas singularidades que regem a forma como compro discos. Quem ainda cultiva esta mania deve entender. Fora do mundo da m\u00fasica invertida, escutei algumas vezes ao novo disco do Turnstile, banda com quem eu j\u00e1 tinha alguma familiaridade, embora n\u00e3o conhecesse sobre eles nada al\u00e9m da m\u00fasica. E ent\u00e3o fui descobrindo. Eles se apresentam como uma banda de harcore \u2014 e seus f\u00e3s certamente gostam de se apresentar como f\u00e3s de uma banda de hardcore. Este novo disco, contudo, claramente pretende lev\u00e1-los um pouco mais longe, e n\u00e3o h\u00e1 problema nisso: *Never Enough* \u00e9 empolgante, \u00e9 bem produzido, \u00e9 cheio de melodia e de guitarras vibrantes e ferozes. \u00c9 m\u00fasica jovem e rebelde para um p\u00fablico jovem que talvez tenha seus rebeldes genu\u00ednos e certamente tem uma maioria de rebeldes de butique. \u00c9 tamb\u00e9m m\u00fasica de uma banda que vende suas can\u00e7\u00f5es para uma rede de junk food norte-americana e se apresenta em programas de audit\u00f3rio da TV daquele pa\u00eds... E com tudo isso meu interesse esvaziou-se, foi s\u00f3 at\u00e9 a p\u00e1gina dois. N\u00e3o digo que o disco \u00e9 ruim (\u00e9 muito bom, na verdade) mas tampouco digo que o Turnstile \u00e9 uma banda para se levar no lado esquerdo do peito. Tenho esse problema com o mundo da cultura de massa ultra-mercantilizada. E tenho tamb\u00e9m minhas contradi\u00e7\u00f5es: o mundo do videogame \u00e9 um mundo que praticamente vive aninhado na cultura de massa, \u00e9 um mundo cujos produtos almejam o \u00eaxito dominante por voca\u00e7\u00e3o, natureza e necessidade. E eu passo algumas horas por semana imerso nesse mundo. N\u00e3o vou perder tentando explicar, vou dizer apenas que a trilha sonora do game *Horizon: Zero Dawn* \u00e9 coisa [bastante fina](https:\/\/horizon.fandom.com\/wiki\/Horizon_Zero_Dawn_(Original_Soundtrack)).\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1\u003C\/b\u003E Absolutamente nenhum paralelo \u00e9 poss\u00edvel entre o assassinato em massa de (mais) um povo pobre de pele escura e meu h\u00e1bito de ouvir m\u00fasica barulhenta. Se fosse uma brincadeira, seria de muito mal gosto. Minha inten\u00e7\u00e3o, explico-me, \u00e9 deixar registrada aqui \u2014 n\u00e3o obstante a total irrelev\u00e2ncia e pouca audi\u00eancia deste blog \u2014 mais uma den\u00fancia do genoc\u00eddio palestino. Que esta tela, desimportante que seja, se junte \u00e0s muitas outras que ficar\u00e3o arquivadas na web para sempre, para que as futuras gera\u00e7\u00f5es tenham registros suficientes para compreender a real dimens\u00e3o do que aconteceu em Gaza, do que n\u00f3s como sociedade permitimos que acontecesse. Coisas tais como estas:\r\n\r\n[\u2018Beyond anything imaginable\u2019: dozens killed at busy Gaza seafront cafe](https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2025\/jul\/01\/the-scenes-were-beyond-anything-imaginable-busy-gaza-seafront-cafe-devastated-by-airstrike)\r\n\r\n[59 dead, 221 wounded as Israeli tanks fire at Gaza food aid site, medics say](https:\/\/www.indiatoday.in\/world\/story\/59-dead-221-wounded-as-israeli-tanks-fire-at-gaza-food-aid-site-medics-say-glbs-2742344-2025-06-18)\r\n\r\n[At least 322 children killed since Israel\u0027s new Gaza offensive, Unicef says](https:\/\/www.bbc.com\/news\/articles\/c0r5827dke1o)\r\n\r\nAdicionado em 11 de julho de 2025: [\r\nIsraeli strike kills at least 10 children queueing for medical treatment in Gaza](https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2025\/jul\/10\/israeli-strike-kills-people-queueing-medical-point-gaza)","post_summary":"S\u00f3 h\u00e1 uma trilha sonora poss\u00edvel para este nosso mundo conflagrado. E n\u00e3o \u00e9 Turnstile (apesar deste novo disco deles ser bem bom).","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.elmundo.es\/internacional\/2023\/10\/10\/65258542e4d4d863228b45a1.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":890,"title":"Heavy metal roundup - Edi\u00e7\u00e3o do come\u00e7o do inverno \u002725","post_timestamp":"2025-06-24T21:47:21+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Edicao_do_comeco_do_inverno_25","post":"Correm os primeiros dias do inverno de 2025, os cobertores e edredons j\u00e1 se amontoam sobre a cama. Adoro a rotina da altern\u00e2ncia das esta\u00e7\u00f5es. Em contrapartida, h\u00e1 muito esquecida vai a \u00e9poca em que, ap\u00f3s suada economia, compr\u00e1vamos um CD e durante os tr\u00eas ou quatro meses seguintes aquele novo disco se transformava em nossa pr\u00f3pria vida. Hoje em dia o melhor que consigo fazer \u00e9 n\u00e3o esquecer dos nomes das melhores bandas que descubro... Espero, particularmente, n\u00e3o esquecer os nomes das duas primeiras que seguem abaixo.\r\n\r\n**Chapel of Disease - ...And as We Have Seen the Storm, We Have Embraced the Eye**\r\n\r\nEste disco claramente n\u00e3o se subscreve na ortodoxia do death metal (ber\u00e7o do Chapel of Disease), n\u00e3o foi feito para agradar aos f\u00e3 da velha guarda, gente por natureza avessa \u00e0 mudan\u00e7as e modernidades. Produ\u00e7\u00e3o cintilante e de primeira, melodias altivas e refinadas, solos meio bluseiros (!)... Um solo que se parece com o Mark Knopfler dos primeiros discos do Dire Straits (!!), logo na primeira faixa. Loucura! Blasf\u00eamia! \u00c9 sensacional.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1464926313\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/chapelofdisease.bandcamp.com\/album\/and-as-we-have-seen-the-storm-we-have-embraced-the-eye\u0022\u003E...And As We Have Seen The Storm, We Have Embraced The Eye by Chapel Of Disease\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Morbus Chron - Sleepers in the Rift**\r\n\r\nEste tem mais chances de agradar \u00e0s tribos mais xiitas por soar tematicamente mais elementar e, no vocal, aquele desespero visceral do Obituary, coisa que consta no card\u00e1pio de quase todo f\u00e3 de death metal. Mas o Morbus Chron n\u00e3o vive de replicar bovinamente os mestres de anteontem: *Red Hook Horror* \u00e9 uma del\u00edcia D-beat enquanto *The Hallucinating Dead* e *Lidless Coffin* s\u00e3o death-doom de primeir\u00edssima, divers\u00e3o pura para quem, como eu, tem o Autopsy em seu altar de bandas favoritas. O esp\u00edrito old school vem principalmente da produ\u00e7\u00e3o e do tom das guitarras, que podem parecer deficientes para quem nasceu depois de 1990, mas \u00e9 assim mesmo. Disca\u00e7o que est\u00e1 a\u00ed desde 2011 e eu, vacil\u00e3o de marca maior, s\u00f3 fui escutar pela primeira vez uns poucos dias atr\u00e1s.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=792972559\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/pulverised.bandcamp.com\/album\/sleepers-in-the-rift\u0022\u003ESleepers In The Rift by Morbus Chron\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Gravel to Grave - Death Racer**\r\n\r\nIsto aqui eu n\u00e3o sei bem como rotular. Digamos que a alegria que sinto escutando a este \u00e1lbum \u00e9 mais ou menos a mesma que os discos do Mot\u00f6rhead injetam em mim: rock \u0027n\u0027 roll an\u00e1rquico e acelerado com reminisc\u00eancias de proto-metal setentista (Judas Priest, Accept), a cereja do bolo ficando a cargo do vocal diab\u00f3lico \u00e0 moda [Spirit Possession](https:\/\/spiritpossession.bandcamp.com\/music), que empresta \u00e0 coisa um qu\u00ea de black metal insolente e folgaz\u00e3o. Se com estas bandas de refer\u00eancia (e com \u0022black metal insolente e folgaz\u00e3o\u0022) eu n\u00e3o lhe convenci a clicar no bot\u00e3o de play abaixo, sinto informar que seu caso est\u00e1 perdido. \r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2621606307\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/dyingvictimsproductions.bandcamp.com\/album\/from-gravel-to-grave\u0022\u003EFrom Gravel to Grave by Death Racer\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Defacement - Duality**\r\n\r\nEu n\u00e3o necessariamente gosto deste disco. Ponho-o para tocar e, sem muita demora, o som passa a desaguar dos ouvidos direto para algum canto perif\u00e9rico do meu c\u00e9rebro. O \u00e1lbum avan\u00e7a, torrencial e inclemente, e, apesar do respiro de alguns \u00f3timos interl\u00fadios instrumentais, pouco a pouco uma satura\u00e7\u00e3o pesada se espalha pelo corpo, os ouvidos ardem, a mente ferve. No fim, apesar da exaust\u00e3o da jornada, reconhe\u00e7o alguns dos m\u00e9ritos e a aud\u00e1cia desta banda, e o efeito sonoro deste vocal (vocal? humano?), sua textura de ventania, de tormenta do apocalipse \u2014 isso \u00e9 verdadeiramente impressionante. Deixo-o aqui indicado para eventuais curiosos(as) e\/ou desocupados(as) que queiram investigar as lonjuras inconceb\u00edveis que o metal contempor\u00e2neo \u00e9 capaz de alcan\u00e7ar.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=993448455\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/defacementofficial.bandcamp.com\/album\/duality\u0022\u003EDuality by Defacement\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":"Chapel of Disease e Morbus Chron. Chapel of Disease e Morbus Chron. Chapel of Disease e Morbus Chron. (Exerc\u00edcio mental para n\u00e3o esquecer estes dois nomes.)","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www1.wdr.de\/fernsehen\/rockpalast\/events\/chapel-of-disease-neunzehn-100.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":889,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2025","post_timestamp":"2025-06-06T21:45:48+00:00","url":"Discos_do_mes_Maio_de_2025","post":"Minhas esparsas anota\u00e7\u00f5es para este post mencionavam apenas discos de bandas de metal, com uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o: [*Time Indefinite*](https:\/\/williamtyler.bandcamp.com\/album\/time-indefinite), de William Tyler. Sobre este anotei que a sonoridade de sonho da faixa *Howling at the Second Moon* \u2014 sonho que transcorre no passado, no interior de velhos casar\u00f5es abandonados, os esp\u00f3lios esquecidos de fam\u00edlias h\u00e1 muito sepultadas \u2014 me lembrou muito os discos de Juliana Barwick, e anotei tamb\u00e9m as palavras \u0022fascinante\u0022 e \u0022assustador\u0022. Espero encontrar tempo, qualquer hora destas, para elaborar melhor do que posso fazer aqui e agora algumas reflex\u00f5es sobre este \u00e1lbum e seu autor. Esta m\u00fasica me atinge em cheio. H\u00e1 algo mais nela; seus ecos, seus ru\u00eddos variados, toda uma camada subjacente parece abrigar mais do que som. H\u00e1 uma experi\u00eancia humana acumulada, algo que talvez alguns reconhe\u00e7am mais, outros menos, sem contar nossas tantas diferentes predisposi\u00e7\u00f5es, por\u00e9m eu apostaria que n\u00e3o h\u00e1 ser humano neste planeta que consiga ficar totalmente indiferente diante desta m\u00fasica, seja l\u00e1 quem for que a escute com verdadeira aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 m\u00fasica que soa como o mundo soa hoje: lindo e ca\u00f3tico, assustador e fascinante. *Time Indefinite* foi a audi\u00e7\u00e3o mesmerizante das \u00faltimas semanas, enquanto a dieta rotineira continua comodamente situada no mundo de faz de conta do metal. A m\u00fasica do capeta continua meu passatempo favorito: tem dias que Dio e Razor impulsionam as horas diurnas de trabalho enquanto Cradle of Filth e Blood Incantation preenchem as noturnas com seus pesadelos t\u00e9tricos e negrume g\u00f3tico. Ronnie James Dio eu escuto sempre, \u00e9 dos meus \u00eddolos mais constantes, adoro os discos de sua carreira solo p\u00f3s-Black Sabbath. S\u00e3o simpl\u00edssimos, at\u00e9 mesmo rasos em termos de ideias e conte\u00fado, mas a voz de Dio e sua intensidade inigual\u00e1vel compensam tudo. Por certo *Sacred Heart* n\u00e3o \u00e9 sua obra-prima, por\u00e9m tenho voltado a ele com frequ\u00eancia, talvez por conta de sua fei\u00e7\u00e3o mais rock \u0027n\u0027 roll, talvez por conta das faixas *Like the Beat of a Heart* e *Hungry for Heaven*. Razor \u00e9 descoberta bem recente: se eu tivesse muitos amigos metaleiros, eu me queixaria com todos eles por nunca terem me recomendado *Evil Invaders*, o maravilhoso segundo disco destes canadenses alucinados. Como meus amigos, em sua maioria, s\u00e3o adultos que ouvem m\u00fasica adulta, n\u00e3o tenho com quem reclamar e nem em quem botar a culpa por s\u00f3 agora, aos 40 e muitos anos, estar descobrindo esta banda, e olha que *Evil Invaders* \u00e9 de 1985. Do Cradle of Filth falo depois. Do Blood Incantation: demorei-me para ouvir *Absolute Elsewhere*, \u00e1lbum que mesmo antes de seu lan\u00e7amento meio que todo mundo j\u00e1 sabia que seria bom, talvez \u00f3timo, qui\u00e7\u00e1 obra-prima. A banda vinha evoluindo fulgurosamente, um disco fant\u00e1stico atr\u00e1s do outro; havia um clima, uma expectativa de que *Absolute Elsewhere* romperia mais algumas barreiras e se revelaria o *magnum opus* do Blood Incantation. Deixei passar o burburinho e vi o \u00e1lbum figurar em quase todas as listas de melhores de 2024, e escutei-o, finalmente, alguns dias atr\u00e1s. *Absolute Elsewhere* n\u00e3o decepciona, mas ainda estou me entendendo com ele. Por vezes tenho a impress\u00e3o de uma jornada fragmentada demais, uma cole\u00e7\u00e3o de riffs e solos fenomenais, e os habituais belos interl\u00fadios, por\u00e9m tudo isso desconectado, como que faltando algo que conduza, de maneira minimamente previs\u00edvel ou compreens\u00edvel, um momento ao outro. Falta uma espinha dorsal? Devo estar me precipitando; provavelmente ela est\u00e1 l\u00e1, a espinha dorsal, e o problema \u00e9 que, arrebatado pela artilharia c\u00f3smica deslumbrante da banda, eu ainda n\u00e3o consegui perceb\u00ea-la. Vejamos se ela me aparece logo mais, hoje \u00e0 noite.","post_summary":"Algumas pessoas, quando querem conforto, comem sorvete ou tomam chocolate quente. Eu escuto aos discos de Ronnie James Dio.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"imagem de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/en.idei.club\/2688-old-house-inside.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":888,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2025","post_timestamp":"2025-05-02T20:49:41+00:00","url":"Discos_do_mes_Abril_de_2025","post":"Fomos ao cinema assistir *Pink Floyd at Pompeii* para ver, na tela grande, aqueles quatro cabeludos na flor da idade reproduzindo a m\u00fasica seminal que inventaram, a m\u00fasica que \u00e9 \u2014 e n\u00e3o temo estar exagerando \u2014 das maiores conquistas do esp\u00edrito humano. Oras, de que outra forma descrever *Echoes* e sua simplicidade assombrosa, sua beleza de abismo? O filme tem alguns efeitos e imagens datados e as entrevistas s\u00e3o acess\u00f3rios dispens\u00e1veis, mas assistir \u00e0 guitarra de David Gilmour e \u00e0 bateria de Nick Mason compensa qualquer estorvo, compensa at\u00e9 mesmo ter de atravessar os corredores de um shopping center para chegar \u00e0 sala de cinema. Nos dias subsequentes, como n\u00e3o poderia deixar de ser, revisitei alguns dos meus discos do Floyd. Sempre tive o *Meddle* como favorito, mas confesso que parte desta predile\u00e7\u00e3o tem o objetivo funcional de me distinguir das multid\u00f5es que t\u00eam o *Dark Side of the Moon* ou o *Wish You Were Here* como favoritos. *Meddle*, na verdade, \u00e9 um disco algo estranho: sua faixa de abertura parece anunciar uma jornada exilerante, uma aventura perigosa. As quatro faixas que se seguem, contudo, s\u00e3o o Pink Floyd mais descansado e pastoril de todos. \u00c9 \u00f3timo, mas \u00e9 esquisito. O final com *Echoes*, a\u00ed sim entramos no territ\u00f3rio da beleza superior, indiz\u00edvel. *Ummagumma* n\u00e3o fica atr\u00e1s em termos de extravag\u00e2ncia, mas de outra categoria \u2014 da categoria *Atom Heart Mother*, digamos. Gosto muito do disco de est\u00fadio (gosto, em especial, de *Grantchester Meadows* e *The Narrow Way*), mas tirei-o da estante em busca do disco ao vivo, em busca de mais uma dose de *Set the Controls for the Heart of the Sun*. N\u00e3o me parece uma vers\u00e3o t\u00e3o boa quanto aquela que assistimos em *Pink Floyd at Pompeii*, mas \u00e9 \u00f3tima mesmo assim. Sempre considerei que o Pink Floyd n\u00e3o tem a estima generalizada que merece, suponho que por culpa do amaldi\u00e7oado r\u00f3tulo \u0022rock progressivo\u0022. Que deixassem isso com o Emerson, Lake \u0026 Palmer e o Magma... Mas eu vinha escutando outras coisas antes da maratona Pink Floyd. Ainda impressionado por uma [audi\u00e7\u00e3o de *Sheer Hellish Miasma*](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Puro_Miasma_Infernal), encarei alguns dos outros \u00e1lbuns de Kevin Drumm, entre eles o *Imperial Distortion*. Neste a mat\u00e9ria-prima n\u00e3o \u00e9 mais a pedra \u00e1spera, a ferocidade bruta de *Sheer Hellish Miasma*: aqui Drumm trabalha mais com a const\u00e2ncia, o sil\u00eancio, o som em forma de vapor, se aproximando deste modo da Pauline e da Eliane mencionadas naquele meu \u00faltimo post, percorrendo as sendas da concentra\u00e7\u00e3o e da devo\u00e7\u00e3o percorridas por estas mestras. E n\u00e3o faz feio \u2014 longe disso. Mas admito que em algum momento da audi\u00e7\u00e3o me desconcentrei com a vontade de escutar novamente \u00e0s *The Disintegration Loops* do William Basinski, esta sim uma obra-prima que nada fica a dever \u00e0s obras-primas de Eliane Radigue e Pauline Oliveros. Vejamos se maio trar\u00e1 nova incurs\u00e3o \u00e0 fantasmagoria sonora de Basinski; com Kevin Drumm, por ora, estou resolvido. Concluo dizendo que em abril escutei Pink Floyd, escutei Kevin Drumm e escutei Deborah Blando. Deborah Blando! Por essa voc\u00ea n\u00e3o esperava, certo? Seu hit radiof\u00f4nico *Innocence* andou se intrometendo em meus pensamentos nos \u00faltimos dias do m\u00eas, resgatado da inf\u00e2ncia n\u00e3o sei por quem ou pelo o qu\u00ea, e a \u00fanica forma que conhe\u00e7o de exorcizar esse tipo de intrus\u00e3o \u00e9 escutar \u00e0 can\u00e7\u00e3o, efetivamente coloc\u00e1-la para tocar, para que seja sugada para fora da cabe\u00e7a. N\u00e3o que fosse t\u00e3o mal prospecto assim; lembro de gostar de uns sinos que tocam na m\u00fasica, uma coisa meio sacr\u00edlega, meio profana, ou pelo menos assim se afigurava na mente do moleque de 12 anos que eu era quando a faixa fez sucesso. Achei, finalmente, o disco que tem *Innocence*, escutei-o. A outra faixa que ficou famosa naquela \u00e9poca, *Decadance Avec Elegance*, eu descarto junto com quase todo o restante do \u00e1lbum, mas n\u00e3o \u00e9 que acabei gostando bastante de uma outra can\u00e7\u00e3o de *A Different Story*? Chama-se *Other People\u0027s Houses*, uma ador\u00e1vel bobagem juvenil que Blando canta com voz sapeca, refr\u00e3o pegajoso, melodia que n\u00e3o se deixa esquecer f\u00e1cil. N\u00e3o sou completamente imune a este tipo de coisa. Se nada mais do que isso, ao menos ajudou a extirpar *Innocence* do meu c\u00e9rebro.","post_summary":"Assisti e escutei Pink Floyd; fiquei com vontade de escutar William Basinski enquanto escutava Kevin Drumm; revisitei 1991 e n\u00e3o foi para escutar ao Nevermind.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":887,"title":"Puro Miasma Infernal","post_timestamp":"2025-04-13T19:48:10+00:00","url":"Puro_Miasma_Infernal","post":"*Sheer Hellish Miasma*, de Kevin Drumm, \u00e9 uma experi\u00eancia desconcertante. Sua primeira metade \u00e9 pura aspereza ruidosa, algo cujo objetivo parece ser nada al\u00e9m de testar os limites da audi\u00e7\u00e3o humana. Est\u00e1 plenamente desculpado quem fizer cara de nojo e sentenciar que isto n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica. Dependendo do dia, talvez valha a pena argumentar que m\u00fasica \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o cultural e como tal sua apar\u00eancia varia no tempo e no espa\u00e7o; talvez teorizar que a arte de Drumm n\u00e3o \u00e9 *apenas* m\u00fasica, mas um excesso de m\u00fasica, uma m\u00fasica hipertrofiada, uma experi\u00eancia sonora que tenta superar o que costuma-se entender por m\u00fasica... Em todo o caso, \u00e9 improv\u00e1vel que esta discuss\u00e3o aconte\u00e7a, afinal, *Sheer Hellish Miasma* n\u00e3o \u00e9 o tipo de coisa que voc\u00ea coloca para tocar na janta de s\u00e1bado \u00e0 noite com os amigos e amigas. Fato \u00e9 que atravessar a primeira parte do disco exige tenacidade. \u00c9 somente a partir de sua segunda metade que come\u00e7a a surgir alguma coisa que, dependendo das aptid\u00f5es e da resist\u00eancia do ouvinte, pode ser entendido como uma recompensa. J\u00e1 habituado \u00e0 (ou desensibilizado pela) flagela\u00e7\u00e3o sonora, o aventureiro que chegou at\u00e9 ali \u2014 \u00e0 terceira faixa, *The Inferno* \u2014 \u00e9 agraciado com alguma varia\u00e7\u00e3o na paisagem, que n\u00e3o deixa de ser opressora, por\u00e9m apresenta-se agora mais evocativa, deixa-se perceber em formas mais n\u00edtidas. Entre mudan\u00e7as de texturas e outras sutilezas, o ouvinte se percebe mais atento: a pedra dura arduamente esculpida come\u00e7a a revelar enfim um n\u00facleo ou ess\u00eancia escondida. Voc\u00ea percebe: h\u00e1 alguma coisa ali. Sempre esteve, talvez. A m\u00e1gica desse tipo de m\u00fasica, quando acontece, \u00e9 assim que acontece: ela n\u00e3o vem sem esfor\u00e7o. Por fim, os 24 minutos de *The Inferno* desembocam na liberta\u00e7\u00e3o de *Cloudy*, um encerramento que se n\u00e3o chega a oferecer algum tipo de racionalidade para o que se passou, ao menos oferece al\u00edvio para as escoria\u00e7\u00f5es acumuladas na jornada. S\u00f3 conv\u00e9m ficar atento aos seus momentos finais. Tenho j\u00e1 alguma viv\u00eancia com este tipo de som e, nas minhas prefer\u00eancias, n\u00e3o chego a colocar Kevin Drumm ao lado de Pauline Oliveros ou \u00c9liane Radigue, duas compositoras que trabalham basicamente com as mesmas formas de Drumm, mas entendo que para quem gosta de ser desafiado por arte sonora radical, *Sheer Hellish Miasma* \u00e9 incontorn\u00e1vel. (E, aventureiros e masoquistas destas paragens, regozijai-vos: saiu h\u00e1 pouco sua [continua\u00e7\u00e3o](https:\/\/erstwhilerecords.bandcamp.com\/album\/sheer-hellish-miasma-ii).)","post_summary":"Uma observa\u00e7\u00e3o sobre Kevin Drumm e seu Sheer Hellish Miasma.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"imagem copiada [aqui](https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/145874475400422709\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":886,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2025","post_timestamp":"2025-04-07T22:06:47+00:00","url":"Discos_do_mes_Marco_de_2025","post":"Genesis: tudo indicava que minha passagem pela vida seria destitu\u00edda de rela\u00e7\u00f5es com esta banda. Tempos atr\u00e1s, durante a \u00e9poca formativa da adolesc\u00eancia em que procuramos conhecer todas as grandes bandas para entender porque s\u00e3o consideradas grandes, escutei a um ou dois discos do Genesis e s\u00f3 me lembro da certeza inequ\u00edvoca da conclus\u00e3o de que aquilo n\u00e3o era para mim. Mas era o Genesis antigo, anos 70. Eu n\u00e3o sabia que havia um Genesis cafona anos 80, um Genesis radiof\u00f4nico, liderado por Phil Collins trajando ternos com ombreiras e mangas arrega\u00e7adas. Um Genesis que \u00e9, decerto, menos honesto do que o Genesis original, contudo, sendo eu um filho dos anos 80... A hist\u00f3ria deu-se assim: escutei na playlist do Spotify de um amigo uma can\u00e7\u00e3o chamada *In Too Deep* e me afei\u00e7oei de imediato pela sua meiguice, sua breguice rom\u00e2ntica e vulner\u00e1vel. Reconheci, evidentemente, a voz de Phil Collins, cujos discos solo n\u00e3o conhe\u00e7o, mas, lembram?, sou um filho dos anos 80 e tive *Another Day in Paradise* e mais dois ou tr\u00eas de seus hits gravados em in\u00fameras fitas cassetes. *In Too Deep* tinha toda a estampa de pertencer a algum trabalho solo de Collins; muito me admirei, portanto, quando logo depois descobri que ela est\u00e1 no tracklist de um \u00e1lbum do Genesis. Chegado em casa, baixei o disco (chama-se *Invisible Touch*) e escutei-o quatro ou cinco vezes \u2014 mais, portanto, do que eu havia escutado Genesis nos 45 anos anteriores da minha vida. N\u00e3o que seja m\u00fasica memor\u00e1vel, n\u00e3o que seja grande arte. \u00c9 pouco mais do que overdose de anos 80 injetada nos ouvidos, o pacote completo de cacoetes de produ\u00e7\u00e3o, de melodias, a celeridade *yuppie* ing\u00eanua e sint\u00e9tica. E Phil Collins. Passada a febre, n\u00e3o sei se voltarei a escutar *Invisible Touch* alguma vez na vida, mas foi divertido. O mundo n\u00e3o nos tem dado descanso, n\u00e3o \u00e9 mesmo? M\u00fasica \u00e9 mais barato do que terapia (como ouvi algu\u00e9m dizer dia desses) e faz menos mal pro f\u00edgado do que vinho (digo eu), e defendo intransigentemente o direito que temos de recorrer ao que tivermos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para sobreviver e seguir em frente com alguma alegria. Serve Genesis; serve Mars Volta: tamb\u00e9m esta uma banda que nunca pensei que me serviria de grande coisa, mas este novo \u00e1lbum, *Lucro sucio; los ojos del vac\u00edo*, \u00e9 sensacional. A extravag\u00e2ncia urgente dos primeiros discos do grupo parece bastante declinada em prol de uma flu\u00eancia e de uma ambi\u00eancia que me atraiu desde a primeira audi\u00e7\u00e3o. \u00c9 um disco meio espacial, meio lis\u00e9rgico; o esp\u00edrito de um Miles Davis descansado ronda algumas can\u00e7\u00f5es. Agora sim o fim do At the Drive-In me parece justificado! N\u00e3o foi, ali\u00e1s, uma faixa casualmente escutada fora de casa o que me levou a escutar *Lucro sucio; los ojos del vac\u00edo*. O que ter\u00e1 sido? Alguma intui\u00e7\u00e3o hiper desenvolvida, presumo. Para finalizar com algo que adoro sem pondera\u00e7\u00f5es e nem ressalvas: sempre coube ao Spy vs. Spy o posto de minha segunda banda australiana favorita, por\u00e9m agora, ap\u00f3s longo e extasiante mergulho em sua generosa discografia, a posi\u00e7\u00e3o foi reconcedida ao Church. \u00c9 impressionante: s\u00e3o quase [30 \u00e1lbuns](https:\/\/www.discogs.com\/artist\/258153-The-Church) e n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico dispens\u00e1vel. \u00c9 mais do que impressionante: s\u00e3o quase todos excepcionais. *A Box of Birds*, por exemplo, \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de covers que n\u00e3o raro superam os originais. N\u00e3o \u00e9 o caso da vers\u00e3o de *Cortez the Killer* (falta, naturalmente, a guitarra de Neil Young), mas ela fecha o disco de maneira emocionante, toda aquela morosidade, a lenta constru\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o, que vai inebriando o ouvinte \u2014 uma linda, linda transcri\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fosse minha banda australiana favorita tamb\u00e9m a [maior de todas as minhas paix\u00f5es musicais](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Historia_resumida_de_uma_paixao) e o Church talvez estivesse no topo deste ranking.","post_summary":"Andei escutando Genesis e Mars Volta. E minha segunda banda australiana favorita n\u00e3o \u00e9 mais o Spy vs. Spy.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"cena do filme *Jungfruk\u00e4llan*, de Ingmar Bergman.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":885,"title":"E por falar em trilhas sonoras","post_timestamp":"2025-03-26T00:04:02+00:00","url":"E_por_falar_em_trilhas_sonoras","post":"Parece at\u00e9 que eu gosto de ser do contra, mas ao menos eu tento me explicar. Vejamos: das obras compostas por Ennio Morricone, n\u00e3o \u00e9 a do filme *Il buono, il brutto, il cattivo* a minha favorita. Seu famoso tema principal \u00e9 compreensivelmente adorado por todo mundo \u2014 toda aquela irrever\u00eancia em perfeita conson\u00e2ncia com o esp\u00edrito an\u00e1rquico e exagerado dos *spaghetti Westerns* \u2014 por\u00e9m o g\u00eanio de Morricone, tenho comigo, se encontra mesmo \u00e9 na m\u00fasica de *C\u0027era una volta il West* (no Brasil, *Era uma Vez no Oeste*). Um pouco mais comedida mas igualmente memor\u00e1vel, \u00e9 aqui que a parceria de Morricone com Sergio Leone rende de fato uma experi\u00eancia que transcende os limites estritos deste tipo de filme, em especial nas passagens orquestrais mais convencionais, que de t\u00e3o bonitas e perfeitamente situadas no drama do filme quase nos fazem esquecer de que tudo aquilo \u00e9, em grande parte, uma com\u00e9dia burlesca, uma grande par\u00f3dia. Um Morricone mais ortodoxo \u00e9 o ponto alto deste filme, mas tamb\u00e9m o Morricone surpreendente e inventivo do anterior d\u00e1 as caras por aqui. Seu vasto arsenal de sonoridades cria quatro personagens inesquec\u00edveis: quando soa a gaita de Harmonica, \u00e9 como se das montanhas que circundam a a\u00e7\u00e3o multid\u00f5es de fantasmas sedentos de vingan\u00e7a estivessem prestes a baixar. O tema de Cheyenne, pelo contr\u00e1rio, tem algo de apropriadamente simpl\u00f3rio e mundano: \u00e9 ele, afinal, quem tenta resguardar Jill na seguran\u00e7a deste plano terreno, apesar da misteriosa atra\u00e7\u00e3o que a personagem de Claudia Cardinale parece sentir pelo plano m\u00edtico-infernal em que se movem Frank e Harmonica (Cheyenne sobre Harmonca: \u0022People like that have something inside, something to do with death\u0022\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E). Do grandioso ao circense, do emocionante ao fanfarr\u00e3o, tem Ennio Morricone de todas as cepas para todos os gostos. No duelo final, Charles Bronson e Henry Fonda se enfrentando \u00e9 um deleite, e mesmo que a gente saiba exatamente qual \u00e9 o destino de Harmonica e qual \u00e9 o de Frank (o filme \u00e9, no fim das contas, uma cr\u00f4nica dos arqu\u00e9tipos do mais arquet\u00edpico dos g\u00eaneros cinematogr\u00e1ficos), o cruzamento de alguns dos temas musicais e seus devidos encerramentos, como se esperassem por este momento decisivo \u2014 toda a m\u00fasica deste prolongado duelo torna-o, ainda que inevitavelmente previs\u00edvel, o mais inesquec\u00edvel de todos os duelos. N\u00e3o acho portanto exagero afirmar que se trata de uma obra tanto de Sergio Leone quanto de Ennio Morricone. Filme e m\u00fasica, no entanto, n\u00e3o encerram com Frank tombado e Harmonica vingado: ouviremos ainda uma vez mais o divertido tema de Cheyenne (no n\u00e3o-t\u00e3o divertido desenlance de sua parte na trama) e, finalmente, o lindo tema de Jill, este sim fechando magistralmente a narrativa, Jill, a imigrante que alimenta e sacia a sede de trabalhadores mexicanos, americanos e ind\u00edgenas, sem distinguir cor e origem daquele gente suada e variada, gente de todas as partes empenhada na constru\u00e7\u00e3o de uma nova esta\u00e7\u00e3o de trem e de um novo pa\u00eds. \u00c0 vista do fato de que tal pa\u00eds hoje, no mundo real fora do cinema, tem pela segunda vez como presidente uma figura t\u00e3o grotesca quanto o Frank fict\u00edcio, m\u00fasica e filme acabam se tornando ainda mais melodram\u00e1ticos, e tamb\u00e9m *mezzo* pat\u00e9ticos. \u00c9 a ess\u00eancia dos *spaghetti Westerns*, mas o mundo real n\u00e3o precisava real\u00e7ar isto de modo assim t\u00e3o ostensivo.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1:\u003C\/b\u003E Cheyenne ap\u00f3s beber um caf\u00e9 feito por Jill: \u0022My mother used to make coffee this way: hot, strong and good\u0022. Esse quote n\u00e3o tem nada a ver com o que escrevo aqui, mas preciso deix\u00e1-lo mencionado pois adoro a frase e a enuncia\u00e7\u00e3o de Jason Robards. [\u21a9](#a1)","post_summary":"Do grandioso ao circense, do emocionante ao fanfarr\u00e3o: na trilha de \u0022C\u0027era una volta il West\u0022, tem Ennio Morricone de todas as cepas para todos os gostos.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"imagem copiada [daqui](https:\/\/www.stephens-movie-guide.co.uk\/Film_Reviews_0-9_A-Z\/O\/once_upon_a_time_in_the_west.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":884,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2025","post_timestamp":"2025-03-07T18:02:39+00:00","url":"Discos_do_mes_Fevereiro_de_2025","post":"S\u00e3o poucos os compositores de trilhas-sonoras cujas obras para o cinema eu gosto de ouvir individualmente, como \u00e1lbuns musicais mesmo, desacompanhadas dos filmes. Basil Poledouris (*Conan the Barbarian*, *Robocop*) \u00e9 um deles; Jerry Goldsmith (*First Blood*, *Gremlins*, *Poltergeist*), outro. A grande maioria, contudo, acaba se revelando bem aborrecida quando voc\u00ea encara a audi\u00e7\u00e3o de suas obras desatreladas dos filmes. Mesmo algu\u00e9m do porte de um John Williams: \u00e9 evidente que o tema do tubar\u00e3o prestes a arrancar a perna de algu\u00e9m e o tema do Darth Vader prestes a fazer seja l\u00e1 o que for que ele fazia (eu sempre esque\u00e7o as tramas dos filmes da s\u00e9rie *Star Wars* cinco minutos depois de t\u00ea-los assistido) s\u00e3o merecidamente ic\u00f4nicos e celebrados, mas as ocasi\u00f5es em que experimentei escutar algumas de suas trilhas completas sempre me deixaram com a sensa\u00e7\u00e3o de que faltou muito f\u00f4lego \u00e0 Willians para comp\u00f4r algo que permanecesse interessante por mais do que cinco minutos. Em geral as su\u00edtes se perdem em varia\u00e7\u00f5es apressadas, os cortes abruptos que viraram clich\u00eas em filmes de a\u00e7\u00e3o\/aventura, e aqueles trechos mais lentos e suaves que parecem obrigat\u00f3rios \u00e0 certa altura da exibi\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos no fim do filme. \u00c9 como se o talento desses caras para criar um trecho ou vinheta inesquec\u00edvel fosse proporcionalmente inverso ao talento necess\u00e1rio para uma obra mais longa e sustentada... Mas estou aqui para falar do que gosto, n\u00e3o do que n\u00e3o gosto: outro compositor que admiro, esse um pouco menos famoso, chama-se Mark Isham. Dias atr\u00e1s revi um dos meus filmes marcantes da inf\u00e2ncia, *Never Cry Wolf*, e voltei a escutar a linda trilha-sonora assinada por Isham, que mescla orquestra\u00e7\u00e3o tradicional mais abreviada (poucos instrumentos) e sintetizadores. \u00c9 verdade que a coisa toda n\u00e3o chega a 25 minutos, mas mesmo que ela fosse estendida atrav\u00e9s da simples repeti\u00e7\u00e3o das mesmas ideias, ainda assim ela teria minha admira\u00e7\u00e3o e carinho. \u00c9 uma fraqueza j\u00e1 diversas vezes admitida por aqui: m\u00fasica de vi\u00e9s New Age ecol\u00f3gica, m\u00fasica que acaricia alguma parte antiga das minhas mem\u00f3rias. A New Age foi o som da humanidade em seu ponto m\u00e1ximo de ingenuidade, quando o futuro parecia promissor e tend\u00edamos a pensar que tudo daria muito certo. Tudo tem dado muito errado, ao que parece, mas a culpa n\u00e3o \u00e9 da New Age. (Tamb\u00e9m em fevereiro revi outro filme querido da inf\u00e2ncia, *Point Break*, tamb\u00e9m este musicado por Isham. Mas esta trilha \u00e9 mais gen\u00e9rica, afetada talvez pela qualidade do filme, cujos di\u00e1logos s\u00e3o mais sofr\u00edveis do que a m\u00e9dia dos blockbusters hollywoodianos: h\u00e1 uma conversa entre dois personagens em que um explica ao outro a origem do apelido \u0022Bodhi\u0022 do personagem de Patrick Swayze, cena esta que me fez sentir um constrangimento t\u00e3o profundo que, terminado o filme, temi n\u00e3o conseguir olhar ningu\u00e9m nos olhos durante uma semana.) De resto, minhas audi\u00e7\u00f5es em fevereiro foram variadas, desconectadas, em sintonia ca\u00f3tica com a transi\u00e7\u00e3o entre f\u00e9rias e trabalho em que eu me encontrava: escutei ao dub dos Upsetters, ao metal anabolizado do Power Trip, ao rock ingl\u00eas do Pulp (eu me lembrava desta banda como uma das poucas que eu tolerava do brit-pop, mas agora acho que nem isso). Thelonious Monk nos fez suas habituais visitas norturnas e [aquele disco da Tara Jane O\u0027Neil](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Setembro_de_2024) continua em alta rota\u00e7\u00e3o aqui em casa. Mas com aten\u00e7\u00e3o mesmo, al\u00e9m de Isham, escutei ao formid\u00e1vel EP *Lifeline* do Jesu \u2014 cuja faixa *Storm Comin\u0027 On* continua exercendo estranho fasc\u00ednio sobre mim \u2014 e principalmente \u00e0 obra-prima *E2-E4* de Manuel G\u00f6ttsching. Que m\u00fasica fascinante construiu G\u00f6ttsching, ex-l\u00edder do Ash Ra Tempel. Eu j\u00e1 tinha escutado a este \u00e1lbum algumas vezes antes, mas somente agora compreendi o motivo da venera\u00e7\u00e3o que tantos lhe dedicam. N\u00e3o tem jeito: certos discos precisam ser ouvidos com fones de ouvido, o mundo externo bloqueado e a aten\u00e7\u00e3o 100% dedicada. Voc\u00ea deve permitir que a m\u00fasica lhe cerque e se transforme em sua realidade \u00fanica e total. Com *E2-E4*, G\u00f6ttsching construiu uma das tramas mais envolventes que j\u00e1 tive a sorte de escutar: a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 muito exigente, como a de seus herdeiros Aphex Twin e Autrechre; o esteio eletr\u00f4nico \u00e9 b\u00e1sico e as figuras m\u00e9lodicas que v\u00e3o surgindo s\u00e3o igualmente simples e hipn\u00f3ticas. \u00c9 assim, sem grandes alardes, que o ritmo e a flu\u00eancia da pe\u00e7a capturam o ouvinte e o deixam em repouso e encantamento. Mais adiante, o solo de guitarra com que G\u00f6ttsching preenche a segunda metade da composi\u00e7\u00e3o, meio blues, meio jazz, introduz algo de mais calor humano, por\u00e9m ao mesmo tempo perfeitamente integrado \u00e0s texturas eletr\u00f4nicas, o que me parece um feito pioneiro e ainda hoje n\u00e3o superado. \u00c9 Terry Riley com um toque de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica; \u00e9 m\u00fasica aventureira mas tamb\u00e9m descomplicada. \u00c9 muito pr\u00f3ximo da sublimidade que aspiram todos os maiores artistas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Manuel G\u00f6ttsching e sua \u0022banda\u0022 em foto de autor desconhecido, copiada [aqui](https:\/\/www.loudandquiet.com\/interview\/the-story-of-e2-e4-manuel-gottschings-accidental-masterpiece\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":883,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2025","post_timestamp":"2025-02-02T20:52:05+00:00","url":"Discos_do_mes_Janeiro_de_2025","post":"**Mad Season - Above**\r\n\r\n*Wake Up*, a faixa que abre o disco \u00fanico do Mad Season, faz parte de um seleto grupo de 10 ou 15 que costumam frequentemente tocar sozinhas em minha cabe\u00e7a, como que vindas do nada, em momentos aleat\u00f3rios. (\u00c9 s\u00f3 comigo que acontece isso? Espero que n\u00e3o.) \u00c9 aquela introdu\u00e7\u00e3o de baixo, compassada e vagarosa, quase que se apagando: aqueles poucos e hipn\u00f3ticos segundos, desde que os escutei pela primeira vez, encontraram t\u00e3o perfeita resson\u00e2ncia com alguma particularidade do meu sistema neurol\u00f3gico que ali eles resolveram se abrigar em definitivo, emergindo vez ou outra em meus pensamentos sem que nada externo tenha me levado a isso, ou pelo menos nada consciente, ou pelo menos assim me parece. O que vem na sequ\u00eancia das notas de abertura n\u00e3o diminui a can\u00e7\u00e3o, pelo contr\u00e1rio: cada palavra pronunciada por Layne Staley \u00e9 de arrepiar, cada entona\u00e7\u00e3o parece ser seu melhor momento como cantor, e cada segundo de *Wake Up*, no fim das contas, \u00e9 sublime. Sem denegrir a banda, *Wake Up* soa at\u00e9 destacada daquela \u00e9poca e daqueles artistas, como que feita da mat\u00e9ria b\u00e1sica que costuma conferir perenidade aos g\u00eanios, e poderia constar, com algumas diferen\u00e7as instrumentais, em um disco de Miles Davis (algo me remete ao tom do *Kind of Blue*), ou do Doors (Ray Manzarek perceberia a majestade da can\u00e7\u00e3o e reduziria a participa\u00e7\u00e3o de seu teclado ao m\u00ednimo) ou do Led Zeppelin (quando Robert Plant cantasse \u0022for little peace from God you plead\u0022 o estrondo por tr\u00e1s seria mais espetacular). Outras faixas justificam o prest\u00edgio deste \u00e1lbum, mas *Wake Up* habita outra esfera. O curioso \u00e9 que, apesar desta minha intimidade toda com *Above*, \u00e9 bem raro eu o retirar da estante para escut\u00e1-lo de fato. Mas em janeiro o fiz algumas vezes, e decidi que a partir de agora o farei mais ami\u00fade.\r\n\r\n**Joona Toivanen Trio - Gravity**\r\n\r\n[Este disco](https:\/\/wejazzrecords.bandcamp.com\/album\/gravity) acaba de inaugurar minha lista de melhores \u00e1lbuns de 2025, e n\u00e3o me espantarei se, daqui a onze meses, ele ainda estiver por l\u00e1. O jazz da Europa do norte, conforme propagado principalmente pelo selo alem\u00e3o ECM, n\u00e3o costuma me interessar muito: tenho a impress\u00e3o de que existe em torno dele uma economia meio for\u00e7ada (n\u00e3o d\u00e1 de chamar de hype ou moda, dado se tratar de um nicho), baseada mais em apar\u00eancias \u2014 a m\u00edstica da penumbra nevada finlandesa, das paisagens suecas minimalistas exibidas nas capas dos \u00e1lbuns etc. \u2014 do que em demanda genu\u00edna por uma m\u00fasica que, ao fim e ao cabo, pouco entrega em termos daquilo que vai prometido nesta aura n\u00f3rdica e suas imagens. Em resumo: algo dirigido, artificial. Mas pode ser m\u00e1-vontade minha; pode ser que signifique alguma coisa o fato de que eu, adolescente, brigava com os amigos no col\u00e9gio dizendo que *Rocky* era um filme racista pois mostrava um boxeador branco triunfando entre os negros, que sempre foram os campe\u00f5es... Enfim, concedo que este *Gravity* \u00e9 excepcional, com muitos elementos sonoros que me atraem: o piano \u00e9 abafado, introspectivo; o contrabaixo se parece com as batidas de um cora\u00e7\u00e3o descompassado, procurando por um caminho e uma paz; o clima \u00e9 invernal, recolhido, com tumultos pontuais, pois se a vida fosse s\u00f3 recolhimento e tranquilidade a gente nem saberia ent\u00e3o o que \u00e9 recolhimento e tranquilidade. Se o jazz n\u00f3rdico fosse sempre assim, eu gostava mais. Os mestres continuam sendo os americanos e os poloneses (que n\u00e3o s\u00e3o negros, mas definitivamente n\u00e3o s\u00e3o escandinavos), mas Joona Toivanen \u2014 que n\u00e3o \u00e9 uma mulher, \u00e9 um finland\u00eas que se parece muito com o pianista escoc\u00eas Steve Osborne \u2014 ganhou meu respeito e admira\u00e7\u00e3o e vou tentar escutar aos seus outros discos.\r\n\r\n**Godflesh - Purge**\r\n\r\nEu pretendia continuar e intensificar um movimento que come\u00e7ou naturalmente em fins do ano passado, o de variar mais minha dieta musical e escutar menos metal. Aparentemente, esqueci de combinar isso com o metal. Pois em meados de janeiro ele voltou a se infiltrar em minha vida, insidioso, as capas dos discos se avolumando diante de mim, exigindo aten\u00e7\u00e3o. Cedi. Tudo bem, acho que estou seguro em minha posi\u00e7\u00e3o de adulto funcional (mais ou menos) a despeito do gosto por este tipo de m\u00fasica primitiva, em muitos casos totalmente infantil. Por\u00e9m \u00e9 de se pensar o caso espec\u00edfico do Godflesh, uma banda que at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s eu decididamente n\u00e3o gostava e me sentia mal ouvindo, sentia-me como que atravessando uma sess\u00e3o de tortura nos escombros de uma cidade arruinada. Aos poucos, contudo, a vis\u00e3o de Justin Broadrick (que esteve no Napalm Death e est\u00e1 tamb\u00e9m no Jesu, duas outras bandas que adoro) come\u00e7ou a me atrair, passei a apreciar aspectos da atmosfera opressiva e claustrof\u00f3bica de seus discos, a produ\u00e7\u00e3o que cria algo que vai al\u00e9m do som, um ambiente que quase se pode tocar com as m\u00e3os. Que empurrar\u00edamos para longe, se fosse realmente o caso, mas sendo apenas som, \u00e9 um prazer (talvez m\u00f3rbido, talvez s\u00e1dico) que pouqu\u00edssimas outras bandas sabem propiciar. \u00c9 inofensivo, desde que voc\u00ea mantenha o volume em n\u00edveis m\u00e9dios. E n\u00e3o escute muito repetidamente. E n\u00e3o tenha tend\u00eancias suicidas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Finl\u00e2ndia em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.forbes.com\/sites\/davidnikel\/2022\/02\/17\/5-reasons-to-visit-finland-the-worlds-happiest-country\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":882,"title":"Melhores discos de 2024","post_timestamp":"2025-01-06T20:29:54+00:00","url":"Melhores_discos_de_2024","post":"O disco inaugurador desta lista foi o *Invincible Shield* do Judas Priest, e ele acabou ficando de fora da vers\u00e3o final que segue abaixo. Talvez isto simbolize o movimento que foi se desenrolando ao longo do ano: muito metal, metal pra caramba, por\u00e9m, nos meses finais de 2024, fui gradualmente desmetalizando-me e deslizando em dire\u00e7\u00e3o ao jazz, \u00e0 m\u00fasica ac\u00fastica e outras paisagens sonoras mais tranquilas. E ainda assim o metal predomina na lista. Confesso que tento dar certa forma a este rol de \u00e1lbuns, aparando aqui e moldando ali, para que ele exiba um pouco de todas as minhas prefer\u00eancias, ou pelo menos das que se manifestaram de forma mais frequente ao longo do ano. M\u00fasica cl\u00e1ssica t\u00eam perdido espa\u00e7o, como parece estar claro, embora seja mais uma quest\u00e3o de n\u00e3o ouvir tantos discos novos; os velhos discos dos meus pianistas favoritos continuam sendo companhias noturnas frequentes. No todo, meus \u00e1lbuns favoritos dentre os favoritos talvez sejam dois mencionados no \u00faltimo [\u0022Discos do m\u00eas\u0022](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Dezembro_de_2024), posto que descobertos e escutados intensamente em dezembro: *The Way Out of Easy* do Jeff Parker ETA IVtet e *To The Rising Moon* de Stephan Micus. Mas o *Umbilical* do Thou \u00e9 estonteante. Ele fica com o pr\u00eamio na categoria \u0022m\u00fasica pesada\u0022. E s\u00e3o tantos os potenciais favoritos n\u00e3o escutados ainda! Pearl Jam, Blood Incantation, Jesus Lizard, Godspeed You Black Emperor, Cure... Tenho visto este novo do Cure em muitas listas alheias, mas eu n\u00e3o consigo me acostumar com a ideia de um disco do Cure em 2024, n\u00e3o consigo imaginar Robert Smith com 65 anos e aquela pintura no rosto, como se ele quisesse nos fazer crer que ainda estamos em 1983, tudo igual e congelado, a vida n\u00e3o mudou, os problemas n\u00e3o s\u00e3o outros. Acho algo meio pat\u00e9tico. O que mais posso dizer sobre minha lista? Foi triste n\u00e3o ter achado espa\u00e7o para o disco do Jerry Cantrell, gostei muito dele e foi das audi\u00e7\u00f5es que mais vezes repeti nos \u00faltimos meses. O novo disco do Shabaka ficou numa disputa com o *Skull Dream* de Dave Harrington (sobre quem n\u00e3o sei absolutamente nada) e acabei deixando Harrington pois alguma coisa me cativa muito neste disco, uma calma sinistra, uma letargia reptiliana. O disco da Chelsea Wolfe, puxa vida: se o ano j\u00e1 n\u00e3o tivesse virado, talvez ele acabasse por aqui. Lembro de n\u00e3o ter achado grande coisa ap\u00f3s a primeira audi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m ele deixou um eco em minha cabe\u00e7a, ou um chamado, do tipo que a experi\u00eancia j\u00e1 me ensinou a n\u00e3o desprezar. Bingo: a cada audi\u00e7\u00e3o o disco cresce, cava uma impress\u00e3o mais profunda. S\u00e3o muitos anos ouvindo m\u00fasica atentamente, alguma coisa devo ter aprendido. Quem ainda n\u00e3o formou uma intui\u00e7\u00e3o apurada deste tipo, sugiro come\u00e7ar n\u00e3o dando bola para as recomenda\u00e7\u00f5es do Spotify. Eles t\u00eam outras inten\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o s\u00e3o nada boas. Experimentem o que os amigos e amigas que verdadeiramente gostam de m\u00fasica escutam e sugerem que voc\u00ea tamb\u00e9m ou\u00e7a. Este amigo aqui se despede desejando a todos um \u00f3timo 2025.\r\n\r\n- Amaro Freitas - Y\u2019Y\r\n- Big|Brave - A Chaos Of Flowers\r\n- Chat Pile - Cool World\r\n- Darkthrone - It Beckons Us All\r\n- Dave Harrington - Skull Dream\r\n- Giovanni di Domenico, Pak Yan Lau \u0026 John Also Bennett - Tidal Perspectives\r\n- Jeff Parker ETA IVtet - The Way Out of Easy\r\n- Moor Mother - The Great Bailout\r\n- Oranssi Pazuzu - Muuntautuja\r\n- Sarah Davachi - The Head as Form\u0027d in the Crier\u0027s Choir\r\n- Stephan Micus - To The Rising Moon\r\n- Tara Jane O\u0027Neil - The Cool Cloud Of Okayness\r\n- Thou - Umbilical\r\n- Tribulation - Sub Rosa In \u00c6ternum","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Vista de Arkona com a lua nascendo*, de Caspar David Friedrich, copiada [daqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Caspar_David_Friedrich_-_Blick_auf_Arkona_mit_aufgehendem_Mond.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":881,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2024","post_timestamp":"2025-01-01T13:49:23+00:00","url":"Discos_do_mes_Dezembro_de_2024","post":"**Stephan Micus - To the Rising Moon**\r\n\r\nEsse disco \u00e9 bonito que d\u00f3i. Tudo nele soa antigo e ancestral. \u00c9 m\u00fasica da gente de outro tempo, da gente mi\u00fada esgotada pela labuta excessiva e pela vida dif\u00edcil, sim, mas que pelo menos ainda contava com o conforto da noite, da fogueira, da interioridade. \u00c9 f\u00e1cil imagin\u00e1-los assim, juntos e ao mesmo tempo imersos em seus cansa\u00e7os, vozes e viol\u00f5es expressando suas prova\u00e7\u00f5es di\u00e1rias, suas esperan\u00e7as vestigiais, seus sonhos de cor s\u00e9pia. Gente com a pele vincada e marcada pelos elementos, por\u00e9m ainda donos de si, cultivadores de sua subjetividade, de sua arte e sua cultura, gente anterior ao sequestro promovido pelas redes sociais e ao saque totalizante do capital. Gente que talvez continue existindo em pequenas comunidades espalhadas em montanhas perdidas pelo mundo afora?\r\n\r\n**Church - Heyday**\r\n\r\nSe eu fizesse resolu\u00e7\u00f5es de ano novo, entre elas estaria escutar mais frequentemente ao discos do Church (e de muitas outras bandas, mas prioritariamente do Church). Adoro estes australianos h\u00e1 muito tempo, por\u00e9m s\u00e3o raras as ocasi\u00f5es em que a m\u00fasica deles preenche nossos aposentos. Por que ser\u00e1? Talvez n\u00e3o tenham uma marca distinta que faz com que eu me lembre imediatamente deles quando come\u00e7o a pensar na m\u00fasica que quero escutar, aqui e ali ao longo dos meus dias? O Church \u00e9 vagamente psicod\u00e9lico; vagamente post-punk; vagamente similar ao U2... \u00c9 vagamente muitas coisas, e acentuadamente quase nada. Sequer plenamente australianos eles parecem ser. Por\u00e9m nada disso \u00e9 preju\u00edzo \u00e0 banda: seus discos s\u00e3o plenamente excepcionais, todas essas vaguezas contribuindo para um som que flutua gentil, em um ritmo pr\u00f3prio que parece atravessar todas as faixas, um entorpecimento. Perfeito para estes ver\u00f5es em que n\u00e3o sou mais jovem mas tampouco me sinto velho.\r\n\r\n**Jeff Parker ETA IVtet - The Way Out of Easy**\r\n\r\nOs (tamb\u00e9m australianos) Necks lan\u00e7aram um lindo disco este ano, *Bleed*, que esteve por muito tempo em minha lista de favoritos de 2024. Nestes \u00faltimos momentos do ano, contudo, ando me debatendo com a dif\u00edcil decis\u00e3o de qual disco retirar desta lista para poder alojar [*The Way Out of Easy*](https:\/\/intlanthem.bandcamp.com\/album\/the-way-out-of-easy), que n\u00e3o pode de maneira alguma ficar de fora, e acho que infelizmente ter\u00e1 de ser o do Necks. Que crueldade (divertida) fazer esta lista: j\u00e1 s\u00e3o muitos os  \u00f3timos \u00e1lbuns que removi para colocar outros melhores... E ainda terei que decidir como fazer com o \u00faltimo disco do Shabakka, que tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 me parecendo nada justo que fique de fora. Mas *The Way Out of Easy* vai ficar na lista final, seguramente. \u00c9 um disco bonito demais, venho escutando-o seguidamente nestes \u00faltimos dias do ano, quando enfim me permito algum descanso, algum alheamento ao mundo. Meus ver\u00f5es costumam pedir Led Zeppelin e Midnight Oil, mas tenho a impress\u00e3o de que \u00e9 sempre nesta \u00e9poca (festiva para a maioria; mais de recolhimento para mim) que costumo descobrir o que de melhor foi lan\u00e7ado em termos de jazz ao longo do ano que termina, como se inconscientemente eu deixasse essa tarefa sempre para o fim pois s\u00e3o estes os \u00e1lbuns que fornecem as melhores restaura\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito. Lembro muito bem de que assim foi com [*A Cosmic Rhythm with Each Stroke*](https:\/\/www.discogs.com\/release\/8236143-Vijay-Iyer-Wadada-Leo-Smith-A-Cosmic-Rhythm-With-Each-Stroke) no long\u00edquo ano de 2016 e depois, mais recentemente, com [*Afrikan Culture*](https:\/\/www.discogs.com\/master\/2881366-Shabaka-Afrikan-Culture) (2022). Nos derradeiros dias de 2024 \u00e9 *The Way Out of Easy* quem mais me tem feito boa companhia e me ajudado no reencontro com certo antigo eu, um que costumava ter prefer\u00eancia pela lentid\u00e3o e pela err\u00e2ncia. A m\u00fasica \u00e9 t\u00e3o assim, t\u00e3o voltada para dentro e t\u00e3o acolhedora em seu vagar demorado que ningu\u00e9m pode sen\u00e3o concordar que n\u00e3o h\u00e1 absolutamente nada de errado nisso, em ser meio lento e meio vagamundo. Sabe-se l\u00e1 o que vem a seguir, o que nos espera em 2025, mas aqui de onde estou, nestes \u00faltimos dias de 2024, a companhia de Shabaka, Jeff Parker e Church t\u00eam sido um conforto e um deleite e parece pressagiar enfim um ano menos cansativo e frustrante.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"o quarteto de Jeff Parker em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/jeffparkersounds.com).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":880,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2024","post_timestamp":"2024-12-03T12:55:02+00:00","url":"Discos_do_mes_Novembro_de_2024","post":"Existem as bandas boas, as \u00f3timas, as raras especiais, e existiu o Nirvana. \u00c9 isso, n\u00e3o? Ou ser\u00e1 esta opini\u00e3o o sintoma de que acabo de avan\u00e7ar mais uma casa na jornada do saudosismo e da velhice? N\u00e3o, acho que \u00e9 isso mesmo. *In Utero* nos imp\u00f5e esta conclus\u00e3o com a for\u00e7a e a aspereza de seus 12 cl\u00e1ssicos irretoc\u00e1veis. N\u00e3o vejo o derradeiro disco do Nirvana como uma evolu\u00e7\u00e3o assombrosa (como foram os \u00faltimos discos do Talk Talk, por exemplo, que precisou at\u00e9 mesmo encerrar sua exist\u00eancia como banda ap\u00f3s o *Laughing Stock* por simplesmente n\u00e3o haver mais o que pudessem fazer ou para onde pudessem evoluir); para mim, *In Utero* \u00e9 mais do mesmo, mas ainda mais fresco e melhor, e isto ganha significado quando lembramos qual disco veio antes. Se a banda tivesse tido continuidade, acredito que eles teriam gravado mais dois ou tr\u00eas \u00e1lbuns formid\u00e1veis e a\u00ed sim, efetivamente *bored and old*, pediriam a conta e passariam a r\u00e9gua. Teria havido tempo para dilu\u00edrem toda aquela flama e energia em uma discografia um pouco mais ampla, e cada \u00e1lbum receberia sua quota de amor e de destrato, de favoritismos e de desd\u00e9m, tudo mais bem distribu\u00eddo no tempo e no espa\u00e7o... Tendo sido como foi, coube ao *In Utero* receber todo o peso do mundo, e o tempo passou, e o peso n\u00e3o vergou o disco, que ganhou at\u00e9 mesmo uma camada extra de beleza dura e glacial, calcificada pelos fervores de nossa paix\u00e3o pela banda e da tristeza pelo seu traum\u00e1tico fim. Houve bandas longevas, houve bandas fulgurantes e houve o Nirvana. Mas novembro talvez tenha sido o primeiro em muitos meses em que percebi uma invers\u00e3o no equil\u00edbrio da m\u00fasica que escuto cotidianamente: do predom\u00ednio do death metal e de outras linhagens de rock \u0027n\u0027 roll bomb\u00e1stico para uma prefer\u00eancia por sons mais quietos e ac\u00fasticos, passando at\u00e9 pelo retorno \u00e0s pe\u00e7as de m\u00fasica antiga de c\u00e2mara. Sim, foi inevit\u00e1vel retirar o ac\u00fastico do Nirvana da estante, mas escutei principalmente ao discos de Meg Baird e aqueles menos el\u00e9tricos de Steve Gunn. Estes dois artistas me atraem pela perfeitamente consumada mundanidade de suas m\u00fasicas, conjuntos de can\u00e7\u00f5es que somente os cada vez mais raros esp\u00edritos que sabem observar em sil\u00eancio ao mundo ao seu redor s\u00e3o capazes de criar. (N\u00e3o foi surpresa alguma quando, dia desses, descobri que eles j\u00e1 colaboraram em alguns projetos: a afina\u00e7\u00e3o de seus estilos e personalidades \u00e9 muito \u00f3bvia.) Acho at\u00e9 que ouvi algumas boas doses de metal nas \u00faltimas semanas, mas n\u00e3o me lembro de quase nada disso; do que mais me recordo agora foram muitas boas horas na companhia da m\u00fasica serena e reconfortante de Meg e Steve. Sim, parecem ares de mudan\u00e7a... Vejamos o que mais dezembro nos traz al\u00e9m do ver\u00e3o e do fim do ano.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"tela de Paulo Gaiad (t\u00edtulo desconhecido).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":879,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2024","post_timestamp":"2024-11-01T19:36:55+00:00","url":"Discos_do_mes_Outubro_de_2024","post":"H\u00e1 de ter sido um dia singular aquele em que, em um intervalo de poucas horas, escutei dois discos que acabaram imediatamente inscritos em minha lista de melhores do ano. Ser\u00e1 um problema s\u00e9rio, nas pr\u00f3ximas semanas, arrumar esta lista. Do nada nos aparece um [novo disco do Thaw](https:\/\/agoniarecords.bandcamp.com\/album\/fading-backwards): escuto-o no exato momento da escrita deste texto e o desgra\u00e7ado \u00e9 bom demais, me for\u00e7ar\u00e1 a desalojar algum outro da lista vers\u00e3o 0.1 que j\u00e1 tenho pronta. E pensar que n\u00e3o escutei ainda ao novo Blood Incantation; e pensar que o [novo Tribulation](https:\/\/centurymedia.bandcamp.com\/album\/sub-rosa-in-ternum-24-bit-hd-audio) chega nos pr\u00f3ximos dias. Mas se tem algo que aprendi nestes \u00faltimos tempos \u00e9 n\u00e3o me preocupar antecipadamente com os problemas do amanh\u00e3, afinal, o amanh\u00e3 \u00e9 uma hip\u00f3tese e nada mais. Os dois discos mencionados no princ\u00edpio s\u00e3o os do Chat Pile e o do Oranssi Pazuzu, [*Cool World*](https:\/\/chatpile.bandcamp.com\/album\/cool-world) e [*Muuntautuja*](https:\/\/oranssipazuzu.bandcamp.com\/album\/muuntautuja) respectivamente. Oranssi Pazuzu \u00e9 paix\u00e3o ardente aqui em casa e seu novo disco estava destinado a estar em minha lista de favoritos de 2024, por\u00e9m tenho voltado mais frequentemente ao Chat Pile, que fornece trilha-sonora mais condizente com os dias atuais, se trilha-sonora condizente com os dias atuais \u00e9 algo que se possa almejar. \u00c9 aquela mesma sensa\u00e7\u00e3o que os discos do Eyehategod me proporcionam: o som \u00e1spero de um mundo fraturado, fracassado, de ilus\u00f5es irrecuper\u00e1veis, e, na melhor das hip\u00f3teses, uma forma de aprendermos a lidar com isso. O que o Oranssi Pazuzu nos oferece \u00e9 o ant\u00eddoto cl\u00e1ssico: devaneio e escapismo. Cada \u00e1lbum destes finlandeses \u00e9 uma aventura nova e extraordin\u00e1ria e se parece, cada qual em seu tempo, com um \u00e1pice arduamente alcan\u00e7ado e imposs\u00edvel de ser superado. Apenas para ser superado no \u00e1lbum seguinte. Um fen\u00f4meno. E foi de fato um m\u00eas intenso: teve ainda a grande surpresa do novo disco do Jerry Cantrell. Nenhum dos discos solo anteriores dele jamais me disse grande coisa, e nem os do Alice in Chains p\u00f3s-Layne Staley, por\u00e9m sempre que aparecem na pra\u00e7a eu tento escut\u00e1-los pois sinto que devo isto a ele, uma gratid\u00e3o pelos disco cl\u00e1ssicos do Alice in Chains, aos quais ainda hoje escuto e gosto demais. E Cantrell enfim correspondeu: *I Want Blood* \u00e9 \u00f3timo \u2014 provavelmente n\u00e3o \u00f3timo a ponto de figurar no post \u0022Meus discos favoritos de 2024\u0022, mas \u00f3timo mesmo assim, uma amostra bem dosada do senso dram\u00e1tico que fez a fama do Alice in Chains somado \u00e0 voz l\u00edmpida e sempre em forma de Cantrell, somados a alguma maturidade, alguma circunspec\u00e7\u00e3o, tudo isso sintetizado nas faixas *Afterglow* e *It Comes* (esta \u00faltima \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ficar imaginando como ficaria linda na voz de Staley). Boa, Jerry! Mas, perdoe-me, se for para colocar um disco de rock noventista em minha lista dos melhores deste ano, talvez tenha que ser [este](https:\/\/weareblushing.bandcamp.com\/album\/sugarcoat). Veremos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Nebulosa do Morcego C\u00f3smico, copiada [daqui](https:\/\/apod.nasa.gov\/apod\/ap241027.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":878,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2024","post_timestamp":"2024-10-05T15:32:40+00:00","url":"Discos_do_mes_Setembro_de_2024","post":"**Hooded Menace \u2013 The Tritonus Bell**\r\n\r\nSe estes tantos discos de metal que escuto fossem alguma esp\u00e9cie de busca pelo balan\u00e7o perfeito entre o tom das guitarras, a velocidade e a melodia dos riffs, a atmosfera e alguma outra coisa mais dif\u00edcil de definir, talvez eu devesse ent\u00e3o declarar como encerrada a busca. C\u00e1 est\u00e1 meu [Santo Graal](https:\/\/hoodedmenace.bandcamp.com\/album\/the-tritonus-bell).\r\n\r\n**Interpol - Turn On the Bright Lights**\r\n\r\nAlgum filme ambientado em Nova York me fez ficar com vontade de revisitar este disco, o primeiro do Interpol. O rock \u0027n\u0027 roll do come\u00e7o dos anos 2000 n\u00e3o me impressiovana muito, aquelas guitarras cl\u00ednicas e sum\u00e1rias, os ternos apertados... Eu ficava com a impress\u00e3o que faltava subst\u00e2ncia, a subst\u00e2ncia que na d\u00e9cada anterior sobrara nas bandas de Seattle, que escorria na face de Layne Staley e de repente agora parecia esgotada, ou talvez recolhida em um modo de regenera\u00e7\u00e3o, vivendo uma entressafra ou ressaca. Seja como for, n\u00e3o fiz a transi\u00e7\u00e3o para aquela nova gera\u00e7\u00e3o e acabei ficando l\u00e1 por onde me criei mesmo, os anos 80 e 90, aprendendo tamb\u00e9m a reverenciar os pioneiros dos anos 60 e 70 e expandindo meus interesses para outros g\u00eaneros, com o Interpol se distinguindo como a exce\u00e7\u00e3o que confirmava a regra. Pelo menos por um tempo. Agora c\u00e1 estamos no futuro e revisitei *Turn On the Bright Lights*, e constatei que sua intensidade monocrom\u00e1tica continua mesmo irresist\u00edvel \u2014 n\u00e3o era ilus\u00e3o. O disco, por conta de \u00f3timas composi\u00e7\u00f5es e produ\u00e7\u00e3o consciente e bem calibrada, se sustenta segura e tranquilamente, e se bem me lembro o disco posterior do Interpol tamb\u00e9m n\u00e3o fica mal na foto. Depois a f\u00f3rmula se esgotou, os astros deixaram de se alinhar; lembro de escutar dois ou tr\u00eas dos \u00e1lbuns seguintes e ficar exasperado com a perda de tempo, a falta de justificativa para a exist\u00eancia continuada daquela m\u00fasica. \u00c0s vezes penso que \u00e9 por isso que gosto tanto de metal: no metal n\u00e3o h\u00e1 subterf\u00fagios, n\u00e3o h\u00e1 muita ader\u00eancia a tend\u00eancias culturais; seu nicho \u00e9 est\u00e1vel e se retro-alimenta, seu alicerce conceitual \u00fanico \u00e9 o perigo e de resto \u00e9 o som pelo som, \u00e9 a m\u00fasica jogada em nossas caras. Bandas como o Interpol, por outro lado, t\u00eam prazo de validade. O que n\u00e3o significa que seus bons discos deixem de reluzir. Respondendo \u00e0 pergunta que me fiz quando tirei este CD da estante: sim, valeu a pena t\u00ea-lo guardado por todo esse tempo.\r\n\r\n**Tara Jane O\u0027Neil - A Ways Away**\r\n\r\n\u00c9 prov\u00e1vel que *The Cool Cloud Of Okayness*, disco de Tara Jane O\u0027Neil lan\u00e7ado este ano, esteja em minha lista de favoritos de 2024, por\u00e9m nos \u00faltimos dias tenho escutado mais frequentemente este outro de 2009, *A Ways Away*, que me atrai por se parecer com uma longa reinterpreta\u00e7\u00e3o de *Riders on the Storm* do Doors: a lisergia descansada, o clima abafado de deserto, vis\u00f5es tr\u00eamulas de cobras e xam\u00e3s. A m\u00fasica se arrasta e entorpece os sentidos, guitarras e instrumentos ac\u00fasticos vagam sem destino certo enquanto vozes vindas de longe entregam mensagens cifradas. Estamos no terreno da m\u00fasica-ritual, indicada para quem gosta de Six Organs of Admittance, Grouper e Big Blood.\r\n\r\n**Blood Incantation - Interdimensional Extinction EP**\r\n\r\nA m\u00fasica do Blood Incantation... Oras, que diferen\u00e7a faz a m\u00fasica se o disco tem [essa capa](https:\/\/s3.amazonaws.com\/delivery.midheaven.com\/i\/141132\/images\/767870658006.jpg)? (A prop\u00f3sito, a m\u00fasica \u00e9 \u00f3tima. E pelo o que andei lendo por a\u00ed, est\u00e1 ficando [melhor ainda](https:\/\/bloodincantation.bandcamp.com\/album\/absolute-elsewhere).)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"detalhe da capa do EP *Interdimensional Extinction* do Blood Incantation.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":877,"title":"500 florins","post_timestamp":"2024-09-17T12:13:53+00:00","url":"500_florins","post":"Dia desses retirei da estante um livro lido h\u00e1 muito tempo, quando eu era ainda adolescente. Sentei na poltrona e comecei a folhe\u00e1-lo, deparando com diversos trechos sublinhados, h\u00e1bito herdado de meu av\u00f4, cujos livros eram repletos de marca\u00e7\u00f5es e anota\u00e7\u00f5es feitas com l\u00e1pis apontado a estilete e  caligrafia caprichada. Lindos artefatos aqueles livros de meu av\u00f4, as p\u00e1ginas grossas e envelhecidas t\u00eam hoje um aroma inebriante... Mas, de volta ao meu volume: relendo os trechos que sublinhei naquela leitura quando eu ainda n\u00e3o contava nem 18 anos (e nada do capricho de meu av\u00f4), comecei a sentir tonturas \u00e0 medida que um estranhamento crescia e me atravessava: eu n\u00e3o conseguia entender os motivos que teriam me levado a assinalar aqueles trechos e par\u00e1grafos em particular. N\u00e3o havia nada de especial em nenhum deles, nada de curioso, de importante a ser relido no futuro. A informa\u00e7\u00e3o isolada de que Rembrandt recebeu 500 florins como pagamento por determinada pintura n\u00e3o me parece, hoje, ter relev\u00e2ncia alguma \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/span\u003E. Estrapolando a inquieta\u00e7\u00e3o, me assustei por n\u00e3o conseguir recuperar quem eu era naquela \u00e9poca da minha vida: deparei-me com um eu que era outro. Foi estranho, mas foi breve. Logo ajustei-me \u00e0quela sensa\u00e7\u00e3o e percebi, refletindo com calma, que n\u00e3o era nada assim t\u00e3o extraordin\u00e1rio, afinal, passaram-se quase 30 anos, e a mudan\u00e7a, de acordo com um s\u00e1bio muito antigo, \u00e9 a \u00fanica realidade da vida. E eu ainda tinha que trabalhar e lavar a lou\u00e7a. Em todo o caso, \u0022I cherish these moments\u0022, como diz o garoto daquele filme enquanto fuma um [cigarro com seus dois melhores amigos ao redor de uma fogueira](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Pi9flrXilDI)... Pasmos revelat\u00f3rios deste tipo (que eu s\u00f3 posso sup\u00f4r que aconte\u00e7am com todo mundo) d\u00e3o um charmezinho para a vida, nos ajudam a conservar a esperan\u00e7a boba de que somos especiais, feitos de inspira\u00e7\u00f5es profundas, centelhas do divino, etc. Uma fantasia da qual n\u00e3o devemos privar ningu\u00e9m, salvo casos patol\u00f3gicos e pastores de igrejas picaretas. Neste caso pessoal que relato houve ainda um agravante. Meu epis\u00f3dio de assombro transcorreu tendo como trilha-sonora este maravilhoso disco de Roy Montgomery, *Scenes from the South Island*. A [m\u00fasica profunda de Montgomery](https:\/\/grouper.bandcamp.com\/album\/scenes-from-the-south-island), que parece n\u00e3o ter come\u00e7o e nem fim, como se captada do mais fundo do c\u00e9u, ou de uma outra camada da realidade para a qual nossos sentidos ainda n\u00e3o atentaram, essa m\u00fasica profunda e misteriosa possui, por si s\u00f3, a propens\u00e3o de colocar seu ouvinte em um estado de esp\u00edrito introspectivo. Se calha de encontr\u00e1-lo em uma disposi\u00e7\u00e3o previamente desarmada, suscet\u00edvel a d\u00favidas e misticismos, seu efeito ent\u00e3o passa para uma outra escala. A guitarra de Montgomery parece conter o universo e todas suas infinitas possibilidades. Os ecos e feedbacks representam as tantas dimens\u00f5es sobrepostas; os ciclos e repercuss\u00f5es refor\u00e7am a hip\u00f3tese de Borges, de que todas as possibilidades n\u00e3o apenas se cumprir\u00e3o como tamb\u00e9m se repetir\u00e3o *ad infinitum*. A simplicidade \u2014 n\u00e3o se trata de um aparato el\u00e9trico-orquestral como o de Glenn Branca; \u00e9 apenas Roy e sua guitarra \u2014 abre caminhos para mais devaneios e deslumbramentos. Meu pequeno momento de perplexidade, prosaico como h\u00e1 de ter sido, enquanto ocorria parecia-me n\u00e3o menos do que \u00e9pico: se mal sabemos o que somos, se duvidamos \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo daquilo que supostamente temos acesso total e irrestrito \u2014 nossas pr\u00f3prias individualidades \u2014, o que dizer ent\u00e3o desta coisa imensuravelmente vasta que nos abriga? Chegaremos a entender, de verdade, alguma coisa algum dia? A m\u00fasica acabou, o livro voltou \u00e0 estante. Minutos depois eu lavava a lou\u00e7a na cozinha, despreocupado com quem sou ou quantos sou. Ou somos, sei l\u00e1. A tontura passara, mas reverberavam em mim ainda a d\u00favida e a aventura... Ent\u00e3o pergunto (de novo): n\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica a melhor das artes? A mais cheia de potencialidades? Ela amplia tudo, at\u00e9 mesmo o livro, o s\u00edmbolo por excel\u00eancia da cultura e ci\u00eancia humanas. Atribuindo sentidos e emo\u00e7\u00f5es, reais ou ilus\u00f3rios, a m\u00fasica n\u00e3o necessariamente explica, mas certamente melhora tudo, e do jeito que a coisa anda parece-me cada vez mais que isto \u00e9 o melhor que podemos fazer. Talvez seja o que nos resta fazer. Tornar bonitas as ru\u00ednas. Se estamos a testemunhar o come\u00e7o do fim, se os avisos e protestos de nada servem para refrear as estruturas da destrui\u00e7\u00e3o, que seja ao menos um belo de um espet\u00e1culo; acompanhado de boa m\u00fasica, que nos extravie em profundezas c\u00f3smicas, que nos jogue e nos largue na vertigem. Vai ser triste, mas vai ser bonito.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E[1]\u003C\/b\u003E A informa\u00e7\u00e3o, por outro lado, de que existiu na Holanda um culto de fan\u00e1ticos que santificavam um sujeito que esfaqueara um outro quadro de Rembrandt pois acreditavam que tal maluco seria, na realidade, a reencarna\u00e7\u00e3o de um dos personagens retratados na obra vandalizada, este par\u00e1grafo sim eu deveria ter sublinhado. Sublinhei-o agora. Vamos ver o que pensarei dele daqui 30 anos, quando voltar a reabrir este volume.[\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Festa de Belsazar*, de Rembrandt Harmenszoon van Rijn, copiada [daqui](https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Ficheiro:Rembrandt-Belsazar.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":876,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2024","post_timestamp":"2024-09-07T14:19:40+00:00","url":"Discos_do_mes_Agosto_de_2024","post":"**Cowboy Junkies - Lay It Down**\r\n\r\nDia desses acordei cedo, coloquei este disco do Cowboy Junkies para tocar e tudo ficou bem. Os Junkies t\u00eam essa coisa m\u00e1gica da cad\u00eancia precisa que parece atuar diretamente em nossos ritmos fisiol\u00f3gicos e espirituais, reordenando-os e deixando-os em repouso. \u00c9 a voz e a bateria dos primos Margo Timmins e Peter Timmins, respectivamente, enquanto o restante da banda parece guiar-se atrav\u00e9s de um transe. Do ouvinte nada \u00e9 exigido. Para um breve torpor noturno, terap\u00eautico e sossegado, n\u00e3o conhe\u00e7o banda melhor.\r\n\r\n**Tomb Mold - Manor Of Infinite Forms**\r\n\r\nDe volta \u00e0 nossa programa\u00e7\u00e3o normal: as criaturas psicod\u00e9licas que ilustram a capa e a contra-capa deste disco me lembram os monstrinhos de um \u00e1lbum de figurinhas que completei na inf\u00e2ncia ([este](https:\/\/www.albunsefigurinhas.com\/os-monstrinhos-divertidos\/)), mas n\u00e3o \u00e9 por este motivo que venho escutando *Manor Of Infinite Forms* insistentemente. Quero dizer, \u00e9 um pouco isso tamb\u00e9m, mas a m\u00fasica continua sendo o mais importante e a do Tomb Mould \u00e9 excelente. H\u00e1 muita coisa acontecedo: riffs t\u00e9tricos enfileirados, mudan\u00e7as de ritmo que quase passam despercebidas por baixo da atmosfera espessa de p\u00e2ntano pestilento, percuss\u00e3o avassaladora. Toda a se\u00e7\u00e3o r\u00edtmica da banda, na verdade, soa um pouco desnorteante se voc\u00ea focar sua aten\u00e7\u00e3o muito intensamente nela (\u00e9 o oposto total da m\u00fasica do Cowboy Junkies), e por isso eu prefiro a parte \u0022pantanosa\u0022 da brincadeira, prefiro pairar por sobre os detalhes e apreciar em ampla escala os 40 minutos desta del\u00edcia de jornada trevas adentro.\r\n\r\n**Darkthrone - Total Death**\r\n\r\nAo contr\u00e1rio do [Megadeth](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Fevereiro_de_2024), do Darkthrone ningu\u00e9m precisa ter vergonha de ser f\u00e3. Fenriz parece ser um \u00f3timo [camarada para se tomar uma cerveja junto](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2016\/nov\/21\/fenriz-darkthrone-black-metal-oslo-councillor-interview) e sua banda \u00e9 das coisas mais divertidas e originais no reino do metal extremo. N\u00e3o sou ainda grande especialista na discografia do grupo (que, desde 1993, \u00e9 apenas uma dupla: Fenriz e o n\u00e3o menos ilustre Nocturno Culto), mas at\u00e9 aqui tenho a impress\u00e3o de que *Total Death* foi um dos primeiros esfor\u00e7os do Darkthrone em ampliar seu som, em variar os andamentos e as influ\u00eancias, que passaram a abranger tons de death metal e crust-punk, para al\u00e9m do black metal r\u00edspido dos cl\u00e1ssicos *Transilvanian Hunger* e *A Blaze in the Northern Sky*. A primeira metade de *Total Death* \u00e9 brilhante, praticamente perfeita. Depois, quando resolve retomar o black metal primitivo de outrora, o disco me aborrece um pouco... Mas mesmo assim ele tem ficado frequentemente alojado em meu CD player, rosnando amea\u00e7adoramente para dois ou tr\u00eas outros discos comprados recentemente e que nem tive chance ainda de retirar de seus pl\u00e1sticos. Isto \u00e9 um del\u00edrio, possivelmente um sonho inexequ\u00edvel, mas o Drakthrone \u00e9 outra banda de quem eu gostaria de ter todos os discos. J\u00e1 tenho dois, faltam [19](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Darkthrone#Discography).\r\n\r\n**Iron Maiden - Powerslave**\r\n\r\nMas houve um dia em que Tomb Mould e Darkthrone respeitosamente cederam espa\u00e7o, fazendo mesuras nervosas, \u00e0 figura monumental do deus eg\u00edpcio Eddie, conforme ele aparece na capa do insuper\u00e1vel cl\u00e1ssico que o Iron Maiden lan\u00e7ou em 1984. \u00c9 meu disco favorito do Maiden, e o \u00e9 por conta exclusiva das suas duas \u00faltimas faixas, sem que com isso eu queira diminuir o m\u00e9rito das seis primeiras pois entre elas est\u00e1 *Losfer Words (Big \u0027Orra)*, que suspeito gostar mais do que todo mundo. *Powerslave* (a faixa) \u00e9 o Maiden dono absoluto do jogo, do mundo, do universo; resoluta, impertub\u00e1vel e sinistra do come\u00e7o ao fim, um mon\u00f3lito em forma de m\u00fasica. O interl\u00fadio de *Rime Of The Ancient Mariner* h\u00e1 de ser at\u00e9 o fim dos tempos a coisa mais bonita e emocionante que o heavy metal legou ao mundo: toda aquela ambi\u00eancia, o crescendo lento e de gelar a espinha \u2014 \u00e9 imortal. \u00c9 muito oportuno escutar ao *Powerslave* de vez em quando, para nos assegurarmos (n\u00f3s, que amamos metal) de que n\u00e3o \u00e9 tudo uma grande perda de tempo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"ilustra\u00e7\u00e3o baseada na capa do \u00e1lbum *Powerslave*, do Iron Maiden. Autoria desconhecida, copiada [daqui](https:\/\/wallpaperaccess.com\/iron-maiden-powerslave).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":875,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2024","post_timestamp":"2024-08-02T21:20:25+00:00","url":"Discos_do_mes_Julho_de_2024","post":"A m\u00fasica que venho escutando continua praticamente a mesma desde o \u00faltimo post: Entombed, Carcass e Tribulation acompanhados de uma multid\u00e3o de comparsas infernais: Morbid Angel, Cannibal Corpse, Suffocation, Hooded Menace, Celtic Frost, Kreator. A m\u00fasica extrema tem tornado vi\u00e1veis os meus dias: ela silencia vozes que, deixasse eu que ressoassem alto e prestasse aten\u00e7\u00e3o a elas, sei n\u00e3o, sei n\u00e3o. Dia desses escutei em uma grava\u00e7\u00e3o ao vivo do Suffocation o cantor da banda dizendo para o p\u00fablico, no intervalo entre duas faixas, que amava a m\u00fasica brutal e que se n\u00e3o fosse por ela talvez ele j\u00e1 tivesse assassinado centenas de pessoas. Eu teria matado apenas uma... Bem, isso soa assustador e dram\u00e1tico e talvez eu esteja exagerando um pouco. Para demonstrar que continuo prevalecentemente humano e soci\u00e1vel, acrescento que h\u00e1 momentos em que meu c\u00e9rebro solicita um descanso das vias auditivas e nessas ocasi\u00f5es apelo para meu bom e velho amigo Steve Roach, sempre uma audi\u00e7\u00e3o restauradora e ben\u00e9vola. A arte de Roach talvez seja a oposi\u00e7\u00e3o perfeita ao que produzem as bandas mencionadas antes, n\u00e3o por conta do contraste entre \u0022bonito\u0022 e \u0022feio\u0022 ou \u0022calmo\u0022 e \u0022violento\u0022, mas sim por conta do \u0022corp\u00f3reo\u0022 e do \u0022incorp\u00f3reo\u0022, do consumadamente concreto e do vastamente et\u00e9reo. Bandas de metal proporcionam um prazer e um intoxica\u00e7\u00e3o f\u00edsica; os discos de Roach nos fazem abertura para o celestial. Ou, pelo menos, baixam a press\u00e3o. Se voc\u00ea n\u00e3o o fez ainda, rogo para que [experimente](https:\/\/steveroach.bandcamp.com\/album\/reflections-in-repose). Outra banda a quem recorro com frequ\u00eancia \u00e9 o Popol Vuh. A\u00ed est\u00e1 uma banda muito intrigante. Eles eram alem\u00e3es \u2014 mas de onde eles vieram mesmo? Porque ser alem\u00e3o decerto n\u00e3o explica a m\u00fasica que faziam, t\u00e3o fugidia e irrotul\u00e1vel. Aqui em meu reino musical ela funciona como uma esp\u00e9cie de coringa: em geral eu sei exatamente o que quero escutar, mas nas raras ocasi\u00f5es em que n\u00e3o consigo capturar com precis\u00e3o a forma da minha vontade, \u00e9 ao Popol Vuh a quem recorro. *Tantric Songs* \u00e9 um disco muito bonito ao qual escuto j\u00e1 faz bastante tempo, e deve significar alguma coisa o fato de ainda hoje eu nunca ter certeza se estou escrevendo corretamente o nome da banda. Para finalizar, como gosto de indicar nominalmente alguns dos \u00e1lbums que mais escutei ao longo dos \u00faltimos dias, ao t\u00edtulos de Roach e do Vuh acrescentarei minhas \u00faltimas aquisi\u00e7\u00f5es do Kreator (acho que posso e devo dizer minha banda de metal favorita, se desconsiderarmos, claro, a suprema [m\u00e3e de todas](http:\/\/images5.alphacoders.com\/410\/410787.jpg)) e do Death (uma banda que \u00e9 como filme de terror italiano: voc\u00ea talvez pense que n\u00e3o gosta, ou demore a gostar, mas uma vez que voc\u00ea se afei\u00e7oa passa a ser dif\u00edcil viver sem).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Steve Roach em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.synthtopia.com\/content\/2022\/05\/17\/steve-roach-live-ambient-church-performance-on-june-4-in-new-york\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":874,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2024","post_timestamp":"2024-07-05T12:28:08+00:00","url":"Discos_do_mes_Junho_de_2024","post":"**Carcass - Heartwork**\r\n\r\nN\u00e3o sei se d\u00e1 de dizer que *Heartwork*, lan\u00e7ado em 1993, fez o death metal mudar de n\u00edvel ou algo assim. O g\u00eanero continua orgulhosamente longe do mainstream musical, continua soando repulsivo para a grande maioria das pessoas, mas talvez possamos dizer que os f\u00e3s deste tipo de m\u00fasica \u2014 que, antes, costumavam ser facilmente identificados pelas camisetas escatol\u00f3gicas do Cannibal Corpse \u2014 em algum momento deixaram de ser vistos como gente pervertida, qui\u00e7\u00e1 perigosa, e esse momento talvez coincida com o lan\u00e7amento e dissemina\u00e7\u00e3o da obra-prima do Carcass. *Necroticism: Descanting the Insalubrious* j\u00e1 apontava nesta dire\u00e7\u00e3o, mas *Heartwork* toma uma banho extra de desinfetante e d\u00e1 o passo decisivo. A produ\u00e7\u00e3o cristalina que acentua os dentes afiados e arreganhados das guitarras; o senso mel\u00f3dico apurado e n\u00e3o asfixiado pelo negrume da atmosfera, que torna o disco atraente at\u00e9 mesmo para quem costuma consumir unicamente formas inofensivas de metal; riffs memor\u00e1veis, um atr\u00e1s do outro... Tudo isso faz de *Heartwork* um cl\u00e1ssico incontorn\u00e1vel, que transita f\u00e1cil entre praticamente qualquer tribo metaleira. Ok. Feita essa introdu\u00e7\u00e3o com cara de resenha jornal\u00edstica (\u00e0s vezes sinto uma vontade bizarra de escrever coisas desse tipo), no que tange \u00e0 minha rela\u00e7\u00e3o pessoal com o \u00e1lbum, \u00e9 impressionante como ele sempre d\u00e1 um jeito de se alojar por v\u00e1rios dias em meu c\u00e9rebro ap\u00f3s uma audi\u00e7\u00e3o casual qualquer, exigindo mais e mais audi\u00e7\u00f5es. *This Mortal Coil* e seu galope \u00e0 moda Maiden, por exemplo, se eu n\u00e3o estou ouvindo alguma outra banda ou dormindo, fica tocando insistentemente no segundo plano da minha mente enquanto fa\u00e7o o que estiver fazendo (talvez at\u00e9 mesmo dormindo). A prop\u00f3sito: ser\u00e1 que j\u00e1 existiu alguma m\u00fasica que, n\u00e3o sendo do Iron Maiden mas tendo aquele galope t\u00edpico do Maiden, j\u00e1 tenha sido descrita sem men\u00e7\u00e3o ao Iron Maiden? \u00c9 obrigat\u00f3rio isso?\r\n\r\n**Entombed - Clandestine**\r\n\r\nN\u00e3o bastasse ter dado ao mundo o Europe e o Roxette, a Su\u00e9cia nos deu tamb\u00e9m o Entombed. Tamb\u00e9m esta formid\u00e1vel banda, a exemplo do Carcass,  desvendou \u00e0 base de facadas e machadadas novos terrenos no mundo da m\u00fasica extrema, contribuindo assim para tornar a vida um pouco mais recept\u00edvel e agrad\u00e1vel para incont\u00e1veis nerds e desajustados ao redor do mundo. N\u00e3o se deve desprezar a importante fun\u00e7\u00e3o agregadora e social do metal! Mas o Entombed veio antes do Carcass; sua contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi simplesmente esmerar a sonoridade e expandir fronteiras, e sim, nada mais nada menos do que inventar quase que a coisa toda, principalmente as t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o das guitarras, o t\u00e3o distintivo timbre denso e opressivo, copiado hoje em dia por nove de cada dez bandas do g\u00eanero. Eles criaram o death metal, ou pelo menos o \u0022swedish death metal\u0022 \u2014 a melhor variedade de todas, em todos os casos. Eu n\u00e3o sei dizer qual dos dois primeiros discos do Entombed, *Left Hand Path* ou *Clandestine*, \u00e9 o melhor. S\u00e3o ambos triunfos da t\u00e9cnica e da concep\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria. Como tenho em CD apenas este segundo, \u00e9 o que tenho escutado com mais frequ\u00eancia. \u00c9 violento, \u00e9 brutal, \u00e9 sublime.\r\n\r\n**Tribulation - Down Below**\r\n\r\nOra essa, ainda n\u00e3o satisfeitos com o Roxette, o Europe e o Entombed, mais recentemente a Su\u00e9cia deu ao mundo o Tribulation. Essa banda \u00e9 especial. Seu primeiro disco, *The Horror*, est\u00e1 em conson\u00e2ncia com os \u00e1lbuns dos dois tit\u00e3s citados acima: m\u00fasica vinda do mundo subterr\u00e2neo retratado no alto deste post. Ent\u00e3o algum bicho mordeu estes suecos, algum veneno muito antigo e muito ex\u00f3tico passou a circular por suas correntes sangu\u00edneas, e j\u00e1 a partir do segundo \u00e1lbum o som do Tribulation come\u00e7ou a transmutar-se, a tornar-se mais elaborado, mais mel\u00f3dico, mais teatral, repleto de clima e atmosfera g\u00f3tica. O terceiro e o quarto \u00e1lbuns s\u00e3o fant\u00e1sticos: *The Children Of The Night* \u00e9 de uma beleza hipn\u00f3tica, uma obra-prima do metal feito com cora\u00e7\u00e3o; *Down Below* n\u00e3o teria como super\u00e1-lo, mas talvez ele fa\u00e7a exatamente isso.  Deve haver quem desdenhe e diga que depois de seu quinto \u00e1lbum, *Where the Gloom Becomes Sound*, o Tribulation n\u00e3o \u00e9 mais metal, e talvez n\u00e3o seja mesmo e pouco importa: o Tribulation \u00e9 o Tribulation, eles moldaram um som bastante pr\u00f3prio e peculiar, de beleza apurada e grande resson\u00e2ncia emocional. (S\u00f3 para constar: para mim continua sendo metal. Se n\u00e3o por v\u00e1rios motivos, ent\u00e3o por um \u00fanico e definitivo: o vocal que emula alguma esp\u00e9cie de criatura monstruosa. \u00c9 s\u00f3 entre os f\u00e3s deste tipo de m\u00fasica que tal maneira de cantar n\u00e3o provoca rea\u00e7\u00f5es de vergonha alheia. Eu tolero; os cantores de \u00f3pera me soam mais constrangedores.) ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"arte da capa do \u00e1lbum *Left Hand Path* do Entombed, de autoria de Dan Seagrave e copiada [daqui](https:\/\/danseagrave.com\/detail\/left-hand-path\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":873,"title":"Heavy metal roundup, Vol. VII","post_timestamp":"2024-06-15T15:16:55+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Vol_VII","post":"Tenho escutado tanto metal que poderia perfeitamente mudar o nome desta coluna para \u0022Daily heavy metal\u0022 e publicar um post por dia.\r\n\r\n**Static Abyss - Labyrinth of Veins**\r\n\r\nProjeto paralelo de dois membros do Autopsy. H\u00e1 [quem considere](http:\/\/autothrall.blogspot.com\/2024\/03\/autopsy-morbidity-triumphant-2022.html) este \u00e1lbum melhor do que alguns do pr\u00f3prio Autopsy, o que talvez n\u00e3o seja exagero dependendo de quais \u00e1lbuns estejamos falando (definitivamente n\u00e3o dos dois \u00faltimos). Morro de amores por este death tingido de doom do Static Abyss e dos \u00faltimos do Autopsy. *Jawbone Ritual* e *Contort Until Death*, com suas din\u00e2micas que v\u00e3o de uma ponta a outra (e v\u00e3o e voltam, v\u00e3o e voltam), empacotam exemplarmente tudo que amo nestas bandas, incluindo a\u00ed a criatividade inesgot\u00e1vel para intitular as faixas.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2942234542\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/peaceville.bandcamp.com\/album\/labyrinth-of-veins\u0022\u003ELabyrinth of Veins by Static Abyss\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Gatecreeper - Dark Superstition**\r\n\r\nSe passo os olhos em uma recomenda\u00e7\u00e3o ou resenha de disco e entrevejo no texto os termos \u0022death metal\u0022, \u0022Su\u00e9cia\u0022 e \u0022Entombed\u0022, eu imediatamente vou atr\u00e1s do \u00e1lbum em quest\u00e3o. O player abaixo comprova que minha t\u00e1tica \u00e9 muito s\u00e1bia e correta.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2541275135\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/gatecreeper.bandcamp.com\/album\/dark-superstition\u0022\u003EDark Superstition by Gatecreeper\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Serpent Corpse - Blood Sabbath**\r\n\r\n*Blood Sabbath* ganha o jogo logo no primeiro minuto, uma breve introdu\u00e7\u00e3o cheia de disson\u00e2ncia e mist\u00e9rio. Como muito competente banda de death metal, o Serpent Corpse sabe descer a m\u00e3o e punir adequadamente nossos ouvidos sequiosos, por\u00e9m ou\u00e7a os momentos iniciais de *Land of Rot and Misfortune* para descobrir que esta banda n\u00e3o \u00e9 apenas agress\u00e3o e grosseria. Disca\u00e7o, e apenas o primeiro deles. (Para quem sente algum tipo de inexplic\u00e1vel atra\u00e7\u00e3o por death metal mas ainda n\u00e3o reuniu coragem ou autoindulg\u00eancia suficiente para mergulhar de cabe\u00e7a no g\u00eanero, o death \u0027n roll da faixa *Swallowed Whole by the Abyss* pode dar aquele impulso que falta. Se n\u00e3o funcionar, a faixa que fecha o disco e lhe empresa o t\u00edtulo, com seu festival de riffs e mudan\u00e7as, far\u00e1 o servi\u00e7o. O \u00e1lbum inteiro, na verdade, se presta muito bem para isso. Agora voc\u00ea o escuta ou esquece isso tudo de uma vez.)\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=139152403\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/serpentcorpse.bandcamp.com\/album\/blood-sabbath\u0022\u003EBlood Sabbath by Serpent Corpse\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Coffin Storm - Arcana Rising**\r\n\r\nO vocal por demais parecido com o do Candlemass, por uns instantes, me alienou e desinteressou (e muito me surpreendi depois quando descobri que o cantor \u00e9 o Fenriz do Darkthrone), mas isso foi muito r\u00e1pido. A banda \u00e9 t\u00e3o boa, engendra t\u00e3o bem um bonito misticismo doom (um pouco mais nervoso, \u00e0 moda Obsessed), que logo passei a concordar com a presen\u00e7a deste \u00e1lbum na maioria das listas parciais de melhores do ano (metaleiros n\u00e3o se cont\u00eam, no meio do ano j\u00e1 come\u00e7am a publicar suas listinhas). A produ\u00e7\u00e3o \u00e9 socada, abafada na precisa medida certa: feche os olhos, aumente o volume e l\u00e1 est\u00e1 voc\u00ea diante da banda em um por\u00e3o esfuma\u00e7ado.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1465419889\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/peaceville.bandcamp.com\/album\/arcana-rising\u0022\u003EArcana Rising by Coffin Storm\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"ilustra\u00e7\u00e3o de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.abyss.com.au\/en\/blog\/viewpost\/581\/exploring-the-abyss-a-comprehensive-guide-to-its-depths-and-mysteries).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":872,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2024","post_timestamp":"2024-06-09T13:55:37+00:00","url":"Discos_do_mes_Maio_de_2024","post":"**Big|Brave - A Chaos of Flowers**\r\n\r\nEu costumo me empenhar bastante em meu relacionamento com minhas bandas mais queridas, em escut\u00e1-las com aten\u00e7\u00e3o e compreender e criar la\u00e7os com seus discos. Exclu\u00eddas as rela\u00e7\u00f5es humanas diretas (e n\u00e3o necessariamente por prefer\u00eancia), \u00e9 possivelmente este o cultivo ao qual mais  dedico tempo em minha vida. Mas desta vez falhei com o Big|Brave. Escutei apenas duas ou tr\u00eas vezes ao *Nature Morte*, lan\u00e7ado no ano passado, o que bastou para inseri-lo em minha lista de [favoritos de 2023](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Melhores_discos_de_2023), por\u00e9m nem de longe a dedica\u00e7\u00e3o que este disco merece. Tinha portanto este \u00e1lbum ainda em meus pensamentos, a necessidade pendente de escut\u00e1-lo mais vezes com mais aten\u00e7\u00e3o quando de repente, poucos dias atr\u00e1s, sai *A Chaos of Flowers*, nov\u00edssimo disco do Big|Brave. N\u00e3o resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e pus-me a escut\u00e1-lo, ignorando a voz interior que me alertava de que isso configuraria uma trai\u00e7\u00e3o ao *Nature Morte*... Minha sorte \u00e9 que *A Chaos of Flowers* \u00e9 outro colosso cuja eletricidade exuberante expurga e perdoa. Tenho uma impress\u00e3o sobre a m\u00fasica que o Big|Brave produz. Eles n\u00e3o exatamente a produzem: eles domam um jorro sonoro, tentam control\u00e1-lo, respeitosos e um pouco atemorizados, incertos da natureza daquilo com que est\u00e3o lidando. Na maior parte do tempo tem-se a impress\u00e3o de que est\u00e3o no comando; em alguns momentos, nem tanto. Fico imaginando: se o som gravado e escutado na seguran\u00e7a de casa j\u00e1 produz efeitos que ressoam no fundo dos ossos, o que ser\u00e1 que se passa em est\u00fadio? E em uma apresenta\u00e7\u00e3o da banda? Deve ser formid\u00e1vel. Algum dia voltarei ao *Nature Morte* (n\u00e3o esquecerei), mas por ora *A Chaos of Flowers* tomou seu lugar. S\u00f3 espero que agora aguardem um pouco antes de lan\u00e7ar um novo disco.\r\n\r\n**Danny Driver - Gy\u00f6rgy Ligeti: The 18 \u00c9tudes**\r\n\r\nEsses estudos para piano do Ligeti sempre me surpreendem e fascinam. O pianista desta vers\u00e3o que tenho escutado, o ingl\u00eas Danny Driver, navega com habilidade de tirar o f\u00f4lego por todos os registros exigidos por Ligeti, dos mais graves aos mais agudos, executando transi\u00e7\u00f5es complexas e vertiginosas com uma fluidez e uma naturalidade que quase vulgarizam o instrumento e a per\u00edcia exigida para seu manejo, como se fosse algo que qualquer um pudesse fazer. Veja bem: pouca gente poderia meramente *imaginar* estes sons, o que dizer ent\u00e3o de l\u00ea-los e execut\u00e1-los. As notas s\u00f3lidas e retumbantes que engolem o ouvinte; as cristalinas e insidiosas, que cintilam como enigmas sonoros; o drama incessante entre estes extremos produz uma experi\u00eancia musical visceral, daquelas cuja origem e materialidade \u2014 a mente de seu compositor e a habilidade de seu int\u00e9rprete \u2014 deixam o ouvinte desnorteado em conjecturas a respeito do bicho assustador e prodigioso que pode ser o ser humano e do quanto de coisas \u00e9 poss\u00edvel que ele armazene em si.\r\n\r\n**Cocteau Twins - Four-Calendar Caf\u00e9**\r\n\r\nDia desses entrei em uma loja de discos com a esperan\u00e7a n\u00e3o de todo descabida de encontrar este disco do Cocteau Twins em vinil. Encontrei-o e paguei feliz da vida os 350,00 reais pedidos nele. Sim, 350,00 reais, muito dinheiro. Rico eu n\u00e3o sou; irrespons\u00e1vel, um pouco, mas deixem-me explicar. Em primeiro lugar, a citada loja \u00e9 a Roots Records, local que frequento h\u00e1 mais de 30 anos (sei disso pois comprei l\u00e1 o *In Utero* na semana em que foi lan\u00e7ado, e muito provavelmente j\u00e1 havia comprado outros discos antes) e onde sempre me sinto em casa. Localizada em uma galeria de lojas absolutamente irrelevantes (excetuando a banca do caldo de cana, que \u00e9 o melhor da cidade), em pleno cal\u00e7ad\u00e3o principal do centro de Florian\u00f3polis, a Roots j\u00e1 deve ter tido mais de 50 lojas de roupas diferentes como vizinhas de cada lado, enquanto ela permanece l\u00e1, resistente e valorosa, sobrevivente de f\u00e9 das crises econ\u00f4micas, transi\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e pandemias. O dono me confidenciou certa vez que esteve prestes a fechar as portas por volta de 2017, mas com a ajuda de alguns amigos conseguiu manter o neg\u00f3cio, e hoje a coisa segue em frente aproveitando o retorno dos vinis e a venda sempre aquecida de camisetas e acess\u00f3rios. A garotada frequenta depois do col\u00e9gio, al\u00e9m dos dinossauros (tipo eu) de sempre. Vou logo me declarando: eu amo a Roots Records, sou muito grato ao casal de donos (e aos tantos filhos que vi crescerem atr\u00e1s daquele balc\u00e3o e agora d\u00e3o uma for\u00e7a aos pais no atendimento) pela perseveran\u00e7a e por propiciarem aos poucos que ainda se importam um destes espa\u00e7os m\u00e1gicos que s\u00e3o as lojas de discos. A variedade dos vinis novos l\u00e1 \u00e9 surpreendente \u2014 quantas s\u00e3o as cidades no Brasil onde voc\u00ea pode entrar em uma loja pensando em um disco do Cocteau Twins e encontr\u00e1-lo? As pilhas de CDs (obviamente bem mais em conta) me d\u00e3o aquela tranquilidade do toxic\u00f4mano que precisa sentir o ma\u00e7o de cigarros no bolso: uma ida ao centro nunca ser\u00e1 de todo infrut\u00edfera. Por tudo isso tenho o dever de prestigi\u00e1-los e recompens\u00e1-los sempre que puder. Em segundo lugar: ando apaixonado pelo Cocteau Twins e *Four-Calendar Caf\u00e9* \u00e9 meu disco favorito. Eu pagaria R$ 350,00 exclusivamente pela faixa *Summerhead*, mas o \u00e1lbum todo \u00e9 fascinante, \u00e9 daqueles que a gente deixa reservado para ouvir nas noites mais especiais, quando a m\u00fasica que escutaremos n\u00e3o pode ser menos do que todo o ac\u00famulo de vida que nos levou at\u00e9 aquele momento. Oras, se 350,00 reais n\u00e3o servem para isso, para que mesmo servem?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Gy\u00f6rgy Ligeti em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.secondinversion.org\/2018\/01\/03\/the-late-works-of-gyorgy-ligeti-1923-2006\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":871,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2024","post_timestamp":"2024-05-02T21:42:47+00:00","url":"Discos_do_mes_Abril_de_2024","post":"Prosseguindo com a retrospectiva Pearl Jam (maratona-celebra\u00e7\u00e3o que fa\u00e7o sempre antes da chegada de um novo disco da banda), chegou a vez de tirar o *Riot Act* da estante e p\u00f4-lo para girar. A capa deste disco sempre me faz ficar com vontade de tomar caf\u00e9, ent\u00e3o fiz o melhor caf\u00e9 que pude e sentei-me para escutar ao \u00e1lbum que (no meu modo de ver) fecha o ciclo de domestica\u00e7\u00e3o da banda. *Riot Act* n\u00e3o \u00e9 ruim, mas o caf\u00e9 estava melhor. Gosto de sua produ\u00e7\u00e3o ao estilo da do *Yield*, mais org\u00e2nica e menos comprimida, e gosto de algumas de suas faixas \u2014 *Save You*, *Cropduster*, *Green Disease* e principalmente *I Am Mine*, com sua linha \u0022there\u0027s no need to hide, we\u2019re safe tonight\u201d que transformou-se em mantra pessoal e me ajuda a sobreviver noite ap\u00f3s noite \u2014 por\u00e9m no todo o \u00e1lbum parece durar umas duas horas que n\u00e3o raro resvalam no t\u00e9dio, n\u00e3o? Uma sensaboria perpassa boa parte do tracklist e faz com que este seja um dos poucos discos do Pearl Jam que hoje em dia escuto unicamente por ocasi\u00e3o destas maratonas (*Backspacer* e *Lightning Bolt* completam o trio). N\u00e3o fosse pelo \u00f3timo *Gigaton*, creio que eu estaria bem pouco estimulado para ouvir este novo *Dark Matter*, que est\u00e1 para chegar a qualquer momento aqui em casa. O que de memor\u00e1vel voltei a escutar recentemente foi o *Wish*, do Cure, \u00e1lbum com o qual passei in\u00fameras horas em minha juventude, banda com a qual convivi intensamente durante a maior parte de minha vida, por\u00e9m, nos dias que correm, me sinto cada vez menos impelido a escut\u00e1-los. Mas continuo amando o Cure, cuja escala\u00e7\u00e3o em minha lista mais resumida de bandas favoritas est\u00e1 garantida para sempre. N\u00e3o lembro o que me levou de volta ao *Wish*; ter\u00e1 sido a lembran\u00e7a de *Open* e algo ali que compreendo? A lembran\u00e7a da alegria radioativa de *Friday I\u2019m in Love*? O que me leva a confessar que, na realidade, o que eu mais vezes escutei ao longo do m\u00eas de abril foi uma colet\u00e2nea que eu mesmo fiz a partir dos meus discos digitais, playlist que nomeei singelamente *Minhas favoritas*, t\u00edtulo que deve bastar como justifica\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia. Nela est\u00e3o *Friday I\u2019m in Love*, *A Forest* e *Jumping Someone Else\u0027s Train* do Cure, umas tantas faixas do Pearl Jam e do Midnight Oil, *A Little Respect* do Erasure e *A Promise* do When In Rome, *Sweet Child o\u0027 Mine* do Guns e *Good Enough* da Cyndi Lauper, al\u00e9m, claro, da \u00fanica can\u00e7\u00e3o verdadeiramente perfeita que conhe\u00e7o, *E-bow the Letter* do R.E.M. com a Patti Smith. Uma faixa do *Glassworks* abre e Glenn Gould tocando a \u00e1ria das *Varia\u00e7\u00f5es Goldberg* de Bach fecha. Tem tamb\u00e9m Tears for Fears, Bob Marley, Kate Bush e Jo\u00e3o Bosco cantando Adoniran Barbosa; tem Clash e Marillion (bem distanciadas, \u00e9 claro; a coisa tem sua necess\u00e1ria coer\u00eancia interna) e muito mais \u2014 \u00e9 quase uma centena de faixas. \u00c9 curioso: nos tempos das fitas cassetes, eu passava horas e mais horas criando colet\u00e2neas para ouvir no \u00f4nibus, para os fins de semana na praia, para as f\u00e9rias de ver\u00e3o, ou simplesmente para poder ouvir, em qualquer ocasi\u00e3o e lugar, uma determinada sequ\u00eancia de can\u00e7\u00f5es queridas\u2026 Enquanto que hoje em dia, quando fazer algo desse tipo \u00e9 t\u00e3o simples, quest\u00e3o de alguns cliques em poucos segundos, eu quase nunca as fa\u00e7o. Deve ser o que chamam de vida adulta. Por fim, uma nova paix\u00e3o: Autopsy. Refiro-me \u00e0 banda, n\u00e3o ao procedimento m\u00e9dico. At\u00e9 porque, tendo passado tempo demais em hospitais nos \u00faltimos tempos, creio estar desenvolvendo avers\u00e3o \u00e0 sangue e cirurgias\u2026 (Temas que s\u00e3o, evidentemente, da predile\u00e7\u00e3o dos veteranos do Autopsy, por\u00e9m no mundo de faz de conta do death metal, \u00e9 divertido.) Os dois \u00faltimos discos da banda, *Morbidity Triumphant* e *Ashes, Organs, Blood and Crypts*, s\u00e3o demais, obras-primas da m\u00fasica extrema an\u00e1rquica. Adoro os solos de guitarra (se \u00e9 que se pode cham\u00e1-los assim; David Gilmour provavelmente vetaria) que irrompem de repente em muitas faixas, incendeiam tudo durante alguns segundos e evaporam. Death metal que n\u00e3o \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o exaustiva de brutalidade bestial me interessa ainda mais do que death metal que \u00e9 s\u00f3 repeti\u00e7\u00e3o exaustiva de brutalidade bestial, e o Autopsy flerta o tempo todo com o doom, com o crust punk, varia o timbre das guitarras, brinca com introdu\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas antes de descer o sarrafo, se diverte horrores. Esses caras s\u00e3o mestres.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Autopsy em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.deathmetal.org\/news\/autopsy-the-headless-ritual-coming-this-july-cover-art-and-track-list-revealed\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":870,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2024","post_timestamp":"2024-04-07T22:59:17+00:00","url":"Discos_do_mes_Marco_de_2024","post":"Notas ligeiras sobre algumas das minhas \u00faltimas audi\u00e7\u00f5es, para n\u00e3o perdermos o h\u00e1bito: mar\u00e7o marcou o ingresso do segundo CD do Judas Priest em minha cole\u00e7\u00e3o, o *British Steel* (o primeiro foi o *Sad Wings of Destiny*). Foi-se o tempo em que Judas Priest me soava (e, principalmente, me afigurava) constrangedor tal qual o Kiss, o Manowar, o Domin\u00f3; hoje apresento-me como f\u00e3 de carteirinha de Rob Halford e cia. e o fa\u00e7o sem reserva alguma \u2014 no m\u00e1ximo, eventualmente, um leve sorriso de canto de boca, desses de quem j\u00e1 n\u00e3o se leva muito a s\u00e9rio, j\u00e1 n\u00e3o tem vergonha de rir de si mesmo. Este CD comprei novo, paguei R$ 40,00, e vale cada centavo: *British Steel* \u00e9 bom demais, acho at\u00e9 que destronou o *Painkiller* da posi\u00e7\u00e3o primeira do meu ranking de favoritos do Priest. Agora verdadeiro achado mesmo foi uma edi\u00e7\u00e3o norte-americana do [disco que apresentou o Le Myst\u00e8re Des Voix Bulgares ao mundo](https:\/\/www.discogs.com\/release\/1326488-Le-Myst\u00e8re-Des-Voix-Bulgares-Le-Myst\u00e8re-Des-Voix-Bulgares), que encontrei em um sebo por vint\u00e3o. Se n\u00e3o me engano, meu primeiro contato com a m\u00fasica m\u00e1gica deste grupo vocal feminino se deu atrav\u00e9s da trilha-sonora de um document\u00e1rio do Werner Herzog (n\u00e3o lembro qual). \u00c0 margem das conven\u00e7\u00f5es, as b\u00falgaras t\u00eam alma folk, mas tamb\u00e9m certa circunspec\u00e7\u00e3o erudita, ou alguma outra coisa dif\u00edcil de precisar, a meio caminho entre uma coisa e outra\u2026 Ou completamente externa a ambas. E por isso, por essa genuinidade pura e radical que nem sequer a grava\u00e7\u00e3o de suas vozes em um est\u00fadio parece poder conspurcar, \u00e9 por isso que sua m\u00fasica soa t\u00e3o especial, t\u00e3o encantadora. Guardei-as ali ao lado do meu *Glassworks* \u2014 \u00e9 onde elas merecem estar. Falando em m\u00fasica de dif\u00edcil classifica\u00e7\u00e3o: o \u00faltimo \u00e1lbum da polonesa Hania Rani, [*Ghosts*](https:\/\/haniarani.bandcamp.com\/album\/ghosts), tamb\u00e9m prop\u00f5e esse tipo de desafio ao ouvinte, tamb\u00e9m solicita que seja escutado como que por ouvidos novos, destitu\u00eddos de preconceitos e aprendizados. Quem o fizer, far\u00e1 um bem a si mesmo. (Se algu\u00e9m me dissesse que morrer significa ir para um lugar onde *Whispering House* e *The Boat* tocam continuamente, para sempre, eu morreria agora mesmo.) Finalizando: serei o \u00fanica f\u00e3 do Sunn O))) a considerar o *Flight of the Behemoth* o melhor disco da banda? Sim, melhor at\u00e9 mesmo que o *Black One*. H\u00e1 uns efeitos, uns pianos dissonantes (ou algo parecido), uns fins e recome\u00e7os abruptos neste disco que s\u00e3o puro pesadelo apavorante. N\u00e3o recomendo escutar muito tarde da noite, no escuro, sozinho\u2026","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Le Myst\u00e8re Des Voix Bulgares em foto de Svetlana Bekyarova.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":869,"title":"Encantamento, renova\u00e7\u00e3o","post_timestamp":"2024-03-15T12:45:17+00:00","url":"Encantamento_renovacao","post":"Comecei a ver, de repente, o nome [Amaro Freitas](https:\/\/amarofreitas.bandcamp.com\/) por toda parte, nos lugares mais d\u00edspares como A Folha de S\u00e3o Paulo e a Pitchfork. Curioso, e munido apenas da informa\u00e7\u00e3o de que se trata de um pianista brasileiro, fui conferir seu \u00e1lbum *Y\u2019Y* e fiquei imediatamente maravilhado. Desafio qualquer pessoa nascida no Brasil e n\u00e3o ficar arrepiado(a) com a faixa *Sonho ancestral*. Desafio aqueles que, como eu, frequentemente sentem raiva e remorso do Brasil \u2014 do Brasil institucional, aquele das not\u00edcias dos jornais, que pela for\u00e7a da grosseria e da repeti\u00e7\u00e3o costuma nos fazer esquecer do Brasil terra-e-cultura: terra vivida e encantada desde muito antes da chegada dos europeus; cultura enriquecida e encorpada pelos tantos povos que vieram depois, mas via de regra marginalizada pela cultura hegem\u00f4nica branca e ocidental \u2014, desafio-os a escutar este disco e n\u00e3o passar a amar a ideia (na\u00e7\u00e3o?) ao mesmo tempo t\u00e3o terrena e t\u00e3o abstrata que tem como legado, como filhos, este pianista e esta m\u00fasica. (Para este fim eu costumava tirar da estante meus discos do Egberto Gismonti e da M\u00f4nica Salmaso; agora eles ganharam um novo parceiro.) Se recentemente perdemos Nelson Freire, h\u00e1 pouco ganhamos Amaro Freitas. E penso que, mesmo considerando o quanto amo Freire, nesta renova\u00e7\u00e3o n\u00f3s sa\u00edmos ganhando muito.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 350px; height: 470px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2141474834\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/amarofreitas.bandcamp.com\/album\/yy\u0022\u003EY\u0026#39;Y by Amaro Freitas\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de J\u00e3o Vicente, copiada [daqui](https:\/\/www.folhape.com.br\/cultura\/amaro-freitas-lanca-baquaqua-primeiro-single-de-sankofa\/182158\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Mas devo acrescentar que foi uma redescoberta em mais de um sentido \u2014 a primeira destas audi\u00e7\u00f5es foi literalmente in\u00e9dita \u2014 e talvez por isso a mudan\u00e7a na aprecia\u00e7\u00e3o: h\u00e1 anos eu tinha essa vers\u00e3o em vinil lacrada na estante, que chegou a parecer que assim ficaria para sempre, at\u00e9 que enfim tirei-a do pl\u00e1stico e escutei ao \u00e1lbum com aten\u00e7\u00e3o, e descobri um bocado de coisas que nunca havia percebido antes e renovei meu afeto pelas can\u00e7\u00f5es que j\u00e1 gostava desde 1998 (*In Hiding*, *MFC*, *Brain of J.*, *Low Light*). Algumas coisas n\u00e3o mudaram: *Do the Evolution* eu continuo achando uma bobagem; *Given to Fly* tem aquelas guitarras indiscutivelmente bonitas, mas sempre esteve (e assim permanecer\u00e1, junto de *Jeremy*) no rol das can\u00e7\u00f5es do Pearl Jam que me repelem por conta da pieguice que vai ali infiltrada na letra, no andamento, nos esgares de Eddie Vedder (que, evidentemente, n\u00e3o vejo, mas imagino). *No Way* e *Faithful*, por outro lado, converteram-se em pontos altos, acho at\u00e9 que os melhores. E a velha e recorrente constata\u00e7\u00e3o: um disco de vinil, quando bem feito, soa de fato superior, e para isso o aparato industrioso em que se transformou a marca Pearl Jam de fato serve muito bem: eles fazem vinis de primeir\u00edssima linha, de qualidade sonora irrepreens\u00edvel. O baixo de Jeff Ament \u00e9 o batimento card\u00edaco de *Yield*, ressoando profundo e vigoroso, e todas as faixas, de modo geral, soam mais ricas e viscerais do que guardavam minhas lembran\u00e7as. (O som do *Binaural*, que tamb\u00e9m andei redescobrindo, soa ainda mais encorpado e ainda mais revelador de um disco melhor do que eu costumava considerar.)\r\n\r\n**Megadeth - Countdown to Extinction**\r\n\r\nEu entendo quem prefira manter em segredo seu afeto pelo Pearl Jam, cujo pedantismo sempre foi meio constrangedor. Se dessa vergonha, como voc\u00eas j\u00e1 perceberam, eu n\u00e3o pade\u00e7o, gostar do Megadeth por outro lado \u00e9 algo com que eu tenho bastante dificuldade em lidar. Ocorre que sempre tive problemas com a famosa separa\u00e7\u00e3o entre \u201co homem e sua obra\u201d. Dave Mustaine, por tudo que j\u00e1 li a seu respeito, parece ser um sujeito horroroso, algu\u00e9m com quem eu certamente n\u00e3o teria nada para conversar e n\u00e3o gostaria de ter por perto \u2014 o que, de certo modo, acontece quando escuto seus discos \u2014, e por conta disso \u00e9 que eu havia deixado de acompanhar sua banda j\u00e1 faz bastante tempo. (E n\u00e3o que todos os(as) artistas cujo trabalho acompanho sejam seres humanos excelentes, mas h\u00e1 limites que tento respeitar; de resto, n\u00e3o acho que todo mundo deva proceder dessa forma: este sou apenas eu com minhas manias e prioridades.) Alguma coisa, por\u00e9m, tem me chamado de volta aos discos antigos do Megadeth, uma rela\u00e7\u00e3o antiga e uma afinidade sonora cujas for\u00e7as de atra\u00e7\u00e3o t\u00eam me for\u00e7ado deixar de lado a repulsa que sinto por Mustaine. A afinidade definitivamente n\u00e3o \u00e9 com sua voz meio (meio?) rid\u00edcula; est\u00e1 muito mais para as guitarras afiadas e nervosas de discos como *Rust in Peace* e *Peace Sells\u2026 But Who\u2019s Buying?*, cl\u00e1ssicos irresist\u00edveis que transcendem o nicho do thrash metal. *Countdown to Extinction* n\u00e3o \u00e9 melhor do que estes dois, mas \u00e9 o que mais tenho escutado possivelmente por conta da minha maior intimidade com ele. Sobre este disco e esta intimidade, uma anedota do meu \u00e1lbum de mem\u00f3rias musicais: em 1992, ano de seu lan\u00e7amento, eu tinha 13 anos e apenas iniciava minha vida de mel\u00f4mano, experi\u00eancia muito diferente do que imagino que deve ser hoje em dia, afinal, eram os tempos pr\u00e9-internet e n\u00f3s descobr\u00edamos nossa m\u00fasica gravando fitas cassetes, ouvindo r\u00e1dio, visitando lojas de discos etc. O furac\u00e3o Metallica havia acabado de devastar a paisagem sonora mundial e deslocado o eixo da Terra em alguns graus, e embora eu praticamente desconhecesse a banda (o Metallica) e n\u00e3o tivesse acesso aos seus discos, eu j\u00e1 tinha reparado em *Nothing Else Matters*, que tocava incessantemente nas r\u00e1dios, e queria muito conhecer o \u00e1lbum que a trazia. Contudo, antes que pudesse saber que disco seria este, certo dia vi o *Countdown to Extinction* em uma loja de discos e, deslumbrado com a imagem de sua capa e confundindo os nomes das duas bandas (cujos logotipos eram praticamente id\u00eanticos), conclu\u00ed \u2014 ou, por via da autoridade suprema que eu me auto-atribu\u00eda em meu mundo de crian\u00e7a, eu *decidi* \u2014 que aquele era o disco em que se encontrava *Nothing Else Matters*. Talvez eu n\u00e3o soubesse exatamente o t\u00edtulo da can\u00e7\u00e3o, nem devo ter me dado ao trabalho de ler o tracklist: para mim era evidente que aquela imagem da capa do \u00e1lbum, o velhinho magricela enclausurado, *era* a imagem de *Nothing Else Matters*, a representa\u00e7\u00e3o visual exata e indiscut\u00edvel da can\u00e7\u00e3o, e portanto era neste disco que esta faixa estava. Qual n\u00e3o foi minha decep\u00e7\u00e3o, logo depois, ao descolar uma grava\u00e7\u00e3o em fita cassete de *Countdown to Extinction* e n\u00e3o ouvir *Nothing Else Matters* em lugar nenhum\u2026 Mas a for\u00e7a daquela certeza na \u00e9poca foi tal que ainda hoje, sempre que eu a escuto, me v\u00eam \u00e0 mente a imagem do velhinho semi-morto levitando!\r\n\r\n**John Carpenter - Lost Themes III: Alive After Death**\r\n\r\nEu estava agoniado com a falta deste disco em nossa estante. Lan\u00e7ado durante a pandemia, demorou demais at\u00e9 conseguirmos enfim preencher a lacuna aberta ao lado dos dois primeiros volumes. N\u00e3o que tenha sido uma surpresa, mas o disco \u00e9 maravilhoso, n\u00e3o fica devendo nada aos dois primeiros volumes. John Carpenter n\u00e3o perde a m\u00e3o para esse tipo de m\u00fasica que ele ajudou a inventar, embora eu desconfie que os aportes de seus colaboradores (Cody Carpenter, seu filho, e Daniel Davies, filho de Dave Davies, do Kinks) n\u00e3o sejam pequenos, afinal, o mestre vai se aproximando dos seus 80 anos. Seus filmes fazem falta, mas enquanto ele continuar lan\u00e7ando temas perdidos ou mesmo reciclados, a gente perdoa.\r\n\r\n**Tears for Fears - Songs From The Big Chair**\r\n\r\nOs reis inquestion\u00e1veis da nossa vitrola em fevereiro, contudo, foram Roland Orzabal e Curt Smith \u2014 o Tears for Fears. Essa dupla tem lugar especial aqui em casa, junto com o Talk Talk, o Necks e poucos outros: na d\u00favida, na hesita\u00e7\u00e3o, no cansa\u00e7o que nubla os sentidos e confunde as vontades, s\u00e3o seus discos que tiramos da estante. E eles jamais nos deixam na m\u00e3o. Confesso n\u00e3o entender direito como funciona a banda \u2014 quem \u00e9 quem, quem toca e canta o qu\u00ea \u2014 mas disso sempre tive certeza: s\u00e3o dois dos melhores artes\u00e3os da m\u00fasica pop de uma \u00e9poca em que artistas costumavam ainda se esmerar, prioritariamente, em sua m\u00fasica, pois era ela que os representava acima de tudo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"detalhe da capa do \u00e1lbum *Countdown to Extinction* do Megadeth.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":867,"title":"Alguma m\u00fasica","post_timestamp":"2024-02-03T23:43:49+00:00","url":"Alguma_musica","post":"Pretendo, sim, manter o h\u00e1bito completamente in\u00fatil para o mundo e fundamentalmente necess\u00e1rio para mim de escrever com algum vagar e reflex\u00e3o acerca dos \u00e1lbuns que escuto, examinando as rea\u00e7\u00f5es que eles me causam, as associa\u00e7\u00f5es que arquitetam em minha mente, etc. Pena que n\u00e3o vai ser deste vez. [De novo](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Melhores_discos_de_2023). A vida continua complicada \u2014 a situa\u00e7\u00e3o permanece \u201crussa\u201d, como diz um amigo. Mas ao redor de mim, nas \u00faltimas semanas, ressurgiu enfim alguma m\u00fasica, e embora o pressentimento de emerg\u00eancia teime em n\u00e3o dissipar-se, poder dedicar novamente algum tempo para uma atividade que tem como benefici\u00e1rio \u00fanico eu mesmo foi um grande alento, uma esperan\u00e7a renovada. Colocar enfim o *Ten* do Pearl Jam para tocar e bradar a plenos pulm\u00f5es (em sil\u00eancio, para dentro) \u201cooooh-aaaah-ooooh I\u2019m still alive-eeeeeh\u201d \u2014 isto foi at\u00e9 algo mais: foi extasiante. Eu j\u00e1 estava cansado de ficar continuamente reproduzindo este \u00e1lbum em minha imagina\u00e7\u00e3o: isso exige concentra\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que, no tumulto dos \u00faltimos meses, ficou pelo caminho, perdida em algum desv\u00e3o, algum transtorno, crise ou quarto de hospital. Algu\u00e9m ainda escuta ao *Ten*? Eu escuto. *Release* ainda me arrepia a pele dos bra\u00e7os, mas confesso que a atra\u00e7\u00e3o maior deste \u00e1lbum atualmente, para mim, \u00e9 que ele sempre me lan\u00e7a de volta aos corredores do pr\u00e9dio onde passei a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, a lembran\u00e7a de certa luminosidade de fim de tarde que deixava tudo meio m\u00e1gico e dourado nos fundos do pr\u00e9dio, no momento em que a meninada toda se desembara\u00e7ava dos pais e do col\u00e9gio e se encontrava por ali para ficarmos vadiando e ouvindo m\u00fasica e gravando fitas cassetes. Bons tempos. Outros tempos. Das rela\u00e7\u00f5es afetivas sendo costuradas hoje, em meio \u00e0s tormentas, ao cansa\u00e7o e \u00e0s pequenas alegrias: \u00e9 uma pena que eu tenha conhecido a m\u00fasica de Steve Gunn nesta \u00e9poca t\u00e3o problem\u00e1tica de minha vida; a associa\u00e7\u00e3o de uma coisa com a outra temo que ser\u00e1 para sempre inevit\u00e1vel. Mas tudo bem. O esgotamento f\u00edsico h\u00e1 de passar e as cicatrizes ps\u00edquicas h\u00e3o de me ensinar alguma coisa. *The Unseen in Between*, pensando bem, \u00e9 trilha-sonora para a vida, e a vida \u00e9 assim mesmo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Noite de ver\u00e3o na praia*, de Edvard Munch","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":866,"title":"Melhores discos de 2023","post_timestamp":"2024-01-09T00:38:46+00:00","url":"Melhores_discos_de_2023","post":"Antes de escrever alguma coisa sobre meus discos favoritos de 2023, uma observa\u00e7\u00e3o: praticamente n\u00e3o houve m\u00fasica em minha vida ao longo do \u00faltimo m\u00eas do ano que passou, e por conta disso \u00e9 que n\u00e3o publicarei um \u201cDiscos do m\u00eas - Dezembro de 2023\u201d. Fui atropelado com tal virul\u00eancia por uma s\u00e9rie de problemas, naquelas \u00faltimas semanas, que mesmo do alicerce essencial da minha vida, a m\u00fasica, tive de abdicar provisoriamente para conseguir tempo suficiente para cuidar de tudo que me foi exigido. E mesmo assim n\u00e3o houve tempo. E tudo desmoronou. Mas continuo vivo, e na \u00faltima semana de 2023 a velha e inquebrant\u00e1vel can\u00e7\u00e3o do Pearl Jam que brada catarticamente essa mesma constata\u00e7\u00e3o soou o tempo todo em meu c\u00e9rebro \u2014 pena que, tendo passado boa parte do tempo longe de casa e de meus discos, n\u00e3o pude escut\u00e1-la. (Suponho que poderia t\u00ea-la escutada via YouTube, mas isso, eu que possuo pelo menos quatro vers\u00f5es do *Ten* em casa, entre CDs, vinis, vers\u00f5es originais e relan\u00e7amentos, isso eu me nego a fazer.) Continuo vivo, e tendo passado por tudo que passei ao longo de 2023 e, principalmente, nas \u00faltimas semanas do ano, \u00e9 muito pouco prov\u00e1vel que 2024 n\u00e3o venha a ser um ano bastante melhor do que foi 2023, de um ponto de vista estritamente pessoal. E isso me anima! Quanto aos discos de 2023, como de h\u00e1bito, fui anotando ao longo do ano tudo que escutava e gostava, e n\u00e3o foi tarefa f\u00e1cil eliminar depois uma por\u00e7\u00e3o deles de modo que restassem apenas 14 para citar neste post. Mas a\u00ed est\u00e3o eles, em ordem alfab\u00e9tica:\r\n\r\n- Autopsy - Ashes, Organs, Blood and Crypts\r\n- Big|Brave - Nature Morte\r\n- Blonde Redhead - Sit Down for Dinner\r\n- Enslaved - Heimdal\r\n- Full of Hell \u0026 Nothing - When No Birds Sang\r\n- Kali Malone - Does Spring Hide Its Joy\r\n- Krallice - Porous Resonance Abyss\r\n- Majesties - Vast Reaches Unclaimed\r\n- Meg Baird - Furling\r\n- Quatuor Diotima - Metamorphosis Ligeti\r\n- Shylmagoghnar - Convergence\r\n- Slowdive - Everything Is Alive\r\n- Tim Hecker - No Highs\r\n- Yo La Tengo - This Stupid World\r\n\r\nUm monte de discos de metal, percebe-se, e n\u00e3o \u00e9 por acaso. Pela expurga\u00e7\u00e3o, pelo apaziguamento da puls\u00e3o de viol\u00eancia, pelo transporte r\u00e1pido a outros mundos, quaisquer que fossem \u2014 o metal foi, sem d\u00favida, a trilha-sonora predominante do meu 2023, a m\u00fasica que ajudou-me a atravessar um ano calamitoso do in\u00edcio ao fim. Os discos do Autopsy e do Full of Hell testemunham que o grau de agress\u00e3o que consumo em minha dieta metaleira aumentou bastante, conforme eu j\u00e1 tinha referido [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Novembro_de_2023). Mas se tivesse que eleger o \u00e1lbum favorito dentre os favoritos, o escolhido teria nome e sobrenome humanos ao inv\u00e9s de denomina\u00e7\u00e3o macabra: Tim Hecker e seu [*No Highs*](https:\/\/timhecker.bandcamp.com\/album\/no-highs). Lembro imediatamente de trechos deste disco quando, pensando em retrospecto, ressurgem em minha mente alguns dos poucos bons momentos que tive em 2023 (em geral, caminhadas de manh\u00e3 bem cedo com este \u00e1lbum nos fones de ouvido). Pouco abaixo estaria o disco de Meg Baird, cuja primeira faixa sempre me lembra os momentos iniciais de *Exodus*, do Bob Marley, n\u00e3o por semelhan\u00e7a musical, mas sim pela sensa\u00e7\u00e3o de majestade, de verdadeira majestade, desadornada de ouro e repleta de riquezas do esp\u00edrito. Adi\u00e7\u00e3o de \u00faltima hora \u2014 s\u00f3 fui escut\u00e1-lo em dezembro \u2014 foi o disco dos meus queridos do Yo La Tengo. Minha rela\u00e7\u00e3o com essa banda \u00e9 de uma proximidade especial, adoro-os de um modo afetuoso que dedico a bem poucas outras bandas. A m\u00fasica do Yo La Tengo h\u00e1 tempos cresce comigo. Por fim, lament\u00e1vel foi deixar de fora os discos das [Melenas](https:\/\/melenas.bandcamp.com\/album\/ahora) e do [Rid of Me](https:\/\/ridofme.bandcamp.com\/album\/access-to-the-lonely), mas, citando-os desse modo, voc\u00eas ficam sabendo que adorei-os e assim atenuo um pouco a frustra\u00e7\u00e3o. Golpe sujo, que repito ano ap\u00f3s ano! Que os poucos amigos e amigas que me l\u00eaem por aqui, e com quem quase certamente n\u00e3o me comuniquei nos derradeiros dias de 2023, tenham todos um feliz 2024.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*A Morte Cansada*, de Pavel Karlovich Venig, copiada [aqui](https:\/\/fineartamerica.com\/featured\/tired-pavel-karlovich-venig.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":865,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2023","post_timestamp":"2023-12-09T14:16:35+00:00","url":"Discos_do_mes_Novembro_de_2023","post":"**Blonde Redhead - Sit Down For Dinner**\r\n\r\nMas que disco bonito este novo do Blonde Redhead. H\u00e1 um ar de contempla\u00e7\u00e3o e de experi\u00eancia muito envolventes, um tom que parece decrescido de algo urgente anterior, urg\u00eancia que se esvaziou e transmutou-se em outra coisa, mas ainda cheia de *pathos* e de alma. \u00c9 o tipo de m\u00fasica que os ouvidos mais calejados compreendem imediatamente ser fruto da trajet\u00f3ria de verdadeiros artistas, o oposto daquela mais corriqueira, que se apresenta sem constrangimentos como produto premeditado e fabricado para fins comerciais (seja l\u00e1 quais forem as medidas disso hoje em dia; YouTube? Spotify?; cliques em redes sociais?; ando meio por fora). Eu, embora muito j\u00e1 tenho ouvido falar desta banda, n\u00e3o conhe\u00e7o praticamente nada deles, mas a partir unicamente deste disco tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que poderia talvez deduzir toda a sua hist\u00f3ria, tal a riqueza de impress\u00f5es que ele me transmite. Poderia tentar, mas n\u00e3o o farei; escutarei aos outros \u00e1lbuns, coisa que deveria ter feito j\u00e1 h\u00e1 muito tempo.\r\n\r\n**Paysage D\u2019Hiver - Die Festung**\r\n\r\nCerta vez li em algum lugar que o camarada do Paysage D\u2019Hiver, sempre que tem um disco novo para lan\u00e7ar, convida as amizades mais chegadas para uma festa em uma cabana localizada em algum lugar remoto e gelado onde, aquecidos pelo fogo de uma lareira, todos ganham uma vers\u00e3o em vinil do novo \u00e1lbum e escutam \u00e0s novas m\u00fasicas enquanto bebem cerveja artesanal preparada especialmente para a ocasi\u00e3o. Ser\u00e1? Parece-me uma hist\u00f3ria boa demais para ser verdade, ou, no m\u00ednimo, a vers\u00e3o aumentada de uma hist\u00f3ria mais simples, ap\u00f3s o relato ter passado de boca para boca (ou de site para site) in\u00fameras vezes, cada conto aumentando um ponto. Talvez eu mesmo tenha acabado de acrescentar um ou dois. Seja como for \u2014 mesmo que o camarada apenas re\u00fana alguns amigos e compre cerveja na esquina mesmo \u2014 tenho certeza que o evento \u00e9 bem mais divertido do que [isto](https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/taylor-swift-pm-mobiliza-operacao-de-guerra-para-shows-em-sp\/). Arte feita para esp\u00edritos afins, e n\u00e3o para multid\u00f5es\u2026 Faz bem mais sentido para mim. A m\u00fasica do Paysage D\u2019Hiver eu acho que j\u00e1 descrevi por aqui: black metal do tipo mais \u00e1spero e ofensivo aos sentidos; as guitarras fazem um zumbido dos infernos, a bateria est\u00e1 no limite da compreens\u00e3o humana; tudo, na verdade, soa extremo e absurdo, como se fosse um exerc\u00edcio de resist\u00eancia, de obstina\u00e7\u00e3o diante de uma tortura. E, no entanto, no fim das contas, a m\u00fasica n\u00e3o soa meramente a soma (que seria, presumivelmente, repulsiva) destas partes; uma m\u00e1gica opera-se nesta equa\u00e7\u00e3o, uma alquimia transforma o caos em algo novo e diferente. Apenas ouvindo para entender. \u00c9 por isso que volto frequentemente ao black metal, n\u00e3o obstante o asco que me causam as tantas bandas abertamente racistas e nacionalistas que infestam o g\u00eanero: volto porque outras tantas dominam certos truques que n\u00e3o escuto em nenhum outro quadrante do reino da m\u00fasica.\r\n\r\n**Nasum - Human 2.0**\r\n\r\nN\u00e3o sei bem o motivo, mas ultimamente tenho gostado bastante de submeter meus ouvidos a massacres sonoros ainda maiores do que os de costume. Culminou que, \u00e0 minha dieta metal\u00eara habitual, andei acrescentando algumas bandas de grindcore e afins. Posso especular: sendo a m\u00fasica (como todas as outras artes) tamb\u00e9m uma forma de darmos vaz\u00e3o e experienciar coisas que na vida real a moral e os bons costumes nos inibem de fazer, ent\u00e3o, considerando que minha vida pessoal tornou-se algo que beira o caos, tamb\u00e9m minha m\u00fasica deve subir um patamar, para que nela eu possa experimentar algo diferente, algo mais intenso do que aquilo que normalizou-se em meu dia-a-dia. Restou-me, portanto, recorrer a bandas cuja m\u00fasica brutal, antes, com uma ou outra rara exce\u00e7\u00e3o, me repelia. \u00c9 de Nasum que estamos falando, minha gente, mestres absolutos na arte da viol\u00eancia s\u00f4nica, mas n\u00e3o completamente destitu\u00eddos de um filete de sensibilidade mel\u00f3dica. Mestres que pouca coisa mais, al\u00e9m de seus discos, poderia distinguir melhor sua biografia \u2014 o frontman ter [morrido em um tsunami](https:\/\/blabbermouth.net\/news\/nasum-frontman-confirmed-dead), talvez? Em geral, depois de uma sess\u00e3o de flagela\u00e7\u00e3o com um disco como este *Human 2.0*, sinto-me um pouco mais preparado e cascudo para continuar enfrentando a batalha.\r\n\r\n**Gel - Only Constant**\r\n\r\nMas tem o seguinte: quando \u00e0 frente da banda h\u00e1 uma voz masculina, como ainda \u00e9 a maioria absoluta dos casos, essas bandas de hardcore, grindcore e outros *cores* tendem inevitavelmente ao f\u00edsico e ao est\u00e9tico, at\u00e9 porque n\u00e3o se entende nada do que os caras berram. Quando, por outro lado, a voz \u00e9 feminina, a coisa costuma ganhar um ar pol\u00edtico leg\u00edtimo e visceral. Porque elas (ou quaisquer que sejam as identidades n\u00e3o-masculinas) t\u00eam, evidentemente, muito mais do que reclamar, muito mais motivos para estarem fulas da vida e ansiosas por conflito e revolu\u00e7\u00e3o. Homens em geral est\u00e3o nessa por conta do expurgo f\u00edsico, do suor, das rodas de pogo; elas, porque \u00e9 arte radical contra o inimigo que denunciam e que querem derrubar. Ou seja, fica ainda melhor. Este [disco do Gel](https:\/\/gelhc.bandcamp.com\/album\/only-constant) est\u00e1 na minha primeira lista de melhores de 2023; [este do Rid of Me](https:\/\/ridofme.bandcamp.com\/album\/access-to-the-lonely) tamb\u00e9m.\r\n\r\n**Tim Hecker - Ravedeath, 1972**\r\n\r\nE nos intervalos da pancadaria volto frequentemente ao feiticeiro Tim Hecker. Dia desses, ouvindo este [*Ravedeath, 1972*](https:\/\/timhecker.bandcamp.com\/album\/ravedeath-1972) e tentando entender o fasc\u00ednio desta m\u00fasica, me ocorreu o seguinte: eu adoro os sons do Aphex Twin, do Autechre, do Burial, entre outros. A m\u00fasica destes, por\u00e9m, n\u00e3o esconde o que ela \u00e9: m\u00fasica feita por seres humanos manipulando computadores. Elas v\u00e3o ao limite, a ponto mesmo de soarem, \u00e0s vezes, sobre-humanas \u2014 ao menos para n\u00f3s neste nosso atual momento hist\u00f3rico; talvez dentro de algumas d\u00e9cadas, para as gera\u00e7\u00f5es que desconhecer\u00e3o o que \u00e9 andar descal\u00e7o sobre a grama, elas venham a soar muito vulgarmente humanas\u2026 Mas eu dizia, podem at\u00e9 soar sobre-humanas, \u00e0s vezes, mas n\u00e3o chegam a nos iludir completamente: sua origem \u00e9 mesmo este mundo e esta tecnologia que reconhecemos, \u00e9 inequivocamente obra de *homo sapiens*, um pouco mais ousados, talvez, apenas isto. A m\u00fasica de Hecker, por outro lado, parece coisa de outra ordem. \u00c9 como se fosse um deslocamento. Imagine que nosso mundo e nosso universo fossem diferentes; imagine que as for\u00e7as exercidas por pr\u00f3tons e el\u00e9trons, desde l\u00e1 o come\u00e7o imediatamente ap\u00f3s o Big Bang, fossem sutilmente superiores ou inferiores, o suficiente para que, bilh\u00e3o de anos ap\u00f3s bilh\u00e3o de anos, a natureza tivesse evolu\u00eddo por um outro caminho e redundado em outros seres, outros astros, outros elementos. \u00c9 isso: em uma outra ordem natural, ao mesmo tempo plaus\u00edvel e radicalmente diferente, os sons que ordinariamente escutariam os seres vivos, ao inv\u00e9s do vento, dos carros e dos passarinhos, talvez fossem algo parecido com a m\u00fasica de Hecker. Um registro sonoro diferente causado pelos fen\u00f4menos outros de uma outra natureza.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"copiada [daqui](https:\/\/www.reddit.com\/r\/boston\/comments\/67x05a\/mits_piano_drop_is_returning_today_at_330_pm_the\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":864,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2023","post_timestamp":"2023-11-02T21:07:32+00:00","url":"Discos_do_mes_Outubro_de_2023","post":"\r\n**Ulver - Scary Muzak**\r\n\r\nA capa deste [disco](https:\/\/www.discogs.com\/master\/2360620-Ulver-Scary-Muzak) \u00e9 indesculp\u00e1vel, mas o apelo do selo Ulver de excentricidade \u00e9 mais forte. Permeado pelo esp\u00edrito das trilha-sonoras do John Carpenter (e, de fato, alguns temas originais de Carpenter s\u00e3o homenageados por aqui), *Scary Muzak* j\u00e1 est\u00e1 incorporado \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es que mantemos para a temporada de Halloween aqui em casa, tanto quanto os discos do King Diamond, os filmes do Vincent Price e a noite do goulash, [receita h\u00fangara](https:\/\/www.theguardian.com\/lifeandstyle\/wordofmouth\/2014\/apr\/03\/how-to-cook-perfect-goulash-hungarian) que sempre fazemos em outubro e dedicamos \u00e0 mem\u00f3ria de Bela Lugosi. Ulver \u00e9 um enigma para mim; percebam que escrevi \u201cselo de excentricidade\u201d a\u00ed em cima, e n\u00e3o o tradicional \u201cde qualidade\u201d, uma vez que nem tudo que escuto deles me agrada. Um tanto de seus discos, na verdade, me soam como que oportunistas\u2026 \u00c9 como se fossem artistas perform\u00e1ticos, periodicamente experimentando e assumindo diferentes personas, a m\u00fasica um mero subproduto ref\u00e9m destas metamorfoses. Tipo a Madonna. Fico muito desconfiado disso, mas deste *Scary Muzak* eu gosto bastante, sem reservas.\r\n\r\n**SQ\u00dcRL - Silver Haze**\r\n\r\nE o disco do SQ\u00dcRL, cuja [antecipa\u00e7\u00e3o eu mencionava em abril](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Abril_de_2023), me decepcionou um bocadinho. O problema \u00e9 que algumas faixas parecem extra\u00eddas quase *ipsis litteris* do manual de praxes e esoterismos do Sunn O))) e do Earth, e isso me distrai o tempo todo da experi\u00eancia da m\u00fasica, cuja deriva\u00e7\u00e3o de outros artistas por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 (n\u00e3o acho) algo conden\u00e1vel, por\u00e9m espera-se sempre algum toque pessoal, alguma nuance de releitura, algum escr\u00fapulo. Aqui, ao inv\u00e9s disso, tais faixas soam como se fossem projetos finais de dedicad\u00edssimos alunos de um curso universit\u00e1rio sobre como emular os citados baluartes da m\u00fasica sombria. A faixa *She Don\u0027t Wanna Talk About It*, por exemplo, \u00e9 c\u00f3pia sem pudores de algo que eu j\u00e1 escutei anteriormente em outro lugar, acho que em um disco mais recente do Earth. Mas *Silver Haze* n\u00e3o \u00e9 um erro completo. Os acertos justificam, se n\u00e3o todo o resultado, ao menos a tentativa. A faixa que o encerra (e que lhe empresta o t\u00edtulo) \u00e9 fant\u00e1stica. Eu n\u00e3o me importaria se Jarmusch e seu parceiro Carter Logan tivessem feito dela o \u00e1lbum inteiro, alongando-a por todas as dire\u00e7\u00f5es, ora diluindo, ora saturando, uma hora e pouco de sublime poeira el\u00e9trica. O resultado certamente inscreveria-se em minha lista dos melhores discos de 2023.\r\n\r\n**V\u00edkingur \u00d3lafsson - From Afar**\r\n\r\nEspero que ningu\u00e9m esteja me lendo pois vou confessar um preconceito: desgosto de pessoas excessivamente arrumadas, limpas e alinhadas. Eu poderia me justificar dizendo que de t\u00e3o aplicadas em retocar suas apar\u00eancias essas pessoas acabam se parecendo artificiais, como se fossem bonecos ou rob\u00f4s, mas provavelmente \u00e9 s\u00f3 inveja minha mesmo, inveja de quem tem tempo para ficar tanto tempo diante de um espelho, enquanto eu \u2014 brasileiro m\u00e9dio com todos os problemas dos brasileiros m\u00e9dios e mais uns tantos outros pessoais \u2014 estou sempre muito atarefado e cansado e isto certamente se reflete em minha apar\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 que eu goste de desleixo, mas o desleixo ultimamente me procura com insist\u00eancia. Vejam como se apresenta o pianista island\u00eas V\u00edkingur \u00d3lafsson na capa [deste disco](https:\/\/www.discogs.com\/release\/24814985-V\u00edkingur-\u00d3lafsson-From-Afar): o rapaz alguma vez teve barba na cara? Aquilo \u00e9 um cabelo ou algo projetado e implantado em sua cabe\u00e7a? Os \u00f3culos, as roupas \u2014 acess\u00f3rios de quem decerto folheia revistas de moda e viaja periodicamente \u00e0 Mil\u00e3o para renovar seu guarda-roupas. Sujeitos assim moram em Viena, em Oslo, compram sapatos de bico fino. Malditos. Feita a confiss\u00e3o, agora o merecido elogio: que lind\u00edssimo disco este seu *From Afar*. N\u00e3o sei dizer se \u00d3lafsson est\u00e1 acima da m\u00e9dia em termos de compet\u00eancia t\u00e9cnica, ou pelo menos n\u00e3o \u00e9 o que transparece aqui; o que transparece cristalinamente \u00e9 a arg\u00facia na escolha do repert\u00f3rio e a atmosfera acolhedora de in\u00edcio de primavera no alvorecer do mundo. O toque de \u00d3lafsson \u00e9 sereno, gentil, espa\u00e7ado; sua apresenta\u00e7\u00e3o, um convite \u00e0 respira\u00e7\u00e3o e \u00e0 medita\u00e7\u00e3o. A maestria est\u00e1, portanto, na formata\u00e7\u00e3o da obra, no quadro geral que ela vai pintando descansadamente de faixa \u00e0 faixa, nota \u00e0 nota. Ao contr\u00e1rio dessa virtude da min\u00facia quando aplicada \u00e0s roupas e aos cabelos, na m\u00fasica eu a aprecio muito.\r\n\r\n**Tangerine Dream - Near Dark Soundtrack**\r\n\r\nIsso me acontece com relativa frequ\u00eancia: assistir a um filme e n\u00e3o ach\u00e1-lo grande coisa, e ent\u00e3o, passado um tempo, rev\u00ea-lo e achar \u00f3timo. Um dos meus filmes favoritos, *Local Hero* (mencionado [aqui](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Agosto_de_2021)), fez este percurso; *Near Dark*, que revi uns dias atr\u00e1s, n\u00e3o creio que chegar\u00e1 algum dia a figurar entre meus prediletos, mas tamb\u00e9m ele me pareceu muito melhor do que a lembran\u00e7a que eu guardava da primeira ocasi\u00e3o em que o assisti. Se isso significa que meu c\u00e9rebro e meus gostos e minha pr\u00f3pria personalidade est\u00e3o ainda em desenvolvimento, fico satisfeito, afinal, n\u00e3o me vejo pronto ainda para assentar-me sobre os louros da minha grande derrota. O filme agora penso que \u00e9 muito bom, mas algo me incomodava enquanto o assistia: o uso muito estranho que \u00e9 feito da m\u00fasica do Tangerine Dream. Ela est\u00e1 quase que o tempo todo l\u00e1, soando ao fundo da a\u00e7\u00e3o: mesmo quando n\u00e3o deveria haver m\u00fasica alguma, l\u00e1 est\u00e1 ela, baixinha, intrusa; quando devia ressoar em alto e bom som, ela n\u00e3o muda, permanece baixinha, sumida, como se n\u00e3o fosse digna do filme. Creio que faltou dinheiro para pagar o especialista no controle do bot\u00e3o de volume\u2026 Sorte que a trilha-sonora foi lan\u00e7ada em [disco](https:\/\/www.discogs.com\/master\/14510-Tangerine-Dream-Near-Dark-Original-Motion-Picture-Soundtrack), podemos ouvi-la em casa e no volume adequado a qualquer momento. Dizer que \u00e9 \u00f3tima \u00e9 redundante: mesmo sendo o Tangerine Dream no piloto autom\u00e1tico de tantas outras trilhas-sonoras desta mesma \u00e9poca, \u00e9 excelente.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"cena do filme *Near Dark*, imagem copiada [daqui](https:\/\/www.fangoria.com\/original\/near-dark\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":863,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2023","post_timestamp":"2023-10-01T16:43:38+00:00","url":"Discos_do_mes_Setembro_de_2023","post":"Voltei ao Nirvana ap\u00f3s ser assaltado pela lembran\u00e7a de *Spank Thru*, desde sempre uma das minhas faixas favoritas da banda (e, de acordo com Krist Novoselic nas notas de *From the Muddy Banks of the Wishkah*, \u0022the first Nirvana song\u0022). Dos CDs que tenho, *From the Muddy\u2026* \u00e9 o \u00fanico que traz *Spank Thru* em seu tracklist, ent\u00e3o foi este que puxei da estante e por uma semana e pouco n\u00e3o o larguei mais. Por aqueles dias, no come\u00e7o de setembro, eu andava ouvindo tamb\u00e9m ao *Use Your Illusion* do Guns N\u2019 Roses, na recente edi\u00e7\u00e3o especial que compila os dois volumes remasterizados junto com as grava\u00e7\u00f5es de dois shows, e constatei novamente todos os enormes contrastes que existiam entre os dois grupos. Eram duas bandas formadas por jovens brancos norte-americanos que tocavam rock \u2019n\u2019 roll no limite da agress\u00e3o ent\u00e3o permitida pelos c\u00e1lculos de viabilidade comercial de ampla escala (um pouco al\u00e9m deste limite, talvez, ao que a ind\u00fastria do entretenimento logo se adaptou, gra\u00e7a e m\u00e9rito de ambas as bandas), mas o que elas tinham em comum fica por a\u00ed; de resto, habitavam gal\u00e1xias diferentes, como todo o mundo sabe. Mas no que eu mais reparei desta vez \u00e9 como, ao contr\u00e1rio dos discos do Guns, em cujos tracklists cada faixa extraordin\u00e1ria, cada hino de todo garoto e n\u00e3o poucas garotas que ouviram r\u00e1dio nos anos 80 precede e sucede tr\u00eas ou quatro engodos completamente irrelevantes e descart\u00e1veis, e no caso deste *Use Your Illusion* o todo formando, n\u00e3o obstante os hinos, um maratona cansativa demais que nunca deveriam ter permitido que fosse embalada assim num \u00fanico pacot\u00e3o sob o risco de diminuir o legado da banda, efeito para o qual o mero fato do Guns continuar existindo j\u00e1 deveria ser mais do que suficiente \u2014 o que eu mais reparei, resumindo, em abissal contraste para com o repert\u00f3rio do Guns N\u2019 Roses, \u00e9 como cada faixa do Nirvana era uma p\u00e9rola perfeita, o encapsulamento integralmente realizado de uma vis\u00e3o musical. Voc\u00ea pode n\u00e3o gostar, pode achar assim ou assado, Kurt Cobain isso, Kurt Cobain aquilo, n\u00e3o importa \u2014 o Nirvana existiu por um punhado de anos, deixou cerca de uma centena de can\u00e7\u00f5es originais gravadas e cada uma delas \u00e9 essencial, cada uma delas carrega consigo e reflete exuberantemente, ainda hoje, passados 30 anos da morte de seu compositor, a justificativa plena e completa para a exist\u00eancia desta banda. Cada uma delas, sem exce\u00e7\u00e3o, bastaria. N\u00e3o foi uma banda como outra qualquer, o Nirvana. Seguiu-se ao Guns e ao Nirvana, como n\u00e3o poderia deixar de ser, uma sess\u00e3o noventista, com seus altos (algumas grava\u00e7\u00f5es ao vivo do Pearl Jam safra 1994, 1995 \u2014 a banda em seu auge) e seus baixos, sendo que destes o ponto mais baixo, o fundo do po\u00e7o, foi o segundo disco do Silverchair, *Freak Show*, que coloquei para tocar depois de muitos anos apenas para confirmar se o disco era mesmo t\u00e3o ruim quanto eu lembrava. \u00c9. Penso que os rapazes da banda n\u00e3o precisavam ter elaborado t\u00edtulos para as faixas; para efeito de praticidade bastava indicar a quem plagiavam em cada uma delas: \u201cnessa n\u00f3s fingimos ser o Nirvana\u201d (*Lie to Me* n\u00e3o \u00e9 simplesmente *Territorial Pissings*?), \u201cnessa, o Alice in Chains\u201d, \u201cnessa, o Soundgarden\u201d, e por a\u00ed vai. Se quisessem soar cr\u00edpticos, ou bem-humorados, poderiam ter feito anagramas, sei l\u00e1. E as letras das can\u00e7\u00f5es, que coisa constrangedora. (N\u00e3o serem t\u00e3o ofensivamente ruins como as do Guns N\u2019 Roses n\u00e3o significa muita coisa.) Mas na metade final do disco, como recompensa para quem atravessa a inicial, escondem-se uma ou duas faixas menos ruins, que com um pouco de esfor\u00e7o e uma flexibilidade maior no meu senso de vergonha consigo at\u00e9 dizer que gosto, e foi o despertar de suas lembran\u00e7as o que me fez voltar ao *Freak Show* uns dias depois. O que agora n\u00e3o deve voltar a repetir-se antes de 2050. Ao Nirvana, Guns e Silverchair seguiu-se um passo cronologicamente para tr\u00e1s, em dire\u00e7\u00e3o aos anos 80, com uma renovada obsess\u00e3o pelo *The Colour Of Spring* do Talk Talk. Minha paix\u00e3o por esse disco j\u00e1 foi declamada por aqui em outras ocasi\u00f5es, ent\u00e3o hoje mencionarei apenas que talvez este disco tenha finalmente adentrado minha mais seleta lista dos favoritos de todos os tempos. Os dez, seria? Creio ser esta a mais concisa que posso fazer, ou talvez seja o caso de aument\u00e1-la agora para 15\u2026 Ao Nirvana, Guns, Silverchair e Talk Talk seguiram-se outras coisas, m\u00fasica sobretudo do reino do heavy metal, essa patologia da imaturidade para a qual n\u00e3o consigo achar cura (talvez devesse estar procurando pela maturidade). Nada muito memor\u00e1vel, em todo o caso, nada que tenha feito animarem-se meus dedos e neur\u00f4nios para registrar por aqui algum pensamento, alguma opini\u00e3o, alguma piadinha. E depois seguiu-se mais nada, j\u00e1 que o m\u00eas acabou. O pr\u00f3ximo post trar\u00e1 m\u00fasica escutada j\u00e1 sob os ausp\u00edcios da primavera, o que em outras \u00e9pocas teria grande significado para mim, por\u00e9m em 2023 algo parece fora de lugar: se o que tivemos h\u00e1 pouco foi um inverno, o que teremos na sequ\u00eancia ningu\u00e9m sabe o que ser\u00e1, ou fingimos n\u00e3o saber, ou optamos por sequer cogitar. Precisamos de uma pouco de paz, afinal de contas, para continuar a ferver o planeta e imprimir dinheiro com a m\u00e1xima efici\u00eancia poss\u00edvel. ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"detalhe da capa do \u00e1lbum *The Colour Of Spring*, copiado [daqui](https:\/\/www.nts.live\/shows\/early-bird-show-w-pam\/episodes\/early-bird-show-w-pam-30th-march-2023).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":862,"title":"O Metallica e eu","post_timestamp":"2023-09-09T14:33:17+00:00","url":"O_Metallica_e_eu","post":"Andei bastante ocupado nos \u00faltimos dias com uma atenta investiga\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica acerca de minha rela\u00e7\u00e3o com o Metallica. Porque ela n\u00e3o \u00e9 nada simples, do tipo \u201cgosto\u201d, \u201cn\u00e3o gosto\u201d, nem mesmo \u201cgosto apesar de\u2026\u201d ou \u201cdesgosto embora\u2026 \u201d, e eu gostaria de resolver isso, gostaria de enfim decidir se compro ou n\u00e3o compro uma camiseta da banda. Decidi n\u00e3o comprar, mas vou deixar aqui registradas algumas das anota\u00e7\u00f5es produzidas por estas sess\u00f5es de auto-an\u00e1lise. Em primeiro lugar, das raz\u00f5es ancestrais para minha teima com a banda, talvez a mais determinante seja o pr\u00f3prio nome da banda, uma bobagem que sempre me irritou. Um grupo nomear a si pr\u00f3prio com uma palavra inventada a partir de uma brincadeira com o g\u00eanero de m\u00fasica que toca sempre me pareceu uma coisa que antecede a infantilidade, algo que eu esperaria da Xuxa ou da Vov\u00f3 Malfada. Se fossem uma banda com o prop\u00f3sito manifesto de celebrar tal g\u00eanero, um projeto fundado sobre o revisionismo ou algo do tipo, eu at\u00e9 poderia entender, mas que nada; sequer da fantasia de escolher um nome do tipo \u201cBlack Sabbath\u201d ou \u201cIron Maiden\u201d, algo retirado de um cat\u00e1logo de filmes de terror ou de alguma medievalidade qualquer, sequer disso foram capazes. Mas at\u00e9 a\u00ed, tudo bem; de mal gosto para escolher um nome o Metallica certamente n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica banda que deve ser [acusada](https:\/\/loudwire.com\/dumbest-best-metal-band-names\/). Levantei ent\u00e3o outros motivos que citarei a seguir n\u00e3o sem antes avisar o leitor de que n\u00e3o ignoro a obviedade de que, em sua maioria, eles t\u00eam mais a ver com minhas pr\u00f3prias idiossincrasia projetadas na banda do que qualquer outra coisa: uma foto vista h\u00e1 muito tempo com os quatro sujeitos cheios de spaghetti e molho de tomate espalhado pelas caras, escorrendo pelas m\u00e3os, pendurado dentro dos narizes, uma nojeira; o som tosco, seco, grosseiro dos primeiros discos (que hoje em dia gosto bastante, mas antes me causava repulsa); o fato de James Hetfield, que considero um cantor excepcional, ser f\u00e3 de armas e ca\u00e7adas (aqui abro o par\u00eanteses para estender um pouco a an\u00e1lise: embora cada vez menos, eu ainda como carne, ou seja, sou parte da demanda que sustenta a gigantesca e cruel ind\u00fastria de abate de animais; o que me incomoda nos ca\u00e7adores, no entanto, \u00e9 a alegria e a soberba que fazem quest\u00e3o de demonstrar nas fotos que costumam tirar com os cad\u00e1veres dos animais que abatem, como se tais fotos retratassem os briosos vencedores de uma luta muito justa e muito igual, os ca\u00e7adores com suas armas de fogo e os animais com seus alheamentos de seres distra\u00eddos em seus ambientes naturais; h\u00e1 fotos de Hetfield sorridente sobre enormes ursos e veados mortos, posando orgulhoso de sua covardia, ostentando um sorriso boc\u00f3 de adulto mal-desenvolvido, completamente desligado do fato \u2014 divertindo-se com isso, at\u00e9 \u2014 de que acabara de inflingir dor e interromper uma vida, de decidir arbitrariamente pelo encerramento de uma exist\u00eancia antes de seu tempo; eles bem que podiam, em suma, Hetfield e o restante da banda, podiam parar totalmente de posar para fotos de qualquer esp\u00e9cie); os pr\u00f3prios f\u00e3s obtusos do Metallica, incapazes em sua maioria de reconhecer qu\u00e3o bom \u00e9 o disco *Load* (mas cujo encarte refor\u00e7a minha sugest\u00e3o de que a banda deveria evitar retratos), e at\u00e9 mesmo com o disco da capa preta muitos destes cabe\u00e7as-ocas implicaram na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, tudo porque a banda ousou elaborar um pouco mais sua m\u00fasica, dar-lhe um pouco de lustro, de sutileza\u2026 S\u00e3o estas, creio, as raz\u00f5es fundamentais para a minha birra com a banda, uma por\u00e7\u00e3o de bobagens e talvez hipocrisias, mas para isso mesmo \u00e9 que serve a psican\u00e1lise, para mostrar o qu\u00e3o bobos e hip\u00f3critas somos n\u00f3s, se tivermos a humildade de reconhecer. A m\u00fasica da banda, que est\u00e1 \u00e0 margem da maioria das quest\u00f5es elencadas acima, essa s\u00f3 fez crescer em mim ao longo dos anos, at\u00e9 mesmo a m\u00fasica dos discos mais antigos que tanto desgostei quando escutei-os pela primeira vez l\u00e1 pelos meus 11 ou 12 anos. A sensa\u00e7\u00e3o de ser esmurrado que o *Master of Puppets* proporcionava foi sendo atenuada \u00e0 medida que fui me tornando f\u00e3 de death metal, mas este continua sendo um \u00e1lbum colossal. Ser\u00e1 ele o melhor da banda? Ou ser\u00e1 seu antecessor? Nenhum disco que tenha faixas como *Fade to Black*, *For Whom the Bell Tolls* e *Creeping Death*, como as tem o *Ride the Lightning*, poder\u00e1 jamais deixar de ser inclu\u00eddo entre os melhores da hist\u00f3ria da m\u00fasica pesada, ou mesmo da m\u00fasica baseada em guitarras, ou mesmo da m\u00fasica el\u00e9trica. E h\u00e1 ainda o disco da capa preta, popularmente chamado *The Black Album*, que h\u00e1 de ser um destes raros que sobreviver\u00e1 ao tempo, ou pelo menos a uma enorme por\u00e7\u00e3o de tempo. Tudo isso pesado, considerado e analisado, resolvi assim minha longa cisma com o Metallica: reconhe\u00e7o de uma vez por todas que gosto da m\u00fasica da banda, gosto bastante de todos os discos deles que conhe\u00e7o \u2014 o que j\u00e1 deveria estar claro h\u00e1 muito tempo, haja visto que tenho-os todos \u2014 mas n\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o vai me ver vestindo uma camiseta deles, apesar daquelas desenhadas por Pushead serem t\u00e3o, t\u00e3o bonitas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de Fin Costello, copiada [daqui](https:\/\/www.rollingstone.com\/music\/music-news\/metallica-johnny-marsha-zazula-tribute-concert-1234599909\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":861,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2023","post_timestamp":"2023-09-03T17:42:03+00:00","url":"Discos_do_mes_Agosto_de_2023","post":"**Metallica - Metallica**\r\n\r\nFoi l\u00e1 pelo meio de agosto que a introdu\u00e7\u00e3o de *Enter Sandman* come\u00e7ou a repercutir insistentemente em meu c\u00e9rebro, e depois vieram os riffs de algumas das outras faixas daquele mesmo disco, a melodia de *The Unforgiven*\u2026 Fui sendo, pouco a pouco, acossado pelo \u201cBlack Album\u0022, e passei a escut\u00e1-lo quase que diariamente, um frenesi que durou cerca de duas semanas e culminou em algumas sess\u00f5es de auto-an\u00e1lise para ver se enfim eu decifrava e resolvia minha antiga cisma com o Metallica. Acho que vou escrever sobre isso depois; sobre o \u201cBlack Album\u201d (que oficialmente se chama apenas *Metallica*), este disco mais se parece uma arena onde todas as suas faixas travam luta sanguin\u00e1ria pelo t\u00edtulo de a melhor, sendo que, ao menos de acordo com meu ju\u00edzo, vence com tranquilidade *Nothing Else Matters*, que \u00e9 um destes momentos t\u00e3o bonitos de ser ver, uma banda sendo alvejada por um resplendor perfeito de inspira\u00e7\u00e3o, uma destas can\u00e7\u00f5es que de t\u00e3o irretoc\u00e1vel mais parece estar pronta e acabada desde o Big Bang, planejada de lambuja pelas pr\u00f3prias leis que arquitetaram todo o resto, t\u00e3o essencial ela se parece, t\u00e3o simples e sublime. E o fato dos f\u00e3s mais antigos da banda a detestarem corrobora plenamente minha tese de que os f\u00e3s antigos do Metallica est\u00e3o entre os seres humanos mais est\u00fapidos a caminhar sobre a Terra.\r\n\r\n**Yes - Big Generator**\r\n\r\nEis aqui um disco bastante bom, mas acima de tudo, conveniente. Conveniente porque ao escut\u00e1-lo satisfa\u00e7o de uma s\u00f3 vez duas das minhas extravag\u00e2ncias: Yes e [*Arena rock*](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Arena_rock). N\u00e3o fosse *Big Generator* e nas \u00faltimas semanas ao inv\u00e9s de ter perdido apenas umas cinco horas de minha vida eu teria perdido umas dez. Foi uma crise de identidade, isso pelo que passou o Yes nos anos 80? Eram t\u00e3o bons nisso \u2014 e olha que nem escutei ainda o disco que tem *Owner of a Lonely Heart* \u2014 que fico verdadeiramente em d\u00favida.\r\n\r\n**Barthold Kuijken, Marc Hanta\u00ef - Wilhelm Friedemann Bach: Six Duets For Two Flutes**\r\n\r\nN\u00e3o faz muito tempo e toda vez que eu pensava sobre qual seria meu instrumento musical favorito eu terminava sempre encalhado numa danada duma d\u00favida que parecia que n\u00e3o se resolveria nunca, ora cogitando o viol\u00e3o, ora o piano, ora a flauta. N\u00e3o que eu perdesse tanto tempo assim de minha vida pensando nisto, mas com vistas ao plano de um dia, quem sabe, se disp\u00f4r de algum tempo livre e disposi\u00e7\u00e3o, estudar teoria musical e aprender a tocar um instrumento, com vistas a este antigo desejo \u00e9 que por vezes me ocorria que poderia ser boa ideia adiantar-me e decidir logo qual \u00e9 meu instrumento favorito, para quando enfim a oportunidade se apresentasse eu n\u00e3o titubeasse e me inscrevesse logo em um curso de aprendizado do tal instrumento. Pensava nisso, ocasionalmente, e n\u00e3o me decidia\u2026 At\u00e9 que certo dia, cinco anos atr\u00e1s, estava sentado na areia da praia no fim da tarde, sem me ocupar de outra coisa que n\u00e3o observar e escutar (e pensar que j\u00e1 pude empregar meu tempo assim), quando vejo caminhando uma menina no traje inconfund\u00edvel da mochileira meio hippie t\u00e3o comum aqui onde moro durante o ver\u00e3o, estrangeira talvez, caminhando descal\u00e7a pela praia, aparentemente sem rumo, despreocupada. Passa reto por mim e segue seu caminho, mas alguns poucos metros adiante ela p\u00e1ra, larga umas bolsas surradas na areia e senta um pouco mais perto da linha d\u2019\u00e1gua do que eu, ou seja, de costas para mim, em uma posi\u00e7\u00e3o ainda ao alcance do meu raio de vis\u00e3o, ainda que meio perif\u00e9rica. E n\u00e3o pude deixar de notar quando, passados alguns instantes, ela abre uma das bolsas e de dentro tira uma flauta e come\u00e7a a toc\u00e1-la distraidamente, os olhos fixos no mar, iniciando e parando e reiniciando repetidamente uma melodia qualquer, talvez inventada ali na hora, n\u00e3o sei. A hist\u00f3ria seria \u00f3tima se fosse a garota uma ex\u00edmia instrumentista que tivesse decidido presentear a pequena audi\u00eancia \u2014 eu e algumas gaivotas \u2014 com um breve recital, uma apresenta\u00e7\u00e3o surpresa justo no meu lugar favorito do mundo, mas nem foi nada disso, e ela nem permaneceu ali mais do que cinco ou dez minutos. O que ocorreu, em todo o caso, foi um momento eureka, finalmente a resolu\u00e7\u00e3o para a minha velha d\u00favida sobre qual seria meu instrumento favorito, aquele que aprenderei a tocar acaso algum dia possa me dedicar a isso: oras, um piano n\u00e3o tem como levar na mochila e tocar na praia; um viol\u00e3o at\u00e9 pode-se carreg\u00e1-lo para l\u00e1 e para c\u00e1 sem muito esfor\u00e7o, mas n\u00e3o na mochila, n\u00e3o assim casualmente; a flauta, esta sim presta-se facilmente a isso. A flauta pode ser companheira de viagens e caminhadas e produzir m\u00fasica virtualmente em qualquer lugar, e n\u00e3o imagino crit\u00e9rio melhor do que este para definir o t\u00e3o prorrogado desempate. Al\u00e9m de tudo, percebo ainda uma esp\u00e9cie de afinidade entre eu e ela: n\u00e3o gostamos de ocupar muito espa\u00e7o, de pesar muito sobre esta terra quente e cansada\u2026 Enfim, estava decidido. Um dia, quem sabe. Enquanto isso venho escutando cada vez mais m\u00fasica feita para flauta. Existem at\u00e9 concertos para flautistas solos, por\u00e9m pe\u00e7as mais simples como sonatas, duetos etc. costumam me atrair mais justamente pela sintonia com o esp\u00edrito frugal do instrumento, e este disco com seis das obras de Wilhelm Friedemann Bach (primog\u00eanito do homem) para a flauta, tocadas pela dupla Barthold Kuijken e Marc Hanta\u00ef, \u00e9 meu favorito dentre todos os que tenho aqui comigo. Marc Hanta\u00ef \u00e9 provavelmente meu flautista predileto; a jovem da foto acima, em todo o caso, seja l\u00e1 onde ela estiver hoje, tem minha enorme gratid\u00e3o.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto por Fabricio C. Boppr\u00e9, no sul da Ilha de Santa Catarina, em abril de 2018.","author":{"name":"Fabricio C. 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De t\u00e3o artificial e de t\u00e3o ex\u00edmia imitadora dos cacoetes e cafonices daqueles grupos de outrora ela mais parece produto de alguma avan\u00e7ad\u00edssima tecnologia, uma mistura de IA com impressora 3D com biotecnologia que gera n\u00e3o apenas textos e opini\u00f5es, mas tamb\u00e9m seres humanos com roupas e can\u00e7\u00f5es e instrumentos, o Heart Line sendo a resposta desta geringon\u00e7a \u00e0 solicita\u00e7\u00e3o: \u201cgere-me, por gentileza, uma banda do s\u00e9culo 21 formada por sujeitos que n\u00e3o t\u00eam a menor vergonha em confessar seu amor por Boston e Bon Jovi\u201d. Perceber que sou parte da demanda que justifica a exist\u00eancia desse grupo \u00e9 constrangedor, mas o que posso fazer? N\u00e3o mencionar que escuto isso seria quebrar o pacto que tenho com meu principal leitor, eu mesmo. Mas descobri recentemente algo que ao menos pode-se dizer artigo genu\u00edno: o disco *Every Road* da canadense Shari Ulrich. \u00c9 ador\u00e1vel! A faixa *The Heartland*, al\u00e9m de repleta de todos os truques de est\u00fadio t\u00edpicos de seu tempo e sua voca\u00e7\u00e3o, come\u00e7a assim: \u201cThe city\u2019s humming \/ Got some money to spend \/ I wonder what I\u2019ll do tonight \/ Maybe call up a few of my friends \/ See a movie and go out for a bite \/ I\u2019ve been taking what I think I need \/ Making choices, making plans \/ But what I\u2019m seeing on my T.V. \/ Is something I don\u2019t understand\u201d. \u00c9 um sentimento e um imagin\u00e1rio bastante caros para mim, e suspeito que para muitos outros de minha gera\u00e7\u00e3o: o deslumbramento com a cidade e suas possibilidades surgindo concomitante com o princ\u00edpio (ou o agravamento mais expl\u00edcito) da fratura na humanidade destes espa\u00e7os, que come\u00e7avam a tornar-se grandes e descontrolados demais, fontes de alegria e descobertas, sim, mas tamb\u00e9m de perigo e afli\u00e7\u00e3o. Tudo visto nos notici\u00e1rios da TV e tamb\u00e9m presenciado *in loco*; a grande ambiguidade da vida urbana, a aventura inst\u00e1vel de tornar-se adulto sob o fasc\u00ednio e a inseguran\u00e7a de uma grande cidade. Usualmente n\u00e3o h\u00e1 Bob Dylans escrevendo as letras das can\u00e7\u00f5es das bandas de AOR, mas a experi\u00eancia comum cantada de um ponto de vista similar \u00e0s vezes capta minha aten\u00e7\u00e3o. C\u00e9us, uma lauda inteira sobre AOR \u2014 chega. Nem foi o som que mais escutei em julho: este posto deve pertencer ao BIG|BRAVE. Perdi a conta das ocasi\u00f5es em que recorri ao seu \u00faltimo disco, *nature morte*, para uma sess\u00e3o de deleite sensorial elementar, que n\u00e3o requisita ou n\u00e3o depende da media\u00e7\u00e3o do intelecto ou da nostalgia. O som do BIG|BRAVE \u00e9, para mim, puro prazer primitivo, o prazer do som por ele mesmo, do seu instant\u00e2neo ressoar no c\u00e9rebro, antes que se tenha tempo de pensar sobre o que se est\u00e1 ouvindo. Eu n\u00e3o entendo nada do que Robin Wattie canta e s\u00f3 posso esperar que isso n\u00e3o soe ofensivo. Sua voz \u00e9 de uma sonoridade distinta bel\u00edssima, ao mesmo tempo carregada e angelical, e sobre a cama daquelas guitarras monumentais ela acaba sempre me deixando petrificado, desfrutando da m\u00fasica como aquilo que ela \u00e9 antes de ser m\u00fasica \u2014 som, puro e simples som. Devo ficar parecendo com aqueles cachorros deitados sob o sol em uma manh\u00e3 de inverno, saboreando o calor no corpo, os olhos semi-cerrados, quase dormindo, pensando em nada. Por \u00faltimo, mencionarei algo que fica a\u00ed pelo meio do caminho entre o AOR e o BIG|BRAVE: Iron Maiden, \u00e9 claro. O inverno \u00e9 a minha esta\u00e7\u00e3o metaleira por excel\u00eancia, \u00e9 quando escuto todo o heavy (e o doom e o black e o death) metal que pouco escuto no restante do ano, e me ponho a par das novidades e revisito os favoritos do cora\u00e7\u00e3o. O Maiden foi a banda que despertou minha paix\u00e3o pelo g\u00eanero: lembro de um amigo que adorava Metallica e tentava me converter com o *Master of Puppets*, por\u00e9m, naquela \u00e9poca, eu achava aquilo um som tosco e grosseiro demais, sem nuance alguma, algo que n\u00e3o era para mim. Outro amigo ent\u00e3o me emprestou o *No Prayer for the Dying* e a\u00ed sim \u2014 embora seja este notoriamente um dos discos mais fracos do Maiden \u2014 a\u00ed sim percebi que havia ali um mundo em que eu poderia habitar. Mas o fato \u2014 o fen\u00f4meno, na verdade \u2014 \u00e9 que hoje em dia o Iron Maiden n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de afeto com as coisas da adolesc\u00eancia rebelde, ou algo a nos impressionar pela mera longevidade, como o Rolling Stones; depois de um disco meio pat\u00e9tico chamado *Virtual XI*, lan\u00e7ado em 1998, Bruce Dickinson retornou \u00e0 banda e o Maiden se transformou em algo verdadeiramente surpreendente, lan\u00e7ando discos aventureiros e ambiciosos que praticamente n\u00e3o falham em assombrar os f\u00e3s e os comentaristas do mundo do metal. (Analisando a discografia da banda em retrospecto, talvez n\u00e3o seja t\u00e3o surpreendente assim que a banda tivesse esta semente dentro dela; discos como *Powerslave*, *Somewhere in Time* e *X Factor* j\u00e1 sugeriam que o Maiden nunca seria uma banda acomodada. Mas o que estamos vendo acontecer me parece ainda mais impressionante do que qualquer um poderia ter previsto, ainda mais depois do *Virtual XI*.) *Brave New World*, que monopolizou minha mente durante a \u00faltima semana de julho, \u00e9 o marco inicial desta jornada (re-)iniciada h\u00e1 23 anos, e ainda um dos melhores. \u00c9 mais ou menos como os discos do Yes que mencionei no [m\u00eas passado](https:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Junho_de_2023): s\u00e3o discos-territ\u00f3rios que cativam por proporcionar estadias imagin\u00e1rias em geografias e mitologias estrangeiras (quando n\u00e3o extra-terrenas), universos que adentramos quando a primeira faixa inicia e por ali ficamos durante uma hora, uma hora e meia, debaixo de outra cor de c\u00e9u, testemunhas de outros portentos, sujeitos a outras leis e c\u00f3digos de honra. A banda soa como uma multid\u00e3o: as guitarras e o baixo de Steve Harris e a voz de Bruce Dickinson acossam o ouvinte, exigem que este fique atento diante de todo aquele fr\u00eamito e movimento. H\u00e1 l\u00e1 tamb\u00e9m um baterista, que faz um um esfor\u00e7o sobre-humano para n\u00e3o ficar soterrado! Puro escapismo fantasioso, eu n\u00e3o ignoro, sem nenhum aperfei\u00e7oamento intelectual como recompensa. Penso que todos dever\u00edamos ler Primo L\u00e9vi para compreender como podem conviver dentro de n\u00f3s o horror e a beleza da humanidade; Eric Hobsbawm e Karl Marx para entender a luta de classes e o que move as rodas da hist\u00f3ria; Freud para entender o subconsciente e Wislawa Szymborska para se ter a correta medida de tudo isto e tornar-se um ser humano melhor. Para a folga entre estas leituras e uma escapadela para outro mundo, ainda h\u00e1 pouca coisa mais eficiente do que o bom e velho Maiden.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"pintura de Darek Zabrocki, copiada [daqui](https:\/\/rare-gallery.com\/983653-darek-zabrocki-cityscape-artwork-night-urban-neon-glow-.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":859,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2023","post_timestamp":"2023-07-09T17:00:10+00:00","url":"Discos_do_mes_Junho_de_2023","post":"**Radiohead - In Rainbows**\r\n\r\nBem sei que o *OK Computer* \u00e9, muito merecidamente, um dos grandes discos de nosso tempo (1997 ainda \u00e9 \u201cnosso tempo\u201d? Ou j\u00e1 estamos vivendo o tempo seguinte?), por\u00e9m meu Radiohead favorito \u00e9, desde seu lan\u00e7amento, o *In Rainbows*. O *OK Computer* tem suas gordurinhas, sempre as teve; *In Rainbows* \u00e9 preciso, curto, certeiro, uma destila\u00e7\u00e3o de tudo aquilo que o Radiohead experimentou e acertou no per\u00edodo que compreende este disco e aquele, e n\u00e3o foi pouco \u2014 talvez as pessoas n\u00e3o se lembrem muito bem de *Hail to the Thief*, mas todos h\u00e3o de se lembrar de *Kid A* e *Amnesiac*. As provas que apresento para defender esta minha opini\u00e3o s\u00e3o *Weird Fishes\/Arpeggi*, *Reckoner* e *House of Cards*, essa \u00faltima resvalando no agridoce que resvala na breguice dos momentos menos bons do *OK Computer*, tudo decerto culpa das m\u00e1s influ\u00eancias do pop rock brit\u00e2nico, sempre t\u00e3o juvenil e folhetinesco \u2014 mas mesmo ela, *House of Cards*, soberba. Andei revisitando este disco nas \u00faltimas semanas e \u00e9 exatamente como eu desconfiava: nem uma fa\u00edsca de seu brilho se perdeu.\r\n\r\n**Terry Riley - Shri Camel**\r\n\r\nUm salve para Terry Riley, 88 anos completados alguns dias atr\u00e1s. Riley \u00e9 um destes iluminados que basta-nos ver [uma foto sua](https:\/\/i.guim.co.uk\/img\/static\/sys-images\/Guardian\/Pix\/pictures\/2014\/11\/26\/1417019666849\/358d7ff2-2cab-4cba-9b97-51eecc37353c-1618x2040.jpeg?width=700\u0026quality=85\u0026auto=format\u0026fit=max\u0026s=030c2d7c11edd8b875bc042a78a3c19f) para uma dose r\u00e1pida de desafogo e alegria, uma leveza para as pr\u00f3ximas horas, um recalibramento da qualidade do dia. Algo em seus olhos sempre me faz pensar que Riley vive sob a \u00e9gide permanente da compreens\u00e3o de que o estar vivo \u00e9 um fen\u00f4meno miraculoso que, a despeito do tanto de coisas que tentam o tempo todo sabot\u00e1-lo, n\u00e3o merece ter sequer um \u00fanico segundo desperdi\u00e7ado\u2026 Ou ser\u00e1 que vejo isto em seu sorriso f\u00e1cil e aparentemente inextingu\u00edvel? S\u00e3o os olhos e o sorriso de algu\u00e9m que n\u00e3o poderia nunca travestir-se de algo que n\u00e3o \u00e9, fazer pose diante de uma c\u00e2mera para parecer-se com um compositor s\u00e9rio, um intelectual contempor\u00e2neo etc. H\u00e1 pessoas assim, cujo \u00fanico papel que lhes \u00e9 poss\u00edvel exercer \u00e9 o de serem elas mesmas, e a admira\u00e7\u00e3o e simpatia que elas acabam naturalmente atraindo para si \u00e9 tal que ocasionam coisas emocionantes [deste tipo](https:\/\/www.therestisnoise.com\/2023\/06\/riley-at-88.html). Vejam s\u00f3, at\u00e9 aqui me referi apenas \u00e0 sua \u00edndole e suas fei\u00e7\u00f5es; o que dizer de sua m\u00fasica? \u00c9 a generosidade em forma de ondas sonoras. *The Harp of New Albion* \u00e9 minha pe\u00e7a favorita de Riley, mas *In C*, provavelmente a mais famosa por conta de certas qualidades formais que escapam ao meu interesse e compreens\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m fant\u00e1stica \u2014 escutem [essa vers\u00e3o](https:\/\/theyounggods.bandcamp.com\/album\/the-young-gods-play-terry-riley-in-c), arrepiem-se com a passagem da parte 1 para a parte 2 e a igni\u00e7\u00e3o l\u00e1 pelo meio da 5. O disco com o qual comemorei o *cumplea\u00f1os* de Riley, contudo, foi este *Shri Camel*, de 1980. S\u00e3o quatro faixas a gastarem cada qual seu tempo sem pressa alguma, ora enveredando por entre medita\u00e7\u00f5es mais recolhidas, ora fulgurando e dan\u00e7ando livremente, sem amarras, um jogo de morfismos que hipnotiza, deslumbra e diverte. Percebo que o h\u00e1bito da can\u00e7\u00e3o radiof\u00f4nica e suas muito profundamente arraigadas estruturas de ritmos, versos e refr\u00f5es impedem muita gente de apreciar m\u00fasica mais livre deste tipo, mas aqueles que quiserem fazer um teste e tentar levantar o denso v\u00e9u da cultura adquirida antes de ouvir algo novo e diferente, acho muito dif\u00edcil que se decepcionem caso escolham faz\u00ea-lo com a m\u00fasica de Riley.\r\n\r\n**Kuedo - Severant**\r\n\r\nCertos discos de m\u00fasica eletr\u00f4nica costumam evocar uma nostalgia que n\u00e3o \u00e9 animada exclusivamente pela saudade do tempo (das coisas, dos lugares, das modas e est\u00e9ticas) em que aquela m\u00fasica originalmente apareceu no mundo e chegou pela primeira vez aos nossos ouvidos, mas sim pela perspectiva de futuro que ela, a m\u00fasica, costumava ent\u00e3o despertar e sugerir em nossas mentes. Nem toda essa perspectiva era muito convidativa \u2014 o futuro sugerido por *Blade Runner* e Vangelis n\u00e3o era algo que eu, quando crian\u00e7a, ansiava em viver: escurid\u00e3o, chuva permanente e replicantes desvairados trocando tiros pelas ruas \u2014, mas em grande parte ela nos fazia fantasiar um futuro algo mais excitante, mais aventureiro\u2026 Ou pelo menos um futuro em que o embate p\u00fablico dos bilion\u00e1rios pelo controle de nossas mentes e nossas vidas n\u00e3o fosse tratado como assunto das editorias econ\u00f4micas e do colunismo social; um futuro em que esse tipo de tirania fatalmente aconteceria, conforme j\u00e1 havia sido mais ou menos previsto em outras fic\u00e7\u00f5es, por\u00e9m a maior parte de n\u00f3s j\u00e1 estaria consciente para se rebelar e lutar contra, e os absurdos da concentra\u00e7\u00e3o de riquezas e das desigualdades sociais seriam os verdadeiros t\u00f3picos das not\u00edcias e das conversas. Santa ingenuidade! Mas eu gosto de reanimar estes sonhos e reevocar esta nostalgia, e recentemente descobri [neste disco](https:\/\/kuedo.bandcamp.com\/album\/severant-2022-edition) um excepcional atalho para esse regresso ao passado com fins de reacessar outro futuro. Recomendado fica para os f\u00e3s dos discos mais amenos de Tangerine Dream e Vangelis.\r\n\r\n**Yes - Relayer**\r\n\r\nE l\u00e1 vou eu de novo escrever sobre o Yes. Mas que coisa esquisita. Eu n\u00e3o gosto de Yes. Ou gosto? N\u00e3o sei dizer. O que eu gosto \u00e9 que os discos do Yes s\u00e3o claramente mundos alien\u00edgenas localizados em outras gal\u00e1xias, mundos que, fossem formados unicamente pela m\u00fasica amalucada que sai aos borbot\u00f5es dos instrumentos da banda e da voz cafona de Jon Anderson e eu provavelmente n\u00e3o teria muito interesse em visit\u00e1-los de tempos em tempos. Por\u00e9m eles costumam ser mais do que isso: s\u00e3o principalmente as amplas paisagens desenhadas pelo mestre Roger Dean em suas capas, e estas paisagens t\u00eam cheiro, t\u00eam movimento, t\u00eam mist\u00e9rio, t\u00eam presente, passado e futuro. S\u00e3o cen\u00e1rios exc\u00eantricos e completos, de uma atra\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel para mim, sendo a m\u00fasica um componente que, em coer\u00eancia com todo o restante, \u00e9 igualmente estranha e ins\u00f3lita. E se nos concedermos alguma licen\u00e7a cient\u00edfico-po\u00e9tica e imaginarmos outras leis f\u00edsicas regendo a ordem das coisas nestes locais, ent\u00e3o a m\u00fasica come\u00e7a at\u00e9 mesmo a fazer algum sentido. No meu caso, h\u00e1 ainda outra desculpa ou agravante: houve um momento em minha inf\u00e2ncia em que me imaginei um adulto leitor e consumidor voraz de fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica, algo que com o passar dos anos acabou n\u00e3o se confirmando. O espa\u00e7o que foi cultivado mas que o abandono dos livros e filmes de sci-fi acabou deixando vazio em minha vida interior talvez seja o espa\u00e7o que estes discos do Yes v\u00eam ocupar de vez em quando.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Terry Riley em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.euroarts.com\/tv-license\/6297-terry-riley-solo-piano).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":857,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2023","post_timestamp":"2023-06-04T15:14:28+00:00","url":"Discos_do_mes_Maio_de_2023","post":"Ia o m\u00eas de maio j\u00e1 pela metade quando percebi que n\u00e3o havia escutado ainda nada que tivesse me rendido alguma anota\u00e7\u00e3o, alguma ideia para o post deste m\u00eas, algo para destrinchar ou simplesmente recomendar. N\u00e3o que isto fosse muito surpreendente, afinal, eu continuava escutando quase que obsessivamente aos discos de Steve Gunn e Tim Hecker, ambos citados no post do m\u00eas anterior. Em todo o caso, n\u00e3o me preocupei; havia ainda tempo e muitos discos pela frente\u2026 E foi exatamente na manh\u00e3 seguinte a este pensamento que escutei a *Axacan*, de Daniel Bachman, e desta vez n\u00e3o deixei de anot\u00e1-lo. Era um s\u00e1bado de manh\u00e3 muito cedo, o sol n\u00e3o havia ultrapassado ainda a linha dos morros que temos ao nosso leste e n\u00e3o havia ainda praticamente claridade alguma. Eu me preparava para reiniciar o trabalho que n\u00e3o tinha conseguido terminar no dia anterior e procurava por algo que pudesse ouvir baixinho, sem incomodar quem ainda dormisse por perto (provavelmente todo mundo). Escolhi [este disco](https:\/\/threelobed.bandcamp.com\/album\/axacan) e foi logo um impacto seguido de uma como\u00e7\u00e3o, ambos os sentimentos provavelmente intensificados pelo estado de esp\u00edrito peculiar da pessoa que acorda muito cedo e experimenta a sensa\u00e7\u00e3o de ser a \u00fanica viva alma sobre a Terra imersa no sil\u00eancio. Eu j\u00e1 tinha escutado Bachman antes, que costuma ser frequentemente citado ao lado de William Tyler e Jack Rose como os melhores continuadores da tradi\u00e7\u00e3o da *American primitive guitar* de John Fahey, mas n\u00e3o lembro de ter ficado muito impressionado com aquilo que escutei\u2026 Esse *Axacan*, em compensa\u00e7\u00e3o, foi logo invadindo alguns dos meus territ\u00f3rios sonoros sagrados, \u00e9 um disco sensacional \u2014 estranho e sensacional. O impacto mencionado acima \u00e9 fruto de suas duas primeiras faixas, ru\u00eddos \u00e1speros e desconfort\u00e1veis, inesperados, que se desdobram como se fossem uma esp\u00e9cie de imposi\u00e7\u00e3o, algo que preferir\u00edamos n\u00e3o ter de encarar. Quando o viol\u00e3o de *Year of the Rat* rasga a tens\u00e3o e irrompe nesta atmosfera de asfixia, Bachman realiza um pequeno milagre \u2014 e \u00e9 o in\u00edcio da como\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o se trata de um disco f\u00e1cil, n\u00e3o ser\u00e1 tudo meiguice ac\u00fastica a pedir perd\u00e3o daqui por diante, como se tudo n\u00e3o tivesse passado de uma brincadeira; as colagens assombradas logo estar\u00e3o de volta, logo nos veremos novamente respirando o ar t\u00f3xico de uma ambi\u00eancia perturbadora e calcinada. Bachman musicou alguma vis\u00e3o \u00edntima de terra arrasada, atravessada pelas lembran\u00e7as e esp\u00edritos dos que por ali passaram e extinguiram-se ou foram extintos. O viol\u00e3o, quando volta, j\u00e1 vem encharcado em contri\u00e7\u00e3o, em penit\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 uma jornada f\u00e1cil de atravessar, mas mais dif\u00edcil ainda \u00e9 chegar ao fim e n\u00e3o querer voltar a ela novamente. Eu voltei algumas vezes depois daquele s\u00e1bado de manh\u00e3. Voltei tamb\u00e9m, nesta \u00faltima semana, ao *Blue Rev* do Alvvays. Eu vinha ouvindo muito este disco desde o ano passado, cativado pela sua juventude exuberante e el\u00e9trica, que parece n\u00e3o caber em si, por\u00e9m acabei deixando-o de lado quando, em algum momento deste meu ver\u00e3o repleto de problemas e reveses, ele (o \u00e1lbum) passou a me soar incompat\u00edvel, incongruente, como o inverso de uma crian\u00e7a feliz e despreocupada escutando a um noturno de Chopin. Venho agora voltando a ele aos poucos, em boa medida estimulado pelo fato de finalmente poder ouvi-lo da maneira mais apropriada: em CD. J\u00e1 estive entre os que menosprezam as diferen\u00e7as entre o som de um disco em CD e o de sua c\u00f3pia em mp3, mas nunca mais farei isso. N\u00e3o \u00e9 pouca diferen\u00e7a. O *Blue Rev* que escuto agora \u00e9 a coisa verdadeira e completa, cheia de detalhes e profundidade, enquanto aquilo que eu escutava antes era apenas o reflexo desta coisa em um espelho defeituoso, um espelho onde tudo que est\u00e1 imediatamente atr\u00e1s do primeiro plano mostra-se descorado e emba\u00e7ado, os contornos quase que desaparecendo. A diferen\u00e7a est\u00e1 tamb\u00e9m no calor, na pulsa\u00e7\u00e3o, no extravasamento dos sons. Sempre fico com um pouco de pena de quem trocou seus discos pelos servi\u00e7os de streaming: n\u00e3o sabem o que est\u00e3o perdendo. (E se se justificam dizendo que n\u00e3o ligam muito para m\u00fasica, fico com mais pena ainda.) Por fim, que este texto j\u00e1 vai longo demais: muito frequentemente me vejo fascinado por estes discos onde um piano solo vai construindo lentamente uma esp\u00e9cie de m\u00fasica total, onde nada sobra e nada falta, um mundo feito puramente de sons. Minha fixa\u00e7\u00e3o da vez \u00e9 *Dances and Canons*, gravado pela pianista Saskia Lankhoorn a partir das vis\u00f5es da compositora [Kate Moore](https:\/\/ecmrecords.com\/artists\/kate-moore\/). J\u00e1 experimentei esta sensa\u00e7\u00e3o diversas vezes, mas ela nunca falha em me deixar perplexo: aqueles \u00e1pices de beleza emocionante, como surgem? Quando at\u00e9 poucos instantes atr\u00e1s havia apenas sil\u00eancio, depois algumas teclas soltas, vibra\u00e7\u00f5es perdidas no ar \u2014 de onde eles v\u00eam, como nos chegam? \u00c9 como se desliz\u00e1ssemos, sem o perceber, n\u00e3o do estado do sil\u00eancio para o som, mas do da vig\u00edlia para o sono mais perfeito, e quando este acaba n\u00e3o nos fica a lembran\u00e7a de como l\u00e1 chegamos, apenas a sensa\u00e7\u00e3o de que por l\u00e1 poder\u00edamos ficar para sempre.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Painting 1983 (Apocalyptic Landscape)*, de Peter Booth, copiada [daqui](https:\/\/www.deutscherandhackett.com\/auction\/lot\/painting-1983-apocalyptic-landscape-1983).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":856,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2023","post_timestamp":"2023-05-01T19:57:55+00:00","url":"Discos_do_mes_Abril_de_2023","post":"**Steve Gunn - Eyes On the Lines**\r\n\r\nConsidero v\u00e1lido todo e qualquer meio de se descobrir m\u00fasica nova, n\u00e3o desdenho nenhum dos que est\u00e3o ao meu alcance. Nem mesmo a Pitchfork. Valeu-me muito esta t\u00e1tica umas semanas atr\u00e1s enquanto navegava pela auto-denominada \u201cThe Most Trusted Voice in Music\u201d (esse tipo de coisa sempre me lembra aquele verso de Vin\u00edcius de Moraes: \u201cO homem que diz sou, n\u00e3o \u00e9\u2026\u201d) e me deparei com um texto sobre o novo disco de certo Steve Gunn, nome que nunca antes havia me passado pela frente. Algo me chamou a aten\u00e7\u00e3o e fui escut\u00e1-lo, e que bom que o fiz. Tenho birra com a Pitchfork, mas devo reconhecer que n\u00e3o foi a primeira vez que descobri algo valioso em suas p\u00e1ginas. Gostei muito do trabalho de Gunn [comentado naquela resenha](https:\/\/pitchfork.com\/reviews\/albums\/steve-gunn-david-moore-let-the-moon-be-a-planet\/) e dele parti para a jornada de descobrir seus outros \u00e1lbuns, que n\u00e3o s\u00e3o poucos, e que logo fui percebendo serem todos pelo menos \u00f3timos e \u00e0s vezes excepcionais e n\u00e3o raro at\u00e9 mesmo mais do que isso. *Eyes On the Lines*, de 2016, por exemplo, \u00e9 tanto mais a ponto de j\u00e1 estar pleiteando um lugar na seleta lista dos discos que formam a trilha sonora da minha vida, ainda que talvez seja prudente esperar mais um pouquinho para ver se ele merece mesmo ficar ali junto do *Laughing Stock*, do *Scoundrel Days*, do *Acid Eaters*, dos tantos Midnight Oils. Acho que sim. Adoro a voz mundana de Gunn (voz de algu\u00e9m que n\u00e3o nasceu para ser cantor e nem se esfor\u00e7a para enganar), seu jeito de tocar guitarra que lembra o estilo tardio de Lee Ranaldo e a clareza e a desafeta\u00e7\u00e3o que me remetem \u00e0 m\u00fasica ao mesmo tempo banal e singular de meu \u00eddolo Mark Knopfler, principalmente em seus primeiros discos com o Dire Straits. Mas h\u00e1 ainda algo mais na m\u00fasica de Gunn. Dia desses eu vinha no \u00f4nibus e escutava ao *Eyes on the Lines* nos fones de ouvido, embevecido e concentrado, provavelmente sorrindo como um bobo para o divertimento de meus confrades de transporte p\u00fablico, tudo efeito do sopro refrescante de mar que suas can\u00e7\u00f5es bafejavam em meu rosto, sopro de \u00e1gua salgada, de clima fresco e despolu\u00eddo, de manh\u00e3 repousada e luminosa. Eu zigue-zagueava aos solavancos pela cidade quente, agitada, mas em minha cabe\u00e7a eu estava em outro lugar. Discos que nos proporcionam isso, estes devaneios de subjetividade que nos centram e nos elevam da condi\u00e7\u00e3o de mera mat\u00e9ria atirada incansavelmente de um lado para o outro \u2014 estes discos s\u00e3o tesouros inestim\u00e1veis.\r\n\r\n**Tim Hecker - No Highs**\r\n\r\nTenho a tend\u00eancia de apelar frequentemente para clich\u00eas do tipo \u201cfeiti\u00e7aria\u201d, \u201cm\u00e1gica\u201d e \u201calquimia\u201d quando me refiro a certo tipo de m\u00fasica e certos artistas, e n\u00e3o vai ser o novo disco de Tim Hecker, *No Highs*, que me far\u00e1 passar a ser menos vago e mais acurado no uso das palavras. Antes o contr\u00e1rio: que magia sublime domina este canadense. M\u00fasica eletr\u00f4nica deste tipo que Hecker faz \u2014 com pendores para o *ambient*, para o transcendente \u2014 costuma aprofundar ainda mais o abismo abstrato existente entre a fonte da m\u00fasica (quando gravada) e seu ouvinte, uma vez que, al\u00e9m de tudo aquilo que naturalmente j\u00e1 afasta um e outro, temos aqui o agravante de que nem sempre \u00e9 poss\u00edvel compreender ou identificar o que produziu determinado som, o instrumento utilizado, o software, o sintetizador, a frequ\u00eancia, seja l\u00e1 o que for, e paira ent\u00e3o sobre a experi\u00eancia do ouvinte essa n\u00e9voa de obscuridade, efeito amplificado pela conjun\u00e7\u00e3o dos muitos sons simult\u00e2neos que em geral formam uma \u00fanica pe\u00e7a. Acho essa dist\u00e2ncia e esse enigma algo fascinante, das coisas que mais me atraem no mundo da m\u00fasica eletr\u00f4nica \u2014 o infinito de possibilidades que da\u00ed germina \u2014 e a imagem do artista como conjurador de sortil\u00e9gios sonoros, muitas vezes desconhecidos at\u00e9 mesmo para ele pr\u00f3prio, apenas adiciona beleza e mist\u00e9rio \u00e0 sua arte. Richard David James, vulgo Aphex Twin, talvez seja o mago supremo, mas Tim Hecker vai avan\u00e7ando na constru\u00e7\u00e3o de uma discografia que parece pouco a pouco abarcar longitudes ainda mais deslumbrantes do que as mapeadas por James (afirma\u00e7\u00e3o que bem sei deve horrorizar os f\u00e3s do Aphex Twin, e eu os entendo, mas sustento-a mesmo assim). Vejamos at\u00e9 onde Hecker nos ir\u00e1 levar. Por ora, *No Highs* tanto me fascina que n\u00e3o t\u00eam sido raros os dias cujas listas de compromissos e tarefas costumo encarar apenas como s\u00e9ries de obst\u00e1culos para chegar ao fim do dia e poder escut\u00e1-lo em casa novamente.\r\n\r\n**SQ\u00dcRL - Some Music for Robby M\u200b\u00fc\u200bller**\r\n\r\nSteve Gunn e Tim Hecker n\u00e3o me deixaram ouvir a variedade de m\u00fasica que costumo ouvir todos os meses, e o m\u00eas j\u00e1 ia l\u00e1 pelos seus \u00faltimos dias quando finalmente ouvi ao SQ\u00dcRL, a banda do cineasta Jim Jarmusch, e o que escutei, este breve \u00e1lbum chamado *Some Music for Robby M\u200b\u00fc\u200bller*, me surpreendeu e agradou muito. Digo que surpreendeu porque, embora soubesse da exist\u00eancia desta banda h\u00e1 algum tempo e seja muito f\u00e3 dos filmes de Jarmusch \u2014 em especial de seus personagens loucos, b\u00eabados, perdidos e amaldi\u00e7oados \u2014, eu achava que seria pouco prov\u00e1vel que viesse a gostar de sua produ\u00e7\u00e3o musical, imaginando que seria ela algum produto gen\u00e9rico de sua vaidade, de seu t\u00e9dio, de sua reputa\u00e7\u00e3o de independente e alternativo, de artista marginal nova-iorquino, coisas de relativo ou nenhum valor para mim. Nem mesmo sua amizade e parceria com gente do quilate de Neil Young, Iggy Pop e Tom Waits me animavam muito a escut\u00e1-lo\u2026 Mas vejam como a intui\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes erra, e erra grande, nos lembrando que tamb\u00e9m ela precisa ser posta \u00e0 prova de vez em quando. Foi um coment\u00e1rio positivo sobre a m\u00fasica do SQ\u00dcRL lido em algum lugar o que me fez arriscar e escutar ao [*Some Music for Robby M\u200b\u00fc\u200bller*](https:\/\/squrlnyc.bandcamp.com\/album\/some-music-for-robby-m-ller), e me pegou de surpresa a beleza de sua m\u00fasica cheia de textura e ambi\u00eancia, que vai deslizando em c\u00e2mera lenta, reminescente das trilhas-sonoras e das paisagens de filmes como *Paris, Texas*, *The Straight Story* e alguns outros da lavra do pr\u00f3prio Jarmusch. Brian Eno e Moby tamb\u00e9m emprestam algumas de suas boas ideias ao SQ\u00dcRL (Moby, eu sei, lan\u00e7a uma por\u00e7\u00e3o de discos ruins e parece ser ele pr\u00f3prio um sujeito intrag\u00e1vel, mas alguns de seus \u00e1lbuns s\u00e3o muito bons) e a essa altura creio j\u00e1 estar claro de que tipo de m\u00fasica estamos a falar aqui: \u00e9 do tipo que serve de narc\u00f3tico, para ouvir e diminuir a press\u00e3o sangu\u00ednea e relaxar. Tem um [novo disco do SQ\u00dcRL](https:\/\/squrlnyc.bandcamp.com\/album\/silver-haze) para sair em breve, agora fiquei bastante curioso para escut\u00e1-lo.\r\n\r\n**Melenas - Dias Raros**\r\n\r\nComecei este post alfinetando a Pitchfork, vou terminar exaltando um dos meus meios favoritos para descobrir m\u00fasica nova: as entrevistas da s\u00e9rie [*What\u0027s In My Bag?*](https:\/\/www.amoeba.com\/whats-in-my-bag\/), produzidas pela Amoeba Records. Foi num epis\u00f3dio recente com o New Pornographers que descobri esta banda espanhola chamada Melenas, e gostei de imediato dessas meninas pelo mesmo motivo que me fez adorar o Warpaint desde o princ\u00edpio: a longa depura\u00e7\u00e3o que passou pelo Ventures e pelo post-punk, pela Siouxsie and the Banshees e pelo shoegaze, pelo L7 e pelo Sleater-Kinney, e presentemente c\u00e1 chegamos nelas, no Warpaint e nas [Melenas](https:\/\/melenas.bandcamp.com\/album\/dias-raros). Estas \u00faltimas, ainda por cima, d\u00e3o de m\u00e3o espalmada na cara do dinossauro defasado que sou, que at\u00e9 outro dia achava que rock \u2019n\u2019 roll s\u00f3 funciona quando cantado em ingl\u00eas ou [japon\u00eas](https:\/\/boris.bandcamp.com), e cantam suas m\u00fasicas em lindo e atrevido espanhol.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"patos, Steve Gunn. Foto de Constance Mensh copiada [daqui](https:\/\/www.npr.org\/2014\/09\/28\/350591891\/first-listen-steve-gunn-way-out-weather).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":855,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2023","post_timestamp":"2023-04-02T18:44:09+00:00","url":"Discos_do_mes_Marco_de_2023","post":"**Stereolab - Transient Random-Noise Bursts with Announcements**\r\n\r\nAh, a brevidade da vida. N\u00e3o fosse essa coisa t\u00e3o ligeira e tumultuada e eu certamente acabaria por me tornar \u00edntimo de toda a discografia do Stereolab, memorizaria todas as suas faixas e suas letras, at\u00e9 mesmo aquelas cantadas em franc\u00eas, todos os pedacinhos de som, tudo. Porque \u00e9 uma banda que adoro muito, mas, por esquecimento ou pregui\u00e7a ou sei l\u00e1 que outra defici\u00eancia, acabo escutando muito pouco, e muito superficialmente \u2014 quando ou\u00e7o, \u00e9 quase sempre aos arquivos mp3 que tenho no computador (dois CDs s\u00e3o as exce\u00e7\u00f5es), decalques vagabundos sobre os quais posso dizer com seguran\u00e7a, mesmo sem ter escutado aos CDs originais, que apenas uma parte da riqueza sonora da banda foi preservada neles ap\u00f3s a ceifa promovida pelos processos de convers\u00e3o. Mas cuidarei para que *Transient Random-Noise Bursts with Announcements* seja uma exce\u00e7\u00e3o a esta injusti\u00e7a: ele merece estar em uma zona superior a esta dos discos que escuto somente quando dou casualmente com os olhos sobre eles, uma multid\u00e3o digital que come\u00e7a a tender ao amorfismo. Por\u00e9m preciso primeiro comprar o CD. Da\u00ed sim, finalmente, irei escut\u00e1-lo at\u00e9 que ele se junte aos muitos outros j\u00e1 incorporados \u00e0 minha corrente sangu\u00ednea.\r\n\r\n**\u2026 And You Will Know Us By the Trail of Dead - Source Tags \u0026 Codes**\r\n\r\nAmei profundamente esse disco l\u00e1 pelos idos de 2002, 2003, a \u00e9poca de seu lan\u00e7amento. Depois tomamos caminhos divergentes, como \u00e0s vezes acontece mesmo \u00e0s melhores amizades, e acho que fazia mais de dez anos que eu n\u00e3o o escutava. Ocorreu, contudo, de nos reencontramos uns dias atr\u00e1s, e embora *Another Morning Stoner* e *How Near How Far* continuem inquestion\u00e1veis triunfos do esp\u00edrito sobre a mat\u00e9ria, algumas (n\u00e3o poucas) outras coisas neste \u00e1lbum me parecem n\u00e3o estar envelhecendo l\u00e1 muito bem. As guitarras ultra-saturadas de *It Was There That I Saw You*, por exemplo. Fico imaginando quem ter\u00e1 sido o sujeito que, no est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o, achou que aquilo seria uma boa ideia. Parece-me um destes lances que, na mente de seu inventor, na empolga\u00e7\u00e3o do momento, se afigura revolucion\u00e1rio, aud\u00e1cia genial que a posteridade louvar\u00e1 como divisora de \u00e1guas, um novo est\u00e1gio na ascens\u00e3o vision\u00e1ria de Jimi Hendrix, nas estripulias em est\u00fadio iniciadas pelos Beatles em *Sgt. Pepper\u0027s Lonely Hearts Club Band*, o Trail of Dead como inaugurador de uma nova fase nos eternos ciclos que animam os movimentos art\u00edsticos\u2026 S\u00f3 que n\u00e3o. Passados uns anos, \u00e9 apenas cansativo. Senti ainda outros excessos similares ao longo do disco\u2026 Mas chega na faixa final e fica tudo perdoado. Eu n\u00e3o havia me esquecido. *Source Tags \u0026 Codes* continua lind\u00edssima, uma can\u00e7\u00e3o que sempre me comoveu e continua comovendo intensamente, tanto na forma como sua desola\u00e7\u00e3o \u00e9 evocada sonicamente quanto \u00e9 representada em palavras, uma coisa substanciando a outra, mobilizando sentimentos que, desconfio, todos possu\u00edmos em diferentes graus resolvidos ou mal resolvidos dentro de n\u00f3s. Quando Conrad Keely canta sobre \u201cwhat\u0027s behind that hill\u201d, desconfio que todo mundo compreenda perfeitamente sobre o que ele est\u00e1 falando, ainda que adultos plenamente saud\u00e1veis e funcionais talvez n\u00e3o o admitam. Se algum dia eu conhecer algum, eu pergunto.\r\n\r\n**Kali Malone - Living Torch**\r\n\r\nCertos discos, aos primeiros sinais de suas chegadas ao mundo, \u00e9 poss\u00edvel rapidamente perceber que est\u00e3o destinados a serem incensados e paparicados, mesmo antes de terem sua m\u00fasica revelada. Tomemos o exemplo do rec\u00e9m-lan\u00e7ado [*Does Spring Hide Its Joy*](https:\/\/kalimalone.bandcamp.com\/album\/does-spring-hide-its-joy) de Kali Malone: a est\u00e9tica da arte gr\u00e1fica; a ousadia das tr\u00eas faixas de uma hora de extens\u00e3o cada uma delas; o t\u00edtulo e seus ares metaf\u00edsicos; a participa\u00e7\u00e3o de Stephen O\u2019Malley. Faltava pouco, quase nada \u2014 talvez de fato n\u00e3o faltasse nada mais \u2014 para sabermos que o disco seria enaltecido e ganharia notas altas nos sites que gostam de dar notas. Bingo: a\u00ed est\u00e3o o deslumbramento e os [chav\u00f5es](https:\/\/pitchfork.com\/reviews\/albums\/kali-malone-does-spring-hide-its-joy\/). Calhou de Kali Malone n\u00e3o decepcionar a turma que j\u00e1 tinha decidido que o disco era bom \u2014 ele realmente \u00e9. Por\u00e9m, neste momento em que este tipo de m\u00fasica j\u00e1 anda bem espalhada por a\u00ed e n\u00e3o representa mais nenhum grande radicalismo ou novidade, n\u00e3o se pode dizer que h\u00e1 muita originalidade em *Does Spring Hide Its Joy*. N\u00e3o que isso seja uma exig\u00eancia, mas tenho a impress\u00e3o que *Living Torch*, o \u00e1lbum anterior de Malone, prometia mais. Seus econ\u00f4micos 33 minutos me encantam bem mais do que as tr\u00eas horas de *Does Spring Hide Its Joy*, e n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o deste \u00faltimo ter dificuldade em sustentar a aten\u00e7\u00e3o, pois nisto ele \u00e9 eficiente, o fluxo de suas composi\u00e7\u00f5es, amparado principalmente pelos instrumentos eletr\u00f4nicos de Kali e o violoncelo de Lucy Railton, absorvendo e surpreendendo constantemente o ouvinte em seus movimentos impercept\u00edveis, que se dissolvem uns nos outros, algo que se assemelha aos movimentos dos corpos celestes no c\u00e9u noturno: quase n\u00e3o podemos acreditar neles, mas eles ocorrem, as evid\u00eancias demonstram, e Kali, boa disc\u00edpula como h\u00e1 de ser de \u00c9liane Radigue, os compreende e sabe manej\u00e1-los. *Does Spring Hide Its Joy* \u00e9 bom, \u00e9 eficiente, \u00e9 hipn\u00f3tico, mas acho que n\u00e3o consigo dizer muito mais do que isso. *Living Torch*, por sua vez, abriga mais segredos, surpreende e assombra com mais frequ\u00eancia, e guarda em si o pacto de que o melhor de Kali Malone ainda est\u00e1 por vir.\r\n\r\n**Majesties - Vast Reaches Unclaimed**\r\n\r\nEsta foi uma \u00f3tima surpresa, que ainda por cima se desdobrou em boas lembran\u00e7as e redescobertas: seguindo a [recomenda\u00e7\u00e3o do bandcamp](https:\/\/daily.bandcamp.com\/best-metal\/the-best-metal-on-bandcamp-march-2023), experimentei esta nova banda chamada Majesties e de imediato gostei do som, e quase t\u00e3o rapidamente relembrei dos primeiros discos do Dark Tranquillity, e depois, agora sim com um pouco mais de vagar enquanto apreciava *Vast Reaches Unclaimed*, me dei conta de que gostava bastante daquela [cena de Gotemburgo](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Swedish_death_metal) nos anos 90, os primeiros discos do In Flames, do At the Gates, do mencionado Dark Tranquillity, discos que eu comprava gravados em fitas cassetes de um camarada paulista que vivia disso, gravar CDs de metal em fitas e, no verso da capa impressa em impressora matricial e enfiada na caixinha de acr\u00edlico, escrever \u00e0 caneta os nomes das faixas e das bandas que ele inclu\u00eda como b\u00f4nus nos minutos que sobravam nas fitas, e \u00e0s vezes essas faixas b\u00f4nus interrompiam-se abruptamente com o fim do espa\u00e7o e eu detestava isso, mas acho que nunca disse isso a ele e nem vou poder dizer pois ele infelizmente j\u00e1 faleceu. Eu escutava \u00e0quelas bandas suecas e gostava bastante, mas n\u00e3o ficou nada muito sedimentado em mim, e h\u00e1 muitos anos n\u00e3o volto a elas \u2014 o In Flames, em particular, logo se transformou em algo que pouco me interessava, e sobre as outras bandas quase n\u00e3o tenho mais not\u00edcias. Mas foi uma boa lembran\u00e7a essa suscitada pelo Majesties. O movimento e a evolu\u00e7\u00e3o incessante do metal (em contraste ins\u00f3lito com o reacionarismo e o racismo de boa parte das pessoas que fazem parte dele) me interessam bastante, mas \u00e0s vezes essas reciclagens s\u00e3o tamb\u00e9m bastante bem-vindas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Kali Malone em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/zedosbois.org\/programa\/kali-malone\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Nesse disco, *Dilate*, de 2001, tudo parece culminar em *LB.*, a oitava faixa, mas a banda gosta mesmo \u00e9 de ver sua m\u00fasica dissolver-se incerta como um fiapo de fuma\u00e7a de incenso, e \u00e9 assim que o \u00e1lbum termina, e \u00e9 assim que eu gosto tamb\u00e9m.\r\n\r\n**Pierre-Yves Artaud \u0026 Orchestre Fran\u00e7ais de Fl\u00fbtes - Horatiu Radulescu: Dizzy Divinity I \/ Byzantine Prayer \/ Frenetico Il Longing Di Amare \/ Capricorn\u0027s Nostalgic Crickets II**\r\n\r\nE por falar em fantasmas. O sujeito mais obcecado por m\u00fasica, digamos que parecido comigo, que tenha uma queda por s\u00edmbolos (como eu), por mitos e por m\u00fasica experimental e sinistra (eu, eu, eu), ao ouvir falar sobre um compositor insolitamente chamado Hora\u021biu R\u0103dulescu, autor de pe\u00e7as de [m\u00fasica espectral](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/M\u00fasica_espectral) e nascido na Rom\u00eania, n\u00e3o tem como esta pobre v\u00edtima da melomania n\u00e3o come\u00e7ar a salivar imediatamente, a torcer as m\u00e3os e os ouvidos de curiosidade, talvez come\u00e7ar a suar um pouquinho. \u00c0s vezes, facilmente excit\u00e1veis como costumamos ser, acabamos enganados. N\u00e3o \u00e9 o caso aqui. R\u0103dulescu entrega, entrega muito. Este disco traz quatro pe\u00e7as executadas quase que exclusivamente por flautas (em alguns casos, muitas: mais precisamente 72 em *Byzantine Prayer*) que a feiti\u00e7aria do compositor nascido no pa\u00eds dos C\u00e1rpatos e da Transilv\u00e2nia transforma em outra coisa, um envolvente e espesso manto sonoro sob o qual o ouvinte, at\u00e9 os segundos finais do disco, n\u00e3o consegue decidir-se se \u00e9 mesmo seguro permanecer. Os mais curiosos e corajosos ficam, e voltam, porque \u00e9 do tipo de m\u00fasica esf\u00edngica cuja aparente rigidez e arca\u00edsmo escondem um cosmos que se move e se espalha seguindo l\u00f3gicas secretas, como que um novo peda\u00e7o da natureza sendo gestado para compensar aquilo que j\u00e1 desvendamos e assim preservar a rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre o compreendido e o mist\u00e9rio, equil\u00edbrio necess\u00e1rio para que nos mantenhamos vivos e instigados nesta aventura que ora chamamos ci\u00eancia, ora chamamos arte, ora chamamos vida. Espet\u00e1culo bonito demais de se ver, ouvir e sentir. (Para descobrir esta e muitas outras obras fant\u00e1sticas similares, sem crises de consci\u00eancia uma vez que se trata somente de discos antigos e fora de circula\u00e7\u00e3o, aponte para o endere\u00e7o [electronicorgy.blogspot.com](https:\/\/electronicorgy.blogspot.com\/). Meus agradecimentos infinitos \u00e0s pessoas que mant\u00e9m este servi\u00e7o.)\r\n\r\n**Egberto Gismonti \u0026 Nan\u00e1 Vasconcelos - Dan\u00e7a das Cabe\u00e7as**\r\n\r\nAs sementes do meu amor pela m\u00fasica brasileira, plantadas quando eu era crian\u00e7a, tinham a forma de algumas can\u00e7\u00f5es de Elis Regina e de Chico Buarque, as pe\u00e7as mais famosas de Villa-Lobos e a voz de Gilberto Gil na abertura do *S\u00edtio do Pica-Pau-Amarelo*, o viol\u00e3o de Toquinho, o samba de Adoniran Barbosa e a can\u00e7\u00e3o *Bola de meia, bola de gude* do 14 Bis. Esse lindo e colorido jardim, contudo, n\u00e3o foi devidamente cultivado durante minha adolesc\u00eancia, descuido que penso poder ser desculpado devido \u00e0 super-exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica pop norte-americana e europ\u00e9ia que eu e os da minha gera\u00e7\u00e3o passamos a sofrer a partir de meados dos anos 80. Mas elas permaneceram comigo, as sementes e suas promessas; ao contr\u00e1rio de muitos, n\u00e3o cheguei a desdenhar completamente delas, nem as desenterrei para substitu\u00ed-las ou jog\u00e1-las fora. O tempo passou e elas foram desenvolvendo-se sozinhas, sem maiores aten\u00e7\u00f5es de minha parte, achando seus espa\u00e7os em um terreno que fui semeando com cada vez mais m\u00fasica, de todos os tempos e lugares, at\u00e9 que enfim voltei a reparar nelas, \u00e1rvores j\u00e1 crescidas e saud\u00e1veis e vi\u00e7osas, e finalmente entendi que uma parte de mim \u00e9 m\u00fasica brasileira, ou o que eu tenho de Brasil em mim \u00e9 heran\u00e7a da m\u00fasica desta terra e pouco mais do que isso. Houve, \u00e9 claro, um refinamento, uma sele\u00e7\u00e3o natural; houve tamb\u00e9m a descoberta dos discos da M\u00f4nica Salmaso, esta magn\u00edfica cantora cujos \u00e1lbuns me soam sempre como apurad\u00edssimas compila\u00e7\u00f5es de tudo o que de melhor se criou e se cria em termos musicais neste pa\u00eds, n\u00e3o apenas na escolha do repert\u00f3rio mas tamb\u00e9m na beleza dos arranjos e das performances instrumentais a cargo de colaboradores do quilate de Guinga, Nan\u00e1 Vasconcelos, Nelson Ayres e Teco Cardoso. Houve, finalmente, a pesquisa e a descoberta de outras tantas maravilhas de nosso rico arcabou\u00e7o musical, dentre as quais brilham intensamente os discos de Egberto Gismonti. Uma forma de descrever a m\u00fasica de Gismonti talvez seja como a ant\u00edpoda da bossa nova de Jo\u00e3o Gilberto: enquanto na bossa \u00e9 tudo meticulosidade, ternos e gravatas e sussurros, os discos de Gismonti s\u00e3o recheados de cantos primais, percuss\u00e3o animada por esp\u00edritos africanos e faixas que se estendem como transes coletivos. Jo\u00e3o Gilberto \u00e9 das cidades, Gismonti \u00e9 da floresta; aquele, do bourbon norte-americano, este, da y\u00e3koana ind\u00edgena. Jo\u00e3o era \u00f3timo, mas eu sou do time de Gismonti. Tudo que escutei dele at\u00e9 o momento \u00e9 fant\u00e1stico, mas *Dan\u00e7a das Cabe\u00e7as*, gravado em parceria com Nan\u00e1 Vasconcelos, sobressai-se, e figura no topo das coisas que eu mostraria para o estrangeiro (ou conterr\u00e2neo, que n\u00e3o s\u00e3o poucos os que o desconhecem) que me perguntasse o que de bom temos n\u00f3s brasileiros para oferecer ao mundo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Garden Frills and Thrills*, de Lee-Ann Heath, copiada [daqui](https:\/\/everard-read-capetown.co.za\/exhibition\/254\/exhibition_works\/3525).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":853,"title":"Uma foto","post_timestamp":"2023-02-15T21:49:32+00:00","url":"Uma_foto","post":"Eu queria poder dizer que finalmente compreendi e adotei em minha vida a m\u00fasica do compositor italiano Luciano Berio, e ent\u00e3o eu publicaria aqui um post sobre sua m\u00fasica complexa e experimental, as quest\u00f5es s\u00f3cio-pol\u00edticas que permeiam sua obra, sugeriria algumas grava\u00e7\u00f5es das suas composi\u00e7\u00f5es, etc. etc., e ilustraria tudo isso com a imagem acima. Mas nada disso aconteceu. Quero dizer, gostei do pouco que escutei de Berio at\u00e9 hoje, por\u00e9m minha rela\u00e7\u00e3o com ele permanece a mesma que mantenho com a maioria dos compositores da vanguarda p\u00f3s-guerras, uma rela\u00e7\u00e3o cheia de dedos, cheia de ceticismo e desconfian\u00e7as, as promessas se materializando lentamente ou naufragando miseravelmente. Vou avan\u00e7ando devagar com essa turma (Cage, Boulez, Stockhausen), ningu\u00e9m tem pressa (as exce\u00e7\u00f5es penso que seriam Feldman, Ligeti e Scelsi, que esses eu j\u00e1 amo sem ressalvas). Mas o post c\u00e1 est\u00e1 publicado de todo modo porque a verdade, meus amigos, \u00e9 que eu n\u00e3o queria perder a oportunidade de publicar esta imagem. Ali est\u00e3o o mestre Mstislav Rostropovitch (com o violoncelo), Luciano Berio de p\u00e9, instruindo Rostropovitch e gesticulando como que para comprovar sua italianiedade, e um simp\u00e1tico cachorrinho que algo muito mais importante do que escutar Berio ou apreciar Rostropovitch parece ter encontrado em algum ponto fora da imagem. Comida, decerto. Pronto, a\u00ed est\u00e1 a imagem. (Precisa mesmo de toda esta parola para publicar fotos de cachorros neste blog?)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/electronicorgy.blogspot.com\/2023\/02\/luciano-berio-berio-conduce-berio-avant.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":852,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2023","post_timestamp":"2023-02-04T19:02:54+00:00","url":"Discos_do_mes_Janeiro_de_2023","post":"**Kurt Vile - (watch my moves)**\r\n\r\nCabra bom demais este Kurt Vile. Ouvi-lo cantar (na faixa de abertura deste disco, *Goin on a Plane Today*) sobre estar em um avi\u00e3o e ficar meio b\u00eabado com as bebidinhas que nos trazem os aeromo\u00e7os e aeromo\u00e7as, feliz e assombrado por estar indo abrir um show do Neil Young (\u0022Gonna open up for Neil Young \/ Man, life can sure be fun \/ Imagine if I knew this when I was young\u201d, sim, ele rima Neil Young com *young*, o abusado) \u2014 tudo isso \u00e9 um aconchego e uma felicidade. Vile me parece meio trovador, meio cronista, estar cantando e tocando \u00e9 o seu jeito de atravessar a vida e comunicar-se, \u00e9 o que ele sabe e gosta de fazer. Essa impress\u00e3o \u00e9 sempre o que me vem \u00e0 mente em primeiro lugar, quando escuto seus \u00e1lbuns. Parece-me bastante com o esp\u00edrito que anima os discos do Mark Knopfler; decerto \u00e9 o que me faz gostar tanto dos discos de ambos. Neles costumo encontrar mais uma \u00edndole e um temperamento que me sossegam do que propriamente um refr\u00e3o ou uma melodia que me marquem ou emocionem, e \u00e9 da\u00ed que vem o aconchego, desse alojamento em um espa\u00e7o mental levemente deslocado do mundo, o suficiente apenas para que as coisas possam transcorrer sem maiores interrup\u00e7\u00f5es ou sobressaltos.\r\n\r\n**Br\u00edi - Entre Tudo que \u00e9 Visto e Oculto**\r\n\r\nVejam s\u00f3, at\u00e9 mesmo sentir orgulho do Brasil come\u00e7a a nos ser concedido novamente, pouco a pouco \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/span\u003E. De Bras\u00edlia vem o [Br\u00edi](https:\/\/brii.bandcamp.com), black metal arrojad\u00edssimo, espiritual, futurista, n\u00e3o sei bem como definir \u2014 o mais importante, em todo o caso, \u00e9 que se trata de black metal que n\u00e3o nos envergonha com os temas nacionalistas (em geral, eufemismo para \u201cracistas\u0022) t\u00edpicos das bandas europ\u00e9ias, muito pelo contr\u00e1rio. Confesso que tenho algumas dificuldades com os dois celebrados \u00faltimos discos do Br\u00edi; \u00e9 como se Caio Lemos, o m\u00fasico por tr\u00e1s da banda, estivesse tentando a todo custo superar seu primeiro \u00e1lbum, este extraordin\u00e1rio [*Entre Tudo que \u00e9 Visto e Oculto*](https:\/\/brii.bandcamp.com\/album\/entre-tudo-que-visto-e-oculto), sem ter ainda vislumbrado com clareza a f\u00f3rmula para isto. Mas tor\u00e7o para que ele permane\u00e7a tentando, e eu apostaria bastante alto que uma hora ele vai conseguir.\r\n\r\n**R.E.M. - Reveal**\r\n\r\nDias desses bati os olhos na lombada do *Reveal* na minha estante de discos e imediatamente me repreendi por estar (como estava naquele momento) h\u00e1 tanto tempo seu escutar ao R.E.M.. Trata-se, afinal, de uma das bandas de minha vida, a quem devo muito\u2026 (Eu ia dizer que o *Automatic for the People* me salvou algumas vezes, mas seria uma mentira para efeitos de dramaticidade. Nunca estive t\u00e3o mal a ponto de precisar se salvo por algu\u00e9m ou por algum disco. Mas j\u00e1 recorri a ele em busca de uma inje\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo, de um descanso para o c\u00e9rebro, uma noite bem dormida.) Puxei-o da estante e imediatamente me vieram uma lembran\u00e7a e uma desconfian\u00e7a: a lembran\u00e7a era de que o disco n\u00e3o \u00e9 muito bom; recordava-me de que gostava muito da primeira faixa, *The Lifting*, muito promissora em rela\u00e7\u00e3o ao restante do \u00e1lbum (sem que tal promessa se realizasse, infelizmente), e da irresist\u00edvel expansividade de *Imitation of File*, mas da maioria das faixas entre uma e outra eu muito pouco me lembrava, e das poucas que v\u00eam depois de *Imitation of File* e finalizam o disco, dessas eu lembrava menos ainda, quase nada. A desconfian\u00e7a: certos discos ruins, quando s\u00e3o *uniformemente* ruins, *consistentemente* mon\u00f3tonos, geram em mim uma curiosa empatia. Acho que gosto do estado de esp\u00edrito taciturno que alguns deles engendram, me identifico com a \u201cfalha\u0022 da banda (j\u00e1 que eu mesmo, ou quem n\u00e3o?, vivo falhando), n\u00e3o sei bem como explicar \u2014 fato \u00e9 que desconfiei que *Reveal* cairia nesta vala, que assim formulada n\u00e3o existia ainda em minha mente na \u00faltima vez em que o escutei, h\u00e1 muito tempo. Escutei-o, enfim, e confirmei. \u00c9 um disco que irradia um sol sem gra\u00e7a de fim de tarde, que parece apontar para o fim de alguma coisa, um cansa\u00e7o, um t\u00e9dio; algumas de suas faixas me deram at\u00e9 mesmo a impress\u00e3o de que meu aparelho de CD estava com algum problema, tal a estranheza de seus andamentos, a falta de vida. Tudo meio an\u00f3dino mas tamb\u00e9m pregui\u00e7osamente sedativo. Fica claro tamb\u00e9m que a banda percebeu, em algum momento durante as grava\u00e7\u00f5es, que se tratava de um trabalho meio indigno de sua discografia, e para tentar melhor\u00e1-lo um pouco resolveu inocular efeitos diversos e sons suplementares em quase todas as suas faixas, talvez os restolhos que n\u00e3o couberam em *Up* tr\u00eas anos antes, o que acabou apenas por uniformizar a insufici\u00eancia geral do \u00e1lbum\u2026 E angariar ainda mais desta minha estranha simpatia. Sim, \u00e9 um disco ruim, e sim, acho que gosto dele. Temos afinidades. N\u00e3o devo mais passar tanto tempo assim sem o escutar.\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1\u003C\/b\u003E: \u00c9 evidente que isso foi escrito antes do dia 8 de janeiro e antes da revela\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o dos ianom\u00e2mis. Mas vou deixar assim mesmo escrito. Quem sabe a vergonha da minha inoc\u00eancia e da minha ingenuidade me sirvam como penit\u00eancia por estes pecados. [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Kurt Vile em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.sfgate.com\/entertainment\/article\/Much-loved-singer-Kurt-Vile-in-Santa-Cruz-9134297.php).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":851,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2022","post_timestamp":"2023-01-01T17:45:41+00:00","url":"Discos_do_mes_Dezembro_de_2022","post":"**Tatiana Primak-Khoury - Lebanese Piano Music**\r\n\r\nEu adoro m\u00fasica executada por um piano solo e praticamente nada sei sobre o L\u00edbano (o nome evoca apenas vagas lembran\u00e7as de not\u00edcias vistas quando crian\u00e7a no Jornal Nacional, pr\u00e9dios em ru\u00ednas, homens de turbante portando bazucas). Uma antiga e estabelecida paix\u00e3o sofrendo afluxos de uma cultura completamente desconhecida: isto \u00e9 para mim irresist\u00edvel e eu n\u00e3o poderia deixar de escutar a este disco. Escutei, adorei. Aquela inevit\u00e1vel expectativa diante de obras dessa proced\u00eancia \u2014 os tais \u201csabores\u201d orientais, imagem bastante gasta e reducionista \u2014 vai se diluindo aos poucos, seja pela variedade das pe\u00e7as, seja pela beleza das composi\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o demoram quase nada para envolver o ouvinte e silenciar conjecturas s\u00f3cio-culturais, preconceitos e esteri\u00f3tipos. O que se escuta, por exemplo, na *Sonata para Piano No. 3: Pour un instant perdu\u2026* (assim em franc\u00eas est\u00e1 escrito na contra-capa do disco), do compositor Houtaf Khoury, \u00e9 reconhec\u00edvel sem que seja necess\u00e1rio adaptar o esp\u00edrito ao que quer que seja: traduzidos em m\u00fasica, uma penca de sentimentos (d\u00favida, tens\u00e3o, opress\u00e3o) que ningu\u00e9m deseja ter consigo, ou sobre si, e, no entanto, estamos o tempo todo a dar-lhes cores, a p\u00f4-los por escrito em frases e versos, a transferi-los para partituras, que s\u00e3o as nossas armas contra o destino, nossas formas particulares de transformar o que n\u00e3o podemos evitar em experi\u00eancia e catarse. Aparentemente n\u00e3o h\u00e1 rinc\u00e3o neste mundo no qual se possa escapar a tudo isto; se minhas lembran\u00e7as infantis do Jornal Nacional n\u00e3o est\u00e3o por demais equivocadas, no L\u00edbano, menos ainda. Por sorte tamb\u00e9m aquilo que anima as *Esquisses*, de Georges Bez, parece estar por a\u00ed, equitativamente espalhado por sobre o globo, temperando os humanos, impelindo-os a reunirem-se em torno de uma mesa, sob tendas, sob a meia-luz dos bares, sob a lua, a dan\u00e7arem e conversarem, evitando de forma sistem\u00e1tica atrav\u00e9s dos s\u00e9culos que cheguemos ao ponto de nos matarmos todos de uma vez, ou ao menos postergando ao m\u00e1ximo este desfecho. A m\u00fasica prescinde dos humanos, mas os humanos n\u00e3o prescindem da m\u00fasica.\r\n\r\n(Este disco n\u00e3o est\u00e1 cadastrado no discogs, por isso n\u00e3o tem link para ele logo abaixo. No site do selo, \u00e9 este [aqui](https:\/\/grandpianorecords.com\/Album\/AlbumDetails\/GP715).)\r\n\r\n**Michael Been - Light Sleeper Soundtrack**\r\n\r\nMichael Been, falecido em 2010, foi l\u00edder do The Call, banda que j\u00e1 vi por a\u00ed ser chamada \u201ca mais injustamente desconhecida dos anos 80\u201d, opini\u00e3o com a qual n\u00e3o tenho como concordar muito enfaticamente, embora tenha gostado do pouco que escutei. Been era tamb\u00e9m pai de Robert Levon Been, cantor e baixista do Black Rebel Motorcyle Club, e fez pequenos pap\u00e9is em filmes como *The Last Temptation of Christ*, de Martin Scorcese. S\u00e3o todas informa\u00e7\u00f5es muito merit\u00f3rias em seu curr\u00edculo, por\u00e9m aquela que brilha mais intensamente, em minha opini\u00e3o, \u00e9 a trilha-sonora que ele comp\u00f4s e gravou para o filme *Light Sleeper*, de Paul Schrader. Trata-se de um filme excepcional que assisti pela primeira vez alguns dias atr\u00e1s, um desses filmes que conjugam um certo ritmo e uma certa fotografia que me atraem intensamente \u2014 lentos, entre o torpor e o sonambulismo; noturnos, entre o azul-escuro e as sombras profundas \u2014 combina\u00e7\u00e3o que praticamente me basta, a despeito de problemas ou mesmo aus\u00eancia de roteiro, desse ou daquele clich\u00ea. Tenho que ver mais filmes de Paul Schrader (mais conhecido como o roteirista de *Taxi Driver* e *Raging Bull*). Dos outros m\u00e9ritos de *Light Sleeper*, a m\u00fasica onipresente de Michael Been \u00e9 hipnotizante, e p\u00f5e o expectador diretamente dentro da mente do personagem principal interpretado por William Defoe, e tamb\u00e9m visceralmente dentro da Nova Iorque conturbada e enlouquecida na qual, oscilando entre a introspec\u00e7\u00e3o e a perplexidade, perambula esta mente. A voz de Been \u00e9 a de um observador da interioridade deste personagem enquanto a sonoridade arcana de suas can\u00e7\u00f5es v\u00e3o dando conta do desgaste, do cansa\u00e7o, o lento caminhar rumo a um desfecho que parece inexor\u00e1vel. E \u00e9, mas n\u00e3o sem alguma surpresa. Lindo filme, tornado ainda mais bonito pela contribui\u00e7\u00e3o musical de Been.\r\n\r\n**Midnight Oil - Blue Sky Mining**\r\n\r\nJ\u00e1 vou pedindo perd\u00e3o pelo excesso de Midnight Oil c\u00e1 por estas p\u00e1ginas\u2026 Vivo o auge da minha paix\u00e3o pela banda, e, ademais, estamos no ver\u00e3o. Em dezembro continuei escutando seguidamente ao *Resist*, que mencionei no [m\u00eas passado](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Novembro_de_2022), mas quase toda a discografia da banda teve sua vez aqui em casa, ou vezes, em alguns casos. Destes outros, *Blue Sky Mining* foi provavelmente o que mais tempo passou alojado no CD player. \u00c9 o disco que a banda lan\u00e7ou ap\u00f3s *Diesel and Dust*, ou seja, disco de ingrata miss\u00e3o: tentar ser algo pr\u00f3ximo ao seu formid\u00e1vel predecessor e n\u00e3o deixar a peteca cair. Acho que o Oil saiu-se muit\u00edssimo bem, a peteca n\u00e3o caiu. *Blue Sky Mining* goza de muito carinho por parte dos f\u00e3s por uma variedade de motivos: nele est\u00e3o diversas faixas que de modo geral s\u00e3o vistas como menores mas que, no particular, muitos t\u00eam como favoritas pessoais (*Stars of Warburton*, por exemplo, \u00e9 uma das minhas); nele est\u00e1 *Antarctica*, que fecha o disco de maneira linda e meio assombrada; nele n\u00e3o faltam cl\u00e1ssicos sempre presentes nos shows (*King of the Mountain*, *Forgotten Years*); nele est\u00e1 *One Country*. Tem um pouco de tudo. Fica atr\u00e1s do *Diesel and Dust* porque falta-lhe, talvez, a coes\u00e3o daquele, ou, mais provavelmente, porque *Diesel and Dust* \u00e9 *Diesel and Dust*: um \u00e1lbum incompar\u00e1vel. Em algo, por\u00e9m, penso que ele ultrapassa seu antecessor: \u00e9 evidente que eu adoro *Beds Are Burning* (ora, se [Bob Dylan](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2022\/jul\/18\/midnight-oil-their-20-greatest-songs-sorted) e [Patti Smith](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LoWfnFJ52rc) gostam, voc\u00ea tem um problema s\u00e9rio se n\u00e3o gostar), mas acho a abertura de *Blue Sky Mining* com *Blue Sky Mine* ainda mais surpreendente e brilhante.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Kermis*, de David Teniers, copiada [daqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:David_Teniers_the_Younger_-_Village_Festival.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":850,"title":"Melhores discos de 2022","post_timestamp":"2022-12-31T14:36:17+00:00","url":"Melhores_discos_de_2022","post":"Andei pensando muito seriamente em aumentar para 28 o n\u00famero de discos eleitos meus favoritos de cada ano, por\u00e9m, verificando que a troca dos sete originais para os atuais 14 se deu em [2016](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2016_12_30_meus_discos_favoritos_de_2016), isto significaria \u2014 antecipando que de seis em seis anos eu me veria tentado, ou condenado, a dobrar o n\u00famero \u2014 significaria que no ano 2322 eu teria que escolher 3.1525197e+16 (aproximadamente tr\u00eas seguido de 16 zeros) discos, e este tanto eu acho que ficaria um pouco dif\u00edcil. O problema \u00e9 que me vi diante de escolhas muito cru\u00e9is: como deixar de fora o sensacional [*Ghosted*](https:\/\/orenambarchi.bandcamp.com\/album\/ghosted), do trio Oren Ambarchi, Johan Berthling e Andreas Werliini? E o \u00faltimo disco do The Comet Is Coming? E este lind\u00edssimo [*Languoria*](https:\/\/mondoj.bandcamp.com\/album\/languoria)? Consola-me alguma coisa cit\u00e1-los dessa forma, assim meio dissimulada, \u201cos discos que lamentavelmente tive que excluir da lista mas n\u00e3o posso deixar de mencionar\u201d, e poderia citar ainda mais alguns (o [novo do Warpaint](https:\/\/warpaint.bandcamp.com\/album\/radiate-like-this), que d\u00f3 deix\u00e1-lo de fora!), mas deixemos assim que \u00e9 para n\u00e3o abusar da trapa\u00e7a. O disco do Big Thief, como escrevi por aqui ao longo do ano, \u00e9 um pequeno milagre, e s\u00f3 n\u00e3o digo que \u00e9 o meu favorito dentre todos porque est\u00e1 a\u00ed na lista o *Resist* do Midnight Oil, banda que, como voc\u00eas sabem, \u00e9 para mim assunto de ordem muito particular e sentimental, algo costurado na tessitura de minha vida de um modo que de nenhuma outra banda ou artista eu posso dizer coisa sequer parecida. E n\u00e3o apenas isso: at\u00e9 onde me \u00e9 poss\u00edvel julgar de forma imparcial \u2014 e corroborado por algumas outras opini\u00f5es que li aqui e ali \u2014 *Resist* \u00e9 de fato um \u00f3timo disco (ainda que provavelmente algo antiquado para os ouvidos das gera\u00e7\u00f5es educadas pela Pitchfork e pelo Spotify), um dos melhores do Oil, insurretos (banda e \u00e1lbum) e emocionantes at\u00e9 o fim. Outro disco que me comove bastante \u00e9 [*Audiotherapy*](https:\/\/grapefruit1.bandcamp.com\/album\/audiotherapy), do neozeland\u00eas Roy Montgomery, mas para este pretendo elaborar algumas ideias em um outro post. O heavy metal, em minha lista final, est\u00e1 muito dignamente representado com Chat Pile, Kreator, Wormrot, Devil Master e Festung; a m\u00fasica cl\u00e1ssica, pela primeira vez em anos, n\u00e3o tem nenhum representante na lista (Sarah Davachi ro\u00e7a no mundo erudito, mas certamente n\u00e3o da maneira mais tradicional), o que n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o a tenha escutado, muito pelo contr\u00e1rio: n\u00e3o apenas escutei como fui salvo por ela [uma](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Chamado) e [outra](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Medicamento_noturno) vez ao longo do ano. N\u00e3o foi, em todo o caso, a t\u00f4nica de 2022, cujo lento e angustiante avan\u00e7ar e aproximar-se de seu termo foi me dando ganas, cada vez mais, de ouvir m\u00fasica el\u00e9trica, m\u00fasica barulhenta, m\u00fasica de rebeli\u00e3o. O que foi este 2022? C\u00e9us, eu nem saberia por onde come\u00e7ar\u2026 E nem vou come\u00e7ar. Feliz 2023. Com genu\u00edna cren\u00e7a, desta vez, de que este desejo pode de fato concretizar-se.\r\n\r\nMeus discos favoritos de 2022, ordenada alfabeticamente pelo nome da banda ou artista:\r\n\r\n- Big Thief - Dragon New Warm Mountain I Believe In You\r\n- Carpenter Brut - Leather Terror\r\n- Chat Pile - God\u0027s Country\r\n- Devil Master - Ecstasies\u00a0Of Never Ending\u00a0Night\r\n- Festung - Der Turm\r\n- Horsegirl - Versions Of Modern Performance\r\n- Jenny Hval - Classic Objects\r\n- Kreator - Hate \u00dcber Alles\r\n- Midnight Oil - Resist\r\n- Roy Montgomery - Audiotherapy\r\n- Sarah Davachi - Two Sisters\r\n- Shabaka - Afrikan Culture\r\n- The Smile - A Light for Attracting Attention\r\n- Wormrot - Hiss","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.reddit.com\/r\/pics\/comments\/5z8c8s\/70yearold_man_sits_in_his_destroyed_bedroom\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":849,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2022","post_timestamp":"2022-12-06T00:19:55+00:00","url":"Discos_do_mes_Novembro_de_2022","post":"**Andr\u00e9 Previn \u0026 London Symphony Orchestra - Britten: Four Sea Interludes \u0026 Passacaglia from \u0022Peter Grimes\u0022 \/ Sinfonia da Requiem**\r\n\r\nNo m\u00eas passando, quando fiz aquela brincadeira sobre n\u00e3o saber outra coisa a respeito de meu compositor favorito al\u00e9m do fato de seu sobrenome come\u00e7ar com a letra B, eu aludia \u00e0 minha indecis\u00e3o entre Bach, Brahms, Beethoven e B\u00e1rtok. N\u00e3o sei se gosto do ingl\u00eas Benjamin Britten a ponto de ele manter verdadeira esta proposi\u00e7\u00e3o \u2014 creio preferir Mahler, Schubert e Ligeti \u00e0 Britten \u2014 mas, olha, \u00e9 por pouco. A primeira coisa a ser comentada sobre [este disco](https:\/\/www.discogs.com\/pt_BR\/release\/4638346-Britten-London-Symphony-Orchestra-Andr\u00e9-Previn-Four-Sea-Interludes-Passacaglia-From-Peter-Grimes-Si), inescapavelmente, \u00e9 sua bel\u00edssima capa (que lembra tanto [esta](https:\/\/www.discogs.com\/pt_BR\/release\/592290-Earth-Hex-Or-Printing-In-The-Infernal-Method)), mas a m\u00fasica guardada sob a imagem \u00e9 ainda mais bonita. Os *Four Sea Interludes* \u2014 que fazem parte da \u00f3pera [*Peter Grimes*](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Peter_Grimes), mas costumam ser tamb\u00e9m gravados e apresentados de forma aut\u00f4noma \u2014 s\u00e3o lindos demais, e se transformaram, neste \u00faltimo m\u00eas, em um dos s\u00edmbolos das minhas esperan\u00e7as de que as coisas podem enfim vir a melhorar um pouco neste nosso t\u00e3o maltratado pa\u00eds. Al\u00e9m disso, enquanto ouvia ao disco pela segunda vez, vislumbrei a possibilidade de voltar a frequentar a praia neste pr\u00f3ximo ver\u00e3o, e combinei comigo mesmo que, assim que o fizesse, o primeiro \u00e1lbum que eu escutaria quando enfim me encontrasse novamente sentado diante do mar, no fim da tarde, seria este. N\u00e3o ponho os p\u00e9s na \u00e1gua salgada desde o in\u00edcio da pandemia. Estou ciente de que, tomando as devidas precau\u00e7\u00f5es, \u00e9 relativamente seguro circular por a\u00ed j\u00e1 faz bastante tempo, por\u00e9m certo clima social odiento, repulsivo, vinha me mantendo restrito a um circuito que dificilmente me conduzia para longe de casa\u2026 Bem, o Brasil ainda est\u00e1 repleto de problemas, infestado de delinquentes e fascistas por todos os lados, mas sinto-me um pouco mais leve, mais esperan\u00e7oso e corajoso. Acredito que ainda antes do fim de 2022 escutarei, enfim, aos *Four Sea Interludes* de Britten enquanto observo aos \u00faltimos raios de sol do dia rebrilhando sobre o mar, e a alegria desta perspectiva \u00e9 algo que eu n\u00e3o tenho sequer como tentar expressar. \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/span\u003E\r\n\r\n**Horsegirl - Versions of Modern Performance**\r\n\r\nSuspeito que nenhuma ou quase nenhuma das emo\u00e7\u00f5es humanas deixou de tomar parte no meu m\u00eas de novembro. Comprimido nestas quatro semanas aconteceu-me o tanto que deve acontecer normalmente ao longo de pelo menos uns cinco anos na vida de um ser humano m\u00e9dio. S\u00e3o tempos alucinantes e tamb\u00e9m dif\u00edceis, mas tamb\u00e9m tempos em que frequentemente me sinto mais vivo do que em qualquer outro momento de minha vida. A m\u00fasica que vou ouvindo \u00e9 sempre um reflexo do meu estado de esp\u00edrito, e por conseguinte escutei em novembro a um espectro de m\u00fasica extremamente diversificado, do black metal \u00e0 MPB, do jazz ao punk rock. Enquanto tento recolher algumas lembran\u00e7as musicais desses cinco anos em 30 dias, ao passo que a m\u00fasica cl\u00e1ssica me descansou em alguns momentos de estafa extrema, percebo que muitos outros foram animados e acelerados principalmente por aquilo que a essa altura creio j\u00e1 podermos chamar de \u0022rock noventista\u0022 sem que algu\u00e9m fique perdido sem entender do que se trata. Ouvi muito Pearl Jam, L7 e Unwound, mas tamb\u00e9m algumas bandas novas, quero dizer, bandas jovens que resgatam o som do fim do mil\u00eanio passado. Destas, a Horsegirl \u00e9 a que tem mais chances de permanecer comigo e sobreviver \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de trilha sonora ef\u00eamera de uma \u00fanica esta\u00e7\u00e3o. Acho que *Versions of Modern Performance* estar\u00e1 na minha lista de discos favoritos de 2022; a ver. S\u00f3 n\u00e3o me perguntem o que leva tr\u00eas meninas que provavelmente ainda n\u00e3o eram nascidas quando Kurt Cobain puxou o gatilho a recuperar o som daquela \u00e9poca: acredito na genu\u00edna e sincera afei\u00e7\u00e3o delas por toda aquela m\u00fasica e em particular pelo Sonic Youth, por\u00e9m os ardis das engrenagens da ind\u00fastria do entretenimento \u2014 a explora\u00e7\u00e3o at\u00e9 a \u00faltima gota das ideias bem-sucedidas e das nostalgias \u2014 n\u00e3o podem ser descartados. Pode tamb\u00e9m muito bem ser um conveniente casamento das duas coisas. Vejamos o f\u00f4lego das garotas. Eu apostaria [nelas](https:\/\/thisishorsegirl.bandcamp.com).\r\n\r\n**Midnight Oil - Resist**\r\n\r\nEu sabia, muito antes de t\u00ea-lo em m\u00e3os, que este disco seria \u00f3timo. Era uma certeza da mesma ordem da f\u00e9 religiosa; meus her\u00f3is n\u00e3o falhariam. E *Resist*, no fim das contas, \u00e9 ainda melhor do que a f\u00e9 me afian\u00e7ava com tanta anteced\u00eancia. A faixa de abertura, *Rising Seas*, deixa isso claro desde o in\u00edcio: o refr\u00e3o, o *jingle-jangle* das guitarras que lembram *Dreamworld*, frases como \u0022every child, put down your toys and come inside to sleep, we have to look you in the eye and say, we sold you cheap\u201d \u2014 \u00e9 tudo perfeito e emocionante para o f\u00e3 do Midnight Oil. Os momentos finais da \u00faltima faixa, *Last Frontier*, cantado a plenos pulm\u00f5es por um bocado de gente \u2014 excitante e pungente como *Now or Never Land* no fim de *Earth and Sun and Moon* \u2014 \u00e9 igualmente arrepiante. Quase n\u00e3o d\u00e1 de ficar triste com o fato de que este ser\u00e1, provavelmente, o \u00faltimo \u00e1lbum da banda. Quase.\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1\u003C\/b\u003E: Essas linhas foram escritas no come\u00e7o de novembro, e logo depois ocorreu-me de estar, enfim, na praia, diante do mar. Aqueles, contudo, eram dias bastante conturbados, e acabei me esquecendo de colocar este disco com as pe\u00e7as de Britten em meu tocador de m\u00fasica port\u00e1til, e portanto n\u00e3o foi desta vez que escutei aos *Four Sea Interludes* sentado na areia enquanto assisto ao decl\u00ednio do dia, o in\u00edcio da noite, o sumi\u00e7o do mar. Mas tudo bem. Mesmo sem a m\u00fasica foi lindo, lindo e emocionante. Bem pouca m\u00fasica, na verdade, soa melhor do que o som da rebenta\u00e7\u00e3o, da brisa, dos p\u00e1ssaros, o murm\u00fario da natureza entrando em sossego noturno, e certamente m\u00fasica alguma soa melhor do que a voz daquela que estava l\u00e1 comigo. [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Praia dos A\u00e7ores (Florian\u00f3polis), foto de Fabricio C. Boppr\u00e9 em novembro de 2022.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":848,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2022","post_timestamp":"2022-11-02T22:23:14+00:00","url":"Discos_do_mes_Outubro_de_2022","post":"**Pearl Jam - Vitalogy**\r\n\r\nEm todas as revis\u00f5es da discografia do Pearl Jam que vejo por a\u00ed, o *Vitalogy* aparece sempre bem na foto, creio at\u00e9 que angariando mais simpatia do que a recebida na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento. Ou talvez ele esteja envelhecendo mais graciosamente do que os outros? Ou talvez seja apenas nostalgia? No que me diz respeito, durante bastante tempo ele foi meu favorito: imediatamente ap\u00f3s a primeira audi\u00e7\u00e3o (em um s\u00e1bado de manh\u00e3, sentado no ch\u00e3o do quarto, colocando o CD rec\u00e9m-comprado para tocar no pequeno micro-system que eu e meu irm\u00e3o t\u00ednhamos) at\u00e9 o momento em que a discografia da banda ficou grande o suficiente e comecei eu mesmo a fazer esse tipo de revis\u00e3o e reavalia\u00e7\u00e3o. Foi quando percebi que, enquanto os dois primeiros s\u00e3o inegavelmente os \u00e1lbuns mais potentes e perenes do Pearl Jam, aquele pelo qual eu nutro um carinho mais profundo e pessoal \u00e9 o *No Code*, por uma s\u00e9rie de motivos que qualquer hora eu descrevo por aqui. Creio que a heterogeneidade do *Vitalogy* \u00e9 o que faz com que, nos \u00faltimos tempos, eu raramente o tire da estante: *Nothingman* e *Whipping*, por exemplo, s\u00e3o faixas muito d\u00edspares, e elas v\u00eam juntas no *tracklist*; *Bugs* \u00e9 algo que Eddie Vedder deveria ter tentado resolver em algumas sess\u00f5es de psican\u00e1lise, e n\u00e3o no est\u00fadio em que o \u00e1lbum estava sendo gravado; *Better man* \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o muito bonita, mas o que ela est\u00e1 fazendo em um disco que tem *Not for you*? Ou uma ou outra est\u00e3o completamente fora de lugar e de prop\u00f3sito. E enquanto *Ten* fecha com *Release* e *Vs.* com *Indifference*, *Vitalogy* fecha com algo cujo t\u00edtulo ningu\u00e9m nunca se deu ao trabalho de aprender como se escreve ou pronuncia. Por outro lado, talvez seja deste disco o maior n\u00famero de faixas que eu tiraria para um hipot\u00e9tico *Best Of* pessoal da banda (*Last Exit*, *Tremor Christ*, *Corduroy* e *Immortality*) e isto me parece motivo suficiente para t\u00ea-lo ainda em boa conta.\r\n\r\n**Electric Wizard - Time to Die**\r\n\r\nTem bandas que eu adoro mas ou\u00e7o muito pouco. O motivo para esta incongru\u00eancia varia de banda para banda, e no caso do Electric Wizard a explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 no fato de que cresceu em mim, ano ap\u00f3s ano, a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o faz muito sentido escut\u00e1-los se n\u00e3o for nas proximidades do Halloween. Isto \u00e9 uma tolice, mas eu sou um tolo irrecuper\u00e1vel que n\u00e3o vive sem observar alguns ritos, ciclos e esta\u00e7\u00f5es. A vantagem, no caso do Wizard, \u00e9 que chega outubro e eu me esbaldo em seus discos, e este acaba sendo o m\u00eas mais legal do ano, descontando o m\u00eas de f\u00e9rias (quando h\u00e1). Como n\u00e3o amar [esta banda](https:\/\/blognroll.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/electric-wizard-51559c5ae9deb-1024x576.jpg)? \u00c9 o metal ocultista por excel\u00eancia, praticamente um filme de horror ingl\u00eas dos anos 70 subtra\u00eddo das imagens, e nem \u00e9 o caso de restar apenas o som, porque a trilha sonora destes filmes n\u00e3o costuma ser doom metal, mas o que resta e irmana a ambos \u00e9, principalmente, uma quest\u00e3o de atmosfera, de linda e sombria atmosfera, al\u00e9m, \u00e9 claro, da licen\u00e7a provis\u00f3ria para uma boa sess\u00e3ozinha de divertimento s\u00e1dico e degenerado. O que sempre foi, \u00e9 minha opini\u00e3o, o objetivo maior da arte: sadismo e degenera\u00e7\u00e3o; tortura e obscenidade; religi\u00e3o e assassinato.\r\n\r\n**Heat (Music From The Motion Picture)**\r\n\r\nMichael Mann \u00e9 um diretor bastante peculiar. Conquanto n\u00e3o seja exatamente um dos maiores mestres da s\u00e9tima arte, seus filmes possuem uma marca autoral que gosto muito: uma fixa\u00e7\u00e3o pelo azul que n\u00e3o raro os deixa visualmente deslumbrantes; o uso frequente de planos amplos; vidros e espelhos e ilumina\u00e7\u00e3o distorcida; as cenas noturnas com personagens \u00e0 beira do esgotamento, confusos e cansados \u2014 estes s\u00e3o alguns dos elementos mais recorrentes e distintivos em seus filmes. Al\u00e9m disso, Mann possui um tato refinad\u00edssimo para escolher a m\u00fasica de suas tramas. *Heat* \u00e9 um velho favorito, um neo-noir \u00e9pico que nunca passo dois ou tr\u00eas anos sem rever. Por um lado, \u00e9 o filme norte-americano por excel\u00eancia \u2014 mais genericamente falando, \u201cfilme policial\u201d \u2014, mas, por outro, a singularidade de Mann como diretor o distingue amplamente de quase todos os outros desta categoria: as tomadas noturnas da cidade, as c\u00e2meras fora de foco, a ambiguidade dos personagens, e, claro, a m\u00fasica. A trilha sonora de *Heat* \u00e9 uma proeza: est\u00e3o nas cenas do filme e no tracklist do \u00e1lbum gente d\u00edspar como Moby, Terje Rypdal, Einst\u00fcrzende Neubauten, Lisa Gerrard (a cantora do Dead Can Dance) e o quarteto de m\u00fasica cl\u00e1ssica experimental Kronos Quartet, e o resultado \u00e9 de uma coes\u00e3o surpreendente, uma fluidez et\u00e9rea e algo hier\u00e1tica que transfere \u00e0 atmosfera urbana do filme um tom meio b\u00edblico, ruas e pr\u00e9dios como que banhados em uma nova esp\u00e9cie de sacralidade, um sagrado mais antropoceno e moderno, maculado o tempo todo pelo sangue que respinga com frequ\u00eancia e pela tens\u00e3o fren\u00e9tica dos momentos de a\u00e7\u00e3o. O filme sem essa m\u00fasica toda j\u00e1 seria \u00f3timo; com ela ent\u00e3o torna-se um cl\u00e1ssico contempor\u00e2neo.\r\n\r\n**Vincent Price - Witchcraft \u0026 Magic: An Adventure In Demonology**\r\n\r\nEu provavelmente n\u00e3o saberia responder qual \u00e9 a minha banda favorita, ou, se estivermos falando do antigo mundo dos pianos, violinos e violoncelos, n\u00e3o saberia responder quem \u00e9 o meu compositor ou compositora favorito(a), embora neste \u00faltimo caso, devido ao universo menor de possibilidades conhecidas e a uma curiosa coincid\u00eancia, eu poderia ao menos dizer com alguma seguran\u00e7a que as chances deste possuir um sobrenome que comece com \u201cB\u0022 s\u00e3o bastante grandes. Agora, se voc\u00ea me perguntar quem \u00e9 o meu ator favorito, essa \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 prov\u00e1vel at\u00e9 que antes mesmo de voc\u00ea terminar de pronunciar sua pergunta eu j\u00e1 lhe tenha respondido: \u201cquem \u00e9 o seu ator\u2026\u201d \u2014 \u201cVincent Price\u201d. Price \u00e9 o patrono do mundo de fantasia cinematogr\u00e1fica que tanto estimamos aqui em casa, mundo feito em boa parte de filmes de terror baratos dos anos 60 e 70, muitos deles baseados em obras de Edgar Allan Poe (ou pelo menos na premissa b\u00e1sica original de algum conto de Poe), muitos dirigidos por Roger Corman. Nas semanas que antecedem o Halloween, al\u00e9m de ouvir doses generosas de Electric Wizard e de King Diamond, n\u00f3s tamb\u00e9m assistimos a dezenas de filmes de terror, revisitando ao longo da maratona alguns dos nossos favoritos, o que significa que no fim das contas outubro acaba sendo tamb\u00e9m um m\u00eas repleto de Vincent Price. E outubro de 2022 foi ainda mais pois descobrimos este disco que Price lan\u00e7ou em 1969, quando vivia o auge de sua deliciosa canastrice, ops, quero dizer, de sua pot\u00eancia dram\u00e1tica. N\u00e3o \u00e9 exatamente um disco de m\u00fasica: trata-se do ator declamando, sobre alguns poucos efeitos sonoros, um longo texto sobre feiti\u00e7aria, uma hora e quarenta minutos da voz mel\u00edflua e das entona\u00e7\u00f5es e gracejos malignos de Price nos contando hist\u00f3rias sobre bruxas e dem\u00f4nios, descrevendo rituais e po\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas e rememorando casos hist\u00f3ricos em que o sobrenatural influiu nos destinos do mundo (voc\u00ea realmente acha que sabe como se deu o desfecho da Segunda Guerra Mundial?). Bastante did\u00e1tico e extremamente divertido.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Vincent Price em imagem copiada [daqui](https:\/\/darkflix.blog.br\/aniversariante-do-dia-vincent-price\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":847,"title":"O caminho adiante","post_timestamp":"2022-11-01T17:22:19+00:00","url":"O_caminho_adiante","post":"Dia desses me dei conta de que 2022 marca o anivers\u00e1rio de uma d\u00e9cada deste h\u00e1bito que denomino \u201cDiscos do m\u00eas\u201d, [estas reflex\u00f5es mensais](http:\/\/dyingdays.net\/?category=discos_do_mes) sobre alguns dos discos que escuto e, em menor medida, na forma de deriva\u00e7\u00f5es ao sabor dos ventos, sobre o mundo no qual esses discos existem. Investigando os arquivos do blog, descobri que foi precisamente em outubro de 2012 que o primeiro post da s\u00e9rie veio \u00e0 luz, ou seja, h\u00e1 exatos 10 anos. Parab\u00e9ns para mim, pela disciplina. N\u00e3o lembro bem como a ideia come\u00e7ou, mas j\u00e1 faz algum tempo que o h\u00e1bito vem sendo mantido por raz\u00f5es bastante diversas daquelas que costumam motivar as pessoas a publicarem textos na internet: o que me anima \u00e9, antes de tudo, a reflex\u00e3o e o recolhimento necess\u00e1rios para a escrita. Mesmo que sejam extremamente capengas e n\u00e3o raro confusos e convolutos, o processo de elaborar estes textos \u00e9 intimamente muito prazeroso e frequentemente revelador. Na minha forma particular de executar a coisa, escrever sobre um disco significa, antes de tudo, observar a mim mesmo, \u00e0s minhas rea\u00e7\u00f5es diante dos est\u00edmulos do mundo e ao que h\u00e1 dentro de mim que modela ou ocasiona tais rea\u00e7\u00f5es. Observar essas coisas, tentar compreend\u00ea-las e express\u00e1-las por escrito: este processo, incluindo a\u00ed a parte \u201ct\u00e9cnica\u201d da observ\u00e2ncia \u00e0s regras sint\u00e1ticas, l\u00e9xicas e sem\u00e2nticas da l\u00edngua, que ajudam a estruturar e esclarecer o pensamento, tornou-se um exerc\u00edcio mental do qual n\u00e3o mais abro m\u00e3o. H\u00e1 algo de espiritualmente muito excitante no exerc\u00edcio da escrita, creio que ainda mais se estiver relacionada ao mundo das artes. \u00c0s vezes \u00e9 surpreendente, \u00e0s vezes \u00e9 vertiginoso, e \u00e9 sempre edificante. Mais gente deveria tentar.\r\n\r\n\u2014 \r\n\r\nCreio que ao longo destes 10 anos foram apenas duas ou tr\u00eas as ocasi\u00f5es em que faltei a este compromisso comigo mesmo. Uma ou duas vezes por cansa\u00e7o e\/ou falta de tempo; outra, em outubro de 2018, por absoluta tristeza e prostra\u00e7\u00e3o. Naquela ocasi\u00e3o, em uma esp\u00e9cie de [texto-tamp\u00e3o](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2018_10_29_descendo), fiz votos para que n\u00f3s brasileiros n\u00e3o demor\u00e1ssemos demais para nos arrepender do que hav\u00edamos acabado de fazer pois a partir dali o caminho de volta ficaria mais dif\u00edcil a cada dia que passasse. Bem, c\u00e1 estamos, quatro anos depois, e um primeiro passo em dire\u00e7\u00e3o ao ar livre, espero que n\u00e3o tarde demais, acabou de ser dado. Por um lado, para ser honesto, n\u00e3o consigo me sentir completamente feliz sabendo que aproximadamente metade do pa\u00eds preferiria ter reeleito o atual presidente. Por outro, n\u00e3o ignoro que o feito do pr\u00f3ximo presidente \u2014 que at\u00e9 outro dia estava (injustamente) preso \u2014 n\u00e3o \u00e9 de pouca monta, se considerarmos todas as circunst\u00e2ncias, e as pessoas t\u00eam todo o direito de comemor\u00e1-lo com alegria e orgulho. O que posso dizer sem titubear \u00e9 que estou aliviado, muito aliviado: a partir do ano que vem n\u00e3o mais teremos que ler a todo instante o nome desta fam\u00edlia de fac\u00ednoras, n\u00e3o mais teremos que ver suas carrancas grosseiras e perversas estampadas o tempo todo nos sites e nos jornais. Minha sa\u00fade ps\u00edquica vai melhorar de forma incomensur\u00e1vel e tenho certeza que a de muito mais gente tamb\u00e9m. Poder voltar a ouvir discos de m\u00fasica brasileira sem ser fulminado por uma tristeza lancinante tamb\u00e9m \u00e9 algo que me conforta. Comprei diversos nos \u00faltimos tempos, mas n\u00e3o escutei a quase nenhum deles ainda: eram como que apostas desesperadas de que haveria \u2014 teria que haver \u2014 momentos mais prop\u00edcios. Vejamos como ser\u00e1 este caminho que parece abrir-se timidamente diante de n\u00f3s, e quantos passos conseguiremos dar por entre seus espinhos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Ilustra\u00e7\u00e3o de Gustave Dor\u00e9 para o poema *A Divina Com\u00e9dia*, de Dante Alighieri.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":846,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2022","post_timestamp":"2022-10-02T17:11:57+00:00","url":"Discos_do_mes_Setembro_de_2022","post":"**Sarah Davachi - Two Sisters**\r\n\r\nEstava eu apenas na segunda faixa deste disco quando decidi inscrev\u00ea-lo em minha pr\u00e9-lista de melhores de 2022, e antes mesmo de finalizar esta primeira audi\u00e7\u00e3o eu j\u00e1 sabia que dificilmente ele deixar\u00e1 de estar na lista final. As duas pequenas e fr\u00e1geis vozes de *Alas, Departing* (a tal segunda faixa), abstra\u00eddas em seu cantarolar de desterro, de solid\u00e3o, de abnega\u00e7\u00e3o completa, instilam compaix\u00e3o e humanidade, e o \u00e1lbum como um todo soa como a concep\u00e7\u00e3o meticulosa de uma hip\u00f3tese: como seria um mundo que tendesse em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 histeria, \u00e0 viol\u00eancia, \u00e0 hostilidade? Escutar aos 90 minutos de *Two Sisters* \u00e9 um exerc\u00edcio de aten\u00e7\u00e3o e contempla\u00e7\u00e3o, um exerc\u00edcio similar \u00e0 observa\u00e7\u00e3o da luz natural incidindo sobre as coisas e mudando suas cores, do tempo sendo inscrito sobre a pr\u00f3pria pele.\r\n\r\n**Cult - Hidden City**\r\n\r\nUm novo Ian Astbury reconfigurou-se em minha mente ap\u00f3s a leitura de seu [Baker\u0027s Dozen](https:\/\/thequietus.com\/articles\/08923-ian-astbury-the-cult-favourite-albums) na The Quietus, bastante diferente da imagem que eu fazia dele baseado apenas em fotografias e nos esteri\u00f3tipos mofados do rock \u2019n\u2019 roll. Apesar de adorar o Cult, sempre imaginei Astbury um rock star do tipo mais pedante e pretensioso, algu\u00e9m que, se eu viesse a conhecer melhor, dificilmente evitaria que minha afei\u00e7\u00e3o pela banda diminu\u00edsse um pouco. Foi portanto uma grata surpresa a leitura deste relato sobre seus discos favoritos; n\u00e3o que ele agora me afigure o ser humano mais frugal e gentil do mundo \u2014 o sujeito, afinal, usa gorros feitos de peles de animais \u2014, mas seu entusiasmo pelos discos e artistas mais importantes de sua vida (Patti Smith, Jim Morrison, Lou Reed, entre outros) \u00e9 tocante e genu\u00edno, e n\u00e3o desprovido de um certo tipo de inoc\u00eancia que acho bastante saud\u00e1vel quando n\u00f3s adultos conseguimos conserv\u00e1-la, em doses adequadas, desde nossas adolesc\u00eancias, algo que suponho ser um dos segredos para a longevidade mental: a capacidade de sentir encanto, rever\u00eancia, deslumbramento. Desconfio que Ian Astbury v\u00e1 viver por bastante tempo ainda. Essa leitura me estimulou a escutar bastante Cult nos \u00faltimos dias, principalmente aos discos mais recentes aos quais eu nunca havia dado a devida aten\u00e7\u00e3o, e acabei descobrindo em *Hidden City*, de 2016, um disco que os torna dignos candidatos ao seleto grupo das bandas de rock formadas nos anos 80 e que ainda t\u00eam raz\u00e3o de existir. Vamos ver se *Under the Midnight Sun*, que sai agora no come\u00e7o de outubro, confirma minha impress\u00e3o.\r\n\r\n**William Ryan Fritch - Ill Tides**\r\n\r\nApesar de um e outro cacoete de trilha sonora de filme contempor\u00e2neo (tenho birra), [*Ill Tides*](https:\/\/williamryanfritch.bandcamp.com\/album\/ill-tides) \u00e9 um disco muito bonito. Entrela\u00e7ando instrumentos ac\u00fasticos mais tradicionais em uma fina malha de sons manipulados e distor\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas, William Ryan Fritch cria uma m\u00fasica cujo poder de evoca\u00e7\u00e3o \u00e9 praticamente irresist\u00edvel. H\u00e1 de ser uma experi\u00eancia distinta para cada um, mas eu, que provavelmente assisti a filmes de terror e westerns demais, nas muitas vezes em que escutei a *Ill Tides* nestas \u00faltimas semanas sempre me via imediatamente transportado para o meio de paisagens elementares alvejadas pelo tempo e suas intemp\u00e9ries, cores incomuns brilhando no horizonte, os vest\u00edgios de antigos mist\u00e9rios rachando e desbotando-se sob o sol. Surgindo das profundezas do tempo, vozes distantes de seres que tiveram seu direito de existir revogado fazem-se ouvir, prevenindo-nos acerca de nosso pr\u00f3prio futuro\u2026 E por a\u00ed vai. M\u00fasica para reverenciar com calma, no fim da tarde. Muito bonito, mas \u00e9 claro que eu n\u00e3o contestaria algu\u00e9m que dissesse que William Ryan Fritch n\u00e3o \u00e9 Harold Budd; certamente ele n\u00e3o \u00e9. Para alcan\u00e7ar algo parecido com a concentrada carga espiritual da m\u00fasica de Sarah Davachi \u2014 o tanto que ela faz com t\u00e3o pouco \u2014 ele tamb\u00e9m precisa de um pouco mais de estudo e inspira\u00e7\u00e3o. Mas melhor do que Max Richter e do que o falecido J\u00f3hann J\u00f3hannsson (para citar dois aclamados compositores contempor\u00e2neos) eu j\u00e1 acho que ele \u00e9 de sobra.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Sarah Davachi em foto de Sean McCann, copiada [daqui](https:\/\/www.self-titledmag.com\/sarah-davachi-feature-playlist\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":845,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2022","post_timestamp":"2022-09-05T23:02:44+00:00","url":"Discos_do_mes_Agosto_de_2022","post":"Minha nova banda favorita se chama Anaal Nathrakh. Estou ciente de que o nome n\u00e3o soa nada bem; nem o fato de ter sido extra\u00eddo de um encantamento proferido por Merlin [neste filme](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0082348\/) (uma das minhas mais antigas lembran\u00e7as cinematogr\u00e1ficas) o salva. Os t\u00edtulos dos discos, em compensa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o \u00f3timos: *Hell Is Empty, and All the Devils Are Here* e *Total Fucking Necro* s\u00e3o dois dos melhores. Este [\u00faltimo](https:\/\/anaalnathrakh.bandcamp.com\/album\/total-fucking-necro) \u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o de faixas das duas primeiras demos da banda e sua audi\u00e7\u00e3o comporta uma \u00fanica conclus\u00e3o: os dois sujeitos por tr\u00e1s do Anaal Nathrakh nasceram para isso, para fazer m\u00fasica extrema de gelar os ossos. \u00c0s vezes me pergunto que tipo de crian\u00e7a foi algu\u00e9m capaz de, mais tarde na vida, criar uma m\u00fasica repleta de tanta turbul\u00eancia, caos e brutalidade. Sorte a nossa os pais destes meninos n\u00e3o os terem metido em cl\u00ednicas psiqui\u00e1tricas desde cedo, o que provavelmente comprometeria a possibilidade de uma carreira art\u00edstica. Essas demos s\u00e3o arrasadoras, mas os discos v\u00e3o ficando ainda melhores, mais apocal\u00edpticos, devorando e absorvendo influ\u00eancias (black metal, m\u00fasica industrial, etc.), cataclismas sonoros altamente estimulantes e bestiais. \u201cPerturbator\u201d tamb\u00e9m n\u00e3o soa l\u00e1 muito bem, mas temos que dar um desconto: o camarada \u00e9 franc\u00eas. Em sua l\u00edngua natal a pron\u00fancia talvez soe melhor, ou mais divertida, n\u00e3o sei. O som criado por [Perturbator](https:\/\/perturbator.bandcamp.com\/music), em todo o caso, n\u00e3o d\u00e1 margem para d\u00favidas ou desconfian\u00e7a de nenhum tipo: \u00e9 pura e total satisfa\u00e7\u00e3o, um mergulho mega-indulgente e sem limites em um universo de sintetizadores, est\u00e9tica de trilhas sonoras, submundo virtual pr\u00e9-redes sociais, cen\u00e1rios urbanos semi-iluminados por luzes neon\u2026 Acho que deu de captar o esp\u00edrito da coisa, certo? O exagero sinest\u00e9sico \u00e9 de fato t\u00e3o grande, a paix\u00e3o pelos anos 80 e 90 t\u00e3o escancarada e despudorada, que me surpreende estes seus discos encontrarem tanto entusiasmo e receptividade \u2014 eu nunca imaginaria existir tanta gente de gosto musical t\u00e3o ruim e t\u00e3o encharcado de nostalgia como o meu. [*TERROR 404*](https:\/\/perturbator.bandcamp.com\/album\/terror-404) foi o \u00faltimo disco do Perturbator que escutei, e fiquei com a impress\u00e3o de t\u00ea-lo achado o melhor de todos. A confirmar. Bem, aqui no meu canto, \u00e9 isso o que tenho escutado: m\u00fasica eletr\u00f4nica e metal. S\u00e3o dois dos g\u00eaneros mais l\u00fadicos e escapistas dentre aqueles com os quais tenho afinidade, e assim sigo ludibriando corpo e alma com as imagens mais distantes e extraterrenas que minha mente consegue conjurar. Tem funcionado: permane\u00e7o vivo e razoavelmente s\u00e3o. Encerro este curto relato rendendo homenagem ao vener\u00e1vel Kreator, minha banda de thrash metal favorita. Eu sei, eu sei, ter como banda thrash favorita uma de fora do [*Big Four*](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Big_Four_of_Thrash) pode soar esnobismo, mas assumo o risco mesmo assim. H\u00e1 um fator que desequilibra o jogo em favor destes alem\u00e3es: com o passar dos anos, o Kreator foi se tornando cada vez mais pol\u00edtico, abordando temas como desigualdade e destrui\u00e7\u00e3o ambiental em suas letras, fincando os coturnos ao lado dos [mais fracos](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=VnZI9d2lTOg) e denunciando tiranos e reacion\u00e1rios em geral. Em um cen\u00e1rio onde figuras abjetas como [esta](https:\/\/www.thedailybeast.com\/6-political-musings-from-megadeths-dave-mustaine) e [esta](https:\/\/loudwire.com\/varg-vikernes-video-channel-banned-youtube-policy\/) infelizmente n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es, a exist\u00eancia de um Kreator minimiza um pouco o ressentimento que sinto \u00e0s vezes por gostar tanto de metal\u2026 E, claro, n\u00e3o bastasse a atitude, os caras ainda lan\u00e7am discos excepcionais como este [*Hate \u00dcber Alles*](https:\/\/kreator.bandcamp.com\/album\/hate-ber-alles), que saiu do forno e foi direto para a minha lista de melhores de 2022. Vida longa ao Kreator!","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Kreator em foto de autoria desconhecida, copiada [daqui](https:\/\/www.ztmag.com\/news\/kreator-and-noise-records-launch-pledgemusic-reissue-campaign\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":844,"title":"Heavy metal roundup, Vol. VI","post_timestamp":"2022-08-07T15:26:10+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Vol_VI","post":"Dia desses, enquanto fazia caf\u00e9, pensei num bom nome para uma banda de death metal: Umbilical Asphyxiation. Fui ent\u00e3o conferir na enciclop\u00e9dia do metal se algu\u00e9m j\u00e1 tinha tido essa ideia antes de mim: [\u00e9 claro que j\u00e1](https:\/\/www.metal-archives.com\/bands\/Umbilical_Asphyxia\/3540446551).\r\n\r\n**Droid - Terrestrial Mutations**\r\n\r\nPara quem curte a *vibe* sci-fi do Voivod e o galope fren\u00e9tico do thrash metal, esse disco \u00e9 um prato transbordantemente cheio.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3630819253\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/droidcanada.bandcamp.com\/album\/terrestrial-mutations\u0022\u003ETerrestrial Mutations by Droid\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Traitor - Knee\u200b-\u200bDeep In The Dead**\r\n\r\nNa sequ\u00eancia do *revival* do death metal *old school* de alguns anos atr\u00e1s veio o *revival* do thrash metal, e, a exemplo daquele, tamb\u00e9m este eu estou adorando. O *revival* do death metal, na verdade, me ensinou a gostar de death metal; thrash metal, por outro lado, eu lembro de escutar no come\u00e7o dos anos 90, quando o g\u00eanero exalava ainda algo do vigor de seu primeiro ciclo: eu adorava o Anthrax, tinha diversos \u00e1lbuns da banda gravados em fita cassete, e escutava tamb\u00e9m ao Kreator, ao Slayer e ao Testament. Mas nada disso me impede de estar adorando muitas das bandas thrash novas que venho descobrindo em minhas \u00faltimas incurs\u00f5es pelo bandcamp. At\u00e9 porque, se voc\u00ea pegar uma banda como esta Traitor e disser para algu\u00e9m que n\u00e3o os conhece que esses caras fizeram shows com o Nuclear Assault em 1989, excetuando talvez a pista deixada por algum valor de produ\u00e7\u00e3o mais moderno, voc\u00ea dificilmente ser\u00e1 desacreditado.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=813377033\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/violentcreekrecords.bandcamp.com\/album\/traitor-knee-deep-in-the-dead\u0022\u003ETraitor -Knee-Deep In The Dead by Violent Creek Records\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Wraith - Undo the Chains**\r\n\r\nJ\u00e1 faz tempo que Lemmy morreu e foi canonizado, mas para a nossa boa sorte ele deixou milhares de devotos e disc\u00edpulos espalhados pela Terra. Esses camaradas do Wraith tendem para um est\u00e9tica mais metal, se comparada \u00e0quela mais rock \u2019n\u2019 roll de Lemmy e cia., mas pouco importa: quem sente saudade do bom e velho Mort\u00f6rhead pode alivi\u00e1-la um pouco aqui.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=4280387059\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/wraith-us.bandcamp.com\/album\/undo-the-chains\u0022\u003EUndo the Chains by WRAITH\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Erythrite Throne  - Grimness of the Darklands**\r\n\r\nVirou moda no mundo do metal as capas que simulam as antigas capinhas das fitas cassetes quando retiradas de suas caixas e abertas, com a lombada e a pequena aba lateral expostas lado a lado, como [a deste disco](https:\/\/f4.bcbits.com\/img\/a3979780447_10.jpg). Eu \u00e9 que n\u00e3o vou reclamar: adoro-as. (Os CDs que v\u00eam com a parte superior do disco impressa como se fosse um pequeno disco de vinil, aquilo eu acho feio demais.) Mais bonita do que a capa do disco abaixo somente a lista de g\u00eaneros que a banda se atribui:\r\n\r\n- ambient \r\n- black ambient \r\n- dark ambient \r\n- dark dungeon music\r\n- dark medieval \r\n- dungeon synth \r\n- medieval \r\n- occult \r\n- raw dungeon synth \r\n- vampyric dungeon synth\r\n\r\n\u0022Vampyric dungeon synth\u201d, que fofura! Adoro esse tipo de som, mas aqui na minha cole\u00e7\u00e3o digital eu categorizo estes discos simplesmente como \u201cmetal\u201d, pois \u00e9 a mesma atmosfera fantasiosa, a mesma mentalidade infantilizada do metal. Ou\u00e7o *dungeon synth* quando estou com vontade de escutar metal, \u00e9 perfeitamente intercambi\u00e1vel: posso ir desse disco a\u00ed de baixo para o Morbid Angel e depois ouvir algo do [Mortiis](https:\/\/mortiis.bandcamp.com\/music) e terminar a noite com o Iron Maiden. Ent\u00e3o, para simplificar, para mim \u00e9 metal. Mas que \u0022dark dungeon music\u201d soa melifluamente bem, ah, isso ningu\u00e9m pode negar.\r\n\r\n(Este disco infelizmente n\u00e3o est\u00e1 mais dispon\u00edvel no Bandcamp.)","post_summary":"Minha \u00faltimas descobertas no reino do metal.","post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"ilustra\u00e7\u00e3o do disco *Eulogy for the Hangman* do Erythrite Throne, autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/metal.academy\/releases\/18944).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":843,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2022","post_timestamp":"2022-08-02T21:34:00+00:00","url":"Discos_do_mes_Julho_de_2022","post":"**Mefisto - Octagram**\r\n\r\nDemorou, mas c\u00e1 estou finalmente em plena Temporada Anual do Heavy Metal. Tem dias que passo as horas de trabalho todas ouvindo metal e quando chega a noite meus ouvidos zumbem como se houvesse abelhas aprisionadas em meu c\u00e9rebro, e de madrugada sonho (segue um exemplo) que na pra\u00e7a aqui em frente de casa acontece um festival em cujo palco alternam-se bandas de black metal e coros gregorianos e cujo p\u00fablico \u00e9 composto quase que exclusivamente pelos velhinhos e velhinhas que observo caminhando ao redor da pra\u00e7a durante o dia, e todos assistem atentamente aos shows, sentados, os olhos semi-cerrados em sossegada concentra\u00e7\u00e3o, as m\u00e3os entrela\u00e7adas e pousadas sobre o colo. Os detalhes dos sonhos s\u00e3o mat\u00e9ria fascinante, n\u00e3o? Foi logo nos primeiros dias do meu Metalfest \u201922 particular que descobri esta incr\u00edvel banda sueca chamada Mefisto. O verbete na [Encyclopaedia Metallum](https:\/\/www.metal-archives.com\/bands\/Mefisto\/11027) informa que eles existem desde a d\u00e9cada de 80, mas, por algum motivo, seus lan\u00e7amentos s\u00f3 ganham tra\u00e7\u00e3o a partir de 2014. O apelo irresist\u00edvel desta banda para mim vem dos vocais e guitarras cavernosos *a la* Venom e da malignidade *kitsch* que confirma a origem oitentista do grupo. \u00d3tima banda, \u00f3tima descoberta, um come\u00e7o bastante auspicioso para o inverno que tardou mas chegou.\r\n\r\n**Kate Bush - Hounds of Love**\r\n\r\nE ent\u00e3o, nos intervalos necess\u00e1rios para expurgar meu cr\u00e2nio das abelhas mencionadas acima, tenho recorrido principalmente aos discos da Kate Bush e do Ash Ra Tempel. Li em algum lugar que Kate Bush voltou \u00e0s paradas de sucesso (\u00e9 assim que se fala?) devido ao uso de uma can\u00e7\u00e3o sua em n\u00e3o sei que filme ou seriado, e antes que o esnobe em mim fique inconformado pelo fato de ser necess\u00e1rio um produto pop (provavelmente) f\u00fatil para que Bush volte a ser reconhecida, antes fico \u00e9 feliz pela por\u00e7\u00e3o de gente que, antes tarde do que nunca, est\u00e1 tendo agora a oportunidade de conhecer essa artista \u00fanica e magn\u00edfica. Este momento do primeiro encontro, o encanto inaugural com determinada forma de arte ou artista, \u00e9 sempre especial; eu particularmente guardo com carinho na mem\u00f3ria muitas das ocasi\u00f5es em que isto me ocorreu \u2014 o choque, o assombro se desdobrando em formas estranhas e desconhecidas, a alegria e a excita\u00e7\u00e3o da descoberta. \u00c9 a vida se expandindo. *Hounds of Love*, por conta de um desses lapsos que todo colecionador de discos reconhece e se lamenta mas tamb\u00e9m secreta ou inconscientemente os cultiva (que \u00e9 para continuar perpetuamente tendo motivos para entrar em lojas de discos), \u00e9 o \u00fanico disco de Kate que tenho em minhas estantes, e por conta disso \u00e9 o que mais tenho escutado. Creio que foi justamente sua faixa de abertura, *Running Up that Hill (A Deal with God)*, a can\u00e7\u00e3o utilizada no tal filme ou seriado, e seja l\u00e1 quem forem os criadores do neg\u00f3cio, deve ser uma gente bastante esperta e\/ou de gosto muito refinado pois \u00e9 de fato uma can\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, muito al\u00e9m de mero artefato de uma \u00e9poca, mesmo considerando seus v\u00edcios de produ\u00e7\u00e3o e sua roupagem escancaradamente oitentista. O disco \u00e9 excepcional do come\u00e7o ao fim, e tor\u00e7o para que estas novas gera\u00e7\u00f5es cheguem a ter a chance de descobrir o tesouro incompar\u00e1vel que \u00e9 toda a discografia de Kate Bush: de *The Kick Inside* a *50 Words for Snow*, n\u00e3o h\u00e1 disco seu que seja desprovido de maravilhas.\r\n\r\n**Ash Ra Tempel - Join Inn**\r\n\r\nEmbora o Tangerine Dream e o Neu! continuem sendo meus alem\u00e3es loucos favoritos, o Ash Ra Tempel mencionado acima vem galgando degraus rapidamente, j\u00e1 tendo se embolado ali junto com o Cluster, o Can, o Amon D\u00fc\u00fcl, entre outros, no segundo pelot\u00e3o das minhas prefer\u00eancias. Ora, que bobagem \u2014 s\u00e3o todos esses grupos igualmente fant\u00e1sticos e incompar\u00e1veis. A segunda das duas faixas que comp\u00f5e *Join Inn*, que o Ash Ra Tempel lan\u00e7ou em 1973, chama-se *Jenseits* e ilustra uma das muitas facetas do enorme balaio que convencionou-se chamar *kosmische Musik* ou *krautrock*: trata-se de um longo sonho distendido, vaporoso, pontuado aqui e ali por frases humanas indistintas, \u00f3rg\u00e3o e teclados incertos (a cargo de Klaus Schulze, que fundou o grupo com Manuel G\u00f6ttsching e Hartmut Enke mas deixou-os logo depois do lan\u00e7amento deste disco) e um clima alucin\u00f3geno geral que poderia sugerir que a banda fosse de alguma forma parceira ou disc\u00edpula de algu\u00e9m como, por exemplo, Timothy Leary. O que, de fato, [eram](https:\/\/www.discogs.com\/pt_BR\/master\/2716-Timothy-Leary-Ash-Ra-Tempel-Seven-Up). Bel\u00edssimo disco que demorei uma enormidade indesculp\u00e1vel para conhecer.\r\n\r\n**D\u00e4lek - Absence**\r\n\r\n\u00c9 raro eu me aventurar pelo mundo do rap e do hip-hop. Algum escr\u00fapulo provavelmente justificado mas em cuja observ\u00e2ncia eu talvez seja rigoroso demais me impede incurs\u00f5es mais frequentes por l\u00e1. Mas tenho plena consci\u00eancia de que a m\u00fasica contempor\u00e2nea passa obrigatoriamente por estes g\u00eaneros nascidos nas periferias e de que h\u00e1 talentos imensos criando *beats* e escrevendo algumas das mais pertinentes rimas e reflex\u00f5es sobre muitas das mais importantes quest\u00f5es de nosso tempo. Vez ou outra eu escuto Public Enemy, DJ Shadow, Antipop Consortium e Cypress Hill (a turma bem vestida que vive na capa da Pitchfork \u2013 Kanye West, etc. \u2014 n\u00e3o creio que esses poder\u00e3o me interessar algum dia), mas recentemente descobri o [D\u00e4lek](https:\/\/dalek.bandcamp.com\/) e s\u00e3o os discos desta dupla que tenho colocado para tocar mais frequentemente quando sinto vontade de escutar a este tipo de m\u00fasica. *Absence*, com suas imensas paredes de som e claustrofobia de m\u00fasica industrial, talvez n\u00e3o seja um disco de hip-hop puro-sangue, por\u00e9m as batidas \u2014 e s\u00e3o elas que, primariamente, sempre me interessaram \u2014 est\u00e3o l\u00e1, densas e hipn\u00f3ticas, e para mim n\u00e3o \u00e9 surpresa alguma fazerem par perfeito com a sonoridade *noise* brutal que as acompanham. \u00c9 um disco espantoso de bom, repleto de uma atmosfera saturada que n\u00e3o raro suplanta aquilo que faz ou fazia a turma do *shoegaze* e de algumas outras vertentes perimetrais do rock e do metal. Sim, pode botar a\u00ed nessa conta My Bloody Valentine, Jesu, Godflesh e tudo mais.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":842,"title":"An old strain of magic","post_timestamp":"2022-07-25T22:08:45+00:00","url":"An_old_strain_of_magic","post":"Liz Harris (Grouper) sobre Delia Derbyshire:\r\n\r\n\u003E Delia Derbyshire\u2019s The Dreams, made with Barry Bermange, is one of my favourite collections of music. One can listen to it over and over; hypnotic. Recordings of people speaking about their dreams are obsessively cut and collaged by Delia against some of her darkest ambient tape work. Her use of repetition is haunting, a relationship to tape verging on occult ritual, in these works especially. I love how completely she obsesses while simultaneously giving room for the medium to decide itself. Admiring the ocean sometimes necessitates, I think, a reverence for its chaos and power. Sailing for example requires a deep respect for how easily the water could kill you. One of my favourite sections of The Dreams, a track called \u201cSea\u201d, captures this combined sense of magnetism and deep terror: \u201cI disappeared under the sea, and I would surface again, and I would start to drown again, and I would surface again, come up again, then I would go down into the water and\u2026 and I had this sensation that I was going to drown. And it was frightening and suffocating. My clothes were dragging me back\u2026\u201d.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/www.thewire.co.uk\/in-writing\/essays\/return-to-the-source-grouper-s-favourite-art-about-the-sea).)\r\n\r\nMiki Berenyi (Lush) sobre Killing Joke:\r\n\r\n\u003E What\u0027s interesting about Killing Joke is that I was never massively into them. I just played this album a lot because it was new to me to have an album that is completely built around rhythm and sounds like heavy industry. When I listened to What\u0027s THIS For...! there was something slightly terrifying about it. It\u0027s a bit like being sort of pursued through some apocalyptic landscape by unseen threats. This is a sort of album that if a parent walked into a 14-year-old child\u0027s room and heard them listening to this, they would start calling social services. I actually found the aggressiveness quite liberating. It was more thrilling than threatening.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/thequietus.com\/articles\/30407-miki-berenyi-piroshka-lush-favourite-albums-bakers-dozen?page=5).)\r\n\r\nMike Scott (Waterboys) sobre Kate Bush:\r\n\r\n\u003E When Kate had her first hit with Wuthering Heights I felt as if we \u2013 the British public \u2013 had got an old soul back. It wasn\u2019t just the resonance of the story, with Cathy returning at Heathcliff\u2019s window; it was Kate, that voice, that character. It was like an old strain of English magic had returned in her persona, and so it has been. All the promise of that first \u201creturn\u201d has come true and she has delivered on it.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2022\/jul\/01\/an-old-strain-of-english-magic-had-returned-stars-on-why-they-fell-in-love-with-kate-bush).)\r\n\r\nVijay Iyer sobre A Tribe Called Quest e hip-hop:\r\n\r\n\u003E I want to shout out \u201cScenario\u201d in particular, because of Busta Rhymes. I had never heard of him before, and he just parts the curtain and burns the whole place down with one verse. And that beat is so rowdy; there\u2019s something about the looping of that crash. Hip-hop suddenly confounded my understanding of how music is put together, because it was these loops that had all these layers to it that I really couldn\u2019t parse yet. I didn\u2019t know where it was all coming from. I just knew it had this power to carry you, and then it would have vestiges of liveness because of the samples. All of that is taking it to the next level, in terms of merging with technology to extend the imagination and make something extraordinary, something previously unimaginable.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/pitchfork.com\/features\/5-10-15-20\/the-music-that-made-vijay-iyer\/).)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Kate Bush em foto de Chris Moorhouse, copiada [daqui](https:\/\/www.stereogum.com\/2189067\/kate-bush-running-up-that-hill-hot-100\/news\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":841,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2022","post_timestamp":"2022-07-03T16:13:08+00:00","url":"Discos_do_mes_Junho_de_2022","post":"Foi somente ap\u00f3s aquele [interl\u00fadio](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Chamado) feito de massas de violinos, de pianos e sinfonias, que consegui aplacar um pouco da minha revolta, voltar-me novamente para dentro de mim e, com a mente um pouco mais serena, terminar o m\u00eas ainda entre os vivos, apreciando m\u00fasica de forma mais atenta e descansada. N\u00e3o est\u00e1 nada f\u00e1cil. J\u00e1 ultrapassamos todos os limites, assumimos de vez a sordidez e a vilania como lemas nacionais. Mas deixa para l\u00e1. Daquela maratona de m\u00fasica erudita, gostaria de mencionar a descoberta deste lindo [*Bach to the Future*](https:\/\/www.discogs.com\/release\/13674093-Olivier-Latry-Bach-To-The-Future), de Olivier Latry. O disco traz pe\u00e7as de Bach tocadas no \u00f3rg\u00e3o, esse instrumento t\u00e3o peculiar e cujo som \u00e9 um gosto adquirido, ou pelo menos assim foi no meu caso. Alguns invernos atr\u00e1s, em um temporada morando no norte da Esc\u00f3cia, eu ia semanalmente a uma pequena igreja que oferecia concertos de \u00f3rg\u00e3o \u00e0s quintas-feiras, sempre ao meio-dia, programa\u00e7\u00e3o organizada pelo departamento de m\u00fasica da universidade local. Custava 2,00 euros e o p\u00fablico era mais ou menos sempre o mesmo: umas seis ou sete senhoras de muletas e cabelos branqu\u00edssimos, uns dois ou tr\u00eas estudantes japoneses frequentemente metidos em estranhas japonas esportivas, uma jovem professora de m\u00fasica (que depois assisti regendo um coral na mesma igreja), um sujeito de cabelos loiros compridos e olhos esbugalhados, um ou outro turista ocasional, e eu. Foi assim, semanalmente, ouvindo ao som ecoando na ab\u00f3boda da pequena igreja e observando discretamente a fauna local, que aprendi a gostar do som cinem\u00e1tico do \u00f3rg\u00e3o. O disco de Latry, \u00e9 claro, traz a destreza do organista famoso e veterano que nem sempre eu testemunhava naqueles concertos, cujos instrumentistas eram em sua maioria estudantes e professores de m\u00fasica, e apenas ocasionalmente algum m\u00fasico profissional que calhava estar passando pelas redondezas. O repert\u00f3rio escolhido por Latry \u00e9 perfeito; sobre Bach ningu\u00e9m precisa dizer nada. \u00c9 o disco que vou recomendar daqui por diante sempre que algu\u00e9m me pedir por alguma sugest\u00e3o de m\u00fasica de \u00f3rg\u00e3o (n\u00e3o que isso aconte\u00e7a com frequ\u00eancia). Depois da mini-maratona erudita comecei a escorregar suavemente para a m\u00fasica pop da minha predile\u00e7\u00e3o, e ouvi diversos dos discos solos do Mark Knopfler, alguns do Dire Straits, muito Midnight Oil. Gostei bastante do *Resist*, o disco que o Oil lan\u00e7ou no come\u00e7o do ano, mas n\u00e3o venho escutado-o pois ainda estou aguardando chegar minha c\u00f3pia em CD. Foi o infal\u00edvel *Diesel and Dust* que coloquei para tocar mais frequentemente nestes \u00faltimos dias. J\u00e1 cogitei por aqui algumas vezes qual seria meu disco favorito de todos os tempos: o *Mellon Collie and the Infinite Sadness*; o *Automatic for the People*; o *Scoundrel Days*; o *Kettle Whisttle*; o *Laughing Stock*\u2026 Costumam ser estes os mais cotados, mas, oras, no fim das contas acho que n\u00e3o \u00e9 nenhum deles \u2014 \u00e9 o *Diesel and Dust*. (Junto com o *Laughing Stock*.) N\u00e3o tem faixa dentre aquelas 11 que falhe em me emocionar; \u00e9 um disco brilhante de cabo a rabo, eu o escuto extasiado do in\u00edcio ao fim. O Oil est\u00e1 em sua \u00faltima turn\u00ea e tem me ocorrido com frequ\u00eancia a ideia de largar tudo por aqui, fugir deste pa\u00eds de s\u00e1dicos e seguir a minha banda favorita em seus \u00faltimos shows pela Europa e depois Austr\u00e1lia, e, terminada a aventura, provavelmente falido e estropiado, pedir ref\u00fagio ou morar debaixo de alguma ponte mesmo, em qualquer lugar cujas not\u00edcias n\u00e3o me fa\u00e7am sempre instintivamente virar o pesco\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 minha janela de quarto andar. Por \u00faltimo, uma descoberta: ser\u00e1 que a raz\u00e3o por eu sempre ter gostado tanto dos Smiths chama-se Johnny Marr? *The Messenger* \u00e9 o primeiro disco solo dele que escuto e o adorei!","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":840,"title":"Chamado","post_timestamp":"2022-06-26T14:55:42+00:00","url":"Chamado","post":"Analisando em retrospecto, me dou conta de que j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios dias \u00e9 que a m\u00fasica cl\u00e1ssica vinha me acenando, semi-encoberta por entre o tumulto dos arredores da minha psique, lan\u00e7ando ofertas de ordem e de descanso, coisas de que andamos todos muito precisados. Por\u00e9m, n\u00e3o sei bem o porqu\u00ea, hesitei um pouco antes de prestar a devida aten\u00e7\u00e3o e tomar-lhe a m\u00e3o. Minhas audi\u00e7\u00f5es andaram meio confusas, sem muito m\u00e9todo ou inten\u00e7\u00e3o; numa breve recapitula\u00e7\u00e3o (pois n\u00e3o fiz ainda nenhuma anota\u00e7\u00e3o para o meu pr\u00f3ximo relato mensal) lembro-me de escutar aos novos discos do Tears for Fears e de Shabaka Hutchings e ao bom e velho *Walking into Clarksdale* da dupla Page \u0026 Plant, e tamb\u00e9m alguma coisa do D\u00e4lek e do Burial, al\u00e9m de duas ou tr\u00eas noites ao som de Chet Baker (velh\u00edssimo clich\u00ea ao qual n\u00e3o consigo resistir) e mais alguns tributos em mem\u00f3ria de Vangelis, mas nada disso resultava de escolhas f\u00e1ceis ou naturais, estavam mais para os discos que me apareciam pela frente e se afiguravam, quando muito, menos inadequados (exce\u00e7\u00f5es feitas ao Shabaka Hutchings e ao Vangelis). Tendo chegada a minha esta\u00e7\u00e3o metaleira por excel\u00eancia \u2014 o inverno \u2014 tentei tamb\u00e9m ouvir alguma coisa do reino da m\u00fasica do mal, mas tampouco nisso fui l\u00e1 muito bem sucedido e nem me lembro direito que discos e bandas escutei. Recordo-me vagamente de uma banda finlandesa\u2026 Ou era grega? Enquanto isso, a figura espectral acenava e acenava\u2026 Ela foi ent\u00e3o pacientemente se constituindo, se fazendo de sua mat\u00e9ria qual seja, at\u00e9 que enfim assomou clara e evidente em minha frente, paradoxalmente sob as formas mais complexas e convolutas dos concertos e das sinfonias \u2014 n\u00e3o exatamente o tipo de som mais restitutivo que conhe\u00e7o \u2014 a m\u00fasica retumbante de Mahler, Brahms, Beethoven, essa turma. Cedi n\u00e3o sem alguma desconfian\u00e7a, logo aniquilada pelas belezas a perder de vista de Brahms e tamb\u00e9m de Bach e Vasks, que me deram algum ch\u00e3o e ordenaram uma e outra coisa que andavam meio fora de compasso em meu esp\u00edrito. A m\u00fasica certa \u00e9 muito importante para mim e em geral sei qual ela \u00e9 sem nenhuma complica\u00e7\u00e3o desde o momento em que acordo de manh\u00e3 cedo, desde os primeiros esbo\u00e7os de pensamento ainda misturados \u00e0s imagens fugidias dos \u00faltimos sonhos da noite, de modo que me preocuparam um pouco estas hesita\u00e7\u00f5es e desconfian\u00e7as\u2026 Espero que n\u00e3o seja alguma doen\u00e7a neurol\u00f3gica chegando mais cedo do que o previsto. Seja como for, ela estava ali, emitindo seus sinais, um tipo de m\u00fasica que sequer exige de mim um estado de esp\u00edrito muito raro ou especial, j\u00e1 que n\u00e3o sou assim t\u00e3o moldado pela conven\u00e7\u00e3o moderna da can\u00e7\u00e3o curta, da m\u00fasica feita de estrofe, refr\u00e3o, estrofe, refr\u00e3o, e fim. *Rock \u2019n\u2019 roll* \u00e9 visceralmente parte do que sou, mas n\u00e3o apenas: \u00e9 com muita frequ\u00eancia que sinto vontade de ouvir jazz e m\u00fasica eletr\u00f4nica, m\u00fasica de formas e extens\u00f5es mais livres e que nisso se assemelham \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica. Os primeiros discos do Tangerine Dream exigem a mesma aten\u00e7\u00e3o que as sinfonias de seu conterr\u00e2neo Beethoven exigem, ou, pelo menos, ser\u00e3o bem melhor apreciados se a tiverem; o jazz indom\u00e1vel de Miles, Monk e Mingus \u00e9 uma extens\u00e3o natural da m\u00fasica pulsante de Vivaldi e Mozart; a beleza de alguns discos de m\u00fasica *ambient* de Brian Eno \u00e9 feita da mesma subst\u00e2ncia celestial de algumas pe\u00e7as de Bach\u2026 E por a\u00ed vai. Como desdenhar da m\u00fasica cl\u00e1ssica? N\u00e3o satisfeita em ser a beleza que \u00e9, ela possui ainda esta esp\u00e9cie de senci\u00eancia, este poder sobrenatural de chamar para junto de si e apaziguar estes pobres seres que somos, quando nos encontramos vez ou outra perdidos e sem rumo como que no meio de uma floresta.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Sous-bois*, de Paul C\u00e9zanne, copiada [daqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Paul_C\u00e9zanne_-_Interior_of_a_forest_-_Google_Art_Project.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":839,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2022","post_timestamp":"2022-06-05T13:29:07+00:00","url":"Discos_do_mes_Maio_de_2022","post":"**Ralph Towner - Diary**\r\n\r\nFazia muito tempo que eu n\u00e3o visitava uma feira de discos de vinil, mesmo antes da pandemia, decidido que estava a n\u00e3o mais comprar LPs de segunda m\u00e3o. Tal decis\u00e3o havia sido tomada para evitar a frustra\u00e7\u00e3o que sempre me ocorria nessas ocasi\u00f5es: ir \u00e0 feira e achar alguns discos que me interessavam, analis\u00e1-los cuidadosamente, concluir que estavam em boas condi\u00e7\u00f5es de preserva\u00e7\u00e3o e pagar uma boa grana por eles \u2014 porque, via de regra, n\u00e3o eram LPs dos cestos de \u201cqualquer um por R$ 10,00\u201d \u2014 apenas para chegar em casa e descobrir que soavam p\u00e9ssimos, repletos de, na melhor das hip\u00f3teses, sujeira invis\u00edvel imposs\u00edvel de extirpar ou, na pior, micro-riscos e outros danos f\u00edsicos irremedi\u00e1veis. Foi depois de alguns anos repetindo esse roteiro que decidi n\u00e3o mais adquirir vinis usados: apesar do prazer que eram estas excurs\u00f5es, o desprazer de ouvir aquilo que eu trazia para casa n\u00e3o compensava. Mas da\u00ed veio a pandemia, vieram esses longos outonos e invernos gelados sem sair de casa... Quando vi o an\u00fancio de uma nova edi\u00e7\u00e3o da feira marcada para o come\u00e7o de maio, resolvi desrespeitar minha pr\u00f3pria resolu\u00e7\u00e3o e dar um pulo l\u00e1. Seria tamb\u00e9m, afinal, a chance de encontrar um ou outro velho amigo com quem eu sempre acabava esbarrando nesses eventos, amigos a quem eu n\u00e3o via h\u00e1 bastante tempo. (A hip\u00f3tese de ir e n\u00e3o comprar discos, me parece desnecess\u00e1rio dizer, n\u00e3o existe: para quem sofre da patologia que sofro \u00e9 como ir a um restaurante, sentar-se \u00e0 mesa e n\u00e3o pedir comida alguma.) Pois bem, fui pensando em arriscar e comprar um ou quem sabe dois discos apenas, e at\u00e9 que n\u00e3o me sa\u00ed t\u00e3o mal: comprei quatro. Mas, finalmente, ao que interessa: achei, logo na primeira caixa que vasculhei, um maravilhoso disco do violonista norte-americano Ralph Towner, *Diary*, o segundo lan\u00e7ado por Towner via ECM Records (em 1973). N\u00e3o estava barato, mas resolvi arriscar e dessa vez dei bastante sorte: o disco ainda soa muito bem, e at\u00e9 mesmo sua [bel\u00edssima capa](https:\/\/images-na.ssl-images-amazon.com\/images\/I\/811IuRXa9wL.jpg) est\u00e1 em boas condi\u00e7\u00f5es (ficaram melhores ainda depois que cheguei em casa e com certa pomadinha milagrosa que temos aqui conseguimos retirar os vest\u00edgios de um adesivo de pre\u00e7o que algum vendedor descuidado havia colado diretamente sobre a cart\u00e3o do \u00e1lbum). O disco \u00e9 lind\u00edssimo, devaneios ac\u00fasticos que Towner faz acompanhar ocasionalmente por piano e percuss\u00e3o esparsa, m\u00fasica para o fim de tarde, m\u00fasica para n\u00e3o deixar que o dia que vai findando seja apenas mais um dia, apenas mais uma d\u00fazia de horas trabalhando sem que se saiba exatamente para qu\u00ea, mais um dia dentre os dias. Nessas situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 de Ralph Towner que voc\u00ea precisa. Ele n\u00e3o vai necessariamente deix\u00e1-lo feliz, mas vai ajudar a refor\u00e7ar as amuradas do espa\u00e7o \u00edntimo que nos ajuda a resistir aos avan\u00e7os dos b\u00e1rbaros, \u00e0s not\u00edcias calamitosas, \u00e0 desumanidade que se alastra por toda parte. *Diary* tomou conta da nossa vitrola desde aquele dia que voltei da feira; nem consegui escutar ainda aos outros LPs que comprei, e olha que estamos falando de tit\u00e3s do quilate de Keith Jarrett, Egberto Gismonti e Wendy Carlos.\r\n\r\n**Vangelis - Voices**\r\n\r\nVangelis foi imenso, por mim seu nome pode figurar em qualquer pante\u00e3o dos nossos maiores. Ele praticamente inventou um tipo de m\u00fasica, viu mais longe, abriu portais, aumentou o dom\u00ednio dos nossos sonhos. N\u00e3o satisfeito, foi l\u00e1 e comp\u00f4s e gravou a m\u00fasica de *Blade Runner*, trilha que sempre me deixa estupefato de t\u00e3o boa que \u00e9, sempre me surpreende numa esp\u00e9cie de ineditismo que se repete a cada nova audi\u00e7\u00e3o, e olha que eu j\u00e1 a escutei centenas de vezes (e assisti ao filme outras tantas). Sua intensidade, sua urg\u00eancia e engenho, \u00e9 quase como se pud\u00e9ssemos assimilar e experimentar todas essas suas qualidades apenas no momento exato em que a m\u00fasica entra em nossos c\u00e9rebros, o tempo do choque das sinapses, do aturdimento, e ent\u00e3o o disco acaba e tudo se esvai e fica semi-esquecido para ser rememorado e experimentado em toda sua fabulosa extens\u00e3o apenas na pr\u00f3xima audi\u00e7\u00e3o. Mas, embora a trilha de *Blade Runner* e tamb\u00e9m o disco *Heaven and Hell* (de 1975) sejam provavelmente os \u00e1pices do legado de Vangelis (o consenso costuma citar ainda a trilha de *Chariots of Fire*), o disco que escutei mais vezes nessas \u00faltimas semanas, em meus humildes tributos \u00e0 sua mem\u00f3ria, foi este *Voices*, lan\u00e7ado em 1995. Tem um pouco de todo Vangelis ali, mas tem sobretudo a eleg\u00e2ncia de suas composi\u00e7\u00f5es mais maduras, mais cadenciadas, mais gentis. Descanse em paz, velho Odyss\u00e9as Papathanass\u00edu! E muito obrigado por tudo.\r\n\r\n**Australian Crawl - Sirocco**\r\n\r\nPerto da maior parte da m\u00fasica que escutei nas \u00faltimas semana (bem representada pelos dois discos acima) isto aqui n\u00e3o deveria merecer mais do que uma pequena nota de rodap\u00e9, por\u00e9m algo me compele \u00e0 confiss\u00e3o: andei ouvindo muito Australian Crawl! Certa vez ouvi algu\u00e9m dizer que o Crawl seria o Midnight Oil para quem n\u00e3o liga para pol\u00edtica; eu, contudo, penso que eles teriam que ser muito melhores para chegar a tanto\u2026 Mas gosto de *Sirocco*, gosto a ponto de ter o CD em casa, a ponto de t\u00ea-lo escutado umas duas ou tr\u00eas vezes nos \u00faltimos dias. *Errol* n\u00e3o saia da minha cabe\u00e7a (j\u00e1 n\u00e3o lembro se ela foi parar ali antes ou depois de escutar ao disco pela primeira vez, ou seja, se foi causa ou consequ\u00eancia) e as duas faixas que abrem o CD, *Things Don\u0027t Seem* e *Unpublished Critics*, s\u00e3o muito boas, me lembram sempre, inescapavelmente, do caminho que eu fazia diariamente para ir e voltar do col\u00e9gio. (E, n\u00e3o, *Reckless* n\u00e3o est\u00e1 neste *tracklist*.) N\u00e3o \u00e9 minha banda australiana favorita, nem a segunda ou terceira. Pensando bem, talvez nem a quarta ou quinta\u2026 Mas tenho carinho pelo Crawl. Eles est\u00e3o ali fazendo boa figura no arquivo de bandas que, tivesse eu alguma pretens\u00e3o de respeitabilidade ou sofistica\u00e7\u00e3o cultural, eu j\u00e1 as teria abandonado h\u00e1 anos, no m\u00ednimo desde que parei de fazer aquele caminho entre a casa e o col\u00e9gio. Mas, oras, se ainda hoje eu ou\u00e7o ao Erasure e ao Bon Jovi \u2014 e vez ou outra volto ao bairro da minha inf\u00e2ncia para refazer o caminho entre a casa e o col\u00e9gio \u2014 certamente n\u00e3o \u00e9 o fato de ainda ouvir aos discos do Australian Crawl que vai me macular a reputa\u00e7\u00e3o.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":838,"title":"Nothing\u0027s Wrong In Paradise","post_timestamp":"2022-05-16T20:11:40+00:00","url":"Nothing_s_Wrong_In_Paradise","post":"N\u00e3o faz muito tempo e eu achava que nunca teria a chance de escutar a este disco completo, mas desde a semana passada tenho c\u00e1 comigo uma linda reedi\u00e7\u00e3o em vinil de *Nothing\u0027s Wrong In Paradise*, e a frequ\u00eancia com que tenho colocado-a para tocar \u00e9 tal que agora a minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a perspectiva do disco n\u00e3o durar muito\u2026 Mas comecemos pelo come\u00e7o: ouvi, um par de anos atr\u00e1s, uma faixa do Sunstroke [nesta mixtape](http:\/\/www.listentothis.info\/2019\/03\/mix-for-nts-radio-getting-warmer-episode-32\/) (tamb\u00e9m respons\u00e1vel por me apresentar \u00e0 m\u00fasica de Steve Hillage \u2014 [Jen Monroe](http:\/\/www.listentothis.info\/about-2\/) tem minha gratid\u00e3o eterna). Foi paix\u00e3o \u00e0 primeira escutada: piano e sintetizadores deslizando languidamente para a m\u00fasica ambiente, um p\u00e9 na *new age*, outro na m\u00fasica *lounge*, tudo se desenrolando no tempo pr\u00f3prio dos sonhos, dos filmes, onde p\u00f4r do sol e aurora decorrem n\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o relativa entre os astros e sim de estados de esp\u00edrito, de finalidades. Era uma faixa perfeita. Resolvi procurar por uma vers\u00e3o ripada de *Nothing\u0027s Wrong In Paradise*, o disco que trazia a tal faixa (de mesmo nome), para ver se o \u00e1lbum era inteiro t\u00e3o bom assim e, sendo este o caso, tentar compr\u00e1-lo, por\u00e9m procurei-o por horas e horas sem sucesso. N\u00e3o que eu seja um mestre do submundo sem lei da internet, mas tampouco sou um completo amador \u2014 \u00e9 bastante dif\u00edcil eu n\u00e3o encontrar para *download* um \u00e1lbum que procuro. Mas, naquela ocasi\u00e3o, nada de encontrar este que foi o \u00fanico disco que o Sunstroke \u2014 os franceses Ben Bollaert e Etienne Delaruye \u2014 lan\u00e7aram: nem sinal de *Nothing\u2019s Wrong In Paradise* nos blogs que acompanho, nos sites de *torrent*, no [ulo\u017e.to](https:\/\/ulozto.net) \u2014 nada em lugar algum que eu conhe\u00e7a e tenha acesso. O m\u00e1ximo que consegui foi escutar uma segunda faixa do disco no YouTube, t\u00e3o boa quanto aquela primeira, o que s\u00f3 me deixou ainda mais frustrado e exasperado. Pensei ent\u00e3o em partir direto para a compra do \u00e1lbum, afinal, as duas faixas que escutei j\u00e1 o tinham transformado em objeto de desejo, mas, novamente, frustra\u00e7\u00e3o: o disco estava fora de cat\u00e1logo h\u00e1 anos e as poucas c\u00f3pias usadas \u00e0 venda no Discogs custavam pequenas fortunas. Pois bem, toquei a vida, o que h\u00e1 de se fazer\u2026 E foi no come\u00e7o deste ano que, oras, se uma e outra boa not\u00edcia ainda n\u00e3o nos cruza pelo caminho de vez em quando!, no come\u00e7o deste ano descubro que *Nothing\u2019s Wrong In Paradise* seria relan\u00e7ado e j\u00e1 era at\u00e9 poss\u00edvel escut\u00e1-lo via [bandcamp](https:\/\/sunstroke-librevillerecords.bandcamp.com\/album\/nothings-wrong-in-paradise). Escutei-o, comprei-o, recebi-o, e meus dias andam um pouco melhores desde ent\u00e3o. Que disco lindo! As faixas que eu conhecia previamente s\u00e3o as que abrem os dois lados da vers\u00e3o em vinil, *Nothing\u2019s Wrong In Paradise* no lado A e *Boat People* no lado B, e embora ambas continuem minhas preferidas, as outras muito contribuem com evoca\u00e7\u00f5es da linguagem mitol\u00f3gica de Vangelis e ecos de Tangerine Dream. Tem como resistir? \u00c9 infal\u00edvel: coloco o disco para tocar e as cores ao meu redor esmaecem um pouco, o barulho silencia, tudo se dissolve. Pena que o disco acaba... Sorte que agora ele est\u00e1 ali na minha estante.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":837,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2022","post_timestamp":"2022-05-01T14:18:37+00:00","url":"Discos_do_mes_Abril_de_2022","post":"N\u00e3o mudou muito a m\u00fasica que escutei ao longo do m\u00eas de abril, se comparada \u00e0 escutada no m\u00eas anterior. Mudaram alguns autores e as ferramentas utilizadas por eles(as), mas creio que na ess\u00eancia foi uma continuidade \u2014 um mesmo estado de esp\u00edrito, equivale dizer. Trilhas sonoras, m\u00fasica *ambient* e m\u00fasica eletr\u00f4nica, se eu tivesse que resumir e n\u00e3o fosse este um resumo absurdamente injusto, pois a m\u00fasica que cabe nesses r\u00f3tulos \u00e9 imensur\u00e1vel. Escutei tamb\u00e9m, para mencionar alguma coisa divergente, ao excepcional novo disco de Roy Montgomery, *Audiotherapy* (est\u00e1 aberta minha lista dos melhores de 2022), e houve uma semana, ainda l\u00e1 no come\u00e7o do m\u00eas, em que n\u00e3o se passou uma noite sem que coloc\u00e1ssemos algo do Talk Talk para tocar, mas estes discos, e tamb\u00e9m alguns do Lush, do Low e do Yo La Tengo, foram as exce\u00e7\u00f5es. Minha cabe\u00e7a anda mesmo \u00e9 perdida no espa\u00e7o, entre as luas de Saturno e as cercanias de Alpha Centauri. Ou seja l\u00e1 que lugar \u00e9 aquele para o qual me leva a m\u00fasica do Autechre. Foi Glenn Branca, se eu n\u00e3o me engano, quem disse que embora se sentisse vivo quando ouvia a uma boa banda de *rock \u2019n\u2019 roll*, era somente diante de uma boa orquestra que ele se sentia humano. Entendo Branca completamente, mas me pergunto ent\u00e3o que tipo de entidade \u00e9 esta que sinto ser quando escuto Autechre. \u00c9 uma m\u00fasica que engaja a mente, alicia os sentidos, e os (nos) coloca a servi\u00e7o de alguma outra coisa, uma consci\u00eancia externa, algo que parece operar a partir de uma esfera sobre-humana. Como se f\u00f4ssemos um ex\u00e9rcito de pequenos mecanismos pertencentes a uma grande m\u00e1quina c\u00f3smica secreta, um aparato eterno e incans\u00e1vel. N\u00e3o me importo, fa\u00e7am o que quiserem comigo, mas me tirem deste planeta por algumas horas di\u00e1rias, por favor. Com o Autechre costumo partir logo para jornadas longas: as oito horas dos quatro volumes das [*NTS Sessions*](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/NTS_Sessions_1\u20134) s\u00e3o extraordin\u00e1rias. Meu favorito \u00e9 o segundo, cuja metade final eu colocaria entre o que de melhor Sean Booth e Rob Brown j\u00e1 criaram. Outro agente infiltrado destas for\u00e7as ocultas \u00e9 o canadense [Tim Hecker](https:\/\/timhecker.bandcamp.com). Hecker tem uma paleta maior de sons e de ideias se comparada ao equipamento relativamente mais restrito utilizado pela dupla do Autechre: [*An Imaginary Country*](https:\/\/timhecker.bandcamp.com\/album\/an-imaginary-country), por exemplo, tem aquela sujeira el\u00e9trica t\u00edpica dos discos de *shoegaze*; [*Anoyo*](https:\/\/timhecker.bandcamp.com\/album\/anoyo) foi gravado com um conjunto de [gagaku](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gagaku); e por a\u00ed vai. Mas no fim das contas o efeito \u00e9 o mesmo: m\u00fasica para se perder dentro dela, para conduzir experimentos de extracorporeidade, para esquecer do mundo \u2014 voc\u00ea sabe, o ritual que venho descrevendo por aqui frequentemente. Ritual que, inclusive, ganhou uma generosa expans\u00e3o em suas possibilidades alguns dias atr\u00e1s, algo que eu vinha ensaiando e experimentando j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, mas somente agora compreendi e me rendi ao seu encanto: *The Disintegration Loops*, de William Basinski. Por que a demora? Por que agora? Eu j\u00e1 tinha escutado ao conjunto completo destes discos pelo menos umas quatro ou cinco vezes antes, e a contempla\u00e7\u00e3o de seus *loops* e suas graduais desintegra\u00e7\u00f5es nunca tinha me impactado antes, nunca teve efeito sequer pr\u00f3ximo ao que a m\u00fasica de, digamos, \u00c9liane Radigue tem sobre mim. Mas pelo visto alguma semente ficava germinando em minha mente ap\u00f3s cada audi\u00e7\u00e3o, pois passava um tempo e eu voltava a ela... E desta vez a ficha caiu. Por que? A correta aten\u00e7\u00e3o, talvez; uma sensibilidade maior para com o conceito de deteriora\u00e7\u00e3o, de finitude, que reside no \u00e2mago de *The Disintegration Loops*. Outros tempos, outras circunst\u00e2ncias... O rio no qual entramos \u00e9 sempre outro, dizia o velho fil\u00f3sofo, e talvez possamos dizer o mesmo da m\u00fasica que escutamos. Fato \u00e9 que muitas das horas de abril eu passei escutando \u00e0 lenta desintegra\u00e7\u00e3o das fitas de Basinski e do mundo ao meu redor, alternando entre o estarrecido e o transfixado. Para finalizar, agora sim uma descoberta: a m\u00fasica irrotul\u00e1vel da inglesa Elizabeth Bernholz, *aka* Gazelle Twin. \u00c9 dif\u00edcil descrev\u00ea-la em termos de g\u00eaneros e refer\u00eancias; o que n\u00e3o tem como n\u00e3o assimilar de imediato \u00e9 sua estranheza quase repulsiva, m\u00fasica cuja \u00fanica origem plaus\u00edvel me parece ser a mente de algu\u00e9m assolado por traumas diversos, algu\u00e9m em conflito permanente com um mal-estar obsessivo. Talvez simplesmente algu\u00e9m que \u00e9 mulher em um mundo mis\u00f3gino, mas tamb\u00e9m algu\u00e9m cuja const\u00e2ncia do sofrimento j\u00e1 lhe ensinou que a sobreviv\u00eancia depende de se fazer algo de \u00fatil com seu tormento, dar-lhe alguma forma, torn\u00e1-lo parte do cen\u00e1rio ao redor, do mobili\u00e1rio da vida, e tentar seguir adiante. N\u00e3o sei se tal diagn\u00f3stico se aplica a todos os discos de Gazelle, mas certamente se aplica a [*Pastoral*](https:\/\/gazelletwin.bandcamp.com\/album\/pastoral). Pode parecer estranho, mas me atrai intensamente a m\u00fasica desconfort\u00e1vel deste \u00e1lbum cuja excentricidade come\u00e7a pela capa, uma deforma\u00e7\u00e3o bizarra das capas dos discos da Deutsche Grammophon. Por outro lado, o bom gosto da mo\u00e7a \u00e9 not\u00e1vel: algu\u00e9m que tem entre seus [discos favoritos](https:\/\/thequietus.com\/articles\/31326-gazelle-twin-bakers-dozen-favourite-albums) as trilhas sonoras de *Terminator* e *Highlander*, al\u00e9m de alguma coisa da lavra de Arvo P\u00e4rt, essa pessoa obviamente est\u00e1 entre as minhas afinidades mais seletas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":836,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2022","post_timestamp":"2022-04-03T19:27:58+00:00","url":"Discos_do_mes_Marco_de_2022","post":"**Satoko Fujii - Indication**\r\n\r\nPessoas de sorte, n\u00f3s os admiradores do som do piano: h\u00e1 sempre um sem-n\u00famero de discos incr\u00edveis a serem descobertos nesta seara. Escrevo frequentemente sobre os meus int\u00e9rpretes favoritos e favoritas do repert\u00f3rio da m\u00fasica cl\u00e1ssica \u2014 [Martha Argerich](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_03_02_discos_do_mes_fevereiro_de_2017), [Angela Hewitt](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_04_02_discos_do_mes_marco_de_2019), [Maurizio Pollini](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_04_02_discos_do_mes_marco_de_2020), [Mitsuko Uchida e Andr\u00e1s Schiff](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Medicamento_noturno), Stephen Hough, Glenn Gould, entre outros \u2014 e menos, muito menos do que deveria sobre meus favoritos e favoritas no mundo da m\u00fasica mais livre (jazz, avant-garde, como se queira chamar), cujo elenco, devo reconhecer, \u00e9 bem mais restrito e masculino. Thelonious Monk, Cecil Taylor e Keith Jarrett tem impress\u00f5es minhas espalhadas por estas p\u00e1ginas, e acho que n\u00e3o vai muito al\u00e9m disso\u2026 Mas creio que um nome feminino veio finalmente se juntar a esta turma: o da japonesa Satoko Fujii. Vejam (e escutem) que maravilha sua p\u00e1gina no [bandcamp](https:\/\/satokofujii.bandcamp.com): horas e horas de pianismo virtuoso e aventureiro, sem nunca descuidar da for\u00e7a l\u00edrica de que o instrumento \u00e9 capaz. Satoko parece canalizar com frequ\u00eancia as mesmas tempestades mentais que originavam a m\u00fasica inigual\u00e1vel de Cecil Taylor, mas mantendo um pouco mais de compostura, de controle, o que resulta em momentos de grande beleza ext\u00e1tica, beleza do tipo que nos acostumamos a ouvir nos discos ao vivo de Keith Jarrett. N\u00e3o tome minha palavra como a de uma autoridade, porque estou muito longe de s\u00ea-lo: comprove o que digo escutando \u00e0 faixa de abertura de [*Hajimeru*](https:\/\/satokofujii.bandcamp.com\/album\/hajimeru-2). J\u00e1 deve estar pr\u00f3ximo da primeira centena o n\u00famero de [discos gravados por Satoko Fujii](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Satoko_Fujii#Discography); creio ser agora minha obriga\u00e7\u00e3o permanecer vivo por pelo menos mais uma d\u00e9cada.\r\n\r\n**Malibu - One Life**\r\n\r\nPassei boa parte do m\u00eas de mar\u00e7o escutando ambient, ora pendendo para obras mais formalistas e rigorosas \u2014 composi\u00e7\u00f5es de artistas consagrados ou prestes a se consagrar, os eleitos e eleitas das resid\u00eancias art\u00edsticas nas institui\u00e7\u00f5es de vanguarda europ\u00e9ias \u2014, ora pendendo para a mais despretenciosa e desavergonhada new age (para isso ningu\u00e9m deve propor resid\u00eancia e nem pagar bolsa de estudos; os vision\u00e1rios da Nova Era trabalhavam de seus apartamentos mesmo, abafando com seus teclados Yamaha o barulho das ruas l\u00e1 embaixo). E escutei tamb\u00e9m bastante coisa entre esses dois extremos, um extenso espectro de m\u00fasica que n\u00e3o deixou de abarcar minimalistas e m\u00fasica eletroac\u00fastica. Um disco que eu diria vagar meio \u00e0 deriva por estes mares \u00e9 esse *One Life*, da compositora francesa Malibu (procurei por mais informa\u00e7\u00f5es sobre ela, seu nome ao menos, mas n\u00e3o achei nada). Talvez ele seja a ep\u00edtome do que estive procurando na m\u00fasica que escutei nestes \u00faltimos dias: retiro, repouso, [hipnose](https:\/\/mmmmalibu.bandcamp.com\/album\/one-life-2). N\u00e3o que Malibu possa j\u00e1 ombrear-se com Pauline Oliveros ou \u00c9liane Radigue, mas a dosagem exata dos elementos que comp\u00f5e este tipo de m\u00fasica \u2014 abstra\u00e7\u00e3o, repeti\u00e7\u00e3o, etc. \u2014, a medida precisa que minha mente vinha pedindo aconteceu de eu a encontrar com mais frequ\u00eancia em *One Life* do que nos discos das minhas hero\u00ednas Radigue e Oliveros, a quem tamb\u00e9m venho escutando reiteradamente. Bem, talvez n\u00e3o estejam em uma mesma categoria, Malibu e, digamos, Radigue; talvez em comum tenham apenas a nacionalidade francesa e pouco mais. A m\u00fasica da jovem Malibu \u00e9 bem mais humana e emocional, e nem fica assim t\u00e3o longe da new age de Constance Demby, enquanto que os objetos de trabalho da veterana Radigue s\u00e3o experimentos radicais em repeti\u00e7\u00e3o, pulsa\u00e7\u00f5es m\u00ednimas e micro-tonalidade. Por outro lado, de uma outra perspectiva, elas habitam, sim, um mesmo mundo: um mundo feito de vis\u00e3o interior, de sons que se deslocam como ondas, m\u00fasica criada para o esp\u00edrito.\r\n\r\n**Julianna Barwick - Healing Is a Miracle**\r\n\r\nA m\u00fasica de Julianna Barwick decerto posiciona-se ainda mais distante da de Radigue, mas tamb\u00e9m ela habita este mesmo mundo mencionado acima \u2014 tamb\u00e9m ela pode servir de retiro e descanso esp\u00edrito-mental. Eu diria que a imers\u00e3o promovida pelos discos de Barwick \u00e9 a mais peculiar destas todas; sua m\u00fasica tem algo de profundamente pessoal (especulei algo sobre isso neste [coment\u00e1rio](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Julho_de_2021)), uma concep\u00e7\u00e3o sonora de tal maneira exclusiva que, quando a voz do cantor do Sigur R\u00f3s aparece na faixa *In Light* de *Healing Is a Miracle*, o efeito \u00e9 o de um anticl\u00edmax, uma quebra no encanto, pois essa voz nos faz lembrar de outra coisa, de uma outra m\u00fasica bem mais conhecida e prosaica, o que acaba por restabelecer \u00e0 for\u00e7a a liga\u00e7\u00e3o com o mundo do qual hav\u00edamos nos retirado e para o qual prefer\u00edamos n\u00e3o ter que voltar antes do fim do disco. Mas *Healing Is a Miracle* \u00e9 \u00f3timo, a despeito desta fissura. Para al\u00e9m dos ecos, vozes e loops que habitam sua superf\u00edcie, em sua subst\u00e2ncia h\u00e1 um forte senso de transmiss\u00e3o beat\u00edfica, de alimento espiritual, o que faz a m\u00fasica de Barwick atravessar s\u00e9culos para irmanar-se com [Hildegard von Bingen](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hildegarda_de_Bingen) e com a m\u00fasica coral medieval. A tecnologia empregada apenas adiciona uma nova dimens\u00e3o: n\u00e3o mais encerradas em um mosteiro, cada pe\u00e7a se expande no tempo e no espa\u00e7o de uma forma bastante visual \u2014 eu distintamente as *vejo* enquanto as ou\u00e7o, prism\u00e1ticas e transl\u00facidas, e as sinto regenerando as partes do meu c\u00e9rebro que, ao longo do dia, v\u00e3o sendo lesadas pelo trabalho, pelo cansa\u00e7o, pelas not\u00edcias. \u0022Healing Is a Miracle\u0022, pontifica o t\u00edtulo do \u00e1lbum; pode ser, mas pode ser tamb\u00e9m este disco.\r\n\r\n**Picnic at Hanging Rock Soundtrack**\r\n\r\nA trilha sonora de [*Picnic at Hanging Rock*](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0073540\/), na verdade, nunca foi lan\u00e7ada oficialmente, por\u00e9m as almas caridosas aparentemente ainda caminham por sobre a Terra, e uma delas \u2014 que calhou ser tamb\u00e9m autora de um blog sobre m\u00fasica \u2014 compilou a m\u00fasica utilizada no filme de Peter Weir e disponibilizou-a para [download](http:\/\/itslostitsfound.blogspot.com\/2018\/05\/various-artists-picnic-at-hanging-rock.html). Muit\u00edssimo obrigado, caro irm\u00e3o ou irm\u00e3 de f\u00e9 desconhecido(a)! *Picnic at Hanging Rock* \u00e9 uma p\u00e9rola do cinema australiano, um filme de horror cujo horror nunca chega a materializar-se: a amea\u00e7a, cuja natureza n\u00e3o fazemos a menor ideia qual seja, fica o tempo todo oculta na estranh\u00edssima atmosfera do filme (algo entre o sonho e a alucina\u00e7\u00e3o), escondida por entre as fendas das rochas, em rel\u00f3gios que param e nos olhares embaciados. H\u00e1 refer\u00eancias a Botticelli e h\u00e1 coalas nas \u00e1rvores (pois \u00e9, \u00e9 realmente um filme muito estranho); a trama avan\u00e7a e nada se esclarece, pelo contr\u00e1rio, tudo parece embotar-se cada vez mais. A fotografia \u00e9 magistral e a m\u00fasica n\u00e3o fica muito atr\u00e1s, com algumas pe\u00e7as experimentais dividindo espa\u00e7o com m\u00fasica folcl\u00f3rica e com Mozart e Beethoven, o que nos faz pensar em Stanley Kubrick e sua predile\u00e7\u00e3o por misturar Gy\u00f6rgy Ligeti, Wendy Carlos e Strauss. Algo do filme se infiltra no ambiente quando voc\u00ea escuta \u00e0 flauta de Gheorghe Zamfir e \u00e0s pe\u00e7as enigm\u00e1ticas de Bruce Smeaton, e \u00e9 por isso que eu venho escutando a este disco frequentemente: eu adoraria morar perto de Hanging Rock e ficar perambulando por l\u00e1 como um son\u00e2mbulo pelo resto dos meus dias.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":835,"title":"Sobre uma can\u00e7\u00e3o de Julianna Barwick","post_timestamp":"2022-03-29T19:50:33+00:00","url":"Sobre_uma_cancao_de_Julianna_Barwick","post":"Tenho escutado muito aos discos de [Julianna Barwick](https:\/\/juliannabarwick.bandcamp.com), mas a verdade \u00e9 que, se eu pudesse, ficaria horas a fio escutando no *repeat* a apenas uma faixa, *Bob in Your Gait*, do \u00e1lbum *A Magic Place*. (O que me impede de fazer isso \u00e9 a pol\u00edtica pessoal de nunca ouvir uma mesma can\u00e7\u00e3o repetidas vezes em sequ\u00eancia, uma mania tola e sem sentido algum, mas que observo rigorosamente desde sempre.) [*Bob in Your Gait*](https:\/\/juliannabarwick.bandcamp.com\/track\/bob-in-your-gait) exerce sobre mim um fasc\u00ednio quase paralisante, algo que me fez passar muitas horas nos \u00faltimos dias procurando no fundo de minha mente as raz\u00f5es que poderiam explicar-lhe. Pois tenho esta convic\u00e7\u00e3o: h\u00e1 um motivo ulterior para eu gostar tanto desta faixa, para ela me soar t\u00e3o pr\u00f3xima e evocativa. H\u00e1 algo nela que eu j\u00e1 conhecia antes de escut\u00e1-la, que seu v\u00e9u de ecos e reverbera\u00e7\u00f5es impedem um reconhecimento imediato, que sua t\u00eanue melodia parece tentar disfar\u00e7ar, mas me bastam dois ou tr\u00eas segundos de m\u00fasica, me bastam seus desvanecidos acordes iniciais para que me venha a certeza absoluta deste v\u00ednculo antigo, para que eu me veja imediatamente deslocado para dentro de um ambiente sensorial conhecido h\u00e1 muito tempo, algo talvez anterior a qualquer outra lembran\u00e7a minha. \u00c9 muito pouco o que posso descrever. H\u00e1 um pressentimento de dissipa\u00e7\u00e3o, de despedida; parece haver n\u00e9voa, e sinto a umidade tocando a pele. Talvez uma casa velha, de paredes descascadas, escurecida no crep\u00fasculo de um fim de tarde ou das primeiras horas do amanhecer. Tudo se passa em algum mausol\u00e9u de minha mem\u00f3ria, ao qual ainda n\u00e3o tenho acesso totalmente franqueado, mas sei que ele permanecer\u00e1 por ali enquanto eu estiver vivo. Pode at\u00e9 ser que seja o cen\u00e1rio e o tempo de um sonho antigo ou algo visto em algum filme, pouco importa: se a vida vivida fora dos sonhos e dos filmes pode tamb\u00e9m ela ser compreendida como uma ilus\u00e3o formulada e registrada em nossos c\u00e9rebros \u2014 impress\u00f5es recebidas pelos nossos sentidos, filtradas pelas nossas cren\u00e7as e predisposi\u00e7\u00f5es, memorizadas sabe-se l\u00e1 como \u2014 ent\u00e3o no fim das contas toda esta experi\u00eancia que vamos acumulando se equivale, independente de sua origem. O melhor da m\u00fasica de Julianna Barwick \u2014 e, para mim, mais do que qualquer outra, *Bob in Your Gait* \u2014 se parece menos m\u00fasica e mais uma esp\u00e9cie de mantra cujo objetivo \u00e9 fazer o ouvinte compreender exatamente isto: que a subst\u00e2ncia do mundo \u00e9 a mesma da imagina\u00e7\u00e3o e esta pequena inflex\u00e3o cognitiva pode muito bem ser a diferen\u00e7a entre uma vida desperdi\u00e7ada, arruinada por traumas e afli\u00e7\u00f5es, e uma vida serena passada sob a descansada luz da interioridade.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Julianna Barwick em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.last.fm\/music\/Julianna+Barwick\/+images\/b6e9739b0813fcaba2d7a0e611b3206f).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":834,"title":"Medicamento noturno","post_timestamp":"2022-03-14T18:27:58+00:00","url":"Medicamento_noturno","post":"Pode ter sido efeito do aguaceiro que desabou naquela noite, noite que conclu\u00eda um dia quente e abafado, de dif\u00edcil travessia. Pouco antes, no fim da tarde, os canteiros de grama que circundam a quadra onde moro haviam sido aparados, de modo que quando a chuva grossa caiu sobre a grama rec\u00e9m cortada e a terra aquecida, um aroma inebriante desprendeu-se e do ch\u00e3o elevou-se instantaneamente, um velho conhecido perfume de outros tempos e outras terras (pois os tempos eram mesmo outros, enquanto que a terra era, na verdade, a mesma, mas de t\u00e3o mudada parece outra), perfume natural j\u00e1 quase esquecido devido ao odor nauseante e repulsivo que este pa\u00eds emana atualmente, o odor permanente de esgoto e de gasolina. Mas n\u00e3o naquela noite. Pode ent\u00e3o ter sido efeito da chuvarada e das fragr\u00e2ncias ativadas por ela, mas \u00e9 mais prov\u00e1vel que a natureza tenha dado apenas uma pequena parcela de contribui\u00e7\u00e3o, pois a m\u00fasica que escolhi ouvir naquela noite, as sonatas para piano de Beethoven, nunca falha em me abalar. E foi mesmo memor\u00e1vel, emocionante. \u00c9 sempre um choque ouvir estas pe\u00e7as, uma como\u00e7\u00e3o sempre renovada, quando n\u00e3o amplificada. A m\u00e9dium que selecionei para ouvir foi Mitsuko Uchida. Suas interpreta\u00e7\u00f5es de Schubert eu conhe\u00e7o a fundo, mas esta sua vis\u00e3o de Beethoven eu apenas come\u00e7o a desvendar (que sorte a minha). Era um disco da Decca com duas sonatas; a primeira eu n\u00e3o lembro qual era \u2014 uma bela e misteriosa an\u00f4nima, como uma [Lauren Bacall](https:\/\/vortexcultural.com.br\/images\/2016\/01\/Lauren-Bacall-and-Humphrey-Bogart.jpg) entrando no escrit\u00f3rio do detetive e indo embora antes que a este possa ocorrer a gentileza de perguntar seu nome \u2014 e a segunda, a famosa *Hammerklavier*, uma das unanimidades entre as 32 escritas pelo alem\u00e3o imortal. Eu ouvia a interpreta\u00e7\u00e3o de Uchida, observava a chuva e aspirava a noite, mas tamb\u00e9m, \u00e0s vezes, me parecia que observava a m\u00fasica e escutava a noite. Bem que todos os dias podiam terminar assim. E noutra noite \u2014 nesta tamb\u00e9m chovia, mas da terra n\u00e3o emanava coisa alguma; antes ela parecia inerte, exausta, exaurida, morta de concreto, de cansa\u00e7o, do peso que este pa\u00eds atroz exerce sobre ela \u2014 noutra noite eu me injetei, com efeitos bals\u00e2micos similares, um disco de Andr\u00e1s Schiff tocando obras de Leo\u0161 Jan\u00e1cek. [Este CD](https:\/\/www.ecmrecords.com\/shop\/143038752328) \u00e9 um dos pequenos milagres da minha cole\u00e7\u00e3o, dividindo o mesmo espa\u00e7o mental que reservo ao *Ambient 2: The Plateaux of Mirror*, ao *Laughing Stock*, ao [*Jasmine*](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Janeiro_de_2022) e a poucos outros. Schiff pode n\u00e3o ter o mesmo status de Pollini, Uchida e Argerich, mas para mim n\u00e3o \u00e9 menos bruxo do que nenhum destes: ou\u00e7a a este disco e tente imaginar algu\u00e9m executando o que l\u00ea em uma partitura \u2014 tente convencer-se de que esta m\u00fasica \u00e9 t\u00e3o somente resultado da mera articula\u00e7\u00e3o de alguns m\u00fasculos. \u00c9 irrealiz\u00e1vel, terminantemente inconceb\u00edvel. A m\u00fasica v\u00eam de outro lugar e flui atrav\u00e9s do corpo do piano e do pianista, extrapola o tempo do pensamento, realiza-se ao mesmo tempo em v\u00e1rios n\u00edveis. Nada disso pode ser apenas mat\u00e9ria de t\u00e9cnica ou presteza; \u00e9 prestidigita\u00e7\u00e3o e feiti\u00e7aria. Para a noite de hoje planejo algo um pouco diferente: o [novo disco de Hans-Joachim Roedelius e Tim Story](https:\/\/www.discogs.com\/release\/22425952-Roedelius-Story-4-Hands). O que j\u00e1 escutei antes destes dois juntos me faz ter a certeza de que ser\u00e1 outro fim de dia tranquilo retirado do mundo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Mitsuko Uchida em foto de Roger Mastroianni, copiada [daqui](https:\/\/dothebay.com\/events\/2022\/3\/27\/mahler-chamber-orchestra-mitsuko-uchida-piano-and-director-mark-steinberg-concertmaster-and-leader-tickets).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":833,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2022","post_timestamp":"2022-03-01T14:08:49+00:00","url":"Discos_do_mes_Fevereiro_de_2022","post":"**Big Thief - Dragon New Warm Mountain I Believe In You**\r\n\r\nEu ignorava completamente a exist\u00eancia desta banda quando comecei a ler seu nome por todos os lados, nos blogs e at\u00e9 mesmo no \u00fanico [jornal que leio](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2022\/feb\/13\/big-thief-dragon-new-warm-mountain-i-believe-in-you-review-their-best-to-date), e os elogios e louvores eram sempre t\u00e3o profusos que tratei de escut\u00e1-la. Os dois discos que encontrei por a\u00ed, no entanto, inicialmente falharam em me entusiasmar. Veio ent\u00e3o a not\u00edcia de que o novo \u00e1lbum do Big Thief seria duplo e isso imediatamente recarregou minha curiosidade. \u00c9 a minha velha atra\u00e7\u00e3o pelos discos duplos: artistas e bandas convencidas de que t\u00eam talento e material (ou pode ser s\u00f3 presun\u00e7\u00e3o mesmo) suficientes para ocupar ininterrupta hora e meia da vida de algu\u00e9m t\u00eam imediatamente meu respeito. E *Dragon New Warm Mountain I Believe In You* finalmente correspondeu, foi paix\u00e3o \u00e0 primeira escutada. S\u00e3o 20 faixas \u2014 20 pequenas e memor\u00e1veis faixas, cada uma delas, sem nem uma exce\u00e7\u00e3o sequer. A sonoridade brinca freq\u00fcentemente com a m\u00fasica caipira norte-americana e devo confessar que sempre achei meio estranho (para dizer o m\u00ednimo) algu\u00e9m n\u00e3o nascido nos EUA gostar de country ou mesmo do tal alt-country, por\u00e9m, em minha defesa, posso dizer que escutei muito Rolando Boldrin na inf\u00e2ncia e tenho ternas lembran\u00e7as disso\u2026 Em todo o caso, *Dragon New Warm Mountain I Believe In You* n\u00e3o \u00e9 apenas [Americana](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Americana_(music)); s\u00e3o muitas as faixas que n\u00f3s adultos globalistas ou globalizados podemos apreciar sem que sejam necess\u00e1rias escusas ou justificativas. A can\u00e7\u00e3o de abertura, *Change*, j\u00e1 para come\u00e7ar \u00e9 exuberante, o tipo de beleza simples e superior que o R.E.M. atingiu com o *Automatic for the People*, por exemplo \u2014 beleza pl\u00e1cida, madura e inquestion\u00e1vel, que parece desaguar de algum lugar que pouqu\u00edssimos artistas t\u00eam acesso. E o disco segue neste alt\u00edssimo n\u00edvel at\u00e9 o fim, \u00e0s vezes algo inst\u00e1vel \u2014 como uma banda afiada ensaiando em um momento de grande inspira\u00e7\u00e3o e espontaneidade, o tempo todo correndo o risco de despeda\u00e7ar a can\u00e7\u00e3o em andamento mas seguindo sempre em frente \u2014 e n\u00e3o poucas vezes comovente e deslumbrante, mesmo em seus confins, em suas \u00faltimas faixas. Tenho escutado-o diariamente, e sempre que o \u00e1lbum acaba n\u00e3o h\u00e1 muito mais o que eu consigo ouvir pelas pr\u00f3ximas horas: resta-me apenas voltar aos meus discos mais queridos e reconfortantes, \u00e0s vozes mais familiares, ao R.E.M., aos discos solos do Mark Knopfler, ao *Laughing Stock*. Acho que o Big Thief acabar\u00e1 por se juntar a esta turma de ilustres e *Dragon New Warm Mountain I Believe In You* ser\u00e1 um \u00e1lbum para ouvir para o resto da vida.\r\n\r\n**a-ha - Hunting High and Low**\r\n\r\nEste \u00e9 o mais eficiente portal para os anos 80 de que tenho not\u00edcia. Nos dias que correm, n\u00e3o \u00e9 um recurso que se possa desprezar... Sentimentalismo saudoso \u00e0 parte, talvez exista algo a ser dito sobre a m\u00fasica de *Hunting High and Low*. Estarei muito equivocado ao sugerir que se trata de uma das mais inventivas e arrojadas cole\u00e7\u00f5es de usos de sintetizadores, teclados e drum machines jamais registrada em disco? Um dos mais bem-sucedidos exemplares deste tipo de som meticulosamente criado em est\u00fadio, ao menos enquanto a servi\u00e7o da m\u00fasica pop juvenil? Ou ser\u00e1 que confundo arrojado, inventivo e bem-sucedido com extremamente desavergonhado e exageradamente descomedido? Penso principalmente em *The Blue Sky*, *Living a Boy\u0027s Adventure Tale* e *The Sun Always Shines on T.V.*, faixas que soam quase como mini-operetas ilustrativas de uma \u00e9poca, de sua m\u00fasica, sua euforia e sua ingenuidade. Por sorte n\u00e3o sou profissional de cr\u00edtica musical e posso descrever meus \u00e1lbuns favoritos com coment\u00e1rios provavelmente insensatos e absurdos deste tipo.\r\n\r\n**Bob Dylan - Highway 61 Revisited**\r\n\r\nEste \u00e9 o famoso disco de Dylan que abre com *Like a Rolling Stone*, faixa que, embora eu lhe reconhe\u00e7a os m\u00e9ritos e a import\u00e2ncia hist\u00f3rica, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma favorita pessoal. Em *Highway 61 Revisited*, minha favorita atende pelo nome de *Desolation Row*, uma das melhores cria\u00e7\u00f5es da faceta trovador-poeta-m\u00edstico que talvez eu prefira \u00e0 faceta trovador-dos-direitos-civis \u0026 disc\u00edpulo de Woody Guthrie que Dylan assumiu logo no in\u00edcio de sua carreira e depois tanto penou para se descolar dela. \u201cThey\u0027re selling postcards of the hanging\u201d, \u00e9 esta a primeira frase da can\u00e7\u00e3o, cantada em um tom fat\u00eddico e ordin\u00e1rio que quase nos impede de assimilar o que acabou de ser dito, tom que praticamente n\u00e3o sofrer\u00e1 modula\u00e7\u00e3o pelos pr\u00f3ximos 11 minutos, por onde desfilar\u00e3o Cinderella (\u0022Bette Davis style\u0022), o Corcunda de Notre Dame e o Fantasma da \u00d3pera, Einstein, Ezra Pound e T. S. Eliot. H\u00e1 algo que liga todos estes personagens, que parecem participar de um baile de m\u00e1scaras surrealista e compartilhar de um mesmo destino, a heran\u00e7a derradeira de suas genialidades ou mera notoriedade entre os humanos; no todo, o baile \u00e9 a ca\u00f3tica condensa\u00e7\u00e3o por meio de alegorias do cap\u00edtulo inicial de um livro que ainda est\u00e1 sendo escrito e ningu\u00e9m sabe como vai terminar. *Like a Rolling Stone* \u00e9 indom\u00e1vel e brilhante, \u00e9 ao mesmo tempo cheia de futuro e de passado (j\u00e1 meio misturados, a essa altura dos acontecimentos, o que apenas acrescenta ao seu charme), mas *Desolation Row* \u00e9 esf\u00edngica e misteriosa, habita uma outra escala temporal e parece propor-nos um enigma, ou a resposta cifrada a algum enigma. E eu, de minha parte, vou sempre preferir os enigmas.\r\n\r\n**Dire Straits - Dire Straits**\r\n\r\nPor causa do Big Thief, conforme mencionado acima, tenho escutado muito aos discos do Mark Knopfler e do Dire Straits. Com o primeiro \u00e1lbum do Dire Straits tenho uma rela\u00e7\u00e3o de longu\u00edssima data, repleta de mem\u00f3rias e afetos, por\u00e9m, ultimamente, \u00e9 uma anedota mais recente o que primeiro me vem a mente sempre que o ponho para tocar: a lembran\u00e7a de que, alguns poucos anos atr\u00e1s, estive com uma nova edi\u00e7\u00e3o em vinil deste disco em m\u00e3os e decidido a compr\u00e1-la, mas no \u00faltimo momento desisti e deixei-o na loja em que me encontrava. O motivo, como sempre, o fato de que j\u00e1 estava levando muitos outros discos, e este eu j\u00e1 tenho. N\u00e3o deve ter demorado muito para eu come\u00e7ar a me arrepender\u2026 Mas tudo bem: eu provavelmente queria apenas ter uma vers\u00e3o ampliada do objeto f\u00edsico, talvez uma c\u00f3pia de seguran\u00e7a para quando o meu velho CD deixar de funcionar, coisa que apenas por muita sorte (sorte da magnitude dos milagres, dadas \u00e0s milhares de vezes em que ele foi manipulado) ainda n\u00e3o aconteceu, como pude constatar diversas vezes nos \u00faltimos dias. Sobre a m\u00fasica, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer nada, certo? Eu nem saberia o que dizer, de t\u00e3o pr\u00f3ximo que sou dela.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":832,"title":"Vinhetas contra o Spotify","post_timestamp":"2022-02-12T16:19:19+00:00","url":"Vinhetas_contra_o_Spotify","post":"*Vinhetas contra o Spotify, mas n\u00e3o necessariamente a favor dos discos f\u00edsicos ou apenas de um ponto de vista muito pessoal e particular a favor dos discos f\u00edsicos*\r\n\r\nAposto que para a maioria das pessoas que passam aqui em casa estas fileiras todas de CDs, vinis e fitas cassetes, que ocupam uma parede quase inteira de nossa sala, se assemelham a uma in\u00fatil montanha de pl\u00e1stico e papel, um arca\u00edsmo obsoleto que poderia muito bem ser substitu\u00eddo por um aparador com retratos e souvenires de viagens, vasos de cactos e violetas, etc. Afinal, ao que parece, toda a m\u00fasica do mundo \u2014 ou, supostamente, toda a m\u00fasica da qual dever\u00edamos gostar \u2014 est\u00e1 no Spotify a um custo mensal m\u00f3dico. Nossos visitantes est\u00e3o perdoados: eles n\u00e3o t\u00eam como saber do longo lastro subjetivo que possuem estes discos, e muito menos compreender o qu\u00e3o mais importante para n\u00f3s \u00e9 este lastro em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 tal conveni\u00eancia do Spotify.\r\n\r\n\u2014\r\n\r\nA ideia de ter uma conta no Spotify nunca sequer me ocorreu. Esta marca, para mim, \u00e9 apenas mais uma no card\u00e1pio indigesto de big techs e redes sociais que pouco a pouco parecem se tornar o novo esteio da vida p\u00fablica, e eu continuo teimosamente fora desse novo modo de viver. Creio que at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s seria de bom tom pedir desculpas pelo meu reacionarismo; de uns tempos para c\u00e1, contudo, me parece que as pessoas come\u00e7am a compreender como estas empresas funcionam e o mal que elas nos fazem. Ser\u00e1 que j\u00e1 posso me gabar da minha rebeldia vision\u00e1ria? (Mas devo admitir que n\u00e3o terem percebido desde o come\u00e7o o qu\u00e3o mesquinhas s\u00e3o as inten\u00e7\u00f5es de um sujeito desprez\u00edvel como Mark Zuckerberg, isso para mim \u00e9 algo realmente espantoso.)\r\n\r\n\u2014 \r\n\r\nEmbora fisicamente seja apenas isto \u2014 quilos de pl\u00e1stico e papel\u00e3o, papel e vinil \u2014, em meu c\u00e9rebro vive uma esp\u00e9cie de contraparte destas fileiras de discos, uma correspond\u00eancia digamos metaf\u00edsica que n\u00e3o tenho sequer como come\u00e7ar a pesar ou qualificar o valor que tem para mim. Arrisco comparar com uma esp\u00e9cie de mapa de extens\u00e3o vasta e complexa, com recantos ainda inexplorados e outros que conhe\u00e7o como a palma de minha m\u00e3o (bem melhor do que isso, na verdade), parte cartografia do mundo e parte cartografia minha e nossa (minha e de minha companheira), e tamb\u00e9m a conflu\u00eancia dessas cartografias e hist\u00f3rias. S\u00e3o, individualmente, pequenos objetos f\u00edsicos, mas que pesam cada um incont\u00e1veis quilos em termos de mem\u00f3rias, sensa\u00e7\u00f5es e significados. No todo, \u00e9 ref\u00fagio, amparo e companhia vital. Tenho um pouco de pena das pessoas que ao inv\u00e9s de algo assim possuem apenas uma conta no Spotify.\r\n\r\n\u2014 \r\n\r\nO que me repele no Spotify e no Facebook e demais *conveni\u00eancias* da vida moderna \u00e9 a impress\u00e3o de que seus algoritmos e truques mercadol\u00f3gicos tendem a normatizar os indiv\u00edduos que as utilizam, e tamb\u00e9m, por conseguinte, normatizar e uniformizar os produtos e servi\u00e7os oferecidos. Individualidades n\u00e3o s\u00e3o bem-vindas neste modelo de neg\u00f3cios; multid\u00f5es, por outro lado, s\u00e3o quase que uma exig\u00eancia. E para atrair essas multid\u00f5es o que elas t\u00eam a oferecer s\u00e3o vantagens para l\u00e1 de duvidosas que eu resumiria assim: assinando nosso servi\u00e7o, voc\u00ea n\u00e3o vai mais precisar passar pela prova\u00e7\u00e3o que \u00e9 interpretar o mundo \u00e0 sua pr\u00f3pria maneira e seguindo a sua pr\u00f3pria intui\u00e7\u00e3o. Em troca de sua identidade e\/ou de um pequeno valor mensal, cuidaremos disso para voc\u00ea; lhe entregaremos a m\u00fasica que voc\u00ea deve ouvir e a personalidade que voc\u00ea deve ter. Voc\u00ea n\u00e3o estar\u00e1 mais sozinho; voc\u00ea ser\u00e1 como todos. Multid\u00f5es aplainadas desta forma \u00e9 o para\u00edso final de certo modo capitalista de ver o mundo \u2014 e tamb\u00e9m, temo, o fim das individualidades, da cria\u00e7\u00e3o original e sem concess\u00f5es, da m\u00fasica feita para esp\u00edritos afins e n\u00e3o para o lucro, da arte como fim e n\u00e3o como meio. Talvez eu esteja exagerando... Talvez n\u00e3o. H\u00e1 ainda outras quest\u00f5es [\u00e9ticas e sociais](https:\/\/dadadrummer.substack.com\/p\/spotify-is-misinformation) n\u00e3o menos importantes. O que sei \u00e9 que prefiro n\u00e3o fazer partes destas engrenagens. O argumento da conveni\u00eancia, no caso do Spotify, n\u00e3o poderia me interessar menos: m\u00fasica, para mim, n\u00e3o se mede nesses termos, n\u00e3o \u00e9 commodity; m\u00fasica \u00e9 uma aventura que informa praticamente todos os aspectos da minha vida e na qual estou por minha conta e risco.\r\n\r\n\u2014\r\n\r\nMinha cole\u00e7\u00e3o de discos n\u00e3o \u00e9 grande: perto de colecionadores s\u00e9rios, \u00e9 uma ninharia. Tenho muitos mais discos digitais nos meus computadores do que CDs e vinis nas estantes. Mas ela \u00e9 singularmente minha, ou talvez eu possa dizer que ela sou eu. Nela tenho uma esp\u00e9cie de registro que abrange tr\u00eas quartos da minha vida, incluindo a\u00ed o tanto que vi e vivi e escutei nos \u00faltimos 15 anos, per\u00edodo em que tive a sorte de poder viajar bastante mundo afora. As idiossincrasias n\u00e3o s\u00e3o poucas. Tenho ainda meu [primeiro disco de todos](https:\/\/www.discogs.com\/release\/3053097-Various-Radio-Hits-90) e as fitas cassetes de m\u00fasica sertaneja que meus pais ouviam no carro; tenho discos comprados com artistas de ruas, retirados de balaios de palha, e discos comprados em Filarm\u00f4nicas cujos pr\u00e9dios parecem concebidos para intrigar os alien\u00edgenas que algum dia visitar\u00e3o as ru\u00ednas deste nosso planeta. Em geral tento descolar as etiquetas com pre\u00e7os e limpar com \u00e1lcool a sujeira deixada por elas no acr\u00edlico das caixinhas dos CDs, mas as etiquetas dos discos comprados na Amoeba Records eu deixo. Tenho discos que me lembram neve e frio intenso e outros que me lembram f\u00e9rias de ver\u00e3o na praia, e discos (de m\u00fasica cl\u00e1ssica) com marcadores que indicam o ponto em que interrompi a leitura de seus livretos. Discos que s\u00e3o sess\u00f5es de exorcismo e outros que n\u00e3o vou escutar nunca mais; discos para s\u00e1bado \u00e0 noite e discos para acompanhar a leitura. Tem lacunas (uma lista no computador gerencia isso) e itens duplicados. Discos que s\u00e3o como runas, indecifr\u00e1veis, outros que s\u00e3o portais. J\u00e1 n\u00e3o tenho mais discografias completas desta ou daquela banda \u2014 n\u00e3o tenho mais apegos deste tipo \u2014 mas tenho CDs e vinis lacrados ainda, muitos, como \u00e1reas obscurecidas de uma mapa incompleto. A lista de peculiaridades e excentricidades poderia ir bem mais longe, mas encerro-a por aqui crendo j\u00e1 ter demonstrado meu ponto: uma cole\u00e7\u00e3o de discos constru\u00edda ao longo de anos \u00e9 algo de valor subjetivo inestim\u00e1vel, um tesouro cuja compara\u00e7\u00e3o com um servi\u00e7o online simplesmente n\u00e3o cabe, por mais que este lhe prometa bilh\u00f5es de faixas e facilidades sem fim.\r\n\r\n\u2014\r\n\r\nDos itens mais queridos nesta cole\u00e7\u00e3o: vers\u00f5es em vinil de *Time Fades Away* e *Tonight\u2019s the Night* do Neil Young, presentes de um amigo canadense (\u201cno Canad\u00e1 voc\u00ea encontra estes discos nos cestos de promo\u00e7\u00f5es\u201d, ele me explicou na ocasi\u00e3o). Neil Young, este que voc\u00ea n\u00e3o encontra no Spotify porque entre Neil e delinquentes que espalham mentiras que custam vidas humanas, os donos do servi\u00e7o preferem estes \u00faltimos.\r\n\r\n\u2014 \r\n\r\nEst\u00e1 bem dif\u00edcil comprar discos atualmente, com todos estes nossos problemas e a pandemia. Mas continuo obstinadamente na constru\u00e7\u00e3o deste meu mapa, de prefer\u00eancia via bandcamp (para quem n\u00e3o conhece e pensa que \u00e9 algo parecido com o Spotify: informe-se [aqui](https:\/\/www.npr.org\/2020\/08\/19\/903547253\/a-tale-of-two-ecosystems-on-bandcamp-spotify-and-the-wide-open-future)), quando posso me dar ao luxo, j\u00e1 que as coisas em d\u00f3lares e euros t\u00eam sa\u00eddo bastante caras para n\u00f3s pobres brasileiros. No ano passado comprei os novos discos de [Sarah Davachi](https:\/\/sarahdavachi.bandcamp.com\/album\/antiphonals) e [Lucy Railton](https:\/\/lucyrailton.bandcamp.com\/album\/subaerial), discos que acrescentaram \u00e0 cole\u00e7\u00e3o o cap\u00edtulo sombrio destes dias que vivemos, dias confusos e dif\u00edceis, mas tamb\u00e9m dias muitas vezes salvos pela m\u00fasica. Na semana passada, de uma loja virtual que opera a partir do Rio de Janeiro, comprei um disco que traz grava\u00e7\u00f5es de Guinga e M\u00f4nica Salmaso em shows feitos no Jap\u00e3o. O que este disco significar\u00e1 em minha cole\u00e7\u00e3o, contudo, eu ainda n\u00e3o sei dizer; suspeito que seu significado ser\u00e1 revelado somente dentro de alguns meses, em audi\u00e7\u00f5es que deixarei guardadas para o futuro.\r\n\r\n\u2014\r\n\r\nFinalizo dizendo que, na verdade, n\u00e3o me importo que as lojas de discos estejam fechando e que o futuro dos pr\u00f3prios discos f\u00edsicos seja incerto. De um ponto de vista bastante pessoal, sempre que encaro este fato eu encaro minha pr\u00f3pria finitude, e tento viver em bons termos com as duas. Em algum momento de nossas vidas o mundo nos ultrapassa, nos tornamos seres obsoletos aos quais todo o entorno n\u00e3o pode ficar ancorado para sempre. Discos s\u00e3o apenas objetos para armazenar m\u00fasica, e os objetos inevitavelmente mudam com o tempo; a m\u00fasica, pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 na funda\u00e7\u00e3o do universo e vai continuar existindo de um jeito ou de outro para sempre. Se \u00e9 destino dos discos sumirem, por mim tudo bem. Tor\u00e7o apenas para que achemos algo melhor do que o Spotify para colocar em seu lugar.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"detalhe do mapa *Vniversale descrittone di tvtta la terra conoscivta fin qvi*, publicado por F. Bertelli em 1565. Copiado [daqui](https:\/\/blogs.loc.gov\/maps\/2016\/08\/imaginary-maps-in-literature-and-beyond-map-monsters\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":831,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2022","post_timestamp":"2022-02-05T20:48:01+00:00","url":"Discos_do_mes_Janeiro_de_2022","post":"**U2 - The Joshua Tree**\r\n\r\n\u00c9 dif\u00edcil falar mal de um disco como *The Joshua Tree*. Se voc\u00ea realmente precisa fazer isto, o jeito \u00e9 recorrer \u00e0s pequenas implic\u00e2ncias e teimosias, como essa que tenho com o uso que Bono faz de sua voz, os pequenos rosnados, os bramidos e suspiros, o excesso de pulm\u00e3o em alguns refr\u00f5es. (Ao menos, em *Mothers of the Disappeared*, ele consegue se conter e n\u00e3o gritar \u201challelujah, hallelujah\u201d, como sempre tenho a impress\u00e3o que ele ir\u00e1 come\u00e7ar a fazer a qualquer momento.) Esse pavoneio vocal \u00e9 tamb\u00e9m o que me incomoda \u00e0s vezes no Pearl Jam: o vocalista se esfor\u00e7ando o tempo todo para garantir que \u00e9 ele o centro das aten\u00e7\u00f5es, como se dissesse que a m\u00fasica n\u00e3o pode viver sequer alguns segundos sem ele (em geral elas podem). N\u00e3o fosse por isso, no caso do U2, n\u00e3o \u00e9 improv\u00e1vel que *The Joshua Tree* fosse um dos meus discos favoritos e eu escutasse aos outros todos com muito mais frequ\u00eancia, coisa que, sendo as coisas como s\u00e3o, costuma ocorrer apenas um par de vezes por ano, quando muito... Mas n\u00e3o, pelo visto, em 2022: a despeito das minhas implic\u00e2ncias, *The Joshua Tree* esteve em alta rota\u00e7\u00e3o por aqui nos primeiros dias deste novo ano. O que \u00e9 inquestion\u00e1vel neste disco \u2014 n\u00e3o posso deixar de citar pois sou f\u00e3 devoto dos dois \u2014 \u00e9 o trabalho de Daniel Lanois e Brian Eno. Mais da metade do que me cativa neste \u00e1lbum est\u00e1 naquilo que \u00e9 evidentemente a contribui\u00e7\u00e3o destes dois magos dos est\u00fadios: a ambi\u00eancia, os ecos, o prolongamento dos sons, os espa\u00e7os que aninham a m\u00fasica e d\u00e3o-lhe vida, subst\u00e2ncia, temperatura, espontaneidade. E como explicar o milagre de *I Still Haven\u0027t Found What I\u0027m Looking For*, um gospel repaginado em fant\u00e1stico rock \u2019n\u2019 roll, composto por um grupo irland\u00eas e gravado por um produtor canadense e outro ingl\u00eas? Bruxaria.\r\n\r\n**Keith Jarrett \u0026 Charlie Haden - Jasmine**\r\n\r\nDepois do U2 me vi novamente enla\u00e7ado, durante cerca de uma semana, pelo *Scoundrel Days*, do a-ha. Isso me acontece frequentemente. Mas desta vez n\u00e3o vou entrar em detalhes; j\u00e1 escrevi demasiadas vezes sobre esta minha estranha disfun\u00e7\u00e3o neurol\u00f3gica por aqui, e sei que voltarei a escrever, portanto deixemos o a-ha temporariamente de lado. Uma outra obsess\u00e3o de ver\u00e3o, essa um pouco menos embara\u00e7osa, foi *Jasmine*, da dupla Jarrett \u0026 Haden \u2014 o primeiro, Keith; o segundo, Charlie. Antes, digo para acrescentar contexto, passei pela maratona dos seis discos do box [*Keith Jarrett At The Blue Note - The Complete Recordings*](https:\/\/www.discogs.com\/release\/794287-Keith-Jarrett-Keith-Jarrett-At-The-Blue-Note-The-Complete-Recordings), nos quais o piano de Jarrett est\u00e1 acompanhado de Gary Peacock (contrabaixo) e Jack DeJohnette (bateria), figuras eminentes de tantos maravilhosos discos da ECM. Mas, conquanto sejam horas e mais horas de m\u00fasica sublime as registradas neste box, \u00e9 com o contrabaixista Charlie Haden que Jarrett toca o c\u00e9u, com o perd\u00e3o da gasta met\u00e1fora. *Jasmine* \u00e9 um destes rar\u00edssimos \u00e1lbuns que sempre me fazem pensar que a m\u00fasica que estou ouvindo \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio: de t\u00e3o perfeita e natural, de t\u00e3o serena e sedativa, ela \u00e9 das poucas, muito poucas, que podem ser melhores do que isto que seria o som ideal, por ser o mais fecundo, onde tudo inicia \u2014 o puro e completo sil\u00eancio. Mas \u00e9 claro que tudo isso \u00e9 mera especula\u00e7\u00e3o e potencialidade, uma vez que sil\u00eancio puro e perfeito ningu\u00e9m nunca experimenta, ao menos n\u00e3o em vida.\r\n\r\n**Upsetters - Blackboard Jungle Dub**\r\n\r\nJaneiro teve ainda uma por\u00e7\u00e3o de Cult e R.E.M. aqui em casa (e n\u00e3o, n\u00e3o teve metal \u2014 est\u00e1 muito quente para ouvir metal), mas penso ser mais direito terminar este relato com a m\u00fasica que predominou nos \u00faltimos dias do m\u00eas, e na qual continuo imerso neste come\u00e7o de fevereiro. Dub \u00e9 paix\u00e3o recente, nascida quando descobri os discos de Hopeton Overton Brown, aka [Scientist](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Scientist_(musician)), coisa de dois ou tr\u00eas anos atr\u00e1s. Foi amor \u00e0 primeira vista aqueles \u00e1lbuns de capas [delirantes](https:\/\/i.discogs.com\/j31ze3dYauDLQoXevaba30ivgAKK4w_0urEwXz2BF-8\/rs:fit\/g:sm\/q:90\/h:600\/w:600\/czM6Ly9kaXNjb2dz\/LWltYWdlcy9SLTEy\/Mjg3Ni0xNDQ1MTAy\/Mjg0LTgwMjMuanBl\/Zw.jpeg) e [impag\u00e1veis](https:\/\/m.media-amazon.com\/images\/I\/81eAGJbr59L._AC_SL1200_.jpg) do Scientist e depois os do Upsetters (a banda de Lee \u0022Scratch\u0022 Perry) e de King Tubby que se seguiram. O p\u00e1thos caracter\u00edstico do reggae (de onde nasceu o dub) permanece em todos estes discos, em todas as suas faixas, mas \u00e9 o resultado das manipula\u00e7\u00f5es e efeitos de est\u00fadio aplicados sobre as can\u00e7\u00f5es originais o que torna esta m\u00fasica t\u00e3o peculiar, um som frequentemente ba\u00e7o, opaco, cheio de repeti\u00e7\u00f5es e intersec\u00e7\u00f5es obscuras e esquisitas, n\u00e3o raro desorientante, mas tamb\u00e9m quase sempre b\u00e1sico e visceral, que parece ressoar no corpo todo de quem o escuta. \u00c9 estranho, a princ\u00edpio, mas tamb\u00e9m hipnotizante. Dub talvez seja a prova mais concreta de que h\u00e1 algo de especial naquela pequena e pobre ilha da Jamaica, para al\u00e9m do fato de ter sido a terra-m\u00e3e de Marley, Tosh e Cliff: os inventores do dub, afinal, est\u00e3o entre os pioneiros da m\u00fasica eletr\u00f4nica, seguindo de perto os passos dos inventores da Musique concr\u00e8te e da m\u00fasica eletroac\u00fastica na Fran\u00e7a e nos Estados Unidos, e estamos falando de uma gente que l\u00e1 pelos anos 60, \u00e0 diferen\u00e7a daqueles bem-nascidos que frequentavam conservat\u00f3rios, devia ter alguma dificuldade para reunir dinheiro para quatro refei\u00e7\u00f5es ao dia, o que dizer ent\u00e3o de equipamentos e educa\u00e7\u00e3o e treinamento formal. Viva a Jamaica! (Deixo *Blackboard Jungle Dub* citado a\u00ed n\u00e3o por t\u00ea-lo escutado mais vezes ou por ser um favorito pessoal, mas por ser considerado um dos precursores deste tipo de m\u00fasica, e por ser uma \u00f3tima introdu\u00e7\u00e3o a ela, a quem interessar.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":830,"title":"Uma foto de Leo\u0161 Jan\u00e1\u010dek","post_timestamp":"2022-01-27T14:01:43+00:00","url":"Uma_foto_de_Leos_Janacek","post":"Uma foto para espanar um pouco a poeira deste espa\u00e7o. Leo\u0161 Jan\u00e1\u010dek foi um compositor checo nascido em 1854 e falecido em 1928. A pessoa na janela presumo que seja sua companheira; o cen\u00e1rio, um ador\u00e1vel jardim nos fundos de sua casa. (A familiaridade deles com o ambiente \u00e9 inquestion\u00e1vel.) H\u00e1 uma por\u00e7\u00e3o de coisas encantadoras nesta imagem, n\u00e3o? A quietude; o tipo de casa de madeira mais antiga, de janelas amplas, que tamb\u00e9m era bastante comum aqui onde vivo, no sul do Brasil, nos bairros residenciais onde moravam os av\u00f3s e tios-av\u00f4s e tias-av\u00f3s que visit\u00e1vamos aos domingos; a folhagem quase escondendo os dois simp\u00e1ticos velhinhos em seus casacos de l\u00e3 fina (que meus parentes mais velhos tamb\u00e9m jogavam sobre os ombros). Os bons modos lhe compelem a simpatia, por\u00e9m a senhora parece um pouco ansiosa para que o fot\u00f3grafo termine logo seu trabalho para que ela possa servir o ch\u00e1 da tarde. \u00c9 uma pena que o [c\u00e3ozinho](https:\/\/lastfm.freetls.fastly.net\/i\/u\/ar0\/e629f3d12d1a4ee3b0fe827b25cbfacd.jpg) resolveu n\u00e3o aparecer.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"autor desconhecido; copiada [daqui](https:\/\/mahlerfoundation.org\/mahler\/contemporaries\/leos-janacek\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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J\u00e1 n\u00e3o lembro o que me animou a escutar *Ascension Codes* \u2014 a lembran\u00e7a de [*The Abyss*](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0096754\/), um filme ruim de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica dirigido por James Cameron, lembran\u00e7a esta despertada pela [capa do disco](https:\/\/i1.wp.com\/metalwani.com\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cynic-.jpg)? Acho que foi isso. Tenho uma quedinha por sci-fi ruins... Enfim, o fato \u00e9 que desta vez n\u00e3o passei para o outro lado da rua e surpreendentemente gostei bastante do que encontrei neste disco: h\u00e1 algo nele de hipn\u00f3tico, de fantasioso e acolhedor, uma inoc\u00eancia e uma flu\u00eancia que n\u00e3o chegam nunca a ficar em segundo plano devido \u00e0s acrobacias instrumentais que fazem a fama da banda. Foi depois de duas ou tr\u00eas audi\u00e7\u00f5es que me surgiu esta ideia tresloucada de inclu\u00ed-lo na lista abaixo. Pensando bem, um ano que come\u00e7ou com uma [febre de pomp rock](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2021_02_15_febre), termin\u00e1-lo com Cynic talvez signifique alguma evolu\u00e7\u00e3o intelectual. Talvez. Provavelmente n\u00e3o. Extravag\u00e2ncias \u00e0 parte, o fato \u00e9 que foi bastante dif\u00edcil escolher meus 14 discos favoritos de 2021. Na pr\u00e9-lista que fui anotando ao longo do ano, no come\u00e7o de dezembro constavam 29 discos, nenhum deles muito f\u00e1cil de eliminar. O que facilitou um pouco o trabalho foi que havia uma quantidade excessiva de discos de metal. Decidi ent\u00e3o excluir aqueles que achei um pouco menos excepcionais (Hypocrisy, Mastodon, At the Gates e Eyehategod foram alguns) para deixar a lista um pouco mais colorida e variada, sendo alguns destes eliminados \u2014 se n\u00e3o todos \u2014 certamente melhores do que o Cynic, mas tal qual uma crian\u00e7a teimosa fazendo birra, bati o p\u00e9 e decidi que o Cynic ficaria na lista, para dar-lha um lustro diferente, uma luminesc\u00eancia sci-fi fusion psicod\u00e9lica, algo assim. N\u00e3o creio que Patricia Kopatchinskaja (figurando em minha lista pelo terceiro ano consecutivo) ficaria envergonhada de estar aqui dividindo espa\u00e7o com o Cynic; o camarada do Paysage d\u2019Hiver, que parece ser a [simpatia em pessoa](https:\/\/static.woz.ch\/sites\/woz.ch\/files\/styles\/field_text_slideshow_image_default\/public\/text\/bild\/2006_15_thema_bs7.jpg), provavelmente n\u00e3o acharia muita gra\u00e7a. Tamb\u00e9m n\u00e3o consegui deixar de fora o [celebrado disco do Br\u00edi](https:\/\/brii.bandcamp.com\/album\/sem-prop-sito), apesar de alguns aspectos do \u00e1lbum reiteradamente me frustarem sempre que eu o escuto, mas o resultado final \u00e9 inquestionavelmente algo superior, um am\u00e1lgama de sons poderoso e audacioso. Por fim, ainda n\u00e3o foi desta vez que voltei a incluir um disco de outra de minhas paix\u00f5es clandestinas, aquilo que chamam de darksynth ou darkwave (a \u00faltima vez foi com o Drab Majesty em [2017](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2018_01_08_meus_discos_favoritos_de_2017)), mas [este](https:\/\/newretrowave.bandcamp.com\/album\/nights-at-lake-milsen) e [este](https:\/\/www.discogs.com\/master\/2263312-Gost-Rites-Of-Love-And-Reverence) chegaram muito perto de figurar na lista final. E \u00e9 isso. N\u00e3o sei a qual destes 14 discos eu daria o pr\u00eamio de favorito dos favoritos; quando escrevi o post dos [discos de dezembro](http:\/\/www.dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Dezembro_de_2021), eu estava absolutamente certo de que n\u00e3o poderia ser outro que n\u00e3o o da parceria entre Chelsea Wolfe e Converge, mas tamb\u00e9m os discos da Marissa Nadler e do Body com o BIG|BRAVE s\u00e3o especiais... Mas estamos conversados. Aqui vamos n\u00f3s novamente. Eu n\u00e3o espero nada de bom de 2022 \u2014 nada al\u00e9m de overdoses de m\u00fasica, \u00e9 claro.\r\n\r\n- Blank Gloss - *Melt*\r\n- Body \u0026 BIG|BRAVE - *Leaving None But Small Birds*\r\n- Br\u00edi - *Sem Prop\u00f3sito*\r\n- Converge \u0026 Chelsea Wolfe \u2013 *Bloodmoon: I*\r\n- Cynic - *Ascension Codes*\r\n- Hania Rani \u0026 Dobrawa Czocher - *Inner Symphonies*\r\n- Hawthonn - *Earth Mirror*\r\n- Lucy Railton \u0026 Kit Downes - *Subaerial*\r\n- Marissa Nadler - *The Path of the Clouds*\r\n- Panopticon - *... And Again Into the Light*\r\n- Patricia Kopatchinskaja, Sol Gabetta \u0026 Camerata Bern - *Plaisirs illumin\u00e9s*\r\n- Paysage d\u0027Hiver - *Geister*\r\n- Sarah Davachi - *Antiphonals*\r\n- Tchornobog - *Tchornobog*","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Muito errado. *Bloodmoon: I* \u00e9 monumental, um disco que encanta e vicia logo na primeira audi\u00e7\u00e3o e logo na primeira faixa. Os gritos e uivos entrela\u00e7ados de Bannon e Wolfe nos momentos finais de *Blood Moon*, erguendo-se amaldi\u00e7oados e espectrais por sobre a deslumbrante massa sonora tramada a ferro e fogo pela banda (refor\u00e7ada por Ben Chisholm, que toca nos discos de Chelsea, e Stephen Brodsky, guitarrista do Cave In) \u00e9 arrepiante: lembro de ter ficado com as m\u00e3os suspensas sobre o teclado do computador, aturdido, a concentra\u00e7\u00e3o no trabalho bruscamente interrompida enquanto ouvia a esta faixa pela primeira vez. \u00c9 este meu disco predileto de 2021, eu j\u00e1 o sabia depois de mais duas ou tr\u00eas faixas. O \u00e1lbum como um todo \u00e9 um banquete opulento em todos os sentidos, com destaque final para a produ\u00e7\u00e3o e sua luxuriosa paleta de sons e de texturas, que levam o ouvinte do dissonante ao grandioso e da\u00ed ao sombrio e ao brutal sem perder o interesse e a coes\u00e3o, e em pelo menos uma ocasi\u00e3o temos at\u00e9 uma esp\u00e9cie de blues g\u00f3tico que soa quase como se o Converge houvesse nascido para esse tipo de som, aguardando apenas que Chelsea Wolfe viesse em seu aux\u00edlio para materializ\u00e1-lo. E tem *Failure Forever*, que deveria vir com algum tipo de advert\u00eancia sobre ser imposs\u00edvel tir\u00e1-la da cabe\u00e7a; e *Crimson Stone*, linda de morrer. E tem mais, muito mais. Que [disco escandalosamente sensacional](https:\/\/convergecult.bandcamp.com\/album\/bloodmoon-i).\r\n\r\n**Blank Gloss - Melt**\r\n\r\nDescrever a m\u00fasica de um artista atrav\u00e9s de alus\u00f5es e refer\u00eancias a outros artistas nem sempre \u00e9 uma boa ideia pois corre-se o risco de, 1), cometer injusti\u00e7as com o artista sendo descrito ao limit\u00e1-lo, mesmo que involuntariamente, a um mero copiador ou copiadora de outras obras, e, 2), tentar parecer algu\u00e9m de grande conhecimento musical, que fica *name-dropping* apenas para exibir-se. E reconhe\u00e7o que, apesar da consci\u00eancia dos perigos acima, eu me aproveito deste recurso com uma frequ\u00eancia bastante alta por aqui. Mas tenho esperan\u00e7as sinceras de n\u00e3o ser acusado do item 2 pois sou no fim das contas apenas um apaixonado diletante, algu\u00e9m que passa boa parte dos seus dias em contato \u00edntimo com discos e bandas, embora n\u00e3o saiba o significado exato da palavra \u201cacorde\u201d; algu\u00e9m que, apesar de ter se sentado diante de um piano n\u00e3o mais do que quatro ou cinco vezes em toda sua vida \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[(1)](#f1)\u003C\/span\u003E, passou os \u00faltimos 30 anos ouvindo e explorando m\u00fasica gravada de forma met\u00f3dica e quase fan\u00e1tica (eu disse \u0022quase\u0022?), e lendo muito sobre o assunto (lendo resenhas e biografias, nunca teoria), e por conta disso tudo acabou inevitavelmente acumulando alguma bagagem de refer\u00eancias. Isso, portanto, n\u00e3o me preocupa. O item 1 \u00e9 o mais perigoso. Ocorre que em muitos casos as refer\u00eancias s\u00e3o inescap\u00e1veis. Criar uma nova m\u00fasica a partir de elementos pr\u00e9-existentes n\u00e3o deixa de ser arte; ningu\u00e9m ignora que muito do que amamos e reverenciamos nasceu de processos de reinven\u00e7\u00e3o, reinterpreta\u00e7\u00e3o, colagem, recontextualiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 inevit\u00e1vel lembrar da maravilhosa trilha sonora de *Paris, Texas*, escrita por Ry Cooder, ao escutar *Melt*, da dupla norte-americana Blank Gloss, assim como \u00e9 imposs\u00edvel deixar de pensar em Harold Budd, em Liz Harris e a m\u00fasica lan\u00e7ada sob seu pseud\u00f4nimo Grouper, em Steve Hiett e Daniel Lanois. Talvez o car\u00e1ter esparso da [m\u00fasica](https:\/\/blankgloss.bandcamp.com\/album\/melt) incite estas lembran\u00e7as e associa\u00e7\u00f5es; talvez seja uma tradi\u00e7\u00e3o musical em plena fermenta\u00e7\u00e3o, e por isso busquemos as refer\u00eancias, para nos orientar neste novo mapa. Em todo o caso, *Melt* n\u00e3o \u00e9 mero pastiche: h\u00e1 novidade no trabalho de Patrick Hills e Morgan Fox, no dosar e manejar das influ\u00eancias, na coordena\u00e7\u00e3o dos sons que a dupla clara e respeitosamente venera. As guitarras que lembram Ry Cooder est\u00e3o em *slow-motion*; a atmosfera que poderia lembrar Harold Budd n\u00e3o evoca as mesmas paisagens de sonho do mestre falecido no ano passado, mas antes vis\u00f5es de desertos, de horizontes que ondulam pelo efeito \u00f3tico do calor... H\u00e1 ainda micro-doses de refrescante eletr\u00f4nica e a nostalgia de [certo disco](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2021_02_02_discos_do_mes_janeiro_de_2021) do Yo La Tengo. Ou seja, a m\u00fasica-am\u00e1lgama do Blank Gloss tem seu aspecto pr\u00f3prio, e sinto que se ap\u00f3ia n\u00e3o em indiv\u00edduos espec\u00edficos, mas em uma linhagem musical norte-americana que trilha as fronteiras entre o neo-cl\u00e1ssico e o popular, que se alimenta das tradi\u00e7\u00f5es do el\u00e9trico e do minimalista, algo que, como falei antes, parece estar ainda em edifica\u00e7\u00e3o. E se no meio disso tudo ainda traz ecos de Dylan Carlson sem perder a gra\u00e7a e a coer\u00eancia, ent\u00e3o temos que dar muito cr\u00e9dito aos dois rapazes.\r\n\r\n**Sarah Louise - Field Guide**\r\n\r\nCom o disco acima funcionando como uma etapa de transi\u00e7\u00e3o, em fins de dezembro a m\u00fasica predominante em meus ouvidos passou a ser mais serena e pastoral: o folk ingl\u00eas das Unthanks e das Smoke Fairies, e Bert Jansch e sua banda Pentangle. Depois descobri no bandcamp (ah, o bandcamp!; nunca terei elogios e gratid\u00e3o suficientes para com este site) uma violonista chamada Sarah Louise e com ela logo me mudei dos velhos portos e vilarejos brit\u00e2nicos para os campos mais frescos e mais selvagens do Novo Mundo, quando este ainda n\u00e3o tinha os nomes pelos quais o conhecemos hoje, de norte a sul. Sou apaixonado pelo som do viol\u00e3o, pelos discos de Jack Rose, Baden Powell e John Fahey, e agora, finalmente, acrescentei um nome feminino ao elenco de meus \u00eddolos neste departamento. Tenho a impress\u00e3o (ouvi pouco) que os discos mais recentes de Louise s\u00e3o mais sofisticados, com mais vozes e instrumentos, mas por ora permane\u00e7o dedicado aos seus trabalhos ac\u00fasticos como este [*Field Guide*](https:\/\/sarahlouise.bandcamp.com\/album\/field-guide-2), de 2015. Eu me perco completamente neste disco. \u00c9 o territ\u00f3rio dos meus sonhos: parte de rios e de montanhas; parte de pa\u00eds nenhum, de sociedade alguma.\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E(1)\u003C\/b\u003E E, n\u00e3o obstante a longa dist\u00e2ncia temporal para a \u00faltima vez em que isso aconteceu, n\u00e3o me esque\u00e7o da sensa\u00e7\u00e3o do toque nas teclas, de sua frieza e densidade, e da sensa\u00e7\u00e3o aveludada ao apert\u00e1-las at\u00e9 o fundo, e a surpresa do som produzido. Todas essas lembran\u00e7as est\u00e3o amarradas \u00e0 lembran\u00e7a da casa de um av\u00f4 meu falecido h\u00e1 muito tempo, e que possu\u00eda um piano de parede.  [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Eu gostava muito de todas estas bandas \u2014 gosto ainda, a julgar pelo arrepio que senti quando dia desses escutei a esta *On most surfaces*, a faixa de abertura de *Nighttime Birds*, o quarto disco do The Gathering e segundo a contar com Anneke van Giersbergen como vocalista. A atua\u00e7\u00e3o de Anneke nesta faixa \u2014 em particular, nesta frase inicial que transcrevi acima \u2014 \u00e9 um destes breves instantes de m\u00fasica que podem sozinhos, em seus ao mesmo tempo escassos e imensos 10 segundos, iniciar e justificar pelo resta da vida a paix\u00e3o de algu\u00e9m por discos e bandas. (Mas devo dizer que prefiro *On most surfaces* na vers\u00e3o ao vivo presente no disco *Superheat*, onde a voz de Anneke soa mais alta e mais potente; a can\u00e7\u00e3o como um todo, de fato, ganha corpo e vigor incomparavelmente maiores nesta vers\u00e3o ao vivo, mais intensa e exuberante. \u00c9 uma destas composi\u00e7\u00f5es que embora seja muito boa desde o in\u00edcio, parece destinada a realizar-se plenamente sobre um palco. A banda est\u00e1, portanto, desculpada por ter deixado a voz de Anneke algo distante e soterrada na vers\u00e3o gravada no est\u00fadio.)\r\n\r\n**Patricia Kopatchinskaja \u0026 Camerata Bern - Time \u0026 Eternity**\r\n\r\nA frequ\u00eancia com que escuto aos discos de Patricia Kopatchinskaja \u00e9 tamanha que n\u00e3o demora muito e serei capaz de soletrar de cor o sobrenome dela. Este *Time \u0026 Eternity*, gravado junto \u00e0 Camerata Bern, \u00e9 um dos meus favoritos. Adoro a atmosfera grave e hier\u00e1tica do \u00e1lbum, descontinuada algumas poucas vezes por cantos e recita\u00e7\u00f5es vindos (em sua maioria) de tradi\u00e7\u00f5es populares do leste europeu, breves interl\u00fadios vocais que conferem \u00e0 obra uma colora\u00e7\u00e3o s\u00e9pia e aprofundam sua aura reverente, espiritual. Continuo acorrentado \u00e0quele estado de esp\u00edrito descrito no post do m\u00eas passado, que faz com que a imensa maioria de minhas audi\u00e7\u00f5es seja de m\u00fasica pesada e heavy metal, e este disco, embora possa parecer, na verdade n\u00e3o \u00e9 uma ruptura disto: em muitos momentos a intensidade e a atmosfera de sua m\u00fasica fazem com que a maioria dos discos de metal soe pouco mais do que bobagens adolescentes. Al\u00e9m disso, em se tratando de m\u00fasicos que gostam de pintar o corpo, ao menos [Patricia](https:\/\/dnan0fzjxntrj.cloudfront.net\/Pictures\/1024x536\/2\/0\/5\/20205_patkoppierrot_854150.jpg) n\u00e3o faz o papel rid\u00edculo de levar tal coisa [muito a s\u00e9rio](https:\/\/www.spirit-of-metal.com\/les%20goupes\/I\/Immortal\/pics\/be49_3.jpg).\r\n\r\n**Tangerine Dream - Canyon Dreams**\r\n\r\nN\u00e3o, este disco n\u00e3o \u00e9 nenhum [*Phaedra*](https:\/\/www.discogs.com\/pt_BR\/master\/13354-Tangerine-Dream-Phaedra), mas eu gosto bastante dele mesmo assim. \u00c9 Tangerine Dream fase anos 80, fase vamos-gravar-uma-trilha-sonora-por-semana; e \u00e9 muito bom. Talvez diante de algumas de suas m\u00fasicas ou trechos de m\u00fasicas voc\u00ea pense \u201ceu j\u00e1 ouvi isso antes\u201d, e mesmo que n\u00e3o tenha ouvido, de certo modo voc\u00ea ter\u00e1 raz\u00e3o pois o que voc\u00ea provavelmente escutou foi alguma das milhares de bandas e artistas que beberam ou copiaram da inesgot\u00e1vel fonte de m\u00fasica inventada pelo Tangerine Dream.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":826,"title":"Heavy metal roundup, Vol. V","post_timestamp":"2021-11-13T13:55:01+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Vol_V","post":"Meus dias eu tenho passado escutando black \u0026 death metal. Abaixo algumas das minhas descobertas recentes favoritas no bandcamp.\r\n\r\n**Sunken - Livslede**\r\n\r\nPouco a pouco as pessoas est\u00e3o voltando a viajar, planejar f\u00e9rias, etc. Eu, de certo modo, n\u00e3o deixei de fazer isso em momento algum, e nos \u00faltimos dias meu destino favorito tem sido este abaixo. Se black metal repleto de camadas de som e atmosfera \u00e9 sua praia, n\u00e3o deixe de clicar no play abaixo:\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2711094870\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/sunkendenmark.bandcamp.com\/album\/livslede\u0022\u003ELivslede by Sunken\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Antediluvian  - The Divine Punishment**\r\n\r\nEsse disco vai na linha jornada c\u00f3smica do [Oranssi Pazuzu](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/Discos_do_mes_Setembro_de_2021), jornada t\u00e9trica e bizarra. H\u00e1 um pouco mais de esquizofrenia por aqui, e nem tudo funciona \u2014 \u00e9 o pre\u00e7o da imprevisibilidade que parece ser princ\u00edpio vital do \u00e1lbum: a cada segundo de m\u00fasica n\u00e3o tem como saber o que acontecer\u00e1 no seguinte. Mas muita coisa funciona: os coros mais tenebrosos da sua vida voc\u00ea escutar\u00e1 aqui; o peso das guitarras \u00e9 asfixiante, um rolo compressor cheio de dentes e garras; a atmosfera ocultista e complexa do disco \u00e9 de uma exuber\u00e2ncia mel\u00edflua e venenosa.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2281641459\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/nuclearwarnowproductions.bandcamp.com\/album\/the-divine-punishment\u0022\u003EThe Divine Punishment by Antediluvian\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Kilju - Apex Terminator**\r\n\r\nDepois dos discos acima (e antes dos debaixo), este \u00e9 para descontrair. H\u00edbrido de punk e death metal com men\u00e7\u00f5es \u00e0 *Terminator*, e vindo da Finl\u00e2ndia. E o disco est\u00e1 de gra\u00e7a no bandcamp. \u00c9 muita coisa boa junta ao mesmo tempo, ningu\u00e9m est\u00e1 mais acostumado com isso.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3612103311\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/kilju.bandcamp.com\/album\/apex-terminator\u0022\u003EApex Terminator by Kilju\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Spirit Possession - Spirit Possession**\r\n\r\nUm pedacinho do inferno para voc\u00ea apreciar a\u00ed da seguran\u00e7a da sua casa. Esse disco \u00e9 a contrapartida do mundo dos malvados para, digamos, a [sonata para violino e piano de C\u00e9sar Franck](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=acI5Txjhtz0). Enquanto l\u00e1 \u00e9 tudo gra\u00e7a e beleza, retid\u00e3o e intelecto, aqui temos um luxuriante banquete de anarquia e malignidade. Amo de paix\u00e3o a sonata de Franck (e o segundo movimento, *Allegro*, \u00e9 de se pensar se Franck n\u00e3o esteve brevemente possu\u00eddo por um esp\u00edrito travesso enquanto o escrevia), mas na batalha entre C\u00e3o-tinhoso e Deus-Eterno, acho que voc\u00ea j\u00e1 sabe de que lado eu fico.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1395495614\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/spiritpossession.bandcamp.com\/album\/spirit-possession\u0022\u003ESpirit Possession by SPIRIT POSSESSION\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Schammasch - Hearts of No Light**\r\n\r\nMeus arroubos de entusiasmo com o metal contempor\u00e2neo t\u00eam sido uma constante neste blog, de modo que desta vez vou poup\u00e1-los da ladainha com que costumo exaltar minhas melhores descobertas e dizer-lhes apenas: ou\u00e7am este disco.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1662346928\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/schammasch.bandcamp.com\/album\/hearts-of-no-light\u0022\u003EHearts of No Light by Schammasch\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"copiada [daqui](https:\/\/www.decibelmagazine.com\/2020\/10\/29\/video-premiere-schammasch-ego-sum-omega\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Death metal, black metal, doom, thrash, blackened thrash (aposto que voc\u00ea n\u00e3o sabia da exist\u00eancia disso), prog-death (existe, eu juro), quase-qualquer-coisa-metal\u2026 Deus do c\u00e9u, confesso que at\u00e9 power metal andei ouvindo \u00e0s escondidas, criancices do tipo Helloween e Stratovarious, e a continuar neste ritmo calculo que antes de terminar o ano acabo escutando Manowar. E conquanto este seja um estado mental que consigo sustentar por diversas horas seguidas, principalmente enquanto trabalho diante do computador, \u00e0s vezes me vejo obrigado a dar uma folga ao meu c\u00e9rebro, uma pausa na mentalidade m\u00e1gica exigida para se apreciar este tipo de m\u00fasica, uma suspens\u00e3o da suspens\u00e3o da descren\u00e7a que as bandas de metal requisitam para sua plena frui\u00e7\u00e3o. Foi numa destas ocasi\u00f5es que escutei ao disco do Deftones \u2014 decerto n\u00e3o exatamente algo que se diga m\u00fasica para adultos por excel\u00eancia, mas pelo menos o vocalista n\u00e3o canta fingindo ser uma criatura peluda monstruosa ou uma ninfa celestial \u2014 e gostei bastante. Ent\u00e3o posso estar errado, enviesado pelas les\u00f5es cerebrais acumuladas nestas \u00faltimas semanas de overdose met\u00e1lica, mas a impress\u00e3o que me ficou deste novo Deftones foi bastante positiva.\r\n\r\n**The Body \u0026 BIG | BRAVE - Leaving None But Small Birds**\r\n\r\nTamb\u00e9m este \u00e9 um disco que se enquadra na categoria dos \u201cn\u00e3o-metal\u201d, por\u00e9m ouvi-lo foi um acidente \u2014 um maravilhoso acidente, note-se. Resolvi experimentar [Leaving None But Small Birds](https:\/\/thebody.bandcamp.com\/album\/leaving-none-but-small-birds) porque sou f\u00e3 do The Body, de quem sempre se espera m\u00fasica barra-pesada, s\u00f3lida, um tipo de metal menos euroc\u00eantrico e mais contempor\u00e2neo. Gosto muito dos discos desta dupla; os canadenses do BIG | BRAVE, por outro lado, eu ainda n\u00e3o conhecia. Achando que escutaria algo na linha do The Body, fui imediatamente surpreendido \u2014 arrebatado \u00e9 a palavra certa \u2014 por algo muito diverso, muito mais rico e requintado. N\u00e3o h\u00e1 o peso tradicional do metal e s\u00e3o poucas as interven\u00e7\u00f5es das guitarras truculentas do The Body, mas h\u00e1 um clima algo m\u00edstico, ensombrecido, um esoterismo solene de outros tempos que me cativou de imediato. H\u00e1 muito de m\u00fasica folk e blues (sat\u00e2nico) e uma gravidade que n\u00e3o vem do volume ou da agressividade, mas sim das sugest\u00f5es da m\u00fasica, de sua circunspec\u00e7\u00e3o, das formas passadi\u00e7as que \u00e0s vezes ela assume e abandona sem deixar tra\u00e7os. H\u00e1, sobretudo, a fant\u00e1stica voz da cantora do BIG | BRAVE, Robin Wattie. Em suma, um disco extraordin\u00e1rio. O curioso \u00e9 que o BIG | BRAVE, fui descobrir depois, faz tamb\u00e9m uma m\u00fasica carrancuda e desafinada que orbita o mesmo centro da do The Body, ou seja, de onde vem a m\u00fasica que estas duas bandas urdiram juntas \u00e9 um mist\u00e9rio que s\u00f3 deixa *Leaving None But Small Birds* ainda melhor. \r\n\r\n**Panopticon - ... And Again Into the Light**\r\n\r\nEste talvez seja, dentre os muitos que ouvi at\u00e9 o momento, o disco de metal do ano para mim. Eu j\u00e1 tinha escutado ao Panopticon anteriormente; trata-se de uma destas bandas dif\u00edceis de ignorar. Seus discos despertam paix\u00f5es intensas, sejam de atra\u00e7\u00e3o ou de repulsa, e eu tendia a sentir mais os efeitos desta \u00faltima for\u00e7a: achava meio indigesta a mistura de metal extremo e bluegrass concebida por Austin Lunn, o pr\u00f3cer da banda. Mas algumas resenhas muito entusiasmadas sobre *... And Again Into the Light* ati\u00e7aram minha curiosidade e me convenceram a experiment\u00e1-lo, no que se revelou rapidamente uma decis\u00e3o muito acertada. \u00c9 de fato um disco excepcional, com alguns momentos de catarse brutal de beleza estonteante, \u00e1pices de peso e ferocidade emocionantes para os tipos exc\u00eantricos que somos n\u00f3s os f\u00e3s da m\u00fasica do mal. S\u00e3o tais e em tal magnitude estes momentos que eu, para ser franco, nem sei o que dizer sobre os enxertos de m\u00fasica country e bluegrass que costumam aparecer inoculados nos discos do Panopticon, mas que realmente n\u00e3o me recordo se aparecem neste \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[(1)](#f1)\u003C\/span\u003E. Se aparecem, ou bem eu nem reparei ou acabam completamente ofuscados pelos estrondos arrasadores das melhores partes de *... And Again Into the Light*. [Disca\u00e7o](https:\/\/thetruepanopticon.bandcamp.com\/album\/and-again-into-the-light).\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E(1)\u003C\/b\u003E Voltei ao disco depois de ter escrito estas linhas, e sim, h\u00e1 alguma instrumenta\u00e7\u00e3o de m\u00fasica folk antiga aqui e ali. Continuo achando a combina\u00e7\u00e3o bastante estranha, inconcili\u00e1vel, por\u00e9m neste *... And Again Into the Light* ela me pareceu menos desfavor\u00e1vel ao \u00e1lbum como um todo, n\u00e3o sei se devido a um uso mais moderado ou quem sabe ao aperfei\u00e7oamento das habilidades de Lunn. A primeira faixa \u00e9 quase toda ac\u00fastica e muito bonita. Se h\u00e1 banjos dedilhados, \u00e9 muito pouco. Banjo e black metal, definitivamente, n\u00e3o d\u00e1 liga.  [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":824,"title":"Heavy metal roundup, Vol. IV","post_timestamp":"2021-10-12T17:48:20+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Vol_IV","post":"\u00c9 outubro, m\u00eas das bruxas. Chove e faz frio na prov\u00edncia onde moro. H\u00e1 uma n\u00e9voa constante no ar, e um sil\u00eancio carregado, inescrut\u00e1vel, surge \u00e0s vezes como que vindo do nada, nas horas mais imprevistas... Um clima de baixa idade m\u00e9dia parece irradiar-se por todo o pa\u00eds. Mas isso n\u00e3o tem nada a ver com a chuva ou as bruxas: \u00e9 s\u00f3 o karma brasileiro mesmo. \u00c9 o custo da nossa estupidez. Ao menos a trilha sonora as bandas abaixo fizeram a gentileza de providenciar.\r\n\r\n**Teitanblood - Death**\r\n\r\nIncansavelmente violento, ca\u00f3tico, cavernoso, sinistro, um am\u00e1lgama muito pr\u00f3ximo do perfeito de tudo aquilo que amamos no black (a atmosfera) e no death metal (a f\u00faria). Se recomenda\u00e7\u00e3o minha n\u00e3o lhe diz absolutamente nada (de fato, n\u00e3o deveria), que tal o mascote do Darkthrone, Max Necro, usando um patch da banda na [capa do *Circle The Wagons*](https:\/\/f4.bcbits.com\/img\/a0384597282_10.jpg)? Faixa (e t\u00edtulo de faixa) favorita: *Cadaver Synod*.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2757919759\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/teitanblood.bandcamp.com\/album\/death\u0022\u003EDeath by Teitanblood\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Antro - Demo**\r\n\r\nN\u00e3o d\u00e1 para superar a descri\u00e7\u00e3o da banda no bandcamp: \u0022In short, this fresh project delivers 7 grindy metalpunk anthems with filthy riffing, groovy to blasting drums and inimitably nasty vocals, perfect for pissing on the graveyard or vomiting on churches.\u201d\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=3735565368\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/lckr.bandcamp.com\/album\/antro-demo\u0022\u003EAntro - Demo by Antro\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Black Mass - Feast at the Forbidden Tree**\r\n\r\nEsse disco nem precisaria ser bom para que eu gostasse dele: basta a [capa emulando quadrinhos antigos do Conan](https:\/\/f4.bcbits.com\/img\/a0869891784_10.jpg). Isso, no entanto, n\u00e3o seria suficiente para que eu o recomendasse por aqui, e se o fa\u00e7o quer dizer que tamb\u00e9m a m\u00fasica \u00e9 boa. Muito boa. Para quem gosta de black\/thrash veloz e j\u00e1 teve alguma vez na vida uma camisa do Venom.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2877727948\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/blackmassband.bandcamp.com\/album\/feast-at-the-forbidden-tree\u0022\u003EFeast at the Forbidden Tree by Black Mass\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**IER  - LDL**\r\n\r\nEmbora tenha o clima e muitos dos elementos do repert\u00f3rio iconogr\u00e1fico do black metal, talvez seja necess\u00e1rio alertar que a produ\u00e7\u00e3o deste disco n\u00e3o \u00e9 lo-fi como os puristas do g\u00eanero costumam exigir. Deve agradar portanto quem j\u00e1 se sentiu algo inclinado a gostar de black metal, mas foi sucessivamente repelido pelo p\u00e2ntano sonoro de muitas das bandas mais tradicionais, ou pelas malditas abelhas que \u00e0s vezes parecem enxamear seus discos.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1312468640\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/ierdepression.bandcamp.com\/album\/ldl-remastered\u0022\u003ELDL (Remastered) by IER\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"copiada [daqui](https:\/\/picryl.com\/media\/execution-of-the-jacquerie-from-bl-royal-20-c-vii-f-134v-41b2cb)","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":823,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2021","post_timestamp":"2021-10-02T14:23:01+00:00","url":"Discos_do_mes_Setembro_de_2021","post":"**Simple Minds - Street Fighting Years**\r\n\r\nTornei-me f\u00e3 do Simple Minds quando ouvi pela primeira vez *Don\u0027t You (Forget About Me)* (da trilha sonora do filme *The Breakfast Club*) e finalmente me dei conta de que aquela banda n\u00e3o poderia ser a mesma do ruivo que cantava \u201cI wanna fall from the stars... straight into your arms... \u201d. Pois at\u00e9 ent\u00e3o eu achava que Simple Minds e Simply Red eram uma mesma banda: eu trocava os nomes, e quando lembrava de um, esquecia-me do outro, e assim foi por muito tempo, ou seja, por muito tempo ignorei o Simple Minds j\u00e1 que eu detestava a can\u00e7\u00e3o do sujeito que queria cair das estrelas direto nos bra\u00e7os de algum ou alguma infeliz. Sou, portanto, um f\u00e3 bastante tardio do Simple Minds. Gosto de todos os seus discos lan\u00e7ados ao longo dos anos 80 (em especial *Once Upon a Time*, de 1985), mas *Street Fighting Years*, de 1989, \u00e9 uma esp\u00e9cie de apoteose e tem alguma coisa de especial. \u00c9, de longe, o \u00e1lbum mais ambicioso e bomb\u00e1stico da banda; inspirado pelo U2 (com quem pareciam irmanados em mais do que apenas um ou dois trejeitos) e pelos dramas sociais do mundo daquela \u00e9poca, o Simple Minds de *Street Fighting Years* \u00e9 claramente uma banda imbu\u00edda de uma miss\u00e3o. Estilisticamente, n\u00e3o s\u00e3o poucas as faixas em que as guitarras parecem ecoar por entre as paredes de vastos canyons enquanto a banda canta e toca na beirada de um deles, sendo filmada por uma c\u00e2mera circulando rapidamente ao seu redor, as roupas e os cabelos esvoa\u00e7ando com o vento, as guitarras desplugadas, o cantor de bra\u00e7os abertos mirando o c\u00e9u. Tudo isso \u00e9 de gosto muito duvidoso, evidentemente, mas as m\u00fasicas, mesmo que n\u00e3o tenham mudado o mundo, s\u00e3o melhores do que tais imagens. De um ponto de vista do tipo \u201ccopo meio vazio\u201d, algu\u00e9m pode dizer que elas demonstram o oportunismo da m\u00fasica pop, sua vacuidade inofensiva; do ponto de vista do \u201ccopo meio cheio\u201d, quem pode garantir que a consci\u00eancia pol\u00edtica de mais do que apenas um pequeno punhado de adolescentes n\u00e3o foi despertada por *Mandela Day* ou *Belfast Kid*?\r\n\r\n**Bruce Dickinson - Alive In Studio A**\r\n\r\nEmbora n\u00e3o tenha encontrado ainda o que de t\u00e3o novo ou surpreendente o disco tem (era o que prometiam alguns membros da banda em entrevistas que li pouco antes do lan\u00e7amento), tenho gostado bastante do novo Maiden. \u00c9 mais do mesmo, na minha opini\u00e3o, e n\u00e3o h\u00e1 absolutamente nenhum problema nisto, haja visto que este \u201cmesmo\u201d vem rendendo \u00f3timos discos um atr\u00e1s do outro, desde *Brave New World*, de 2000. H\u00e1 quem diga at\u00e9 que a banda vive seu verdadeiro per\u00edodo \u00e1ureo agora, em sua quarta d\u00e9cada de vida, o que acho um pouco de exagero, mas talvez n\u00e3o tanto\u2026 Mas n\u00e3o vim falar do Iron Maiden; o que andei escutando mais frequentemente nas \u00faltimas semanas foram os discos solos da voz do Maiden, Bruce Dickinson (presumo que a essa altura s\u00f3 considere Paul Di\u2019Anno a voz oficial do Maiden quem morreu em 1982\u2026 Bem, estes t\u00eam tamb\u00e9m direito a uma opini\u00e3o, diria a personagem de Bette Davis [neste filme](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0062671\/)). Primeiro voltei ao *Skunkworks*, que muitos consideram o *Load* de Dickinson, mas eu o adoro (assim como adoro *Load*, que \u00e9 o *Load* do Metallica). Depois fiquei com vontade de escutar aos sons mais hard rock dos seus dois primeiros \u00e1lbuns, mas ao inv\u00e9s de voltar a eles, lembrei-me deste \u00f3timo *Alive In Studio A*, que traz regrava\u00e7\u00f5es e vers\u00f5es ao vivo das melhores faixas daqueles dois. As tais regrava\u00e7\u00f5es aconteceram j\u00e1 com uma nova banda (aquela que viria a gravar *Skunkworks*) e soam muito boas, melhores at\u00e9 do que em seus discos originais, mais pesadas e viscerais. O som cristalino do primeiro disco (gravado em est\u00fadio) colabora bastante: a guitarra de Alex Dickson \u00e9 rasgada e feroz, fazendo um \u00f3timo par com a voz limpa e melodiosa de Bruce \u0022Air-Raid Siren\u201d Dickinson. Tenho a impress\u00e3o que os primeiros esfor\u00e7os de Dickinson como artista solo n\u00e3o angariaram muita simpatia por parte dos f\u00e3s do Maiden (que, suponho, foram reconquistados depois com *Accident of Birth*), mas esse disco poderia muito bem mudar algumas mentes e cora\u00e7\u00f5es quanto a isso, se dessem uma chance a ele. Faixas favoritas: *Hell No* e *Cyclops* s\u00e3o monumentais; *Sacred Cowboys* tem um dos melhores refr\u00f5es de Bruce e tem \u0022You can sell people crap and make them EAAAAAAT it\u201d; e, por \u00faltimo, *Tattooed Millionaire* tem tamb\u00e9m um \u00f3timo refr\u00e3o e uma mensagem bem pouco sutil que, infelizmente, \u00e9 bem pouco prov\u00e1vel que Dickinson volte a cantar algum dia, j\u00e1 que, agora sabemos, aos apelos dos milhares de d\u00f3lares, quando eles lhe bateram \u00e0 porta, ele n\u00e3o conseguiu resistir\u2026 \r\n\r\n**Oranssi Pazuzu - Mestarin Kynsi**\r\n\r\nApesar de ter colocado o \u00faltimo disco do Oranssi Pazuzu na minha lista de [favoritos do ano passado](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2021_01_06_meus_discos_preferidos_de_2020), a verdade \u00e9 que, \u00e0quela altura, eu o havia escutado apenas um par de vezes. Passaram-se ent\u00e3o v\u00e1rios (desgra\u00e7ados) meses e fui escut\u00e1-lo novamente somente alguns poucos dias atr\u00e1s. Eu lembrava que era um disco muito bom \u2014 um dos meus favoritos do ano passado, afinal \u2014 mas ele \u00e9 muito, muito mais do que isso. \u00c9 um disco fenomenal. Ilimitadamente vision\u00e1ria e aventureira, a banda rompe com quaisquer conven\u00e7\u00f5es e amarras de g\u00eanero sem nem sequer pensar nisso, sem que isso sequer pare\u00e7a ter sido uma quest\u00e3o a ser considerada em algum momento \u2014 verdadeiros artistas, estes finlandeses. H\u00e1 um momento em *Mestarin Kynsi* em que voc\u00ea simplesmente n\u00e3o se preocupa mais em compreender o que est\u00e1 ouvindo, que instrumentos s\u00e3o aqueles, o que \u00e9 aquilo que passou diante de seus olhos... O chamado e a atra\u00e7\u00e3o desta m\u00fasica s\u00e3o avassaladores e irresist\u00edveis. Por\u00e9m, n\u00e3o obstante esta profusa riqueza e variedade sonora, a maestria da banda no fim das contas est\u00e1 em fazer o \u00e1lbum soar incrivelmente coeso e org\u00e2nico, uma jornada c\u00f3smica sem sequer um \u00fanico segundo sup\u00e9rfluo ou desnecess\u00e1rio, ao cabo da qual o ouvinte se v\u00ea subitamente de volta ao local em que estava antes de ter dado play no disco, confuso e atordoado, e com um \u00fanico pensamento a fervilhar na cabe\u00e7a: retornar a *Mestarin Kynsi* o quanto antes. S\u00e3o 51 minutos de barulho sublime, de outra dimens\u00e3o. [Obra-prima](https:\/\/oranssipazuzu.bandcamp.com\/album\/mestarin-kynsi).\r\n\r\n**Roy Montgomery  - Scenes From The South Island**\r\n\r\n[Este disco](https:\/\/grouper.bandcamp.com\/album\/scenes-from-the-south-island) inscreve-se naquela mesma categoria dos discos de Daniel Lanois e Steve Hiett recentemente citados neste blog: m\u00fasica de sonho, vagamente nost\u00e1lgica, vagamente litor\u00e2nea, escrita e executada por algu\u00e9m que n\u00e3o parece estar em completo controle de sua consci\u00eancia e de seus sentidos. As faixas flutuam alheias \u2014 ao mundo e tamb\u00e9m entre si \u2014 em meio a uma espessa atmosfera de ecos e eletricidade, e o efeito que vai se acumulando \u00e9 acima de tudo entorpecente, um narc\u00f3tico ao qual tenho dedicado uma quota generosa dentro das minhas centenas de horas mensais de m\u00fasica. Roy Montgomery, pelo o que pude entender, n\u00e3o era l\u00e1 muito famoso fora da Nova Zel\u00e2ndia onde vive desde a inf\u00e2ncia (tendo nascido em Londres), mas sujeitos como eu, que n\u00e3o t\u00eam a sorte de viver na Nova Zel\u00e2ndia, tiveram a chance de conhecer este e outros de seus discos quando Liz Harris come\u00e7ou a relan\u00e7\u00e1-los atrav\u00e9s de seu selo, o [Yellow Electric](https:\/\/sites.google.com\/site\/yellowelectric\/). Ou seja, n\u00e3o \u00e9 apenas pelos maravilhosos discos do [Grouper](https:\/\/grouper.bandcamp.com) que devemos infinitos agradecimentos \u00e0 Liz.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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N\u00e3o chega a ser ambient, eu acho \u2014 tem movimento suficiente para n\u00e3o o ser \u2014, e est\u00e1 muito longe de ser algo como rock \u2019n\u2019 roll ou qualquer outra coisa do tipo; \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o de texturas, de espa\u00e7os fronteiri\u00e7os, de paisagens espectrais. Evoca um pouco as melhores trilhas sonoras de Ry Cooder, em especial a de *Paris, Texas*. Os discos mais recentes de Lanois que conhe\u00e7o tamb\u00e9m s\u00e3o \u00f3timos (*Heavy Sun*, *Goodbye to Language*), mas meu favorito \u00e9 este, um \u00e1lbum que nunca falha em me enfeiti\u00e7ar.\r\n\r\n**Caetano Veloso \u0026 Gilberto Gil - Dois Amigos, Um S\u00e9culo de M\u00fasica**\r\n\r\nEu deveria ter tido mais ju\u00edzo e me mantido estrategicamente longe da m\u00fasica brasileira, como tenho feito nos \u00faltimos meses. Foi num lance de distra\u00e7\u00e3o, numa tarde de trabalho cansativo em que meus ouvidos pediam por uma m\u00fasica quieta e ac\u00fastica, que, tendo esse disco \u00e0 m\u00e3o, acabei dando-lhe *play* e imediatamente aconteceu o que s\u00f3 poderia acontecer: lembrei-me do Brasil \u2014 fui esmagado pelo Brasil \u2014 e fui tomado por uma tristeza imensa. J\u00e1 faz alguns anos que esta tristeza \u00e9 uma presen\u00e7a constante, um companhia persistente e di\u00e1ria, mas \u00e9 com razo\u00e1vel sucesso que tenho conseguido mant\u00ea-la domesticada num canto isolado do meu c\u00e9rebro, ocupado como ando com muito trabalho, filmes, livros e m\u00fasica \u2014 mas n\u00e3o m\u00fasica brasileira, \u00e9 l\u00f3gico, que \u00e9 para n\u00e3o provocar o bichano aprisionado. Foi, como eu disse, uma distra\u00e7\u00e3o. E foi logo com estes dois gigantes, Gil e Caetano, dois dos nossos maiores, dois dos que melhor imaginaram e retrataram aquilo que j\u00e1 foi uma ideia de pa\u00eds, um passado e um futuro\u2026 Foi logo com esse longo disco ao vivo que passeia por 50 anos de m\u00fasica brasileira, de cen\u00e1rios brasileiros e utopias brasileiras, cantados e cantadas por estas duas vozes t\u00e3o peculiares, t\u00e3o fr\u00e1geis e ternas, de sotaques misturados e perdidos e reinventados, sotaques cujos donos nasceram na Bahia e viveram exilados em Londres e voltaram para S\u00e3o Paulo \u2014 tenho certeza dos verbos, n\u00e3o dos lugares, me perdoem. Gil e Caetano, em todo o caso, superam em muito o meramente regional. Ou sabem fundir, com sabedoria e eleg\u00e2ncia, o regional e o universal. De resto, \u00e9 m\u00fasica brasileira em uma suas melhores perfila\u00e7\u00f5es: sem arranjos cafonas, sem psicodelias importadas, sem a breguice padr\u00e3o Rede Globo que durante tanto tempo imprimiu sua marca em tudo que \u00e9 produto cultural deste pa\u00eds. Os viol\u00f5es dedilhados t\u00e3o inibidos \u2014 a bossa nova sem a emp\u00e1fia engravatada da bossa nova. Dois mestres calejados, apenas, que no passado distante e esquecido em que este show foi gravado (2015) esbanjavam ainda o \u00fanico defeito que hoje fica dif\u00edcil perdoar-lhes: absolutamente nenhum sinal de presci\u00eancia, um alerta m\u00ednimo que fosse, de que o horizonte enegrecia e tudo aquilo que eles cantavam e celebravam estava prestes a ir para o brejo.\r\n\r\n**Mark Knopfler - Local Hero Soundtrack**\r\n\r\n*Local Hero* \u00e9 um pouco conhecido filme de 1983 (*Momento Inesquec\u00edvel* \u00e9 seu t\u00edtulo traduzido no Brasil), uma pequena e ador\u00e1vel excentricidade que se passa em um vilarejo isolado na costa norte da Esc\u00f3cia. Pouca coisa acontece no filme; seu charme s\u00e3o os di\u00e1logos, uns tantos momentos de humor nunca muito claramente volunt\u00e1rio ou n\u00e3o, as montanhas escocesas e as muitas garrafas de whisky. Seu fiapo de hist\u00f3ria desenvolve-se (hesitantemente) atrav\u00e9s das intera\u00e7\u00f5es entre um punhado de personagens quase sempre sonhadores e todos ligeiramente ex\u00f3ticos. \u00c9 o tipo de filme que penso ser capaz de ver e rever eternamente, mas cuja experi\u00eancia ou rememora\u00e7\u00e3o pode se dar tamb\u00e9m \u2014 de forma um pouco mais dilu\u00edda e descompromissada, \u00e9 claro, mas com a vantagem de tomar menos tempo e poder ser feito enquanto se trabalha ou lava a lou\u00e7a \u2014 atrav\u00e9s de sua trilha sonora, de autoria de Mark Knopfler. Ningu\u00e9m poderia ter feito trabalho melhor. A guitarra de Knopfler (ele tamb\u00e9m um *Scotsman*) n\u00e3o aparece tanto durante o filme, mas no disco ela capta com perfei\u00e7\u00e3o o estado de estupor e nostalgia que parece dominar os habitantes e visitantes da min\u00fascula Ferness, lugarejo onde n\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m do m\u00ednimo necess\u00e1rio \u00e0 sobreviv\u00eancia humana (um pub e um mini-mercado), al\u00e9m de um estranho encantamento no ar. O \u00e1lbum traz tamb\u00e9m alguns breves interl\u00fadios \u2014 estes sim presentes no filme \u2014 feitos com um tipo de teclado ou sintetizador muito popular em trilhas sonoras dos anos 80 (se eu n\u00e3o me engano, \u00e9 o instrumento principal de Brad Fiedel na trilha do primeiro *Terminator*): \u00e9 o som dos momentos mais contemplativos do filme, algumas cenas noturnas e cen\u00e1rios naturais, e tamb\u00e9m da dist\u00e2ncia e desconex\u00e3o que o personagem principal sente t\u00e3o logo se v\u00ea de volta em Houston, Texas, ao fim da hist\u00f3ria. M\u00fasica e filme s\u00e3o sutil e surpreendentemente especiais, sem que isso pare\u00e7a ser em algum momento suas ambi\u00e7\u00f5es... Julgo que sejam os sensos meio embaralhados de fuga e de deslocamento, inoculados no ouvinte e no expectador junto com os aromas inebriantes de whisky e de mar, o que os torna assim t\u00e3o singulares.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":821,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2021","post_timestamp":"2021-08-08T21:41:45+00:00","url":"Discos_do_mes_Julho_de_2021","post":"**Steve Hiett - Down on the Road by the Beach**\r\n\r\nEste disco \u00e9 minha atual obsess\u00e3o. *Down on the Road by the Beach* \u00e9 pura atmosfera: uma esp\u00e9cie de destila\u00e7\u00e3o de Beach Boys movendo-se languidamente por entre ecos e resson\u00e2ncias, vaporosa e nost\u00e1lgica. Uma ambi\u00eancia t\u00e3o envolvente e acolhedora que n\u00e3o foram poucas as manh\u00e3s, nas \u00faltimas semanas, em que acordei e fiz tudo meio que correndo \u2014 caf\u00e9 da manh\u00e3, meter as roupas, um alongamento breve e provavelmente in\u00fatil \u2014 para poder colocar logo os fones de ouvido e mergulhar novamente nela. Ningu\u00e9m me parece g\u00eanio aqui, nem instrumentistas e nem compositores (Hiett, embora seja o artista principal, contou com diversos colaboradores na cria\u00e7\u00e3o do [\u00e1lbum](https:\/\/www.discogs.com\/Steve-Hiett-Down-On-The-Road-By-The-Beach\/release\/3814352)), de modo que n\u00e3o devo errar feio e nem tirar injustamente o m\u00e9rito de ningu\u00e9m ao apontar a produ\u00e7\u00e3o precisa e ricamente texturizada como a grande qualidade de *Down on the Road by the Beach*. Escute, por exemplo, o som destas guitarras: d\u00e1 vontade de erguer as m\u00e3os para apalp\u00e1-lo com os dedos. A hist\u00f3ria por tr\u00e1s do \u00e1lbum parece ser tamb\u00e9m bastante rica: foi lan\u00e7ado inicialmente apenas no Jap\u00e3o, virou item de colecionador e Santo Graal das listas de compras de muitos aficcionados mundo afora; teve reedi\u00e7\u00e3o, onde se pedia que suas faixas n\u00e3o fossem convertidas em arquivos digitais; por fim foi lan\u00e7ado no [bandcamp](https:\/\/efficientspace.bandcamp.com\/album\/down-on-the-road-by-the-beach), que pede US$ 44 pela vers\u00e3o em vinil e US$ 666 pela digital. \u00c9 um disco especial de diversos modos, como pode-se perceber. Ningu\u00e9m nem sabe direito como catalog\u00e1-lo: vejam que l\u00e1 no [discogs](https:\/\/www.discogs.com\/Steve-Hiett-Down-On-The-Road-By-The-Beach\/release\/3814352) ele consta sob os r\u00f3tulos \u0022Electronic\u0022, \u201cJazz\u0022, \u201cBlues\u201d, \u201cAmbient\u0022 e \u201cSynth-pop\u201d. E \u00e9 um pouco disso tudo mesmo. Blues on\u00edrico e entorpecente que transporta o ouvinte diretamente para dentro daquele filme ambientado na beira da praia que o David Lynch ainda vai escrever e dirigir.\r\n\r\n**Kate Bush - Aerial**\r\n\r\nEsse disco \u00e9 lindo desde a capa, que [n\u00e3o \u00e9 o que parece](https:\/\/monkeybuzz.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/aerial.jpg). Kate Bush est\u00e1 na selet\u00edssima liga de artistas cuja m\u00fasica \u00e9 um g\u00eanero por si s\u00f3: no seu caso, uma esp\u00e9cie de fabula\u00e7\u00e3o multi-sensorial que sempre traz consigo todo um universo de detalhes e imagens, que transitam naturalmente entre o hiper-realista e o surreal e estimulam intensamente a imagina\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca em que foi lan\u00e7ado, contudo, alguns cr\u00edticos consideraram *Aerial* um trabalho indigno do g\u00eanero e da artista Kate Bush. Uns boc\u00f3s, evidentemente. Tendo sido lan\u00e7ado quase trinta anos ap\u00f3s a estr\u00e9ia fonogr\u00e1fica de Bush (com *The Kick Inside*, em 1978), \u00e9 natural que os temas e cen\u00e1rios de *Aerial* sejam um pouco menos delirantes e fant\u00e1sticos do que aqueles pintados em suas obras da juventude\u2026 E, ainda assim, n\u00e3o s\u00f3 o disco \u00e9 excepcional como eu diria at\u00e9 que \u00e9 um de seus melhores. Desconfio que o que atordoou muita gente \u00e9 descobrir a possibilidade de uma linda e comovente can\u00e7\u00e3o sobre fazer faxina.\r\n\r\n**Julianna Barwick  - The Magic Place**\r\n\r\nJulianna Barwick tem alguma coisa de herdeira de Kate Bush: sua m\u00fasica sempre me faz imaginar algu\u00e9m cuja inf\u00e2ncia foi passada em algum vilarejo remoto e congelado no tempo, e cujas companhias mais frequentes, ao inv\u00e9s das habituais crian\u00e7as da mesma idade, foram desde cedo os livros e os animais. Os fundos de sua grande casa vitoriana (continuando minha fantasia) davam direto em uma floresta, e por l\u00e1 a pequena Julianna costumava perambular sem medo diariamente, visitando seus ref\u00fagios secretos, criando mitologias para as \u00e1rvores e os animais e aprendendo a escutar os sons das coisas que para a maioria das outras pessoas sequer emitem sons. A m\u00fasica que ela agora adulta cria parece repleta destas experi\u00eancias e mem\u00f3rias: \u00e9 [uivante e misteriosa](https:\/\/juliannabarwick.bandcamp.com\/album\/the-magic-place), cheia de sombras e luzes filtradas que pacientemente se [entrela\u00e7am e se replicam](https:\/\/juliannabarwick.bandcamp.com\/album\/healing-is-a-miracle), um espa\u00e7o sonoro que n\u00e3o \u00e9 \u2014 suponho que para a grande maioria de n\u00f3s n\u00e3o o seja \u2014 imediatamente acolhedor. Como uma floresta, afinal de contas. Ent\u00e3o por que, se n\u00e3o \u00e9 exatamente uma zona de conforto e descanso, sentimos vontade de voltar a ela repetidas vezes? A primeira e \u00f3bvia hip\u00f3tese \u00e9 que florestas, embora ainda bastante vivas e presentes em nossa cultura, v\u00e3o se tornando algo cada vez mais raro e inacess\u00edvel, empenhados que estamos em transform\u00e1-las em pastos e hidrel\u00e9tricas. Ou seja, \u00e9 a nossa incipiente nostalgia pela natureza. Outra hip\u00f3tese, esta um pouco mais especulativa e po\u00e9tica: na floresta de sua inf\u00e2ncia, Julianna acostumou-se a conviver n\u00e3o apenas com \u00e1rvores e corujas, mas tamb\u00e9m com os duendes e as fadas que tinham o h\u00e1bito travesso de, das p\u00e1ginas de seus livros, transportarem-se vez ou outra para as margens dos riachos e para os nichos dos troncos das \u00e1rvores\u2026 Talvez a presen\u00e7a destes seres fant\u00e1sticos na m\u00fasica de Julianna Barwick seja intu\u00edda pela crian\u00e7a que todos fomos algum dia; \u00e9 a lembran\u00e7a da imagina\u00e7\u00e3o ilimitada que j\u00e1 tivemos e cuja liberdade aprendemos pouco a pouco a cercear e a adestrar, e todos n\u00f3s, quando adultos, em algum momento acabamos por nos perguntar qual foi afinal o benef\u00edcio disso.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":820,"title":"M\u00fasica eletroac\u00fastica, por que n\u00e3o?","post_timestamp":"2021-08-01T18:07:30+00:00","url":"Musica_eletroacustica_por_que_nao","post":"N\u00e3o \u00e9 exatamente \u201cconvidativo\u0022 o mundo da m\u00fasica eletroac\u00fastica. N\u00e3o sei bem o que ultimamente tem me atra\u00eddo a ela: a saudade, talvez, do burburinho das ruas e da cidade (continuo essencialmente em quarentena, saindo de casa apenas para o absolutamente necess\u00e1rio); um interesse maior por texturas sonoras, pelas suas belezas intr\u00ednsecas mas tamb\u00e9m pelas suas justaposi\u00e7\u00f5es, alongamentos e manipula\u00e7\u00f5es; a necessidade mais utilit\u00e1ria, talvez, de adquirir novos meios de abstra\u00e7\u00e3o e de retiro do mundo... Talvez meramente uma evolu\u00e7\u00e3o natural do meu gosto \u2014 esta sim uma prefer\u00eancia bem estabelecida e de longa data \u2014 pela m\u00fasica ambient. Mais prov\u00e1vel que seja um pouco disto tudo. O gosto pelo ambient apenas n\u00e3o justificaria, uma vez que as colagens e experimentos da m\u00fasica eletroac\u00fastica (ou, como preferem alguns, *musique concr\u00e8te*) costumam resultar em sons bem mais \u00e1speros e imprevis\u00edveis do que os gerados pela const\u00e2ncia e pelo minimalismo da m\u00fasica ambient. Ambos os g\u00eaneros, por outro lado, em compara\u00e7\u00e3o ao som musical mais tradicional feito de melodias, estrofes e refr\u00f5es \u2014 o som da m\u00fasica popular, do rock \u2019n\u2019 roll, etc. \u2014 ambos parecem ocupar (pura especula\u00e7\u00e3o minha) uma regi\u00e3o diferente do c\u00e9rebro do ouvinte, regi\u00e3o que estimula e intensifica as capacidades de abstra\u00e7\u00e3o, de pensamento concentrado, de sair flutuando por a\u00ed etc. Mas n\u00e3o muito mais do que isso elas possuem em comum. E embora pare\u00e7a existir menos espa\u00e7o para o encanto e o deslumbramento na m\u00fasica eletroac\u00fastica, isto n\u00e3o significa em absoluto que momentos deste tipo n\u00e3o ocorram: nas colagens surrealistas de [Steve Moore](https:\/\/www.discogs.com\/artist\/174247-Steve-Moore-2), por exemplo, h\u00e1 diversas passagens assombrosas, desenlaces imprevistos em met\u00f3dicas constru\u00e7\u00f5es feitas de vozes, sinos, m\u00e1quinas, elementos em sua maioria fortuitos e ordin\u00e1rios (cantos e instrumentos musicais inclusos) gravados nas ruas e outros locais. S\u00e3o sons de uma natureza diferente, onde a sensa\u00e7\u00e3o de artif\u00edcio manual \u2014 em contraponto ao som desterrado da m\u00fasica ambient \u2014 nunca deixa de estar inequivocamente presente, e a m\u00fasica como um todo parece aspirar a um car\u00e1ter documental, n\u00e3o raro absurdo, mas repleto de simbologias e uma eufonia muito pr\u00f3pria. Perguntar-se o que \u00e9 m\u00fasica, afinal, acaba sendo efeito colateral inevit\u00e1vel destas composi\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o um que me interesse em particular; que fique claro, em todo o caso, que esta n\u00e3o \u00e9 menos m\u00fasica do que qualquer outra: aquela mais popular e convencional que conhecemos tamb\u00e9m \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma cole\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria de sons organizados e dispostos em certa sequ\u00eancia temporal\u2026 Que os sons mais rudes e banais da m\u00fasica eletroac\u00fastica consigam muitas vezes eludir e deslumbrar o ouvinte apenas comprova que Moore, John Cage, Irv Teibel, Luigi Nono, entre outros, ouviam e captavam o mundo ao redor muito al\u00e9m do que n\u00f3s, os seres humanos m\u00e9dios, parecemos capacitados a fazer. O material desses caras, afinal, era em grande parte aquilo que ou\u00e7o vindo da minha janela neste exato instante \u2014 e o que ou\u00e7o vindo da minha janela neste exato instante n\u00e3o parece assim t\u00e3o interessante.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Au seuil de la libert\u00e9*, obra de Ren\u00e9 Magritte que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para algumas composi\u00e7\u00f5es de Steve Moore.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":819,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2021","post_timestamp":"2021-07-04T20:30:52+00:00","url":"Discos_do_mes_Junho_de_2021","post":"Se eu tivesse que dedicar o relato deste m\u00eas a uma \u00fanica banda, essa banda inevitavelmente seria o Cure. Escutei ao menos uma vez, nas \u00faltimas semanas, a cada um dos discos que eles lan\u00e7aram entre 1979 e 1989, com exce\u00e7\u00e3o do *Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me* cujo vinil que tenho est\u00e1 precisando de um bom banho antes de ser colocado sob a agulha novamente. *Pornography* e *Disintegration* foram tr\u00eas ou quatro audi\u00e7\u00f5es cada um, pelo menos; o *Seventeen Seconds* eu perdi a conta, foram muitas; os outros, uma ou duas vezes cada. Ou seja, junho de 2021 foi um verdadeiro intensiv\u00e3o de Cure. \u00c9 importante n\u00e3o perder de vista: naquela primeira d\u00e9cada de vida eles lan\u00e7aram *Three Imaginary Boys*, *Seventeen Seconds*, *Faith*, *Pornography*, *The Top*, *The Head on the Door*, *Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me* e *Disintegration*. Nada mais nada menos do que oito \u00e1lbuns excepcionais em sequ\u00eancia, pelo menos tr\u00eas ou quatro deles obras seminais de uma \u00e9poca e de um g\u00eanero, e umas boas duas obras-primas. Uma \u00fanica banda, em 10 anos: se isso n\u00e3o \u00e9 algo da categoria dos milagres art\u00edsticos poss\u00edveis, ent\u00e3o n\u00e3o sei o que mais pode ser. O status que a banda possui hoje, todavia, foi um reconhecimento lento e tardio; tenho a impress\u00e3o que poucos destes discos foram bem recebidos nas \u00e9pocas de seus lan\u00e7amentos. Quando me ocorrem estas maratonas de imers\u00e3o em uma discografia, em geral acabo tamb\u00e9m lendo e pesquisando bastante sobre a banda ou artista, sobre a hist\u00f3ria de seus \u00e1lbuns, alguma coisa sobre as pessoas, o contexto de suas vidas e trabalho, etc. E saltam aos olhos algumas cr\u00edticas negativas que os discos do Cure receberam quando vieram ao mundo. Do *Seventeen Seconds*, por exemplo, algu\u00e9m disse que era o tipo de som desinteressante \u201cque deveria ter morrido com o Joy Division\u201d. E vejam s\u00f3 a beleza cristalina que \u00e9 este \u00e1lbum! (E estaria o sujeito sugerindo que o fim do Joy Division foi uma coisa boa???) *Seventeen Seconds* poderia ser apenas *Play for Today* no lado A, *A Forest* no lado B, o restante de ambos os lados preenchido pelo som do tr\u00e2nsito de Londres e ainda assim seria um \u00e1lbum magn\u00edfico, dos melhores j\u00e1 produzidos l\u00e1 por aquelas ilhas, e olha que estamos falando das ilhas do Black Sabbath, do Pink Floyd e do Clash. A introdu\u00e7\u00e3o de *A Forest*, na minha opini\u00e3o, \u00e9 o \u00e1pice de algum tipo de m\u00fasica que eu n\u00e3o sei dizer exatamente qual \u00e9 \u2014 uma muito popular e acess\u00edvel ou uma muito exclusiva e tenebrosa. Nem mesmo *Pornography*, pasm\u00e9m, escapou de ser espezinhado por um ou outro jornalista ou seman\u00e1rio musical brit\u00e2nico em 1982... Mas tudo bem; coisas da \u00e9poca, da hist\u00f3ria da Inglaterra e da Europa, o clima social do come\u00e7o dos anos 80 \u2014 a ressaca dos anos 70; a ascens\u00e3o do B-52\u2019s, talvez \u2014 fatores de ordens diversas devem explicar o n\u00e3o reconhecimento e aceita\u00e7\u00e3o imediatos do tipo de som feito pelo Cure, principalmente a secura daqueles primeiros discos, a fantasmagoria de *Seventeen Seconds* e *Faith*, o suic\u00eddio espreitando por todas as frestas de *Pornography*. Por sorte Robert Smith e seu rod\u00edzio de parceiros n\u00e3o deram ouvidos aos cr\u00edticos e persistiram em sua vis\u00e3o musical\u2026 Acho que na \u00e9poca do *Disintegration*, em 1989, a banda j\u00e1 gozava finalmente de uma boa reputa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. E o curioso \u00e9 que com o *Disintegration* eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o conturbada: \u00e9 um disco t\u00e3o bonito, mas t\u00e3o bonito, que \u00e0s vezes chega a ser exageradamente bonito demais. Bonito al\u00e9m dos limites que os discos deveriam respeitar para que n\u00e3o deixemos de acreditar neles.\r\n\r\nMas n\u00e3o foi s\u00f3 de Cure que me alimentei nestas \u00faltimas semanas. Dignas de nota foram tamb\u00e9m as companhias de My Bloody Valentine, Autechre e Velvet Underground. Apesar de achar que aquele filme *Lost in Translation* n\u00e3o vai envelhecendo l\u00e1 muito bem, como propulsor da vontade de escutar shoegaze ele ainda \u00e9 bastante eficiente. Creio que estou numa contra-corrente ao preferir o Jesus and Mary Chain ao My Bloody Valentine, mas \u00e0s vezes, admito, \u00e9 de uma dose de MBV o que eu preciso: a densidade asfixiante de seus 2 + 1 discos tem para mim quase que o mesmo efeito de um rem\u00e9dio, um xarope doce e espesso que eu tomo n\u00e3o para curar alguma coisa, mas para obliterar todo o resto do mundo, afogar tudo na desordem suprema da eletricidade. J\u00e1 o Velvet Underground \u00e9 uma banda sem compara\u00e7\u00f5es, que eu amo incondicionalmente e tenho como que repousada em um pedestal, mas um que visito muito pouco... \u00c9 estranho: por um motivo e outro, quase nunca os escuto. Mas calhou de ouvir ao *White Light\/White Heat* em bom volume nos fones, dia desses, e relembrar como *Sister Ray* \u00e9 uma m\u00fasica extraordin\u00e1ria, a mais bela \u201canti-beleza\u201d (express\u00e3o de John Cale) j\u00e1 inscrita em policloreto de vinila.\r\n\r\nAutechre vem sendo companhia constante j\u00e1 faz uns bons dois anos e o fato de (se n\u00e3o me engano) nunca t\u00ea-los citado por aqui n\u00e3o \u00e9 esquecimento: \u00e9 pura in\u00e9pcia intelectual, dificuldade em formular frases e pensar nos termos que eu poderia atribuir a esta m\u00fasica complexa que costuma, ao mesmo tempo, desconcertar e colocar a minha mente em um lugar no qual ela gosta muito de estar. Acho que o que realmente me atrai na m\u00fasica eletr\u00f4nica \u00e9 a sua (aparente) falta de estruturas e de limites, mas deixo para elaborar melhor isso noutro dia. Por ora digo apenas que a faixa *VLetrmx*, do EP *Garbage*, de 1995, \u00e9 das coisas mais belas jamais inscritas em, sei l\u00e1, policloreto de sil\u00edcio ou seja l\u00e1 o que for que usam para construir as mem\u00f3rias dos computadores. Tamb\u00e9m na categoria das companhias continuadas, Cluster, discos solos de Roedelius (um dos c\u00e9rebros por tr\u00e1s do Cluster) e Eliane Radigue formaram a trilha sonora de algumas noites que eu teria gostado se nunca acabassem, se eu pudesse ter continuado dentro delas e da m\u00fasica para sempre. M\u00fasica e imobilidade podem ser uma droga muito poderosa, uma que \u00e9 necess\u00e1rio administrar com muito cuidado para n\u00e3o correr o risco de tornar a vida do lado de fora dela intoler\u00e1vel.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":818,"title":"The long way home","post_timestamp":"2021-06-19T14:57:32+00:00","url":"The_long_way_home","post":"Roly Porter sobre Beethoven (e Bach):\r\n\r\n\u003E Because I understand very little about both maths and music theory, I can indulge in romantic ideas about them which aren\u0027t tied to having to be true. When I first heard this piece I literally stopped dead in the street. I remember walking along the Bristol to Bath cycle path and feeling like some kind of mathematical truth had just been explained to me. The piano melodies weren\u0027t just musically pleasing \u2013 it wasn\u0027t a matter of taste that I liked them, they were correct in some kind of universal way that I couldn\u0027t put into words. I know how that sounds but I just can\u0027t describe it in any other way. Listening to Beethoven is the thing which makes me question what music actually is the most. (\u2026) There is a great scene in the otherwise awful Day The Earth Stood Still remake, where the alien who is sent to destroy us is convinced there is hope when John Cleese plays him a piece by Bach... It demonstrates some higher mathematical or philosophical understanding that we had otherwise failed to convey as a species. It\u0027s a crap film but a good idea. I should check out the original.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/thequietus.com\/articles\/19765-roly-porter-favourite-space-records-interview?page=5).)\r\n\r\nSteve Von Till sobre Sandy Denny e m\u00fasica folk:\r\n\r\n\u003E English folk rock is probably more my thing than anyone else in Neurosis. It\u0027s funny because as a young man I shooed away folk, country, Americana, European folk... all that stuff just seemed corny to me. I was just into hard rock, heavy metal, punk rock, strange-sounding industrial and the weirdest stuff I could find. But then I started hearing music from other cultures - Indian classical, Tibetan chanting, Mongolian throat singing - all of this interesting folk music. That led me back around to British Isles folk music, Celtic music and the Celtic rock revival of the 60s and 70s. So I took the long way home essentially. It was those Celtic ballads that travelled to the Appalachian mountains and started drinking a different type of whiskey and then changed into something else. That\u2019s how we ended up with country and western plus bluegrass in America. I went deep into Irish folk music. I really wanted to learn how to play uilleann pipes and I took some Scottish Highland pipe lessons for a little bit but I didn\u0027t stick with it, but that led me to Sandy Denny. I went, \u0027Oh yeah, I know that voice, that\u0027s on Led Zeppelin - \u2018The Battle Of Evermore\u2019, classic.\u2019 It\u0027s funny how many people love Led Zeppelin, yet don\u0027t know who Sandy Denny is. It\u0027s almost a crime. (\u2026)\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/thequietus.com\/articles\/29372-steve-von-till-neurosis-interview-favourite-music?page=4).)\r\n\r\nSuzanne Vega sobre A Hard Rain\u2019s a-Gonna Fall:\r\n\r\n\u003E This song is so prophetic that it still speaks to the age we live in today. Lines such as, \u201cI saw guns and sharp swords in the hands of young children\u201d or \u201cthe pellets of poison are flooding their waters\u201d are now facts found in today\u2019s newspapers. Other lines are the embodiment of mystery. The imagery in \u201cI saw a white ladder all covered with water\u201d will always haunt me, along with \u201cI saw a black branch with blood that kept dripping.\u201d Each image stands alone, a miniature painting, a snapshot in the landscape of the soul. Still filled with power, needing no explanation.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2021\/may\/24\/favourite-dylan-song-mick-jagger-marianne-faithfull-tom-jones-judy-collins-and-more).)\r\n\r\nBranford Marsalis sobre Brahms:\r\n\r\n\u003E Unlike a lot of modern musicians who are hellbent on this individuality thing, I openly admit to thievery. I steal. And I steal a lot from Brahms. There are times it\u2019s unintentional, and times it\u2019s quite intentional. This was 50\/50. I did some music for \u201cMa Rainey\u2019s Black Bottom,\u201d and I wrote a melancholy piece for Toledo, the piano player in the movie, and string orchestra. I\u2019m writing the melody and I resolved it in the third and fourth bars. I stole that second half from somewhere, but it took weeks for me to figure out where. Of course, I took it from one of Brahms\u2019s intermezzos.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/www.nytimes.com\/2021\/04\/07\/arts\/music\/five-minutes-classical-music-brahms.html).)\r\n\r\nLawrence English sobre Ligeti e My Bloody Valentine:\r\n\r\n\u003E Ligeti sums up what I love about the possibilities of choral music and orchestration. These are instruments and sounds we know and love but in Ligeti\u0027s hands they become something else. They draw us through expectation into another place and another way of hearing them. I love that sensation in other albums, too, like My Bloody Valentine\u0027s Loveless. You know the source is guitars but you are drawn through that understanding to reconsider them entirely. I don\u0027t underestimate the importance of that blurriness in music. Refusing the absolute and allowing the not knowing is so important.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/thequietus.com\/articles\/19260-lawrence-english-favourite-albums-interview?page=11).)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Sandy Denny em foto de autor desconhecido, copiada [daqui](http:\/\/www.soundtechniquesmovie.com\/clip-linda-thompson-on-sandy-denny\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":817,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2021","post_timestamp":"2021-06-06T15:25:57+00:00","url":"Discos_do_mes_Maio_de_2021","post":"**Vernon Handley \u0026 Royal Philharmonic - Robert Simpson: Symphonies Nos. 1 \u0026 8**\r\n\r\nSe senso de aventura for algo que orienta e informa seu gosto musical, ent\u00e3o bastar\u00e1 a capa deste disco da Hyperion para convencer-lhe a escut\u00e1-lo. Na imagem temos a [Nebulosa de \u00d3rion](https:\/\/apod.nasa.gov\/apod\/ap191030.html) e no CD duas sinfonias do ingl\u00eas Robert Simpson, m\u00fasica que, conquanto n\u00e3o seja exatamente do tipo que faz o ouvinte mais concentrado (ou mais chapado) deslocar-se em esp\u00edrito para outras gal\u00e1xias, ainda assim proporciona uma boa dose de a\u00e7\u00e3o e euforia. A primeira \u00e9 a minha favorita: explos\u00f5es de movimento e tens\u00e3o por entre longos remansos de calmaria, as transi\u00e7\u00f5es entre uma coisa e outra altamente fluidas e com direito a flautas e instrumentos de sopro diversos que a ignor\u00e2ncia me impede de identificar, mas que eu sempre adoro quando aparecem. Flautas, clarinetes e obo\u00e9s (alguns nomes que conhe\u00e7o), neste contexto de obras orquestrais mais longas, soam muitas vezes como interven\u00e7\u00f5es estranhas e inesperadas, sons que infiltraram-se anonimamente na partitura para fazer vibrar uma camada sonora extra, uma presen\u00e7a advent\u00edcia e inquisidora que ningu\u00e9m parece ter muita convic\u00e7\u00e3o de ter sido posta ali por engenho humano. A outra sinfonia presente no disco (No. 8) tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3tima, tamb\u00e9m ela cheia de contrastes e uma sensa\u00e7\u00e3o de movimento incans\u00e1vel.\r\n\r\n**Mogwai - Come on Die Young**\r\n\r\nUma das bandas a quem devo creditar o despertar em mim do tal senso de aventura mencionado acima \u00e9 o Mogwai, isso j\u00e1 tem mais de 20 anos. \u00c9 uma lembran\u00e7a querida o deslumbramento que foi a descoberta de seus discos, quando estes ainda n\u00e3o somavam mais do que tr\u00eas ou quatro\u2026 Foi algo realmente marcante, a revela\u00e7\u00e3o de uma nova m\u00fasica, um novo e mais profundo e caudaloso universo de sons. Claro que hoje a experi\u00eancia me permite perceber que eles n\u00e3o eram assim t\u00e3o absolutamente pioneiros e originais quanto me pareceram \u00e0 \u00e9poca (s\u00f3 bem depois fui descobrir o krautrock), por\u00e9m *Come on Die Young*, pude atestar uns dias atr\u00e1s, continua um disco extraordin\u00e1rio. Aqui, senhoras e senhores, creio que j\u00e1 podemos dizer com seguran\u00e7a que se trata de um leg\u00edtimo cl\u00e1ssico da m\u00fasica el\u00e9trica contempor\u00e2nea. \r\n\r\n**Erik W\u00f8llo - Silver Beach**\r\n\r\nEm uma realidade paralela em que *Silver Beach* n\u00e3o existisse e eu resolvesse aprender a compor e gravar m\u00fasica eletr\u00f4nica com o objetivo de criar algo que acreditasse faltar no mundo, eu me daria por totalmente bem-sucedido e satisfeito se o resultado do meu trabalho fosse exatamente este disco. Do in\u00edcio ao fim, creio que nem sequer um [\u00fanico milissegundo](https:\/\/projektrecords.bandcamp.com\/album\/silver-beach-remastered-2013-edition) de *Silver Beach* poderia ser melhor.\r\n\r\n**Bob Dylan - Oh Mercy**\r\n\r\nNo relato do m\u00eas passado escrevi algo sobre o status de \u201cretorno \u00e0 boa forma\u201d que *Time Out of Mind* adquiriu na ocasi\u00e3o de seu lan\u00e7amento, em 1997. Tendo sido apregoado \u00e0 exaust\u00e3o naquela \u00e9poca, este julgamento rapidamente virou senso comum e eu o repeti naquele texto meio que por in\u00e9rcia, sem pensar muito. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o concordo muito com ele. Penso que o primeiro grande trabalho de Bob Dylan ap\u00f3s a sequ\u00eancia de discos ruins nos anos 80 (alguns at\u00e9 piores do que meramente \u201cruins\u201d...) veio com *Oh Mercy*, de 1989, disco que marca tamb\u00e9m a primeira parceria de Dylan com o produtor Daniel Lanois. \u00c9 bem verdade que os tr\u00eas \u00e1lbuns que vieram depois deste (e antes de *Time Out of Mind*) fizeram o n\u00edvel de qualidade cair novamente, ainda que n\u00e3o t\u00e3o drasticamente; em todo o caso, o problema do argumento de *Time Out of Mind* ser a tal grande volta por cima \u00e9 que ele desdenha e obscurece *Oh Mercy*, e isso \u00e9 uma grande injusti\u00e7a. \u00c9 um \u00f3timo disco, eu o adoro quase tanto quanto adoro *Time Out of Mind*. Dylan soa intenso em can\u00e7\u00f5es, em sua maioria, mais densas e arcanas, sua experi\u00eancia como que em pleno curso de transmuta\u00e7\u00e3o para alguma outra coisa, alguma nova etapa (que agora sabemos sequer ter sido a \u00faltima). Os ares de New Orleans, onde deram-se as grava\u00e7\u00f5es, parecem tamb\u00e9m infiltrados aqui e ali, enriquecendo a textura geral do disco com uma boa dose de n\u00e9voa e de mist\u00e9rio. Dylan e Lanois bem que podiam reeditar a parceria. \u00c9 not\u00f3rio que a rela\u00e7\u00e3o entre eles foi turbulenta tanto neste disco quanto em *Time Out of Mind*, mas Dylan e seus f\u00e3s reconhecem que foram os atritos constantes e as concess\u00f5es de um lado e de outro que fizeram estes discos serem o que s\u00e3o. S\u00e3o duas vis\u00f5es que se complementam, dois conjuntos imensos de virtudes que se embatem mas no fim se conciliam magicamente bem. E embora Dylan tenha acabado de ultrapassar a barreira dos 80 anos, seu *Rough and Rowdy Ways* do ano passado comprova que sua vida criativa n\u00e3o est\u00e1 esgotada. Tor\u00e7o para que os caminhos de Lanois e Dylan voltem a se cruzar.\r\n\r\n**Cluster - Sowiesoso**\r\n\r\nAquelas bandas alem\u00e3s dos anos 70 sabiam ser boas de muitas formas diferentes. Para cada Uriah Heep ou Nazareth que o rock angl\u00f3fono nos dava, o alem\u00e3o respondia com um Amon D\u00fc\u00fcl, um Neu!, um Ash Ra Tempel, um Kraftwerk, bandas que fica at\u00e9 dif\u00edcil citar assim num f\u00f4lego s\u00f3 dadas suas tantas dire\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as. Certo, certo, estou sendo um injusto com o rock cl\u00e1ssico ingl\u00eas, americano, etc., que n\u00e3o nos deu apenas varia\u00e7\u00f5es eternas do Led Zeppelin: eles nos deram tamb\u00e9m o Hawkwind e o Pink Floyd. O ponto \u00e9 que o fen\u00f4meno do rock alem\u00e3o naquele per\u00edodo \u00e9 algo realmente impressionante, uma explos\u00e3o criativa a ser estudada por historiadores e antrop\u00f3logos do futuro (um m\u00fasico j\u00e1 fez isto [neste livro](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Krautrocksampler) que infelizmente nunca achei para comprar). J\u00e1 elenquei por diversas vezes aqui neste blog minhas bandas favoritas vindas l\u00e1 das terras teut\u00f4nicas, e a elas acrescento agora o Cluster, que venho escutando com curiosidade cada vez maior. *Sowiesoso*, embora seja o quarto \u00e1lbum da banda, foi o primeiro deles que escutei, e lembro de n\u00e3o ter ficado exatamente impressionado durante aquele primeiro contato \u2014  acho que cheguei at\u00e9 mesmo a pensar que n\u00e3o haveria um segundo. Terminado o disco, no entanto, logo percebi que um eco de suas faixas parecia prolongar-se em meu c\u00e9rebro, um rumor cuja tenuidade sugeria que n\u00e3o poderia durar por mais do que algumas poucas horas, mas que n\u00e3o apenas durou como acabou por evoluir para uma esp\u00e9cie de cochicho, uma voz que ficou durante dias me instigando a ouvi-lo novamente, insinuando haver algo precioso escondido em meio ao minimalismo da grava\u00e7\u00e3o e \u00e0 aparente ingenuidade de suas m\u00fasicas. Cedi ao cochicho e n\u00e3o demorou quase nada para que eu me apaixonasse por *Sowiesoso*. Uma sensa\u00e7\u00e3o permanente de efemeridade, que pode afastar a maioria dos ouvintes \u2014 a mim decerto quase afastou em definitivo \u2014, \u00e9 justamente ela a alma e o encanto destas m\u00fasicas, que soam como que epis\u00f3dios canalizados do sonho de algu\u00e9m que tira um cochilo depois do almo\u00e7o, um vizinho an\u00f4nimo no andar de cima ou de baixo prestes a acordar e fazer o canal interromper-se e a m\u00fasica sumir para sempre\u2026 Algo assim fr\u00e1gil, fugidio, mas que por sorte est\u00e1 gravado em disco. Aqueles alem\u00e3es costumavam ser ruidosos na maior parte do tempo, mas sabiam tamb\u00e9m criar preciosidades sutis e rarefeitas como esta.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":816,"title":"Heavy metal roundup, Vol. III","post_timestamp":"2021-06-03T15:17:50+00:00","url":"Heavy_metal_roundup_Vol_III","post":"**Sea of Bones - The Earth Wants Us Dead**\r\n\r\nO clima de tens\u00e3o e de amea\u00e7a constante neste colosso de disco n\u00e3o \u00e9 algo que se escuta todos os dias. Um c\u00e3o infernal de p\u00ealos eri\u00e7ados e caninos \u00e0 mostra, mirando sua presa com olhos fixos e desvairados: \u00e9 isso o que me vinha \u00e0 mente o tempo todo. Por via das d\u00favidas, evitei movimentos bruscos. Isso na primeira metade do \u00e1lbum; a segunda \u00e9 uma bela e longa pe\u00e7a de ambi\u00eancia c\u00f3smica maligna.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1532088360\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/seaofbones.bandcamp.com\/album\/the-earth-wants-us-dead\u0022\u003EThe Earth Wants Us Dead by Sea of Bones\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Pyrrhon - Abscess Time**\r\n\r\nUm galp\u00e3o industrial abandonado, vidra\u00e7as quebradas, mato crescendo por todos os lados. Maquin\u00e1rio enferrujado, entulho, uma banda tocando para ningu\u00e9m \u2014 o som ressoa no lugar vazio, bate nas paredes decr\u00e9pitas e no teto vazado e volta. Baixo chumbado \u00e0 Godflesh, vozes entrecortadas, manipuladas, medonhas, m\u00fasica que at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s remeteria \u00e0s ru\u00ednas de alguma Sib\u00e9ria distante ou \u00e0 trag\u00e9dias nucleares, por\u00e9m hoje soa desconfortavelmente pr\u00f3xima, o som de arredores j\u00e1 n\u00e3o t\u00e3o long\u00ednquos assim. Deve ser o que chamam de globaliza\u00e7\u00e3o e progresso.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2017111260\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/pyrrhonband.bandcamp.com\/album\/abscess-time\u0022\u003EAbscess Time by Pyrrhon\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Paysage d\u0027Hiver - Im Wald**\r\n\r\nN\u00e3o \u00e9 sempre que eu escuto black metal, e o fato de n\u00e3o poucas destas bandas estarem associadas a movimentos de extrema direita n\u00e3o ajuda nem um pouco na reputa\u00e7\u00e3o do g\u00eanero aqui comigo. Por isso \u00e9 bastante significativa a quantidade de vezes em que, seguindo uma ou outra recomenda\u00e7\u00e3o (colhidas em sua maioria de blogs e e-zines que j\u00e1 contam com um saud\u00e1vel filtro antifa ativo), acabo descobrindo sons que me encantam profundamente. A intensidade do estrondo, da massa sonora criada pelo excesso de guitarras, teclados e bateria \u2014 e, no caso do Paysage d\u0027Hiver, pelo som cont\u00ednuo do vento e demais efeitos que criam uma ambi\u00eancia pesada, sinistra e sufocante \u2014 essa massa quando d\u00e1 liga pode elevar a m\u00fasica a algo de outra ordem. *Im Wald* \u00e9 um disco longo, exigente. Quando guitarras e bateria come\u00e7am o massacre, o impacto \u00e9 excruciante, o som \u00e9 uma esp\u00e9cie de flagelo. Mas depois de algum tempo come\u00e7a-se a perceber que ele \u00e9 tamb\u00e9m uma malha menor e menos importante, um ve\u00edculo para algo maior que est\u00e1 a se deslocar muito lentamente, em uma outra ordem temporal, flutuando por cima da aspereza e da agress\u00e3o extrema dos instrumentos. S\u00e3o estes espectros e esse tipo de incanta\u00e7\u00e3o sonora que fazem com que o black metal, em seus melhores momentos, soe algo \u00edmpar e especial, e o Paysage d\u2019Hiver maneja esse feiti\u00e7o com uma paci\u00eancia e uma excel\u00eancia que eu ainda n\u00e3o tinha escutado em tal escala monstruosa. Essa banda \u00e9 minha melhor descoberta no reino da m\u00fasica extrema em muito tempo.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=2558868122\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/paysagedhiver.bandcamp.com\/album\/im-wald\u0022\u003EIm Wald by Paysage d\u0026#39;Hiver\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n**Furia - Ksi\u0119\u017cyc milczy luty**\r\n\r\nNo metal, quando convergem numa mesma banda autoconfian\u00e7a, profici\u00eancia t\u00e9cnica e uma imagina\u00e7\u00e3o sem limites, o resultado pode ser algo magn\u00edfico como este disco. \u00c9 dif\u00edcil descrever qu\u00e3o bom \u00e9 *Ksi\u0119\u017cyc milczy luty*. Numa \u00fanica faixa \u2014 como, por exemplo, *Zabieraj \u0142apska* \u2014 a banda soa ao mesmo tempo rigorosamente \u00fanica e gloriosamente met\u00e1lica, coisa que, dados os dogmas e as conven\u00e7\u00f5es do g\u00eanero, pode parecer a princ\u00edpio inconcili\u00e1vel, mas n\u00e3o, os poloneses do Furia provam definitivamente que n\u00e3o \u00e9. Este disco \u00e9 daqueles especiais que n\u00e3o apenas reafirmam, mas ampliam meu amor pelo metal e pela sua capacidade ilimitada de manter-se vigoroso e estimulante.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=607710\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022https:\/\/paganrecords.bandcamp.com\/album\/ksi-yc-milczy-luty\u0022\u003EKsi\u0119\u017cyc milczy luty by FURIA\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"capa da demo *Paysage d\u0027Hiver*, da banda de mesmo nome.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":815,"title":"Aviso sobre o RSS","post_timestamp":"2021-05-25T14:21:18+00:00","url":"Aviso_sobre_o_RSS","post":"Ao contr\u00e1rio do que eu havia dito alguns dias atr\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que os assinantes do feed RSS deste blog refa\u00e7am suas assinaturas. Eu havia me esquecido que utiliz\u00e1vamos o Feedburner para gerar a URI (ou endere\u00e7o) deste feed. Como este endere\u00e7o via Feedburner continua [o mesmo](http:\/\/feeds.feedburner.com\/dyingdays) e n\u00e3o iremos desabilit\u00e1-lo, ent\u00e3o continua tudo funcionando normalmente como antes.\r\n\r\nEm todo o caso, o Feedburner pertence ao Google. Quem j\u00e1 n\u00e3o se sente mais confort\u00e1vel em utilizar os servi\u00e7os destas big techs, pode assinar o feed atrav\u00e9s da nossa pr\u00f3pria URI, [esta](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/index.rss).\r\n\r\nPor \u00faltimo, esta sim uma mudan\u00e7a: o Feedburber oferecia uma assinatura por email, mas esta funcionalidade [deixar\u00e1 de funcionar a partir de julho](https:\/\/support.google.com\/feedburner\/answer\/10483501). Quem costumava receber esses emails, fique ent\u00e3o avisado que logo n\u00e3o ir\u00e1 mais receb\u00ea-los. N\u00e3o sei se vale a pena buscar um substituto... Sugiro acompanhar o blog via RSS ou Twitter, onde costumo publicar links para os posts.\r\n\r\n(E para que este post n\u00e3o seja completamente in\u00fatil para quem n\u00e3o utiliza RSS, a\u00ed em cima uma \u00f3tima foto de Hendrix lendo e se divertindo com as not\u00edcias do mundo.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de Chuck Boyd, copiada [daqui](https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/4362930868169170\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":814,"title":"And on it goes","post_timestamp":"2021-05-24T13:00:07+00:00","url":"And_on_it_goes","post":"Para que n\u00e3o passe em branco neste espa\u00e7o a data que marca os 80 anos de Bob Dylan, al\u00e9m da foto acima (apenas uma em meio \u00e0 infinidade de lindas fotos de Dylan espalhadas pela internet), deixo abaixo um trecho daquele que \u00e9 provavelmente [o melhor](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2021\/may\/22\/bob-dylan-at-80-in-praise-of-a-mighty-and-unbowed-singer-songwriter) dentre os muitos textos que andei lendo nestas \u00faltimas semanas sobre o aniversariante do dia.\r\n\r\n\u003E We are celebrating Dylan\u2019s inspiring commitment in another way, too. From 1990 until 2019, he played an average of more than 100 shows a year \u2013 every year \u2013 all around the planet. Can you imagine that? Forget the artistic requirements, could you even face the travel? It takes most people a fortnight of sweat to psych themselves up for a wedding speech or an instantly forgotten work presentation in their home town. But consider what it\u2019s like holding an audience of thousands for two hours with nothing but your voice, your songs, your words. [...] And it\u2019s in the live performances that we\u2019re celebrating another thing about Dylan\u2019s extraordinary creative dynamism. Because every night he plays his songs in a slightly different way. Works from decades ago will be reimagined and reshaped so as to acquire new resonances \u2013 not just for the audience, but also for Dylan himself. Unlike, say, Mick Jagger, whose work is some kind of frozen-in-time museum re-enactment, or Paul Simon, whose fastidiousness speaks somehow of anxiety and limitation, or Paul McCartney with his nursery rhymes, Dylan writes songs that are textured and capacious enough to withstand endless reinterpretation. A common experience when seeing him live is to discover that a song that you thought was about rage is suddenly transformed into something tender. Ten years on, at another concert, that same song you now think of as tender turns out to be a wry throwaway burlesque. The burlesque later becomes an elegy. And on it goes.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Autor desconhecido, imagem copiada [daqui](https:\/\/www.dailyfreeman.com\/news\/bob-dylan-s-woodstock-roots-run-deep\/article_7962272a-f08c-5003-b918-15d036236256.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":809,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2021","post_timestamp":"2021-05-04T21:16:30+00:00","url":"Discos_do_mes_Abril_de_2021","post":"**Green Day - Dookie**\r\n\r\n*Dookie*, do Green Day, foi uma paix\u00e3o ardorosa l\u00e1 por volta de 1994, 1995. Devo ter escutado a este disco algumas milhares de vezes, e talvez isto n\u00e3o seja mera maneira hiperb\u00f3lica de dizer... Lembro de ouvi-lo em todo tipo de situa\u00e7\u00e3o: enquanto estudava; nos fones de ouvido indo e voltando da escola; no banco de tr\u00e1s do carro dos meus pais durante alguma viagem aborrecida; vadiando com os amigos; vadiando sozinho, sem fazer nada. Gostei bastante tamb\u00e9m do disco seguinte, *Insomniac* (ainda que provavelmente n\u00e3o tenha chegado ao milhar de audi\u00e7\u00f5es), mas em 1997, quando lan\u00e7aram *Nimrod*, nessa \u00e9poca eu j\u00e1 estava em outra e muito pouco ouvi dele e dos que vieram depois (e o pouco que ouvi me deixou a impress\u00e3o de que o Green Day se transformou numa destas bandas insossas tipo Foo Fighters cuja m\u00fasica \u00e9 fabricada na medida para o palato m\u00e9dio das multid\u00f5es de classe-m\u00e9dia que consomem rock \u2019n\u2019 roll via Spotify). Mas *Dookie*, que desenterrei dentre meus discos uns dias atr\u00e1s \u2014 e era naquele momento s\u00e9rio candidato ao t\u00edtulo de CD meu h\u00e1 mais tempo sem ser retirado de sua caixa \u2014 *Dookie* mant\u00e9m preservado boa parte de seu petulante e barulhento encanto infanto-juvenil: mal me lembrava de *Having a blast* (dois mais tr\u00eas quartos de minuto perfeitos do in\u00edcio ao fim), de *Pulling Teeth* (\u0022Is she ultra-violent or disturbed\/I better tell her that I love her\u201d) e *Longview* (muito melhor do que os hits *She* e *Basket Case*). Foi meu exerc\u00edcio mensal de nostalgia adolescente, e foi bastante divertido.\r\n\r\n**Neurosis - Given to the Rising**\r\n\r\nAcho que as vinhetas atmosf\u00e9ricas com suas pequenas narrativas sobre fogo, sombras, seres ancestrais, etc., n\u00e3o envelheceram l\u00e1 muito bem, mas no geral *Given to the Rising* continua um colosso de disco. Sem nenhum competidor chegando muito perto, \u00e9 o \u00e1pice daquilo que em fins dos anos 90 e no decorrer dos 2000 nos acostumamos a chamar de post-metal (um pouco precipitadamente, talvez, mas \u00e9 compreens\u00edvel a \u00e2nsia em querer deixar para tr\u00e1s o Manowar e as [bandas italianas de metal sinf\u00f4nico](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Category:Italian_symphonic_metal_musical_groups)), com a ressalva de que esta associa\u00e7\u00e3o entre Neurosis e post-metal \u00e9 provavelmente um desservi\u00e7o \u00e0 banda, uma vez que a gra\u00e7a de muitos dos nomes que me v\u00eam \u00e0 mente quando penso neste g\u00eanero ou sub-g\u00eanero \u2014 Isis, Pelican, Jesu, entre outros \u2014 esgotou-se bastante rapidamente para mim, coisa que, evidentemente, n\u00e3o aconteceu e a essa altura creio poder dizer que nem ir\u00e1 mais acontecer com o Neurosis. N\u00e3o \u00e9 que aquelas sejam bandas ruins, n\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o as escute ocasionalmente ainda hoje em dia; ocorre que o metal \u00e9 este trem desabalado dos infernos rumo a sabe-se l\u00e1 onde, pilhando e incendiando sem miseric\u00f3rdia as esta\u00e7\u00f5es pelas quais ele passa, e muito daquilo que vai ficando para tr\u00e1s n\u00e3o resiste e n\u00e3o demora a tornar-se datado, insuficiente, uma por\u00e7\u00e3o de ideias velhas, ru\u00ednas calcinadas. Que gra\u00e7a tem o Jesu hoje perto do Oranssi Pazuzu? E o Isis perto do Ulcerate? Em todo o caso, o Neurosis \u00e9 muito mais que post-metal; o Neurosis \u00e9 o Neurosis desde 1985 e *Given to the Rising* se destaca mesmo em meio a uma discografia praticamente sem falhas.\r\n\r\n**Eyehategod - A History of Nomadic Behavior**\r\n\r\nE o curioso (seguindo a meada aberta pelo trecho acima) \u00e9 que algumas bandas mais antigas \u2014 n\u00e3o necessariamente bandas que se possa chamar \u201datemporais\u201d; apenas n\u00e3o t\u00e3o evidentemente costuradas a uma est\u00e9tica mais espec\u00edfica, mais pormenorizada \u2014 algumas seguem na estrada e seus discos n\u00e3o perdem t\u00e3o r\u00e1pido assim a pertin\u00eancia. Em termos de sonoridade, costumam ser os herdeiros do Hawkwind e do Mot\u00f6rhead, daquilo que esse tipo de m\u00fasica t\u00eam de essencial: agress\u00e3o, inconformismo, independ\u00eancia. O Mot\u00f6rhead poderia continuar existindo para sempre, liberto das amarras da mortalidade, lan\u00e7ando o mesmo disco a cada dois anos \u2014 que foi o que fizeram por cerca de quatro d\u00e9cadas \u2014 e eu os adoraria para sempre. O Eyehategod \u00e9 outro destes rebeldes irasc\u00edveis cuja m\u00fasica parece fazer pouco caso da passagem do tempo e *A History of Nomadic Behavior*, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco, j\u00e1 est\u00e1 anotado na minha lista inicial de melhores de 2021. E h\u00e1 no caso do Eyehategod um outro fator: de um ponto de vista talvez particular (mas que ponto de vista n\u00e3o o \u00e9?), esses norte-americanos v\u00eam tecendo disco a disco uma cr\u00f4nica poss\u00edvel de nossos dias, um informe realista e brutal sobre a esc\u00f3ria que fica cada vez mais dif\u00edcil escondermos sob o tapete. Algo feio e grosseiro, sejamos logo francos; vincos e desafina\u00e7\u00f5es que suscitam uma esp\u00e9cie de resson\u00e2ncia extra, algo desconfort\u00e1vel mas nem de longe estranho ou alien\u00edgena, pois s\u00e3o estes vincos e fei\u00faras como que correspond\u00eancias diretas \u00e0s fissuras sociais com as quais vamos nos vendo cada vez mais acostumados a conviver e assimilar neste mundo conflagrado, cada um de n\u00f3s em um n\u00edvel maior ou menor de perplexidade e auto-engano, aceitando mais ou menos a desigualdade obscena e o tumulto geral. Acotovelados neste mesmo barco fazendo \u00e1gua onde estamos todos, os caras do Eyehategod parecem os passageiros menos inclinados \u00e0 complac\u00eancia e ao auto-engano, e sua m\u00fasica tende a perdurar justamente devido a esta honestidade sem filtros e nem maquiagens. Ser\u00e1, sem d\u00favida, um grande dia aquele em que a escutarmos e ela n\u00e3o fizer mais sentido algum, n\u00e3o tiver mais validade alguma... Temo, contudo, que esse dia ainda v\u00e1 demorar.\r\n\r\n**Virginia Astley - From Gardens Where We Feel Secure**\r\n\r\nIsso n\u00e3o quer dizer que m\u00fasica do tipo mais l\u00fadica ou de feitios mais gentis ou idealizados n\u00e3o me interesse mais, muito pelo contr\u00e1rio: esse tipo de v\u00e1lvula de escape segue sendo fundamental. Este [disco](https:\/\/virginiaastley.bandcamp.com\/album\/from-gardens-where-we-feel-secure) da inglesa Virginia Astley \u00e9 um verdadeiro b\u00e1lsamo, uma p\u00e9rola \u2014 e como brilha em meio \u00e0 m\u00fasica suja e barulhenta arrolada neste post! \u00c9 m\u00fasica para dar um tempo neste mundo de corpo e alma infeccionados, abrir uma brecha para respirar e descansar, imaginar-se em um lugar que quase n\u00e3o d\u00e1 mais de acreditar que possa ainda existir neste nosso planeta, algum ref\u00fagio que receba este mesmo sol que nos banha a todos diariamente mas distante o suficiente do furor assassino que parece ter arrebatado de vez as cidades e da intromiss\u00e3o permanente a qual parecemos estar agora todos irremediavelmente subjugados. \u00c9 tamb\u00e9m m\u00fasica que ratifica aquilo que intuitivamente todos n\u00f3s sabemos: um mundo mais feminino seria um mundo muito melhor.\r\n\r\n**Alice in Chains - Dirt**\r\n\r\nTem dias que eu acordo com uma vontade obsessiva de escutar Alice in Chains, um desejo louco e urgente que deve brotar de algum sonho ou pesadelo recorrente cujo enredo eu ainda n\u00e3o consegui reter na mem\u00f3ria para trazer comigo para a claridade do dia e tentar entender e interpretar. Nesses dias quase nenhuma outra m\u00fasica me serve, salvo algumas trilhas-sonoras e alguma m\u00fasica instrumental (e os discos do Sleep, que se situam em todas essas categorias e ao mesmo tempo fora do planeta Terra); nesses dias acordo e ponho o *Dirt* logo para tocar, esse disco-monstro que n\u00e3o me cansa nunca, e depois passo para o *Jar of Flies* ou ent\u00e3o o *Sap*, e termino ou com *Facelift* ou com o sem t\u00edtulo (ou auto-intitulado) de 1995. E depois fica dureza escolher o que escutar... Acho que j\u00e1 escrevi por aqui que dentre aquelas bandas de Seattle o Pearl Jam \u00e9 a que tenho mais pr\u00f3xima ao cora\u00e7\u00e3o e o Melvins \u00e9 possivelmente uma das minhas cinco bandas favoritas de todos os tempos, mas se tivesse que escolher os CDs de apenas uma delas para levar para uma ilha deserta onde n\u00e3o houvesse nada al\u00e9m de um coqueiro (porque sempre h\u00e1 coqueiros nas ilhas desertas) e um tocador de CDs, creio que eu hesitaria mas acabaria escolhendo os discos do Alice in Chains. Eu sei, isso n\u00e3o tem l\u00f3gica nenhuma, mas assim, como diria o velho xam\u00e3, assim \u00e9.\r\n\r\n**Sleep - The Sciences**\r\n\r\nMas que banda \u00e9 essa, afinal, que comp\u00f5e e grava uma suposta obra-prima, que n\u00e3o \u00e9 lan\u00e7ada, que causa uma grande confus\u00e3o, que acaba com a banda, e tempos depois essa suposta obra-prima \u00e9 lan\u00e7ada e deixa imediatamente de ser apenas uma misteriosa conjectura para ser tornar um [fato absoluto e incompar\u00e1vel](https:\/\/www.discogs.com\/Sleep-Dopesmoker\/release\/3703462), e ent\u00e3o essa banda se re\u00fane novamente, faz uns shows, faz triplicar o consumo de erva pelas cidades por onde passa, e finalmente volta ao est\u00fadio e grava um neg\u00f3cio que exige a inven\u00e7\u00e3o de uma nova categoriza\u00e7\u00e3o de qualidade porque esse artefato perturbador de centros gravitacionais chamado *The Sciences* \u00e9 mais do que uma obra-prima? Existe alguma outra banda de trajet\u00f3ria mais louca e triunfante do que essa? (E se voc\u00ea discorda que *The Sciences* \u00e9 melhor que *Dopesmoker*, \u00e9 porque voc\u00ea n\u00e3o [escutou com aten\u00e7\u00e3o](https:\/\/sleep.bandcamp.com\/album\/the-sciences).)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":808,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2021","post_timestamp":"2021-04-02T04:27:11+00:00","url":"2021_04_01_discos_do_mes_marco_de_2021","post":"Earth (*Hex; Or Printing In The Infernal Method*), Jon Bon Jovi (*Blaze of Glory*, disco \u201cinspirado pelo filme *Young Guns II*\u201d) e um punhado de discos de Bob Dylan e Muddy Waters devem responder, sozinhos, por mais de 90% de tudo o que escutei neste m\u00eas de \u2014 ora, que diferen\u00e7a faz que m\u00eas foi este que terminou. Pode parecer, em um primeiro momento, um balaio de m\u00fasica bastante desigual, mas h\u00e1 um estado de esp\u00edrito n\u00e3o t\u00e3o disperso assim por tr\u00e1s dessa trilha sonora: \u00e9 m\u00fasica norte-americana, n\u00e3o meramente do ponto de vista do local onde ocorreu nascer esses artistas, mas da mat\u00e9ria prima de que foram feitos estes discos, suas inspira\u00e7\u00f5es, paisagens evocadas, etc. \u00c9 algo que me acometeu nestas \u00faltimas semanas enquanto eu terminava uma releitura de *Moby Dick* e agora planejo retomar os livros de Cormac McCarthy (Dylan Carlson relata grande influ\u00eancia de um dos livros de McCarthy, *Blood Meridian*, na composi\u00e7\u00e3o de *Hex*); tenho tamb\u00e9m assistido muitos westerns e filmes noir, o que certamente contribui para este humor meio \u00e1rido, t\u00e3o bem representado pela [capa do disco do Earth](https:\/\/www.discogs.com\/Earth-Hex-Or-Printing-In-The-Infernal-Method\/release\/555417) (lembro de ter ficado decepcionado quando descobri que assim era a capa da vers\u00e3o em vinil que eu planejava comprar, n\u00e3o por desgostar dela, mas por ser diferente da [capa da vers\u00e3o em CD](https:\/\/www.discogs.com\/Earth-Hex-Or-Printing-In-The-Infernal-Method\/release\/592290), que eu acho linda de morrer; comprei o vinil, mesmo assim; como consola\u00e7\u00e3o, ele traz na parte interna uma miniatura da imagem do celeiro assombrado que ilustra a capa do CD). Bob Dylan, quem passa por aqui com alguma frequ\u00eancia j\u00e1 deve ter percebido, \u00e9 um dos meus her\u00f3is e eu o escuto muito frequentemente, mas por um desses acasos da vida, *Time Out of Mind*, apesar de ser um \u00e1lbum bastante celebrado \u2014 o grande e finalmente concretizado retorno de Dylan \u00e0 boa forma, em 1997, depois de muitos e muitos discos que prometiam tal coisa mas sempre falhavam \u2014 esse disco eu nunca havia escutado com um m\u00ednimo de dedica\u00e7\u00e3o. Devo ser o mais desleixado dos milh\u00f5es de f\u00e3s que Dylan possui\u2026 *Time Out of Mind* merece plenamente todas as palavras de enaltecimento que em geral o acompanham, em especial aquelas dirigidas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de Daniel Lanois, que ousadamente submergiu Dylan em ruidosa ambi\u00eancia, repleta de chiados e sons abafados vazando por todos os lados. As can\u00e7\u00f5es s\u00e3o \u00f3timas, mas \u00e9 o clima do \u00e1lbum que faz ele ser o \u00eaxito que \u00e9. No entanto, parece que Dylan n\u00e3o gostou muito do resultado \u2014 ali\u00e1s, \u00e9 um pouco estranho que tenha chamado Lanois para produzir o disco, uma vez que a parceira anterior entre eles, a produ\u00e7\u00e3o de *Oh Mercy*, de 1989, n\u00e3o foi exatamente um trabalho amistoso e harm\u00f4nico, se pudermos acreditar no relato que consta em *Chronicles: Volume One* \u2014 e por conta dessa insatisfa\u00e7\u00e3o com o som de *Time Out of Mind* (mas tamb\u00e9m seguindo uma de suas mais singulares e mitol\u00f3gicas tradi\u00e7\u00f5es), Dylan acabou alterando bastante o arranjo e o formato das can\u00e7\u00f5es durante a turn\u00ea que se seguiu ao lan\u00e7amento do \u00e1lbum (a continua\u00e7\u00e3o, na verdade, de sua [Never Ending Tour](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Never_Ending_Tour)). Minha faixa favorita de *Time Out of Mind* espelha a minha favorita em *Blonde on Blonde*: no cl\u00e1ssico de 1966 \u00e9 *Sad Eyed Lady of the Lowlands*, o \u00e9pico de 11 minutos que fecha o \u00e1lbum; em *Time Out of Mind*, \u00e9 *Highlands*, \u00e9pico de 16 minutos igualmente posicionado na faixa derradeira. Dylan e Muddy Waters s\u00e3o c\u00e2nones da cultura norte-americana, figuras de grande apelo popular e ineg\u00e1veis m\u00e9ritos art\u00edsticos; o Earth e sua m\u00fasica iconoclasta, exigente e esf\u00edngica, embora ocupe uma seara bastante diferente, \u00e9 igualmente incontest\u00e1vel em termos de validade art\u00edstica, nem que seja apenas ao que se refere \u00e0 integridade de suas inten\u00e7\u00f5es (afinal, \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel que algu\u00e9m n\u00e3o consiga ir al\u00e9m do primeiro minuto de qualquer um dos discos da banda); o que ent\u00e3o Jon Bon Jovi est\u00e1 fazendo no meio dessa gente altamente qualificada? Aqui, meus amigos, \u00e9 a nostalgia operando novamente, este velho sentimento que \u00e9 parte indissoci\u00e1vel dos meus h\u00e1bitos musicais, no meu trato com meus discos. *Blaze of Glory* foi o primeiro CD que eu comprei (junto com o *Scoundrel Days* do a-ha) e ainda hoje eu o adoro e o escuto com alguma frequ\u00eancia. Quando se tem uma rela\u00e7\u00e3o de tanto tempo assim com um \u00e1lbum (arredondando, 30 anos), mesmo que a\u00ed pelo caminho tenha ocorrido uma ou outra breve separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o-litigiosa \u2014 afastamentos estrat\u00e9gicos para as apar\u00eancias e a moral e o prest\u00edgio do indiv\u00edduo perante a sociedade (leia-se os amigos e as meninas) \u2014 depois de todo esse tempo, creio que se perdem a capacidade e a idoneidade para um julgamento imparcial de suas m\u00fasicas, para uma aprecia\u00e7\u00e3o que parta de qualquer ponto de vista que n\u00e3o seja o completamente subjetivo. Ou, talvez: perde-se a capacidade de se julgar suas m\u00fasicas, ponto. Mais ou menos como somos sempre completamente incapazes de julgarmos a n\u00f3s mesmos... As lembran\u00e7as, as impress\u00f5es digitais e emocionais est\u00e3o por todo o CD, em seu encarte e suas faixas \u2014 n\u00e3o \u00e9 mais apenas uma cole\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas, boa ou ruim, n\u00e3o importa. N\u00e3o fa\u00e7o nenhum esfor\u00e7o contra essa fidelidade cega, ou essa cegueira fiel; hoje em dia, quanto mais numerosos forem os discos e livros que nos ajudem a passar o tempo, mais consideravelmente maiores s\u00e3o as chances de sairmos disso tudo livres de grandes traumas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":807,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2021","post_timestamp":"2021-03-05T20:09:23+00:00","url":"2021_03_05_discos_do_mes_fevereiro_de_2021","post":"A verdadeira inten\u00e7\u00e3o daquele [texto no meio do m\u00eas passado](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2021_02_15_febre), agora eu me dou conta, era antecipar a confiss\u00e3o de que em fevereiro eu passei muitas e muitas horas ouvindo coisas como Journey, Boston, Asia e Foreigner, e assim tirar logo toda aquela m\u00fasica embara\u00e7osa do caminho. Al\u00e9m, claro, de fazer umas piadas com Michael Bolton. Resolvido isso, posso agora comentar exclusivamente a m\u00fasica que escutei quando a febre baixou e voltou a prevalecer o adulto em mim, come\u00e7ando com a vers\u00e3o do pianista russo Pavel Kolesnikov para as *Varia\u00e7\u00f5es Goldberg*. Eu sei, eu sei: corro o risco de transformar este blog em um aborrecido registro das minhas audi\u00e7\u00f5es das *Goldberg*, e essa vers\u00e3o, para ser franco, me entusiasmou muito pouco durante boa parte do meu primeiro contato com ela. A culpa, como sempre, era [dele](https:\/\/64.media.tumblr.com\/6f70c2426dbf8e1b49542665273df0cc\/tumblr_o5o3bawMhJ1ubb50wo1_1280.jpg), das vers\u00f5es que ele \u2014 o menino, n\u00e3o o cachorro \u2014 viria a gravar quando se tornasse adulto. Kolesnikov n\u00e3o faz feio \u2014 sua interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegou a me desagradar como a de [Wilhelm Kempff](https:\/\/www.discogs.com\/Johann-Sebastian-Bach-Wilhelm-Kempff-Goldberg-Variationen-BWV-988-Clavier\u00fcbung-IV\/master\/1069306), por exemplo, mas... bem, j\u00e1 escrevi sobre a [maldi\u00e7\u00e3o de Glenn Gould](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_10_02_discos_do_mes_setembro_de_2020). Eu ouvia ao disco de Kolesnikov e os detalhes de sempre me incomodavam aqui e ali, e quando j\u00e1 n\u00e3o esperava mais muita coisa, bem no finzinho da jornada acontece uma pequena m\u00e1gica que a redime quase que por inteira. \u00c9 este um dos encantos da m\u00fasica erudita: sua meticulosidade e o trabalho \u00e1rduo de maestros e musicistas costumam abrir generosas margens para certos tipos de nuances e revela\u00e7\u00f5es, coisas que podem enriquecer muito as audi\u00e7\u00f5es \u00e0 medida que elas v\u00e3o se acumulando e come\u00e7amos a memorizar e a entender cada obra. No caso das *Goldberg* de Kolesnikov, \u00e9 um detalhe \u00ednfimo, um quase nada, mas realmente me tocou: ao fim da \u00faltima varia\u00e7\u00e3o, conhecida como *Variatio 30. a 1 Clav. Quodlibet*, ao inv\u00e9s de esperar desvanecer completamente a reverbera\u00e7\u00e3o das cordas do piano antes de iniciar a repeti\u00e7\u00e3o da *Aria* que finaliza a pe\u00e7a, Kolesnikov come\u00e7a a toc\u00e1-la enquanto ainda ressoam as notas finais da *Variatio 30*, sobrepondo uma coisa \u00e0 outra, e assim toda a odiss\u00e9ia das varia\u00e7\u00f5es, todo aquele longo e maravilhosamente imaginativo labirinto de sons, \u00e9 como que imediatamente sublimado pela beleza inigual\u00e1vel da *Aria* imortal de Bach, que, de lambuja, costurada por sobre o estertor das varia\u00e7\u00f5es, torna-se ainda mais bonita e luminosa, seja pelo contraste, pelo inesperado, pela demonstra\u00e7\u00e3o de f\u00f4lego do pianista, seja l\u00e1 por que sortil\u00e9gios que tornam poss\u00edvel algo que j\u00e1 \u00e9 incomensuravelmente bonito tornar-se ainda mais belo, e isso tudo sem precisar entrar no m\u00e9rito da qualidade da execu\u00e7\u00e3o de Kolesnikov. Creio n\u00e3o ter escutado anteriormente tal truque nas muitas *Goldberg* que j\u00e1 tive a sorte de ouvir, algo t\u00e3o simples e de efeito t\u00e3o extraordin\u00e1rio... Glenn Gould, creio eu, teria aprovado. Assim como Dmitri Shostakovich provavelmente aprovaria a interpreta\u00e7\u00e3o de Nicola Benedetti para o seu primeiro concerto para violino, embora a violinista escocesa tenha, \u00e0 semelhan\u00e7a do que fizeram muitos outros antes e depois dela, desobedecido algumas das instru\u00e7\u00f5es escritas pelo compositor em sua partitura original, por serem (\u00e9 o que dizem) humanamente imposs\u00edveis de executar. Voltei a esse concerto uns dias atr\u00e1s. \u00c9 a m\u00fasica perfeita para aqueles dias em que pouca coisa acontece e as horas transcorrem lentas e morti\u00e7as, soterrando-nos pouco a pouco, e \u00e0 noite, sob esse peso todo acumulado, fica dif\u00edcil achar \u00e2nimo para fazer qualquer coisa. N\u00e3o se deixe enganar por sua longa e pesarosa introdu\u00e7\u00e3o: a inje\u00e7\u00e3o de adrenalina n\u00e3o tarda. S\u00e3o duas obras monumentais que adoro, o concerto de Shostakovich e *As Varia\u00e7\u00f5es Goldberg* de Bach, por\u00e9m o compositor mais ass\u00edduo aqui em casa nos \u00faltimos dias n\u00e3o \u00e9 russo e nem alem\u00e3o: a m\u00fasica que mais tenho escutado vem da Austr\u00e1lia, cortesia do compositor Peter Sculthorpe. *Earth Cry*, a pe\u00e7a que abre *Songs Of Sea And Sky* \u2014 e que devido \u00e0 frequ\u00eancia com que a vejo nos discos dedicados \u00e0 m\u00fasica de Sculthorne presumo que seja sua obra mais festejada \u2014 \u00e9 um incr\u00edvel \u00e9pico encapsulado em pouco mais de 10 minutos, m\u00fasica altamente cinem\u00e1tica feita de movimento e tumulto, fogo e vento, c\u00e9u e terra. *Mangrove* \u00e9 mais clim\u00e1tica e controlada, e aqui o didgeridoo (instrumento de sopro de origem abor\u00edgene onipresente ao longo de todo o \u00e1lbum), soando em boa parte da pe\u00e7a como um drone antes de ganhar protagonismo com suas estocadas, aqui o som grave e primitivo deste instrumento me pareceu mais natural e bem encaixado do que em *Earth Cry* (o encarte traz a informa\u00e7\u00e3o de que o didgeridoo n\u00e3o faz parte das partituras originais das obras deste disco; eles foram improvisados sobre elas por [William Barton](https:\/\/www.discogs.com\/artist\/1514378-William-Barton) seguindo instru\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio compositor). A pe\u00e7a que d\u00e1 nome ao disco, *Songs Of Sea And Sky*, tem um pouco de tudo em seus seis movimentos; as faixas finais, cada qual a sua maneira, elaboram mais um pouco sobre os temas e paisagens australianas t\u00e3o caras ao compositor. \u00c9 um disco excelente, uma das mais empolgantes viagens que tenho feito neste um ano de quarentena.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":806,"title":"Febre","post_timestamp":"2021-02-15T22:25:58+00:00","url":"2021_02_15_febre","post":"Pe\u00e7o v\u00eania para deixar aqui, excepcionalmente bem no meio do m\u00eas, um relato abreviado sobre o que venho escutando por esses dias, motivado pelas vontades conjugadas de fazer algo de modo diferente do que costumo fazer e de passar um pouco de vergonha (dizem que ambas as coisas fazem bem: mudar os h\u00e1bitos, de vez em quando, e rir de si pr\u00f3prio, sempre). Fevereiro tem sido, at\u00e9 o momento, quase que monotem\u00e1tico no que diz respeito ao meu card\u00e1pio musical: uma febre intensa de rock \u2019n\u2019 roll. Deve ter sido uma noite muito mal dormida ou um sonho muito delirante aquilo que precedeu a manh\u00e3 em que acordei com vontade de ouvir AOR, ou [arena rock](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Arena_rock), ou pomp rock, ou seja l\u00e1 qual for o ep\u00edteto c\u00f4mico de sua prefer\u00eancia para esta m\u00fasica... c\u00f4mica. Se voc\u00ea n\u00e3o sabe do que estou falando: Journey, Boston, Toto, Survivor, Michael Bolton \u2014 c\u00e9us, at\u00e9 Michael Bolton eu encarei, uns dias atr\u00e1s. Creio que Bolton ficou famoso como uma esp\u00e9cie de gal\u00e3 do soft rock, gravando discos para os quais (especulo) s\u00f3 obtia recursos e permiss\u00e3o ap\u00f3s pesquisas de mercado confirmarem que tal punhado de m\u00fasicas se cantadas por um sujeito vestindo tal roupa e estampando tal sorriso nas capas dos \u00e1lbuns, sim, essa jo\u00e7a venderia o suficiente para que os acionistas do conglomerado do qual a gravadora era parte pudessem comprar mais um iate cada um e sobrasse dinheiro suficiente para custear as despesas do pr\u00f3ximo ciclo: as pr\u00f3ximas pesquisas de mercado, os pr\u00f3ximos direitos autorais das composi\u00e7\u00f5es a serem gravadas, o embranquecimento dos dentes de Michael Bolton, etc. At\u00e9 que a coisa enfim se esgotasse e mais iates n\u00e3o pudessem ser comprados e Bolton fosse ent\u00e3o descartado, o que, a essa altura, presumo que j\u00e1 deve ter acontecido. Antes disso tudo, no entanto, Bolton gravou alguns discos de hard rock bastante divertidos \u2014 divertidos, claro, para quem o conceito de divers\u00e3o \u00e9 algo pr\u00f3ximo a esta coisa abrangente e desavergonhada que \u00e9 o meu. O disco da imagem acima, por exemplo, eu desperdicei umas boas duas ou tr\u00eas horas da minha vida escutando-o na semana passada. Andei ouvindo tamb\u00e9m mais alguma coisa do Bruce Springsteen, de quem decididamente n\u00e3o sou f\u00e3, por\u00e9m nas vezes em que, n\u00e3o sei se invadido por press\u00e1gios sombrios ou simplesmente instado por um \u00e2nimo mais introspectivo, ele resolveu gravar uma m\u00fasica mais ac\u00fastica e menos bomb\u00e1stica \u2014 \u00e1lbuns como *The Ghost Of Tom Joad* e *Devils \u0026 Dust* \u2014 nessas ocasi\u00f5es Springsteen at\u00e9 que n\u00e3o se sai t\u00e3o mal. S\u00e3o discos que mesmo quem n\u00e3o \u00e9 homem branco nascido nos EUA entre 1955 e 1980 pode conseguir, eventualmente, extrair algum prazer em escut\u00e1-los. Nem Bruce Springsteen e nem Michael Bolton, em todo o caso, podem superar o Journey, banda da qual tenho me tornado cada vez mais f\u00e3. Journey \u00e9 maravilhosamente ruim! \u00c9 brega, obsoleto e ador\u00e1vel. \u00c9 a contraparte musical de filmes como [este](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0098206\/) e [este](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0092240\/). Somente a psicologia por tr\u00e1s das engrenagens da ind\u00fastria cultural \u00e9 capaz de explicar como algu\u00e9m pode gostar de todas essas tralhas... No fim das contas, o que de mais digno andei escutando por esses dias foi mesmo o Cult: esta sim \u00e9 uma banda de rock \u2019n\u2019 roll sobre a qual o sujeito mais escrupuloso pode se dizer f\u00e3 sem maiores constrangimentos. H\u00e1 um certo estado de esp\u00edrito meu que s\u00f3 aceita discos do Cult \u2014 nestas horas, somente Ian Astbury cantando sobre seu irm\u00e3o lobo e sua irm\u00e3 lua pode me contentar e acalmar. \u00c9 com bastante atraso que me dei conta: o Cult \u00e9 uma das minhas bandas essenciais.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":805,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2021","post_timestamp":"2021-02-03T02:31:23+00:00","url":"2021_02_02_discos_do_mes_janeiro_de_2021","post":"**Yo La Tengo - And Then Nothing Turned Itself Inside-Out**\r\n\r\nA infrequ\u00eancia com que cito o Yo La Tengo \u2014 se \u00e9 que alguma vez j\u00e1 os citei \u2014 deve ser de longe a maior injusti\u00e7a destes meus relatos mensais. Trata-se, afinal, de uma das minhas bandas favoritas, a quem ainda ou\u00e7o com a regularidade que h\u00e1 tempos j\u00e1 n\u00e3o dedico ao Nirvana, ao Sonic Youth, ao Pavement, e a tantos outros nomes que pode-se considerar, de um modo ou de outro, irmanados ao trio formado por Georgia Hubley, Ira Kaplan e James McNew, e inquestionavelmente melhores ou mais importantes do que eles. *And Then Nothing Turned Itself Inside-Out* tem sido, nos \u00faltimos meses, um dos nossos discos favoritos para as noites de s\u00e1bado: sua atmosfera de sonho e de doce nostalgia \u00e9 o som perfeito para a luminosidade m\u00e9dia que gostamos de manter nessas ocasi\u00f5es, o jantar, o vinho, a leitura, etc. E ainda que de uma m\u00fasica que t\u00e3o f\u00e1cil e naturalmente se torna pano de fundo sonoro n\u00e3o se possa, na grande maioria dos casos, dizer que seja uma m\u00fasica muito especial, este \u00e1lbum \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra. *Tears Are in Your Eyes*, por exemplo, \u00e9 dessas faixas que se inclui sem pensar duas vezes na trilha sonora da vida.\r\n\r\n**Muriel Grossmann - Reverence**\r\n\r\nNas palavras da pr\u00f3pria Muriel Grossmann \u2014 a l\u00edder do quinteto que assina o disco \u2014, *Reverence* \u00e9 um gesto de agradecimento e rever\u00eancia \u00e0 m\u00fasica africana, o que fica bastante evidente, mesmo para um amador como eu, na intensidade percussiva e r\u00edtmica de suas m\u00fasicas. Contrabaixo (a cargo de Gina Schwarz) e bateria (Uros Stamenkovic) fazem do disco, quase que do in\u00edcio ao fim, uma verdadeira festan\u00e7a sonora. Por\u00e9m uma outra influ\u00eancia \u2014 ao menos \u00e9 o que parece para este, n\u00e3o \u00e9 demais repetir, enorme amador que sou \u2014 uma outra influ\u00eancia latente ao longo de todo o disco \u00e9 John Coltrane: as frases do saxofone de Grossmann lembram muito algumas de Coltrane, e aqui e ali uma certa aura cerimoniosa e m\u00edstica, tamb\u00e9m muito Coltranesca, torna o \u00e1lbum ainda melhor e mais hipn\u00f3tico. (E mesmo correndo o risco de faz\u00ea-lo com isso parecer-se com um enorme trabalho de xerografia \u2014 coisa que ele n\u00e3o \u00e9 \u2014 acrescento que tamb\u00e9m a presen\u00e7a de Alice Coltrane paira por sobre muitas das faixas.) Se voc\u00ea gosta seriamente de jazz, \u00e9 razo\u00e1vel supor que voc\u00ea n\u00e3o seja t\u00e3o desinformado como eu, que s\u00f3 fiquei sabendo da exist\u00eancia de Muriel Grossmann e de seus discos maravilhosos alguns poucos dias atr\u00e1s; em todo o caso, se as circunst\u00e2ncias da vida lhe conduziram a esta ins\u00f3lita situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o perca mais seu tempo lendo minhas trivialidades e [clique aqui](https:\/\/murielgrossmann.bandcamp.com).\r\n\r\n**Theatre of Voices, Ars Nova Copenhagen \u0026 Paul Hillier - Arvo P\u00e4rt: Creator Spiritus**\r\n\r\nEsse disco traz uma amostra muito bonita da m\u00fasica do compositor estoniano Arvo P\u00e4rt. Intercalando pe\u00e7as instrumentais e cantadas, Paul Hillier e seus grupos vocais Theatre of Voices e Ars Nova Copenhagen (Hillier \u00e9 o diretor musical de ambos), refor\u00e7ados pelo quarteto de cordas NYYD Quartet, tra\u00e7am um rico panorama da arte de alt\u00edssima voltagem espiritual de P\u00e4rt, com direito a generosas doses de tudo aquilo que a torna t\u00e3o especial: seus sil\u00eancios carregados e compassos meditativos, sua atmosfera de igreja antiga abandonada que ainda ecoa c\u00e2nticos do passado (feixes de luz entrando pelos vitrais quebrados; arbustos nascendo por entre as rachaduras do piso; \u00edcones inertes de olhos perfurados), seus instrumentos escassos e abstra\u00eddos mas sempre graves e concentrados. Uma m\u00fasica que inspira e respira religi\u00e3o \u2014 e, n\u00e3o obstante, capaz de sensibilizar os mais empedernidos dos ate\u00edstas, ou, pelo menos, aqueles com alguma tend\u00eancia a se compadecerem das aventuras e desventuras da ra\u00e7a humana. E embora seja um apanhado de obras aparentemente sem rela\u00e7\u00f5es mais diretas umas com as outras (h\u00e1 uma pe\u00e7a originalmente escrita em 1963; v\u00e1rias dos anos 1980, outras tantas dos 2000), o repert\u00f3rio do \u00e1lbum tem um cora\u00e7\u00e3o bem distinto: a faixa *My Heart\u0027s in the Highlands*, vers\u00e3o de P\u00e4rt para o poema\/can\u00e7\u00e3o de mesmo nome de Robert Burns, um dos grandes her\u00f3is liter\u00e1rios da Esc\u00f3cia. Nesta pe\u00e7a \u2014 como que o centro que irriga vida pelo \u00e1lbum \u2014 a soprano Else Torp canta sobre uma base m\u00ednima fornecida pelo \u00f3rg\u00e3o de Christopher Bowers-Broadbent, sua voz real\u00e7ada pelos repiques frios e mec\u00e2nicos do instrumento. H\u00e1 uma clara desconex\u00e3o entre uma coisa e outra: Torp entoa o lamento (n\u00e3o h\u00e1 aqui malabarismos vocais virtuosos: a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00f3bria, humana e contida), sofre estoicamente a dist\u00e2ncia entre as terras do norte da Esc\u00f3cia e o local n\u00e3o especificado onde ela se encontra atualmente (\u201cMy heart\u0027s in the Highlands, my heart is not here\u201d), enquanto que o \u00f3rg\u00e3o preserva certa indiferen\u00e7a e soa como que o desd\u00e9m das circunst\u00e2ncias que s\u00e3o maiores do que os indiv\u00edduos, ou o som dos destinos inevit\u00e1veis. A can\u00e7\u00e3o \u00e9 comovente como mero artefato humano, independente de interpreta\u00e7\u00f5es ou cataloga\u00e7\u00f5es (e apenas muito fragilmente pode ser chamada de \u0022can\u00e7\u00e3o\u0022); a interpreta\u00e7\u00e3o de Torp toca qualquer um que j\u00e1 tenha sentido v\u00ednculo com algum lugar, ou que tenha a viv\u00eancia de alguma dist\u00e2ncia amarga, qualquer um que j\u00e1 tenha sentido qualquer esp\u00e9cie de desconex\u00e3o. S\u00e3o temas universais, mas para aqueles que j\u00e1 tiveram a sorte de conhecer aquela parte do mundo, tudo isso torna-se imediatamente ampliado: se j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil para o turista ocasional n\u00e3o deixar uma parte de seu cora\u00e7\u00e3o por entre as montanhas e vales das Terras Altas escocesas, imagine-se a afli\u00e7\u00e3o de quem perto delas nasceu e viveu e teve ent\u00e3o que abandon\u00e1-las\u2026","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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O disco da Grimes, *Miss Anthropocene*, eu pensei seriamente em n\u00e3o incluir pois n\u00e3o queria macular minha lista com algu\u00e9m que mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es estreitas com um sujeito t\u00e3o execr\u00e1vel como Elon Musk; acabei deixando-o, no fim das contas, devido aos imensos m\u00e9ritos do \u00e1lbum e tamb\u00e9m porque considerei com algum otimismo que o casamento de Grimes com Musk talvez seja apenas um desatino passageiro do qual ela ir\u00e1 em breve se arrepender e corrigir. A mo\u00e7a \u00e9 bastante jovem, tem ainda sua quota de erros para cometer. Dos bi-campeonatos: minha \u00eddola, a sempre indom\u00e1vel Patricia Kopatchinskaja, aqui est\u00e1 novamente, acompanhada pelo maestro e flautista Giovanni Antonini e seu Il Giardino Armonico em bel\u00edssima homenagem \u00e0 Vivaldi. Como habitualmente acontece nos trabalhos de Kopatchinskaja, a aud\u00e1cia do repert\u00f3rio e um ilimitado senso de aventura s\u00e3o os grandes trunfos de *What\u0027s Next Vivaldi?*. Quem acha m\u00fasica cl\u00e1ssica algo assim meio sem gra\u00e7a deve imediatamente ouvir Kopatchinskaja para deixar de ser boc\u00f3. O disco de Anna von Hausswolff poderia muito bem ser o meu favorito dentre estes todos, mas talvez seja *Lontano*, da dupla Anja Lechner e Fran\u00e7ois Couturier, ela celista alem\u00e3, ele pianista franc\u00eas, ambos m\u00fasicos eruditos treinados em conservat\u00f3rios e que compartilham de um comovente amor pela liberdade do jazz. Creio que os t\u00edtulos citados at\u00e9 aqui (descontando a quest\u00e3o extra-musical referente ao disco da Grimes), mais o do Midnight Oil e o do Fleet Foxes, foram unanimidades desta lista desde o momento em que nela foram inscritos; os outros tiveram que ganhar disputas acirradas. Voltando \u00e0 arena da m\u00fasica cl\u00e1ssica: h\u00e1 pouca, bem pouca m\u00fasica mais bonita do que a do *adagio* inicial da sinfonia de n\u00famero 49 do grande mestre austr\u00edaco Joseph Haydn, e me deixaria bastante contrariado ter que deixar de fora *La Passione*, disco que traz uma fenomenal vers\u00e3o desta obra sob a reg\u00eancia da maestrina canadense Barbara Hannigan, al\u00e9m de pe\u00e7as de Luigi Nono e G\u00e9rard Grisey onde Hannigan n\u00e3o apenas conduz como tamb\u00e9m canta (a pe\u00e7a de Grisey, com suas percuss\u00f5es e fiapos de sons, \u00e9 deslumbrante). Tamb\u00e9m as diabruras das mo\u00e7as do Quatuor Ardeo, que em *XIII* encaram [Black Angels](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Black_Angels_(Crumb)) de George Crumb, eu muito lamentaria ter que deixar de fora, mas o disco afinal ganhou seu embate particular e c\u00e1 ele est\u00e1 entre os meus favoritos de 2020. Por fim, tenho a impress\u00e3o de que sempre h\u00e1 entre os meus escolhidos ao menos um disco de pianismo \u2014 um disco de piano solo, desses em que o instrumento soa m\u00faltiplo, vasto, toda uma banda ou orquestra encapsulada em um instrumento s\u00f3, comandado por um \u00fanico par de m\u00e3os. Tenho um fraco por esses discos (nem de longe algo de que eu me envergonhe, eu, amante de discos de New Age). Da safra 2020, o meu favorito \u00e9 *Phoenix*, da romena Maria Radutu. Da m\u00fasica erudita para o barulho an\u00e1rquico: houve um momento em que na minha rela\u00e7\u00e3o de candidatos constava apenas um \u00fanico disco de metal, o fant\u00e1stico [Mestarin Kynsi](https:\/\/oranssipazuzu.bandcamp.com\/album\/mestarin-kynsi) do Oranssi Pazuzu (como eu adoro bandas que se arremetem sem medo rumo ao desconhecido; como eu adoro a Finl\u00e2ndia!). Essa desproporcionalidade era, evidentemente, injusta e inaceit\u00e1vel. Por sorte, bem no finzinho do ano, calhou de eu escutar [Satan Is King](https:\/\/acxdc.bandcamp.com\/album\/satan-is-king), do ACxDC, e esta \u00e9, incontornavelmente, uma das m\u00fasicas de nosso tempo, este tempo de morte, de peste, de bispos da Igreja Universal. O peso e a agress\u00e3o quase intoler\u00e1veis do som do ACxDC \u00e9 para calejar a mente, treinar o esp\u00edrito, tornar nosso couro mais preparado para o que est\u00e1 por vir. Vamos precisar\u2026 E \u00e9 isto o que eu tinha para escrever a respeito dos t\u00edtulos da lista abaixo. Mas finalizarei mencionando alguns que n\u00e3o entraram nela, n\u00e3o por terem perdido disputas com os escolhidos, mas por n\u00e3o caberem, por um motivo ou outro, em uma lista de melhores do ano. Discos ao vivo, compila\u00e7\u00f5es, Bob Dylan, Neil Young, coisas do g\u00eanero. Dylan \u0026 Young: qualquer m\u00fasica que esses dois septuagen\u00e1rios (Dylan este ano torna-se octa) puderem ainda nos oferecer, a esta altura, n\u00e3o \u00e9 apenas algo a ser escutado, avaliado, vulgarmente inclu\u00eddo ou n\u00e3o numa lista; \u00e9, acima de tudo, uma sorte, um raro e enorme privil\u00e9gio poder ainda receb\u00ea-la, algo que iremos muito lamentar e nos tornar\u00e1 ainda menores e mais desamparados quando finalmente dela o tempo nos privar. Adorei o estranho comp\u00eandio de Dylan, *Rough and Rowdy Ways*, e Neil enfim empacotou e lan\u00e7ou *Homegrown* (cole\u00e7\u00e3o antiga de m\u00fasicas que n\u00f3s, os Neil-man\u00edacos, j\u00e1 conhec\u00edamos de tr\u00e1s para frente sob diversos outro t\u00edtulos e formatos desde h\u00e1 muito tempo), al\u00e9m do magn\u00edfico segundo volume de sua s\u00e9rie *Archives*. Neil e Dylan ser\u00e3o sempre *hors concours* em qualquer cataloga\u00e7\u00e3o de minhas prefer\u00eancias. N\u00e3o fosse uma compila\u00e7\u00e3o, [What Is This That Stands Before Me?](https:\/\/sacredbonesrecords.bandcamp.com\/album\/what-is-this-that-stands-before-me) estaria na lista abaixo; n\u00e3o fossem discos ao vivo \u2014 compila\u00e7\u00f5es, a seu modo \u2014 *Tripping with Nils Frahm* de Nils Frahm e principalmente *Live Drugs* do War on Drugs tamb\u00e9m. N\u00e3o fossem todos esses discos e toda essa m\u00fasica e ser\u00edamos ainda mais desgra\u00e7ados, estar\u00edamos todos ainda mais profundamente perdidos no fundo da floresta da qual falava o poeta, [onde n\u00e3o h\u00e1 alegria e nem bondade](https:\/\/poets.org\/poem\/september-1-1939). Meus 14 discos favoritos dentre os lan\u00e7ados em 2020, na ordem alfab\u00e9tica dos nomes das bandas ou artistas:\r\n\r\n* ACxDC: *Satan Is King*\r\n* Anja Lechner \u0026 Fran\u00e7ois Couturier: *Lontano*\r\n* Anna von Hausswolff: *All Thoughts Fly*\r\n* Barbara Hannigan \u0026 Ludwig Orchestra: *La Passione*\r\n* Fleet Foxes: *Shore*\r\n* Grimes: *Miss Anthropocene*\r\n* Maria Radutu: *Phoenix*\r\n* Midnight Oil: *The Makarrata Project*\r\n* Oranssi Pazuzu: *Mestarin Kynsi*\r\n* Patricia Kopatchinskaja, Giovanni Antonini \u0026 Il Giardino Armonico: *What\u0027s Next Vivaldi?*\r\n* Pearl Jam: *Gigaton*\r\n* Quatuor Ardeo: *XIII*\r\n* Sarah Davachi: *Cantus, Descant*\r\n* Shabaka \u0026 The Ancestors: *We Are Sent Here by History*","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":803,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2020","post_timestamp":"2021-01-03T01:37:32+00:00","url":"2021_01_02_discos_do_mes_dezembro_de_2020","post":"**Hachiku - I\u2019ll Probably Be Asleep**\r\n\r\nTem umas meninas por a\u00ed fazendo um som que faz com que tioz\u00f5es criados \u00e0 base de Smashing Pumpkins e Alice in Chains como eu desgra\u00e7adamente nos pare\u00e7amos com o que, quando \u00e9ramos n\u00f3s os jovens com a nossa nova e barulhenta m\u00fasica, pens\u00e1vamos a respeito dos tioz\u00f5es e das tiazonas de ent\u00e3o que ouviam, sei l\u00e1, Deep Purple ou Roberto Carlos, ou dos mais eruditos com seus CDs de cole\u00e7\u00f5es de Mozart e Chopin: todos eles dinossauros(as) velhos(as) e reum\u00e1ticos(as). Minhas incurs\u00f5es na m\u00fasica pop contempor\u00e2nea \u00e0s vezes rendem tiros n\u2019\u00e1gua \u2014 Phoebe Bridgers eu achei completamente sem gra\u00e7a; a m\u00fasica de Billie Eilish foi al\u00e9m e me soou repulsiva \u2014 por\u00e9m as boas descobertas recompensam plenamente o tempo dedicado. Creio j\u00e1 ter escrito sobre Lower Dens, xx, Warpaint, La Luz e Zola Jesus; esses nomes n\u00e3o s\u00e3o novos e nem novidades por aqui, mas deixo-os a\u00ed citados novamente para refor\u00e7ar as sugest\u00f5es e tamb\u00e9m para tentar tra\u00e7ar a fisionomia do tipo de som contempor\u00e2neo que me atrai (apenas as meninas do La Luz e seu surf rock talvez estejam meio deslocados neste grupo). O que andei descobrindo nas \u00faltimas semanas atende pelos nomes de Grimes, Japanese Breakfast e Hachiku. O disco de estr\u00e9ia de Hachiku (pseud\u00f4nimo de Anika Ostendorf) \u00e9 uma pequena p\u00e9rola. Confesso que n\u00e3o foi de imediato que ele me cativou: uma certa letargia na voz da menina e no andamento das can\u00e7\u00f5es quase me fez descartar a ideia de ouvi-lo de novo. Por\u00e9m alguma coisa, alguma melodia \u2014 talvez a pr\u00f3pria mencionada letargia \u2014 ficou alojada a meio caminho do meu c\u00e9rebro e tive que voltar a escut\u00e1-lo, e depois outra vez, e agora c\u00e1 estou recomendando-o entusiasticamente. Anika \u00e9 uma dessas artes\u00e3s cuja habilidade est\u00e1 nos detalhes, no equil\u00edbrio entre sofistica\u00e7\u00e3o e simplicidade nas composi\u00e7\u00f5es, no esmero da produ\u00e7\u00e3o. E tudo isso, se for ela ali na capa do disco, \u00e9 obra de uma garota que tem o que, 14 anos? Precoce \u00e9 pouco.\r\n\r\n**Grimes - Miss Anthropocene**\r\n\r\nAinda mais impressionante \u00e9 a m\u00fasica que faz outra mo\u00e7a que prefere usar um apelido ao seu nome verdadeiro: Claire Elise Boucher, mais conhecida como Grimes. Claire \u00e9 casada com Elon Musk, o que me parece um evidente sinal de mal gosto e\/ou [defici\u00eancia de car\u00e1ter](https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-52860772). Tal insensatez, no entanto, ou n\u00e3o se manifesta em seu trabalho musical ou ent\u00e3o se perde completamente em meio \u00e0s centenas de camadas que existem em seus disco. \u201cCentenas\u0022 quase n\u00e3o \u00e9 um exagero ou figura de linguagem: \u00e9 dif\u00edcil acompanhar tudo o que se passa em *Miss Anthropocene*, \u00e1lbum que provavelmente constar\u00e1 entre os meus favoritos deste ano. \u00c9 m\u00fasica essencialmente de est\u00fadio, obra de computadores e de colagens, e n\u00e3o fa\u00e7o ideia de como ela deve soar ao vivo \u2014 o que, evidentemente, n\u00e3o faz diferen\u00e7a alguma neste momento em que a vida comunit\u00e1ria fora de casa est\u00e1 provisoriamente cancelada. \u00c9, certamente, oposta a de Hachiku: enquanto l\u00e1 o que d\u00e1 o tom \u00e9 certo tipo de of\u00edcio minucioso em que mais coisas s\u00e3o omitidas do que inseridas, aqui a intensidade \u00e9 quase sufocante, as ideias transbordam, os sons s\u00e3o caleidosc\u00f3picos e a voz de Grimes soa vol\u00e1til e descarnada. A jornada como um todo \u00e9 bastante laboriosa, mas vale muito a pena encar\u00e1-la, nem que seja apenas para se ter uma no\u00e7\u00e3o das amplas e intrincadas possibilidades da m\u00fasica pop contempor\u00e2nea, algo muit\u00edssimo mais interessante e variado do que na \u00e9poca das Spice Girls. (N\u00e3o sei se uso o termo \u201cpop\u0022 com precis\u00e3o aqui. Tenho a impress\u00e3o de que Grimes faz parte desse universo, ainda que sua m\u00fasica seja muito mais exigente do que era aquela que entend\u00edamos como pop at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s. Se a m\u00fasica pop estiver realmente se sofisticando a esse ponto, isso \u00e9 claramente uma boa not\u00edcia. \u00c9 gra\u00e7as \u00e0s mulheres, perceba-se novamente, que nem tudo regride neste planeta.)\r\n\r\n**Led Zeppelin - IV**\r\n\r\nAgora \u00e9 o tioz\u00e3o falando novamente. N\u00e3o posso evitar: ver\u00e3o, para mim, \u00e9 sin\u00f4nimo de \u00e1gua salgada, longas caminhadas, leitura e vinho avan\u00e7ando na madrugada, e Led Zeppelin. Mas este ano, excepcionalmente, os dois primeiros itens ter\u00e3o que ser evitados (n\u00e3o tem mais praia escondida nem trilhas confidenciais em Florian\u00f3polis, ou pelo menos n\u00e3o durante a temporada de ver\u00e3o); o vinho, por for\u00e7a do excessivo tempo passado sedentariamente em casa, ter\u00e1 que ser cuidadosamente controlado; sobram os livros e o Led Zeppelin, o que, conquanto me sejam, de modo geral, suficientes, apenas muito remotamente poder\u00e3o, sozinhos, me fazer sentir no estado de esp\u00edrito do ver\u00e3o. Mas tudo bem; outros ver\u00f5es menos pestilentos haver\u00e3o de vir. O *III* jamais deixar\u00e1 de ser o meu Led favorito, um dos meus discos de f\u00e9rias por excel\u00eancia, por\u00e9m o *IV* tem a maravilhosa voz de Sandy Denny em *The Battle of Evermore*, tem *Going to California* e a colosso inigual\u00e1vel de *When the Levee Breaks*, tem tanta coisa espetacular e inebriante que nem mesmo precisaria ter *Stairway to Heaven*, e de um disco que tem mas n\u00e3o precisaria ter *Stairway to Heaven* talvez n\u00e3o seja necess\u00e1rio acrescentar mais nada em seu favor. E \u00e9 exatamente isso que farei \u2014 n\u00e3o acrescentarei mais nada, pois o mundo n\u00e3o precisa de mais textos sobre o Led Zeppelin.\r\n\r\n**Sarah Davachi - Gathers**\r\n\r\nDeve haver nestes meus relatos mensais e demais posts muito mais lamenta\u00e7\u00e3o e rabugice do que seria de se esperar. Afinal, o sujeito que tem o privil\u00e9gio de poder confortavelmente se estender em uma rede para dedicar uma inteira e ininterrupta hora de seu tempo ao desfrute de sons que lhe retiram deste mundo, tal sujeito definitivamente n\u00e3o \u00e9 algu\u00e9m que tem tanto assim para reclamar. O mundo est\u00e1 uma merda e n\u00e3o h\u00e1 grandes esperan\u00e7as para humanidade? Oras, disso j\u00e1 se sabe h\u00e1 muito tempo. Estamos nos matando uns aos outros e destruindo a natureza da qual dependemos umbilicalmente? \u00c9 assim desde [um tempo muito remoto](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zmX7K8noikE). O Brasil \u00e9 a vanguarda da estupidez, da covardia e do atraso? Grande novidade. Afortunados como eu, que em meio a tudo isso ainda consigo achar tempo e estado de esp\u00edrito para me dedicar ao mundo da m\u00fasica e pesquisar e descobrir novos sons e recomend\u00e1-los aos amigos e demais navegadores que acabam passando casualmente c\u00e1 por este blog, penso que esses supremos sortudos dever\u00edamos se abster de coment\u00e1rios in\u00f3cuos sobre o catastr\u00f3fico estado das coisas neste nosso planeta e em particular neste nosso pa\u00eds deplor\u00e1vel e se ater \u00e0 tarefa mais ben\u00e9fica e solid\u00e1ria de divulgar este sons, que s\u00e3o a parte positiva da humanidade, a parte capaz de nos dar ainda alguma esperan\u00e7a. Afinal, tal futuro pouco auspicioso talvez seja nosso destino inexor\u00e1vel desde sempre, completamente dissociado de circunst\u00e2ncias atuais, que talvez nem sejam assim t\u00e3o horr\u00edveis quando comparadas com as de outras \u00e9pocas\u2026 Bem, prometo me esfor\u00e7ar neste sentido. Estou para escrever sobre Sarah Davachi desde aquele [post](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_11_01_discos_do_mes_outubro_de_2020) sobre a Eliane Radigue, em que comento a proemin\u00eancia das mulheres no mundo da m\u00fasica eletr\u00f4nica experimental. Sarah \u00e9 a nova gera\u00e7\u00e3o; \u00e9, inclusive, um deleite ler suas entrevistas (h\u00e1 muitas delas pela internet) e descobrir suas refer\u00eancias e influ\u00eancias, sua paix\u00e3o por instrumentos musicais de todos os tipos, sua forma peculiar de compreender e fazer m\u00fasica (ter trabalhado quando jovem em um museu dedicado a instrumentos musicais parece ter ainda hoje muita ascend\u00eancia sobre tudo isso). *Gathers*, um dentre os [v\u00e1rios discos](https:\/\/sarahdavachi.bandcamp.com\/music) lan\u00e7ados por Davachi em 2020, creio que seja um \u00f3timo exemplar de sua serena e obstinada vis\u00e3o musical. Come\u00e7a de forma emblem\u00e1tica: eu poderia jurar que o instrumento predominante da primeira pe\u00e7a, met\u00f3dica e vagarosamente dedilhado, era um viol\u00e3o, quando \u00e9, na verdade \u2014 dentre todos! \u2014 um cravo. N\u00e3o sou muito f\u00e3 de cravo; compositores(as) como Davachi, contudo, t\u00eam essa habilidade de manipular a alma de seus instrumentos, torn\u00e1-los outra coisa e n\u00e3o apenas por si mesmos, mas tamb\u00e9m ao criar ao seu redor todo um campo eletroac\u00fastico transfigurado, uma das feiti\u00e7arias da m\u00fasica experimental contempor\u00e2nea que mais me intriga e encanta. *Gathers* segue m\u00e1gico at\u00e9 o fim, dilatando e prologando o tempo, ao mesmo tempo texturalmente rico e minimalista, exigindo apenas alguma aten\u00e7\u00e3o e mente descansada para, em troca, oferecer sua jornada extra-corporal para o distante espa\u00e7o onde n\u00e3o \u00e9 preciso se preocupar com o futuro, ou, mais precisamente, com a falta de um futuro.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Mas n\u00e3o foi s\u00f3 com Brian Eno que Budd comp\u00f4s e gravou. Sua discografia \u00e9 bastante [extensa](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Harold_Budd_discography) e creio n\u00e3o ter escutado ainda nem um ter\u00e7o dela, e isso de certo modo me conforta: Budd, nosso Debussy moderno, se foi, mas tenho ainda uma por\u00e7\u00e3o de m\u00fasica sua para descobrir \u2014 ainda que \u201cdescobrir\u0022 talvez n\u00e3o seja a palavra mais adequada. Sabe-se com anteced\u00eancia o que ir\u00e1 se escutar em um disco de Harold Budd: amplas e hipn\u00f3ticas paisagens sonoras, esparsamente habitadas por elementos que parecem deslizar sem pressa alguma, o todo evoluindo languidamente, sendo esta uma transcri\u00e7\u00e3o visual que embora pare\u00e7a-se sobretudo bonita e harmoniosa, na verdade n\u00e3o raro traz consigo \u2014 ou ao menos \u00e9 o que costumam captar meus olhos e ouvidos \u2014 pequenos mas evidentes tra\u00e7os discordantes, uma cor dissonante aqui \u2014 algo que n\u00e3o se resolve entre o verde e o azul \u2014, ali um fio amargo no fluxo de mansid\u00e3o, presen\u00e7as encobertas nos ecos e na ambi\u00eancia dos sintetizadores\u2026. Coisas desse tipo, muitas vezes esquivas e indefin\u00edveis. Uma arte sutil e refinada, irmanada da de mestres como Morton Feldman e Erik Satie; como bem disse Eno, Harold Budd era \u201cum pintor abstrato na pele de um m\u00fasico\u201d. (Alex Ross tamb\u00e9m tem coisas muito [bonitas para dizer a seu respeito](http:\/\/www.listentothis.info\/2020\/12\/rip-harold-budd-the-pavilion-of-dreams-1978\/).) Tendo anunciado sua aposentadoria algumas vezes, Budd sempre voltava atr\u00e1s e lan\u00e7ava algo novo \u2014 h\u00e1 pouco saiu este [Another Flower](https:\/\/robinguthrie.bandcamp.com\/album\/another-flower) gravado com outro de seus parceiros regulares, Robin Guthrie, ex-Cocteau Twins. Mas este deve ser, afinal, seu derradeiro registro musical. Neste mundo em que m\u00fasica \u00e9 das pouqu\u00edssimas fontes de alegria e conforto que nos restam, perdemos muit\u00edssimo com a partida de Budd.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/pushfestival.ca\/shows\/festival-2016\/a-conversation-harold-budd\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Explora\u00e7\u00f5es no [bandcamp](https:\/\/bandcamp.com\/); sugest\u00f5es recolhidas de [v\u00eddeos da Amoeba Records](https:\/\/www.amoeba.com\/whats-in-my-bag\/#\/grid\/1) e de [Baker\u2019s Dozens do The Quietus](https:\/\/thequietus.com\/features\/baker-s-dozen); uma capa que me chame a aten\u00e7\u00e3o em algum dos muitos blogs que acompanho; a influ\u00eancia citada por algu\u00e9m em alguma entrevista ou livro; a trilha sonora de um filme \u2014 s\u00e3o tantas e t\u00e3o ef\u00eameras essas fontes, e quase todas concentradas no enquadramento iluminado das telas dos computadores e demais dispositivos eletr\u00f4nicos conectados \u00e0 internet onipresentes em nossas vidas atuais, que torna-se praticamente imposs\u00edvel, na maioria das vezes, retroceder e relembrar o momento exato em que determinada banda entrou em nossas vidas. A individualidade desses momentos se perde nesta ampla e ofuscante plan\u00edcie de rotina e repeti\u00e7\u00e3o. Muito diferente de como era antigamente, quando o ato da descoberta de uma banda especial tornava-se praticamente um cap\u00edtulo na biografia de quem come\u00e7ava a interessar-se seriamente por m\u00fasica \u2014 aquele primeiro e m\u00edtico contato destinado a ser permanentemente evocado, dali por diante, sempre que volt\u00e1ssemos a escutar tal disco ou tal banda\u2026 Isto tudo, no entanto, n\u00e3o passa de uma futilidade, o tipo de nostalgia sentimental que, embora me acometa frequentemente, eu tenho a mais perfeita e cristalina consci\u00eancia de que nada mais \u00e9 do que remorso pela passagem do tempo, saudades da adolesc\u00eancia, etc. Mas eu gostaria de relembrar como foi que eu descobri o Big Blood. Gostaria mesmo. N\u00e3o apenas porque, caso me lembrasse, eu poderia come\u00e7ar esse texto com algo menos choraminguento mas tamb\u00e9m porque eles acabariam ficando mais decentemente registrados na minha mem\u00f3ria, na arqueologia da minha melomania, que \u00e9 algo que eu cultivo com bastante carinho. Eles, definitivamente, mereciam isso. Mas tudo bem, vamos l\u00e1: acho que a primeira coisa que vem \u00e0 mente quando se escuta ao [Big Blood](https:\/\/dontrustheruin.bandcamp.com\/) \u00e9 \u201clo-fi\u201d, m\u00fasica gravada em casa, sem aparatos profissionais, e eu sei que isso \u00e9 algo bastante atraente para muita gente \u2014 inclusive tem quem trate essa circunst\u00e2ncia como um sub-g\u00eanero musical por si s\u00f3. Eu, contudo, nunca liguei para isso e sempre fui indiferente ao lo-fi \u2014 penso que uma grava\u00e7\u00e3o lo-fi pode ser boa ou ruim, mas n\u00e3o ser\u00e1 uma coisa nem outra simplesmente por ser lo-fi \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[(*)](#f1)\u003C\/span\u003E. O Big Blood talvez nem seja t\u00e3o lo-fi assim, j\u00e1 que alguns de seus discos soam bastante bem produzidos; talvez seja um lo-fi mais moderno, mais tecnologicamente bem equipado, pois para al\u00e9m do aspecto material de como as can\u00e7\u00f5es soam em termos f\u00edsicos, h\u00e1 um esp\u00edrito inegavelmente amador e espont\u00e2neo na m\u00fasica de Caleb Mulkerin e Colleen Kinsella, a dupla que parece ser o n\u00facleo da banda. Eu apostaria que Caleb e Colleen \u2014 que s\u00e3o um casal, este da foto acima, e cuja filhinha, aquela ali fazendo gra\u00e7a entre eles, faz apari\u00e7\u00f5es ocasionais nos discos da banda \u2014 eu apostaria que essa ador\u00e1vel fam\u00edlia mora longe da cidade, em uma casa constru\u00edda por poucas pessoas \u00e0s margens de um lago ou de uma floresta, provavelmente entre ambos, sem cerca e com cabras vagando soltas por perto; sua m\u00fasica absorve e devolve esses cen\u00e1rios, o vocal brux\u00f3lico de Colleen conjura coisas primitivas e pag\u00e3s. Outro r\u00f3tulo que aparece frequentemente ao lado do nome da banda \u00e9 \u201cpsych folk\u201d, ou alguma varia\u00e7\u00e3o desses termos, e acho que ao menos isto minha mem\u00f3ria conservou do meu primeiro contato com a banda: n\u00e3o sou muito f\u00e3 de \u201cpsych folk\u201d, algo que andou em voga por a\u00ed recentemente e eu experimentei e n\u00e3o gostei de quase nada (excetuando o Mount Eerie), e por conta dessa experi\u00eancia pr\u00e9via eu estava com um p\u00e9 atr\u00e1s quando resolvi experimentar o Big Blood. (O que eu n\u00e3o consigo recapitular, precisamente, \u00e9 por que, apesar de tudo, eu insisti em escut\u00e1-los\u2026) Foi, enfim, uma bela surpresa descobri-los e ador\u00e1-los imediatamente. O que me soa t\u00e3o bem na banda, em resumo, \u00e9 certo aspecto ritual\u00edstico que vai al\u00e9m do j\u00e1 mencionado vocal brux\u00f3lico de Colleen (que \u00e9 tamb\u00e9m [artista pl\u00e1stica](https:\/\/www.etsy.com\/shop\/kinsellaart)), uma modula\u00e7\u00e3o monoc\u00f3rdica de sons e melodias sugerindo fogueiras noturnas em clareiras na floresta, algo em evidente contraste com a eletricidade que vaza intensamente do som da banda, mas ignoremos esse detalhe, ou o atribuamos convenientemente \u00e0 necromancia. O \u00e1lbum mais recente do Big Blood, *Do You Wanna Have A Skeleton Dream?*, lan\u00e7ado no come\u00e7o deste ano, tem um clima um pouco diferente deste descrito acima: *Skeleton Dream* soa mais como algo sa\u00eddo de um filme de David Lynch, o que, afinal, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente e pode ser tamb\u00e9m bastante encantador. Mas eu prefiro os mais antigos, e se algu\u00e9m que esteja aqui me lendo quiser experiment\u00e1-los tamb\u00e9m, minhas recomenda\u00e7\u00f5es s\u00e3o estas: [Dark Country Magic](https:\/\/dontrustheruin.bandcamp.com\/album\/dark-country-magic), [Already Gone I](https:\/\/dontrustheruin.bandcamp.com\/album\/already-gone-i), [Already Gone II](https:\/\/dontrustheruin.bandcamp.com\/album\/already-gone-ii) e [Strange Maine 1\u200b\u200b.\u200b\u200b20\u200b\u200b.\u200b\u200b07](https:\/\/dontrustheruin.bandcamp.com\/album\/strange-maine-1-20-07). Sons de primeira da floresta psicod\u00e9lica encantada.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E*\u003C\/b\u003E M\u00fasica lo-fi me lembra o Dogma 95, aquele grupo de cineastas (dinamarqueses, se n\u00e3o me engano) que pregava um cinema sem m\u00fasica, sem ilumina\u00e7\u00e3o, com um m\u00ednimo de tecnologia poss\u00edvel, etc. Eu achava uma bobagem, pois boa parte dessas coisas s\u00e3o o que fazem o cinema ser o que \u00e9, e os filmes do Dogma 95 acabavam se parecendo em sua maioria com filmes caseiros de fam\u00edlia. Ou seja, uma coisa me lembra a outra, mas h\u00e1 essa diferen\u00e7a fundamental: enquanto m\u00fasica lo-fi n\u00e3o necessariamente \u00e9 ruim ou boa, os poucos filmes do Dogma 95 que eu assisti eram todos bem ruins\u2026 [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.last.fm\/music\/Big+Blood\/+images\/07c9da0c24d94d93cd1815a27455b855).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":800,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2020","post_timestamp":"2020-12-02T05:42:30+00:00","url":"2020_12_01_discos_do_mes_novembro_de_2020","post":"**Fleet Foxes - Shore**\r\n\r\nDa forma como vejo o mundo, a felicidade reside nas p\u00e1ginas de *Moby Dick*, nos sulcos dos meus discos do Led Zeppelin, e em fins de tarde na praia, sentado na areia diante do mar. Em substitui\u00e7\u00e3o a este \u00faltimo item, que este ano ter\u00e1 que ser evitado, ultimamente tenho encontrado-a tamb\u00e9m na m\u00fasica do Fleet Foxes. O que esse tanto de gente diz a respeito desta banda est\u00e1 absolutamente correto: trata-se de algo especial. Sua m\u00fasica \u00e9 calcada em diversas tradi\u00e7\u00f5es, todas bastante populares e sedimentadas, mas me parece ser tamb\u00e9m, ao mesmo tempo, uma m\u00fasica s\u00f3 deles, distinta e eloquentemente honesta. *Shore* \u00e9 o quarto disco apenas do Fleet Foxes, mas todos os quatro s\u00e3o deste mesmo calibre, todos eles pequenas obras-primas que enriquecem amplamente o acervo defensivo da humanidade, o acervo das obras que nos previnem \u2014 aos despertos, aos pac\u00edficos, aos minimamente informados \u2014 de simplesmente desistir diante de toda essa estupidez e selvageria que j\u00e1 nem sei quando exatamente tornou-se comportamento aceit\u00e1vel e at\u00e9 elogi\u00e1vel neste mundo endoidecido. \u00c9 folk meigo e c\u00e2ndido, \u00e9 desinibidamente riponga, e \u00e9 tamb\u00e9m das m\u00fasicas mais necess\u00e1rias nesta segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21, uma \u00e9poca em que, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, creio que ningu\u00e9m julgaria que o velho folk paz \u0026 amor fosse ter ainda esse valor espiritual todo.\r\n\r\n**War on Drugs - Live Drugs**\r\n\r\nPasso longos per\u00edodos sem ouvir ao War on Drugs, e quando finalmente o fa\u00e7o, eu sempre me penitencio por isso: esses caras n\u00e3o deveriam nunca ficar tanto tempo sem tocar aqui em casa! Esse disco ao vivo *Live Drugs* \u00e9 extraordin\u00e1rio. Todas as qualidades que ou\u00e7o na banda est\u00e3o ampliadas aqui, principalmente na peculiar entona\u00e7\u00e3o do cantor, Adam Granduciel (que tem algo de Bob Dylan), e nos solos de guitarra que soam sempre como os aguardados cl\u00edmax das can\u00e7\u00f5es da banda, can\u00e7\u00f5es que, via de regra, come\u00e7am tranquilas, frugais, mas v\u00e3o intensificando-se gradualmente, ganhando corpo e emo\u00e7\u00e3o, e terminam quase sempre de um jeito que torna muito dif\u00edcil relembrar como come\u00e7aram e o que de t\u00e3o incr\u00edvel aconteceu a elas durante os seus m\u00e9dios 6 a 8 minutos. Eles t\u00eam algum truque, alguma manha sutil e muito especial. (Ser\u00e1 trapa\u00e7a colocar na minha lista de melhores de 2020 um disco ao vivo?)\r\n\r\n**Midnight Oil - The Makarrata Project**\r\n\r\nEu nem esperava tanto assim deste *The Makarrata Project*, o primeiro de dois discos que o Midnight Oil lan\u00e7a este ano (aquele que seria o segundo, na verdade, n\u00e3o sei se continua programado para sair ainda em 2020; procurei por alguma not\u00edcia sobre ele mas nada encontrei). Foi, portanto, uma agradabil\u00edssima surpresa escut\u00e1-lo e descobrir, j\u00e1 na primeira audi\u00e7\u00e3o, uma bel\u00edssima cole\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas, rica em ideias, sonoridades, vozes. Trata-se de um disco conceitual, um disco centrado em uma causa \u2014 o Midnight Oil sempre foi, evidentemente, uma banda com uma causa, por\u00e9m desta vez temos um \u00e1lbum que \u00e9, integralmente e desde sua origem, um manifesto (para mais detalhes, clique [aqui](https:\/\/www.midnightoil.com\/the-makarrata-project-out-now\/)), um disco-declara\u00e7\u00e3o cujas for\u00e7a e legitimidade est\u00e3o principalmente na participa\u00e7\u00e3o de diversos outros artistas australianos, muitos deles de origem abor\u00edgene, o que suspende, enfim, as velhas (e pertinentes) cr\u00edticas de que o Midnight Oil nada mais era do que cinco homens brancos falando (e faturando) em nome de um povo aut\u00f3ctone marginalizado e oprimido. E, para al\u00e9m do valor pol\u00edtico destas colabora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o elas tamb\u00e9m as principais respons\u00e1veis pela beleza do disco: o velho pulso da banda est\u00e1 l\u00e1, em todas as can\u00e7\u00f5es, praticamente intacto mesmo passados 18 anos de seu \u00faltimo \u00e1lbum (me refiro ao pulso amadurecido de discos como *Breathe* e *Capricornia*, \u00e9 claro), mas s\u00e3o as vozes de [Gurrumul Yunupingu](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Geoffrey_Gurrumul_Yunupingu), [Alice Skye](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Alice_Skye), [Frank Yamma](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Frank_Yamma) e [Kev Carmody](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Kev_Carmody), entre outros, os grandes trunfos das sete faixas de *The Makarrata Project*. Se eu rezasse, certamente estaria entre as minhas preces di\u00e1rias o pedido para que o triste falecimento do baixista [Bones Hillman](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Bones_Hillman), algumas semanas atr\u00e1s, n\u00e3o venha a interromper esta t\u00e3o promissora volta do Midnight Oil.  \r\n\r\n**Bob Marley - Survival**\r\n\r\nEmbora eu tenha escutado diversas vezes aos discos citados acima, a verdade \u00e9 que eles n\u00e3o representam muito bem \u2014 descontando, em parte, *The Makarrata Project* \u2014 o teor geral de minhas audi\u00e7\u00f5es nas \u00faltimas semanas. Tenho tentado, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, dedicar mais tempo \u00e0s vozes reprimidas deste mundo, ouvir com mais frequ\u00eancia aos seus pontos de vistas, suas cren\u00e7as, seus sonhos e suas atribula\u00e7\u00f5es conforme expressos na linguagem universal da m\u00fasica, consciente que sou de que, por mais que me considere algu\u00e9m minimamente informado sobre desigualdade e injusti\u00e7a social, continuo homem branco de classe m\u00e9dia, amparado por uma penca de privil\u00e9gios dos quais muitos mal devo me dar conta e amplamente desconhecedor das alternativas que existem ao modo como vivemos e como estamos construindo (e destruindo) este mundo. Tenho ouvido mais mulheres \u2014 das cantoras folk dos anos 60 \u00e0s compositoras de m\u00fasica experimental contempor\u00e2nea \u2014 e negros \u2014 muito jazz, blues, reggae, m\u00fasica africana e outros g\u00eaneros nos quais os negros comandam \u2014 e, aos poucos, tento abrir caminho na m\u00fasica popular de outras terras, de outras culturas, principalmente as minorit\u00e1rias e as que n\u00e3o contam com aparato midi\u00e1tico algum para promov\u00ea-las. Bob Marley talvez seja um clich\u00ea, mas para mim \u00e9 um clich\u00ea inescap\u00e1vel. E sempre me deixa absolutamente exasperado a forma como Marley e a m\u00fasica reggae como um todo foram manipulados e transformados em algo completamente diferente do que s\u00e3o (ou eram) de fato: de uma m\u00fasica essencialmente pol\u00edtica e rebelde a mero ap\u00eandice recriminador de uma banalidade, o h\u00e1bito comum e secund\u00e1rio de se fumar uma erva \u2014 h\u00e1bito, embora inofensivo (e efetivamente tolerado sob muitas outras formas quando praticado por outros grupos de pessoas), bastante eficiente para distinguir e encarcerar certo grupo minorit\u00e1rio n\u00e3o muito bem-vindo fora de seus guetos. Isto \u00e9 uma afronta, uma inf\u00e2mia altamente instrutiva sobre o modo como funciona nossa sociedade, o modo como declaramos guerra e dominamos e aniquilamos ou subvertemos o n\u00e3o-normativo, o diferente, o preto, o pobre. E, no entanto, eles resistem, e n\u00e3o s\u00f3 isso: fazem m\u00fasica, muita m\u00fasica. Penso que ouvir estas vozes \u00e9 t\u00e3o importante quanto come\u00e7ar a pensar, desde j\u00e1, o mundo que queremos erguer destes escombros todos que estamos amontoando por todos os lados.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":799,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2020","post_timestamp":"2020-11-02T03:24:02+00:00","url":"2020_11_01_discos_do_mes_outubro_de_2020","post":"**Tangerine Dream - The Keep (Original Motion Picture Soundtrack)**\r\n\r\nAndo viciado em duas coisas: queijo gorgonzola e discos do Tangerine Dream. Reflex\u00f5es sobre queijos n\u00e3o s\u00e3o o objetivo deste blog; sobre o Tangerine Dream, n\u00e3o chega a ser exatamente uma novidade, uma vez que vivo citando-os por aqui\u2026 Mas h\u00e1 um aspecto novo no exerc\u00edcio deste v\u00edcio: a miss\u00e3o que incumbi-me de adquirir \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[[1]](#f1)\u003C\/span\u003E todos os seus \u00e1lbuns, miss\u00e3o que s\u00f3 parecer\u00e1 banal \u00e0queles que n\u00e3o sabem do que se trata a [discografia do Tangerine Dream](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Tangerine_Dream_discography) \u003Cspan id=\u0022a2\u0022\u003E[[2]](#f2)\u003C\/span\u003E. Sendo f\u00e3 antigo \u00e9 claro que tenho h\u00e1 bastante tempo todos os grandes cl\u00e1ssicos que esta vener\u00e1vel entidade alem\u00e3 gravou em sua fase mais inicial e desbravadora, l\u00e1 nos anos 70: os \u00e9picos c\u00f3smicos *Phaedra*, *Zeit*, *Rubycon*, entre outras obras fundamentais para quem aprecia m\u00fasica eletr\u00f4nica e aventureira. Destes discos sou \u00edntimo h\u00e1 tempos, s\u00e3o todos velhos conhecidos. Um pouco menos ilustre \u00e9 o terreno que percorro agora: o das trilhas-sonoras que os alem\u00e3es gravaram aos borbot\u00f5es nos anos 80, uma sucess\u00e3o espantosa que n\u00e3o poderia nunca \u2014 seria humanamente imposs\u00edvel \u2014 sustentar o n\u00edvel de qualidade daquela primeira fase. H\u00e1 trilhas memor\u00e1veis, \u00e9 claro: a m\u00fasica de [Sorcerer](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0076740\/) \u00e9 parte indissoci\u00e1vel da obra magn\u00edfica que \u00e9 este filme; a m\u00fasica de [Firestarter](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0087262\/) \u00e9 muito melhor do que o pr\u00f3prio filme; m\u00fasica e psicodelia apocal\u00edptica de certa franja hollywoodiana nos anos 80, em [Miracle Mile](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0097889\/), s\u00e3o uma del\u00edcia. H\u00e1, no entanto, uma por\u00e7\u00e3o de coisas completamente descart\u00e1veis (devo admitir que elas predominam?), m\u00fasica semi-aut\u00f4mata que quase n\u00e3o se distingue entre si em filmes igualmente irris\u00f3rios como [Three O\u0027Clock High](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0094138\/), [The Park Is Mine](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0091724\/) e [Catch Me If You Can](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0097029\/). Uma febre alucin\u00f3gena de Tangerine Dream parece ter contaminado os produtores e diretores que estiveram presentes em alguma festa extravagante na bizarra Los Angeles dos anos 80, e de l\u00e1 se alastrado por est\u00fadios e escrit\u00f3rios\u2026 N\u00e3o consigo imaginar que outra liga\u00e7\u00e3o pode haver entre filmes t\u00e3o desiguais. O fato \u00e9 que Edgar Froese, Christopher Franke e Johannes Schmoelling (os nomes mais ass\u00edduos no Tangerine Dream daquela \u00e9poca) n\u00e3o tinham como se esfor\u00e7ar muito nestes trabalhos encomendados: imagino-os ligando alguns bot\u00f5es, bebendo cerveja, prolongando e manipulando algumas pulsa\u00e7\u00f5es, eventualmente se deslumbrando com uma ou outra descoberta, e pronto, ao cabo de uma semana estava cumprido mais um contrato. Para certos filmes \u2014 isso n\u00e3o \u00e9 conjectura: li em algum lugar \u2014 o grupo sequer via cenas ou imagens: bastava um roteiro ou uma ideia transmitida por telefone. Bem, tal m\u00fasica \u00e9, em muitos casos, desnecess\u00e1ria, por\u00e9m para mim sempre bastou o selo \u201cTangerine Dream\u201d \u2014 eu gosto de tudo o que a banda fez em qualquer \u00e9poca e sob qualquer motivo ou inspira\u00e7\u00e3o ou mesmo aus\u00eancia de inspira\u00e7\u00e3o. (O disco que uso para ilustrar esse coment\u00e1rio, a trilha de [The Keep](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0085780\/), um filme ruim de Michal Mann, \u00e9 simplesmente o \u00faltimo que escutei no momento em que escrevo estas linhas, e n\u00e3o \u00e9 melhor nem pior do que os muitos outros que tenho escutado por esses dias\u2026)\r\n\r\n**Eliane Radigue - Transamorem \/ Transmortem**\r\n\r\nAinda que a paix\u00e3o pelo Tangerine Dream seja uma das convic\u00e7\u00f5es da minha vida de mel\u00f4mano, uma outra, de certa forma desafiante \u00e0 esta, tem se consolidado pouco a pouco em mim nos \u00faltimos anos: a percep\u00e7\u00e3o de que nesta seara da m\u00fasica eletr\u00f4nica experimental as mulheres s\u00e3o muito superiores aos homens. Por algum motivo; por qualquer motivo; por motivo algum \u2014 n\u00e3o sei dizer. De algum ponto vista, nem que seja um muito distante, plantado em alguma outra gal\u00e1xia, n\u00e3o deve haver diferen\u00e7as significativas entre homens e mulheres, mas, estando c\u00e1 na Terra, eu at\u00e9 teria curiosidade de entender os motivos desta prefer\u00eancia, se determinarmos que n\u00e3o \u00e9 mera casualidade. Eu adoro o Brian Eno, mas suas mais belas pe\u00e7as empalidecem perto da beleza colossal das obras de Pauline Oliveros; o celebrado William Basinski, para mim, n\u00e3o chega aos p\u00e9s da precis\u00e3o de Eliane Radigue; a m\u00fasica de Karlheinz Stockhausen eu confesso n\u00e3o ter explorado ainda com a aten\u00e7\u00e3o que ela parece merecer, por\u00e9m o que j\u00e1 tive oportunidade de escutar at\u00e9 aqui me assevera que ele n\u00e3o poder\u00e1 nunca, nem mesmo se l\u00e1 do mundo dos mortos ele der um jeito de nos mandar algumas novas partituras repletas de incr\u00edveis conhecimentos adquiridos no inferno ou no para\u00edso ou seja l\u00e1 onde for que ele tenha ido parar \u2014 em hip\u00f3tese alguma ele poder\u00e1 me deslumbrar mais do que Laurie Spiegel j\u00e1 o fez com sua m\u00fasica. Mas deixo para outra hora a tentativa de compreender este fen\u00f4meno. A estes nomes femininos, Laurie, Eliane e Pauline, outros t\u00eam se juntado nos \u00faltimos tempos, mas o que estas tr\u00eas pioneiras gravaram em suas longas carreiras configura um universo sonoro que parece expandir-se infinitamente. Em particular, a m\u00fasica de Eliane e Pauline (esta \u00faltima, infelizmente, n\u00e3o est\u00e1 mais entre n\u00f3s) pode ser catalogada mais precisamente no ambient, e a segunda fase dos experimentos de Eliane \u00e9, para mim, o n\u00e9ctar supremo do g\u00eanero. O som conjurado e registrado em *Transamorem \/ Transmortem*, por exemplo, recompensa generosamente quem atravessar com persist\u00eancia e aten\u00e7\u00e3o sua mais de uma hora de micro-detalhes e rigorosa fantasmagoria. N\u00e3o estar\u00e1 incorreto quem desdenhar que o que Eliane faz \u00e9 captar alguma esp\u00e9cie de \u00e1timo ou unidade sonora e prolong\u00e1-la vastamente, intercalando uma ou outra min\u00fascula interfer\u00eancia. Isto, no entanto, n\u00e3o significa de modo algum que o resultado \u00e9 est\u00e1tico ou desprovido de vida: *Transamorem \/ Transmortem* \u00e9 muito mais do que sil\u00eancio, sendo que aquilo que nos habituamos a chamar de sil\u00eancio j\u00e1 \u00e9, por sua vez, muito mais do que um mero vazio\u2026 *Transamorem \/ Transmortem* posiciona-se em um interst\u00edcio: menos do que m\u00fasica (por n\u00e3o haver narrativa de esp\u00e9cie alguma, ou, em outras palavras, n\u00e3o nos tornar parte inativa na exposi\u00e7\u00e3o de uma fic\u00e7\u00e3o sonora) e mais do que a n\u00e3o-exist\u00eancia que seria o sil\u00eancio absoluto que, insisto, n\u00e3o existe, nem mesmo entre surdos. Sil\u00eancio total s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para aquilo que n\u00e3o existe ou n\u00e3o tem vida, de modo que dizer que este som \u00e9 mais do que sil\u00eancio pode parecer uma tautologia; seu car\u00e1ter imersivo e quase im\u00f3vel, contudo, tenta nos aproximar dos benef\u00edcios irrealiz\u00e1veis desta utopia extra-corporal, e \u00e9 esta conjun\u00e7\u00e3o esp\u00edrito-auditiva \u2014 este meio caminho entre o pensamento autocentrado e consciente e o sil\u00eancio hipot\u00e9tico da n\u00e3o-exist\u00eancia, trilha quase invis\u00edvel e definitivamente fora da experi\u00eancia humana cotidiana \u2014 \u00e9 esta sintonia o primeiro passo para a recompensa mencionada acima. Creio que isso \u00e9 o m\u00e1ximo que se pode escrever sobre *Transamorem \/ Transmortem* \u2014 alguma obstina\u00e7\u00e3o, algum empenho extra de abstra\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o por parte do ouvinte permanecem necess\u00e1rios. Do outro lado, aguardando pacientemente, a alegria de perceber-se como parte de um universo que escuta a si mesmo, que observa a si mesmo \u003Cspan id=\u0022a3\u0022\u003E[[3]](#f3)\u003C\/span\u003E.\r\n\r\n**John Carpenter \u0026 Alan Howarth: Halloween III - Season of the Witch (Original Soundtrack Recording)**\r\n\r\n\u0022Happy happy Halloween, Halloween, Halloween, happy happy Halloween, Silver Shamrock!\u0022 J\u00e1 escrevi anteriormente que das trilhas-sonoras do John Carpenter a minha favorita \u00e9 a do *The Fog*, por\u00e9m a que ele escreveu junto com Alan Howarth para a ador\u00e1vel bizarrice que \u00e9 *Halloween III* n\u00e3o fica muito atr\u00e1s. E esse jingle \u2014 \u0022Happy happy Halloween, Halloween, Halloween, happy happy Halloween, Silver Shamrock!\u201d \u2014, nas duas \u00faltimas semanas cheguei a temer que s\u00f3 conseguiria tir\u00e1-lo da cabe\u00e7a se me submetesse a uma cirurgia cerebral (cirurgia de extra\u00e7\u00e3o total do c\u00e9rebro, no caso).\r\n\r\n**Spy V Spy - Trash the Planet**\r\n\r\nFinalmente, nos \u00faltimos dias de outubro, dias de Halloween e de Tangerine Dream, algumas das m\u00fasicas deste disco que adoro do Spy V Spy, *Trash the Planet*, come\u00e7aram a se infiltrar por entre os sintetizadores e as trilhas-sonoras de filmes de terror que prevaleciam em meus pensamentos. Uma r\u00e1pida olhada no tracklist \u00e9 suficientemente esclarecedora: *Hardtimes*, *What the Future Holds*, *Clear Skies*, *A New Start*... Encarei como se fossem chamados de volta \u00e0 realidade \u2014 \u00e0 perplexidade, \u00e0s esperan\u00e7as e \u00e0s derrotas de nossa dura realidade, depois de alguns dias de m\u00fasica escapista e fantasiosa. *Clear Skies*, em especial \u2014 nem de longe minha favorita neste disco \u2014, vinha-me \u00e0 mente o tempo inteiro, sua evoca\u00e7\u00e3o agravada talvez pela proximidade do ver\u00e3o\u2026 J\u00e1 houve um tempo em que as esta\u00e7\u00f5es demarcavam rigidamente minhas audi\u00e7\u00f5es (heavy metal no ver\u00e3o, por exemplo, nem pensar); neste novo modo de viver em que atualmente nos vemos for\u00e7ados a nos adaptar isto talvez v\u00e1 se embaralhar um pouco, modificar-se como tudo o mais, e o arco de m\u00fasica de meus pr\u00f3ximos dias seguir\u00e1, provavelmente, indo da francesa Eliane Radigue aos australianos do Spy V Spy, passando pelo Tangerine Dream e pelo Bon Jovi que tamb\u00e9m andei ouvindo nos \u00faltimos dias, mas que pouparei voc\u00eas de lerem sobre.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E[1]\u003C\/b\u003E: \u201cAdquirir\u201d, por ora, significa apenas a disciplina de uma s\u00e9rie enorme de downloads. Neste nosso momento, nesta nossa economia, neste nosso pa\u00eds \u2014 neste nosso pesadelo, enfim \u2014 \u00e9 o que d\u00e1 de fazer. Futuramente, quem sabe, come\u00e7o a ocupar os poucos espa\u00e7os livres da estante de discos com mais CDs e mais vinis do Tangerine Dream. [\u21a9](#a1)\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f2\u0022\u003E[2]\u003C\/b\u003E: Se voc\u00ea sentir algum estranho receio antes de clicar neste link, saiba que seu mau pressentimento n\u00e3o \u00e9 injustificado. N\u00e3o clique; basta a informa\u00e7\u00e3o de que o cat\u00e1logo do Tangerine Dream pode ser dividido em diferentes \u201ceras\u201d segundo diferentes \u201ccategorias\u201d. [\u21a9](#a2)\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f3\u0022\u003E[3]\u003C\/b\u003E: Esta maravilhosa ideia de um \u201cuniverso que observa a si mesmo\u201d, obviamente, n\u00e3o \u00e9 minha \u2014 \u00e9 de Alan Watts. [\u21a9](#a3)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":798,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XIX","post_timestamp":"2020-10-27T19:49:25+00:00","url":"2020_10_27_impressoes_auditivas_vol_xix","post":"* Sugeri, dia desses, que covers de Neil Young deveriam ser proibidos. Embora continue acreditando na premissa, a vers\u00e3o rarefeita de Michael Hedges para *After the Gold Rush* (neste [disco](https:\/\/www.discogs.com\/Michael-Hedges-Aerial-Boundaries\/master\/324876)) me faz pensar que alguma esp\u00e9cie de sistema de permiss\u00f5es excepcionais deveria ser previsto\u2026 Tamb\u00e9m a vers\u00e3o de Patti Smith para a mesma m\u00fasica ([aqui](https:\/\/www.discogs.com\/Patti-Smith-Banga\/master\/443906)), lembrei-me depois, \u00e9 \u00f3tima e exige tais exce\u00e7\u00f5es. Primeira vers\u00e3o do par\u00e1grafo que disp\u00f5e sobre as poss\u00edveis ressalvas \u00e0 lei geral da proibi\u00e7\u00e3o de vers\u00f5es covers das m\u00fasicas de Neil Young: vers\u00f5es de *After the Gold Rush*, se voc\u00ea for um artista do naipe de Smith e Hedges, est\u00e3o liberadas.\r\n* *After the Gold Rush* na voz de Patti Smith (e das crian\u00e7as que aparecem no final) \u00e9 daquelas coisas que existem para nos curar dos piores des\u00e2nimos, dos mais desalentadores dos cansa\u00e7os. O cansa\u00e7o de ser brasileiro, por exemplo. Se os desgostos e os infort\u00fanios da vida servem (segundo doutrinas milenares e tamb\u00e9m os livros de auto-ajuda) para viabilizar as alegrias e as ben\u00e7\u00e3os \u2014 anverso e reverso s\u00f3 existiriam em fun\u00e7\u00e3o um do outro, dizem-nos algum asceta hindu e Lair Ribeiro \u2014 devemos considerar seriamente a possibilidade do Brasil estar esticando demasiadamente esta corda, exigindo dos artistas deste mundo uma imagina\u00e7\u00e3o quase ilimitada para conceber as obras que poder\u00e3o, neste jogo k\u00e1rmico, algum dia nos compensar e descansar das ru\u00ednas em que estamos nos tornando. A continuar nesta toada, em breve n\u00e3o haver\u00e1 absolutamente proficuidade alguma em ser brasileiro\u2026\r\n* Fascistas e demais degenerados, contudo, ainda n\u00e3o vencem algo como [Patti Smith e R.E.M. juntos](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5cnIQHJ169s). \r\n\r\n**M\u00fasica como algo que come\u00e7a e termina (2)**\r\n\r\nJ\u00e1 faz mais de um ano que [iniciei](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_07_30_impressoes_auditivas_vol_xi) esta pequena s\u00e9rie e apesar de ter anotado diversas ideias para continu\u00e1-la, a disposi\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-lo, nos \u00faltimos tempos, n\u00e3o vinha aparecendo. Um disco do Popol Vuh, quem diria \u2014 um fim de disco, para ser mais exato \u2014 aniquilou esta in\u00e9rcia. Meu interesse pelo Vuh come\u00e7ou com o nome da banda e com a trilha-sonora de um *Nosferatu*, e foi minguando ao longo de discos que fui experimentando e que me diziam pouca coisa ou quase nada. Eu amo intensamente o *krautrock* \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[[1]](#f1)\u003C\/span\u003E: adoro todos aqueles loucos do Can, Amon D\u00fc\u00fcl, Kraftwerk, Tangerine Dream, Neu!, e seus discos alucinantes, transbordantes de experimento e psicodelia; somente o Vuh, de tudo quanto escutei at\u00e9 aqui, costuma divergir, e creio que s\u00f3 continuo a explorar (muito lentamente) sua longa discografia devido \u00e0 esta predile\u00e7\u00e3o geral pelo *krautrock*, longe de algum interesse particular pela banda ou algum pressentimento. Essa insist\u00eancia, em todo caso, j\u00e1 foi bem recompensada. Foi numa tarde pregui\u00e7osa e pouco produtiva (me lembro bem da luz que entrava filtrada pelas venezianas na janela) que, sem maiores entusiasmos, coloquei para tocar *Agape \u2013 Agape \/ Love \u2013 Love* \u2014 a pregui\u00e7a parecia afluir da minha dificuldade para continuar o trabalho para a de escolher alguma m\u00fasica que pudesse propulsion\u00e1-lo, numa daquelas auto-sabotagens semi-conscientes que todo mundo que trabalha sozinho experimenta vez ou outra\u2026 O disco transcorreu durante quase todo o tempo como apenas mais um disco do Popol Vuh; apenas um entre tantos, alguns minutos de som que n\u00e3o solicitariam rememora\u00e7\u00e3o alguma ap\u00f3s escorrerem desbotados para o passado. Por\u00e9m mal come\u00e7a a \u00faltima faixa e me vejo imediatamente transfixado. \u00c9 um fio de m\u00fasica: um piano esparso, perdido e sem rumo, e o dedilhar ainda mais apagado de uma guitarra; ao fundo, um chiado ambiente revela a grava\u00e7\u00e3o amadora ou descuidada. (Talvez seja o contr\u00e1rio: em primeiro plano o chiado; ao fundo, a guitarra e o piano...) N\u00e3o demora e o piano de *Why Do I Still Sleep* parece encontrar para si um rumo, circular, e a\u00ed ela se det\u00e9m por tempo indeterminado, vagando abstra\u00edda e abstrata, sussurrando um mantra inst\u00e1vel, at\u00e9 que a coisa da mesma maneira que come\u00e7ou \u2014 inesperada e inc\u00f3gnita \u2014 termina. \u00c9 pouco, e \u00e9, ao mesmo tempo, daqueles milagres luminosos que n\u00e3o consentem descri\u00e7\u00f5es\u2026 Pode ser que *Why Do I Still Sleep* n\u00e3o justifique toda a discografia do Popol Vuh, mas certamente justificou a exist\u00eancia de uma das tardes de minha vida.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E[1]\u003C\/b\u003E: J\u00e1 cheguei a pensar que este termo seria, provavelmente, pejorativo ou ofensivo, mas depois li em algum lugar que os pr\u00f3prios alem\u00e3es o adotaram de modo meio zombeteiro, e ningu\u00e9m nunca se importou muito com isso\u2026 O r\u00f3tulo certamente tem um qu\u00ea de rid\u00edculo, mas por encapsular, com a anu\u00eancia de todos, a m\u00fasica de certa \u00e9poca e de certo lugar \u2014 m\u00fasica que, embora vasta, compartilha tamb\u00e9m de um certo esp\u00edrito \u2014 por conta disso tudo *krautrock* tem simplicidade e efici\u00eancia irresist\u00edveis. De modo que, enquanto ningu\u00e9m inventar algo melhor (o que, a essa altura, talvez seja evidente que jamais ir\u00e1 ocorrer), eu permane\u00e7o usando *krautrock*... [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Patti Smith em foto de Rebecca Miller, copiada [daqui](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2020\/sep\/20\/patti-smith-i-feel-the-unrest-of-the-world-in-the-pit-of-my-stomach).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":797,"title":"Protejam os sabi\u00e1s","post_timestamp":"2020-10-18T01:58:11+00:00","url":"2020_10_17_protejam_os_sabias","post":"Tenho a tremenda sorte de morar pr\u00f3ximo a uma grande \u00e1rea de natureza (ainda) preservada, repleta de \u00e1rvores felpudas que exibem todos os tons de verde imagin\u00e1veis e, agora, em princ\u00edpios da primavera, pontuada pelas c\u00fapulas amarelas dos guapuruvus que come\u00e7am a florir. Desses morros desgarram-se multid\u00f5es de p\u00e1ssaros que adoram se aventurar por entre os pr\u00e9dios das ruas pr\u00f3ximas e pelo verde mais econ\u00f4mico e sim\u00e9trico da pracinha, e pelos telhados das casas e pelos fios dos postes, que abrigam casas de jo\u00e3o-de-barro e descanso provis\u00f3rio para a recrea\u00e7\u00e3o incessante de can\u00e1rios e bem-te-vis. Os quero-queros, em particular, por alguma raz\u00e3o adoram zanzar carrancudos pelo asfalto; as andorinhas, que j\u00e1 est\u00e3o de volta, parecem ter como raz\u00e3o \u00fanica e suficiente de suas vidas voar rente aos pr\u00e9dios e exibir suas aud\u00e1cias umas \u00e0s outras; cambacicas imprudentes, frequentemente, entram nos apartamentos e nas casas, e para tir\u00e1-las de l\u00e1 \u00e9 sempre uma trabalheira. Essa passarada toda, como n\u00e3o poderia deixar de ser, fornece ao bairro a alegre algazarra sonora t\u00edpica destes animais, o pano de fundo sensorial que \u00e9, provavelmente, dentre as familiaridades que os brasileiros compartilham, aquela que nos \u00e9 mais b\u00e1sica e primeva, e talvez a que primeiro sintamos falta quando nos encontramos apartados dela, mesmo que n\u00e3o compreendamos de imediato o que \u00e9 esta falta, o que \u00e9 que nos foi tirado. Tal cantoria, contudo, fica abafada durante o dia pelo barulho dos carros, das pessoas, das constru\u00e7\u00f5es; \u00e9 de noite, tenho reparado ultimamente, que a coisa fica realmente fascinante. Tudo come\u00e7a no crep\u00fasculo \u00faltimo do dia com o berreiro multiplicado de uma esp\u00e9cie que n\u00e3o sei identificar, mas que gosta de se aninhar aos montes em certa \u00e1rvore de folhagem densa que temos por aqui, e que por acaso h\u00e1 uma na cal\u00e7ada bem em frente ao meu apartamento. Os quero-queros \u2014 certamente os pais e m\u00e3es mais super-protetores de suas crias em todo o reino animal \u2014 tamb\u00e9m ficam hist\u00e9ricos neste per\u00edodo, voando baixo por entre os pr\u00e9dios, alarmados com alguma coisa que s\u00f3 eles conseguem ver. Madrugada adentro \u00e9 a vez dos sabi\u00e1s, que aproveitam-se do sil\u00eancio para cantar com toda a for\u00e7a de seus possantes min\u00fasculos pulm\u00f5es. Finalmente, inaugurando a manh\u00e3, o pio sigiloso das corujas na grama da pracinha e o retorno da quero-queren\u00e7a dos quero-queros, al\u00e9m da zorra dos aracu\u00e3s um pouco mais distantes, em meio \u00e0s \u00e1rvores dos morros do outro lado da pra\u00e7a \u2014 distantes, mas plenamente reconhec\u00edveis, porque o som que produz esse animal \u00e9 algo que inven\u00e7\u00e3o divina ou diab\u00f3lica alguma poderia conceber, por mais criativa que fosse\u2026 (Durante as horas escuras h\u00e1 tamb\u00e9m muitos morcegos circulando por a\u00ed, mas destes seres, infelizmente, o m\u00e1ximo que podemos fazer \u00e9 desenhar a forma de seus sons.) Eu tenho percebido cada vez mais todo este alarido noturno-crepusculino. E desconfio, inclusive, que a m\u00fasica dos sabi\u00e1s esteja informando os sonhos que frequento durante a noite, e, por conseguinte, intervindo em todo o restante de minha vida j\u00e1 sob a luz do dia, vida esta que tem como fio condutor meu interesse em m\u00fasica. Ser\u00e3o os sabi\u00e1s os culpados disso? N\u00e3o consigo lembrar se havia sabi\u00e1s cantando de madrugada no bairro (outro) em que passei a inf\u00e2ncia; o princ\u00edpio do meu interesse em m\u00fasica, naquela \u00e9poca, sei situar em alguns outros seres e circunst\u00e2ncias, e as noites de ent\u00e3o creio que eram de sono inviol\u00e1vel e s\u00f3lido demais\u2026 Talvez eles \u2014 os sabi\u00e1s \u2014 estejam hoje refinando e refor\u00e7ando esta minha obsess\u00e3o e prazer; talvez sejam emiss\u00e1rios que a natureza incumbiu de secretamente nos plantar na mem\u00f3ria e na subconsci\u00eancia algumas boas raz\u00f5es para nos levantarmos de manh\u00e3 cedo, raz\u00f5es boas e vigorosas o suficiente para suplantar o des\u00e2nimo com a vertigem de desgra\u00e7as que atingiu este pa\u00eds\u2026  De modo que proponho a seguinte estrat\u00e9gia: temos que proteger a Amaz\u00f4nia e o Pantanal, e os morros e as pra\u00e7as, e toda a natureza que vai sendo sistematicamente destru\u00edda neste malfadado pa\u00eds \u2014 mas temos que, sobretudo, proteger os sabi\u00e1s.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de Sandro Von Matter, copiada [daqui](https:\/\/conexaoplaneta.com.br\/blog\/a-hora-do-sabia-participe-e-ajude-a-monitorar-a-poluicao-sonora-e-a-plantar-arvores-nativas-em-sua-cidade\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":796,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2020","post_timestamp":"2020-10-03T01:18:55+00:00","url":"2020_10_02_discos_do_mes_setembro_de_2020","post":"**Shabaka And The Ancestors - Wisdom of Elders**\r\n\r\nFoi s\u00f3 eu [escrever sobre a infrequ\u00eancia](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_09_02_discos_do_mes_agosto_de_2020) com que me ocorre descobrir coisas novas de jazz que me empolguem e me acontece exatamente isso, ou mais do que isso: descobri algo espetacular. Foi como se, inadvertidamente, eu houvesse invocado alguma magia ou c\u00f3digo secreto, ou quem sabe ofendido alguma divindade musical demasiadamente melindrosa, que tratou de intervir\u2026 Foi tamb\u00e9m, na verdade, uma redescoberta, ou, para ser mais preciso, a retomada de uma descoberta \u2014 explicarei-me a seguir. O sujeito se chama Shabaka Hutchings, toca saxofone e possui uma penca de bandas e discos, e tudo que ouvi dele at\u00e9 aqui \u00e9 sensacional. Mas devo come\u00e7ar pelo princ\u00edpio; a hist\u00f3ria tem seus aspectos instrutivos, creio que vale a pena o relato. Tudo come\u00e7ou quando, j\u00e1 n\u00e3o me lembro mais por que caminhos ou recomenda\u00e7\u00f5es, eu cheguei neste [disco](https:\/\/shabakaandtheancestors.bandcamp.com\/album\/wisdom-of-elders). Escutei a algumas de suas faixas com deslumbrada aten\u00e7\u00e3o e encomendei o CD com os camaradas da Brownswood Recordings. Isso foi em mar\u00e7o, e n\u00e3o tornei a escut\u00e1-lo no computador: deixei reservada sua redescoberta e aprecia\u00e7\u00e3o completa para quando me chegasse o CD (e por isso me esqueci completamente de Shabaka quando escrevi aquele texto no m\u00eas passado). Passou-se ent\u00e3o mar\u00e7o, abril, maio\u2026 Hav\u00edamos previsto a possibilidade de algum atraso no momento da compra pois o Covid-19 j\u00e1 andava por a\u00ed fazendo seus estragos, mas consideramos que ainda assim valia a pena, afinal, mesmo que desse tudo errado e o CD simplesmente se perdesse em meio ao caos da pandemia, ao menos j\u00e1 ter\u00edamos garantida sua vers\u00e3o digital e est\u00e1vamos ajudando um pequeno selo independente, coisa que nunca me restrinjo em fazer. E passou-se junho, julho, agosto\u2026 J\u00e1 d\u00e1vamos a remessa como perdida quando, certa manh\u00e3, inesperadamente, o carteiro nos aparece com o CD, que se torna imediatamente um talism\u00e3 aqui em casa. Temos escutado Shabaka e seus Ancestors com uma frequ\u00eancia quase man\u00edaca: a m\u00fasica \u00e9 incr\u00edvel (mais ainda do que eu lembrava), cheia de rumores de transcend\u00eancia e alegria, como se fosse a linguagem natural de uma irmandade antiqu\u00edssima, idioma e mitos transmitidos de gera\u00e7\u00e3o \u00e0 gera\u00e7\u00e3o na perseveran\u00e7a inabal\u00e1vel que os permite enxergar adiante da trag\u00e9dia deste mundo atual, ou ent\u00e3o encar\u00e1-la como alguma esp\u00e9cie de sacrif\u00edcio necess\u00e1rio para uma pr\u00f3xima etapa, e \u00e9 esta pr\u00f3xima etapa \u2014 a inevitabilidade de seu advento, ou de seu retorno, porque a impress\u00e3o que se tem \u00e9 que eles j\u00e1 a experimentaram antes em outras eras \u2014 \u00e9 esta etapa ou novo ciclo, inexor\u00e1vel, o que eles cantam e celebram. Definitivamente, o reverso da [presci\u00eancia melanc\u00f3lica de Michael Hedges](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_09_02_discos_do_mes_agosto_de_2020), cuja m\u00fasica n\u00e3o deixou de me fazer sentido, mas ganhou um p\u00f3lo, digamos, uma voz antagonista. (Sobre a m\u00fasica do Shabaka and the Ancestors em si, eu n\u00e3o sei rotul\u00e1-la: tem muitos elementos de m\u00fasica africana, isso \u00e9 evidente. Pouco importa; \u00e9 superior.)\r\n\r\n**The Comet Is Coming - The Afterlife**\r\n\r\nContinuando o relato: desde que *Wisdom of Elders* enfim chegou aqui em casa, descobri mais outras coisas sobre o l\u00edder dos Ancestors, Shabaka, que para efeito de identifica\u00e7\u00e3o mundana carrega tamb\u00e9m o sobrenome Hutchings. Descobri que ele tem uma outra banda chamada The Comet Is Coming, e a m\u00fasica desta \u00e9 algo de outro naipe, ainda que igualmente extra-terrena. Se eu j\u00e1 n\u00e3o sabia rotular o Shabaka And The Ancestors, o The Comet Is Coming saberei menos ainda: nela h\u00e1 uma grande mistura de g\u00eaneros e conven\u00e7\u00f5es, e parece haver tamb\u00e9m bastante trabalho e esfor\u00e7o coletivo, o contr\u00e1rio da m\u00fasica eminentemente espiritual e intuitiva dos Ancestors. Talvez a coisa caiba no balaio de gatos do \u201cfusion\u201d, essa dissipa\u00e7\u00e3o que em geral pouqu\u00edssimo me interessa (Chick Corea, Weather Report e similares), mas tampouco aqui esse manejo de voc\u00e1bulos tem qualquer relev\u00e2ncia. Creio que h\u00e1 ocasi\u00f5es em que \u00e9 importante \u201centender\u0022 o que se escuta, isso informa e enriquece a m\u00fasica, d\u00e1 perspectiva hist\u00f3rica etc., por\u00e9m, em outras ocasi\u00f5es, o som exige apenas sua viv\u00eancia plena, um esp\u00edrito atento e presente, e certamente \u00e9 este o caso do The Comet Is Coming. *The Afterlife* \u00e9 extremamente empolgante e movido por um impulso que persiste no ouvinte durante horas, talvez dias. \u00c9 m\u00fasica futur\u00edstica para o corpo e para a alma. Shabaka Hutchings j\u00e1 tem minha gratid\u00e3o eterna, e tenho certeza que para ele isso \u00e9 mais valioso do que os poucos euros que remeti em troca do CD dos Ancestors. (Descobri ainda outras coisas sobre Shabaka, que deixarei aqui entre par\u00eanteses pois n\u00e3o concernem aos discos citados: nascido em Londres, \u00e9 frequentemente alvo de compara\u00e7\u00f5es \u2014 infelizes; j\u00e1 explico \u2014 com o californiano Kamasi Washington, e talvez sim, talvez n\u00e3o, eu j\u00e1 o tenha visto em a\u00e7\u00e3o num palco pois ele fez parte por um breve per\u00edodo do Heliocentrics, banda que certa vez assisti ao vivo. Al\u00e9m do saxofone, Shabaka toca clarinete, e na inf\u00e2ncia morou por algum tempo na ilha de Barbados, cujos verdes e azuis eu tenho certeza que ainda s\u00e3o as cores predominantes em seus sonhos. No excessivo cinza de Londres, parece que Shabaka j\u00e1 \u00e9 celebrado como uma esp\u00e9cie de her\u00f3i, ao menos pela por\u00e7\u00e3o que n\u00e3o votou pelo Brexit, ou pela por\u00e7\u00e3o civilizada que n\u00e3o se preocupa com a cor das pessoas [o que, me parece, d\u00e1 no mesmo]\u2026 Finalmente, sobre a compara\u00e7\u00e3o com Kamasi: talvez seja inevit\u00e1vel para alguns pontos de vistas, para a narrativa cultural ou para as esperan\u00e7as comerciais, mas para mim \u00e9 improcedente. Kamasi me parece mais ortodoxo, uma esp\u00e9cie de professor que, n\u00e3o obstante o bom cora\u00e7\u00e3o, porta-se cheio de seriedade e rigorosidade, fala pausadamente sem olhar diretamente para aluno algum e n\u00e3o admite cochichos; Shabaka, no esp\u00edrito dessa met\u00e1fora, seria o aluno brilhante e petulante que logo deixa a escola e vai se virar sozinho, desinteressado das m\u00e9tricas e dos conceitos \u2014 o que ele precisa saber ele j\u00e1 o sabe desde sempre.)\r\n\r\n**Andris Nelsons \u0026 Filarm\u00f4nica de Viena - Beethoven: Sinfonia N. 4**\r\n\r\nDo sujeito que comp\u00f4s a Quinta e a Nona n\u00e3o se poder\u00e1 nunca dizer que sua melhor sinfonia \u00e9 a n\u00famero 4, ainda que talvez o pud\u00e9ssemos se o nome deste sujeito fosse qualquer outro que n\u00e3o Beethoven (ou Mahler). Pois esta mera n\u00famero 4 \u00e9 tamb\u00e9m magn\u00edfica, um mar que d\u00e1 uma vontade danada de subir num barco e ficar por l\u00e1 navegando para sempre, singrando sem latitudes nem longitudes na vastid\u00e3o sem fim, sem not\u00edcias da terra firme e muito menos dos pa\u00edses que se assentam sobre a terra firme. Ou\u00e7o-a na vers\u00e3o gravada recentemente pela Filarm\u00f4nica de Viena sob a reg\u00eancia do lat\u00e3o Andris Nelsons, como parte do meu calend\u00e1rio pessoal de [homenagens](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_02_18_dos_usos_e_beneficios_de_beethoven) aos 250 anos do nascimento de Beethoven. O infind\u00e1vel g\u00eanio alem\u00e3o por certo n\u00e3o pensava em nada disso ao comp\u00f4r suas sinfonias, em fazer delas ve\u00edculos para que os homens do futuro pudessem alienar-se do mundo por alguns descansados minutos: ele n\u00e3o tinha como prever o insistente e cansativo \u2014 e, frequentemente, sanguin\u00e1rio \u2014 bater de cabe\u00e7as que a civiliza\u00e7\u00e3o iria se tornar pouco a pouco. Se alguma intui\u00e7\u00e3o o levou \u00e0 implac\u00e1vel gravidade da Quinta, outra posterior a anulou (e anulou a amargura da surdez progressiva) e o fez utilizar o poema *Hino \u00e0 Alegria* de Schiller em sua \u00faltima sinfonia. Esta quarta, em todo o caso, segue mais a linha celebrat\u00f3ria da Nona: apesar do come\u00e7o algo sombreado, n\u00e3o demora para que a m\u00fasica sofra (e nos transmita) uma esp\u00e9cie de estremecimento que a (nos) deixa fora do mundo por alguns segundos, com os olhos vidrados e a respira\u00e7\u00e3o suspensa, e logo a seguir tem in\u00edcio uma corrida agitada, uma aventura no limiar do exultante, o movimento de uma euforia ou a euforia de uma movimento capaz de fazer o ouvinte sentir-se compungido acaso perceba, subitamente, jamais ter sentido em toda a sua vida alegria equivalente \u00e0 que Beethoven devia estar sentindo enquanto trabalhava nesta partitura, naquele long\u00edquo mundo de 1806. Eu creio j\u00e1 ter experimentado algo parecido, portanto n\u00e3o posso certificar tal possibilidade, e at\u00e9 mesmo cogito o efeito contr\u00e1rio: talvez este sentimento in\u00e9dito, rec\u00e9m descoberto, fa\u00e7a tal ouvinte entrar em \u00eaxtase ao ver nas paredes de sua casa a floresta encantada da m\u00fasica que invade seus ouvidos, e eu quase posso invej\u00e1-lo \u2014 creio que, de fato, invejo quem nunca escutou Beethoven com aten\u00e7\u00e3o e tem ainda diante de si a possibilidade desta descoberta, quem ainda est\u00e1 por desbravar o territ\u00f3rio desta floresta encantada, e tamb\u00e9m quem nunca escutou ao *Laughing Stock* do Talk Talk ou quem nunca leu aos poemas de Walt Whitman... Ser versado nestas obras e t\u00ea-las \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser t\u00e3o melhor assim do que ser para elas um completo desconhecido, um c\u00e2ndido ignorante de suas plagas e alegrias, e, por conseguinte, um principiante e um novo aventureiro em potencial. Seria como preferir ser adulto a ser crian\u00e7a, coisa que ainda estou para ouvir algum adulto sensato dizer.\r\n\r\n**Lang Lang - Bach: Goldberg Variations**\r\n\r\nNa \u00e1ria que abre a pe\u00e7a, Lang Lang n\u00e3o demonstra absolutamente pressa alguma, e isso, em geral, eu acho uma coisa boa. Uma coisa \u00f3tima. Mas n\u00e3o tem jeito: quem se apaixona pela partitura de Bach atrav\u00e9s das m\u00e3os miraculosas de Glenn Gould est\u00e1 fadado a n\u00e3o se contentar plenamente com a interpreta\u00e7\u00e3o de mais ningu\u00e9m. Junte-os todos: pegue os melhores pianistas a j\u00e1 terem encarado esta pe\u00e7a, coloque suas tentativas em um liquidificador e extraia delas o suco mais rico e saboroso que for poss\u00edvel, e este suco continuar\u00e1 sendo pouco mais do que \u00e1gua perto de qualquer uma das duas vers\u00f5es gravadas por Gould. \u00c9 impressionante, \u00e9 quase uma maldi\u00e7\u00e3o: sempre haver\u00e1 coisas fora do lugar, e compassos esquisitos, e hesita\u00e7\u00f5es, e toda sorte de pequenos vacilos ou m\u00e1 escolhas que os ouvidos adestrados por Gould n\u00e3o conseguem relevar. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de profici\u00eancia t\u00e9cnica ou de experi\u00eancia: me parece que as *Varia\u00e7\u00f5es Goldberg* s\u00e3o de Glenn Gould como pe\u00e7a alguma jamais pertenceu a um \u00fanico int\u00e9rprete em toda a hist\u00f3ria da m\u00fasica. Aos outros, restam o m\u00e9rito da bravura e a disputa para ver quem est\u00e1 menos distante de Gould.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":795,"title":"Voices like clear running water and single malt scotch","post_timestamp":"2020-09-28T01:32:43+00:00","url":"2020_09_27_voices_like_clear_running_water_and_single_malt_scotch","post":"John Frusciante sobre o disco *Confield* do Autechre:\r\n\r\n\u003E I discovered Autechre in 1998, so I was already really into them by the time they released *Confield* in 2001. I saw them for the first time on the tour for this album in L.A. That was a super-exciting, life-changing show for me. They were going real abstract. I grew up being a fan of people like Edgard Var\u00e8se and Iannis Xenakis and stuff like that. For me, it felt like I was at the modern equivalent of that. I looked around the audience and saw people trying to dance, but weren\u0027t sure where the beat was. There were people sitting on the floor with their heads in their hands. Others were just watching them. And I saw some people just closing their eyes and having their own experience. It wasn\u0027t like classical music where you\u0027re supposed to sit in your seat and just appreciate the music. Everyone was able to have a different kind of reaction to this thing we were hearing. I related it to classical music at the time. It was like they had really gone over the edge. It wasn\u0027t necessarily dance music anymore. Sometimes as a musician I have a fear of being too weird and alienated people, especially back in 2001. But when I saw that I was like, \u201cWow. Those guys are not scared at all\u201d. For me, they\u0027re the modern version of what in the Victorian age they would call courage or bravery or whatever. They go in the direction that their spirit leads them and they don\u0027t worry if people are going to understand it or not, and they put so much feeling into what they do, and the abstraction never gets in the way of the feeling. They\u0027re the musicians that I stand most in awe of. Where you see rock musicians just get worse and worse, or just get more distilled, Autechre just keep getting better. It\u0027s the kind of thing where I hear it and think, \u201cGod, I\u0027d love to be able to do that\u201d. Aaron and I have made a lot of music that has satisfied that part of me, where it\u0027s along those lines but man, there\u0027s no imitating Autechre. I don\u0027t have greater admiration for anybody else.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/thequietus.com\/articles\/28961-john-frusciante-maya-interview-red-hot-chili-peppers-favourite-music?page=12).)\r\n\r\nBetty Davis sobre Jimi Hendrix:\r\n\r\n\u003E (\u2026) I used to play Jimi really loud all the time in our apartment, so that\u2019s how Miles Davis was introduced to his music, just like I introduced him to Sly and Otis Redding. I remember I had Jimi and some people over our apartment for a Moroccan meal. Miles wasn\u2019t able to be there because he was working at a club. So, Miles called, and he said: \u201cPut Jimi on the phone\u201d. And Miles asked him to go over to the piano and read the sheet music and tell him what he thought. And Jimi said: \u201cI can\u2019t read music\u201d. The fact that Jimi couldn\u2019t read music, and he was that rhythmic, really impressed Miles. His understanding of what a musician was changed when he met Jimi.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/2020\/sep\/18\/jimi-hendrix-50th-anniversary-of-death-tributes-pixies-yes-love-new-thin-lizzy).)\r\n\r\nDylan Carlson sobre o disco *Here\u2019s the Tender Coming* das Unthanks:\r\n\r\n\u003E (\u2026) Two sisters from Northumberland with voices like clear running water and single malt scotch. Some of the slowest most mournful and lyrical songs ever put to tape or whatever recording method. Also an amazing violinist, drummer and assorted other musicians. The song *Here\u2019s the Tender Coming*, about geordies being press-ganged into military service in the Royal Navy is one of the most beautifully elegiac things I have ever been fortunate to hear in my short life. The violin part makes me weep like a small child.\r\n\r\n(Copiado [daqui](https:\/\/thequietus.com\/articles\/08027-dylan-carlson-earth-favourite-albums?page=12).)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"The Unthanks em foto de autor desconhecido, copiada [aqui](https:\/\/www.alnwickplayhouse.co.uk\/event\/the-unthanks-2020-tour\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":794,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2020","post_timestamp":"2020-09-02T18:51:04+00:00","url":"2020_09_02_discos_do_mes_agosto_de_2020","post":"**Michael Hedges - Taproot**\r\n\r\nS\u00e3o irresist\u00edveis estes discos do Michael Hedges. N\u00e3o nego que o sentimentalismo encharcado de sua m\u00fasica chega a resvalar perigosamente no brega, principalmente a partir de seu terceiro disco, *Watching My Life Go By* (1985), quando ele come\u00e7ou a cantar em suas grava\u00e7\u00f5es (os dois primeiros \u00e1lbuns s\u00e3o completamente instrumentais), mas nada disso me incomoda, antes o contr\u00e1rio \u2014 \u00e9 parte essencial do encanto desta m\u00fasica que ficou calcificada no tempo. Antes de morrer em um acidente de carro em 1997, Hedges nos deixou um punhado de discos que s\u00e3o como b\u00e1lsamos para o esp\u00edrito. N\u00e3o sei dizer qual meu preferido: os dois primeiros, *Breakfast in the Field* (1981) e *Aerial Boundaries* (1984), s\u00e3o obras-primas inequ\u00edvocas para quem gosta do som humano e caloroso do viol\u00e3o; o quarto, *Taproot*, de 1993, tem Hedges cantando um poema de E. E. Cummings na faixa que \u00e9, possivelmente, minha favorita dentre todas as que j\u00e1 ouvi de sua discografia. S\u00e3o todos discos que me tocam muito. H\u00e1 ainda, eu n\u00e3o poderia deixar de sublinhar, os pontos de contato de sua m\u00fasica com a New Age, g\u00eanero ou sub-g\u00eanero ou extravag\u00e2ncia pela qual, como sabem os que ocasionalmente me l\u00eaem por aqui, morro de amores inexplic\u00e1veis e incorrig\u00edveis. Mas n\u00e3o se trata da New Age cl\u00e1ssica que todos n\u00f3s que est\u00e1vamos neste planeta durante os anos 80 nos lembramos (os mais ajuizados talvez j\u00e1 tenham tido sucesso em seus esfor\u00e7os de esquec\u00ea-la); trata-se de algo mais rarefeito por um lado e mais depurado por um outro, um b\u00e1lsamo que, a despeito das qualidades terap\u00eauticas, abriga tamb\u00e9m uma s\u00e9ria contraindica\u00e7\u00e3o: se aplicado com muita aten\u00e7\u00e3o e muito afinco, em especial por aqueles mais vulner\u00e1veis, a nota melanc\u00f3lica presente em quase todas as can\u00e7\u00f5es pode rapidamente passar a ser interpretada como uma esp\u00e9cie de presci\u00eancia, uma compreens\u00e3o antecipada de nosso destino, como se Hedges houvesse plantado uma mensagem cifrada em pleno interior das promessas da New Age, negando-as todas, desmentindo-as todas, e c\u00e1 estamos n\u00f3s finalmente em condi\u00e7\u00f5es de decodificar tal mensagem enquanto nos defrontamos com o nosso destino. O efeito disso, nesses dias que correm, \u00e9 incerto. Mas pode ser que eu esteja exagerando; talvez seja esta uma interpreta\u00e7\u00e3o impactada por alguns dias extenuantes. Em todo o caso, recomendo parcim\u00f4nia na aprecia\u00e7\u00e3o desta m\u00fasica: que fique reservada para alguns poucos momentos mais especiais, fins de tarde em que n\u00e3o se esteja muito cansado, com um p\u00f4r do sol radiante como fundo de abertura e um cair da noite suave como desfecho.\r\n\r\n**Michael Formanek - The Rub and Spare Change**\r\n\r\nDiferente do que acontece com os outros g\u00eaneros musicais com que sinto afinidades, em se tratando de jazz eu costumo escutar quase que exclusivamente aos mesmos velhos grupos e artistas de sempre, e dificilmente saio em busca de coisas novas. Monk, Miles, Coltrane, Charlie Haden, Cecil Taylor, Keith Jarrett, Alice Coltrante, Pharoah (que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s eu achava que se escrevia Pharaoh) Sanders, Ornette Coleman, Dave Brubeck, Vince Guaraldi, Sun Ra\u2026 Essas figuras tarimbadas comp\u00f5em e delimitam meu universo jazz\u00edstico, e as exce\u00e7\u00f5es que me ocorrem \u2014 os artistas contempor\u00e2neos cujos lan\u00e7amentos eu tento acompanhar \u2014 s\u00e3o pouqu\u00edssimos: John Surman, Jan Garbarek, Avishai Cohen e os grupos Time Is a Blind Guide e Necks, creio que sejam apenas estes, fazendo-se as ressalvas de que o Necks talvez j\u00e1 n\u00e3o possa mais ser enquadrado em g\u00eanero algum e que Surman e Garbarek n\u00e3o s\u00e3o exatamente garot\u00f5es e poderiam muito bem estar no grupo dos veteranos citados antes (Garbarek, inclusive, tem discos gravados em parceria com Keith Jarrett, e \u00e9 apenas dois anos mais novo do que ele; um numa lista e outro na outra n\u00e3o \u00e9, contudo, arbitrariedade total: tenho a impress\u00e3o que Garbarek [e Surman] cabem melhor no cap\u00edtulo mais contempor\u00e2neo do jazz, aquele dos personagens que j\u00e1 usufruem das trilhas abertas anteriormente pelos pioneiros). Fora estes, somados talvez a dois ou tr\u00eas outros que falhei em recordar, eu n\u00e3o costumo ir atr\u00e1s de novidades, mas acontece vez ou outra de me passar pela frente algo cujos ind\u00edcios me deixam curioso, e resolvo arriscar. Exemplo recente \u00e9 este incr\u00edvel *The Rub and Spare Change*. Um disco de jazz moderno, quando \u00e9 bom, geralmente \u00e9 assim: altamente inventivo e incans\u00e1vel. Assim o s\u00e3o, tamb\u00e9m, os dois discos do Time Is a Blind Guide citado acima; j\u00e1 o noruegu\u00eas Trygve Seim, cujo disco *Helsinki Songs* escutei dias atr\u00e1s, esse eu achei de uma sensaboria total. Trygve tem uma [apar\u00eancia singular](https:\/\/i.scdn.co\/image\/155a0095f06b1353916848f5c9a2f8be78cc3692), poderia perfeitamente passar por membro de uma banda de post metal ou coisa do g\u00eanero, aquele que sempre aparece nas fotos trajando uma camiseta velha do Rainbow e uma lata de cerveja na m\u00e3o. Poderia ser roadie do High on Fire ou do Neurosis, ou o camarada que testa os microfones e as guitarras antes do show come\u00e7ar. Ou talvez, quem sabe, Trygve more numa cabana isolada com vista privilegiada para lagos, montanhas e auroras boreais, cen\u00e1rio onde sua m\u00fasica \u2014 e qualquer outra \u2014 deve soar muito especial\u2026 Seu nome e nacionalidade suscitam essas curiosidades e especula\u00e7\u00f5es todas, mas sua m\u00fasica, francamente, me desapontou. Michael Formanek, embora seja [apenas um Michael qualquer](https:\/\/cdn2.jazztimes.com\/2016\/03\/MichaelFormanek4.jpeg), faz algo que achei muit\u00edssimo melhor. Que tipo de coisa ser\u00e1 que Formanek v\u00ea das janelas de sua casa? Ou ser\u00e1 apenas uma quest\u00e3o de heran\u00e7as, de consanguinidade? Seja l\u00e1 o que for, adicionei Formanek ao time dos jazzmen contempor\u00e2neos que acompanho com interesse.\r\n\r\n**V\u00e1rios - The Wandering II Compilation**\r\n\r\n[Tr\u00eas horas e meia](https:\/\/silentseason.bandcamp.com\/album\/the-wandering-ii-compilation) de desterro total, de paz e alegria, ou algo alheio \u00e0 paz e \u00e0 alegria e aos seus opostos, o que provavelmente \u00e9 ainda melhor.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":793,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2020","post_timestamp":"2020-08-01T19:51:56+00:00","url":"2020_08_01_discos_do_mes_julho_de_2020","post":"**Talk Talk - Laughing Stock**\r\n\r\nMeu assombro diante das seis faixas deste disco \u00e9 inesgot\u00e1vel e renovado sempre a cada audi\u00e7\u00e3o, por isso pe\u00e7o v\u00eania para cit\u00e1-lo c\u00e1 novamente. A intermit\u00eancia desta m\u00fasica, seus momentos de indecis\u00e3o e de tibieza; a voz permanentemente vacilante de Mark Hollis, que \u00e0s vezes surge do nada, \u00e0s vezes desaparece no nada; a aus\u00eancia de melodias e de quaisquer outras formas de convic\u00e7\u00e3o, o que faz dela uma esp\u00e9cie distinta de m\u00fasica, uma esp\u00e9cie que parece que s\u00f3 pode se realizar plenamente no \u00edntimo de quem a ouve com aten\u00e7\u00e3o\u2026 De toda essa delicadeza e de seus caminhos errantes (imposs\u00edveis de serem memorizados) emana uma beleza milagrosa, um enlevo que nunca falha em me deixar emocionado. Confesso sem vergonha nenhuma: muito frequentemente eu tenho vontade de chorar enquanto escuto a este disco, \u00e0 sua m\u00fasica fr\u00e1gil e ao mesmo tempo profundamente viva, viva e comovente como um rec\u00e9m-nascido \u2014 m\u00fasica que pare\u00e7a corroborar um dos poemas que emolduram o filme *Stalker*, de Andrei Tarkovsky (poemas escritos pelo pai do diretor, Arseny), aquele que afirma serem atributos da vida a fraqueza e a debilidade, enquanto que a for\u00e7a e a dureza est\u00e3o ligados, na verdade, \u00e0 morte. Quem, com alguma experi\u00eancia neste mundo atroz, pode negar a evidente verdade disto? \u00c9 bem prov\u00e1vel que, na contabilidade final da minha vida, as horas passadas escutando a este disco correspondam a mais da metade das melhores e mais ben\u00e9ficas de todas as minhas horas.\r\n\r\n**Jan Garbarek - I Took Up the Runes**\r\n\r\nAos meus ouvidos, muitos dos discos de Jan Garbarek soam como que revanches triunfantes da New Age. Garbarek \u00e9 um m\u00fasico de alt\u00edssimo gabarito, com uma discografia extensa e repleta de parcerias com mestres como Keith Jarrett, George Russell, Charlie Haden, al\u00e9m de grava\u00e7\u00f5es de m\u00fasica erudita com o Hilliard Ensemble (uma m\u00fasica ser\u00edssima que faz gelar o sangue), e, apesar deste curr\u00edculo, em muitos dos trabalhos em que seu nome figura como artista principal h\u00e1 uma atmosfera New Age inconfund\u00edvel, transl\u00facida, reluzente. Ser\u00e1 uma casualidade nascida de escolhas pouco ortodoxas em termos de arranjos e instrumentos, anomalia involunt\u00e1ria que devemos perdoar a Garbarek? (Sua recorr\u00eancia provavelmente invalida essa hip\u00f3tese.) Ou ser\u00e1 que a New Age permanece realmente viva em algumas mentes e cora\u00e7\u00f5es, condoendo-se daqueles que debocharam dela e o resultado deste desd\u00e9m antigo e generalizado est\u00e1 a\u00ed, hoje, escancarado na carrranca grotesca dos l\u00edderes que elegemos, nas florestas destru\u00eddas, no futuro exterminado\u2026 ? Bem, talvez seja tudo um grande engano meu \u2014 talvez Garbarek seja apenas noruegu\u00eas.\r\n\r\n**Yes - Going for the One**\r\n\r\nDas coisas esquisitas da pandemia: tenho escutado aos discos do Yes! Sim, Yes, sempre a banda que imediatamente me vem \u00e0 mente quando quero fazer algum coment\u00e1rio venenoso contra o rock progressivo: \u201ccomo gostar deste g\u00eanero se ele produziu coisas como Yes?\u201d. Mas isso \u00e9 apenas o meu lado maldoso; sempre fui capaz de ouvir um ou outro disco do grupo. *Close to the Edge* \u00e9 algo que merece ser explorado com aten\u00e7\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o aberto: estabelecidas as devidas condi\u00e7\u00f5es de press\u00e3o e temperatura, ele pode lhe transportar para um mundo bastante exc\u00eantrico e divertido de se habitar por pelo menos algumas horas (e o trecho ac\u00fastico inicial de *And You and I* \u00e9, evidentemente, bem mais do que isso). S\u00e3o muitos os discos do Yes que ainda n\u00e3o escutei, e *Going for the One* era um deles at\u00e9 a semana passada. Algo me fazia pensar \u2014 sua capa, provavelmente, t\u00e3o desinteressante se comparada \u00e0s outras \u2014 que este j\u00e1 seria um disco de uma outra fase do Yes que n\u00e3o poderia nunca me interessar, a banda entrando nos anos 80 e se adaptando a sonoridades mais convencionais para n\u00e3o virar uma piada, iniciando sua vers\u00e3o da crise de identidade pela qual qual tantas outras bandas passaram naquela \u00e9poca, e nem todas s\u00e3o o Rush para sobreviver a isso, para sobreviver aos ternos com ombreiras e tudo mais. Pois bem, este disco n\u00e3o \u00e9 nada disso; *Going for the One* \u00e9 ainda o Yes borbulhante e lis\u00e9rgico dos anos 70, imaginativo e delirante, que exige alguma boa vontade do ouvinte para sua frui\u00e7\u00e3o, sim, mas nem de longe algo muito superior \u00e0 pr\u00e9-disposi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 possui qualquer um que se senta para dar *play* e escutar a um disco do Yes. Decidi, no fim das contas, parar de fazer piadas com o Yes. Mas como a pandemia ainda vai longe e ainda tenho muitos outros discos da banda para descobrir, \u00e9 bem prov\u00e1vel que eu volte a faz\u00ea-las futuramente.\r\n\r\n**Iron Maiden - The X Factor**\r\n\r\nCalculo que os f\u00e3s de Iron Maiden que gostam do *The X Factor* sejam pessoas inscritas numa minoria menor do que a dos f\u00e3s do Metallica que gostam do *Load* e at\u00e9 mesmo que a dos f\u00e3s do Black Sabbath que gostam dos discos que n\u00e3o possuem nem Ozzy e nem Dio e nem mesmo Ian Gillan como vocalista. Ou seja: \u00e9 pouqu\u00edssima gente. (E \u00e9 bem prov\u00e1vel que o grupo de pessoas inscritas simultaneamente nestas tr\u00eas minorias seja s\u00f3 eu mesmo...) O que dizer ent\u00e3o do fato de que n\u00e3o apenas eu gosto do *The X Factor*, mas gosto *muito* deste disco, e o tenho como um dos meus cinco favoritos da banda? Pois \u00e9 verdade, e n\u00e3o escrevo sob a influ\u00eancia de droga nem bebida alguma. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o caso de ser f\u00e3 do Blaze Bayley, o infeliz que teve o azar \u2014 poderia ter sido uma grande sorte, mas n\u00e3o, foi s\u00f3 um tremendo azar mesmo \u2014 de substituir o mais amado de todos os vocalistas do heavy metal, Bruce Dickinson, na mais amada de todas as bandas, quando esta se viu subitamente sem seu frontman em 1993; n\u00e3o, longe disso, e o demonstro declarando que o segundo (e \u00faltimo) disco lan\u00e7ado com Blaze empunhando o microfone, *Virtual XI*, \u00e9 um enorme constrangimento, o pior de todos os discos do cat\u00e1logo do Maiden. Ou seja, meu gosto pelo *The X Factor* \u00e9 genu\u00edno, \u00e9 admira\u00e7\u00e3o verdadeira pelas suas m\u00fasicas e pelo \u00e1lbum como um todo, e a voz de Blaze \u00e9 apenas um de seus componentes, algo que, isoladamente, n\u00e3o me chama aten\u00e7\u00e3o e tampouco me ofende. Trata-se, neste disco, de um Maiden um pouco menos bomb\u00e1stico, de produ\u00e7\u00e3o esmerada e faixas que evoluem lenta e gradualmente, mais contidas e mais sombrias, recheadas de tens\u00e3o e escurid\u00e3o. Resulta disso uma sonoridade e uma atmosfera que eu adoro, contaminada desde o come\u00e7o pela arte t\u00e9trica que estampa sua capa \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[[1]](#f1)\u003C\/span\u003E, e no meu pequeno mundo paralelo faixas como *Sign of the Cross*, *Fortunes of War* e *Blood on the World\u0027s Hands* s\u00e3o cl\u00e1ssicos indiscut\u00edveis. Pena que a recep\u00e7\u00e3o ao \u00e1lbum foi p\u00e9ssima (lembro de uma resenha na revista Bizz anunciando que a \u201cdonzela\u201d havia morrido e tinham esquecido de enterr\u00e1-la) e da\u00ed seguiu-se o desastre de *Virtual XI*; da\u00ed, o fim da era Blaze e a volta de Dickinson em 1999. Nada disso, a bem da verdade, \u00e9 muito surpreendente: trata-se, afinal, da banda que durante anos sustentou seus f\u00e3s com um dieta composta de *The Trooper*, *Aces High* e *Run to the Hills*. Ao menos os discos seguintes com Bruce Dickinson de volta ao grupo s\u00e3o muito bons e at\u00e9 resgatam, vez ou outra, as experi\u00eancias de *The X Factor* (sem maiores protestos por parte dos f\u00e3s, pelo que me consta).\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E[1]\u003C\/b\u003E: Possivelmente a menos c\u00f4mica de todas as capas do Iron Maiden. Claro que todas o s\u00e3o \u2014 intencionalmente ou n\u00e3o \u2014 mas nesta a vontade de rir n\u00e3o \u00e9, me parece, o que logo acomete quem a olha. H\u00e1 bastante coisa desconfort\u00e1vel nela. Na percep\u00e7\u00e3o da maioria dos f\u00e3s da banda, no entanto, por n\u00e3o ser explicitamente c\u00f4mica (e por ser o disco o que \u00e9), a capa de *The X Factor* deve ser apenas \u201ccomicamente ruim\u201d, enquanto que a capa de um, digamos, *Powerslave* seja algo muito s\u00e9rio e cheio de significados... [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":792,"title":"Heavy metal roundup, Vol. II","post_timestamp":"2020-07-09T04:16:03+00:00","url":"2020_07_08_heavy_metal_roundup_vol_ii","post":"**Denial of God - The Horrors of Satan**\r\n\r\nO que estes perspicazes dinamarqueses fazem \u00e9 algo que eu gostaria de ouvir mais ami\u00fade: black metal (ou \u0022black horror metal\u0022, como eles mesmos preferem chamar) que se leve menos a s\u00e9rio, que seja um pouco menos r\u00edspido e excruciante. *The Horrors of Satan* (que \u00e9 o primeiro \u00e1lbum do Denial of God, lan\u00e7ado em 2006, mas acaba de ter uma reedi\u00e7\u00e3o em vinil) causa menos enxaquecas ao diluir a aridez tradicional do g\u00eanero em doses generosas de teatralidade *a la* King Diamond: n\u00e3o faltam hist\u00f3rias sobre vampiros e lobisomens, vozes m\u00faltiplas interpretando diferentes personagens, \u00f3rg\u00e3os e sinos, as famigeradas gargalhadas macabras. \u00c9 divers\u00e3o para toda a fam\u00edlia.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=4007081645\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/denial-of-god.bandcamp.com\/album\/the-horrors-of-satan\u0022\u003EThe Horrors of Satan by DENIAL OF GOD\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n**Ka\u2019tzon La\u2019tevach - Demo**\r\n\r\nEstes israelenses, que parecem estar muito, mas realmente muito contrariados e enfurecidos, eu os descobri na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da [The Month In Metal](https:\/\/www.stereogum.com\/category\/franchises\/columns\/the-black-market\/), coluna publicada mensalmente no site [Stereogum](https:\/\/www.stereogum.com\/) e cujo t\u00edtulo \u00e9 auto-explicativo. Se nada do que tem acontecido nesse pa\u00eds desgra\u00e7ado em que vivemos \u00e9 suficiente para lhe deixar furibundo, escute \u00e0 demo do Ka\u2019tzon La\u2019tevach e junte-se \u00e0 n\u00f3s.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1780581065\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/katzonlatevach.bandcamp.com\/album\/demo\u0022\u003EDEMO by KA\u0026#39;TZON LA\u0026#39;TEVACH\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n**Paganizer - The Tower of the Morbid**\r\n\r\nAqui n\u00e3o tem inova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem surpresa, n\u00e3o tem firula: 40 avassaladores minutos de death metal xucro vindo l\u00e1 do norte do Velho Mundo \u2014 o mesmo naco de terra que nos deu Ingmar Bergman e Roxette.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1559428810\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/paganizer.bandcamp.com\/album\/the-tower-of-the-morbid-death-metal\u0022\u003EThe Tower of the Morbid (Death Metal) by PAGANIZER (Sweden)\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n**Mylingar - D\u00f6da Sj\u00e4lar**\r\n\r\nSe discos fossem lugares, haveria um lugar que fosse este disco neste nosso planeta? 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Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":791,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2020","post_timestamp":"2020-07-04T18:51:51+00:00","url":"2020_07_04_discos_do_mes_junho_de_2020","post":"**Elbow - Little Fictions**\r\n\r\nAt\u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 mal dito o que eu disse [antes](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_04_03_discos_do_mes_marco_de_2017) a respeito deste disco do Elbow, mas como ele praticamente monopolizou nossa vitrola nos \u00faltimos dias, e deixou uma penca de outros discos recostados ali perto pegando poeira \u2014 uma sequ\u00eancia de audi\u00e7\u00f5es que havia sido planejada mas at\u00e9 j\u00e1 perdeu o sentido, discos do Hawkwind, do Led Zeppelin e do Sleep que v\u00e3o voltar amuados para as estantes \u2014 \u00e9 minha obriga\u00e7\u00e3o ent\u00e3o comentar algo breve sobre ele. Breve e ousado: \u00e9 o melhor disco do Elbow, n\u00e3o? Melhor at\u00e9 do que o excepcional *A Cast of Thousands*, que eu achava que seria para sempre o meu favorito da banda, insuper\u00e1vel; melhor at\u00e9 do que o festejado *The Seldom Seen Kid*, que ganhou n\u00e3o sei qu\u00ea pr\u00eamios, que ganhou vers\u00e3o com orquestra e o diabo a quatro, e que \u00e9 de fato um disco muito bom, por\u00e9m um pouco bomb\u00e1stico para o meu gosto hoje em dia\u2026 Este *Little Fictions*, por outro lado, \u00e9 de um fineza quase sem falhas. Cada faixa \u00e9 uma p\u00e9rola cheia de personalidade e delicadeza, m\u00fasicas que basta apenas uma audi\u00e7\u00e3o de cada para que fa\u00e7am morada prolongada em nossos pensamentos. Mas o que eu gostaria de saber \u00e9: que banda lan\u00e7a o seu melhor disco ao faz\u00ea-lo pela s\u00e9tima vez? Antigamente isso era comum \u2014 o melhor disco dos Beatles deve ser seu d\u00e9cimo-quinto ou d\u00e9cima-sexto; o dos Stones \u00e9 algo entre o seu d\u00e9cimo e o seu vig\u00e9simo, j\u00e1 que ningu\u00e9m sabe direito a ordem dos discos da banda, mas qualquer um daqueles lan\u00e7ados entre 1965 e 1975 pode ser o melhor \u2014, por\u00e9m hoje em dia os grupos de rock com f\u00f4lego para lan\u00e7ar coisas verdadeiramente relevantes a partir do terceiro \u00e1lbum s\u00e3o as exce\u00e7\u00f5es dentre as exce\u00e7\u00f5es. O Elbow, alheio \u00e0s insufici\u00eancias de seus contempor\u00e2neos e \u00e0 volubilidade da m\u00fasica pop de nossa \u00e9poca, parece que vai melhorando \u00e0 medida que envelhece, o que refor\u00e7a a impress\u00e3o de que se trata de uma banda especial, uma banda fora de seu tempo.\r\n\r\n**Melvins \u0026 Mudhoney - White Lazy Boy**\r\n\r\nE olha quem deu o ar da gra\u00e7a: o Melvins! Dia desses eu me perguntava se King Buzzo n\u00e3o teria sido v\u00edtima do Covid-19, afinal, entre 2010 e 2018 foram nada mais nada menos do que oito os LPs (sem contar uns tantos EPs) lan\u00e7ados pela melhor banda j\u00e1 surgida em Seattle, EUA, mas depois disso, da casa malucona onde reside a fam\u00edlia Melvin, por algum tempo s\u00f3 se ouviu um enorme e inquietante sil\u00eancio sepulcral, algo com que nenhum f\u00e3 da banda est\u00e1 acostumado. (Se o Covid tivesse de fato nos levado Buzzo, \u201csil\u00eancio sepulcral\u201d n\u00e3o seria apenas met\u00e1fora\u2026) Minhas desinforma\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o, no entanto, foram breves: logo descobri que Buzzo lan\u00e7ou h\u00e1 pouco um [disco solo](https:\/\/www.discogs.com\/King-Buzzo-Trevor-Dunn-Gift-of-sacrifice\/release\/15444295) e agora temos este EP gravado junto com o Mudhoney. \u00c9 uma esp\u00e9cie de nova banda, na verdade: Mark Arm e Steve Turner do time Mudhoney e King Buzzo e Dale Crover do time Melvins, refor\u00e7ados por Steve McDonald do Redd Kross, tocam juntos nas quatro faixas deste pequeno disco, sendo que duas delas s\u00e3o covers: *My War* do Black Flag e *Drive Back* do Neil Young. *My War* abre os trabalhos botando tudo abaixo sem reserva alguma, com Mark Arm se esgoelando de um jeito como poucas vezes o escutei fazer antes. Se ele cantasse sempre assim eu certamente seria mais f\u00e3 do Mudhoney\u2026 *Walking Crazy* eu desconfio que seja composi\u00e7\u00e3o da lavra de King Buzzo \u0026 cia pois lembra muito a faceta bronco-esquisitona mais dominante na discografia do Melvins l\u00e1 pelo come\u00e7o dos anos 2000. *Ten Minute Visitation* tem mais cara de Mudhoney no seu modo curti\u00e7\u00e3o rock \u2019n\u2019 roll habitual e *Drive Back* na voz de King Buzzo (acho que Arm canta com ele; n\u00e3o d\u00e1 de ter certeza, a voz de Buzzo domina quase tudo) ficou muito boa, ainda que uma m\u00fasica de Neil Young sem as guitarras de Neil Young ser\u00e1 sempre, antes de qualquer coisa, algo esp\u00fario. A coisa toda \u00e9 bastante curta, possivelmente insatisfat\u00f3ria para aqueles que se tornaram mal-acostumados com incontin\u00eancia fonogr\u00e1fica do Melvins\u2026 Mas, ao menos, \u00e9 bom saber que eles est\u00e3o vivos.\r\n\r\n**V\u00e1rios - What Is This That Stands Before Me?**\r\n\r\nDentre os muitos discos-tributos lan\u00e7ados em homenagem ao Black Sabbath que eu j\u00e1 escutei, [este](https:\/\/sacredbonesrecords.bandcamp.com\/album\/what-is-this-that-stands-before-me) \u00e9 o melhor de todos. Compilado pela Sacred Bones Records a partir do seu elenco de bandas, *What Is This That Stands Before Me?* mistura g\u00eaneros e at\u00e9 mesmo idiomas, e o resultado \u00e9 sensacional. O milagre original da m\u00fasica do Sabbath \u00e9 em boa parte respons\u00e1vel por isso, evidentemente, mas os artistas e suas abordagens tamb\u00e9m muito contribuem. Tem Marissa Nadler em bel\u00edssima vers\u00e3o arcana de *Solitude*; Zola Jesus transformando *Changes* em um g\u00e9lido e (mais) amargurado poema, recitado com vagar e agora tornado dela em definitivo (destino inevit\u00e1vel, suspeito, de qualquer coisa que seja cantada pela magn\u00edfica voz de Zola Jesus); uma vers\u00e3o eletr\u00f4nica (praticamente dance music) de *Heaven \u0026 Hell*, cantada em russo, que \u00e9 a coisa mais distante poss\u00edvel da m\u00fasica original, e t\u00e3o boa quanto; tem at\u00e9 mesmo, pasm\u00e9m!, metal bruto com a vers\u00e3o do Thou para *Supernaut*. Aproveitando o gancho: *Supernaut* \u00e9 uma das m\u00fasicas que justificam plenamente o meu uso do termo \u201cmilagre\u0022 algumas linhas acima, n\u00e3o \u00e9 verdade? Como descrever a gl\u00f3ria expansiva e desvairada que \u00e9 esta m\u00fasica? E s\u00e3o muitos os prod\u00edgios semelhantes no cat\u00e1logo da banda \u2014 em especial, naqueles seis primeiros discos lan\u00e7ados entre 1970 e 1975. O portento inigual\u00e1vel destes primeiros \u00e1lbuns do Black Sabbath n\u00e3o cessa de me assombrar. Eu li a biografia que Mick Wall escreveu sobre o Sabbath; \u00e9 espantosa a hist\u00f3ria sobre os prim\u00f3rdios da banda, a hist\u00f3ria daqueles jovens med\u00edocres \u2014 o talento maior, sem d\u00favida, sempre foi o de Iommi, por\u00e9m justamente ele se revela o mais cretino do grupo \u2014, quatro vadios suburbanos \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[[*]](#f1)\u003C\/span\u003E aparentemente desprovidos de qualquer coisa sequer pr\u00f3xima \u00e0 genialidade que seria razo\u00e1vel supor ser necess\u00e1ria para a inven\u00e7\u00e3o de uma m\u00fasica t\u00e3o deslumbrante e cultuada\u2026 E, no entanto, \u00e9 isso mesmo, aqueles quatro vadios \u2014 em cujos futuros, antes da m\u00fasica, s\u00f3 se vislumbrava encrenca e pris\u00e3o, ou coisa pior \u2014 inventaram essa m\u00fasica e compuseram e gravaram estes \u00e1lbuns miraculosos. A biografia de Wall explica algumas coisas, elabora alguns contextos, por\u00e9m a hist\u00f3ria toda permanece em boa parte um maravilhoso mist\u00e9rio para mim.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E[*]\u003C\/b\u003E A Sacred Bones fez excelente servi\u00e7o ao utilizar na [capa do disco](https:\/\/f4.bcbits.com\/img\/a1159565542_16.jpg) uma imagem que posiciona a m\u00fasica do Sabbath em meio a carros, pr\u00e9dios, etc. Embora recorra vez ou outra a elementos de fantasia \u2014 e por isso as tradicionais capas retratando monstros e castelos, vide [esta da Earache](https:\/\/www.discogs.com\/pt_BR\/Various-Masters-Of-Misery-Black-Sabbath-An-Earache-Tribute\/master\/26373) \u2014 a m\u00fasica do Sabbath sempre teve, para mim, um intenso sabor urbano, o sabor acre das cidades pequenas inglesas, o palco tristonho e descolorido da vida das classes baixas trabalhadoras do mundo p\u00f3s-industrial e suas formas atenuadas de escravid\u00e3o. Toda a variada tem\u00e1tica das letras das m\u00fasicas do Sabbath, na verdade, pode bem ser resumida assim: qualquer coisa que os fizesse momentaneamente escapar da realidade do mundo em que viviam, mundo que, n\u00e3o obstante, por conta do que revelam esta fuga e este desespero (e o restrito talento deles para as letras\u2026), n\u00e3o cessa de estar presente nas sombras da m\u00fasica da banda. [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":790,"title":"1996","post_timestamp":"2020-06-30T20:53:59+00:00","url":"2020_06_30_1996","post":"Lembro-me de uns dias l\u00e1 pelo come\u00e7o do ano em que eu andava feliz com as not\u00edcias sobre os novos discos de duas das minhas bandas de rock mais queridas, o Pearl Jam e o Midnight Oil. (Eu ia escrever \u0022mais queridas da juventude\u201d, mas a quem eu enganaria?) N\u00e3o havia porque resistir \u00e0quela alegria simples e sincera, e pondera\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias acerca de sua pertin\u00eancia \u2014 dada a calamidade em que este pa\u00eds se transformou \u2014 eu consegui obliterar e assim preservar mais ou menos intacto meu direito ou ilus\u00e3o de goz\u00e1-la (a alegria) plenamente, quase como se estiv\u00e9ssemos ainda em 1996, como se n\u00e3o viv\u00eassemos ainda a era das realidades paralelas e fascistas no poder fossem apenas a lembran\u00e7a dos t\u00f3picos mais t\u00e9tricos das aulas de hist\u00f3ria de alguns anos antes, duas ou tr\u00eas vezes por semana, sem d\u00favida as melhores de toda a minha vida escolar. (O professor, Renato era o nome dele, chegava em um Fusca um minuto antes da aula come\u00e7ar; fazia o trajeto da rua para a classe enfiando a camiseta para dentro das cal\u00e7as, botava para dentro da sala os alunos que o esperavam do lado de fora \u2014 \u201cdispenso comit\u00ea de recep\u00e7\u00e3o\u201d, dizia com meio-sorriso \u2014, jogava as chaves do carro sobre a mesa, perguntava para algu\u00e9m em que ponto hav\u00edamos parado na aula anterior e iniciava. Ele n\u00e3o trazia livros ou anota\u00e7\u00f5es, era s\u00f3 no giz e no gog\u00f3.) O disco do Pearl Jam j\u00e1 veio ao mundo e \u00e9 \u00f3timo, conforme dei minha opini\u00e3o por aqui dia desses; o do Midnight Oil \u2014 que talvez sejam [dois](https:\/\/tonedeaf.thebrag.com\/midnight-oil-politically-charged-new-albums-2020\/) \u2014 ainda \u00e9 o agrad\u00e1vel enigma dos discos n\u00e3o-lan\u00e7ados, ainda \u00e9 apenas espera e promessa, e bem que assim, pensava eu dia desses, assim sem ter sequer t\u00edtulo e data de lan\u00e7amento anunciados \u2014 mas j\u00e1 ocupando seu espa\u00e7o em minhas expectativas e em minha imagina\u00e7\u00e3o \u2014 poderia ele permanecer por mais algum tempo indefinido, para que aquela pequena e persistente cintila\u00e7\u00e3o de alegria do come\u00e7o do ano perdure mais um pouco\u2026 \r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\nAguardar com alegria e esperan\u00e7as o lan\u00e7amento de um disco \u00e9 (no mais condescendente dos julgamentos) uma min\u00facia, eu reconhe\u00e7o, dessas a que temos nos apegado para aliviar um pouco o fardo do ac\u00famulo de Brasil em nossas mentes. Ocorre que aos objetos destas min\u00facias, \u00e0s vezes, o tempo se encarrega de atribuir algum vulto, ou significado. Dias atr\u00e1s eu escutava ao *New Adventures in Hi-fi* (lan\u00e7ado naquele inesquec\u00edvel 1996 que nos deu tamb\u00e9m o *No Code* do Pearl Jam e o *Breathe* do Midnight Oil) e constatava com uma destas certezas s\u00fabitas e absolutas \u2014 destas que, embora todos os sinais necess\u00e1rios para reconhec\u00ea-la como tal j\u00e1 estivessem dispon\u00edveis no momento exato do fato (no caso, do lan\u00e7amento do \u00e1lbum), ela s\u00f3 poderia realmente passar a ser compreens\u00edvel e express\u00e1vel anos e anos depois, ap\u00f3s muita \u00e1gua passada por sob a tal da ponte \u2014 constatava que este disco do R.E.M. \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00e1pice de muitas coisas. Uma culmina\u00e7\u00e3o do rock alternativo norte-americano, ou, de modo mais geral, do rock \u2019n\u2019 roll que n\u00e3o \u00e9 mera est\u00e9tica juvenil ou rebelde; de um g\u00eanero musical que ali na voz de Michael Stipe parecia atingir sua maturidade, a flor de sua idade; quem sabe at\u00e9 de um estado de esp\u00edrito p\u00f3s-guerras, p\u00f3s-ditaduras, p\u00f3s-diversas cat\u00e1strofes que acredit\u00e1vamos terem ficado para tr\u00e1s e que a partir de ent\u00e3o nossa tarefa seria apenas evoluir, aperfei\u00e7oar a humanidade. Sendo um \u00e1pice, hoje \u00e9 f\u00e1cil ver que dali por diante o caminho inevit\u00e1vel seria, na verdade, ladeira abaixo\u2026 Mas com estas reflex\u00f5es eu pretendo, al\u00e9m de sublinhar a excel\u00eancia deste \u00e1lbum, refor\u00e7ar as esperan\u00e7as que me parecem ainda poss\u00edveis. N\u00e3o acredito em perfei\u00e7\u00e3o (eu n\u00e3o diria que este \u00e9 um disco perfeito) e minha intui\u00e7\u00e3o n\u00e3o me permite mais manter a antiga f\u00e9 em um futuro longo e venturoso para a humanidade, mas acredito fervorosamente no *New Adventures in Hi-fi* e no que ele representa: nossos melhores momentos, nossos momentos sublimes. Estes momentos s\u00e3o as compensa\u00e7\u00f5es das batalhas de uma guerra longa e j\u00e1 perdida desde h\u00e1 muito tempo, compensa\u00e7\u00f5es que podem, em seus mais benditos resultados, fazer as batalhas e mesmo a guerra toda valerem \u00e0 pena. Isso eu digo convictamente do *New Adventures in Hi-fi*. O fundo do vale em que hoje nos encontramos, aturdidos e desorientados, h\u00e1 de ser atravessado tendo isto em mente \u2014 a esperan\u00e7a de que haveremos de encontrar ainda alguns outros cumes pela frente.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"o R.E.M. em 1996, em foto de Anton Corbijn, copiada [daqui](https:\/\/www.albumism.com\/features\/tribute-celebrating-20-years-of-rem-new-adventures-in-hi-fi).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":789,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2020","post_timestamp":"2020-06-02T21:35:15+00:00","url":"2020_06_02_discos_do_mes_maio_de_2020","post":"**Normunds \u0160n\u0113 \u0026 Sinfonietta R\u012bga - P\u0113teris Vasks: Viatore**\r\n\r\nJ\u00e1 pensei em iniciar uma s\u00e9rie de posts cujo objetivo seria tentar converter seus eventuais leitores em f\u00e3s de m\u00fasica cl\u00e1ssica. O (completamente \u00f3bvio e nem um pouco original) m\u00e9todo: compilar as pe\u00e7as que acredito serem imposs\u00edveis de n\u00e3o se apreciar, aquelas cujas belezas transcendem as prefer\u00eancias de g\u00eaneros, de instrumentos, de \u00e9pocas, etc. *As Varia\u00e7\u00f5es Goldberg* de Bach e o quarteto de cordas n\u00famero 14 de Schubert; a sonata D.960 do mesmo Schubert e a *Sonata ao Luar* de Beethoven; o quarteto de cordas n\u00famero 8 de Shostakovich e o quinteto para piano de Schnittke; *Shaker Loops* de John Adams e *Verkl\u00e4rte Nacht* de Schoenberg\u2026 Na minha imagina\u00e7\u00e3o (talvez \u201cfantasia\u0022 seja uma palavra mais precisa), bastaria ouvir qualquer uma destas com aten\u00e7\u00e3o para a m\u00e1gica da convers\u00e3o se realizar. Pois bem, um dos CDs favoritos aqui em casa durante a quarentena tem sido este *Viatore*, disco dedicado ao trabalho do compositor P\u0113teris Vasks e em cujo tracklist temos n\u00e3o apenas uma, mas duas pe\u00e7as que eu incluiria nesta lista: *Musica adventus* e a ep\u00f4nima *Viatore*. S\u00e3o banquetes completos estas obras do let\u00e3o Vasks. S\u00e3o, para come\u00e7ar, muito bonitas naquilo que elas t\u00eam de irredut\u00edvel, ou seja, sua natureza f\u00edsica b\u00e1sica, a propaga\u00e7\u00e3o de ondas que se percebe antes mesmo de qualquer tipo de intermedia\u00e7\u00e3o racional, de qualquer movimento reflexivo mental que v\u00e1 al\u00e9m do m\u00ednimo necess\u00e1rio para a admiss\u00e3o delas, das ondas sonoras, em n\u00f3s. Por\u00e9m, por maior que seja este deleite inicial, ele logo se torna apenas uma pele, ou uma esp\u00e9cie de chamado, pois h\u00e1 muito mais nesta m\u00fasica \u2014 h\u00e1 toda uma s\u00e9rie de desafios, de mist\u00e9rios a serem desvendados abaixo destas l\u00edmpidas superf\u00edcies. Daqui do meu ponto de vista me parece muito dif\u00edcil resistir a isto tudo: o que as move? onde come\u00e7am e onde terminam os ciclos que as comp\u00f5em? que agentes interferem em suas evolu\u00e7\u00f5es? e ser\u00e3o elas a mesma m\u00fasica na pr\u00f3xima vez\u2026? E por a\u00ed vai. H\u00e1 ainda a sensa\u00e7\u00e3o de quimeras em andamento; de um certo equil\u00edbrio meticuloso e terr\u00edvel, regido por algo que parece permanecer distante, paciente, uma entidade secreta a nos observar\u2026 Mas a\u00ed j\u00e1 estou entrando nos pormenores dos meus devaneios particulares. O fato \u00e9 que temos neste disco um banquete sensorial e intelectual completo, e fica bem servido mesmo quem preferir ignorar todos estes incentivos \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, todos estes desafios e chamados, toda forma de conjectura e investiga\u00e7\u00e3o \u2014 ignore-se tudo isso e as simples sequ\u00eancias de sons que compreendem *Musica adventus* e *Viatore* continuam sendo m\u00fasica absurdamente bonita.\r\n\r\n**Pearl Jam - Gigaton**\r\n\r\nA artimanha de reduzir um pouco as expectativas que eu vinha nutrindo a respeito do novo disco do Pearl Jam \u2014 estrat\u00e9gia elaborada para evitar alguma grande decep\u00e7\u00e3o \u2014 acabou provando-se desnecess\u00e1ria: o disco \u00e9 muito bom! Minha afei\u00e7\u00e3o por *Gigaton* foi quase imediata. Se bem me lembro, o roteiro das primeiras audi\u00e7\u00f5es foi o seguinte: o lado A me deixou contente com a impress\u00e3o de que a banda finalmente achou uma f\u00f3rmula para aquilo que podemos, hoje em dia, esperar destes senhores em termos de rock \u2019n\u2019 roll mais b\u00e1sico, mais afiado, coisa que, ao menos na minha opini\u00e3o, eles vinham falhando em todos os discos desde, sei l\u00e1, o *Binaural* (porque gosto muito das faixas mais viscerais daquele disco). \u00c9 como se fosse uma maturidade que est\u00e1 vindo \u00e0 forc\u00e9ps \u2014 mas, ao menos, est\u00e1 vindo. O lado B me soou um pouco irregular: aqui est\u00e3o os engodos, *Alright* e *Take the Long Way* (antes que eu passasse a toler\u00e1-la, esta \u00faltima chegou a me parecer a pior m\u00fasica j\u00e1 gravada pelo Pearl Jam), mas tamb\u00e9m a \u00f3tima *Never Destination* \u2014 que d\u00e1 ares conclusivos \u00e0 impress\u00e3o deixada pelo lado A \u2014 e aquela que \u00e9 provavelmente a minha faixa favorita em todo o disco, *Seven O\u2019Clock*, m\u00fasica que abra\u00e7a um risco enorme em seu refr\u00e3o, risco que poderia muito facilmente resultar em um equ\u00edvoco terr\u00edvel, mas, contra toda e qualquer previs\u00e3o mais sensata, ela acerta, e \u00e9 por isso mesmo um acerto imenso, um bel\u00edssimo acerto. Por fim, o lado C (a vers\u00e3o em vinil traz dois discos com quatro faixas em cada um dos tr\u00eas primeiros lados e apenas uma inscri\u00e7\u00e3o \u2014 \u0022Is This You?\u0022 \u2014 no \u00faltimo) este ter\u00e7o final de *Gigaton* me intrigou e deixou em mim um grande espa\u00e7o para que o disco crescesse. Coisa que, de fato, ele vem cumprindo. Algumas impress\u00f5es soltas: que maravilha ouvir uma banda deste porte, com este enorme palanque que eles t\u00eam, achincalhar sem rodeios e nem meias palavras o pilantra vigarista que \u00e9 o atual presidente dos EUA (*Quick Escape* \u00e9 outra grande favorita neste tracklist); *Buckle Up*, assim que assentou-se em mim a estranheza de sua atmosfera ao mesmo tempo sinistra e descansada \u2014 uma m\u00fasica que parece esconder alguma coisa \u2014, logo me fez pensar em certos momentos do *Animals*, do Pink Floyd, quando as vozes de Gilmour e Waters s\u00e3o muito dif\u00edceis de diferenciar (aqui a brincadeira \u00e9 entre Eddie Vedder e o guitarrista Stone Gossard); *Comes Then Goes*, *Retrograde* e *River Cross*, pelo clima que instauram nos momentos derradeiros do disco \u2014 meio \u201cnatural mystic\u201d, meio solene, algo j\u00e1 tentado anteriormente pela banda, mas cujo \u00eaxito mais not\u00e1vel, antes deste, estava na trilha sonora gravada por Vedder para o filme *Into the Wild* \u2014, essas faixas e este clima final fazem do lado C o meu preferido e grande respons\u00e1vel pelo disco estar ainda em vi\u00e9s de alta aqui em casa. O que me faz lembrar de que quando o *Lightning Bolt* foi lan\u00e7ado, eu o escutei umas duas ou tr\u00eas vezes e cogitei sem maiores convic\u00e7\u00f5es que ele talvez merecesse mais algumas chances\u2026 Ent\u00e3o passaram-se sete anos entre aquele \u00e1lbum e este e, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha, eu n\u00e3o voltei a tirar o *Lightning Bolt* da estante. Coisa similar n\u00e3o vai acontecer com *Gigaton*: para mim, \u00e9 o melhor disco da banda desde o *Yield*.\r\n\r\n**N\u00e1 Ozzetti - Meu Quintal**\r\n\r\nJ\u00e1 h\u00e1 muitos anos n\u00f3s n\u00e3o temos canais de televis\u00e3o aqui em casa, que \u00e9 para \u2014 como diz o escritor Geoff Dyer em um livro sobre o filme *Stalker* \u2014 para n\u00e3o deixar \u201cos idiotas entrarem em nosso lar\u201d. A entoa\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia brasileira, e as vozes repulsivas e ideias asquerosas de seus atores principais, praticamente nada disso se ouve por aqui, e assim fazemos deste nosso pequeno espa\u00e7o um recanto de paz e serenidade, com livros e discos por todos os lados, e velas, e paredes azuis e mantas tran\u00e7adas por sobre os sof\u00e1s. Ref\u00fagio e santu\u00e1rio, preservado da presen\u00e7a pestilenta de fascistas e de c\u00famplices de fascistas. Neste lar, nos \u00faltimos tempos, as vozes em portugu\u00eas que n\u00e3o as de seus dois moradores costumam ser apenas as de N\u00e1 Ozzetti e de M\u00f4nica Salmaso, estes cantos femininos inundados de uma beleza t\u00e3o terna e t\u00e3o familiar, uma beleza que \u00e9 das poucas coisas atuais que reconhe\u00e7o como algo genuinamente brasileiro sem que isso venha imediatamente acompanhado de n\u00e1usea e de vergonha. Vozes em cujas companhias nos mantemos n\u00e3o apenas purificados e saud\u00e1veis, mas tamb\u00e9m esperan\u00e7osos de que este excessivo pesadelo pelo qual passa o Brasil logo logo vai terminar.\r\n\r\n\u0022Meu quintal  \r\nTem um sol  \r\nBem maior  \r\nQue esse normal  \r\nUm luar  \r\nColossal  \r\nMapa astral  \r\nDiz que tudo  \r\nVai dar certo\u201d\r\n\r\n(Composi\u00e7\u00e3o de N\u00e1 Ozzetti e Luiz Tatit)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":788,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XVIII","post_timestamp":"2020-05-17T23:14:29+00:00","url":"2020_05_17_impressoes_auditivas_vol_xviii","post":"* Eu dificilmente percebo a t\u00e3o incensada superioridade sonora dos discos de vinil. N\u00e3o \u00e9 frequente, mas acontece: o som da minha c\u00f3pia da reedi\u00e7\u00e3o do *The Division Bell*, lan\u00e7ada no anivers\u00e1rio de 20 anos do disco original, \u00e9 exuberante. Escut\u00e1-la com fones de ouvido \u00e9 incontestavelmente uma experi\u00eancia superior. O trabalho feito na reedi\u00e7\u00e3o do *Superunknown* do Soundgarden \u00e9 outro que legitima a defesa apaixonada que os audi\u00f3filos fazem dos velhos discos negros. S\u00e3o casos espec\u00edficos, evidentemente \u2014 reedi\u00e7\u00f5es caprichadas em 180g, concebidas para n\u00e3o decepcionar quem j\u00e1 conhece os \u00e1lbuns de longa data \u2014, mas que comprovam a premissa da superioridade do formato.\r\n* Ent\u00e3o que eu gosto do som do vinil, e posso at\u00e9 gostar muito, como visto acima; e \u00e9 claro que o objeto vinil \u2014 sua densa e matizada escurid\u00e3o, seu peso e sua presen\u00e7a incompar\u00e1vel \u2014 eu o prefiro muito em rela\u00e7\u00e3o ao CD, cujos atrativos f\u00edsicos praticamente inexistem, a menos que algu\u00e9m consiga se afei\u00e7oar por algo quebradi\u00e7o, cheio de reflexos e de letrinhas diminutas\u2026 Nestes quesitos extra-musicais, n\u00e3o h\u00e1 como compar\u00e1-los. Por\u00e9m s\u00e3o os CDs os meus mais constantes companheiros musicais. Estabeleceram-se logo cedo em minha vida \u2014 tive bem poucos vinis antes do advento dos CDs \u2014 e continuo vivendo o mundo da m\u00fasica predominantemente atrav\u00e9s deles, por uma quest\u00e3o indisfar\u00e7\u00e1vel de conveni\u00eancias \u2014 pre\u00e7o, espa\u00e7o, etc. \u2014, sim, mas que sinto que n\u00e3o diminuem em nada o meu prazer e o meu senso de aventura. A m\u00fasica que emana desses objetos, afinal, \u00e9 o mais importante. Por isso eu tamb\u00e9m adoro os pequenos discos espelhados! E, enquanto isso, aos vinis, acaba calhando ficarem reservados certo exotismo ou excepcionalidade, o uso e o manejo em ocasi\u00f5es especiais e a possibilidade de exalta\u00e7\u00e3o daqueles \u00e1lbuns mais queridos. Talvez possa ficar bem resumido, no fim das contas, que tenho grande apego a qualquer coisa que carregue m\u00fasica. (E nem falei das fitas cassetes, que ainda tinham suas outras maravilhosas propriedades... Isso fica para uma reflex\u00e3o futura.)\r\n* Pe\u00e7o licen\u00e7a para um \u00faltimo coment\u00e1rio sobre o *The Division Bell*. Este blog parece, nos \u00faltimos tempos, estar totalmente \u00e0 sombra das esculturas que ilustram a capa deste disco, n\u00e3o \u00e9 mesmo? O caso \u00e9 que andei lendo algumas coisas sobre o \u00faltimo rebento do Pink Floyd (pen\u00faltimo se voc\u00ea considerar como genuinamente pertencente ao c\u00e2none floydiano o *The Endless River*, coisa que eu resisto um pouco em faz\u00ea-lo) e achei curioso o contraste entre as opini\u00f5es emitidas sobre ele na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento original, em 1994, e aquelas emitidas depois, em 2014, na \u00e9poca de seu relan\u00e7amento em vinil. Comentaristas e f\u00e3s \u2014 casuais ou profissionais \u2014 n\u00e3o pareciam muito entusiasmados l\u00e1 atr\u00e1s, quando o disco veio ao mundo, antes da virada do mil\u00eanio\u2026 Acho que se pode dizer, resumidamente, que as cr\u00edticas foram em sua grande maioria negativas. Reproduzo o trecho de uma apenas, bastante representativa de v\u00e1rias outras: \u201cavarice is the only conceivable explanation for this glib, vacuous cipher of an album (\u2026)\u201d (colhida [daqui](https:\/\/ew.com\/article\/1994\/04\/22\/division-bell\/)). Corridos vinte anos, j\u00e1 sob as luzes do s\u00e9culo XXI, as resenhas que apareceram por ocasi\u00e3o do anivers\u00e1rio de duas d\u00e9cadas do \u00e1lbum s\u00e3o bastante diferentes, bem mais generosas com o esfor\u00e7o final do trio Mason, Gilmour e Wright. Acho compreens\u00edvel. O mundo em que vivemos j\u00e1 era bastante diferente em 2014 \u2014 decerto degradou muito depois disso, mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 1994 aquele 2014 j\u00e1 era um mundo cheio de cinismos e pessimismos, de nostalgias e fracassos. Em 1994 pod\u00edamos nos dar ao luxo de sermos cr\u00edticos severos com o Pink Floyd; hoje, vendo capitularem uma a uma as esperan\u00e7as e promessas daquela \u00e9poca, ser\u00edamos t\u00e3o rigorosos assim? Creio que isso se reflete nas renovadas opini\u00f5es sobre o \u00e1lbum: li gente considerando-o at\u00e9 mesmo uma consolida\u00e7\u00e3o final de tudo que o Floyd teve de melhor em sua carreira. Um exagero, evidentemente\u2026 Mas mesmo que consideremos a hip\u00f3tese de opini\u00f5es deste tipo terem sido escritas por comentaristas atravessando crises de meia-idade (que suponho virem acompanhadas de grandes doses de nostalgia) ou por f\u00e3s cujo saudosismo merece cuidados cl\u00ednicos, continuo achando que a diferen\u00e7a nas circunst\u00e2ncias do mundo tem papel crucial nesta boa vontade que o disco encontrou em 2014. N\u00e3o \u00e9, definitivamente, quest\u00e3o de n\u00e3o haver boa m\u00fasica contempor\u00e2nea para se desbravar e apreciar \u2014 ela sempre haver\u00e1, isto \u00e9 uma convic\u00e7\u00e3o inabal\u00e1vel minha. A necessidade humana de m\u00fasica, contudo, deve ter se aprofundado nestes tempos sombrios, e o instinto que outrora nos impelia \u00e0 seletividade hoje talvez ceda espa\u00e7o \u00e0quele mais b\u00e1sico da sobreviv\u00eancia. O que est\u00e1 nas entrelinhas desta renovada aprecia\u00e7\u00e3o do *The Division Bell*, na minha leitura, \u00e9 que n\u00e3o podemos mais descartar um disco que, embora n\u00e3o seja um *Dark Side of the Moon* redivivo, pode perfeitamente ser mais uma pedrinha numa senda de salva\u00e7\u00e3o, algo em que podemos nos apoiar, e nos ajudar a sobreviver a este per\u00edodo turbulento e potencialmente aniquilador de nossas \u00faltimas esperan\u00e7as \u2014 aquelas que sobraram das que t\u00ednhamos, em 1994, em tanta e t\u00e3o variada quantidade que pod\u00edamos at\u00e9 mesmo desdenhar de algumas delas.\r\n* (Claro que o problema da reflex\u00e3o acima \u00e9 que estou me tomando como uma esp\u00e9cie de modelo ou norma geral. Em 1994, _eu_ tinha ilus\u00f5es e esperan\u00e7as; algu\u00e9m que tivesse os meus atuais 40 anos naquela \u00e9poca talvez j\u00e1 n\u00e3o fosse assim t\u00e3o otimista\u2026 Analogamente, para algu\u00e9m que tenha hoje seus verdes 15 anos, este mundo, apesar de tudo, pode perfeitamente afigurar-se ainda como uma grande e promissora aventura, com um prolongado futuro pela frente. Segue-se ent\u00e3o que talvez seja tudo apenas uma quest\u00e3o de nostalgia e de crises de meia-idade [a quem pode se dar ao luxo dessas coisas\u2026], invari\u00e1veis na vida de cada um e independentes dos rumos da humanidade, e os discos a medirem os otimismos e desesperan\u00e7as de cada \u00e9poca ser\u00e3o, sempre, simplesmente, outros.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":787,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XVII","post_timestamp":"2020-05-08T04:04:17+00:00","url":"2020_05_07_impressoes_auditivas_vol_xvii","post":"* Conforme mencionei em uma das notas anteriores, foi na Bruneti Discos que comprei meus dois primeiros CDs, o *Scoundrel Days* do a-ha e a trilha-sonora do filme *Young Guns II*, gravada pelo Jon Bon Jovi. Isso foi na mesma ocasi\u00e3o em que fomos \u00e0 Bruneti, eu e meu pai, para comprar o primeiro CD player da fam\u00edlia. Foi num s\u00e1bado de manh\u00e3, antes ou depois da nossa tradicional ida ao Mercado P\u00fablico para comprar ou simplesmente dar uma espiada nos peixes rec\u00e9m postos \u00e0 venda, e nos siris ainda vivos escalando uns aos outros, e os camar\u00f5es e seus olhos pendurados. Creio que naquela \u00e9poca, por volta de 1990, o fluxo de gente no pequeno centro de Florian\u00f3polis n\u00e3o devia ser nem metade do que costuma ser hoje em dia, quero dizer, do que costuma ser quando n\u00e3o h\u00e1 uma pandemia \u00e0 solta. Mas para os meus padr\u00f5es de ent\u00e3o \u2014 de moleque de 11 anos morador de um bairro residencial meio afastado do centro \u2014 aquilo era bastante gente.\r\n* Mas n\u00e3o vim aqui inventariar recorda\u00e7\u00f5es sobre peixes ou camar\u00f5es ou sobre o centro de Florian\u00f3polis: pretendo registrar algumas lembran\u00e7as daquele meu primeiro CD player. Era um modelo CDP-2000 da Gradiente, aparentemente bastante popular \u00e0 \u00e9poca pois h\u00e1 muitas fotos e v\u00eddeos dele espalhados pela Internet. Esta [foto aqui](https:\/\/http2.mlstatic.com\/cd-player-gradiente-cdp-2000-muito-novo-raridade--D_NQ_NP_763685-MLB27423010290_052018-F.jpg) mostra o painel do aparelho em detalhes: lembro-me com uma nitidez quase imposs\u00edvel da sensa\u00e7\u00e3o t\u00e1ctil daqueles bot\u00f5es todos \u2014 em especial da cavidade que tinham os grandes bot\u00f5es de play e stop e da concis\u00e3o de contato com a pele dos finos bot\u00f5es de avan\u00e7ar e retroceder \u2014, e do clique breve e seco que faziam quando pressionados. Lembro tamb\u00e9m perfeitamente dos n\u00fameros do visor digital, de como eram finos e de um verde muito transl\u00facido, quase brancos. E lembro, sobretudo, do som que escutei quando coloquei para tocar pela primeira vez o *Scoundrel Days*. Percebo agora que naquele momento estabeleceu-se para mim uma esp\u00e9cie de paradigma de qualidade sonora que nunca irei sobrepor, por mais que venha a conhecer (e provavelmente j\u00e1 conheci v\u00e1rios desde ent\u00e3o) outros aparelhos supostamente melhores; um padr\u00e3o que s\u00f3 consigo muito vulgar e simplificadamente descrever como \u201cpuro\u201d, ou \u201ccristalino\u201d. Meus pr\u00f3prios aparelhos atuais s\u00e3o excepcionais, mas o som daquele Gradiente, as primeiras notas de *Scoundrel Days* tais como sa\u00edam daquele velho aparelho, \u00e9 uma mem\u00f3ria insuper\u00e1vel.\r\n* Este CD player funcionava acoplado num aparelho de som mais antigo, tamb\u00e9m Gradiente, aparelho que era, na verdade, uma combina\u00e7\u00e3o de m\u00f3dulos: um r\u00e1dio ([AM\/FM Stereo Receiver Model 1260](https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-zRuyr1HY5JQ\/W8CFNvO2rZI\/AAAAAAAAF5A\/jGFSBCd3rKEFZG7B0fF9qP_4HmAWV7N8ACLcBGAs\/s1600\/Gradiente%2Bmodel%2B1260.jpg)), um toca fitas ([Stereo Cassette Deck CD-2100](https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/Yy8-X9P7Yc8\/maxresdefault.jpg)), e o prato para os discos de vinil, al\u00e9m das caixas de som. Tamb\u00e9m as sensa\u00e7\u00f5es do manejo dos bot\u00f5es destes m\u00f3dulos todos est\u00e3o inscritas de modo imperec\u00edvel na minha pele e na minha mem\u00f3ria, em especial o de sintoniza\u00e7\u00e3o do r\u00e1dio (que girava de modo suave, com uma pequena resist\u00eancia) e as alavancas para ouvir, parar, pausar, avan\u00e7ar, retroceder e gravar fitas cassetes \u2014 estas alavancas, ali\u00e1s, foram abusadas para al\u00e9m do razo\u00e1vel\u2026\r\n* Todo este conjunto foi aposentado quando um dos m\u00f3dulos mais antigos deixou de funcionar, e o CD player foi abandonado junto, compulsoriamente, j\u00e1 que o pr\u00f3ximo aparelho de som da fam\u00edlia foi um Aiwa que j\u00e1 trazia embutido o tocador de CDs \u2014 uma gaveta para tr\u00eas discos \u2014 al\u00e9m de dois decks para fitas cassetes (enquanto que os vinis foram provisoriamente abandonados). Deste aparelho Aiwa lembro apenas que o som era bastante ruim.\r\n* Das queridas lembran\u00e7as nost\u00e1lgicas do passado para os laboriosos e calamitosos fatos do presente: morreu Aldir Blanc, e eu, estupefato com a ingenuidade e a incompreens\u00e3o, leio por a\u00ed pessoas lamentando que n\u00e3o houve nota de pesar por parte do governo brasileiro. Se esta inoc\u00eancia n\u00e3o for algum tipo de auto-engana\u00e7\u00e3o, destas que \u00e0s vezes nos impomos para fingir que est\u00e1 tudo bem, ent\u00e3o \u00e9 uma ignor\u00e2ncia muito perigosa \u2014 \u00e9 n\u00e3o entender o b\u00e1sico da destrui\u00e7\u00e3o em curso neste pa\u00eds. Ora, algu\u00e9m realmente acredita que um Aldir Blanc tem espa\u00e7o nos planos de quem manda no pa\u00eds hoje? Voc\u00eas acham que essa gente se importa com a morte de um poeta? Ser\u00e1 que sequer sabem quem foi Aldir Blanc? Tenho certeza que n\u00e3o, e se soubessem, n\u00e3o lamentariam; festejariam como mais uma vit\u00f3ria, mais um passo bem-sucedido para a consuma\u00e7\u00e3o de seus projetos. Est\u00e1 mais do que na hora das pessoas entenderem a gravidade do que est\u00e1 acontecendo com o Brasil. N\u00e3o entender \u00e9 n\u00e3o saber enfrentar. N\u00e3o pode ser t\u00e3o ruim? Pois eu acho que \u00e9 ainda muito pior.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto do aparelho AM\/FM Stereo Receiver Model 1260, da Gradiente, copiada [daqui](https:\/\/www.facebook.com\/mvintagebh\/photos\/a.292085631285120\/606905803136433\/?type=3\u0026theater).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":786,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2020","post_timestamp":"2020-05-01T22:43:07+00:00","url":"2020_05_01_discos_do_mes_abril_de_2020","post":"**R.E.M. - Monster [25th Anniversary Reissue]**\r\n\r\nEu n\u00e3o esperava nada muito radical da vers\u00e3o remixada do *Monster* que ocupa o terceiro CD desta edi\u00e7\u00e3o especial lan\u00e7ada h\u00e1 pouco em comemora\u00e7\u00e3o aos 25 anos do \u00e1lbum do R.E.M.. Imaginava algo resultante de uma leve polida das fitas originais, algum espanar superficial de poeirinhas \u00ednfimas destas que n\u00f3s, os donos de ouvidos normais, mal percebemos a presen\u00e7a. Como s\u00e3o, afinal, a maioria destas remixagens, cujos objetivos principais da vinda ao mundo costumam ser mais de ordem pecuni\u00e1ria do que art\u00edstica. O que escutei, portanto, me surpreendeu bastante, pois \u00e9 praticamente um outro \u00e1lbum, at\u00e9 mais do que \u00e9 outro aquela vers\u00e3o remixada do *Ten*, do Pearl Jam (que ficou conhecida como *Ten Redux*). Sendo um disco t\u00e3o querido e familiar, \u00e9 muito dif\u00edcil julgar de maneira desapaixonada o resultado desta reconstru\u00e7\u00e3o. Gostei, logo de sa\u00edda, da sonoridade mais crua e cristalina de *What\u0027s the Frequency, Kenneth?*; j\u00e1 a segunda faixa, *Crush with Eyeliner*, essa eu estranhei bastante: fiquei com a impress\u00e3o de que algo de sua unidade se perdeu, se dissipou nesta revis\u00e3o\u2026 E o disco assim segue, alternando surpresas e estranhamentos, com algum predom\u00ednio desta \u00faltima sensa\u00e7\u00e3o, que eu nem sei, para dizer a verdade, se est\u00e1 justa e corretamente denominada atrav\u00e9s deste termo, \u201cestranhamento\u201d \u2014 essas emo\u00e7\u00f5es que envolvem coisas inscritas na mem\u00f3ria s\u00e3o sempre muito amb\u00edguas e tendenciosas, cheias de agendas pr\u00f3prias das quais muitas vezes nem mesmo o pr\u00f3prio dono da sensa\u00e7\u00e3o e da mem\u00f3ria tem conhecimento. \u201cEstranhamento\u201d pode muito bem ser s\u00edntese imperfeita de algo mais complexo, ou que preferir\u00edamos n\u00e3o admitir; talvez a rea\u00e7\u00e3o enciumada de alguma parte espec\u00edfica do c\u00e9rebro, aquela onde est\u00e3o calcificadas, h\u00e1 anos, as refer\u00eancias e predile\u00e7\u00f5es pessoais, e que, ao ver-se subitamente confrontada e desafiada, prefere evitar o enfrentamento com uma desculpa esfarrapada qualquer e depois fica melindrada l\u00e1 num canto, desamparada, resmungando e emitindo sinais confusos ao pobre sujeito que \u00e9 supostamente seu dono e senhor, que fica sem saber o que fazer com aquilo. \u201cEstranhamento\u201d \u00e9 simples, gen\u00e9rico, vem bem a calhar. Por isso hesito um pouco antes de concluir que n\u00e3o consigo imaginar quem possa preferir este novo *Monster* ao original, e que sua valia deve ficar restrita \u00e0 esfera da curiosidade\u2026 Em todo o caso, por mim, tudo bem: a curiosidade dos f\u00e3s mais devotos e saudosos \u2014 e, quem sabe, alguma frustra\u00e7\u00e3o antiga por parte da banda com o resultado final da mixagem do disco original \u2014 justifica ou justificam plenamente a exist\u00eancia deste *Monster* reformado. Em nenhum momento eu quis dizer o contr\u00e1rio! O que eu realmente queria dizer desde o princ\u00edpio deste texto \u00e9 que eu sempre sinto muita saudade do R.E.M. quando escuto algumas de suas can\u00e7\u00f5es, seja das mais antigas ou da \u00faltima fase, originais ou remixadas. Lembro muito bem [daquele dia](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2011_09_22_what_next_o_fim) em que foi anunciado o fim da banda: lembro perfeitamente do baque, e de como o dia transcorreu tristonho e um pouco irreal, como se algo muito fundamental houvesse sido extra\u00eddo do ambiente ao redor, da pr\u00f3pria tessitura da vida, algo em que talvez nem mais repar\u00e1ssemos com muita frequ\u00eancia ou com muita aten\u00e7\u00e3o, mas quando ele nos faltou \u2014 que falta imensa e atordoante fez. Tornou-se outro mundo.\r\n\r\n**Chelsea Wolfe - Birth of Violence**\r\n\r\n\u00c9 com muitas sobras que *Birth of Violence* redime o erro que penso ser *Hiss Spun*. Aquele disco me aborreceu ao ponto de eu ter deixado registrada aqui neste blog minha [decep\u00e7\u00e3o](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2018_07_02_discos_do_mes_junho_de_2018), coisa que raramente fa\u00e7o \u2014 quando ou\u00e7o algo que me frustra ou desagrada, em geral eu simplesmente esque\u00e7o, deixo para l\u00e1. Isso aqui n\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica musical; gosto de falar apenas da m\u00fasica que amo. *Hiss Spun*, no entanto, depois da sequ\u00eancia magn\u00edfica de *Pain is Beauty* e *Abyss*, mereceu aquela triste exce\u00e7\u00e3o. Mas esque\u00e7amos aquele disco; seu sucessor \u00e9 bonito na mesma medida em que aquele \u00e9 desnecess\u00e1rio. Menos t\u00e9trico do que *Pain is Beauty* e *Abyss* e valendo-se mais dos sons ac\u00fasticos do viol\u00e3o, *Birth of Violence* parece finalmente inserir Wolfe em certa linhagem folk ao longo da qual ela esteve sempre tangenciando, fazendo-o, por\u00e9m, ao seu modo, abrindo nesta descend\u00eancia uma nova vertente (ser\u00e1 nova mesmo? posso estar mal informado), aquela das cantoras que, embora nascidas na Calif\u00f3rnia, provavelmente se sentiriam mais em casa em algum vilarejo medieval brit\u00e2nico, algum lugar perdido onde se toma cerveja quente e velhas supersti\u00e7\u00f5es ainda ditam hor\u00e1rios e costumes. O tipo de lugar em que tamb\u00e9m eu gostaria de morar\u2026 Por aqui, no Brasil medieval do s\u00e9culo 21, estamos j\u00e1 no outono. O tempo tem passado lentamente. Pressinto que esse disco ter\u00e1 alta rota\u00e7\u00e3o aqui em casa.\r\n\r\n**John Carpenter - The Fog Soundtrack**\r\n\r\nA trilha sonora de *Halloween* \u00e9 certamente a mais celebrada, por\u00e9m minha favorita \u00e9 a do *The Fog*. (Ocorre mais ou menos o mesmo com os filmes: *Halloween* e *The Thing* s\u00e3o os cl\u00e1ssicos pelo quais John Carpenter ser\u00e1 lembrado para sempre, e embora eu idolatre esses filmes, tenho uma dessas prefer\u00eancias pessoais idiossincr\u00e1ticas pelo sucinto e salino *The Fog*, filme claramente inferior aos outros dois, e claramente insuper\u00e1vel para mim\u2026) Adoro a amea\u00e7a incerta e esparsa que a m\u00fasica faz pairar durante praticamente todo o filme: em alguns momentos ela \u00e9 quase impercept\u00edvel, como que perdida em meio \u00e0 estranha bruma que, por dois dias seguidos, chega \u00e0 Antonio Bay trazendo consigo visitantes n\u00e3o muito amistosos. E os momentos em que os sintetizadores fazem dobradinha com o piano s\u00e3o, para mim, o auge da obra musical de Carpenter. Adoro os dois *Lost Themes*, mas o estrondo daquelas guitarras n\u00e3o chega nem perto de criar algo pr\u00f3ximo ao efeito tenebroso da trilha de *The Fog*.\r\n\r\n**Pink Floyd - The Division Bell**\r\n\r\nTalvez esse disco j\u00e1 tenha aparecido por aqui um par de vezes, mas como n\u00e3o h\u00e1 regra alguma impedindo tal repeti\u00e7\u00e3o, c\u00e1 est\u00e1 ele novamente. Venho escutando-o frequentemente desde o come\u00e7o da \u00faltima semana de abril. Bem sei que n\u00e3o \u00e9 nenhum obra-prima e posso at\u00e9 mesmo desculpar os floydianos mais radicais que sequer o consideram digno de carregar na capa e na lombada a sacrossanta alcunha \u201cPink Floyd\u201d\u2026 N\u00e3o obstante tudo isso, eu o amo incondicionalmente. Trata-se de um daqueles discos que, para mim, \u00e9 bem mais do que um simples reposit\u00f3rio de m\u00fasica: \u00e9 todo um arcabou\u00e7o de mem\u00f3rias e sensa\u00e7\u00f5es, um verdadeiro ritual de alegria muito \u00edntima e de dif\u00edcil descri\u00e7\u00e3o que inicia-se t\u00e3o logo a agulha encosta no vinil (ou quando come\u00e7a a acontecer seja l\u00e1 o que for o que acontece dentro de um CD-player). Um verdadeiro reduto de paz e revigoramento. H\u00e1 algumas preciosidades entre suas 11 faixas, por\u00e9m o magnetismo parece residir na atmosfera geral do \u00e1lbum, no curso ameno e equilibrado das can\u00e7\u00f5es. Amparado na voz e na guitarra de Gilmour, esse fluxo t\u00eam l\u00e1 suas doses de sentimentalismo piegas e certas limita\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m, em seus melhores momentos, uma beleza e uma pureza nas quais \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se deixar abandonar. N\u00e3o tenho economizado nestes mergulhos, nos \u00faltimos dias. \u00c9 como suspender provisoriamente tudo o que nos desgasta \u2014 o tempo, a consci\u00eancia, a pr\u00f3pria lucidez \u2014 e permitir que algo antigo neutralize a decad\u00eancia e reabilite o futuro. Nesses tempos em que a manuten\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e da sanidade come\u00e7a a se transformar em guerra sangrenta, \u00e9 um tremendo d\u2019um privil\u00e9gio ter uma aliado desses em casa.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":785,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XVI","post_timestamp":"2020-04-22T01:28:41+00:00","url":"2020_04_21_impressoes_auditivas_vol_xvi","post":"* Acho que nunca me entendi como um colecionador de discos porque isso seria rebaixar horrivelmente a profunda rela\u00e7\u00e3o que mantenho com meus CDs e vinis e todo o resto. Uma forma mais justa de definir este v\u00ednculo seria algo como: \u201cartif\u00edcio pessoal contra a ordem natural das coisas, contra a sina \u00e0 qual especialmente n\u00f3s brasileiros parecemos todos previamente condenados: ter f\u00e9, para depois perd\u00ea-la\u201d. Isso tem nome? M\u00e9todo filos\u00f3fico? Sistema de defesa espiritual? Religi\u00e3o? \u00c9 algo que se move muito mais por estas searas, enquanto que os esfor\u00e7os todos de organiza\u00e7\u00e3o e cataloga\u00e7\u00e3o etc. \u2014 dos quais n\u00e3o estou isento \u2014 s\u00e3o apenas conting\u00eancias da minha aplicada disciplina devocional.\r\n* Uma ocorr\u00eancia que justifica este fervor: em um fim de tarde desses, profundamente desalentado ap\u00f3s ler as not\u00edcias do dia no Brasil, estava eu distra\u00eddo diante das estantes onde ficam os discos, esfor\u00e7ando-me para afastar da mente todas aquelas desgra\u00e7as e nomes e fisionomias monstruosas lidas e vistas nos jornais, tentando de todas as formas me concentrar na escolha de algo para ouvir e me transportar para fora do mundo o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Tudo era em v\u00e3o. Meus olhos percorriam desatentos as muitas pilhas e fileiras de discos e n\u00e3o viam praticamente nada; aqueles nomes e fisionomias do notici\u00e1rio continuavam me assombrando, nocauteando o meu esp\u00edrito, impiedosamente esmurrando e pisoteando meu \u00e2nimo j\u00e1 esfacelado no ch\u00e3o. Foi ent\u00e3o que de repente a esquisit\u00edssima capa rosa-choque d\u0027um velho vinil da Deutsche Grammophon com o Concerto para Violino de Beethoven (Christian Ferras no violino, Herbert von Karajan conduzindo a Filarm\u00f4nica de Berlim), \u00e1lbum que pertencera ao meu av\u00f4, finalmente fez minha mente e meu olhar entrarem em foco. N\u00e3o muito distante dele, o *Small Craft on a Milk Sea* do Brian Eno \u2014 este em CD \u2014 passou tamb\u00e9m, subitamente, a clamar por aten\u00e7\u00e3o. A princ\u00edpio me pareceu uma combina\u00e7\u00e3o bastante estranha, Beethoven e Eno, mas havia um tom audacioso nos olhares que eles me lan\u00e7avam, confiantes e insolentes, e n\u00e3o resisti \u2014 aceitei-lhes o desafio. Finalizada a audi\u00e7\u00e3o da dupla (primeiro Eno, depois Beethoven), o mundo estava renascido para mim.\r\n* Sobre o disco de Eno (em parceria com Leo Abrahams e Jon Hopkins), h\u00e1 um texto meu perdido por a\u00ed nos arquivos do blog. Se bem me lembro do que escrevi naquela ocasi\u00e3o, n\u00e3o tenho muito o que acrescentar.\r\n* O vinil, infelizmente, n\u00e3o est\u00e1 bem conservado, mas o concerto (na capa est\u00e1 escrito \u201cConc\u00earto\u201d) de Beethoven quase faz desaparecerem o chiado e os estalos que se manifestam mais fortes quando a agulha vai se aproximando do centro de cada lado \u2014 \u00e0quelas alturas, o encantamento j\u00e1 \u00e9 irrevers\u00edvel. Que m\u00fasica magn\u00edfica! Logo percebi que tenho memorizadas longas passagens de seus tr\u00eas movimentos, e olha que n\u00e3o foram muitas as vezes em que escutei a esta obra antes\u2026 Ademais, \u00e9 m\u00fasica sobre a qual n\u00e3o me atrevo a escrever. Basta que fique registrado seu efeito sobre mim naquele fim de tarde.\r\n* Algumas notas de ordem historiogr\u00e1fica sobre este objeto (o vinil) e sobre o que ficou perdido pelos caminhos de sua longa trajet\u00f3ria: se n\u00e3o foi o caso do meu av\u00f4 ter em algum momento trocado a capa pl\u00e1stica que o protege, o logotipo e o endere\u00e7o impressos neste pl\u00e1stico nos informam que ele comprou o \u00e1lbum na Bruneti Discos que ficava na Rua Tenente Silveira n\u00ba 15, no cora\u00e7\u00e3o do centro de Florian\u00f3polis (havia filiais da Bruneti em alguns centros comerciais e em outros locais da regi\u00e3o central da cidade; nessa mesma unidade da Tenente Silveira, eu, algum tempo depois \u2014 por volta de 1990 \u2014 comprei meus dois primeiros CDs, a trilha-sonora do filme *Young Guns II* gravada pelo Jon Bon Jovi e o *Scoundrel Days* do a-ha; a loja \u2014 cujo interior e disposi\u00e7\u00e3o das prateleiras de discos ainda me lembro muito bem \u2014 j\u00e1 n\u00e3o existe faz muitos e muitos anos); trata-se, o vinil, de uma edi\u00e7\u00e3o brasileira lan\u00e7ada em 1971, que n\u00e3o estava ainda cadastrada nos Discogs, mas agora [est\u00e1](https:\/\/www.discogs.com\/release\/15154217); a capa, como mencionei anteriormente, \u00e9 bastante extravagante, mas a contra-capa (esta a\u00ed em cima), em contraste absoluto de cores e humores, \u00e9 muito boa: um munificente e her\u00f3ico Karajan pairando e emergindo como que do fundo de uma caverna, portador solene da mensagem revelat\u00f3ria definitiva, esperando apenas que fa\u00e7amos sil\u00eancio para iniciar sua transmiss\u00e3o. Pausa para se pensar se estou mesmo falando s\u00e9rio. \u00c9 claro que n\u00e3o; essa descri\u00e7\u00e3o de Karajan \u00e9 pura galhofa exagerada minha. Pena que no canto inferior direito o velho e tr\u00e1gico lembrete engasga qualquer possibilidade de risada: \u201cCompanhia Brasileira de Discos - Disco \u00e9 Cultura\u0022.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"contra-capa [deste disco](https:\/\/www.discogs.com\/release\/15154217).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":784,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XV","post_timestamp":"2020-04-08T21:27:23+00:00","url":"2020_04_08_impressoes_auditivas_vol_xv","post":"* Procure pelo disco [Tribute](https:\/\/www.discogs.com\/Keith-Jarrett-Trio-Tribute\/release\/2423555) do Keith Jarrett Trio. Suponho que seja poss\u00edvel encontr\u00e1-lo no Spotify, no iTunes Music, na parafern\u00e1lia virtual toda. Ou fa\u00e7a uma c\u00f3pia pirata mesmo, [n\u00e3o tem problema](http:\/\/slowgoesthegoose.blogspot.com\/2020\/03\/keith-jarrett-trio-tribute-1990.html). O Keith Jarrett Trio \u00e9 Gary Peacock no contrabaixo, Jack DeJohnette na bateria e o mestre Keith no piano. Ou\u00e7a ao disco. Ou\u00e7a, com especial aten\u00e7\u00e3o, \u00e0 faixa *Sun Prayer*. Agora perceba: voc\u00ea que est\u00e1 sem sair de casa, fazendo sua parte para evitar que a cat\u00e1strofe que se aproxima seja um pouco menor, voc\u00ea pode ouvir a esse disco quantas vezes ao dia voc\u00ea quiser. Pode ouvi-lo de manh\u00e3, logo depois do caf\u00e9 da manh\u00e3; pode ouvi-lo durante o almo\u00e7o e depois de tarde novamente, enquanto trabalha ou estuda. Pode \u2014 deve \u2014 ouvi-lo no cair da noite, e depois mais tarde uma \u00faltima vez, antes de dormir, ou enquanto adormece. Viu? Ficar em casa n\u00e3o \u00e9 necessariamente t\u00e3o ruim assim.\r\n* Estou passando por uma nova fase de encantamento pelo *Passages*, o disco resultante da parceria entre Philip Glass e Ravi Shankar. Que m\u00fasica fabulosa criaram esses dois! Meu entusiasmo \u00e9 tanto que resolvi at\u00e9 mesmo dar uma nova chance \u00e0 obra de Glass, compositor com cujo santo, de modo geral, o meu n\u00e3o bate. Ouvi alguns de seus discos com obras para piano solo, depois umas duas ou tr\u00eas de suas sinfonias, e cansei. N\u00e3o tem jeito: algo nos sons que Glass gosta de utilizar e na forma como ele os ordena no tempo e no espa\u00e7o \u2014 disposi\u00e7\u00f5es resultantes de algo que me parece um deslumbramento muito antigo e j\u00e1 esgotado por uma f\u00e9 excessiva \u2014 alguma coisa nesta sua t\u00e3o reconhec\u00edvel assinatura sonora me aborrece demais. Acho quase tudo demasiadamente ma\u00e7ante, auto-referente, entediante \u2014 \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo um estardalha\u00e7o intoler\u00e1vel. \u00c9 como se Glass tivesse inventado uma m\u00e1quina compositora de m\u00fasica e a escondesse em seu por\u00e3o, e l\u00e1 vai ele vez ou outra, sorrateiramente, descer as escadas e botar o neg\u00f3cio para trabalhar. Uma vez (desconsiderando este disco gravado com Shankar) a coisa funcionou de modo sublime: foi quando a m\u00e1quina esteve em sua mais perfeita e exata configura\u00e7\u00e3o, um arranjo fino e preciso entre suas vari\u00e1veis internas e circunst\u00e2ncias externas, e o resultado, que ficou denominado *Glassworks*, \u00e9 t\u00e3o fant\u00e1stico quanto *Passages*.\r\n* Glass completou sua d\u00e9cima segunda sinfonia no ano passado. Vou acabar escutando-a, um dia, mas n\u00e3o deposito nisso grandes expectativas. Krzysztof Penderecki, que faleceu no fim de mar\u00e7o, completou sua sinfonia de n\u00famero 6 \u2014 intitulada *Chinesische Lieder* \u2014 em 2017, tendo iniciado a composi\u00e7\u00e3o em 2008. Antes disso, por\u00e9m, ele j\u00e1 havia terminado a s\u00e9tima (em 1996) e a oitava (em 2005). \u00c9 meio confuso mesmo. \u00c9 o trabalho da vida desses caras: suponho que conv\u00e9m a eles complic\u00e1-lo um pouco, dedicar-lhe muitas horas, muito pensamento e muito grafite; torn\u00e1-lo \u00e1rduo e exaustivo. Refletir, pesquisar, revisar \u2014 fazer desta imagina\u00e7\u00e3o de sons e sua escrita algo para o qual valha a pena, afinal, consagrar o tempo de uma vida. O que decerto descarta a minha hip\u00f3tese da m\u00e1quina compositora de m\u00fasicas de Philip Glass e recoloca em seu lugar aquela outra cogitada antes: nossos santos, o meu e o de Glass, simplesmente n\u00e3o se bicam. (Enquanto que o mist\u00e9rio acerca de *Passages* e *Glassworks* apenas torna estas obras ainda mais especiais.)\r\n* Das anota\u00e7\u00f5es iniciais, que datam 1855, at\u00e9 o momento em que deu-a por terminada (em 1876), Brahms levou 21 anos para finalizar sua primeira sinfonia.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Philip Glass em foto de autor desconhecido, copiada [aqui](http:\/\/obviousmag.org\/archives\/2011\/01\/philip_glass_da_velha_vitrola_do_pai_ao_sofisticado_universo_de_notas_musicais.html)","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":783,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2020","post_timestamp":"2020-04-03T02:13:56+00:00","url":"2020_04_02_discos_do_mes_marco_de_2020","post":"**Maurizio Pollini: Fr\u00e9d\u00e9ric Chopin - \u00c9tudes Op. 10 \u0026 Op. 25**\r\n\r\nChopin \u00e9 um daqueles compositores que l\u00e1 do fundo de suas mortes ressuscitam quando ouvimos algo de sua lavra. H\u00e1 uma presen\u00e7a indefin\u00edvel na m\u00fasica, abra\u00e7ando-a; eu diria que \u00e9 o fantasma de seu criador, que aparece satisfeito quando evocado com respeito e habilidade. Pollini \u00e9 um dos pianistas que sabe como faz\u00ea-lo, um dos grandes m\u00e9diuns de Chopin \u2014 o maior, eu diria, junto com Martha Argerich, dentre os n\u00e3o muitos que eu conhe\u00e7o. Ou\u00e7a a \u00faltima faixa deste disco, o estudo n\u00famero 12 da Op. 25, para constatar a excel\u00eancia corp\u00f3rea e concreta de Pollini e tamb\u00e9m a presen\u00e7a et\u00e9rea de Chopin, o espectro do polon\u00eas sussurrando o som que enla\u00e7a as notas do piano e as transforma em algo mais, algo da ordem da feiti\u00e7aria, ou dos sonhos dos alquimistas. Li dia desses em algum lugar algu\u00e9m sugerindo que se durante a quarentena todo brasileiro lesse um livro de hist\u00f3ria, n\u00f3s nunca mais eleger\u00edamos um presidente fascista. Pois eu digo que se al\u00e9m de lermos tal livro todos n\u00f3s ouvirmos a este disco atentamente, dia ap\u00f3s dia, durante todo o per\u00edodo da clausura, n\u00e3o somente ao v\u00edrus da burrice nos tornaremos imunes, mas tamb\u00e9m a toda e qualquer mol\u00e9stia psicol\u00f3gica, intelectual e espiritual poss\u00edvel, e sabemos que n\u00e3o s\u00e3o poucas as que afligem este pobre povo brasileiro\u2026 (Quando ao coronav\u00edrus, n\u00e3o tem jeito, temos que permanecer em casa.)\r\n\r\n**Joni Mitchell - Ladies of the Canyon**\r\n\r\nEu adoro ler ou escutar m\u00fasicos discorrendo sobre seus discos favoritos, e n\u00e3o perco nenhum epis\u00f3dio da s\u00e9rie de v\u00eddeos [What\u2019s in my Bag? da Amoeba Records](https:\/\/www.amoeba.com\/whats-in-my-bag\/#\/grid\/1) nem deixo de ler nenhum dos posts da [Baker\u2019s Dozen do site The Quietus](https:\/\/thequietus.com\/features\/baker-s-dozen). Leio e assisto mesmo quando o entrevistado ou entrevistada \u00e9 algu\u00e9m de quem eu nunca ouvi falar (o que, no caso do Baker\u2019s Dozen, \u00e9 a grande maioria). Nestes dois canais, o disco mais frequentemente citado, com folga, \u00e9 o *Blue* da Joni Mitchell. \u00c9 surpreendente, n\u00e3o? Nada de Beatles ou Rolling Stones, Bob Dylan ou David Bowie \u2014 nada de cl\u00e1ssico bomb\u00e1stico ou multi-platinado de homem ou grupo de homens algum: a canadense Joni Mitchell e sua m\u00fasica \u00edntima e tranquila. Bem, na verdade, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o surpreendente assim. Mas o caso \u00e9 que, incentivado por essa prefer\u00eancia t\u00e3o contundente, eu j\u00e1 escutei a este disco algumas vezes, sempre com a maior das boas vontades, e o que ele deve ter de t\u00e3o especial em todas estas vezes me escapou: \u00e9 bonito, evidentemente, mas n\u00e3o consegui captar o que o torna t\u00e3o importante na vida dessa gente toda. Talvez seja uma coisa geracional, n\u00e3o sei\u2026 \u00c9 apenas um pequeno dissenso, em todo o caso: nos \u00faltimos dias venho escutando muitos outros discos de Mitchell e tenho me tornado grande f\u00e3 dela. Os tr\u00eas \u00e1lbuns lan\u00e7ados antes de *Blue*, a saber, *Song to a Seagull*, *Clouds* e *Ladies of the Canyon*, de 1968, 1969 e 1970, respectivamente, s\u00e3o todos \u00f3timos. *Ladies of the Canyon* talvez n\u00e3o seja o meu favorito \u2014 os dois primeiros s\u00e3o mais voz \u0026 viol\u00e3o, o que me faz preferi-los \u2014 mas \u00e9 um disco singularmente especial, \u00e9 f\u00e1cil reconhec\u00ea-lo: suas faixas trazem arranjos mais elaborados, muitos pianos, um clima mais complexo e introspectivo em rela\u00e7\u00e3o ao folk de alma hippie que marcam os \u00e1lbuns anteriores. O trecho final de *Ladies of the Canyon*, mais precisamente suas \u00faltimas tr\u00eas can\u00e7\u00f5es, \u00e9 todo magn\u00edfico, e *The Circle Game* \u2014 com o luxo dos vocais de apoio do CSN\u0026Y no refr\u00e3o \u2014 \u00e9 possivelmente minha faixa favorita de Mitchell at\u00e9 o momento. De acordo com o que li por a\u00ed, este disco prenuncia algumas mudan\u00e7as em sua m\u00fasica, o que devo descobrir por mim mesmo em breve j\u00e1 que pretendo escutar a todos os seus discos, inclusive dar novas chances ao t\u00e3o estimado *Blue*.\r\n\r\n**Steve Roach - Mystic Chords \u0026 Sacred Spaces**\r\n\r\nOs [incont\u00e1veis discos](https:\/\/steveroach.bandcamp.com) de Steve Roach assemelham-se muito em m\u00e9todo e forma, por\u00e9m alguns conseguem um efeito mais not\u00e1vel sobre o ouvinte. N\u00e3o preciso entrar em detalhes sobre isso, certo? N\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o conhe\u00e7a dessas traquinagens ao mesmo tempo prosaicas e miraculosas das m\u00fasicas. Coloco *Mystic Chords \u0026 Sacred Spaces* neste grupo dos especiais. Suas mais de [quatro horas](https:\/\/projektrecords.bandcamp.com\/album\/mystic-chords-sacred-spaces-complete-edition) de dura\u00e7\u00e3o t\u00eam grande parcela de responsabilidade neste \u00eaxito, ent\u00e3o depende do estoque de disposi\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia do ouvinte poder desfrut\u00e1-lo em sua completa amplitude. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil, no entanto: a m\u00fasica desde o in\u00edcio imp\u00f5e-se, determina logo as sensa\u00e7\u00f5es e o recolhimento compuls\u00f3rio. Ficar indiferente \u00e9, creio, imposs\u00edvel. Sei que j\u00e1 gastei essa met\u00e1fora por aqui, mas devido ao seu renovado e urgent\u00edssimo significado, vejo-me disposto a sacrific\u00e1-la um pouco mais: \u00e9 m\u00fasica que nos retira do mundo. H\u00e1 coisa mais preciosa do que isso hoje em dia?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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E tamb\u00e9m no palco Miles era assim: o olhar cuidadoso e concentrado nos m\u00fasicos que o acompanham; o passo discreto em dire\u00e7\u00e3o ao fundo do palco quando \u00e9 chegada a hora de ceder o protagonismo a outro instrumentista; o erguer e o descansar vagarosos do trompete; o tempo das notas e o controle total do feiti\u00e7o que elas exercem sobre as plat\u00e9ias \u00e0 sua frente (uma das hist\u00f3rias mais deliciosas do filme \u2014 n\u00e3o lembro quem conta \u2014 relata que certa vez, nos ensaios preparativos para uma apresenta\u00e7\u00e3o, Miles n\u00e3o dava dire\u00e7\u00e3o alguma, n\u00e3o falava coisa com coisa, apenas dizia aos membros de sua banda que tocassem o que quisessem, que seguissem a inspira\u00e7\u00e3o do momento etc., quando algu\u00e9m interrompe e diz que parecia tudo muito bom exceto que talvez o p\u00fablico n\u00e3o gostasse do resultado, ao que Miles responde: \u201cdeixem o p\u00fablico comigo\u0022). O document\u00e1rio \u00e9 bom, vale a pena assistir devido \u00e0s cenas com Miles e \u00e0s entrevistas com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Archie Shepp, entre outros. Sua maior virtude, contudo, \u00e9 a honestidade: o m\u00edtico trompetista n\u00e3o \u00e9 preservado de suas muitas e enormes falhas. A mesma m\u00e3o que pacientemente deslizava o pincel sobre uma tela e que empunhou o mais c\u00e9lebre trompete da hist\u00f3ria foi tamb\u00e9m usada para agredir mulheres algumas vezes. Antes de tratar disso, o document\u00e1rio exibe uma ou outra tentativa de explicar o comportamento futuro de Miles: uma breve e especulativa men\u00e7\u00e3o aos conflitos entre seus pais, depois o epis\u00f3dio da coronhada que recebeu de um policial. N\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de compreender as consequ\u00eancias da viol\u00eancia e do racismo sobre a psique de suas v\u00edtimas; sei que \u00e9 mat\u00e9ria complicad\u00edssima. Meu pacifismo quase intransigente, contudo, me impele a repudiar qualquer inst\u00e2ncia da viol\u00eancia, sempre, seja l\u00e1 qual for o hist\u00f3rico do agressor. N\u00e3o consigo absolver Miles. \u00c9 uma pena. N\u00e3o importa o que a experi\u00eancia continuamente me ensine sobre os humanos, eu sempre acho desconcertante essa conviv\u00eancia num mesmo corpo, numa mesma alma, de grande talento e cafajestagem rasteira, de elevada vis\u00e3o art\u00edstica e vilania. Louis-Ferdinand C\u00e9line, Pablo Picasso, Richard Wagner, Miles Davis, Marlon Brando; anti-semitas, racistas, espancadores de mulheres, estupradores, h\u00e1 de tudo. Posso at\u00e9 conceder que uma coisa ou outra, eventualmente, deva ser relativizada pela for\u00e7a da cultura e das circunst\u00e2ncias, e pelas j\u00e1 mencionadas implica\u00e7\u00f5es das muitas formas de opress\u00e3o e hostilidade social\u2026 Mas viol\u00eancia contra quem n\u00e3o pode se defender, venha de quem venha, \u00e9 algo que me incomoda profundamente. Saber que tr\u00eas dos meus maiores \u00eddolos musicais \u2014 Miles, Jimi Hendrix e Jim Morrison \u2014 foram abusivos com mulheres \u00e9 um pensamento que n\u00e3o me deixa muito feliz. (Morrison, garot\u00e3o branco e californiano, certamente n\u00e3o tinha desculpa alguma.) Mas \u00e9 assim a humanidade, essa mistura desvairada de alguns poucos grandess\u00edssimos grandes homens somados \u00e0 imensa maioria dos comuns e suas doses assim\u00e9tricas de defeitos e virtudes, baixezas e generosidades, e todos n\u00f3s, coletivamente, rebaixados pelo grupelho dos s\u00f3rdidos convictos, os completamente degenerados que andam a levar, por estes dias, o conceito de desumanidade ao paroxismo. Qual ser\u00e1 o saldo final dessa confus\u00e3o \u00e9 algo que desconfio estarmos cada vez mais pr\u00f3ximos de descobrir.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de autor desconhecido, copiada [daqui](http:\/\/www.tenhomaisdiscosqueamigos.com\/2016\/04\/03\/prestige-lancara-box-com-os-primeiros-trabalhos-de-miles-davis\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Quero dizer, a escrita n\u00e3o tem que ser t\u00e3o exuberante quanto a m\u00fasica \u2014 obviamente n\u00e3o seria eu o encarregado desta tarefa \u2014, mas o que eu gostaria de poder fazer \u00e9 dar uma medida justa desta exuber\u00e2ncia, comentar um ou outro aspecto da minha percep\u00e7\u00e3o pessoal sobre ela e sobre este artista extraordin\u00e1rio. E mesmo isso acho muito dif\u00edcil. Quando se fala sobre a possibilidade incompar\u00e1vel de transcend\u00eancia na arte musical (certamente n\u00e3o foram apenas dois ou tr\u00eas os poetas ou fil\u00f3sofos a mencionar isso), talvez tal abstra\u00e7\u00e3o nada mais seja do que uma outra forma de exprimir essa dificuldade, um olhar mais generoso e compreensivo acerca da limita\u00e7\u00e3o dos nossos instrumentos de linguagem quando diante da tarefa de descrever certas m\u00fasicas e as sensa\u00e7\u00f5es que elas evocam \u2014 uma express\u00e3o menos derrogat\u00f3ria sobre n\u00f3s mesmos, ou pelo menos sobre estes pobres seres que somos os que n\u00e3o nasceram com o talento de Cecil Taylor, este talento que \u00e9 o de poder criar sua pr\u00f3pria linguagem e, assim, expressar-se livre e plenamente.\r\n* Ora, ora, ser\u00e1 que aquela [minha intui\u00e7\u00e3o a respeito do novo disco do Pearl Jam](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2020_01_21_impressoes_auditivas_vol_xiii) ir\u00e1 se confirmar? Porque essa primeira m\u00fasica que apareceu, *Dance of the Clairvoyants*, \u00e9 muito interessante, muito boa. Ser\u00e1 uma agradabil\u00edssima surpresa descobrir que o Pearl Jam ainda tem o que dizer e lenha para queimar.\r\n* Uma impress\u00e3o de um outro: \u201cI automate whatever can be automated to be freer to focus on those aspects of music that can\u0027t be automated. The challenge is to figure out which is which.\u201d (Laurie Spiegel)\r\n* Fico tentado a acreditar que na terra da qual emana uma [m\u00fasica como esta](https:\/\/www.discogs.com\/pt_BR\/Egberto-Gismonti-Group-Inf\u00e2ncia\/release\/3481499) deve haver alguma esp\u00e9cie de for\u00e7a vital extremamente resiliente. Essa m\u00fasica \u00e9 quase que fibra pura; \u00e9 beleza e resist\u00eancia diante de tantas e tantas dificuldades, de tanta usura e crueldade. O disco \u00e9 de 1991, mas tenho certeza que ainda h\u00e1 muita m\u00fasica magn\u00edfica desse porte sendo criada Brasil afora, circulando por conta exclusiva da for\u00e7a motora de sua beleza e sua necessidade intr\u00ednsecas, pois de resto, a depender de outros meios e interesses, ela bem que poderia ser totalmente suprimida e censurada e destru\u00edda. O Brasil parece que est\u00e1 sendo permanentemente testado; se resistirmos \u00e0s prova\u00e7\u00f5es atuais, bem que poder\u00edamos passar a cuidar melhor de nossa m\u00fasica e de nossos m\u00fasicos, ouvi-los e cultiv\u00e1-los com mais carinho, celebr\u00e1-los e exibi-los orgulhosos ao mundo, e torn\u00e1-los parte importante de um sistema de anteparo e salvaguarda culturais contra o fascismo degenerado que, mesmo se ora derrotado, haver\u00e1 de voltar ciclicamente. Uma m\u00fasica que parece sa\u00edda da pr\u00f3pria terra \u2014 e n\u00e3o uma terra qualquer, mas provavelmente a mais rica e f\u00e9rtil do planeta \u2014 \u00e9 um sistema natural de defesa do qual n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Cecil Taylor fotografado por Andrew Putler. Imagem copiada [daqui](https:\/\/www.rollingstone.com\/music\/music-news\/cecil-taylor-remembering-the-ultimate-piano-radical-629774\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":780,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2020","post_timestamp":"2020-03-04T02:30:47+00:00","url":"2020_03_03_discos_do_mes_fevereiro_de_2020","post":"George Steiner costumava dizer que m\u00fasica \u00e9 o principal \u0022privil\u00e9gio do existir\u201d. Steiner, que faleceu no m\u00eas passado aos 90 anos, era claramente de um outro tempo e outra circunst\u00e2ncia, haja visto que de privil\u00e9gio a m\u00fasica j\u00e1 foi promovida (ou rebaixada?) a t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, a garantidora de sanidade. Voltar \u00e0 mera condi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio exigir\u00e1 que sobrevivamos ao inferno; a nossa sorte \u00e9 termos estocado j\u00e1 esse tanto de m\u00fasica, um imenso legado que h\u00e1 de nos ser de grande valia nesta miss\u00e3o. O Sunn O))) \u00e9 uma destas bandas improv\u00e1veis que me faz pensar na variedade desta nossa heran\u00e7a. J\u00e1 houve uma aura inigual\u00e1vel de misticismo e malignidade em torno do som da dupla, coisa que muito me atra\u00eda, por\u00e9m essa aura suavizou-se bastante com o tempo, diluiu-se na sequ\u00eancia de discos, na inevit\u00e1vel transmuta\u00e7\u00e3o de \u201csom esf\u00edngico de outra dimens\u00e3o\u201d em \u201cproduto industrial manufaturado e vendido por quantias monet\u00e1rias pr\u00e9-definidas que podem ser divididas em tr\u00eas presta\u00e7\u00f5es sem juros\u201c, ou algo assim. \u00c9 evidente que n\u00e3o critico a banda por gravar e vender sua m\u00fasica: \u00e9 apenas que vir a existir neste mundo tem tamb\u00e9m seus custos, tanto quanto seus benef\u00edcios. Ou talvez a experi\u00eancia da m\u00fasica do Sunn O))) tenha se tornado um pouco aguada para mim depois que vi uma apresenta\u00e7\u00e3o da dupla, isso tem j\u00e1 mais de 10 anos, e embora o show tenha sido \u00f3timo, minha lembran\u00e7a maior daquela noite \u2014 a lembran\u00e7a que fixou-se mais persistente em minha mem\u00f3ria \u2014 \u00e9 que sentada atr\u00e1s de mim estava uma fam\u00edlia perfeitamente urbana e convencional, pai e m\u00e3e bem vestidos e penteados com dois filhos pequenos e loirinhos que passaram boa parte do show dando risadas, se divertindo \u00e0 be\u00e7a com tudo aquilo, como se estivessem num circo deveras diferente. No palco aquelas duas figuras estranh\u00edssimas, vestidas como monges alien\u00edgenas empunhando guitarras, quase invis\u00edveis em meio \u00e0 fuma\u00e7a e \u00e0s gigantescas caixas de som de onde jorrava um volume de som el\u00e9trico que quase estourava os t\u00edmpanos; atr\u00e1s de mim, \u00e0s gargalhadas, dois moleques que mal tinham todos os dentes. Foi tudo \u00f3timo, \u00e9 claro \u2014 foi daqueles imprevistos que n\u00e3o nos deixa outra op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o aceitar e incorporar ao evento. Mas acho que algo mudou na minha rela\u00e7\u00e3o com a banda a partir de ent\u00e3o. Estes \u00faltimos discos lan\u00e7ados pelo Sunn O))) j\u00e1 n\u00e3o me inspiram coisas dram\u00e1ticas como [estas aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2014_10_01_discos_do_mes_setembro_de_2014) (me d\u00eaem um desconto, eu tinha apenas 35 anos quando escrevi isso!), mas continuo admirando-os bastante, principalmente a lent\u00edssima \u2014 quase impercept\u00edvel, o que \u00e9 parte, claro, do *ethos* da banda \u2014 evolu\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica, que se d\u00e1 pelo ajuntamento de pequenos detalhes, como que pequenas muta\u00e7\u00f5es ao longo de muitas e lentas gera\u00e7\u00f5es \u2014 o violoncelo de Hildur Gu\u00f0nad\u00f3ttir em *Pyroclasts*, por exemplo, parece algo surgido durante a era paleoz\u00f3ica do som do Sunn O))). Este *Pyroclasts* n\u00e3o me fez pensar em catedrais desmoronando (na verdade, o disco me deu vontade de comer aquelas barras de chocolate branco com frutas cristalizadas), mas \u00e9 um belo disco mesmo assim. N\u00e3o \u00e9 de toda e qualquer m\u00fasica, afinal, que podemos exigir que mantenha intactos para sempre seus poderes evocativos: nem todo mundo \u00e9 Beethoven. Ou Iron Maiden. Ontem mesmo fui assaltado por uma vontade irreprim\u00edvel de escutar ao *The Number of the Beast*. Como esse disco continua magn\u00edfico! E de tudo o quanto eu adoro nele, o que ainda mais gosto \u00e9 o toque esdr\u00faxulo e surreal que o trecho \u0022This can\u0027t go on, I must inform the law\u201d d\u00e1 \u00e0 faixa t\u00edtulo. Oras, o que aqueles lerdos e meio apalermados policiais ingleses, que sequer portam armas de fogo, poder\u00e3o fazer contra L\u00facifer? (Mais estranho do que isso apenas o fato de que a melhor m\u00fasica do \u00e1lbum, *Total Eclipse* \u2014 certo, concedo que *Hallowed Be Thy Name* seja t\u00e3o boa quanto \u2014, n\u00e3o est\u00e1 presente em todas as suas edi\u00e7\u00f5es e vers\u00f5es.) Deixo para o fim a cita\u00e7\u00e3o de ao menos um disco de m\u00fasica s\u00e9ria e plenamente incontest\u00e1vel: trata-se deste \u00faltimo do Sleater-Kinney, *The Center Won\u0027t Hold*. Este sim \u00e9 vital, m\u00fasica rejuvenescedora e necess\u00e1ria para a absurdidade dos dias que correm, m\u00fasica-hino para reunir as for\u00e7as e lutar. Esta \u00e9 uma parceria muito potente: m\u00fasica e feminismo. Apostaria nelas todas as minhas fichas se acaso nos decidirmos de uma vez por todas que vale a pena tentar salvar o planeta e a humanidade.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":779,"title":"Dos usos e benef\u00edcios de Beethoven","post_timestamp":"2020-02-18T19:43:04+00:00","url":"2020_02_18_dos_usos_e_beneficios_de_beethoven","post":"Nos restaurantes do v\u00e3o do Mercado P\u00fablico e sob as sombras das marquises do principal cal\u00e7ad\u00e3o da cidade; nas conversas tranquilas dos mais velhos ao p\u00f4r do sol na praia, as m\u00e3os livres cruzadas \u00e0s costas e os p\u00e9s enfiados at\u00e9 a canela na areia mole da beira d\u2019\u00e1gua, e tamb\u00e9m na rodinha de jovens pais e jovens m\u00e3es que batem papo enquanto observam os filhos pequenos brincando nas marolinhas finais da respira\u00e7\u00e3o do mar; nas dunas ferventes e ofuscantes perfumadas pelas ervas que os grupinhos dispersos aqui e ali usam para evocar o esp\u00edrito de Bob Marley; nos debates regados a cerveja e cacha\u00e7a artesanal nos botecos ao redor da Lagoa, e em todos os demais bares e tamb\u00e9m no burburinho do com\u00e9rcio do centro da cidade, e at\u00e9 mesmo nas barbearias que agora existem tantas quantas s\u00e3o as farm\u00e1cias \u2014 por toda Florian\u00f3polis n\u00e3o se fala em outra coisa que n\u00e3o seja os 250 anos de nascimento de Beethoven. Isso foi um sonho que eu tive, claro. N\u00e3o sei sobre o que andam conversando os moradores desta cidade, exce\u00e7\u00e3o feita ao calor infernal que vem fazendo, que sobre isso ouve-se pessoas falando at\u00e9 mesmo com seus cachorros e n\u00e3o raro sozinhas. Beethoven, contudo, me parece razo\u00e1vel supor que n\u00e3o consta entre os t\u00f3picos correntes na vida da sociedade ilhoa \u2014 mesmo que estes t\u00f3picos ganhem algum colorido de assuntos e idiomas e sotaques com os turistas que, nesta \u00e9poca do ano, mais que duplicam a popula\u00e7\u00e3o da cidade \u2014, ainda mais agora com a proximidade do carnaval. E foi ao lembrar do feriado de carnaval, uns dias atr\u00e1s, que me ocorreu organizar um tributo pessoal ao mais ilustre dos compositores, ao mais imortal dos imortais que j\u00e1 morreram. Esquematizei a coisa toda no papel e comecei-a na semana passada com a audi\u00e7\u00e3o do ciclo completo de suas sonatas para piano na leitura de Fazil Say. J\u00e1 conhe\u00e7o-as todas pelas m\u00e3os de outros pianistas, mas nunca \u00e9 demais acrescentar novas vers\u00f5es \u00e0 memorabilia pessoal, afinal, se \u00e9 pertinente agrupar um tipo de m\u00fasica e determinado autor para organizar listas de prefer\u00eancias (as sinfonias de Mahler, os quartetos de B\u00e1rtok etc.), ent\u00e3o, para mim, nada \u00e9 maior do que o conjunto das 32 sonatas para piano de Beethoven. Como se fosse pouco dizer que \u00e9 a maior das obras musicais, elas exigem que se escreva ainda algo sobre o ser humano, pois com esta nossa complexa e tumultuada condi\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o sendo isso necessariamente uma redund\u00e2ncia, n\u00e3o para quem escuta t\u00e3o amplo espectro de m\u00fasica como eu escuto, das mais comezinhas \u00e0s mais pretensiosas \u2014 com nossa humanidade elas se entrela\u00e7am e confundem como acontece com pouqu\u00edssimas outras obras, musicais ou n\u00e3o. \u00c9 como o arco de uma vida em toda sua vasta gama de sensa\u00e7\u00f5es, ou o arco de v\u00e1rias vidas paralelas, pois por se assemelharem tamb\u00e9m com a pluralidade das formas de se viver e tamb\u00e9m na multiplicidade das conex\u00f5es que se estabelecem entre as vidas \u2014 mesmo as conex\u00f5es nascidas dos mais breves, mais truncados e fugazes momentos \u2014 tamb\u00e9m as sonatas parecem tecer uma rede onde cada pe\u00e7a acaba sendo mais do que ela \u00e9 sozinha, onde cada uma tem o seu come\u00e7o e meio e fim pr\u00f3prios e ao mesmo tempo \u00e9 complementada ou mesmo ampliada por alguma outra, coisa que provavelmente algum poeta de imagina\u00e7\u00e3o mediana j\u00e1 deve ter dito igual das vidas humanas. Para comentar sobre a grandeza dessa obra eu me sinto muito fajuto, sinto-me muito pior do que um poeta de imagina\u00e7\u00e3o med\u00edocre, mas tentar ao menos esbo\u00e7ar a dimens\u00e3o de sua beleza e de seus benef\u00edcios espirituais me parece uma tarefa, mesmo que toscamente executada \u2014 mesmo que rendendo apenas uma vaga silhueta, um borr\u00e3o de tra\u00e7os r\u00e1pidos e grosseiros \u2014, crucial nestes nossos tempos de inacredit\u00e1vel estupidez e bo\u00e7alidade, neste nosso v\u00f3rtice de viol\u00eancia e barb\u00e1rie. Todos dever\u00edamos conhecer estas sonatas de Beethoven, e mostr\u00e1-las uns aos outros. Quase nada escapa deste magn\u00edfico painel de sons, desta multid\u00e3o de prismas e melodias e de compassos e humores que, em sua exuber\u00e2ncia ultra-criativa mas tamb\u00e9m na intimidade de seus sil\u00eancios e de suas notas quase mortas, podem ajudar a quem ouvir-lhes com aten\u00e7\u00e3o a apaziguar muitas das incertezas e hesita\u00e7\u00f5es que desequilibram nossas almas, a alinhar estas vozes todas que carregamos conosco em perp\u00e9tuos atrito e contradi\u00e7\u00e3o, a preencher suas falhas e fissuras, a desvendar, enfim, as encruzilhadas destes nossos pensamentos e rumina\u00e7\u00f5es sem fim. E da\u00ed, a corrigir os rumos do mundo. Beethoven nos deu os instrumentos para tal, mas a renova\u00e7\u00e3o de seus esfor\u00e7os \u00e9 sempre bem-vinda. Fazil Say \u00e9 um pianista e compositor turco jovem ainda \u2014 nascido em 1970, tem agora 50 anos \u2014, que parece caminhar a passos largos para se tornar um nome bastante importante, para al\u00e9m da notoriedade contempor\u00e2nea. Um dos meus CDs de m\u00fasica cl\u00e1ssica favoritos \u00e9 a parceria dele com a violinista (e tamb\u00e9m favorita) Patricia Kopatchinskaja no qual a dupla interpreta pe\u00e7as de Beethoven, Ravel e Bart\u00f3k, al\u00e9m de uma intrigante sonata de autoria do pr\u00f3prio Say. Sua interpreta\u00e7\u00e3o destas sonatas para piano de Beethoven \u00e9 colorida e intensa, como deve ser, fiada na tradi\u00e7\u00e3o dos grandes mestres (com alguma ousadia apenas na abordagem aos [movimentos lentos](https:\/\/theclassicreview.com\/album-reviews\/review-beethoven-complete-piano-sonatas-fazil-say\/)), e por mais que nossas devo\u00e7\u00f5es a nomes como Maurizio Pollini e Wilhelm Kempff tentem nos tornar comedidos nos elogios ao jovem turco, a verdade \u00e9 que, ao menos para mim, por enquanto est\u00e1 dif\u00edcil colocar as vers\u00f5es de Fazil abaixo das deles. Bem, estou na oitava ainda, e estou ouvindo uma por dia; faltam algumas das essenciais que talvez favore\u00e7am ou desfavore\u00e7am essa opini\u00e3o, vejamos. Tenho ainda aqui comigo as vers\u00f5es do austr\u00edaco Friedrich Gulda, que tamb\u00e9m nunca escutei antes e j\u00e1 est\u00e3o inclusas no roteiro desta minha maratona de Beethoven, mas antes de reiniciar o ciclo das sonatas pelas m\u00e3os de Gulda, planejo atravessar todas as nove sinfonias e os quartetos de cordas beethovianos, um vasto oceano de m\u00fasica que, hoje, entendo ser a esperan\u00e7a final da humanidade, a salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da m\u00fasica, em especial daquela que nos legaram os g\u00eanios que em meio \u00e0s nebulosas intui\u00e7\u00f5es de suas breves e ca\u00f3ticas vidas \u2014 premoni\u00e7\u00f5es transformadas em f\u00e9, trabalho e morte \u2014 perceberam eles, de um jeito ou de outro, que s\u00f3 atrav\u00e9s da beleza n\u00f3s teremos alguma chance. J\u00e1 descartamos os bens intr\u00ednsecos \u00e0 toler\u00e2ncia, \u00e0 igualdade social e ao respeito \u00e0 natureza; se quisermos sobreviver, que n\u00e3o descartemos Beethoven.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Beethoven nears the end*, de Oswald Charles Barret, copiada [aqui](https:\/\/www.flickr.com\/photos\/126022159@N06\/16347525824).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":778,"title":"Heavy metal roundup, Vol. I","post_timestamp":"2020-02-14T04:50:45+00:00","url":"2020_02_13_heavy_metal_roundup_vol_i","post":"Entusiasmei-me tanto com o metal que andei ouvindo nestas \u00faltimas semanas que resolvi n\u00e3o mais ficar tanto tempo longe dele, como vinha acontecendo de uns tempos para c\u00e1. Sei que estamos em pleno ver\u00e3o, e este nosso calor tropical n\u00e3o combina muito bem com uma m\u00fasica que se veste fundamentalmente de preto e faz suar horrores, mas que se dane: a trilha-sonora do mundo, hoje, \u00e9 o metal, n\u00e3o h\u00e1 outra poss\u00edvel. E logo mais ser\u00e1 outono, e depois inverno\u2026 Ent\u00e3o, a partir de agora, n\u00e3o vou mais marcar bobeira: estou decidido a acompanhar os discos e as bandas do g\u00eanero mais de perto, e esta nova s\u00e9rie de posts ir\u00e1 me auxiliar nesta miss\u00e3o.\r\n\r\nA ideia \u00e9 publicar, regularmente, algumas notas breves (ou n\u00e3o t\u00e3o breves) sobre minhas descobertas mais recentes no reino da m\u00fasica do mal. Vou privilegiar discos encontrados no bandcamp \u2014 esse fant\u00e1stico o\u00e1sis virtual em cuja sombra o pessoal do metal parece ter encontrado abrigo perfeito \u2014 e acrescentar a estes meus escritos metidos a besta o respectivo player para que voc\u00ea, car\u00edssimo desocupado que me l\u00ea, possa escutar tamb\u00e9m aos discos. (Pode acontecer de aparecer alguma banda ou \u00e1lbum que n\u00e3o esteja no bandcamp; nesse caso, se ficar interessado, voc\u00ea se vira. O que n\u00e3o vai ter, isso eu posso lhe garantir, ser\u00e1 player ou link para Spotify ou YouTube, que isso n\u00e3o s\u00e3o maneiras de se escutar m\u00fasica.)\r\n\r\nAdianto que vai ter muito death metal, meu sub-g\u00eanero favorito, e tamb\u00e9m muito doom (nossa, eu n\u00e3o lembrava de como eu adoro Cathedral); black metal \u2014 que, como est\u00e9tica, n\u00e3o \u00e9 exatamente uma prefer\u00eancia pessoal, mas n\u00e3o raro produz coisas que me encantam profundamente, como esses [camaradas aqui](https:\/\/deathspellomega.bandcamp.com) \u2014 tamb\u00e9m isso deve aparecer ami\u00fade; os [contempor\u00e2neos que n\u00e3o sei classificar](https:\/\/thaw.bandcamp.com) e os que transitam nas arenas aventureiras do drone, do avant-garde e do post metal, tamb\u00e9m dessa turma toda eu ou\u00e7o coisas maravilhosas e vou cit\u00e1-los bastante por aqui. Crust punk e D-beat eu tamb\u00e9m adoro e recomendarei com frequ\u00eancia, nunca desviando-me deste meu nobre objetivo secund\u00e1rio, a saber, espalhar gra\u00e7a e ternura pelo mundo. Eventualmente um thrash, que acho divertid\u00edssimo; eventualmente mais alguma outra coisa. Speed metal, power metal, essas bobagens evidentemente n\u00e3o me interessam.\r\n\r\n(O nome \u201cHeavy metal roundup\u201d \u00e9, portanto, s\u00f3 um nome, escolhido porque n\u00e3o achei nada melhor. E em ingl\u00eas ficou porque \u201cApanhad\u00e3o do Heavy metal\u201d n\u00e3o me pareceu muito bom.)\r\n\r\nEnt\u00e3o, sob os ausp\u00edcios de Nossa Majestade retratada acima, o \u00fanico Rei que reconhe\u00e7o e o grande patrono desta s\u00e9rie, iniciemo-la:\r\n\r\n**Alaric - End of Mirrors**\r\n\r\nDescobri esse disco e essa banda por acaso quando, certa vez, enquanto navegava pelo cat\u00e1logo do pessoal da 20 Buck Spin, tive minha aten\u00e7\u00e3o capturada pela bel\u00edssima capa que segue reproduzida a\u00ed embaixo junto do player, ou que voc\u00ea v\u00ea um pouco melhor [aqui](https:\/\/f4.bcbits.com\/img\/a3757278799_16.jpg). *End of Mirrors* pode ser resumidamente descrito como o casamento do Cure fase *Disintegration* com o Killing Joke, celebrado por um padre que, assaltado por pesadelos malignos na noite anterior, resolve celebrar a uni\u00e3o com trechos de Edgar Allan Poe ao inv\u00e9s dos tradicionais vers\u00edculos da B\u00edblia. O disco funciona muito bem e tem a vantagem da bonita arte gr\u00e1fica, mas acho que gostei mais do [trabalho anterior](https:\/\/alaric.bandcamp.com\/album\/alaric-s-t-lp-2) do Alaric, que escutei depois. Tem ainda um split deles com o Atriarch que n\u00e3o deve ser menos do que maravilhoso (mas da\u00ed \u00e9 por conta do Atriarch).\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=467665030\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/alaric.bandcamp.com\/album\/end-of-mirrors\u0022\u003EEnd of Mirrors by Alaric\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n**Portal - Ion**\r\n\r\nEssa banda eu j\u00e1 tinha escutado antes. N\u00e3o lembro bem qual era o disco, mas lembro de ter ficado bastante perturbado com a vileza e a pestil\u00eancia do som desses australianos, me sentindo como se tivesse encontrado um [Lament Configuration](https:\/\/hellraiser.fandom.com\/wiki\/Lament_Configuration) de verdade e uma trupe de [Cenobitas](https:\/\/hellraiser.fandom.com\/wiki\/Cenobites) estivesse prestes a surgir diante de mim a qualquer momento. N\u00e3o \u00e9 exagero ou figura de linguagem: esse som pode desestabilizar um ouvinte desavisado; me desestabilizou, por certo, e olha que ou\u00e7o m\u00fasica extrema h\u00e1 uns bons 20 anos. Experimentei com muita precau\u00e7\u00e3o o \u00faltimo disco destes dementes, *Ion*, e ainda n\u00e3o consigo decidir se gosto disso ou n\u00e3o. \u00c9 desnorteante; \u00e9 t\u00e9trico demais. No player abaixo voc\u00ea est\u00e1 sob sua conta e risco.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=728531093\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/profoundlorerecords.bandcamp.com\/album\/ion\u0022\u003EION by PORTAL\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n**Blood Incantation - Hidden History of the Human Race**\r\n\r\nSobre este disco eu li maravilhas, e ele, com efeito, figura na maior parte das listas de melhores de 2019. S\u00e3o quatro faixas apenas, e ao final da segunda eu ainda n\u00e3o estava muito impressionado\u2026 Mas a terceira, a sensacional *Inner Paths (to Outer Space)*, sozinha ela virou o jogo, e a \u00faltima, o \u00e9pico c\u00f3smico *Awakening From The Dream Of Existence To The Multidimensional Nature Of Our Reality (Mirror Of The Soul)* \u2014 esta me ganhou completamente, \u00e9 nada menos do que um grandioso espet\u00e1culo, com direito a homenagem ao Pink Floyd e tudo.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=744542709\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/darkdescentrecords.bandcamp.com\/album\/hidden-history-of-the-human-race\u0022\u003EHidden History of the Human Race by Blood Incantation\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n**Tomb Mold - Planetary Clairvoyance**\r\n\r\nPara os filiados \u00e0 Sagrada Igreja do Anjo M\u00f3rbido.\r\n\r\n\u003Ciframe style=\u0022border: 0; width: 100%; height: 120px;\u0022 src=\u0022https:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/album=1142062926\/size=large\/bgcol=ffffff\/linkcol=0687f5\/tracklist=false\/artwork=small\/transparent=true\/\u0022 seamless\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/listen.20buckspin.com\/album\/planetary-clairvoyance\u0022\u003EPlanetary Clairvoyance by Tomb Mold\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto do King Diamond copiada [daqui](https:\/\/www.last.fm\/pt\/music\/King+Diamond\/+images\/c4f70a59efb6447098a5d2af62edf5ba).","author":{"name":"Fabricio C. 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A melhor explica\u00e7\u00e3o que consigo encontrar para esta causalidade reside no fato que que ambas as coisas, ver\u00e3o e hard rock, possuem o signo do hedonismo; quanto \u00e0 minha patol\u00f3gica falta de maturidade, isso \u00e9 assunto que evidentemente n\u00e3o interessa a ningu\u00e9m. Bem, destes nomes todos, o Led \u00e9 o meu campe\u00e3o, claro. Tenho o King Crimson inscrito em um selet\u00edssimo grupo de prediletos \u2014 aqueles cujos discos re\u00fanem explora\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas e belezas sublimes sem fim \u2014 mas o Led Zeppelin \u00e9 uma destas paix\u00f5es transcendentes, incompar\u00e1veis. Amo os discos de est\u00fadio, pedras basilares da hist\u00f3ria da m\u00fasica popular ocidental, mas acho que passo ainda mais tempo escutando aos discos ao vivo e aos bootlegs que acho para download por a\u00ed. Tenho uma rela\u00e7\u00e3o complexa com estas grava\u00e7\u00f5es, um conv\u00edvio j\u00e1 antigo que tem um qu\u00ea de masoquismo: as m\u00fasicas nos shows s\u00e3o quase sempre as mesmas e h\u00e1 as infal\u00edveis que se estendem por torturantes 20 ou 30 minutos; os uivos e orgasmos de Plant s\u00e3o, frequentemente, intoler\u00e1veis; muitas das letras s\u00e3o bobagens grosseiras e machistas\u2026 E, n\u00e3o obstante tudo isso, continuo voltando a eles, ao que estes discos t\u00eam de espetacular, que n\u00e3o \u00e9 pouco: a maravilhosa enxurrada das guitarras e viol\u00f5es de Jimmy Page e a selvageria inigual\u00e1vel de John Bonham, juntos, uma exorbit\u00e2ncia sonora que praticamente inaugurou um novo idioma e revelou a senda para um outro mundo. Muitas m\u00fasicas do Led s\u00e3o ic\u00f4nicas e especiais, \u00e9 claro \u2014 como n\u00e3o amar *Rock and Roll*? e *Bron-Yr-Aur Stomp*? e *When the Levee Breaks*? \u2014 mas \u00e9 a experi\u00eancia completa, desde o segundo inicial at\u00e9 o \u00faltimo aplauso morrendo em fade out, e n\u00e3o a perspectiva de ouvir essa ou aquela m\u00fasica em particular, que me atraem a estes shows; \u00e9 o ritual da torrente s\u00f4nica produzida por estes dois tit\u00e3s que me faz atravessar, valentemente, as longu\u00edssimas e chat\u00edssimas meias horas de *Dazed and Confused* que tanto engordam estas grava\u00e7\u00f5es, mas que tampouco poderiam ficar de fora. Ouvir um bootleg do Led Zeppelin n\u00e3o \u00e9, em outras palavras, uma experi\u00eancia compartimentaliz\u00e1vel: s\u00e3o massas brutas irredut\u00edveis que tudo atraem e que exigem que voc\u00ea se comprometa com a coisa toda, mesmo os momentos de prova\u00e7\u00e3o, se quiser alcan\u00e7ar a recompensa final. Este *Ascension In The Wane* que venho escutando nos \u00faltimos dias \u00e9 exemplo de tudo isso multiplicado por cinco: s\u00e3o cinco discos duplos com grava\u00e7\u00f5es da turn\u00ea que a banda fez pelo Reino Unido em 1973, cinco doses desmedidas de tudo que a banda tinha de magn\u00edfico e de excessivo na \u00e9poca que os consagrou como a maior banda do mundo, material fart\u00edssimo para quem, como eu, n\u00e3o se envergonha em refastelar-se hedonisticamente na lux\u00faria do som zeppeliano. Nem que seja s\u00f3 no ver\u00e3o.\r\n\r\n**Devil Master  - Satan Spits On Children of Light**\r\n\r\nEste *Satan Spits On Children of Light* \u2014 do Devil Master, banda da terra do Rocky Balboa, a Philadelphia \u2014 eu teria colocado na minha lista de favoritos do ano passado se tivesse conhecido-o antes! Nos \u00faltimos tempos n\u00e3o tenho escutado metal com regularidade, mas tamb\u00e9m este \u00e9 um fen\u00f4meno identific\u00e1vel: chega um determinado momento \u2014 umas duas ou tr\u00eas vezes por ano \u2014 em que sinto uma sede intensa da boa e velha m\u00fasica do tinhoso e me ponho ent\u00e3o a ler sobre as novas bandas e me atualizar a respeito dos velhos dinossauros ainda na ativa e, claro, a escutar o m\u00e1ximo poss\u00edvel das coisas que foram lan\u00e7adas durante o meu \u00faltimo per\u00edodo de distanciamento, me valendo principalmente das listas e sugest\u00f5es publicadas em alguns sites e blogs que acompanho. E \u00e9 sempre uma alegria constatar (nunca falha) que o metal continua sendo a coisa mais saud\u00e1vel e corajosa dentre tudo o que se faz atualmente em termos de m\u00fasica: os grupos e artistas desta arena continuam os mais independentes e arrojados, bastante avan\u00e7ados na dianteira da vanguarda musical deste nosso mundo \u00e0 perigo. O que faz todo sentido, se for pensar bem. O Devil Master tem uma pegada que mistura metal old school e hardcore que eu adoro, ecos malignos de Celtic Frost convivendo com riffs furiosos \u00e0 la Discharge numa orgia insana dos infernos. [\u00c9 ou n\u00e3o \u00e9 uma del\u00edcia?](https:\/\/devilmaster.bandcamp.com\/track\/her-thirsty-whip)\r\n\r\n(E para mais, muito mais m\u00fasica malvada deste naipe, uma sugest\u00e3o: visite a p\u00e1gina do pessoal da [20 Buck Spin no bandcamp](https:\/\/listen.20buckspin.com). S\u00e3o horas e mais horas de massacre, de m\u00fasica indom\u00e1vel, um pouco do melhor que o metal tem a oferecer hoje em dia. E se estiver de f\u00e9rias e com tempo livre, passe [aqui](https:\/\/relapserecords.bandcamp.com) e [aqui](https:\/\/southernlord.bandcamp.com) tamb\u00e9m. Insisto: \u00e9 a m\u00fasica do nosso tempo, a mais audaciosa e independente, e tamb\u00e9m a mais bem informada. O dem\u00f4nio e o apocalipse, como se sabe, sempre foram os temas met\u00e1licos por excel\u00eancia, por\u00e9m a coisa toda costumava ser mera brincadeira escapista e inofensiva, coisa de rebeldes malcriados, ou desajustados que liam J. R. R. Tolkien demais, ou que tinham dificuldades em conversar com as meninas. Ou que moravam na Noruega, sei l\u00e1. Agora, por outro lado, estes s\u00e3o os verdadeiros temas e dilemas da humanidade. O apocalipse \u00e9 logo ali. Agora \u00e9 tudo muito s\u00e9rio, e real, muito real.)\r\n\r\n**Hildur Gu\u00f0nad\u00f3ttir - Mount A**\r\n\r\nTamb\u00e9m um bocado de m\u00fasica cl\u00e1ssica tem ocupado meus ouvidos, convivendo em perfeita harmonia com as tormentas el\u00e9tricas descritas acima. A m\u00fasica da islandesa Hildur Gu\u00f0nad\u00f3ttir, por exemplo, tem uma afinidade completamente natural com o metal, em minha opini\u00e3o. Ela pode parecer quieta, pl\u00e1cida, mas isso \u00e9 pura superf\u00edcie: sua riqueza est\u00e1 nas profundezas, acess\u00edveis apenas a quem engajar-se em escut\u00e1-la com aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 guitarras nem urros preconizando o fim do mundo, a humanidade afogando-se em oceanos de sangue, mas h\u00e1 uma intensidade \u00edmpar, uma beleza sombria e imponente que muitas bandas de metal sequer sonham em alcan\u00e7ar. A subst\u00e2ncia dos oceanos, aqui, \u00e9 et\u00e9rea e indefinida, e a aniquila\u00e7\u00e3o apenas uma possibilidade.\r\n\r\n**Giovanni Antonini  \u0026 Il Giardino Armonico - Haydn 2032 No. 8 - La Roxolana**\r\n\r\nSempre que sai um novo disco desta s\u00e9rie [Haydn 2032](https:\/\/haydn2032.com\/) eu dou um jeito de ouvi-lo, pois s\u00e3o todos umas belezuras. O \u00faltimo que eu escutei foi o volume 8, intitulado *La Roxolana*, e que traz as sinfonias de n\u00fameros 28, 43 e 63 de Franz Joseph Haydn, al\u00e9m de uma vers\u00e3o para cordas das *Dan\u00e7as Folcl\u00f3ricas Romenas* de B\u00e1rtok. O austr\u00edaco Haydn foi, segundo dizem, o inventor do formato mais famoso das sinfonias, o modelo de quatro movimentos que seu tornaria o arqu\u00e9tipo empregado pelos grandes mestres que viriam a seguir. As pe\u00e7as pioneiras de Haydn neste formato, no entanto, costumavam ser breves, de escopo mais modesto, comedimento este que logo seria suplantado pelo porte e pela dramaticidade dos \u00e9picos de Mahler e Beethoven, obras cujo maior f\u00f4lego e ambi\u00e7\u00e3o se fixariam com mais perenidade no imagin\u00e1rio popular. Mas nada disso tira os muitos m\u00e9ritos das pe\u00e7as sinf\u00f4nicas escritas por Haydn: gosto muito destas suas \u0022proto-sinfonias\u0022, de sua impetuosidade, da criatividade ilimitada para as melodias e andamentos, a riqueza sonora que parece se multiplicar miraculosamente, de forma incessante, movimento ap\u00f3s movimento, sinfonia ap\u00f3s sinfonia. \u00c9 uma m\u00fasica muito rica, energizante \u2014 ouvidas hoje, elas podem at\u00e9 parecer compactas, mas de modo algum podem ser chamadas de menores. Haydn, afinal, pavimentou o caminho dos que vieram depois, e aos desbravadores desta estirpe nunca faltam ideias e recursos. (Acrescente a isto o fato de que o sujeito escreveu 106 destas sinfonias e ainda achou tempo para inventar os quartetos de cordas, e voc\u00ea ter\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o de sua grandeza.) Nesta s\u00e9rie *Haydn 2032*, e em particular neste volume 8 que ouvi mais recentemente, as performances do Il Giardino Armonico (com a condu\u00e7\u00e3o de Giovanni Antonini) s\u00e3o de tirar o f\u00f4lego; a produ\u00e7\u00e3o dos discos \u00e9 tamb\u00e9m de primeira grandeza: se fechar os olhos, o ouvinte considera seriamente a hip\u00f3tese de descobrir-se numa sala de concertos quando voltar a abri-los, sentado bem diante do palco, tal a nitidez e a exuber\u00e2ncia de detalhes da coisa. E se n\u00e3o bastasse tudo isso: a produ\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica destes discos \u00e9 tamb\u00e9m coisa de requinte muito superior. Vida longa ao pessoal do Haydn 2032! (V\u00e3o precisar, se a ideia \u00e9 gravar todas as mais de 100 sinfonias.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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(Para um brasileiro, hoje, comprar um disco de vinil em d\u00f3lares \u2014 e n\u00e3o poucos d\u00f3lares, mas os muitos que as bandas grandes podem pedir em troca de seus lan\u00e7amentos \u2014, um disco sequer escutado antes, inc\u00f3gnita total de uma banda que h\u00e1 tempos n\u00e3o lan\u00e7a nada relevante \u2014 pouca dedica\u00e7\u00e3o isso definitivamente n\u00e3o \u00e9.)\r\n* Uma impress\u00e3o de um outro: \u201cThere is a certain courage of letting yourself fall asleep and allowing dreams to come, which resembles the courage of allowing art to affect you. Hallucinatory phantasms are a condition of possibility for seeing anything at all. Hearing is a chiasmic crisscross between sounds emitted by my ear and pressure waves perturbing the ear\u2019s liquids from the outside. The not-me beckons, making me hesitate.\u201d (Timothy Morton no livro *Being Ecological*.)\r\n* Acredito que mesmo entre aqueles que n\u00e3o costumam admirar as virtudes t\u00e9cnicas e as proezas individuais dos grandes bateristas (eu sou um destes indiferentes) e mesmo entre os muitos que torcem o nariz ao Rush (eu n\u00e3o sou um destes), mesmo entre essa gente toda creio que devem existir muitos admiradores de Neil Peart. Pois o sujeito era mesmo um colosso, era dif\u00edcil n\u00e3o perceb\u00ea-lo, mesmo que o conjunto de suas habilidades estivesse sempre a servi\u00e7o da m\u00fasica, ou seja, a batida de Peart enriquecia consideravelmente o som da banda, era o eixo muscular e luxuoso das can\u00e7\u00f5es, mas sem nunca ofusc\u00e1-las, nem \u00e0 m\u00fasica como um todo e nem sequer aos outros instrumentos e vozes \u2014 era, sim, essencial, mas, antes disso, elemento estrutural sem nenhum protagonismo evidente, apenas parte componente de uma arte esmerada e preciosa que o trio forjou ao longo de tantos e tantos anos de trabalho. Vez por outra, contudo, ricos detalhes vindos das baquetas de Peart, l\u00e1 do fundo, sobressa\u00edam-se \u2014 quero dizer, aos ouvidos dos especialistas provavelmente todas as batidas de Peart devem soar excepcionais em quase todas as m\u00fasicas do Rush, por\u00e9m, aqui do meu ponto de vista de n\u00e3o-especialista e de n\u00e3o-admirador de solos de bateria (indulg\u00eancia a qual Peart e seus companheiros se permitiam nos shows, provavelmente como v\u00e1lvula de escape para o virtuosismo reprimido do baterista), aqui deste meu ponto de vista de diletante eram alguns pequenos e sutis detalhes que me chamavam ainda mais a aten\u00e7\u00e3o para o baterista do Rush. Cito dois exemplos: em *Dreamline*, a formid\u00e1vel faixa de abertura de *Roll the Bones*, de 1991, aos 3 minutos e 56 segundos, enquanto Geddy Lee recome\u00e7a a cantar \u0022when we are young \/ wandering the face of the earth (\u2026)\u201d, inicia-se tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de curtos e r\u00e1pidos \u0022estalidos\u0022 (na falta de termo melhor; desconhe\u00e7o os nomes que identificam os tipos de som de uma bateria) nos pratos do kit de Peart que tornam a faixa, que j\u00e1 era muito boa, em algo quase m\u00e1gico. (Nesta vers\u00e3o original da m\u00fasica, estes pequenos sons cintilantes passam quase desapercebidos por baixo das guitarras e teclados e diversas outras camadas criadas no est\u00fadio; j\u00e1 no disco ao vivo *Different Stages*, que traz, obviamente, um som bem mais cru e desadornado, eles soam bem mais altos e percept\u00edveis.) E em *Test for Echo*, de 1996, temos alguns floreios similares no interl\u00fadio instrumental de *The Color of Right*, uma sutil e graciosa ornamenta\u00e7\u00e3o que, a exemplo do que ocorre em *Dreamline*, n\u00e3o passa sequer perto de exibi\u00e7\u00e3o vaidosa de atributos individuais, muito pelo contr\u00e1rio, \u00e9 algo discreto e perfeitamente integrado ao corpo da m\u00fasica, e ao mesmo tempo capaz de enriquec\u00ea-la de forma exponencial \u2014 e o caso de *The Color of Right* talvez seja ainda mais emblem\u00e1tico, pois Peart, com este muito pouco, consegue al\u00e7ar uma m\u00fasica apenas mediana a um outro patamar. S\u00e3o t\u00eanues detalhes deste tipo, estes breves e perfeitos segundos t\u00e3o precisa e harmoniosamente encaixados nas m\u00fasicas do Rush que me fazem pensar que se algum dia eu me meter a fazer uma lista dos meus 10 instrumentistas favoritos na hist\u00f3ria do rock \u2019n\u2019 roll, haver\u00e1 um \u00fanico baterista na lista, e seu nome ser\u00e1 Neil Peart. \r\n* Por fim, n\u00e3o consigo imaginar melhor tributo ao rec\u00e9m-falecido baterista do que este v\u00eddeo: \r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022528\u0022 height=\u0022297\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B52bvzudAvQ\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allow=\u0022accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cp\u003E\u003C\/p\u003E\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de Neil Peart copiada [daqui](https:\/\/wccoradio.radio.com\/articles\/feature-article\/neil-peart-drummer-and-creative-force-behind-rush-dead).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":775,"title":"Meus discos preferidos de 2019","post_timestamp":"2020-01-15T03:59:33+00:00","url":"2020_01_14_meus_discos_preferidos_de_2019","post":"Vejo muita gente preambulando suas listas de melhores discos do ano com longas e escusadas justificativas para terem cedido ao impulso de faz\u00ea-las, quase que pedidos de desculpas por terem ousado enumerar seus \u00e1lbuns favoritos dentre aqueles lan\u00e7ados desde a \u00faltima vez que fizeram esse mesmo exerc\u00edcio, como se estas listas precisassem de um motivo muito nobre e elevado para existir e n\u00e3o fossem, antes de tudo, passatempos triviais que se cont\u00e9m em si mesmos, se definem por si s\u00f3, e que s\u00f3 os l\u00ea quem quer \u2014 e quem quer \u00e9 geralmente algu\u00e9m que, sem maiores motiva\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas, simplesmente gosta de ler listas de prefer\u00eancias pessoais e de fazer tamb\u00e9m as suas pr\u00f3prias. \u00c9 \u00f3bvio que o sujeito n\u00e3o ouviu todos os discos que foram lan\u00e7ados no planeta Terra em 2019; \u00e9 \u00f3bvio que ningu\u00e9m tem a pretens\u00e3o de elencar os definitivos melhores \u00e1lbuns de 2019; \u00e9 \u00f3bvio que voc\u00ea \u00e9 um indiv\u00edduo cheio de idiossincrasias e gostos pessoais e intransfer\u00edveis e bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1. Que bobagem. Para al\u00e9m do inofensivo prazer de se elencar coisas preferidas, pode-se acrescentar que listas deste tipo s\u00e3o tamb\u00e9m recortes do que somos (ou fomos) e breves retrospectivas de f\u00f3ro \u00edntimo, na medida em que m\u00fasica, pelo menos para mim, nunca \u00e9 apenas m\u00fasica, \u00e9 algo que envolve toda a minha exist\u00eancia, e isso, n\u00e3o fossem os motivos mencionados antes, tamb\u00e9m bastaria para a exist\u00eancia delas. Portanto, sem mais pretextos ou desculpas \u2014 pois n\u00e3o me escapa a percep\u00e7\u00e3o de que tamb\u00e9m eu acabei escrevendo um pre\u00e2mbulo meio in\u00fatil \u2014, a\u00ed vai a rela\u00e7\u00e3o dos meus 14 discos favoritos de 2019, ordenados alfabeticamente pelo nome do\/a(s) artista(s) ou banda, seguida de alguns coment\u00e1rios sobre tr\u00eas ou quatro dos discos escolhidos:\r\n\r\n* Alban Gerhardt: *Bach: The Cello Suites*\r\n* Avishai Cohen: *Arvoles*\r\n* Evgeni Koroliov, Anna Vinnitskaya, Ljupka Hadzi Georgieva \u0026 Kammerakademie Potsdam: *Bach: Concertos for Pianos*\r\n* Full of Hell: *Weeping Choir*\r\n* Giancarlo Eliodoro Parisi \u0026 Rossella Perrone: *Heitor Villa-Lobos: Lua Nova - A Preyer for Amazonas for Saxello, Zi Fl\u00fbte and Guitar*\r\n* Lower Dens: *The Competition*\r\n* John Coltrane: *Blue World*\r\n* Marissa Nadler \u0026 Stephen Brodsky: *Droneflower*\r\n* Mirga Grazinyte-Tyla, Gidon Kremer, City Of Birmingham Symphony Orchestra \u0026 Kremerata Baltica: *Weinberg: Symphonies Nos. 2 \u0026 21*\r\n* Nick Cave And The Bad Seeds: *Ghosteen*\r\n* Patricia Kopatchinskaja \u0026 Camerata Bern: *Time \u0026 Eternity*\r\n* Pauline Kim Harris \u0026 Spencer Topel: *Heroine*\r\n* Sam Rosenthal, Nick Shadow \u0026 Steve Roach: *the gesture of history*\r\n* Sara Andon \u0026 Simone Pedroni: *Cinema Morricone - An Intimate Celebration*\r\n\r\nO disco do Nick Cave e seus Bad Seeds \u00e9, realmente, extraordin\u00e1rio. S\u00f3 fui escut\u00e1-lo alguns poucos dias atr\u00e1s, e antes disso eu vinha lendo elogios muito entusiasmados ao \u00e1lbum, coisas que foram me deixando curioso mas, depois de certo ponto, tamb\u00e9m receoso de que a expectativa toda que fui acumulando pudesse gerar uma grande desilus\u00e3o acaso o \u00e1lbum n\u00e3o fosse t\u00e3o bom assim, coisa que cogitei poss\u00edvel quando lembrei que n\u00e3o sou l\u00e1 grande f\u00e3 dos dois \u00e1lbuns anteriores de Cave, obras igualmente muito elogiadas e incensadas por a\u00ed. Cave parece ter sido al\u00e7ado a essas alturas onde dificilmente algo seu ser\u00e1 um dia mal recebido; \u00e9 uma das grandes entidades de nosso tempo, e n\u00e3o sem m\u00e9ritos. A temida frustra\u00e7\u00e3o, em todo o caso, n\u00e3o aconteceu. \u00c9 um grande disco, bastante comovente, certamente um novo par\u00e2metro para aquele velho argumento sobre a beleza das coisas que podem nascer do luto. *Ghosteen* n\u00e3o \u00e9, contudo, meu favorito do ano: o t\u00edtulo fica com o disco de Patricia Kopatchinskaja, cujos dotes t\u00e9cnicos como violinista eu j\u00e1 comentei [anteriormente](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_04_02_discos_do_mes_marco_de_2019). Outro de seus talentos, tamb\u00e9m j\u00e1 citado por aqui [em outra ocasi\u00e3o](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_01_01_discos_do_mes_dezembro_de_2016), \u00e9 a elabora\u00e7\u00e3o destes projetos que giram ao redor de um tema e que re\u00fanem pe\u00e7as que atravessam \u00e9pocas, estilos e compositores. *Time \u0026 Eternity* n\u00e3o pretende pouca coisa: trata-se de uma medita\u00e7\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e re\u00fane m\u00fasica feita \u201cout of the blood and tears of tortured souls\u201d, de acordo com a pr\u00f3pria Patricia. A ambi\u00e7\u00e3o \u00e9 grande; o resultado \u00e9 maior ainda. O disco \u00e9 fant\u00e1stico, com seu repert\u00f3rio audacioso e abrangente, e a garra e a presteza habituais de Kopatchinskaja. *Heroine*, de Pauline Kim Harris e Spencer Topel, n\u00e3o fica muito atr\u00e1s destes dois: tamb\u00e9m ele \u00e9 bel\u00edssima m\u00fasica que parece flutuar um pouco acima da atmosfera pedestre e tamb\u00e9m ele versa sobre as grandes quest\u00f5es humanas \u2014 o tempo, a vida e a morte. M\u00fasica continua sendo o melhor idioma para se conversar sobre isso tudo, como se pode ver. Por fim, um coment\u00e1rio sobre o *Blue World*: sim, eu sei, trata-se de um disco ca\u00e7a-n\u00edqueis, parte da insaci\u00e1vel exuma\u00e7\u00e3o mercantilista da obra de Coltrane, o tipo de coisa que merece, no m\u00ednimo, desconfian\u00e7as e questionamentos. Por\u00e9m, \u00e9 s\u00f3 colocar o disco para tocar e: como n\u00e3o amar? Como n\u00e3o amar o *First Rays of the New Rising Sun* do Jimi Hendrix, provavelmente o cad\u00e1ver mais explorado da hist\u00f3ria da m\u00fasica com seus incont\u00e1veis discos ao vivo e compila\u00e7\u00f5es e sei l\u00e1 que outras falcatruas a sair todos os anos, testemunhos que variam do mal-disfar\u00e7ado ao completamente sem-vergonha da sanha usur\u00e1ria da ind\u00fastria da m\u00fasica e dos herdeiros da obra de Hendrix, que n\u00e3o vacilam antes de pegar uma faixa lan\u00e7ada aqui, outra acol\u00e1, juntar em um novo disco e pronto, \u00e9 s\u00f3 aguardar o som das caixas registradoras. E, mesmo assim, eu amo insofismavelmente o *First Rays of the New Rising Sun*, lan\u00e7ado 27 anos ap\u00f3s a morte de Hendrix sem nem uma \u00fanica faixa in\u00e9dita. Ou seja: nos assuntos do cora\u00e7\u00e3o, a voz da raz\u00e3o muitas vezes emudece. O que provavelmente \u00e9 s\u00f3 uma forma condescendente de dizer que sou, moralmente, um fracote. O caso de *Blue World* \u00e9 um pouco diferente: era m\u00fasica encaixotada, jamais lan\u00e7ada. Considerando que o selo de aprova\u00e7\u00e3o de Coltrane hoje \u00e9 imposs\u00edvel, o dilema moral torna-se menos dif\u00edcil: afinal, o mundo \u00e9 um lugar melhor com mais m\u00fasicas de John Coltrane dispon\u00edveis por a\u00ed.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":774,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2019","post_timestamp":"2020-01-01T17:21:58+00:00","url":"2020_01_01_discos_do_mes_dezembro_de_2019","post":"O que sempre me afastou \u2014 ou, digamos de maneira um pouco mais favor\u00e1vel \u00e0 banda, o que sempre me impediu de gostar mais \u2014 do Legi\u00e3o Urbana foram aquelas can\u00e7\u00f5es onde Renato Russo colocou sua erudi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e po\u00e9tica \u00e0 servi\u00e7o das pequenas crises e ang\u00fastias juvenis, mat\u00e9ria que eu nem desacredito que possa render boa m\u00fasica, por\u00e9m no caso do Legi\u00e3o, no mais das vezes, resultava num festival constrangedor de rimas infames e poesia adolescente de quinta categoria que, n\u00e3o f\u00f4sse a doen\u00e7a a lev\u00e1-lo t\u00e3o cedo (\u00e0 Renato Russo), provavelmente teriam-lhe custado a vida n\u00e3o muito tempo depois, quando chegasse ele l\u00e1 pelos 40 anos e, numa crise de nostalgia, resolvesse reler o que escrevera e cantara quando adolescente e o suic\u00eddio causado pela vergonha daquilo tudo, das rimas e das letras embara\u00e7osas, teria sido ent\u00e3o inevit\u00e1vel. Bobagens como *Eduardo e M\u00f4nica* e outras cujos t\u00edtulos n\u00e3o me recordo. Mas Russo tinha tamb\u00e9m seus talentos, isso eu nunca neguei; sempre admirei muitas das coisas da banda, e s\u00f3 n\u00e3o as escutava mais vezes devido ao fastio que me causava este lado mais popular do grupo, que parecia cativar com mais for\u00e7a aqueles da minha gera\u00e7\u00e3o (ou, ao menos, os da minha vizinhan\u00e7a) e sabotava as chance que eu poderia vir a ter de me aproximar mais da banda. Lembro que numa determinada \u00e9poca meus amigos s\u00f3 falavam em *Faroeste Caboclo*, se divertiam recitando toda a sua extensa letra, e eu achava aquilo um porre intermin\u00e1vel. Enfim, perdi o momento Legi\u00e3o Urbana da minha adolesc\u00eancia, perdi-o por um descompasso causado tamb\u00e9m \u2014 talvez principalmente por isso \u2014 pelo meu logo manifestado amplo interesse em m\u00fasica, que acabou por me conduzir por outros m\u00faltiplos caminhos. (Dos que cantam na l\u00edngua de Cam\u00f5es e Saramago, sempre me foram imprescind\u00edveis apenas o genial Raul Seixas e aquilo de que gosto de g\u00eaneros genuinamente brasileiros, inclu\u00eddos a\u00ed Na\u00e7\u00e3o Zumbi e Mundo Livre S\/A; de resto, em termos de rock \u2019n\u2019 roll made in Brasil, acho que posso dizer que passei largamente \u00e0 margem.) Foi s\u00f3 aos poucos \u2014 finada a banda, amadurecido o esp\u00edrito e esfriadas as querelas citadas acima \u2014 s\u00f3 aos poucos \u00e9 que pude me dedicar a ouvir, vez ou outra, sem press\u00e3o e sem ressentimentos, o que eu realmente gosto do Legi\u00e3o Urbana, este nosso imperfeito Smiths tupiniquim: o \u00e1lbum *As Quatro Esta\u00e7\u00f5es*, por exemplo, considere-o quase que inteiramente bom, e at\u00e9 bem mais do que isso em suas duas primeiras can\u00e7\u00f5es, as soberbas (n\u00e3o menos do que isso) *H\u00e1 Tempos* e *Pais e Filhos*, essa \u00faltima cuja infinita repeti\u00e7\u00e3o na \u00e9poca talvez a tenha estragado um pouco, mas n\u00e3o o suficiente para que n\u00e3o lhe seja mais poss\u00edvel reconhecer a excepcionalidade, a bel\u00edssima letra, a melodia \u2014 todo o conjunto musical, em suma. Eu diria, tranquilamente, que se trata de duas das maiores can\u00e7\u00f5es brasileiras de todos os tempos, mesmo considerando neste ju\u00edzo todo o vasto cat\u00e1logo de obras-primas dos nossos g\u00eanios do samba e da MPB em geral (e de Raulzito). Tamb\u00e9m os dois \u00e1lbuns seguintes, *V* e *O Descobrimento do Brasil*, tamb\u00e9m estes t\u00eam seus \u00f3timos momentos. J\u00e1 *A Tempestade*, o \u00faltimo lan\u00e7ado enquanto Russo estava vivo, este j\u00e1 um disco mais complicado. Quem \u00e9 daquela \u00e9poca deve se lembrar: a obra mais triste e confessional da banda, a melanc\u00f3lica despedida extra-oficial, j\u00e1 que seu l\u00edder e principal compositor tinha os dias praticamente contados. N\u00e3o se falava da sa\u00fade de Renato Russo nesses termos expl\u00edcitos, mas todos sabiam: o l\u00edder do Legi\u00e3o Urbana seguiria Cazuza muito em breve. E assim foi, e o disco, inevitavelmente, ficou marcado por aquela desola\u00e7\u00e3o toda; no que diz respeito \u00e0s suas qualidades musicais, se for poss\u00edvel pens\u00e1-las isoladas daquele contexto, na minha lembran\u00e7a de o escutar algumas vezes (meu irm\u00e3o comprou o \u00e1lbum quando ele foi lan\u00e7ado) era um disco de mediano para ruim, bastante aborrecido em alguns momentos, pouco convidativo para uma audi\u00e7\u00e3o completa. Pois bem, resolvi escutar *A Tempestade* novamente alguns dias atr\u00e1s, assaltado pela lembran\u00e7a s\u00fabita de algumas de suas faixas, aquelas que permaneceram mais fortes em minha mem\u00f3ria, e acabei me afei\u00e7oando ao disco, tendo j\u00e1 depois disso voltado a ele mais umas tr\u00eas ou quatro vezes. Alguns de seus problemas continuam l\u00e1, conforme eu me lembrava: o excesso de teclados \u2014 que aos poucos parece que foi se tornando uma esp\u00e9cie de muleta no som da banda \u2014 e o excesso de faixas completamente descart\u00e1veis, mais \u2014 bem mais \u2014 do que costumo tolerar. Uma dura\u00e7\u00e3o de 50 minutos, ao inv\u00e9s dos seus arrastados 67, faria de *A Tempestade* um CD bem melhor. Mas, ressalva feita, como eu dizia: passei a gostar mais do disco, ou, pelo menos, a compreend\u00ea-lo um pouco melhor. *Nat\u00e1lia* \u00e9 uma \u00f3tima faixa de abertura: d\u00e1 o tom sem demorar-se quase nada (\u0022Vamos falar de pesticidas\/E de trag\u00e9dias radioativas\/De doen\u00e7as incur\u00e1veis\/Vamos falar de sua vida\u201d) e termina com uma \u00faltima e tocante tentativa de esperan\u00e7a (\u0022\u00c9 preciso acreditar num novo dia\/(\u2026)\/A escurid\u00e3o ainda \u00e9 pior que essa luz cinza\/Mas estamos vivos ainda\u201d), algo que reverbera forte no esp\u00edrito de n\u00f3s brasileiros nestes tempos sombrios de desesperan\u00e7a quase total. *Dezesseis* \u00e9 uma besteira intrag\u00e1vel, mas *1\u00ba de Julho* \u00e9 excepcional, ao mesmo tempo uma das mais simples e mais ricas do disco. Em *M\u00fasica ambiente* o teclado do meu conterr\u00e2neo [Carlos Trilha](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Carlos_Trilha) funciona; em *Longe do meu lado*, falha miseravelmente. E o disco segue nessa toada irregular, excessivamente longo, penoso de se atravessar em alguns momentos, mas reflexivo e delicado em muitos outros, com algumas can\u00e7\u00f5es muito boas, e mesmo as adversidades todas pelo caminho, os desacertos e excessos \u2014 testemunhos, sobretudo, de sua humanidade posta \u00e0 prova, de sua vida por um fio \u2014 mesmo algumas delas me atra\u00edram, como costuma acontecer quando eu reconhe\u00e7o complexidade humana nos discos que ou\u00e7o. Concebido e criado nas piores condi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, *A Tempestade* \u00e9, afinal, um cap\u00edtulo derradeiro digno e significativo para aquela que se algu\u00e9m quiser chamar de a maior banda da hist\u00f3ria do rock brasileiro, de mim pelo menos \u00e9 que n\u00e3o se ouvir\u00e3o maiores discord\u00e2ncias. (Desde que esteja claro, evidentemente, que o Sepultura trata-se de outra coisa.)\r\n\r\nComo j\u00e1 foram muitas as linhas a\u00ed em cima, deixarei um coment\u00e1rio r\u00e1pido sobre algumas outras audi\u00e7\u00f5es deste \u00faltimo m\u00eas de 2019, esse ano grotesco, pavoroso, trist\u00edssimo \u2014 o ano em que o Brasil tornou-se vanguarda naquilo que tenho como uma certeza cada vez mais inabal\u00e1vel: a humanidade n\u00e3o tem futuro. \u201cThere is no future\u201d, como j\u00e1 dizia aquela m\u00fasica do Sex Pistols. \u0022We\u0027re only gonna die\u201d, j\u00e1 dizia outra do Bad Religion. (Conta-se que William Blake teria obtido a compreens\u00e3o absoluta da inviabilidade da ra\u00e7a humana quando, certa vez, presenciou um vizinho maltratando um pobre e esfomeado cachorro de rua. O que \u00e9 o g\u00eanio: ele percebe num \u00e1timo, e na mais trivial das coisas, aquilo que o restante da humanidade pode levar s\u00e9culos e toneladas de dados e estudos para compreender.) Mas, aos discos: adorei o novo Lower Dens, mesmo tendo ficado com a impress\u00e3o de que ele vai gradualmente perdendo o f\u00f4lego e a gra\u00e7a. Somente sua primeira metade, no entanto, j\u00e1 o garantiria na minha lista de melhores de 2019. A trilha-sonora do filme jamaicano *The Harder They Come* \u2014 que traz Jimmy Cliff, Desmond Dekker, Maytals, entre outros \u2014 rendeu algumas horas de divers\u00e3o e leveza em certo fim de semana aqui em casa (que nos seja perdoada essa fraqueza t\u00e3o humana e talvez mais necess\u00e1ria do que nunca). E Villa-Lobos, bem, tenho escutado bastante ao nosso grande Villa para manter vivos e pulsantes meus v\u00ednculos com esta terra, com este naco de planeta que nos coube cuidar mas que estamos preferindo destruir, esta na\u00e7\u00e3o ou ideia de na\u00e7\u00e3o ou seja l\u00e1 o que sejamos cujo esconjuro do nascimento sob os signos malditos do genoc\u00eddio ind\u00edgena e da escravid\u00e3o parece que levar\u00e1 mil\u00eanios para se dissipar, se \u00e9 que o far\u00e1, j\u00e1 que em paralelo corremos uma maratona global contra os riscos cada vez mais insuper\u00e1veis de extin\u00e7\u00e3o em massa. Corremos para tr\u00e1s, no caso. A m\u00fasica de Villa \u2014 que n\u00e3o tinha como saber nada a respeito do aumento de temperatura na atmosfera e nos oceanos e tampouco sobre o tipo de gente que votar\u00edamos para presidente no s\u00e9culo 21\u2014 queria nos fazer acreditar que sim, que n\u00f3s brasileiros est\u00e1vamos no rumo certo para superar nossas maldi\u00e7\u00f5es, que \u00e9ramos o futuro, um futuro cercado de natureza deslumbrante, p\u00e1ssaros, paz, igualdade e prosperidade. Hoje, contudo, se em algum lugar ainda restam motivos para se acreditar nisso tudo \u2014 ou pelo menos para nos comprazer com as lembran\u00e7as desbotadas de um futuro acalentado num passado j\u00e1 distante e morto e sepultado \u2014 estes est\u00e3o confinados na m\u00fasica destes nossos mestres, e no caminho sinuoso de nossos rios e no fundo de nossas florestas, tudo longe, profundamente longe destas nossas particular\u00edssimas no\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas sobre ordem e progresso, distante l\u00e9guas infinitas do Brasil urbano, o Brasil da Avenida Paulista e da est\u00e1tua da liberdade da Havan, o Brasil capacho de Donald Trump, o Brasil dos templos da Igreja Universal e da Odebrecht. O que de belo e auspicioso nos restou reside onde, do Brasil oficial, a vista j\u00e1 n\u00e3o alcan\u00e7a mais.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":773,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2019","post_timestamp":"2019-12-03T18:41:13+00:00","url":"2019_12_03_discos_do_mes_novembro_de_2019","post":"Nos \u00faltimos dias, sempre que eu pensava no que escrever nesta edi\u00e7\u00e3o de \u201cDiscos do m\u00eas\u201d, antes de me vir \u00e0 mente qualquer coisa para dizer a respeito dos discos do Bad Brains, do Ramones, do Bad Religion e do Bob Marley que venho escutando exaustivamente, ou sobre os discos do Charlie Haden e da Alice Coltrane a quem, quando cai a noite, tenho recorrido em busca de paz e regenera\u00e7\u00e3o \u2014 antes de qualquer coisa sobre m\u00fasica, o que me vinha primeiro ao pensamento era uma necessidade impreter\u00edvel de comentar, lamentar, denunciar a desgra\u00e7a que est\u00e1 acontecendo neste pa\u00eds, uma imposi\u00e7\u00e3o exasperante de unir minha voz \u00e0s outras pouqu\u00edssimas que t\u00eam se insurgido contra esta inacredit\u00e1vel destrui\u00e7\u00e3o em andamento. Est\u00e1 tudo acontecendo a\u00ed \u00e0s claras, como j\u00e1 aconteceu antes tantas vezes: censura, persegui\u00e7\u00e3o, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, o moralismo medieval que n\u00e3o aceita diverg\u00eancias de comportamento, racismo e viol\u00eancia expl\u00edcitos, homic\u00eddios clandestinos onde ningu\u00e9m v\u00ea e ningu\u00e9m se importa, e as particularidades brasileiras, \u00e9 claro: o genoc\u00eddio agora praticamente permitido e liberado nas periferias e nas florestas. A benignidade, o respeito, a civilidade e o futuro indo para as cucuias, e parece que, definitivamente, n\u00e3o faremos nada para evitar esta trag\u00e9dia. A urg\u00eancia disso tem me sufocado, e escrever sobre qualquer outra coisa \u00e0s vezes me parece f\u00fatil e at\u00e9 mesmo uma covarde cumplicidade. Lembrei-me dia desses daquele filme *Judgment at Nuremberg*, que mostra o julgamento n\u00e3o dos vil\u00f5es de primeiro escal\u00e3o do Terceiro Reich, n\u00e3o de Hitler, Goebbels e outros, mas sim de um punhado de ju\u00edzes e advogados an\u00f4nimos que, atuando na Alemanha durante o regime nazista, foram condescendentes com as atrocidades em curso naquele per\u00edodo, e, portanto, tiveram sua parcela de responsabilidade em tudo que se sucedeu. O filme \u00e9 um manifesto poderos\u00edssimo contra aqueles que deveriam barrar e punir os retrocessos civilizat\u00f3rios, o desrespeito aos direitos humanos, a injusti\u00e7a, mas n\u00e3o o fazem seja por covardia, seja pela perspectiva de ganhos pessoais, seja por compactuar com toda a monstruosidade, seja l\u00e1 por qual motivo. Pois deve haver uma multid\u00e3o de sic\u00e1rios desse tipo no Brasil hoje, e n\u00e3o apenas nas esferas jur\u00eddicas mas em todas as \u00e1reas que carregam algum tipo de responsabilidade social, tal a insensatez e a vileza colossais em curso livre aqui por essas terras. \u00c9 arrasador. Tendo perdido o tempo de protestar (e tendo j\u00e1 antes perdido at\u00e9 mesmo o tempo de perceber a obviedade que seria n\u00e3o eleger um fascista presidente da rep\u00fablica), parece que agora s\u00f3 nos resta torcer para que assim como aqueles ju\u00edzes e homens do direito alem\u00e3es foram, no fim, considerados t\u00e3o culpados quanto Hitler, ser\u00e3o c\u00e1 os nossos, um dia, considerados t\u00e3o culpados quanto o verme assassino que ora preside o pa\u00eds. Teremos nosso *Judgment at Nuremberg*, enfim, quando o horror engolir a si pr\u00f3prio \u2014 tor\u00e7amos para que n\u00e3o demore muito. Enquanto isso, se ao menos servir-me para manter o equil\u00edbrio e a sanidade \u2014 um objetivo mais tang\u00edvel do que inspirar alguma revolta ou levante popular, dada a insignific\u00e2ncia da minha voz e deste meu espa\u00e7o \u2014 me for\u00e7arei a continuar com estas minhas anota\u00e7\u00f5es sobre discos e m\u00fasica. A\u00ed vai: Bad Brains \u00e9, de longe, o que mais tenho escutado nas \u00faltimas semanas; escuto a todos os seus discos com o mesmo deleite e as mesmas sensa\u00e7\u00f5es libertadoras de expurga\u00e7\u00e3o pois \u00e9 uma destas raras bandas que n\u00e3o erram, para quem o pr\u00f3prio conceito de acertar ou errar \u2014 \u201ceste disco \u00e9 \u00f3timo\u201d ou \u201caquele \u00e9 menos bom\u201d \u2014 n\u00e3o se aplica, j\u00e1 que eles parecem n\u00e3o depender de esfor\u00e7o ou pensamento para fazer jorrar sua m\u00fasica; basta se reunirem, ligar os instrumentos e come\u00e7ar a tocar e gravar. \u00c9 como se n\u00e3o houvesse necessidade de trabalho e planejamento, que pode ser mais ou menos bem sucedido: \u00e9 apenas execu\u00e7\u00e3o direta ou extravasamento de algo que j\u00e1 est\u00e1 ali, pronto e acabado, apenas esperando ser libertado. \u00c9 Bad Brains, oras. Todos os discos s\u00e3o indistintamente maravilhosos. Ainda assim acho que consigo apontar um favorito, ou pelo menos um favorito moment\u00e2neo: *Rock for Light*, de 1983. Bob Marley \u00e9 her\u00f3i meu desde sempre, e s\u00f3 n\u00e3o o \u00e9 de todo mundo pois ainda estamos longe de superar o racismo e a estupidez. *Uprising* traz o hino *Redemption Song*, onde Marley conclama que nos emancipemos de nossa escravid\u00e3o mental, e que sorte a dele ter morrido t\u00e3o cedo e assim ter escapado de testemunhar estes nossos tempos atuais, em que parece que n\u00e3o estamos mais nos emancipando de coisa alguma, pelo contr\u00e1rio \u2014 a escravid\u00e3o mental \u00e9 um aconchego s\u00f3. Her\u00f3is de outro tipo, mas n\u00e3o menos her\u00f3is, eram os Ramones, e seu *Acid Eaters* \u00e9 um dos meus discos favoritos e, na minha opini\u00e3o, o melhor disco de covers de todos os tempos. (O melhor cover de Bob Dylan de todos os tempos n\u00e3o foi feito pelo Byrds, nem pelos Stones e nem mesmo por Jimi Hendrix: eu daria o trof\u00e9u \u00e0 vers\u00e3o de *My Back Pages* cantada pelo C. J. Ramone.) Por \u00faltimo, uma audi\u00e7\u00e3o muito marcante de alguns dias atr\u00e1s: comprei esse *Come Sunday* (em CD) sem nunca t\u00ea-lo escutado antes, por\u00e9m sabendo que o nome de Charlie Haden impresso na capa, al\u00e9m de outros pequenos elementos espalhados pelo tracklist e pela arte gr\u00e1fica do disco \u2014 sinais pequenos, mas que n\u00e3o passam desapercebidos pela intui\u00e7\u00e3o \u2014 eram um selo de garantia e n\u00e3o havia a menor chance de me decepcionar. Era a voz da experi\u00eancia me falando serena e convicta, naquele dia, naquela loja, enquanto eu examinava o disco e considerava lev\u00e1-lo comigo. Dito e feito: o disco \u00e9 lind\u00edssimo. Ao contrabaixo de Haden temos adicionado somente o piano de Hank Jones, e as m\u00fasicas s\u00e3o como um longo mantra de paz e suavidade, uma corrente m\u00e1gica, terap\u00eautica, que me foi extremamente ben\u00e9fica certa noite depois de um dia particularmente frustrante. \u00c9 com m\u00fasica e experi\u00eancia que eu me equipo para seguir adiante.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":772,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2019","post_timestamp":"2019-11-05T18:49:06+00:00","url":"2019_11_05_discos_do_mes_outubro_de_2019","post":"Este vai ser um coment\u00e1rio breve porque, apesar de n\u00e3o estar faltando m\u00fasica em meus dias, tamb\u00e9m n\u00e3o me t\u00eam faltado trabalho, viagens, mudan\u00e7a de resid\u00eancia, etc. Uma maratona! Mas forcei uma pausa na agenda para escrever que a capa de *Band of Gypsys*, que voltei a escutar uns dias atr\u00e1s depois de muito tempo, \u00e9 uma das minhas favoritas, e o disco \u00e9 ouro puro. O que Billy Cox, Buddy Miles e Jimi Hendrix n\u00e3o teriam aprontado caso Hendrix n\u00e3o viesse a morrer logo depois de estabelecido o trio? Esta resposta que nunca saberemos \u00e9 a que mais me deixa aflito \u2014 dentre todas as mortes precoces na hist\u00f3ria da m\u00fasica, a de Hendrix \u00e9 a que mais lamento. J\u00e1 Cecil Taylor, por sorte, n\u00e3o morreu cedo, e p\u00f4de nos deixar uma quilom\u00e9trica e exuberante discografia. *Air Above Mountains* foi gravado ao vivo na \u00c1ustria em 1976 e lan\u00e7ado dois anos depois. Dia desses, de manh\u00e3 cedo, enquanto eu colocava para tocar este disco e me preparava para a continuidade da maratona, n\u00e3o foram necess\u00e1rias muitas notas para que eu percebesse a impossibilidade total disto, quero dizer, n\u00e3o seria poss\u00edvel ouvir ao disco e fazer alguma outra coisa ao mesmo tempo. O piano intenso e desvairado de Taylor enjaula o ouvinte em uma esp\u00e9cie de labirinto total: caminhos, sa\u00eddas e possibilidades \u2014 trag\u00e9dias inclusas \u2014 por todos os lados, e por cima, e por baixo, e n\u00e3o h\u00e1 o que fazer al\u00e9m de tentar seguir este insano emaranhado. \u00c9 para ser ouvido com aten\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o, e todo o resto, n\u00e3o importa a urg\u00eancia, fica para depois, porque de qualquer ponto de vista que realmente valha a pena \u2014 do ponto de vista da vida, digamos assim \u2014 n\u00e3o h\u00e1 melhor proveito de tempo do que escutar a este g\u00eanio que foi Cecil Taylor, g\u00eanio da estatura de Jimi Hendrix e de pouqu\u00edssimos outros.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":771,"title":"Recalibragem","post_timestamp":"2019-10-23T18:51:29+00:00","url":"2019_10_23_recalibragem","post":"*The Terminator* \u00e9, para mim, um dos pin\u00e1culos do cinema americano. Embora praticamente nada que saia de Hollywood nos dias hoje me interesse, entre 1940 e 1990 os est\u00fadios deste enclave meio alien\u00edgena de Los Angeles e todos aqueles roteiristas e diretores revolucion\u00e1rios \u00e0s suas margens produziram um conjunto de obras que, na minha opini\u00e3o, jamais ser\u00e1 superado. Cinema para mim \u00e9 quase que exclusivamente isso: filmes americanos destas cinco d\u00e9cadas, e 95% do meu tempo dedicado \u00e0 s\u00e9tima arte \u00e9 assistindo e reassistindo a eles. *The Terminator*, que eu j\u00e1 devo ter visto mais de 20 vezes, \u00e9 perfeito do in\u00edcio ao fim: denso, t\u00e9trico, imaginativo, intransigentemente pessimista e recheado de quest\u00f5es humanas que permanecem contempor\u00e2neas, e ainda por cima com uma mulher como personagem principal e hero\u00edna. O pior dos pesadelos, o mais sufocante e implac\u00e1vel vil\u00e3o j\u00e1 projetado numa tela de cinema \u2014 n\u00e3o um mero tirano malvado, um malfeitor de des\u00edgnios pr\u00f3prios e vulgares, mas sim um indiferente instrumento tecnol\u00f3gico enviado por um apenas vagamente mencionado poder oculto, um poder complexo e global \u2014 este pesadelo quase imortal vai atr\u00e1s de uma mulher, uma simples e jovem gar\u00e7onete, e ela o derrota, e no fim do filme (o meu final favorito dentre todos os milhares de filmes que j\u00e1 assisti) ela ainda encara de frente a tempestade que est\u00e1 por vir e vai direto para dentro dela, solit\u00e1ria e destemida, resoluta em dire\u00e7\u00e3o ao olho da tormenta que apenas come\u00e7ara, ao futuro sombrio da humanidade. Um mulher, enquanto os homens todos ficam pelo caminho. Em 1984. Tenho a impress\u00e3o que *The Terminator* n\u00e3o tem o cr\u00e9dito que toda sua gama de virtudes e sua coragem merecem. O segundo filme, que no imagin\u00e1rio coletivo talvez seja um cl\u00e1ssico ainda maior do que o primeiro, \u00e9 praticamente uma refilmagem de seu antecessor, por\u00e9m dessa vez com or\u00e7amento maior, Guns N\u2019 Roses na trilha-sonora, menos niilismo e mais efeitos especiais \u2014 *Terminator 2: Judgment Day* \u00e9 *The Terminator* vers\u00e3o *blockbuster*. E se *The Terminator* \u00e9 brilhante do in\u00edcio ao fim, tamb\u00e9m o \u00e9 a trilha-sonora (o *score*) de Brad Fiedel. O tema principal, impregnado de fatalismo e amea\u00e7a, tribut\u00e1rio dos sintetizadores e melodias de John Carpenter mas tamb\u00e9m, igualmente, da flu\u00eancia e das atmosferas de Vangelis e Tangerine Dream, \u00e9 parte indissoci\u00e1vel do prod\u00edgio que \u00e9 este filme. E igualmente ele foi reciclado para a sequ\u00eancia de 1991, ganhando um tom mais \u00e9pico e sumptuoso mais adequado para a ambi\u00e7\u00e3o daquele filme de atingir um p\u00fablico maior. \u00c9 tamb\u00e9m muito boa a trilha-sonora do *T2* (e tamb\u00e9m o filme) por\u00e9m fico com a obra original, mais \u00e1rida e minimalista, mais assustadora e ins\u00f3lita. Junto das trilhas-sonoras de John Carpenter, Ennio Morricone e Basil Poledouris, e das do Tangerine Dream e do Vangelis, a trilha de Brad Fiedel para *The Terminator* \u00e9 uma das minhas favoritas absolutas.\r\n\r\n\u2014\r\n\r\nRevi o filme dia desses, estimulado n\u00e3o apenas pela estr\u00e9ia desta nova sequ\u00eancia (sobre a qual, na verdade, n\u00e3o tenho grandes expectativas, mas acho que vou ao cinema v\u00ea-la mesmo assim, amolecido pela lembran\u00e7a nost\u00e1lgica da noite memor\u00e1vel que foi aquela em que fomos ao shopping assistir ao *T2*, eu e o bando de moleques que \u00e9ramos a turma do pr\u00e9dio, acompanhados de dois ou tr\u00eas de nossos pais porque ningu\u00e9m ali tinha mais do que 12 anos) \u2014 revi ao primeiro filme tamb\u00e9m porque ando ouvindo bastante m\u00fasica eletr\u00f4nica, principalmente Zola Jesus, Tangerine Dream e Aphex Twin, e *The Terminator* cabe perfeitamente nesse estado de esp\u00edrito. Tudo come\u00e7ou com Nicole Hummel, essa americana que tamb\u00e9m se chama Zola Jesus, cujo disco *Okovi* foi o \u00faltimo que botei para tocar num fim de tarde em que eu j\u00e1 dava por terminado o dia de trabalho e permanecia mais um pouco no computador apenas para organizar alguns arquivos e responder aos \u00faltimos emails, tarefas rotineiras e protocolares. Gosto da m\u00fasica espessa e ominosa de Zola Jesus desde que a ouvi pela primeira vez numa compila\u00e7\u00e3o gravada em CD-R que ganhei de brinde da Rough Trade ap\u00f3s uma compra particularmente dispendiosa, isso acho que j\u00e1 tem mais de 10 anos (faz tempo, mas lembro ainda muito bem do olhar meio confuso do caixa enquanto ele ensacava os tantos vinis e CDs que compr\u00e1vamos naquela ocasi\u00e3o; ele parecia considerar que merec\u00edamos bem mais do que aquele \u00fanico CD-R de brinde). Fazia algum tempo, contudo, que n\u00e3o a escutava. Naquele dia, arrumando arquivos e me preparando para o descanso noturno, envolvido em tarefas mec\u00e2nicas que me liberaram os sentidos para a m\u00fasica, *Okovi* me hipnotizou e me desequilibrou, e no fim reabriu diante de mim diversas portas e possibilidades para explora\u00e7\u00e3o, portas pelas quais eu n\u00e3o transitava fazia alguns meses. J\u00e1 foi-se, h\u00e1 muito, o tempo em que eu n\u00e3o gostava de m\u00fasica eletr\u00f4nica; ficou perdido l\u00e1 na \u00e9poca do col\u00e9gio (quando eu at\u00e9 entrava, vez ou outra, naquelas discuss\u00f5es tolas sobre rock \u2019n\u2019 roll vs. m\u00fasica eletr\u00f4nica) o desprezo por algo que \u00e9, na verdade, um maravilhoso e imensur\u00e1vel universo de m\u00fasica (e que diferen\u00e7a faz a forma como ela \u00e9 produzida?), um universo que se manifesta ora como sons intensamente belos e audaciosos, ora herm\u00e9ticos e dif\u00edceis, e nas infinitas combina\u00e7\u00f5es e varia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre essas caracter\u00edsticas. Hoje tenho admira\u00e7\u00e3o profunda por magos e feiticeiras como [Haxan Cloak](https:\/\/auroraborealisrecordings.bandcamp.com\/album\/the-haxan-cloak) e [Helena Hauff](https:\/\/helenahauff.bandcamp.com), [Tim Hecker](https:\/\/timhecker.bandcamp.com) e Bj\u00f6rk, al\u00e9m das pioneiras [Laurie Spiegel](https:\/\/unseenworlds.bandcamp.com\/album\/the-expanding-universe), Pauline Oliveros e Eliane Radigue e dos mestres John Carpenter, Klaus Schulze e [Steve Roach](https:\/\/steveroach.bandcamp.com). A lista de nomes poderia ir bem mais longe. Logo ap\u00f3s *Okovi*, naquele fim de tarde que j\u00e1 se transformava em noite, me repreendi pela aus\u00eancia dessa turma nas minhas audi\u00e7\u00f5es dos \u00faltimos dois ou tr\u00eas meses, mas logo percebi que isso era uma bobagem: n\u00e3o fosse essa circunst\u00e2ncia \u2014 sobre a qual, ademais, pouco tenho controle \u2014 e talvez o efeito daquele disco n\u00e3o tivesse sido t\u00e3o surpreendente e oportuno.\r\n\r\n\u2014 \r\n\r\nZola Jesus e seu *Okovi* mudaram minha dire\u00e7\u00e3o naquele dia \u2014 expandiram bastante minha vis\u00e3o, digamos, vis\u00e3o que andava meio estreita e cansada devido a uma s\u00e9rie de viagens e compromissos, maratona que nem sequer terminou ainda, por\u00e9m agora tenho atravessado-a bem mais atento e revigorado. No dia seguinte a *Okovi* eu acordei sedento de m\u00fasica, e n\u00e3o apenas de m\u00fasica na linha de Zola Jesus: naquele dia e nos seguintes eu escutei metal e *krautrock* (Judas Priest, Gnaw Their Tongues e Manuel G\u00f6ttsching), m\u00fasica cl\u00e1ssica de vanguarda e free jazz (Schoenberg, Pharoah Sanders e Don Cherry), rock \u2019n\u2019 de todos os tipos e naturezas (Bon Jovi, R.E.M. e King Crimson) e horas e mais horas de Aphex Twin e Tangerine Dream, e terminava os dias com discos quietos e ac\u00fasticos (Tiny Vipers e Marissa Nadler, sonatas para violoncelo e para piano) enquanto anotava algumas ideias de audi\u00e7\u00f5es para o dia seguinte, bandas e artistas que n\u00e3o tinha tido tempo de escutar nas \u00faltimas horas mas que meus ouvidos me imploravam. Uma s\u00e9rie de coisas maravilhosas cabem em um esp\u00edrito desatado pelos sons de Zola Jesus, e pela m\u00fasica gigante e imersiva do Tangerine Dream, e pela precis\u00e3o e sutileza de Aphex Twin: n\u00e3o s\u00e3o, estes, criadores de m\u00fasicas alegres ou pacificadoras; s\u00e3o artistas ilimitados que nos enfiam o universo ouvidos adentro, exp\u00f5e-nos ao infinito e ao bizarro e nos expandem a percep\u00e7\u00e3o, recalibrando nossos ritmos para algo mais adapt\u00e1vel \u00e0s complexidades que n\u00e3o param de se multiplicar ao nosso entorno. Impedem, enfim, a atrofia e tamb\u00e9m o medo. Lembro que em algum momento mais l\u00e1 para o come\u00e7o desse m\u00eas, antes de *Okovi*, eu me perguntava se teria tempo e \u00e2nimo de escrever um \u0022Disco do m\u00eas \u2014 Outubro de 2019\u201d uma vez que at\u00e9 aquele momento eu n\u00e3o vinha escutando a praticamente nada mais al\u00e9m de Necks e Thelonious Monk, j\u00e1 meio contrariado prevendo que a resposta era n\u00e3o, n\u00e3o teria tempo, e, se acaso tivesse, n\u00e3o teria nada de muito novo para escrever, tendo j\u00e1 dedicado o post anterior [exclusivamente ao meu amado trio australiano](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_10_01_discos_doh_the_necks) e algum outro recente ao Monk. De resto, depois das f\u00e9rias e da euforia do show do Necks, os dias come\u00e7avam a correr meio acabrunhados e cansativos, o inverno chegando aqui na metade de cima do mundo\u2026 E agora, ap\u00f3s *Okovi* e da farta correnteza de m\u00fasica que dali se seguiu, minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o achar tempo para escrever sobre o tanto de coisas incr\u00edveis e diversas que tenho ouvido e como elas t\u00eam me feito bem. A maratona continua, mas me sinto preparado como Sarah Connors diante da tempestade.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"A cena final de *The Terminator*, de James Cameron, copiada [aqui](http:\/\/cinevenger.com\/?p=596).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":770,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XII","post_timestamp":"2019-10-15T20:12:17+00:00","url":"2019_10_15_impressoes_auditivas_vol_xii","post":"* Nunca liguei muito para o Magma, mas como faltavam ainda cerca de tr\u00eas horas para come\u00e7ar a apresenta\u00e7\u00e3o do Necks, resolvi entrar na sala onde a lend\u00e1ria trupe francesa estava prestes a iniciar sua participa\u00e7\u00e3o no Tusk Festival, que aconteceu em Newcastle neste \u00faltimo fim de semana. E mesmo n\u00e3o sendo f\u00e3 da banda, devo admitir que coisas maravilhosas aconteceram naquele palco. Para come\u00e7ar, um show do Magma \u00e9 longo, muito longo: come\u00e7ando \u00e0s 20h10, a coisa toda durou umas seis ou oito horas, terminando \u00e0s 21h50 \u2014 \u00e9, essa coisa de tempo fica um pouco embaralhada, comprimida. Aqueles vocais cheios de enfeites e piruetas e a tal da Koba\u00efan, a l\u00edngua inventada pela banda, s\u00e3o chat\u00edssimos, mas todo o resto \u00e9 espantoso, e muito envolvente, e deve dar um trabalho dos diabos de comp\u00f4r, ensaiar, etc. Neste conflito entre vozes apalermadas e se\u00e7\u00e3o instrumental deslumbrante, acho que o jogo fica 0 a 0, ou 14 a 14 (me refiro \u00e0 placares de futebol). \u00c9 um grande paradoxo esta banda, muita gente no palco e muitos sons se entrela\u00e7ando \u2014 na maior parte do tempo concordando uns com os outros, evitando quase sempre a tenta\u00e7\u00e3o do virtuosismo individual, afinal, todo o conjunto j\u00e1 \u00e9 uma grande demonstra\u00e7\u00e3o un\u00edssona de virtuosismo \u2014 tudo funcionando como algo que n\u00e3o deveria funcionar, mas funciona, ou ent\u00e3o como algo que n\u00e3o funciona, mas deveria funcionar \u2014 deveria tanto funcionar que voc\u00ea chega a acreditar que funciona \u2014 n\u00e3o sei bem. O motor da banda, o propulsor principal deste v\u00f4o audacioso e tresloucado \u00e9 o baterista e fundador Christian Vander, uma dessas figuras que se a humanidade fosse toda feita exclusivamente de indiv\u00edduos como ele j\u00e1 ter\u00edamos h\u00e1 muito tempo deixado a Terra rumo a outros planetas e outras gal\u00e1xias, ou ent\u00e3o j\u00e1 ter\u00edamos h\u00e1 muito sucumbido sob o peso de tanto vigor e extravag\u00e2ncia juntos. Imposs\u00edvel saber o que viria primeiro. Para finalizar, acho que nunca vou me esquecer de um certo cheiro que havia na sala durante a apresenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei se vindo da cerveja que ao ser derrubada por algu\u00e9m atr\u00e1s de mim misturou-se com o produto qu\u00edmico que havia sido utilizado para limpar o ch\u00e3o minutos antes e juntos se transformaram numa fragr\u00e2ncia para l\u00e1 de esquisita, ou se vindo dos desodorantes que aquela gente toda no palco utilizava e que com o inevit\u00e1vel suadouro se desprendeu e de carona com o gelo seco se espalhou pelo local \u2014 qualquer que seja a origem, ficar\u00e1 para sempre em minha lembran\u00e7a como o cheiro do Magma, a banda que tem excesso de som, de gente, de hist\u00f3ria, e de cheiro. Foi divertido, no fim das contas (talvez eu deva dizer que o placar terminou 15 a 14 a favor da banda), mas estimo que s\u00f3 volto a escut\u00e1-los dentro de 35 anos.\r\n* Quanto ao Necks: os caras sobem ao palco, neutros e s\u00f3brios, ouvem \u00e0s palmas e aos assobios e se acomodam em seus lugares; segue-se ent\u00e3o um breve sil\u00eancio, concentrados, e come\u00e7am a tocar, e terminam, e voc\u00ea, se teve a sorte de presenciar, volta para a casa e n\u00e3o escreve nada a respeito, n\u00e3o ordena em palavras nenhuma reflex\u00e3o sobre o que ouviu e assistiu, que \u00e9 para n\u00e3o macular a lembran\u00e7a, que \u00e9 para conserv\u00e1-la nesta forma original pr\u00e9-pensamento \u2014 guardar apenas os sons e os movimentos, um fragmento de tempo inesquec\u00edvel e irrecuper\u00e1vel.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Christian Vander em fotografia de autor desconhecido, copiada [daqui](http:\/\/www.progarchives.com\/artist.asp?id=646).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":769,"title":"Discos do\u2026 The Necks","post_timestamp":"2019-10-01T14:37:47+00:00","url":"2019_10_01_discos_doh_the_necks","post":"No come\u00e7o de Setembro sa\u00ed de f\u00e9rias, viajei, fui para longe visitar cen\u00e1rios muitas vezes lidos e admirados tanto em livros de hist\u00f3ria quanto em revistas de companhias a\u00e9reas e em cartazes nas vidra\u00e7as das ag\u00eancias de turismo \u2014 uma metr\u00f3pole de tamanho descomunal e magn\u00edficos museus cercada por ilhas que parecem sa\u00eddas diretamente dos sonhos das gentes da cidade, ilhas deslumbrantes mesmo para quem, como eu, teve a sorte de viver boa parte de sua vida em uma outra ilha tamb\u00e9m muito bonita, mas estas que visitei nessas f\u00e9rias t\u00eam o sol mais exuberante dentre todos os que j\u00e1 colaboraram com o envelhecimento das minhas retinas e as \u00e1guas mais cristalinas nas quais j\u00e1 tive a oportunidade de rejuvenescer o meu esp\u00edrito, e todo esse conjunto, ilhas e cidade, beneficiado ainda pelo fato de ter sido o ber\u00e7o fragmentado e milenar dos primeiros pensadores e dos primeiros cientistas e de muitas das lendas que povoam o imagin\u00e1rio coletivo da humanidade. H\u00e1 uma aura m\u00e1gica por aquele lugar, uma reverbera\u00e7\u00e3o long\u00ednqua de calma, reflex\u00e3o e natureza invenc\u00edveis, um ac\u00famulo insuper\u00e1vel de hist\u00f3ria. E tamb\u00e9m um vinho delicioso. Foram dias inesquec\u00edveis onde, ocupado que estava visitando museus, nadando e mergulhando, comendo e bebendo muit\u00edssimo bem, fazendo trilhas antiqu\u00edssimas por entre vales e montanhas, dormindo o sono s\u00f3lido e despregado que raramente durmo durante o resto do ano, nesse dias mal tive tempo (e devo dizer que pouco senti falta) de ouvir m\u00fasica, e por isso esse m\u00eas n\u00e3o tem \u201cDiscos do m\u00eas\u201d. Mas, nas poucas vezes em que coloquei algo para tocar, quase sempre lembrei de colocar The Necks, uma vez que, mesmo durante aqueles dias id\u00edlicos de sol e mar, muitas vezes me veio \u00e0 lembran\u00e7a que l\u00e1 (aqui) em casa tenho ingressos comprados para, no dia 13 de Outubro, assistir ao m\u00edtico trio australiano cujas apresenta\u00e7\u00f5es, leio isso em todo o lugar, s\u00e3o sempre experi\u00eancias inesquec\u00edveis. Lembrava disso e pensava: n\u00e3o vai ser t\u00e3o traum\u00e1tico assim quando acabarem-se as f\u00e9rias e eu voltar para casa. Eu coloco o Necks, sem pensar duas vezes, entre as minhas cinco bandas favoritas de todos os tempos; eu reverencio arduamente esses caras, e seus discos est\u00e3o sempre entre os mais cotados quando quero ouvir algo realmente especial, quando tenho tempo e disposi\u00e7\u00e3o para isso, nas noites mais tranquilas, nos fins de semana mais descansados. Enfim, acabaram-se as f\u00e9rias, mas est\u00e1 sendo f\u00e1cil readaptar-me \u00e0 rotina de trabalhador e de testemunha c\u00ednica das cat\u00e1strofes fatais de nosso tempo: um fascista corrupto e covarde continua presidente do Brasil, as not\u00edcias v\u00e3o de mal a pior e a humanidade continua correndo serelepe rumo \u00e0 extin\u00e7\u00e3o, mas eu, devo confessar, neste momento estou bastante feliz.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de [Anne Zahalka](http:\/\/zahalkaworld.com.au), copiada [aqui](https:\/\/bandonthewall.org\/2016\/10\/necks-thirty-years-aetherial-creation\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":768,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2019","post_timestamp":"2019-09-01T21:29:41+00:00","url":"2019_09_01_discos_do_mes_agosto_de_2019","post":"**Egberto Gismonti - Sol do Meio Dia**\r\n\r\nAh, \u00e9 esse o Brasil que eu adoro, o Brasil pelo qual nutro aquele tipo de carinho \u00edntimo e profundo que, na falta de melhores termos para enunci\u00e1-lo, as pessoas costumam dizer que o objeto de seu afeto faz parte delas mesmas, est\u00e1 em seu sangue e em seu esp\u00edrito. Este \u00e9 o Brasil que faz parte de mim, e eu fa\u00e7o parte dele: o peda\u00e7o de terra e a gente simples desenhados pela m\u00fasica de Egberto Gismonti e de Nan\u00e1 Vasconcelos, de Pixinguinha e Cartola; o Brasil da Amaz\u00f4nia, do Boitat\u00e1, do boi-de-mam\u00e3o e do S\u00edtio do Picapau Amarelo; o Brasil dos \u00edndios e das palavras ind\u00edgenas, do cacau e da mangaba, das taperas e dos aracu\u00e3s; o Brasil do mar quente l\u00e1 em cima e frio l\u00e1 embaixo, de Villa-Lobos e d\u0027O Trenzinho do Caipira; da macumba, do caf\u00e9, da capoeira e do Garrincha. O Brasil que vai sendo destru\u00eddo e esquecido. Benditos sejam Egberto e Nan\u00e1, Chico e Gil, Clara e Elis, M\u00f4nica Salmaso e Gal Costa, Moacir Santos e Tom Jobim, Guinga e Ary, benditos estes cantores e compositores e estas cantoras e compositoras que cantaram o Brasil como ele era em cada um de seus tempos e cen\u00e1rios, e assim, sem o saber, ou sem que tivesse sido esta a inten\u00e7\u00e3o, garantiram \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras um maravilhoso \u00e1lbum de fotografias sonoro onde \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar o que j\u00e1 foi um dia este pa\u00eds e o que poderia ele ter sido, e aos outros que j\u00e1 vivem e que chegaram algum dia a testemunhar e a acreditar nisso tudo, para estes temos a\u00ed um meio de reunir as for\u00e7as e as esperan\u00e7as para continuar lutando e resistindo, para que n\u00e3o tenhamos que acrescentar, em breve, \u00e0 senten\u00e7a \u201caquilo que poderia ele ter sido\u201d, a conclus\u00e3o definitiva \u201cmas nunca o ser\u00e1\u0022.\r\n\r\n**Marillion - The Thieving Magpie**\r\n\r\nCreio que o Marillion n\u00e3o seja nem de longe a coisa mais embara\u00e7osa que eu costumo escutar, tantas s\u00e3o as, digamos, \u0022peculiaridades\u0022 do meu card\u00e1pio musical\u2026 N\u00e3o restam d\u00favidas, contudo, de que Marillion \u00e9 embara\u00e7oso o suficiente para que eu, se desse tipo de pudores sofresse, n\u00e3o sa\u00edsse por a\u00ed dizendo que gosto, e gosto muito da banda. Eu certamente n\u00e3o relataria aqui que nas \u00faltimas semanas ouvi umas quatro ou cinco vezes a este disco ao vivo de 1988, *The Thieving Magpie*, e que amo intensamente o segmento formado por *Pseudo Silk Kimono*, *Kayleigh* e *Lavender*, as tr\u00eas retiradas do *Misplaced Childhood*, disco que \u00e9 um dos meus favoritos de todos os tempos. Eu definitivamente nunca revelaria que um disco do Marillion \u00e9 um dos meus favoritos de todos os tempos! Nada disso eu sairia por a\u00ed dizendo e escrevendo, e continuaria escutando \u00e0 banda em segredo, frequentemente, em especial durante estas se\u00e7\u00f5es de trabalho mais repetitivo em que \u00e9 poss\u00edvel deixar uma parte do c\u00e9rebro desconectada da tarefa em andamento para se divertir com uma m\u00fasica recreativa e estimulante, pouco exigente, cheia de imagens f\u00e1ceis e mem\u00f3rias queridas.\r\n\r\n**Alban Gerhardt - Bach: The Cello Suites**\r\n\r\nJ\u00e1 faz tempo, foi l\u00e1 no come\u00e7o do m\u00eas, e o come\u00e7o de Agosto, no momento em que escrevo isto, parece enterrado no passado h\u00e1 anos. Mas disso eu me lembro bem: enquanto escutava \u00e0 vers\u00e3o do alem\u00e3o Alban Gerhardt para as miraculosas su\u00edtes para violoncelo de Bach, eu pensava, impressionado: aqui est\u00e1 a melhor das vers\u00f5es dentre todas as que eu j\u00e1 ouvi. J\u00e1 escutei a algumas dezenas, muitas delas excelentes, n\u00e3o poucas excepcionais, mas eu nunca chegava a concluir, ao fim de cada um daqueles discos, que havia acabado de escutar a uma vers\u00e3o que eu chamaria dali por diante de a minha predileta. Nunca havia motivos para preferi-la \u00e0 anterior, por exemplo; para estas pe\u00e7as, nunca apareceu-me um correspondente ao que \u00e9 Glenn Gould para as *Varia\u00e7\u00f5es Goldberg*, ou seja, o favorito absoluto. Isso at\u00e9 escutar a este [disco lan\u00e7ado pela Hyperion](https:\/\/www.hyperion-records.co.uk\/dc.asp?dc=D_CDA68261\/2) em Abril deste ano. N\u00e3o d\u00e1 de dizer que a excel\u00eancia de Gerhardt \u00e9 do mesmo n\u00edvel da de Gould \u2014 este \u00faltimo habitava a esfera restrita e imortal dos g\u00eanios \u2014 por\u00e9m d\u00e1 de dizer que o violoncelo de Gerhardt \u00e9 como um animal enorme no meio da sala, um mam\u00edfero vivo e inquieto de h\u00e1lito quente e respira\u00e7\u00e3o sonora, cuja vida se faz perceber o tempo todo, mesmo enquanto voc\u00ea n\u00e3o o olha diretamente, mesmo se voc\u00ea evita totalmente seu olhar. Essa m\u00fasica, na verdade, escapa sob formas diversas de qualquer limita\u00e7\u00e3o f\u00edsica, qualquer compartimento onde se lhe queira aprisionar: uma esp\u00e9cie de touro resfolegando na minha nuca foi o que eu imaginei naquela ocasi\u00e3o, mas na pr\u00f3xima materializa\u00e7\u00e3o pode muito bem ser algo completamente diferente. S\u00f3 espero que n\u00e3o seja nada t\u00e3o pesado quanto da primeira vez, pois tenho a impress\u00e3o que as madeiras velhas do assoalho aqui de casa ficaram severamente danificadas sob o peso daquele animal.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":767,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2019","post_timestamp":"2019-08-03T17:37:42+00:00","url":"2019_08_03_discos_do_mes_julho_de_2019","post":"**Sam Rosenthal, Nick Shadow \u0026 Steve Roach - the gesture of history**\r\n\r\nH\u00e1 m\u00fasicas que parecem desprovidas de movimento, como se fossem volumes est\u00e1ticos de som, som derramado e estancado. Por\u00e9m n\u00e3o raro \u00e9 o caso de ouvir-lhes com aten\u00e7\u00e3o e descobrir que sim, elas se movem. Talvez *the gesture of history* n\u00e3o seja o melhor dos exemplos \u2014 est\u00e1 mais ou menos evidente que ela se move, mesmo para um ouvinte desatento \u2014 mas dar-lhe esse tratamento investigat\u00f3rio, ouvir o \u00e1lbum para captar e compreender seus movimentos, as dire\u00e7\u00f5es e sutilezas de sua enorme massa de som espectral, \u00e9 das minhas divers\u00f5es favoritas. Eu me amarro demais nesse tipo de som, seus longos e pacientes minutos, as restri\u00e7\u00f5es que parecem ao mesmo tempo amplas e nenhuma \u2014 amplas por causa do minimalismo da composi\u00e7\u00e3o e da execu\u00e7\u00e3o, nenhuma porque a m\u00fasica n\u00e3o se fia em nada de convencional, nada de popular, nenhuma estrutura ou concess\u00e3o \u00e0 coisa alguma: t\u00e3o pouca coisa acontecendo em t\u00e3o amplo e ilimitado espa\u00e7o \u2014 e o grande e confort\u00e1vel vazio que vai se acumulando na mente de quem o escuta tem ainda por cima este precioso efeito terap\u00eautico de pouco a pouco nos retirar deste mundo e nos fazer acreditar, por fim, em uma outra dimens\u00e3o. \u201cEfeito precioso\u0022 porque esta dimens\u00e3o que ora habitamos, convenhamos, est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil de tolerar. *the gesture of history* \u00e9 quase que uma droga psicoativa sem a parte ruim de se consumir drogas.\r\n\r\n**Uriel - Arzachel**\r\n\r\nComo foi que consegui chegar aos 40 anos de idade sem nunca ter escutado sequer falar no nome de Steve Hillage? Descobri a m\u00fasica de Hillage faz apenas algumas horas (apesar de ela existir \u2014 existir em forma gravada, quero dizer \u2014 h\u00e1 precisamente 50 anos) e agora estou aqui, no momento em que escrevo isto, manejando dezenas de downloads, lendo sobre sua trajet\u00f3ria e suas bandas, anotando nomes de discos para comprar, e postergando o trabalho que eu deveria estar fazendo. *Arzachel* \u00e9, na verdade, um \u00e1lbum do Uriel, a primeira banda de Hillage. E \u00e9 fant\u00e1stico, psicodelia que me lembra por vezes Hawkwind (devido \u00e0 veia *hard rock*), outras vezes King Crimson (devido \u00e0s afilia\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas), e acho que basta deixar citados a\u00ed estes dois gigantes para dar uma boa medida do neg\u00f3cio. Ali\u00e1s, essas bandas todas nasceram e lan\u00e7aram seus primeiros discos entre 1967 e 1970; nesse mesmo per\u00edodo, Hendrix lan\u00e7ou todos os seus discos, sem falar nos tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns do Led Zeppelin e dos dois primeiros do Black Sabbath. Anos gloriosos, n\u00e3o?\r\n\r\n**Mark Isham - Mark Isham**\r\n\r\nMark Isham \u00e9 o sujeito respons\u00e1vel pela inesquec\u00edvel trilha sonora do filme *Never Cry Wolf*. Escutei sua m\u00fasica pela primeira vez assistindo a este filme; depois, fui encontrando seus discos por a\u00ed, ocasionalmente, um aqui e outro ali, sem necessariamente procur\u00e1-los ativamente, mas eles sempre me apareciam pela frente \u2014 discos onde Isham toca seu trompete, brinca com os ing\u00eanuos e deliciosos sons da New Age, volta de vez em quando aos sintetizadores de *Never Cry Wolf*\u2026 Nada que v\u00e1 mudar a vida de ningu\u00e9m, mas uma muito apraz\u00edvel mistura desses elementos todos, ao menos para c\u00e1 estes meus velhos ouvidos que se acalmam e se deleitam com este tipo de som. Bem, a coisa \u00e9 amena e tem seus limites, sejamos logo francos. Este disco de 1990, no entanto, me parece acima da m\u00e9dia da cria\u00e7\u00e3o de Isham, e isso em boa medida se deve \u00e0 segunda faixa, *I Never Will Know*, que conta com a colabora\u00e7\u00e3o da cantora Tanita Tikaram. \u00c9 o tipo raro de m\u00fasica (e que felicidade continuar descobrindo-as) que deve-se reservar para escutar em ocasi\u00f5es especiais: a primeira manh\u00e3 ensolarada das f\u00e9rias de ver\u00e3o; voltando para casa depois de uma longa e cansativa jornada; um dia antes de morrer. J\u00e1 s\u00e3o cinco os discos que tenho anotados para ouvir um dia antes de morrer: *Good God\u0027s Urge*, *Laughing Stock*, *Automatic for the People*, Glenn Gould tocando as *Goldberg Variations*, e agora este, por causa desta faixa. Espero que eu esteja com a agenda livre neste dia.\r\n\r\n**Thelonious Monk - Underground**\r\n\r\nAs noites aqui em casa, quando j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o apenas os meus ouvidos ouvindo m\u00fasica, s\u00e3o dedicadas ao jazz. E o \u00faltimo disco da noite \u00e9 sempre Thelonious Monk. Monk foi um dos maiores! Eu o colocaria em qualquer lista dos meus mestres do jazz favoritos \u2014 talvez n\u00e3o apenas na dos meus dois favoritos, da qual ningu\u00e9m pode destronar nem Miles nem Coltrane. Mas em todas as outras ele tem seu lugar. Embora tenha sido um [artista singular](https:\/\/www.theguardian.com\/music\/musicblog\/2017\/nov\/06\/get-inside-the-music-the-ineffable-genius-of-thelonious-monk) em muitos aspectos, nada, no fim das contas, resplandece mais do que seu piano: sua m\u00fasica e seu jeito de tocar possuem uma marca inconfund\u00edvel \u2014 as notas v\u00edvidas e algo exc\u00eantricas, cada qual de import\u00e2ncia nunca menor do que qualquer outra \u2014 assim como a guitarra de Hendrix tem tamb\u00e9m seu selo de exclusividade, e talvez de nenhuma outra dupla m\u00fasico-instrumento eu consiga dizer tal coisa no mesmo n\u00edvel de convic\u00e7\u00e3o. Este *Underground* n\u00f3s escutamos numa sexta-feira de noite enquanto esvazi\u00e1vamos uma garrafa de vinho portugu\u00eas, e as trevas e seus dem\u00f4nios e seus sete pr\u00edncipes e demais anjos ca\u00eddos poderiam estar passando em prociss\u00e3o pela nossa rua naquele exato momento, sendo ovacionados e ungidos pelo povo, empossados como nossos novos e mais leg\u00edtimos representantes agora que enfim caem todas as nossas m\u00e1scaras, agora que decidimos que est\u00e1 tudo bem e assim ser\u00e1 daqui por diante \u2014 e nada disso nos interromperia, nada disso quebraria o encanto e a felicidade de nosso pequeno reduto musical. Ao contr\u00e1rio: se tal prociss\u00e3o de fato passasse, ouvindo Monk eu poderia at\u00e9 mesmo acreditar que a qualquer momento um buraco se abriria no asfalto e um baf\u00e3o engoliria a comitiva toda de volta para o quinto dos infernos. S\u00f3 para n\u00e3o atrapalhar o som do piano de Monk.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":766,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. XI","post_timestamp":"2019-07-30T13:14:38+00:00","url":"2019_07_30_impressoes_auditivas_vol_xi","post":"* \u00c9 como a figura da imagem acima que eu me sinto muito frequentemente ouvindo certas m\u00fasicas: me esfor\u00e7ando para entender sua mensagem, concentrando-me na possibilidade de captar um fio que esteja escondido por entre os sons e que revele o significado do todo. Em outras palavras, tentando entender o que me assopra o compositor, no mais da vezes uma voz extinta h\u00e1 s\u00e9culos. No caso das sinfonias, \u00e9 frequente abrir os livretos que acompanham os CDs e encontrar textos que s\u00e3o in\u00fateis e cansativas sequ\u00eancias de descri\u00e7\u00f5es do tipo \u201ctal movimento \u00e9 seguido por um *adagio*\u201d ou \u201ctal tema \u00e9 re-introduzido pelo fagote\u201d, como se fossem destinados \u00e0s pessoas que n\u00e3o t\u00eam um aparelho para ouvir ao som que vem gravado nos discos: ao menos voc\u00ea vai poder *l\u00ea-los*. Ora, n\u00e3o precisaria vir junto o CD ent\u00e3o, bastava o livreto. Outros fazem um esfor\u00e7o em contextualizar as obras e dar uma ou outra indica\u00e7\u00e3o das inten\u00e7\u00f5es de seus compositores \u2014 estas sim s\u00e3o dicas valiosas. Por\u00e9m h\u00e1 sempre muita coisa escondida no mar das melhores sinfonias, ideias e segredos inesgot\u00e1veis, e nem sempre, como a esfinge acima, elas parecem dispostas a revel\u00e1-los, nem mesmo para quem lhes grude os ouvidos \u00e0 boca.\r\n* H\u00e1 cenas muito reveladoras de Bob Dylan no document\u00e1rio *Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese* \u2014 ou, pelo menos, muito reveladoras para quem, como eu, nunca viu muitos v\u00eddeos de Dylan. Finalmente vi a correspond\u00eancia entre certas express\u00f5es de f\u00faria e exaspera\u00e7\u00e3o \u2014 que, antes, eu percebia apenas enquanto escutava aos seus discos ao vivo, e portanto deixavam em mim impress\u00f5es incompletas, \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo d\u00fabias \u2014 com o rosto, a fisionomia, o corpo que as exprimia. Era algo que eu n\u00e3o conseguia imaginar muito bem antes, encontrar a simetria, sei l\u00e1 por qual motivo \u2014 provavelmente alguma incompreens\u00e3o at\u00e9 bem recente sobre a hist\u00f3ria da m\u00fasica folk. E sempre foi uma das coisas que mais me intrigou e fascinou sobre Dylan.\r\n\r\n**M\u00fasica como algo que come\u00e7a e termina (1)**\r\n\r\nCome\u00e7o essa s\u00e9rie (uma s\u00e9rie dentro de outra) com uma m\u00fasica que talvez n\u00e3o exemplifique bem o que pretendo explorar por aqui de vez em quando, isso que \u00e9 uma das tantas pequenas obsess\u00f5es que tenho penduradas \u00e0 minha obsess\u00e3o-mor: os come\u00e7os e os fins das m\u00fasicas e dos discos. Trata-se do come\u00e7o de *Exodus*, disco que, de certo modo \u2014 e da\u00ed a d\u00favida passageira quanto \u00e0 sua adequa\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o exatamente *come\u00e7a*: talvez seja melhor dizer que ele *ressurge*, ou \u00e9 trazido \u00e0 tona, tendo j\u00e1 come\u00e7ado em algum outro tempo. \u00c9 um simples efeito de *fade-in*, por\u00e9m n\u00e3o se pode desencant\u00e1-lo dessa forma: o que ficamos tentados a pensar \u00e9 que *Natural Mystic* (a primeira faixa do disco) \u00e9 trazida pelo vento; desde a primeira vez ela \u00e9 uma lembran\u00e7a antes de ser uma afirma\u00e7\u00e3o ou novidade. \u00c9 um dos meus come\u00e7os de disco favoritos. Assim que a m\u00fasica se estabelece, a voz de Bob Marley aparece para relatar, calmamente, certo misticismo no ar, e de pronto imaginamos que l\u00e1 vem uma ode \u00e0 natureza embalada em voz macia e perfumada, mas logo esta mesma voz muda de tom e de volume e passa a lamentar os tantos que ainda v\u00e3o morrer e sofrer sem necessidade. Tal assunto \u00e9 inescap\u00e1vel para Marley e sua gente, mas para toda a gente de todas as cores e cantos o deveria ser, na verdade. A majestade de *Exodus* \u00e9, ao mesmo tempo, inexaur\u00edvel e leve o suficiente para vir com o vento: perturba muito pouco o ar \u00e0 sua volta e desvanece-se sem gritos ou estampidos; sua mensagem e sua for\u00e7a espiritual, contudo, seguem inabal\u00e1veis. ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*The Questioner of the Sphinx*, de Elihu Vedder.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":765,"title":"Beginning to fill it up","post_timestamp":"2019-07-25T12:38:50+00:00","url":"2019_07_25_beginning_to_fill_it_up","post":"\u003Cp\u003E\u003C\/p\u003E\r\n\u003E I had broken myself of the habit of thinking in short song cycles and began reading longer and longer poems to see if I could remember anything I read about in the beginning. I trained my mind to do this, had cast off gloomy habits and learned to settle myself down. I read all of Lord Byron\u2019s Don Juan, and concentrated fully from start to finish. Also, Coleridge\u2019s Kubla Kan. I began cramming my brain with all kinds of deep poems. It seemed like I\u2019d been pulling an empty wagon a long time and now I was beginning to fill it up and would have to pull harder. I felt like I was coming out of the back pasture.\r\n\r\nTrecho de *Chronicles, Volume One*, de Bob Dylan.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de Jim Marshall copiada [daqui](https:\/\/variety.com\/2019\/music\/news\/jim-marshall-photos-bob-dylan-led-zeppelin-rolling-sly-stones-documentary-1203162016\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":764,"title":"Eu comprei um discman","post_timestamp":"2019-07-20T15:57:48+00:00","url":"2019_07_20_eu_comprei_um_discman","post":"Meus amigos andam tendo filhos, e alguns j\u00e1 os t\u00eam entrando na adolesc\u00eancia (os filhos), garot\u00f5es e garotonas que em geral se parecem mais com as m\u00e3es, mas eu sempre vejo algo nos olhos ou no movimento da bochecha que me faz lembrar do pai quando crian\u00e7a ou adolescente, quando jog\u00e1vamos bola na rua e assist\u00edamos aos filmes do Jean-Claude Van Damme sentados no ch\u00e3o da sala. Outros evoluem em suas carreiras, trocam de emprego, medem sal\u00e1rios; outros investem dinheiro n\u00e3o sei onde (o mundo do dinheiro \u00e9 um mist\u00e9rio impenetr\u00e1vel para mim) e acumulam patrim\u00f4nio. Eu, enquanto isso, dia desses comprei um *discman*. Isso mesmo, um *discman*. Aposto que voc\u00ea que me l\u00ea sequer sabia que eles continuam sendo fabricados, certo? Pois bem, continuam, mas \u00e9 seguro apostar que n\u00e3o por muito mais tempo, e por isso resolvi adquirir um, provavelmente o \u00faltimo *discman* da minha vida. H\u00e1 um pouco de nostalgia nisso, evidentemente \u2014 nostalgia, afinal, \u00e9 elemento protagonista em minha vida de escutador de m\u00fasica \u2014 mas h\u00e1 tamb\u00e9m planejamento cauteloso e talvez um qu\u00ea de paran\u00f3ia. O que ocorre \u00e9 o seguinte: quero garantir a posse de uma certa quantidade tranquilizadora de maneiras de se escutar aos meus milhares de discos (\u00e0s fitas cassetes eu j\u00e1 me resignei em n\u00e3o poder mais ouvir, a despeito de ter ainda em casa umas quarenta ou cinquenta guardadas) e assim evitar que um dia eu me veja simplesmente impossibilitado de botar um CD para tocar, algo que seria como n\u00e3o poder mais me alimentar. N\u00e3o que eu acredite que v\u00e1 testemunhar, pelo menos n\u00e3o no meu tempo restante de vida, ao fim definitivo dos aparelhos de som, e dos vinis e dos CDs, e o triunfo final da m\u00fasica digital que se escuta unicamente via computador ou smartphone \u2014 n\u00e3o chego a cogitar esse rev\u00e9s para t\u00e3o breve, ainda que o considere inevit\u00e1vel. Por\u00e9m a disponibilidade de aparelhos de som decentes para se comprar, pelo menos nas cidades de porte m\u00e9dio do Brasil, me parece j\u00e1 ter evaporado, assim como as lojas de discos praticamente sumiram do mapa. Descobri isso quando a gaveta de CDs do meu principal aparelho de som em casa deixou de funcionar, uns tr\u00eas ou quatro anos atr\u00e1s. Achei uma autorizada Sony que a consertou; o remendo, contudo, funcionou por apenas alguns meses. Abri eu mesmo o aparelho e apertei um parafuso aqui e outro ali, coloquei uma gota de \u00f3leo c\u00e1 e outra l\u00e1, e consegui faz\u00ea-la funcionar novamente; e novamente, depois de dois ou tr\u00eas meses, a gaveta tornou a travar. N\u00e3o conseguindo mais dar jeito, sa\u00ed para comprar um substituto, mas s\u00f3 achei aparelhos pavorosos, de p\u00e9ssima qualidade sonora (mesmo para mim, cujo n\u00edvel de exig\u00eancia nesse quesito talvez seja surpreendentemente baixo ao se considerar o qu\u00e3o intensamente apaixonado sou por m\u00fasica), cheios de luzes piscando por todos os lados e caixas de som de apar\u00eancia horrenda, e a grande maioria \u2014 isso para mim foi um choque \u2014 desprovida de entrada para *headphones*. \u00c9 como se fossem feitos apenas para piscar e incomodar vizinhos. Preferi ficar com meu velho aparelho danificado mesmo: os vinis, afinal, continuam funcionando atrav\u00e9s de uma *turntable* e um pr\u00e9-amplificador separados, e os CDs eu consigo execut\u00e1-los atrav\u00e9s de um notebook conectado ao aparelho por via de um cabo auxiliar. A qualidade do som das caixas desse aparelho Sony (comprado, se eu n\u00e3o me engano, em 2005) \u00e9 infinitamente superior a do melhor dos aparelhos que achei \u00e0 venda em Florian\u00f3polis, por isso compensa manter esse arranjo cheio de fios e acess\u00f3rios ocupando um espa\u00e7o imenso na sala de nosso apartamento. Isso tudo, claro, porque eu n\u00e3o me rendo \u00e0 m\u00fasica no computador: sou graduado e p\u00f3s-graduado em pirataria, tenho incont\u00e1veis *gigabytes* de arquivos mp3 e flac nos meus computadores e discos externos (Spotify e coisas do tipo, nem pensar \u2014 tenho um conhecimento apenas superficial sobre como a coisa funciona, e suficiente para saber que n\u00e3o \u00e9 para mim), por\u00e9m esses arquivos todos s\u00e3o apenas conting\u00eancia e quebra-galho, \u00e9 m\u00fasica para se ouvir enquanto trabalho, ou para ter no celular convenientemente enfiado no bolso e desse modo poss\u00edvel de se levar para qualquer canto, e tamb\u00e9m para experimentar novos sons, conhecer bandas e compositores antes de investir minhas modestas reservas monet\u00e1rias na compra de seus discos. Escutar m\u00fasica da maneira apropriada continua sendo, para mim, algo a ser feito da sala de casa, na companhia dos meus discos e do meu velho e alquebrado aparelho Sony. E agora, em casos emergenciais ou excepcionais, conto tamb\u00e9m com um *discman*: para o dia em que mais alguma coisa do monstro do Frankenstein que \u00e9 este aparelho de som falhar\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E, ou mesmo em viagens, pois adoro a ideia de selecionar uns dez discos para levar comigo em alguma aventura longe de casa e fazer deles uma trilha sonora a ser registrada na mem\u00f3ria junto das novas paisagens e dos novos aromas, das novas cores e das novas pessoas. A qualidade do som desse pequeno aparelho est\u00e1 longe de ser uma maravilha, mas aliado ao bom *headphone* Sennheiser que tenho, a dupla me \u00e9 plenamente suficiente: escutei j\u00e1 dois CDs com ela, o *Communiqu\u00e9* do Dire Straits e o *Rubycon* do Tangerine Dream, e me diverti \u00e0 be\u00e7a, como uma crian\u00e7a brincando com seus presentes rec\u00e9m-desempacotados no dia do Natal \u2014 talvez possa mesmo dizer que me diverti como nos dias em que ganhei meu primeiro *walkman* e depois meu primeiro *discman*, anos e anos atr\u00e1s. Acho que posso ficar tranquilo \u2014 n\u00e3o creio que chegar\u00e1 o dia em que n\u00e3o poderei mais ouvir meus discos. Continuo alerta, no entanto, e talvez um pouco paran\u00f3ico\u2026 Um pouco, n\u00e3o muito: n\u00e3o deve haver mais ningu\u00e9m que tenha um m\u00ednimo de bom senso, afinal de contas, a n\u00e3o perceber que querem nos tirar tudo \u2014 a educa\u00e7\u00e3o, a arte, a mem\u00f3ria, sem contar a capacidade de ler e de pensar que no Brasil parece que ningu\u00e9m mais consegue lembrar se de fato algum dia j\u00e1 a tivemos \u2014 nos amputar de todas as faculdades mentais e transformar a todos em usu\u00e1rios do Spotify e residentes das redes sociais. Desta devasta\u00e7\u00e3o em andamento cada um se protege como pode.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1\u003C\/b\u003E Na verdade, continuo planejando a compra de um novo aparelho de som, o que provavelmente vai acontecer via internet. Tenho adiado isso devido \u00e0 minha resist\u00eancia em comprar *online* algo dessa import\u00e2ncia, sem poder test\u00e1-lo antes, toc\u00e1-lo, v\u00ea-lo em detalhes. N\u00e3o resta sa\u00edda, contudo. Ao menos h\u00e1 centenas de sites especializados por a\u00ed com resenhas, dicas, compara\u00e7\u00f5es, etc. Depois \u00e9 s\u00f3 torcer para que o aparelho n\u00e3o seja danificado durante o translado at\u00e9 em casa (coisa que eu, francamente, n\u00e3o consigo conceber ser poss\u00edvel). [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":763,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2019","post_timestamp":"2019-07-03T15:38:29+00:00","url":"2019_07_03_discos_do_mes_junho_de_2019","post":"Umas notas r\u00e1pidas que eu n\u00e3o quero deixar de rabiscar apesar de estar viajando, apesar de estar muito quente, apesar de eu ainda estar meio atordoado ap\u00f3s uma indisposi\u00e7\u00e3o estomacal que quase me fez desmaiar enquanto atravessava uma rua \u2014 um baita *piriri*, como se diz no maravilhoso l\u00e9xico popular brasileiro \u2014 e ainda outros apesares que me fazem estar com pouqu\u00edssimo tempo para ficar diante do computador escrevendo. N\u00e3o quero deixar de registr\u00e1-las, apesar de tudo, pois nestes dias assisti a muita m\u00fasica incr\u00edvel \u2014 orquestras em imponentes salas de concerto; rock \u2019n\u2019 roll em um teatro constru\u00eddo no s\u00e9culo 19; jazz e recitais em parques e esplanadas \u2014 e tamb\u00e9m porque sempre que estou viajando a m\u00fasica nos fones de ouvido se torna uma companheira ainda mais valiosa, ainda mais repleta de coisas para dizer, de coisas que me ajudam a atribuir algum sentido, mesmo que bastante subjetivo, \u00e0 zorra em que est\u00e1 se transformando esta nossa aventura humana. E tamb\u00e9m porque comprei mais um monte de discos, que tenho carregado de um lado para outro na mala e na mochila e escutado sempre que me deparo com um toca-discos nas hospedagens e casas de amigos em que temos feito pouso. Os dias t\u00eam sido assim, abafados e agitados, mas neste momento estou num trem com mais tr\u00eas horas de viagem pela frente, ent\u00e3o l\u00e1 vai. [J\u00e1 ouvi tudo isso com muita aten\u00e7\u00e3o e deleite](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_06_06_a_estrategia_para_a_noite_de_hoje), mas estou ouvindo tudo de novo pois \u00e9 m\u00fasica para se ouvir para sempre: Friedrich Gulda tocando as sonatas de Mozart, uma alegria sem fim. Encontrei \u00e0 venda uma caixa que, apesar do nome *The Complete Gulda Mozart Tapes*, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o completa quanto aquela outra que comentei no post associado \u00e0 frase anterior: enquanto aquela (que eu tenho apenas em arquivos digitais) traz as grava\u00e7\u00f5es das sonatas e dos concertos para piano em dez discos, esta que encontrei traz apenas as sonatas em seis. N\u00e3o descobri ainda se h\u00e1 algum motivo para esta incongru\u00eancia, e pouco importa: comprei a caixa porque o que mais me interessa s\u00e3o de fato as sonatas. Andei lendo umas coisas muito interessantes sobre Gulda e qualquer hora comento elas por aqui \u2014 sei que oportunidades para isso n\u00e3o faltar\u00e3o, pois estes CDs eu vou gast\u00e1-los de tanto ouvir. Outro nome que deve aparecer com alguma frequ\u00eancia por aqui nos pr\u00f3ximos meses \u00e9 o do Bob Dylan, de quem, al\u00e9m de estar ouvindo muita m\u00fasica, estou tamb\u00e9m lendo a autobiografia, a *Chronicles - Volume 1* (ningu\u00e9m sabe se vir\u00e1 ao mundo um volume 2, algo bastante dylanesco). Dylan \u00e9 um artista extraordin\u00e1rio j\u00e1 constitu\u00eddo em mito, talvez o \u00faltimo ainda vivo. Quero dizer, tenho muitos her\u00f3is ainda vivos \u2014 Neil Young, Patti Smith, Keith Jarrett, Chico Buarque, Van Morrison \u2014 mas a obra e a relev\u00e2ncia de nenhum destes se equiparam as de Dylan (talvez apenas as de Chico Buarque, se deixarmos de lado quest\u00f5es relativas ao alcance das culturas em que um e outro estavam\/est\u00e3o inseridos) e, por um motivo e outro, \u201cmito\u0022 cai bem apenas quando aplicado a Dylan. *The Bootleg Series Vol. 14: More Blood, More Tracks*, em sua vers\u00e3o expandida, \u00e9 item obrigat\u00f3rio para qualquer dylanman\u00edaco: horas e horas de ensaios e vers\u00f5es demos das faixas que viriam a compor o cl\u00e1ssico *Blood on the Tracks*. J\u00e1 sua vers\u00e3o reduzida \u2014 que traz apenas uma vers\u00e3o de cada uma dessas faixas \u2014 \u00e9, ou deveria ser, item obrigat\u00f3rio para todo o resto da gente do mundo. Creio j\u00e1 ter escrito algo similar sobre algum outro disco desta s\u00e9rie de bootlegs oficias, mas n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em diz\u00ea-lo para este tamb\u00e9m: \u00e9, al\u00e9m de tudo, um \u00f3timo argumento a ser oferecido para quem ainda tem birra contra Dylan devido \u00e0 esquisitice de sua voz e sua aparente falta de jeito para cantor (reza a lenda que Stephen Stills teria dito, na primeira vez em que assistiu Dylan, que se tratava de um \u00f3timo compositor mas um p\u00e9ssimo m\u00fasico). \u00c9 o Dylan de sempre quem canta nestes discos, evidentemente: l\u00e1 est\u00e1 sua voz ainda jovem mas j\u00e1 come\u00e7ando a ficar fanha, cheia de ritmos err\u00e1ticos e entona\u00e7\u00f5es descompassadas; a beleza primitiva destas m\u00fasicas, no entanto, aliada \u00e0 pureza das grava\u00e7\u00f5es e \u00e0 riqueza inigual\u00e1vel do lirismo dylaniano, todo esse pacote t\u00e3o especial est\u00e1 presente aqui em uma dose imposs\u00edvel de ignorar, e improv\u00e1vel de n\u00e3o convencer ao mais resoluto dylanf\u00f3bico, e totalmente justificadora deste h\u00e1bito bobo que alguns temos de inventar adjetivos a partir do nome do sujeito, dylan-isso e dylan-aquilo. Para finalizar, uma nota sobre jazz: eu j\u00e1 conhecia alguma coisa do Avishai Cohen (o [contra-baixista](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Avishai_Cohen_(bassist)), n\u00e3o o [trompetista](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Avishai_Cohen_(trumpeter))) e gostava. N\u00e3o o suficiente para mant\u00ea-lo no meu c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo de audi\u00e7\u00f5es, de leitura de not\u00edcias, de compra de discos \u2014 mas gostava descompromissadamente, digamos, mais ou menos como gosto dos discos do Chick Corea, de cuja banda Avishai Cohen fez parte antes de tornar-se ele mesmo um *bandleader*. Alguns dias atr\u00e1s, entretanto, descobri que teria a chance de assistir a uma apresenta\u00e7\u00e3o de Cohen, e por conta disso tratei de me atualizar sobre sua discografia e ouvir mais alguma coisa. Descobri um disco muit\u00edssimo bom que eu ainda n\u00e3o conhecia, este *Seven Seas*, de 2010, que venho escutando mais frequentemente; comprei tamb\u00e9m o *Arvoles* ainda quentinho rec\u00e9m-sa\u00eddo do forno (lan\u00e7ado no m\u00eas passado), por\u00e9m este n\u00e3o escutei ainda com a devida aten\u00e7\u00e3o. Ouvi tamb\u00e9m mais uns dois ou tr\u00eas \u00e1lbuns do israelense que achei para download, e estou gradualmente gostando mais e mais de sua obra. O coment\u00e1rio final que quero fazer, contudo, \u00e9 que toda essa m\u00fasica gravada empalidece diante de uma apresenta\u00e7\u00e3o do trio que Avishai comanda (ele no contra-baixo, Noam David na bateria e Elchin Shirinov no piano), e isso parece ser regra geral no jazz. Adoro escutar jazz em casa, tenho muitos discos e \u00e9 das nossas trilhas sonoras favoritas para os fins de semana, e ainda assim minha percep\u00e7\u00e3o de que a forma correta de se apreciar o g\u00eanero, o canal que faz algu\u00e9m realmente compreender o que essa m\u00fasica tem de especial \u00e9 assistir a uma boa banda ao vivo, minha certeza quanto a isso \u00e9 plena e irrevog\u00e1vel. Talvez se possa dizer o mesmo de quase todo tipo de m\u00fasica, mas no jazz a amplitude disso \u00e9 maior, sei disso por intui\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia. A constru\u00e7\u00e3o gradual das can\u00e7\u00f5es e a intera\u00e7\u00e3o entre os m\u00fasicos \u2014 e destes com a plat\u00e9ia, que nunca hesita em aplaudir os \u00e1pices de uma pe\u00e7a em andamento, e assim efetivamente participa do que est\u00e1 acontecendo no palco \u2014 \u00e9 das minhas experi\u00eancias favoritas em todo o mundo da m\u00fasica. Os discos todos de jazz que tenho em casa, centenas de CDs e vinis, \u00e0s vezes me parecem apenas deliciosos aperitivos para o pr\u00f3ximo momento futuro em que poderei assistir a um bom trio ou quarteto em a\u00e7\u00e3o, ou ent\u00e3o, em alguns casos n\u00e3o t\u00e3o auspiciosos, epit\u00e1fios melanc\u00f3licos para os grandes mestres que infelizmente n\u00e3o temos mais entre n\u00f3s: Coltrane, Monk, Miles, etc.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":762,"title":"A estrat\u00e9gia para a noite de hoje","post_timestamp":"2019-06-07T00:34:27+00:00","url":"2019_06_06_a_estrategia_para_a_noite_de_hoje","post":"Ontem, entre o fim da tarde e o in\u00edcio da noite, antes de ir deitar-me, escutei uns dois ou tr\u00eas discos de *The Mozart Tapes - Concertos \u0026 Sonatas*, magn\u00edfica caixa lan\u00e7ada pela Deutsche Grammophon com este senhor da foto acima, Friedrich Gulda, tocando uma por\u00e7\u00e3o de Mozart. H\u00e1 dias, na verdade, venho saboreando estes discos, e creio que finalmente tornei-me aquilo que todo f\u00e3 de m\u00fasica cl\u00e1ssica parece ser desde sempre: f\u00e3 de Mozart. E tornei-me tamb\u00e9m f\u00e3 de Gulda, evidentemente. Sempre tive essa rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com Mozart: algo em sua m\u00fasica, uma certa leveza ou amenidade, construiu lentamente em meu c\u00e9rebro uma rede de associa\u00e7\u00f5es que, durante muito tempo, obstinadamente, barrou a entrada do c\u00e9lebre salzburguiano em meu pante\u00e3o pessoal de preferidos, mesmo o de segundo escal\u00e3o, onde estariam, deixe-me ver: Chopin, Haydn, Messiaen, Liszt, Prokofiev, Vivaldi, entre outros. Mozart sempre esteve abaixo destes todos, que por suas vezes j\u00e1 estavam abaixo de Brahms, B\u00e1rtok, Beethoven, Ligeti, Mahler, Bach, Shostakovich e Debussy. Essas associa\u00e7\u00f5es \u2014 pertinentes ou n\u00e3o, e tamb\u00e9m a pertin\u00eancia do meu julgamento da m\u00fasica de Mozart como algo leve e sem profundidade, nada disso importa nesse momento \u2014 rendiam-me vis\u00f5es de festas em sal\u00f5es de nobres, realezas refestelando-se em banquetes, bailes de m\u00e1scaras, coisas desse tipo, lugares e circunst\u00e2ncias que eu nunca suportaria frequentar (assim como suas equivalentes contempor\u00e2neas eu tamb\u00e9m as detesto) e, portanto, uma m\u00fasica que eu n\u00e3o me importaria em n\u00e3o ouvir. Um certo antagonismo com o g\u00eanio dram\u00e1tico e insofism\u00e1vel de Beethoven tamb\u00e9m n\u00e3o lhe concedia benef\u00edcio algum, pelo menos n\u00e3o perante mim, que sempre fui mais chegado na seriedade e na trag\u00e9dia do que na leviandade e na com\u00e9dia. \u00c9 claro que adoro *Eine kleine Nachtmusik*, e alguns dos concertos para piano, mas eles nunca chegaram a ser suficientes para reverter minha opini\u00e3o e meus preconceitos acerca do jovem Wolfgang (que morreu muito cedo, ent\u00e3o jovem permanecer\u00e1 para sempre, certo?). Quero dizer, tudo isso at\u00e9 ent\u00e3o, porque essa caixa de Friedrich Gulda \u00e9 coisa m\u00e1gica. Escutem, quem puder, a essa m\u00fasica \u2014 escutem sua alegria, sua clareza, sua naturalidade! N\u00e3o chegou a ser para mim uma revela\u00e7\u00e3o, uma epifania inesperada, ou coisa que o valha; foi, antes, uma compreens\u00e3o seguida de uma felicidade que eu s\u00f3 poderia alcan\u00e7ar mediante a descoberta da execu\u00e7\u00e3o perfeita, a execu\u00e7\u00e3o que tirasse do caminho todos os entulhos e cismas, que me apresentasse ao Mozart mais depurado, e fizesse derreter meus preconceitos. E aqui est\u00e1 ela. Diante de horas de tudo isso \u2014 principalmente as horas dos seis primeiros discos, que trazem as sonatas \u2014 eu finalmente me rendi. Essa m\u00fasica decerto n\u00e3o foi escrita por algu\u00e9m de segundo escal\u00e3o. E o fen\u00f4meno Gulda n\u00e3o \u00e9 menor, afinal, eu j\u00e1 tinha escutado muitas dessas composi\u00e7\u00f5es dezenas de vezes anteriormente. Mas eu comecei dizendo que ouvi os discos ontem de noite: ouvi dois ou tr\u00eas deles e fui dormir, e n\u00e3o demorou para que a m\u00fasica pura e radiante de Gulda \u0026 Mozart aparecesse nos novos cap\u00edtulos dos sonhos febris que ando tendo nestes \u00faltimos dias, nestas noites mal-dormidas por conta duma desgra\u00e7ada duma gripe que est\u00e1 me atrapalhando totalmente a vida desde o fim da semana passada. Ontem, ainda fui inventar de tomar uns goles de uma bebida forte antes de deitar, imaginando que ela poderia me ajudar a relaxar, desobstruir alguns vasos entupidos, dar uma esquentada geral, e acho at\u00e9 que a estrat\u00e9gia funcionou em parte porque dormi um pouco melhor. Mas os sonhos foram ainda mais delirantes. Em um deles, eu escutava Gulda tocando Mozart e conversava com Sylvester Stallone. Convers\u00e1vamos sobre o gorro que Gulda aparece usando na [imagem que ilustra a caixa](https:\/\/cps-static.rovicorp.com\/3\/JPG_500\/MI0003\/901\/MI0003901579.jpg): eu explicava que j\u00e1 tinha visto fotos do baterista do Rush usando uns [gorros parecidos](https:\/\/www.drummerworld.com\/pics\/drum42\/neilpeart.jpg) e que eu os achava bonitos, e que qualquer hora arranjaria um para mim. Stallone concordava sem dizer muita coisa. Lembro-me que eu admirava a m\u00fasica com o mesmo entusiasmo e a mesma rever\u00eancia de quando a escutava enquanto acordado, horas antes, um sentimento cuja perman\u00eancia na mente mesmo adormecida me \u00e9 totalmente compreens\u00edvel. E \u00e9 claro que isso, sonhar com m\u00fasica, n\u00e3o \u00e9 nada inusitado ou incomum sendo eu quem sou; a grande quest\u00e3o \u00e9: como foi que Sylvester Stallone apareceu em meus sonhos? A centelha de machismo rid\u00edculo que n\u00e3o pude evitar herdar me obriga a fornecer uma explica\u00e7\u00e3o alternativa \u00e0 atra\u00e7\u00e3o homossexual represada: durante o dia eu tinha assistido na internet ao trailer do novo filme do Rambo, o que provavelmente inscreveu o brutamontes americano no meu inconsciente, e este, por fim, forneceu-o como personagem para um dos meus devaneios noturnos. Deve ter sido isso. (Freud diria que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples, afinal, o *conte\u00fado latente* dos sonhos, etc.) Bem, eu gostaria de sonhar novamente com Gulda tocando Mozart. Conversar com Sylvester Stallone, por outro lado, eu posso passar sem \u2014 ele n\u00e3o parecia ter muito o que dizer, de todo modo. A estrat\u00e9gia para hoje de noite, portanto, ser\u00e1 continuar na companhia de *The Mozart Tapes - Concertos \u0026 Sonatas*; j\u00e1 o u\u00edsque, esse vou trocar por um copo de leite quente com mel.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Imagem copiada [daqui](http:\/\/adamkosmieja.com\/en\/work\/tribute-to-friedrich-gulda\/), onde n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia ao autor da foto.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":761,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2019","post_timestamp":"2019-06-04T21:29:24+00:00","url":"2019_06_04_discos_do_mes_maio_de_2019","post":"**Van Morrison - Common One**\r\n\r\nQuando *Common One* foi lan\u00e7ado, em 1980, a cr\u00edtica da \u00e9poca espinafrou o novo \u00e1lbum de Van Morrison. Os coment\u00e1rios negativos tinham quase todos o mesmo teor, o mesmo descontentamento com o lirismo de Morrison, cada vez mais po\u00e9tico e rebuscado, e isto, supostamente, prejudicava o resultado musical como um todo. Seria um \u00e1lbum muito \u201csentencioso\u201d \u2014 li esse parecer em mais de uma opini\u00e3o republicadas por a\u00ed em algum lugar da internet. Apenas Lester Bangs previu que o \u00e1lbum teria sua reabilita\u00e7\u00e3o algum dia, pondo a m\u00e1-vontade dos cr\u00edticos da \u00e9poca na conta da in\u00e9pcia que os impedia de compreender as ambi\u00e7\u00f5es l\u00edricas de Morrison, que, afinal, tinha o direito e o dever (e isso sou eu quem digo, embora Lester provavelmente viesse a concordar comigo) de transformar suas letras em confiss\u00e3o ou poesia ou qualquer outra coisa, se assim o quisesse. Bem, n\u00e3o sei se o disco foi afinal reabilitado; sei que gosto muito dele, assim como de tudo que j\u00e1 escutei deste inigual\u00e1vel norte-irland\u00eas. N\u00e3o vejo *Common One* como t\u00e3o diferente assim dos cl\u00e1ssicos anteriores: sua serenidade e placidez n\u00e3o v\u00eam de outro mundo; s\u00e3o, antes, o resultado natural da evolu\u00e7\u00e3o que se espera de qualquer verdadeiro grande artista, ou deste em particular, que n\u00e3o haveria de se acomodar e ficar gravando e regravando as mesmas m\u00fasicas de seus discos anteriores mais bem-sucedidos, velhas faixas da juventude que, de qualquer maneira, s\u00e3o todas t\u00e3o \u00edntegras e peculiares que nunca admitiriam ser recicladas, nunca permitiriam duplica\u00e7\u00f5es que soassem sequer minimamente leg\u00edtimas \u2014 seria como querer recriar em um laborat\u00f3rio as exatas condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas que pudessem reproduzir um rel\u00e2mpago exatamente igual a outro testemunhado muito tempo atr\u00e1s, uma c\u00f3pia perfeitamente similar em todas as suas luzes, cores e raios rasgados no c\u00e9u. N\u00e3o tem como, \u00e9 imposs\u00edvel. Ademais, quando se tem algo a dizer, \u00e9 natural que se queira refinar sucessivamente a mensagem. O meio \u2014 a m\u00fasica \u2014 se adequa: se alonga, se acalma, se transfigura, ou mesmo se enfurece ou se degenera, tanto faz \u2014 o que for necess\u00e1rio. \u00c9 o pre\u00e7o que um artista como Morrison tem de pagar, sua d\u00e1diva e sua maldi\u00e7\u00e3o. Tudo isso \u00e9 evidente para mim em *Common One* (a bel\u00edssima travessia de *When Heart is Open* n\u00e3o me deixa d\u00favida alguma), conhecendo intimamente como conhe\u00e7o *Moondance* e *Astral Weeks* e mais uns tr\u00eas ou quatro outros \u00e1lbuns de Morrison. Sim, muito pouco levando-se em conta que o sujeito j\u00e1 gravou perto de quarenta discos. Vou come\u00e7ar em breve uma explora\u00e7\u00e3o desta enorme discografia, mas j\u00e1 sabendo, deste ponto de partida em que me encontro, muito do que me espera.\r\n\r\n**Neil Young - Songs for Judy**\r\n\r\nN\u00e3o creio que a demanda por livros de Neil Young seja tal que v\u00e1 faz\u00ea-lo considerar a hip\u00f3tese de abandonar suas guitarras e tornar-se escritor em tempo integral. Em contrapartida, esse tanto de discos que o velho canadense parece n\u00e3o terminar nunca de lan\u00e7ar continua justificando plenamente sua estendida carreira musical, seja como cantor e guitarrista ainda na ativa, ainda gravando discos e apresentando-se ao vivo, seja como pesquisador e organizador de seu pr\u00f3prio legado, e isso tudo sem desconsiderar o fato de que Young lan\u00e7a discos desde 1966, quando saiu o primeiro do Buffalo Springfield. Fa\u00e7am as contas a\u00ed para ver quanto tempo d\u00e1 isso. Enquanto [lia os \u00faltimos cap\u00edtulos de sua autobiografia](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_05_06_on_the_human_highway), eu escutava *Songs for Judy*, uma compila\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es gravadas ao vivo em 1976 e lan\u00e7ada no fim do ano passado. \u00c9 Neil Young solo puro-sangue: voz, viol\u00e3o, ocasionalmente gaita e piano. H\u00e1 dezenas de discos ao vivo (oficiais) de Young por a\u00ed e n\u00e3o d\u00e1 de acus\u00e1-lo de querer apenas faturar em cima da fraqueza completista de seus f\u00e3s mais man\u00edacos, posto que a grande maioria desses discos \u00e9 de fato excepcional e compensa com folgas os danos ao meio ambiente infligidos pelos montes de pl\u00e1sticos e papel e sei l\u00e1 que outros produtos venenosos necess\u00e1rios \u00e0 sua fabrica\u00e7\u00e3o. *Songs for Judy* consegue at\u00e9 mesmo destacar-se entre estes discos todos: o repert\u00f3rio \u00e9 um banquete completo; a qualidade da grava\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser melhor; Neil parece estar no \u00e1pice da desenvoltura e de suas habilidades de cantor e instrumentista. Destaques para *White Line* (uma favorita pessoal, que apesar de j\u00e1 aparecer nos shows daquela \u00e9poca, s\u00f3 veio a ser lan\u00e7ada em um disco de est\u00fadio em 1990, no *Ragged Glory*), *Human Highway*, *Too Far Gone* (precedida pelo relato do \u0022encontro\u0022 com [Judy Garland](https:\/\/i.pinimg.com\/originals\/cc\/1b\/37\/cc1b37dae863653211082b936a7f38e1.png) \u2014 a Judy do t\u00edtulo do \u00e1lbum), *Here We are in the Years* (uma menos famosa, pin\u00e7ada do segundo disco solo de Young) e, claro, *Pocahontas*. O \u00e1lbum todo, na verdade, \u00e9 um longo e generoso destaque. Se fosse para ter na cole\u00e7\u00e3o apenas um \u00fanico disco de Neil Young ao vivo e em modo ac\u00fastico, eu n\u00e3o pensaria duas vezes antes de escolher este.\r\n\r\n**Mark Knopfler - The Ragpicker\u0027s Dream**\r\n\r\nEnquanto escrevia [aquele texto](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_05_20_a_musica_que_tenho_escutado) sobre o Mark Knopfler, eu pensava que deveria escolher algum dos seus discos p\u00f3s-Dire Straits para citar aqui nesta edi\u00e7\u00e3o de \u201cDiscos do m\u00eas\u201d, pensamento que me deixou meio aflito, afinal, n\u00e3o consigo distingui-los muito bem entre si, me parecem todos absolutamente iguais em sua sensaboria moderada e em suas humildes e honestas virtudes, a saber, a simples presen\u00e7a da voz e da guitarra de Knopfler, configuradas sempre numa inspira\u00e7\u00e3o mediana, algo autom\u00e1tica por\u00e9m sempre confortante, como escrevi naquele post. Como escolher?, eu j\u00e1 me preocupava por antecipa\u00e7\u00e3o. Ia acabar citando um qualquer, talvez o que tivesse escutado por \u00faltimo, coisa que j\u00e1 fiz anteriormente, mas aconteceu de nos \u00faltimos dias eu me afei\u00e7oar um pouco mais por este *The Ragpicker\u0027s Dream*. Ele n\u00e3o \u00e9 melhor nem pior do que qualquer um dos outros: conta apenas com a parca distin\u00e7\u00e3o de algumas de suas melodias terem se afixado na minha cabe\u00e7a, entre elas *Hill Farmer\u0027s Blues* (que infelizmente termina bem quando come\u00e7ava a ficar muito boa, quase que uma provoca\u00e7\u00e3o de Knopfler) e *Daddy\u0027s Gone To Knoxville*. Por ora, eu diria que \u00e9 este meu disco solo favorito de Mark Knopfler, ainda que qualquer um dos outros tenha sobre mim os mesmos efeitos bals\u00e2micos.\r\n\r\n**Ennio Morricone - Days Of Heaven Soundtrack**\r\n\r\nQuando [Terrence Malick](https:\/\/www.imdb.com\/name\/nm0000517\/) ainda fazia filmes decentes (seus dois primeiros filmes, ainda l\u00e1 na d\u00e9cada de 70, s\u00e3o bem mais do que decentes, na verdade), certa ocasi\u00e3o ele teve a brilhante id\u00e9ia de convidar Ennio Morricone para compor a m\u00fasica de seu pr\u00f3ximo trabalho. O resultado \u2014 a m\u00fasica do magn\u00edfico *Days of Heaven* \u2014 \u00e9 daquelas trilhas-sonoras que fazem o filme ser ainda melhor do que \u00e9, ou talvez seja justamente o fator decisivo que fa\u00e7a o filme ser o que \u00e9. Ou (e?) vice-versa: a bela fotografia do filme torna a m\u00fasica ainda melhor \u2014 torna a m\u00fasica inesquec\u00edvel. Em resumo, trata-se de uma daquelas raras simbioses entre m\u00fasica e imagem que tornam o resultado final muito maior do que a simples soma de seus fatores (e fazem reacender, de vez em quando, minha paix\u00e3o por cinema, eu que muito frequentemente me desencanto com a tal da s\u00e9tima arte). Da parte de Ennio Morricone, apenas mais uma confirma\u00e7\u00e3o do g\u00eanio musical do italiano; da parte de Malick, me faz ficar pensando: como esse cara perdeu a m\u00e3o t\u00e3o desastradamente?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":760,"title":"A m\u00fasica que tenho escutado","post_timestamp":"2019-05-20T18:23:13+00:00","url":"2019_05_20_a_musica_que_tenho_escutado","post":"Agora, [ent\u00e3o](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_05_14_a_musica_que_nao_tenho_escutado), a m\u00fasica que tenho escutado: horas e horas de Dire Straits e de discos da carreira solo do ex-l\u00edder do Dire Straits, Mark Knopfler. A banda eu amo incondicionalmente, sem subterf\u00fagios ou repara\u00e7\u00f5es: \u00e9 um dos grupos formativos da minha vida de viciado em m\u00fasica, inscrito para sempre no cora\u00e7\u00e3o, independente das minhas fases, interesses ou estados de esp\u00edrito. Tamb\u00e9m a banda teve fases, duas, para ser preciso, e amo-as igualmente: a fase \u2014 creio que seja mais f\u00e1cil identific\u00e1-las desse modo \u2014 *Sultans of Swing* e a fase *Money for Nothing*, ou ent\u00e3o, pode-se dizer de forma quase id\u00eantica, a fase *Lady Writer* e a fase *Walk of Life*. Adoro tudo que a banda gravou, at\u00e9 mesmo o disco transi\u00e7\u00e3o entre essas fases, o *Love Over Gold*, de 1982, de cuja exist\u00eancia muita gente j\u00e1 se esqueceu. Em rela\u00e7\u00e3o aos discos solos de Knopfler, contudo, a coisa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o assertiva. N\u00e3o posso me dizer um f\u00e3 ardoroso destes discos; digamos que eu seja um f\u00e3 comedido, ou resignado, pois meu apre\u00e7o pela m\u00fasica que Mark come\u00e7ou a lan\u00e7ar assim que decretou o fim do Dire Straits tem a ver diretamente com este fato, o fim de sua antiga banda: n\u00e3o havendo mais discos do Dire Straits, ent\u00e3o estes seus discos solos teriam de servir, e, a princ\u00edpio, isso foi um pouco dif\u00edcil. A quest\u00e3o \u00e9 que uma vez f\u00e3 da voz e da guitarra de Knopfler, torna-se ent\u00e3o imposs\u00edvel prescindir delas: h\u00e1 uma alquimia rara nessa combina\u00e7\u00e3o, inexplic\u00e1vel porque talvez seja dessas coisas irracionais de f\u00e3 que ningu\u00e9m mais v\u00ea, talvez porque de fato n\u00e3o tenha nada de especial que se possa real\u00e7ar al\u00e9m das idiossincrasias t\u00edpicas de um artista de express\u00e3o bastante honesta e particular. Possivelmente um pouco das duas coisas. Esta sua discografia solo n\u00e3o t\u00eam o car\u00e1ter marcante daquela deixada pela sua antiga banda, mas n\u00e3o deixa de ser seu desdobramento: Knopfler, afinal, come\u00e7ou a descartar a gordura que se havia acumulado na m\u00fasica do Dire Straits fase *Money for Nothing* e retornou ao som mais b\u00e1sico dos seus tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns, recolocando no centro de suas grava\u00e7\u00f5es a voz e a guitarra meio *blues*, ambas bastante despojadas e espont\u00e2neas, que eram as marcas iniciais e especiais do Dire Straits. N\u00e3o, por\u00e9m, recriando tudo igual \u00e0quele in\u00edcio de carreira: a mudan\u00e7a fundamental \u00e9 que o guitarrista (nascido em Glasgow mas criado na Inglaterra) assumiu de vez uma persona musical bastante americana, impregnando sua m\u00fasica de influ\u00eancias vindas dos EUA (ainda mais expl\u00edcitas do que na \u00e9poca do Dire Straits) e fazendo m\u00faltiplas refer\u00eancias, em suas letras e at\u00e9 mesmo nas capas e nos t\u00edtulos dos discos, \u00e0s cidades e \u00e0 cultura do outro lado do Atl\u00e2ntico, por quem em algum momento de sua vida de *pop star* itinerante ele deve ter se apaixonado. Bastante compreens\u00edvel: deve ser realmente um choque passar a vida no Reino Unido, em suas cidades cinzentas de p\u00e9ssimo clima e juventudes turbulentas que me parecem beber em quantidades excessivas, e um dia conhecer, digamos, a bela e ensolarada Calif\u00f3rnia... At\u00e9 mesmo um disco em parceria com Emmylou Harris e shows com Bob Dylan apareceram pelo caminho de Knopfler, de modo que sua carreira p\u00f3s-Dire Straits n\u00e3o tornou-se um retorno completo \u00e0s origens brit\u00e2nicas \u2014 ao *pub rock*, j\u00e1 ouvi dizerem \u2014 daquela banda. A boa not\u00edcia, que foi nos chegando gradualmente, a cada novo trabalho lan\u00e7ado (e que hoje j\u00e1 somam bem mais discos de est\u00fadio do que os lan\u00e7ados com o Dire Straits), \u00e9 que neles encontramos doses generosas de pelo menos uma parte daquilo que t\u00ednhamos naquele come\u00e7o, a voz e a guitarra t\u00e3o singulares de Mark Knopfler, agora norte-americanizadas ou n\u00e3o, um cantor *country* moderno que nasceu no continente errado ou um brit\u00e2nico descansado e sem ra\u00edzes, tanto faz: mesmo que a grande maioria destes \u00e1lbuns passe em brancas nuvens, sem can\u00e7\u00f5es memor\u00e1veis ou refr\u00f5es inesquec\u00edveis, sem coisa alguma que fique gravada permanentemente no c\u00f3rtex como ficavam os discos do Dire Straits, ainda assim me vejo compelido a gostar deles, pois eles sempre me remetem a algo familiar, suavemente tranquilizante, uma boa companhia para trabalhar e passar o dia, que n\u00e3o se imp\u00f5e demais no caminho e tampouco passa desapercebida, tampouco \u00e9 completamente neutra, nem que seja pelo fato trivial de ser a antiga voz do bom e velho Dire Straits. Uma m\u00fasica, enfim, na medida certa, nas propor\u00e7\u00f5es perfeitas, que tem me feito bastante bem nestes tempos t\u00e3o angustiantes.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto copiada [daqui](https:\/\/www.wegow.com\/en-gb\/artists\/mark-knopfler).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":759,"title":"A m\u00fasica que n\u00e3o tenho escutado","post_timestamp":"2019-05-14T12:07:02+00:00","url":"2019_05_14_a_musica_que_nao_tenho_escutado","post":"Perdoem-me caso eu esteja injetando amargura e pessimismo demais c\u00e1 nestes meus textos, sempre que me meto a falar de coisas que est\u00e3o al\u00e9m do mundo da m\u00fasica. Se \u00e9 que h\u00e1 um mundo da m\u00fasica e outro separado onde fica todo o resto, o que, na hip\u00f3tese mais prov\u00e1vel de n\u00e3o haver, me desculparia e justificaria totalmente. Em todo o caso, sinto-me compelido a pedir quando menos \u201ccom licen\u00e7a\u201d, afinal, ningu\u00e9m vem aqui para ler mais uma cr\u00f4nica da desgra\u00e7a pol\u00edtico-social brasileira, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ela j\u00e1 est\u00e1 por toda parte, narrada e lamentada em todos seus muitos s\u00f3rdidos detalhes por gente muit\u00edssimo mais qualificada para isso do que eu. Creio, contudo, que as not\u00edcias nos jornais me justificam em qualquer dos casos e das alternativas: como ignorar a trag\u00e9dia em curso no Brasil? Como viver e escrever sobre algo desta vida sem fazer men\u00e7\u00e3o a isso, como se nada disso fosse me (nos) afetar, como se nada disso me (nos) dissesse respeito? Nessa semana que passou creio que conseguimos atravessar alguns limites que n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s julg\u00e1vamos impens\u00e1veis: \u00e9 poss\u00edvel haver algu\u00e9m em um estado m\u00ednimo de sanidade, de capacidade intelectual por mais atrofiada que seja, que realmente considere razo\u00e1vel a id\u00e9ia de se construir um futuro cortando verbas para a educa\u00e7\u00e3o e liberando e estimulando o armamento da popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds que j\u00e1 \u00e9 um caos de viol\u00eancia fora de controle e sempre um dos piores em todos os rankings de instru\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o mundo afora? Li, certa vez, que presidentes quando eleitos costumam passar por testes f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos que atestem sua capacidade para o cargo. Teria esse imbecil que preside o Brasil, cujo nome me recuso a escrever ou pronunciar, teria ele sido aprovado nestes testes? Caso sim, passou muito da hora de rever-lhes a efic\u00e1cia. Bem, este pre\u00e2mbulo desalentado \u00e9 para dizer o seguinte: acabo de perceber que a viol\u00eancia que est\u00e3o tentando promover \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de bandeira e linguagem oficiais brasileira \u2014 viol\u00eancia que sempre foi um dos pilares da na\u00e7\u00e3o, mas oficialmente um pilar meio oculto, disfar\u00e7ado, arquitetado e celebrado \u00e0 portas fechadas e em reuni\u00f5es de gabinetes, exercido e refinado nos morros e periferias \u2014 essa viol\u00eancia exterminadora de \u00edndios, pretos e pobres prestes a ser banalizada tem influ\u00eddo nas minhas audi\u00e7\u00f5es ainda mais do que [eu j\u00e1 descrevi aqui anteriormente](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_04_26_impressoes_auditivas_vol_x). Antes de me explicar melhor, uma outra reflex\u00e3o preliminar, que j\u00e1 aviso de antem\u00e3o se tratar de pura conjectura, haja visto que n\u00e3o sou especialista em nenhum campo sequer adjacente a estas quest\u00f5es: tenho a impress\u00e3o de que a viol\u00eancia, em seu sentido mais amplo e f\u00edsico, \u00e9 algo bastante humano, um apetite codificado em nossos genes e parte de nossos instintos. N\u00e3o faz tanto tempo assim, afinal, que ferir e fazer sangrar outros animais, combater e retirar-lhes a vida, eram recursos decisivos para a sobreviv\u00eancia dos indiv\u00edduos da nossa esp\u00e9cie. Era matar ou morrer, naqueles tempos em que habit\u00e1vamos cavernas. A tal puls\u00e3o de morte de que falam os psicanalistas deve ser um rescaldo disso, dessa agressividade que foi aos poucos sendo controlada e refreada pela civiliza\u00e7\u00e3o e pela cultura, mas que ainda n\u00e3o sumiu de todo da \u00edndole geral de nossa esp\u00e9cie. Suponho que existam por a\u00ed teorias que explicam o fato de continuarmos sendo carn\u00edvoros, de continuarmos matando outros seres vivos para com\u00ea-los a despeito de j\u00e1 termos h\u00e1 muito tempo compreendido que com isso lhes causamos dor e sofrimento e de j\u00e1 possuirmos tecnologias de cultivo e produ\u00e7\u00e3o de outros tipos de alimentos \u2014 deve haver teorias que associam este nosso mort\u00edfero h\u00e1bito alimentar com um persistente h\u00e1bito psicol\u00f3gico de viol\u00eancia e domina\u00e7\u00e3o. At\u00e9 aqui creio n\u00e3o estar dizendo novidade alguma: \u00e9 o animal ainda presente na natureza humana, como todos sabemos por experi\u00eancias pr\u00f3prias. O ponto \u00e9 que eu acredito que a arte serve tamb\u00e9m para a restri\u00e7\u00e3o \u2014 ou talvez seja melhor dizer a *satisfa\u00e7\u00e3o* \u2014 destes nossos antigos \u00edmpetos. Arte pode ser, al\u00e9m de muitas outras coisas, tamb\u00e9m um cerco a tudo que nos resta de selvagens, uma tentativa de domar aquilo que a urbanidade e a civilidade ainda n\u00e3o apagou de n\u00f3s por completo: no mundo circunscrito da fic\u00e7\u00e3o e das imagens, dos sons e das narrativas, podemos dar livre vaz\u00e3o \u00e0s puls\u00f5es de morte e de destrui\u00e7\u00e3o, podemos dar curso aos sentimentos mais rec\u00f4nditos e inconfess\u00e1veis, seja como apreciadores ou art\u00edfices, e, assim, na vida n\u00e3o-fict\u00edcia, conviver saudavelmente e nos mais altos n\u00edveis poss\u00edveis de respeito e harmonia com todos os seres de carne e osso que nos cercam. Creio que todo mundo sabe de quais sentimentos estou falando. \u00c9 por isso que a conversa sobre proibir games violentos, a conversa moralista sobre a viol\u00eancia no cinema, etc., n\u00e3o \u00e9 apenas uma cortina de fuma\u00e7a est\u00fapida: pode vir a ser efetivamente nociva caso venha a ganhar tra\u00e7\u00e3o e materializar-se em pol\u00edticas de censura e proibi\u00e7\u00f5es. Se acaso viermos a proibir games onde o jogador elimina outros personagens, assassinatos n\u00e3o ir\u00e3o parar de acontecer na vida real, pelo contr\u00e1rio: v\u00e3o aumentar em n\u00famero, eu apostaria nisso. Diminuir as estat\u00edsticas funestas da viol\u00eancia no mundo real n\u00e3o tem a ver com controlar a arte e o entretenimento; tem a ver com educa\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social, sa\u00fade p\u00fablica, proibi\u00e7\u00e3o da venda de armas (cuja comercializa\u00e7\u00e3o liberada isso sim \u00e9 um est\u00edmulo ao homic\u00eddio), amplia\u00e7\u00e3o do entendimento e da aplica\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, etc. Pena que nada disso pare\u00e7a estar muito na moda. Voltando \u00e0 m\u00fasica e ao Brasil: estamos combinados ent\u00e3o que em vez de arte e educa\u00e7\u00e3o, de direitos humanos e controle de armas, vamos fazer tudo ao contr\u00e1rio. Tudo bem. O Brasil gostou da ideia e ofereceu ao seu mais depravado proponente o cargo de mandat\u00e1rio da rep\u00fablica; este, sem perder muito tempo com baboseiras como estudos, discuss\u00f5es, consultas, j\u00e1 colocou seu grande plano em andamento. O que ent\u00e3o come\u00e7ou a acontecer comigo \u00e9 algo que agora eu percebo como uma esp\u00e9cie de tentativa de adapta\u00e7\u00e3o, algo no in\u00edcio irrefletido, inconsciente, por\u00e9m agora j\u00e1 plenamente desvendado. \u00c9 isso: estou iniciando a substitui\u00e7\u00e3o de toda a viol\u00eancia que sempre consumi na m\u00fasica \u2014 em particular, nas formas mais extremas de metal \u2014 pela viol\u00eancia que logo estar\u00e1 permitida e vulgarizada por a\u00ed, pelas ruas e cidades do Brasil. N\u00e3o serei eu a aplaudi-la e muito menos comet\u00ea-la, \u00e9 evidente que n\u00e3o, mas testemunh\u00e1-la diariamente ser\u00e1 inevit\u00e1vel, seja nas not\u00edcias, nos relatos, nas conversas escutadas nos \u00f4nibus. Talvez andando na rua, *in loco*, bem \u00e0 nossa frente. De algum modo faremos todos parte deste grande bacanal da brutalidade. Estou, portanto, me adiantando e reorganizando as fontes das doses de viol\u00eancia que me s\u00e3o necess\u00e1rias: n\u00e3o mais a arte, a m\u00fasica, os filmes do Walter Hill, os discos do Napalm Death; agora o Brasil puro, a vida di\u00e1ria, a p\u00e1tria cumprindo finalmente a voca\u00e7\u00e3o e destino de cujos pren\u00fancios nunca deixamos de duvidar, o Brasil das pessoas de bem fazendo justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os, montando mil\u00edcias via grupos de WhatsApp, limpando as cidades destas xexelentas esc\u00f3rias humanas, destes pardos e in\u00fateis vagabundos. O imp\u00e1vido e destemido Brasil, de bra\u00e7os m\u00e1sculos e calibre grosso. Finalmente o fim do politicamente correto! Em plenos tr\u00f3picos, agora n\u00e3o mais tristes, a mais avan\u00e7ada forma de lei e liberdade que o mundo j\u00e1 concebeu, livre dos tent\u00e1culos intrometidos do estado marxista! Tento fazer gra\u00e7a, mas n\u00e3o h\u00e1 gra\u00e7a poss\u00edvel nisso. Ao menos agora eu compreendo: \u00e9 por isso que h\u00e1 meses eu n\u00e3o escuto metal algum. Nada de Thaw, Entombed, Hooded Menace, Cobalt ou Kylesa; nem sequer um inofensivo Metallicazinho, muito menos um Morbid Angel ou um Sepultura das antigas. Qualquer tipo de viol\u00eancia sonora, aludida nas letras ou incorporada ao som dos instrumentos, tornou-se f\u00fatil, redundante, desnecess\u00e1ria. O disco novo do Inter Arma est\u00e1 l\u00e1 no [bandcamp](https:\/\/interarma.bandcamp.com\/album\/sulphur-english) j\u00e1 faz algumas semanas eu e n\u00e3o consigo me animar de ir escut\u00e1-lo. Tudo isso perdeu seu apelo, perdeu seu prop\u00f3sito. M\u00fasica agora n\u00e3o \u00e9 mais quest\u00e3o de fantasia: \u00e9 quest\u00e3o de sanidade. Daqui a pouco tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o vou mais conseguir ver filme algum, ou talvez substitua os *westerns* e filmes de terror que tanto adoro por com\u00e9dias e dramas onde n\u00e3o pingue uma \u00fanica gota de sangue, onde personagem algum d\u00ea sequer uma bofetada em ningu\u00e9m. A fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter\u00e1 como superar a realidade. Quanto ao videogame: eu tinha planos de comprar um novo console este ano. Para qu\u00ea? Custa mais barato olhar pela janela.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Le Meurtre*, de Paul C\u00e9zanne, copiada [daqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Paul_C\u00e9zanne_-_The_Murder_-_Google_Art_Project.jpg).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":758,"title":"On the human highway","post_timestamp":"2019-05-06T14:05:29+00:00","url":"2019_05_06_on_the_human_highway","post":"Comecei a ler a autobiografia do Neil Young no come\u00e7o de 2013. Em geral, n\u00e3o costumo lembrar datas t\u00e3o exatas de pormenores desse tipo, a menos que determinado evento fique, em minhas lembran\u00e7as, associado a outro cuja data \u00e9 algo mais amplamente estabelecido. Por exemplo: coisas me aconteceram durante a Copa do Mundo da Fran\u00e7a, aquela que o Brasil perdeu a final para a pr\u00f3pria Fran\u00e7a por 3 a 0, em Paris. Aqueles eventos da minha juventude, portanto, eu vou sempre me lembrar que ocorreram em 1998, por causa da Copa do Mundo em que o Ronaldinho teve um piriri pouco antes da partida final (e n\u00e3o apenas isso acontecia por aqueles dias: a UFSC, onde eu estudava, estava em greve). Com o in\u00edcio da leitura da biografia do Neil Young \u2014 que originalmente chama-se *Waging Heavy Peace* mas no Brasil ficou s\u00f3 *A autobiografia* mesmo \u2014 acontece coisa semelhante: n\u00e3o vou me esquecer que foi no come\u00e7o de 2013 pois foi logo depois de termos retornado ao Brasil ap\u00f3s um tempo morando na Inglaterra. Naquela temporada inglesa eu trabalhava um monte, bebia litros de Guinness e escutava Neil Young quase todos os dias. Levei alguns quilos de Neil Young comigo de volta ao Brasil: CDs, vinis, a [biografia escrita por Jimmy McDonough](https:\/\/www.goodreads.com\/book\/show\/62837.Shakey), a caixa *The Archives Vol. 1 1963\u20131972* (cujo volume 2 talvez saia [finalmente no fim deste ano](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Neil_Young_Archives#Volume_2:_1972\u20131982)). Escutava Neil Young trabalhando, descansando em casa no fim da tarde, na rua \u2014 eu devia ser um chato, s\u00f3 queria saber de Neil Young! Assim que voltamos ao Brasil, nos primeiros dias de 2013, topei com esta sua autobiografia e resolvi encar\u00e1-la, e s\u00f3 fui terminar a leitura h\u00e1 pouco, mais de seis anos depois de iniciada, porque o volume \u00e9, de modo geral, sofr\u00edvel. Eu lia uns tr\u00eas ou quatro cap\u00edtulos e largava o livro em algum canto onde ele ficaria esquecido durante meses, e s\u00f3 recentemente resolvi fazer um esfor\u00e7o em termin\u00e1-lo porque uma das minhas manias \u00e9 n\u00e3o conseguir deixar nada inacabado. Terminei-o neste \u00faltimo s\u00e1bado, e o \u00faltimo cap\u00edtulo \u00e9 at\u00e9 mesmo surpreendentemente bonito, ent\u00e3o valeu a pena. Na verdade, para um f\u00e3 do m\u00fasico Neil Young como eu, a leitura toda pode valer a pena porque o livro \u00e9 honesto e revelador como s\u00f3 um mau escritor pode ser. S\u00e3o muitos os momentos comoventes e rid\u00edculos; as tentativas destrambelhadas de acertar contas com o passado; os discursos completamente desinteressantes sobre suas manias e seus empreendimentos fora da m\u00fasica; sua paix\u00e3o por trens e carros. Dentre os momentos rid\u00edculos e comoventes: j\u00e1 no fim do livro, nas \u00faltimas p\u00e1ginas, Young narra uma viagem de carro em que, a certa altura, olha no espelho retrovisor e constata que sua apar\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o mal, as rugas da idade n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o aparentes; noutro momento, ele lamenta ter de comparecer a uma reuni\u00e3o com seus advogados onde provavelmente ter\u00e1 que ser definida a venda de uma de suas cinco fazendas e talvez tamb\u00e9m uma de suas tr\u00eas casas no Hawaii. Nesta \u00faltima hist\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 tra\u00e7os de esnobismo ou exibicionismo: s\u00e3o v\u00e1rios os epis\u00f3dios ao longo do livro em que Neil relembra sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o ou de improvisos com os amigos e parceiros de bandas nestas casas e fazendas; sua tristeza em ter que se desfazer desses lugares cheios de mem\u00f3rias \u00e9 sincera. A aparente falta de no\u00e7\u00e3o sobre como vive a imensa maioria do resto da humanidade, no entanto, n\u00e3o deixa de ser pat\u00e9tica. Durante a leitura, aos poucos vai ficando claro que o texto foi escrito em parte para ocupar um tempo em que Neil n\u00e3o estava conseguindo escrever m\u00fasica alguma, e tampouco avan\u00e7ar em suas dezenas de outros projetos; uma forte sensa\u00e7\u00e3o de frustra\u00e7\u00e3o, provavelmente agravada com o ac\u00famulo de mortes de amigos queridos (David Briggs em 1995, Ben Keith e Larry Johnson em 2010), vai ficando cada vez mais forte. Tamb\u00e9m a recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de parar com o consumo de bebida alco\u00f3lica e *cannabis* parece afetar sua vida e sua produ\u00e7\u00e3o, e em v\u00e1rios momentos Neil parece prestes a confessar: \u0022s\u00f3 estou aqui digitando isso porque n\u00e3o consigo fazer outra coisa\u201d. Talvez at\u00e9 o tenha feito de fato, e seu editor, posteriormente, recomendou-lhe remover este cap\u00edtulo, garantindo que n\u00e3o seria bom para a sequ\u00eancia de seus neg\u00f3cios liter\u00e1rios\u2026 Young, afinal, n\u00e3o \u00e9 um escritor (seu pai era). \u201cEmpreendedor\u201d, que \u00e9 uma imagem que ele tenta o tempo todo colar em si mesmo, tampouco ele parece ser, nem mesmo um mais ou menos. Um bom companheiro para sua esposa, coisa que ele garante, no alto de seus 65 anos (quando escreveu o livro), estar tentando finalmente se tornar \u2014 isso tamb\u00e9m parece n\u00e3o ter dado muito certo: ele passa boa parte do livro idolatrando Pegi, sua esposa desde 1978, mas veio a separar-se dela em 2014, dois anos depois do lan\u00e7amento da *A autobiografia*. Pegi, m\u00e3e de dois de seus tr\u00eas filhos, faleceu no come\u00e7o deste ano. Neil Young parece querer ser muitas coisas, e tem dificuldades com quase tudo; h\u00e1 v\u00e1rias li\u00e7\u00f5es a se tirar disso. Parece ser, no entanto, algu\u00e9m bastante franco e honesto, ciente de seus defeitos e tentando, aos trancos e barrancos, remedi\u00e1-los, recebendo as bordoadas da vida e reerguendo-se, buscando sempre alento e inspira\u00e7\u00e3o para continuar adiante, e \u00e9 isso o que rende os bons momentos do livro. E \u2014 n\u00e3o precisaria diz\u00ea-lo \u2014 ao menos uma coisa ele quase sempre fez muit\u00edssimo bem: como comprovam esses montes de discos que ele continua lan\u00e7ando, como cantor, guitarrista e compositor ele j\u00e1 tem garantido seu lugar dentre os maiores.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Neil Young em foto de Henry Diltz, em 1975.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":757,"title":"Colapso","post_timestamp":"2019-05-03T17:37:14+00:00","url":"2019_05_03_colapso","post":"O trabalho acima, de [Marco Fusinato](http:\/\/marcofusinato.com), pode ser visto ampliado [aqui](https:\/\/www.moma.org\/interactives\/exhibitions\/2013\/soundings\/common\/content\/2\/media\/mf_shaar.jpg). O texto abaixo foi copiado [daqui](https:\/\/www.moma.org\/interactives\/exhibitions\/2013\/soundings\/artists\/2\/works\/):\r\n\r\n\u003E To make these drawings Fusinato chose a point on the page and then ruled a line from every note in the composition back to that point. This ongoing series, initiated in 2007, is founded\u2014literally overlaid\u2014on the scores of pioneering avant-garde composers. In the works on view here, Fusinato has drawn on a score penned by the Greek composer Iannis Xenakis (1922\u20132001), whose groundbreaking post\u2013World War II works were deeply informed by mathematical and architectural logic, and, later, by computer programming. Xenakis worked for more than a decade in the studio of the architect Le Corbusier, and he often composed with an existing architectural site in mind. Here Fusinato has used Xenakis\u0027s score in the same way\u2014as a pre-existing space.This drawing and others in the artist\u0027s Mass Black Implosion series have an immense gravitational density, which seems to suggest that all the notes should be played at once. Fusinato\u0027s intervention thus shifts the scores away from Xenakis\u0027s original intention, collapsing linear\/durational performance into simultaneity.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Mass Black Implosion (Shaar, Iannis Xenakis)*, de Marco Fusinato (2012).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":756,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2019","post_timestamp":"2019-05-01T12:11:54+00:00","url":"2019_05_01_discos_do_mes_abril_de_2019","post":"Grace Francis \u00e9 uma pianista inglesa sobre quem at\u00e9 outro dia eu nunca tinha ouvido falar. Foi numa sexta-feira de manh\u00e3 cedo, de c\u00e9u azul e um enorme alvoro\u00e7o de passarinhos celebrando a chegada da primavera, que coloquei para tocar seu \u00e1lbum *Consolation*, que traz sonatas de Brahms e Liszt. O encanto foi imediato. Uma das tantas formas de se descrever este disco \u2014 talvez n\u00e3o a mais lisonjeira, mas ainda assim uma forma bastante sincera de elogio \u2014 \u00e9 perceber-lhe como um estudo de caso perfeito, o caso aqui sendo a incr\u00edvel desenvoltura da pianista na execu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, a extremidade final de um longo processo de compreens\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o. Entre comentaristas e f\u00e3s de m\u00fasica cl\u00e1ssica muito se fala sobre isso, sobre o dom\u00ednio emocional do instrumentista acerca da obra que est\u00e1 sendo executada, a percep\u00e7\u00e3o das inspira\u00e7\u00f5es originais do compositor, do sentimento que este pretendia expressar, etc. Os grandes instrumentistas seriam aqueles que, al\u00e9m de dominarem a t\u00e9cnica, possuem tamb\u00e9m esta virtude sobre-humana de encarnar o esp\u00edrito de outra pessoa, algu\u00e9m muitas vezes falecido s\u00e9culos atr\u00e1s. Uma conversa muitas vezes bastante abstrata, de inten\u00e7\u00f5es puramente po\u00e9ticas, como que querendo apenas ombrearem-se, as palavras destes comentaristas, \u00e0 performance em quest\u00e3o, e n\u00e3o de fato descrev\u00ea-la. Acontece, por\u00e9m, que muitas vezes esta \u00e9 a melhor forma de se falar sobre um disco ou uma apresenta\u00e7\u00e3o, e Grace Francis tocando a *Sonata para Piano No. 3* de Brahms \u00e9 um destes casos: a precis\u00e3o e os tempos que percebemos t\u00e3o naturais no primeiro movimento; a suavidade imperturb\u00e1vel do segundo; toda uma fluidez intuitiva ao longo dos cinco movimentos que nos faz perceber como a pianista sabe perfeitamente o que est\u00e1 fazendo, entende profundamente tudo o que est\u00e1 na partitura diante de si \u2014 o que est\u00e1 escrito explicitamente e tamb\u00e9m o que foi deixado impl\u00edcito ou sugerido nas entrelinhas. Ao longo da audi\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a, o velho Brahms est\u00e1 ao nosso lado, ouvindo e aprovando. O Liszt de Grace \u00e9 tamb\u00e9m muito bom; n\u00e3o t\u00e3o bom quanto o de [Martha Argerich](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_03_02_discos_do_mes_fevereiro_de_2017), mas melhor do que o de [Paul Lewis](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_08_01_discos_do_mes_julho_de_2017), por exemplo.\r\n\r\nAo contr\u00e1rio de Grace Francis, Andr\u00e1s Schiff eu j\u00e1 conhecia anteriormente. O Schubert de Andr\u00e1s \u00e9 tamb\u00e9m um estudo de caso exemplar, tocado com grande sensibilidade e ternura, coisa de mestre. Em particular, os *4 Impromptus* que abrem *Franz Schubert: Sonatas \u0026 Impromptus*, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco pela ECM, est\u00e3o primorosos em sua emo\u00e7\u00e3o controlada, recolhida, na medida exata que nos deixa a imaginar que estamos experimentando um pouco do que flutuava pela mente do compositor austr\u00edaco, do que embalava seus devaneios enquanto escrevia sua m\u00fasica. Tenho, encaixotado em algum lugar do outro lado do Atl\u00e2ntico \u2014 e espero que armazenado num lugar n\u00e3o muito quente \u2014, um disco de Schiff tocando as *Diabelli-Variationen* de Beethoven, mas n\u00e3o lembro de ter gostado tanto daquele quanto gostei deste. H\u00e1 outra coisa neste disco que me chama a aten\u00e7\u00e3o: o som do piano de Schiff me parece um pouco diferente, menos cristalino, como se cada tecla n\u00e3o ressoasse da maneira habitual \u2014 o austero e impositivo som que todos conhecemos \u2014 e fosse, pelo contr\u00e1rio, a sobreposi\u00e7\u00e3o de dois ou tr\u00eas sons diferentes que deixam, no fim, um retrogosto meio met\u00e1lico, e me perdoem se eu estiver falando bobagens, uma vez que compreendo muito pouco de t\u00e9cnica musical e instrumentos. A impress\u00e3o, utilizando outra forma de dizer, \u00e9 que o piano est\u00e1 se desmantelando! Essa imagem me surgiu logo no come\u00e7o da audi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o me abandonou mais, seguiu me intrigando at\u00e9 o \u00faltimo movimento da sonata que fecha o disco, a linda D. 959. O que n\u00e3o significa que a coisa soe mal, pelo contr\u00e1rio: o efeito de uma performance caseira num piano n\u00e3o muito bom, algo espont\u00e2neo e sem grandes formalidades, \u00e9 tamb\u00e9m muito agrad\u00e1vel, conta pontos ao disco no fim das contas. (No livreto que acompanha o CD n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o alguma a isso, a afina\u00e7\u00f5es incomuns, pianos desmantelando-se, nada disso\u2026 Provavelmente n\u00e3o \u00e9 nada t\u00e3o at\u00edpico quanto me pareceu, nada al\u00e9m da minha falta de conhecimento sobre o mundo dos pianos.)\r\n\r\nE j\u00e1 que estamos por aqueles lados da paisagem musical europ\u00e9ia, continuemos por l\u00e1 mais um pouco, fazendo apenas um pequeno reajuste em nossos [circuitos temporais](https:\/\/backtothefuture.fandom.com\/wiki\/Time_circuits) para algumas gera\u00e7\u00f5es adiante: apesar de j\u00e1 escut\u00e1-los h\u00e1 anos, nunca deixa de me impressionar a m\u00fasica dos teut\u00f4nicos mais doid\u00f5es dos anos 1960 e 70 \u2014 e pelo visto eram incont\u00e1veis os teut\u00f4nicos doid\u00f5es nessa \u00e9poca. A m\u00fasica que faziam Neu!, Can, Amon D\u00fc\u00fcl, Tangerine Dream, Popol Vuh, Cluster, Kraftwerk, entre muitos outros, \u00e9 das coisas mais an\u00e1rquicas e aventureiras dentre tudo que j\u00e1 escutei e continuo escutando nesta minha vida de mel\u00f4mano. Neu! e Tangerine Dream s\u00e3o bandas que escuto com muita frequ\u00eancia, enquanto que o Amon D\u00fc\u00fcl teve sua \u00e9poca aqui comigo, mas depois deixei-os um pouco de lado. Vou reconduzi-los ao lugar que merecem, no entanto, depois de ter escutado este *Phallus Dei* uns dias atr\u00e1s. A faixa *Luzifers Ghilom* \u00e9 um prot\u00f3tipo das maravilhas e extravag\u00e2ncias da vertente do, com a devida licen\u00e7a para usar este termo t\u00e3o vago e algo pejorativo, *krautrock* praticada pelo Amon D\u00fc\u00fcl: um rock estrondoso e galopante, cheio de vigor e juventude, que de repente, como que para implicar com os f\u00e3s de Led Zeppelin e Deep Purple que estivessem come\u00e7ando a gostar muito do D\u00fc\u00fcl, de repente algo inesperado acontece e muda os rumos da m\u00fasica, deixando perdidinho da silva qualquer um mais acostumado com a previsibilidade das bandas inglesas e americanas. Eu tamb\u00e9m tive v\u00e1rios desses choques quando comecei a experimentar essas bandas alem\u00e3s, mas n\u00e3o demorou quase nada para a paix\u00e3o ser selada. E o que dizer da faixa que fecha o disco e lhe d\u00e1 nome? Uma delirante algazarra c\u00f3smica, selvagem e incans\u00e1vel, que torna a lisergia da primeira fase do Pink Floyd coisa de crian\u00e7as comportadas, crian\u00e7as de terninhos que adoram a rainha, adoram ler sobre o casamento do pr\u00edncipe com a princesa, adoram ch\u00e1 com biscoitos, essas coisas t\u00e3o inglesas. Tinha alguma coisa na \u00e1gua que se tomava na Alemanha naquela \u00e9poca; \u00e9 a melhor explica\u00e7\u00e3o que consigo imaginar. Klaus Schulze, que foi baterista do Tangerine Dream por um breve per\u00edodo, deve ter tomado muito dessa \u00e1gua alucin\u00f3gena: apenas comecei a desbravar sua imensa discografia e j\u00e1 topei com esse colosso chamado *X.*, de 1978. Esse disco me impressionou muito. Se tivessem me avisado antes, de forma abreviada mas n\u00e3o t\u00e3o imprecisa assim, que se trata de uma mistura de m\u00fasica eletr\u00f4nica e orquestral, eu provavelmente teria ficado com os dois p\u00e9s atr\u00e1s e n\u00e3o me animaria a escut\u00e1-lo. Ainda bem que ningu\u00e9m me falou nada, pois eu teria perdido um disco extraordin\u00e1rio! A coisa realmente funciona \u2014 \u00e9 altamente ambiciosa, desavergonhadamente pretensiosa, mas funciona: uma longa e densa viagem que come\u00e7a mais na base dos sintetizadores, teclados e bateria, nada t\u00e3o radical assim, mas vai ficando cada vez melhor, e torna-se realmente incr\u00edvel quando aparecem as primeiras se\u00e7\u00f5es de cordas l\u00e1 pela quarta faixa. A sintonia \u00e9 surpreendente e o disco ganha um vulto monumental. Tenho a impress\u00e3o de que existe, hoje em dia, principalmente no trabalho de compositores de trilhas sonoras, uma nova corrente de m\u00fasica eletr\u00f4nica misturada com m\u00fasica cl\u00e1ssica, mas agora um tanto mais comportada e minimalista \u2014 nomes como Max Richter, Hans Zimmer e o falecido J\u00f3hann J\u00f3hannson, entre outros, s\u00e3o\/eram os expoentes. Tem discos dessa turma saindo at\u00e9 pelo prestigioso selo alem\u00e3o de m\u00fasica cl\u00e1ssica Deutsche Grammophon. Escutei j\u00e1 alguns destes trabalhos e achei tudo muito sopor\u00edfero, uma m\u00fasica meio molenga, inexpressiva. H\u00e1 40 anos Klaus Schulze j\u00e1 fazia algo muito melhor, muito mais excitante e arrojado. \r\n\r\nBem, agora eu planejava ir da Alemanha para o Brasil: sim, para o Brasil. Eu gosto bastante de algumas coisas da m\u00fasica feita no Brasil \u2014 m\u00fasica \u00e0s vezes mais, \u00e0s vezes menos originalmente brasileira, por\u00e9m sempre com algum elemento de brasilidade, ou de algo que seja uma vis\u00e3o particular minha de brasilidade \u2014, apesar de n\u00e3o escutar t\u00e3o frequentemente e ainda menos vezes cit\u00e1-la por aqui. Mas andei ouvindo algumas coisas que me fizeram ficar com vontade de tentar escrever uma ou duas ideias. Esse texto, contudo, j\u00e1 est\u00e1 longo demais; vou deixar para escrever sobre o Brasil e sua m\u00fasica depois, com mais tempo e mais espa\u00e7o.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":755,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. X","post_timestamp":"2019-04-26T19:39:35+00:00","url":"2019_04_26_impressoes_auditivas_vol_x","post":"* Nesta semana que come\u00e7a a terminar, foram poucos os dias em que eu acordei e n\u00e3o coloquei para tocar imediatamente o *Earth and Sun and Moon* do (adivinha?) Midnight Oil. J\u00e1 escrevi sobre esse disco [anteriormente](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_05_02_discos_do_mes_abril_de_2017), sobre o fato de que, durante muito tempo um dos meus menos queridos \u00e1lbuns do Oil, ele vinha aos poucos avan\u00e7ado posi\u00e7\u00f5es e me interessando cada vez mais. Pois hoje digo sem titubear que se trata de um dos meus favoritos! Reconhe\u00e7o ainda a \u0022dose demasiada de pompa e a\u00e7\u00facar nas melodias e nos refr\u00f5es\u201d que apontei naquele texto; a quest\u00e3o \u00e9 que este a\u00e7\u00facar tem me feito bem ultimamente, ao contrapesar a amargura de (quase) todo o resto, a tristeza com o caminho que tem tomado isto que um dia j\u00e1 imaginamos como uma irmandade humana vivendo em sintonia com uma generosa M\u00e3e Natureza. Quanta ingenuidade. Fora do reino do mundo da m\u00fasica, no que diz respeito ao nosso planeta e \u00e0 nossa gente, tenho me tornado um \u201cpessimista radical\u201d, como li dia desses em algum lugar. Sim, \u00e9 verdade, h\u00e1 cada vez mais gente dando-se conta das amea\u00e7as que pairam sobre n\u00f3s, suas [causas](https:\/\/www.theguardian.com\/film\/2019\/apr\/17\/people-are-finally-talking-about-class-astra-taylor-on-us-democracy-socialism-and-revolution), nossos [dilemas](https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2019\/apr\/25\/capitalism-economic-system-survival-earth); os absurdos da desigualdade e das fortunas v\u00eam sendo cada vez mais frequentemente denunciados; h\u00e1 tamb\u00e9m cada vez mais mulheres e minorias em posi\u00e7\u00f5es representativas, e isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sem tempo. Do outro lado, no entanto, avan\u00e7am em fileiras ainda mais cerradas os est\u00fapidos, os bo\u00e7ais, os que se informam via WhatsApp, os xen\u00f3fobos e os fan\u00e1ticos. A vida desses \u00e9 muito f\u00e1cil: n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio pensar, escutar, abrir m\u00e3o de coisa alguma; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio humildade ou reflex\u00e3o, generosidade ou respeito. Por estarem se tornando maioria, est\u00e3o cada vez mais no comando, e por isso ganhar\u00e3o, e no fim das contas, perderemos todos. Quero dizer, perderemos n\u00f3s, humanos; a natureza e a Terra, por outro lado, exultar\u00e3o ao se verem livres destes parasitas ingratos que somos, e isso me d\u00e1 um certo consolo: a ideia de que a nossa extin\u00e7\u00e3o salvar\u00e1 (se ainda estiver em tempo) aquilo que \u00e9 muito mais precioso do que n\u00f3s, aquilo que, afinal, foi justamente o que tornou poss\u00edvel esta nossa breve experi\u00eancia de observadores do universo. E quem pode dizer que uma nova jornada, a ser empreendida por novos seres dotados de um pouco mais de consci\u00eancia coletiva e de bastante menos gan\u00e2ncia, n\u00e3o haver\u00e1 de iniciar depois de alguns milh\u00f5es de anos? Como diz a minha m\u00fasica favorita do disco mencionado acima: \u201dEarth and sun and moon will survive\u201d.\r\n* Vale \u00e0 pena, contudo, continuar vivendo e resistindo \u2014 pelo menos aqui do meu ponto de vista bastante privilegiado, tenho total convic\u00e7\u00e3o nisso. Nem que seja para o bem de nossas consci\u00eancias individuais (daqueles que podem se dar ao luxo de cultivar algo desse tipo), e n\u00e3o falta quem diga que \u00e9 por a\u00ed que come\u00e7am as mudan\u00e7as em escalas globais. Mas eu j\u00e1 n\u00e3o consigo ver t\u00e3o longe, ou de forma t\u00e3o otimista. Tenho j\u00e1 quarenta anos contados sobre a Terra, e o que quero agora \u00e9 abusar dela cada vez menos e encontr\u00e1-la por a\u00ed cada vez mais. Trabalhar cada vez menos e caminhar cada vez mais, e falar cada vez menos e escutar cada vez mais. Ocupar menos e menos espa\u00e7o com minhas tralhas e um dia, finalmente, aliviar o ch\u00e3o at\u00e9 mesmo do peso do meu corpo e desaparecer em paz. Mas, antes disso, caminhar nos morros e nos litorais, escutar ao clima e aos p\u00e1ssaros, enquanto temos a sorte de t\u00ea-los ainda em alguma quantidade. S\u00e3o atividades frugais que percebo que t\u00eam, pouco a pouco, se convertido tamb\u00e9m em atos de rebeldia, em posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, em resist\u00eancia pac\u00edfica: caminhar, pacientemente, o tempo que for necess\u00e1rio; parar para observar p\u00e1ssaros cantando e \u00e1rvores respirando; ficar quieto por uma hora lendo um livro ou escutando m\u00fasica. Digo isso porque uma das mudan\u00e7as que tenho presenciado no decorrer do curto tempo da minha vida \u00e9 que as pessoas t\u00eam se dedicado cada vez menos a estas coisas, e n\u00e3o consigo deixar de ver uma liga\u00e7\u00e3o, uma rela\u00e7\u00e3o de causalidade inequ\u00edvoca entre a m\u00edngua destes h\u00e1bitos que exigem aten\u00e7\u00e3o e quietude e o calamitoso estado geral das coisas. N\u00e3o sei bem qual \u00e9 a ordem destes eventos, o que causa o que, mas a rela\u00e7\u00e3o para mim \u00e9 evidente. E se este meu pessimismo radical me informa que, a essa altura, o esfor\u00e7o de uns poucos em prol destas coisas abandonadas n\u00e3o vai fazer grande diferen\u00e7a no panorama geral, ao menos, como cogitei acima, poder\u00e1 servir \u00e0s nossas consci\u00eancias pessoais, aos nossos acertos de contas \u00edntimos, j\u00e1 que disto tudo \u00e9 poss\u00edvel extrair um modo de vida que \u00e9 frontalmente oposto ao dos ignorantes cujo arrast\u00e3o estamos testemunhando mundo afora e cujas consequ\u00eancias n\u00e3o tardar\u00e3o. \u00c9, na melhor das hip\u00f3teses, a forma de resist\u00eancia poss\u00edvel aos pessimistas, aos menos belicosos, \u00e0queles com menos aptid\u00f5es para o ativismo, como eu; na pior das hip\u00f3teses, quando chegar a hora de ir-me embora, creio que este modo de viver ter\u00e1 me garantido o direito de ir serenamente, com a certeza tranquila de n\u00e3o ter me deixado arrastar, de n\u00e3o ter feito parte daquilo que nos destruir\u00e1 a todos. Para mim ser\u00e1 suficiente.\r\n* N\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel a diferen\u00e7a entre o som do gralhar dos corvos e os uivos das gaivotas? N\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel que consigam comunicar uns aos outros tudo que lhes \u00e9 necess\u00e1rio comunicar atrav\u00e9s destes sons que s\u00e3o \u2014 esta \u00e9 a \u00fanica coisa que eles t\u00eam em comum \u2014 t\u00e3o limitados em sua variedade? \u00c9 como ter apenas um punhado de letras com as quais \u00e9 poss\u00edvel formar apenas uma d\u00fazia de palavras. Ou ser\u00e3o eles limitados apenas do nosso ponto de vista humano, que parece ter por natureza essencial a insatisfa\u00e7\u00e3o? Afinal, do ponto de vista das \u00e1rvores, corvos e gaivotas talvez sejam barulhentos e tagarelas muit\u00edssimo al\u00e9m do necess\u00e1rio\u2026","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Obra de Xenia Kokorina, copiada [daqui](https:\/\/www.absolutearts.com\/painting_oil\/xenia_kokorina-seagull-1503747351.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":754,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2019","post_timestamp":"2019-04-02T11:53:27+00:00","url":"2019_04_02_discos_do_mes_marco_de_2019","post":"**Philip Glass \u0026 Ravi Shankar - Passages**\r\n\r\n\u0022M\u00fasica que quando voc\u00ea escuta voc\u00ea reconhece imediatamente seu autor\u201d \u00e9 um elogio (se como elogio a frase tiver sido proferida) bastante relativo, me parece, e \u00e9 sempre o primeiro pensamento que me v\u00eam \u00e0 mente quando escuto algo do Philip Glass. Eu gosto muito \u2014 muit\u00edssimo, diga-se a verdade \u2014 de *Glassworks*, e tamb\u00e9m de *Passages*, o disco gravado com Ravi Shankar, mas \u00e9 s\u00f3. De resto, tenho a impress\u00e3o de que s\u00e3o sempre as mesmas (n\u00e3o muitas) id\u00e9ias, varia\u00e7\u00f5es sem fim de um certo mecanismo que, pelo menos para mim, esgotou seu atrativo j\u00e1 faz algum tempo. Acho que j\u00e1 disse isso antes: dessa gera\u00e7\u00e3o de compositores americanos chamados minimalistas, do famoso trio Glass, Steve Reich e Terry Riley, eu gosto moderadamente dos dois primeiros \u2014 justamente os mais famosos e prestigiados \u2014 e muito mais de Riley, que n\u00e3o goza do mesmo status dos outros dois. (Nessa turma costuma-se frequentemente incluir o John Cage, mas dele eu conhe\u00e7o muito pouco, lacuna a ser corrigida em breve.) De todo modo, na longa obra de Glass h\u00e1 pelo menos esses dois trabalhos memor\u00e1veis citados acima. H\u00e1 um texto meu sobre o *Glassworks* perdido em algum lugar por aqui; lembro que inclu\u00ed nele uma compara\u00e7\u00e3o meio delirante entre o disco e certo cen\u00e1rio de um filme antigo do *Superman* com o Christopher Reeve, uma bobagem, evidentemente, mas confesso que tal conex\u00e3o ainda hoje me ocorre sempre que escuto as bel\u00edssimas m\u00fasicas daquele CD. E a primeira faixa de *Passages* me desperta sensa\u00e7\u00f5es parecidas: a composi\u00e7\u00e3o \u00e9 de Ravi Shankar mas os arranjos s\u00e3o de Glass, que d\u00e1 \u00e0 m\u00fasica um cunho bastante seu (bastante *glassian*, talvez j\u00e1 seja costume dizer, tal sua influ\u00eancia na m\u00fasica contempor\u00e2nea norte-americana), cerca de dez minutos do que de mais bonito a m\u00fasica cl\u00e1ssica de nossos dias j\u00e1 criou \u2014 as l\u00edmpidas (e reconhec\u00edveis) repeti\u00e7\u00f5es, hipn\u00f3ticas e terap\u00eauticas, o clima levemente extraterreno pelo qual \u00e9 muito dif\u00edcil n\u00e3o se deixar envolver e conduzir, seu andamento indo e vindo entre o reflexivo e alguns enigmas estimulantes \u2014 uma abertura, enfim, extraordin\u00e1ria, na linhagem de *Fa\u00e7ades* do *Glassworks*. Depois, ao longo do \u00e1lbum, Glass e os sons dos instrumentos indianos de Shankar se misturam em boas medidas, coros, sitares, violinos e tablas conversando numa linguagem sem fronteiras, sem nacionalidades, um idioma ut\u00f3pico e muito bonito que nos permite entrever o qu\u00e3o aberto e fraterno este nosso mundo poderia ser se n\u00e3o f\u00f4ssemos t\u00e3o est\u00fapidos.\r\n\r\n**Smashing Pumpkins - Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 \/ LP: No Past. No Future. No Sun.**\r\n\r\nUm desastre, um vexame total esse \u00faltimo \u00e1lbum do Smashing Pumpkins. A coisa \u00e9 t\u00e3o ruim que amea\u00e7a at\u00e9 mesmo contaminar os bons e velhos discos da banda \u2014 sim, periga voltar no tempo e alterar nossas percep\u00e7\u00f5es sobre alguns dos cap\u00edtulos mais especiais de nossas adolesc\u00eancias. Temo que tal coisa j\u00e1 esteja me acontecendo: dia desses fiquei com vontade de ouvir o *Siamese Dream*, mas antes que pudesse dar *play* no disco, comecei a cogitar se valia mesmo a pena, afinal, trata-se mais ou menos da mesma banda que gravou este neg\u00f3cio de nome mega pedante que eu havia escutado uns dois ou tr\u00eas dias atr\u00e1s. Quero dizer: de *l\u00e1* eles chegaram at\u00e9 *aqui*; *aquilo* redundou *nisso*. Seria poss\u00edvel escutar *Rocket* e *Geek U.S.A.* sem ficar o tempo todo lamentando as can\u00e7\u00f5es que prefiro nem saber os nomes deste novo \u00e1lbum? Fiquei meio confuso e no fim das contas desisti, coloquei alguma outra coisa para tocar. \u00c9 melhor ficar longe de *Shiny and Oh So Bright, Vol. 1 \/ LP: No Past. No Future. No Sun.*. A\u00ed est\u00e1, ao contr\u00e1rio de uma outra [banda sobre a qual venho](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_02_25_historia_resumida_de_uma_paixao) [enchendo demasiadamente o saco de todo mundo](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_03_05_discos_do_mes_fevereiro_de_2019), a\u00ed est\u00e1 uma banda que n\u00e3o faz mais sentido algum continuar existindo. O Smashing Pumpkins j\u00e1 tem uma hist\u00f3ria pesada demais para que possa continuar operando com alguma naturalidade, uma *carga psicol\u00f3gica* carregada demais de idas e vindas, brigas e concilia\u00e7\u00f5es, discos maravilhosos e discos horrorosos, projetos come\u00e7ados e abandonados, line-ups montados e desmontados, tudo isso uma, duas, sei l\u00e1 quantas vezes, de modo que a impress\u00e3o que tenho da banda, hoje, \u00e9 menos uma banda e mais uma esp\u00e9cie de engodo, uma quest\u00e3o de conveni\u00eancias, de farsas, de contratos assinados. Na maior das boas vontades, um emprego decadente para algumas pessoas que n\u00e3o conseguiram achar seus caminhos depois de terem demitido-se quase 20 anos atr\u00e1s. E perdida em algum lugar ao fundo de fotos e entrevistas bizarras, de doses imensas de [cinismo](https:\/\/www.factmag.com\/2012\/08\/17\/billy-corgan-lays-into-pavement-and-soundgarden\/) e presun\u00e7\u00e3o, uma m\u00fasica sem gra\u00e7a e sem alma, um pastiche pra l\u00e1 de lament\u00e1vel. \r\n\r\n**Patricia Kopatchinskaja, Teodor Currentzis \u0026 Musicaeterna - Tchaikovsky: Violin Concerto \/ Stravinsky: Les Noces**\r\n\r\nVou arriscar minhas fichas e dizer que esta \u00e9 a minha interpreta\u00e7\u00e3o favorita do grande concerto para violino de Tchaikovsky. Patricia Kopatchinskaja \u00e9, tamb\u00e9m, dividindo o posto com Isabelle Faust, minha violinista favorita; sei que entre os veteranos existe uma tara invenc\u00edvel pela Anne\u2013Sophie Mutter, certamente n\u00e3o sem motivos, mas para mim Patricia e Isabelle v\u00eam primeiro. O Tchaikovsky de Patricia soa incrivelmente vivo, pulsante, embalado num sabor meio cigano que por vezes \u2014 preste aten\u00e7\u00e3o ao final do primeiro movimento, ou tente *n\u00e3o* prestar aten\u00e7\u00e3o \u2014 por vezes parece atingir um ritmo tresloucado prestes a escapar da partitura, e talvez escape mesmo, n\u00e3o sei. Do ponto de vista mais conservador que \u00e9 o predominante no mundo da m\u00fasica cl\u00e1ssica, talvez a vers\u00e3o da moldoviana Kopatchinskaja soe um tanto ousada e vertiginosa demais; do meu ponto de vista amador e liberal, soa uma maravilha.\r\n\r\n**Angela Hewitt - Bach: The Well-Tempered Clavier**\r\n\r\nDos usos utilit\u00e1rios da m\u00fasica: preencher o imposto de renda \u00e9 das coisas mais aborrecidas que existem, mas se voc\u00ea tem a companhia de Bach e Angela Hewitt, o sofrimento quase que desaparece. As 48 pe\u00e7as dos dois livros de *O Cravo Bem Temperado* do velho Johann Sebastian somam mais de quatro horas de m\u00fasica: deu de preencher o IR, fazer uma faxina, lavar a lou\u00e7a, e ainda sobrou tempo para responder um ou dois e-mails de trabalho. Nada mal para uma manh\u00e3 de s\u00e1bado em que era imposs\u00edvel sair de casa devido \u00e0 chuva e ao frio.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":753,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. IX","post_timestamp":"2019-03-25T15:19:54+00:00","url":"2019_03_25_impressoes_auditivas_vol_ix","post":"* \u00c9 uma proeza muito digna de admira\u00e7\u00e3o o sujeito ser chamado para compor a m\u00fasica de dois filmes bastante diferentes, ambientados em \u00e9pocas que distam tr\u00eas s\u00e9culos uma da outra, usar em ambos os trabalhos mais ou menos os mesmos instrumentos e muitas das mesmas id\u00e9ias e, por fim, contra toda e qualquer perfeitamente justificada suspeita de que isso poderia n\u00e3o dar muito certo, criar duas bel\u00edssimas obras em total e profunda conson\u00e2ncia com os filmes. Vangelis, como todo mundo sabe, comp\u00f4s a m\u00fasica de *Blade Runner*; o que talvez nem todo mundo saiba \u00e9 que ele comp\u00f4s tamb\u00e9m a trilha de *The Bounty*, um filme meio esquecido de 1984 que \u00e9, na verdade, a quinta vers\u00e3o de uma famosa hist\u00f3ria de marinheiros e desertores na Marinha Real Brit\u00e2nica do s\u00e9culo XVIII (a vers\u00e3o mais famosa creio ser [esta com Marlon Brando](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0056264\/), lan\u00e7ada em 1962). A explica\u00e7\u00e3o para tal fa\u00e7anha \u00e9 muito simples: a m\u00fasica de \u0395\u03c5\u03ac\u03b3\u03b3\u03b5\u03bb\u03bf\u03c2 \u039f\u03b4\u03c5\u03c3\u03c3\u03ad\u03b1\u03c2 \u03a0\u03b1\u03c0\u03b1\u03b8\u03b1\u03bd\u03b1\u03c3\u03af\u03bf\u03c5, convenientemente conhecido tamb\u00e9m como Vangelis, \u00e9 a pr\u00f3pria sonoriza\u00e7\u00e3o do deslumbramento, do sentimento de descoberta, de grandes coisas descortinando-se diante de olhos at\u00f4nitos e assombrados. Podem ser terras distantes e selvagens aparecendo pouco a pouco por sobre a linha d\u2019\u00e1gua, mal distintas por entre as nuvens no horizonte (\u00e9 dele tamb\u00e9m a trilha de [1492: Conquest of Paradise](https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0103594\/), mas esse eu n\u00e3o assisti); pode ser o segredo \u00edntimo mais terr\u00edvel sobre a nossa pr\u00f3pria identidade finalmente decifrado e inescap\u00e1vel. Vangelis, como que fora do tempo, criou uma m\u00fasica imortal para este imenso arco humano, m\u00fasica que, na mem\u00f3ria de muita gente, corresponde exata e imediatamente a isso: o homem e suas reflex\u00f5es a respeito de seu espa\u00e7o na natureza e no universo. N\u00e3o surpreende, no fim das contas, ela ter se encaixado tamb\u00e9m t\u00e3o perfeitamente na trilha-sonora do *Cosmos* de Carl Sagan (tendo sido, nesse caso, selecionada a partir de alguns dos discos j\u00e1 lan\u00e7ados anteriormente pelo m\u00fasico grego, e n\u00e3o composta especificamente para o projeto de Sagan). Um dia ainda escrevo algo mais refletido e elaborado sobre a trilha do *Blade Runner*, que amo intensamente.\r\n*  Outra paix\u00e3o, essa um pouco mais recente: *Metamorphosen*, de Richard Strauss. O compositor alem\u00e3o \u00e9 o autor de *Also sprach Zarathustra*, o \u00e9pico tornado famoso mesmo fora dos c\u00edrculos de f\u00e3s de m\u00fasica cl\u00e1ssica depois de sua [inesquec\u00edvel apari\u00e7\u00e3o em 2001: a space odyssey](https:\/\/www.limelightmagazine.com.au\/features\/zarathustra-the-universe-according-to-strauss\/), e embora eu adore *Also sprach Zarathustra*, \u00e9 *Metamorphosen* a obra de Strauss que me toca mais profundamente. A execu\u00e7\u00e3o dessa pe\u00e7a costuma durar cerca de meia hora, e n\u00e3o h\u00e1 divis\u00e3o em partes ou movimentos: trata-se de uma \u00fanica longa e coesa medita\u00e7\u00e3o, desenvolvida lentamente por um conjunto de cordas (pode ser um grupo bem pequeno, como um septeto, por exemplo), que atinge em determinado momento uma esp\u00e9cie de auge clim\u00e1tico e depois vai se desfazendo pouco a pouco, calmamente, cada instrumento tendo seu espa\u00e7o para emitir seus \u00faltimos lamentos, at\u00e9 que a m\u00fasica dissolve-se completamente no ar. Lembra-me um pouco, estruturalmente, *The Lark Ascending*, de Vaughan Williams, que tamb\u00e9m adoro. H\u00e1 uma outra semelhan\u00e7a entre estas duas pe\u00e7as: para entender e admir\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 preciso conhecer profundamente a obra de seus autores ou ler livros sobre elas e sequer descri\u00e7\u00f5es por mais breves que sejam acerca de suas inspira\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias: seus conte\u00fados emocionais s\u00e3o expostos n\u00edtidos e inconfund\u00edveis, facilmente reconhec\u00edveis por qualquer ser humano que tenha um m\u00ednimo de viv\u00eancia sobre a Terra, um m\u00ednimo de experi\u00eancia com as coisas que aprontamos e observamos por aqui. O que Strauss tinha em mente ao compor *Metamorphosen* n\u00e3o \u00e9 algo exatamente bonito, n\u00e3o tem um final feliz: sua m\u00fasica \u00e9 claramente a voz do esp\u00edrito de algu\u00e9m que viveu de perto os horrores da guerra (no caso, a Segunda Guerra Mundial), um clamor de desola\u00e7\u00e3o e prostra\u00e7\u00e3o, mas um que tenta, apesar de tudo, emprestar alguma forma de compreens\u00e3o e complac\u00eancia ao absurdo indiz\u00edvel testemunhado, um olhar como que visto de cima, contemplando as cinzas e os corpos, lamentando e perdoando aquela hora final. A m\u00fasica do funeral da humanidade, tr\u00e1gica e comovente. Sobre Strauss, sua vida na conturbada primeira metade do s\u00e9culo passado e a influ\u00eancia da guerra em sua obra, h\u00e1 p\u00e1ginas fundamentais em *O Resto \u00e9 Ru\u00eddo*, de Alex Ross.\r\n* *The Lark Ascending* \u00e9, evidentemente, sobre outro assunto completamente diferente \u2014 creio que seu t\u00edtulo seja explicativo o suficiente. Outra diferen\u00e7a fundamental \u00e9 o fato de *The Lark Ascending* ser protagonizado por um violino solo; as semelhan\u00e7as com *Metamorphosen* est\u00e3o apenas na estrutura e na expressividade. Como eu disse antes, n\u00e3o \u00e9 preciso leitura alguma para assimilar e admirar esta m\u00fasica; a refer\u00eancia liter\u00e1ria que deixarei aqui \u00e9 portanto apenas um complemento, desta vez vinda do reino da fic\u00e7\u00e3o, o que parece mais apropriado no caso de *The Lark Ascending*. \u00c9 uma das melhores passagens de *Contra o dia*, de Thomas Pynchon, um calhama\u00e7o espetacular de mais de 1000 p\u00e1ginas que vale cada uma das dezenas de horas investidas em sua leitura. A certa altura da trama colossal alguns personagens entram em uma igreja para assistir a um concerto em cujo programa consta *The Lark Ascending*. O p\u00fablico se acomoda, os m\u00fasicos se preparam e a m\u00fasica enfim come\u00e7a, e ent\u00e3o, no meio da audi\u00eancia, para o espanto geral\u2026 Bem, \u00e9 \u00f3bvio que n\u00e3o irei revelar o que exatamente acontece. N\u00e3o se revela nada de um livro do mestre Pynchon. Direi apenas que voc\u00ea vai acreditar piamente na verossimilhan\u00e7a daquilo que se sucede acaso conhe\u00e7a bem *The Lark Ascending*. Grava\u00e7\u00e3o recomendada: [Pinchas Zukerman com a Royal Philharmonic Orchestra](https:\/\/www.deutschegrammophon.com\/au\/cat\/4789386).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de autor desconhecido retratando a Munique destru\u00edda ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, copiada [daqui](https:\/\/www.military.com\/undertheradar\/2015\/05\/ruins-of-war-finding-a-killer-in-post-war-munich).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":752,"title":"O mesmo, afinal","post_timestamp":"2019-03-20T11:53:26+00:00","url":"2019_03_20_o_mesmo_afinal","post":"Ainda me lembro muito bem de uma curiosidade que eu tinha quando crian\u00e7a. Era uma destas interroga\u00e7\u00f5es sonhadoras tipicamente infantis, cultivada durante as tardes longas e antigas que, hoje, quando rememoradas, mais frequentemente me fazem recuperar por alguns momentos as aventuras e despreocupa\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da idade, mas tamb\u00e9m, vez ou outra, acabam por evocar uma certa monotonia ou t\u00e9dio que eu experimentava em outras ocasi\u00f5es, durante algumas poucas horas solit\u00e1rias, poucas mas longas e morosas e que davam ent\u00e3o a impress\u00e3o de que estenderiam-se para sempre e n\u00e3o levariam a lugar nenhum, o tempo inerte dentro do reino do quarto infantil, o beliche e os p\u00f4steres grudados nas paredes com durex, tudo implacavelmente silencioso e im\u00f3vel \u2014 o movimento mais fren\u00e9tico era o dos min\u00fasculos fiapos de tecido que eu observava pairando pelo ar, brilhando sob a luz do sol que entrava pela janela perto do fim da tarde, coisinhas min\u00fasculas no limiar da inexist\u00eancia mas claramente vis\u00edveis contra o fundo de madeira escura do arm\u00e1rio que havia numa das paredes. Quando elas flutuavam para fora do feixe de luz solar, era como se de fato deixassem de existir. Eram as horas quietas e vagarosas em que eu folheava alguns poucos livros lidos e relidos muitas vezes, escrevia qualquer coisa, sentia a luz do sol na pele para ter certeza de que tamb\u00e9m eu existia mesmo, esperava, e pensava. Uma lenta calmaria que deslizava mansamente para o t\u00e9dio, por\u00e9m n\u00e3o de todo mau ou indesejado. Eu gostava daquilo, na verdade. Ainda me lembro bem da sensa\u00e7\u00e3o, de seu peso e suas cores, e uma das quest\u00f5es que me passavam frequentemente pela cabe\u00e7a nessas ocasi\u00f5es era, como ser\u00e1 quando eu for adulto? Quando eu tiver, sei l\u00e1, 40 anos? Alguns destes receios, destes medos e vergonhas, ter\u00e3o eles sido eliminados? Ser\u00e1 muito diferente? Haver\u00e1, em algum momento, alguma grande revela\u00e7\u00e3o, algum grande aprendizado, que mudar\u00e1 tudo? Creio j\u00e1 poder responder \u00e0 mim mesmo algumas destas quest\u00f5es; creio compreender que alguns daqueles medos e apreens\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o resolvidos, apenas desvanecem-se, perdem o sentido, desaparecem ao longo do caminho sem que o percebamos. O pr\u00f3prio t\u00e9dio some, assim como as horas livres que o ocasionavam. Outras coisas, no entanto, n\u00e3o mudam: eu ainda acordo, \u00e0s vezes, com os punhos crispados, os polegares dobrados e um pouco doloridos debaixo dos dedos apertados. Ainda tenho um horror invenc\u00edvel a tr\u00e2nsito e carros, j\u00e1 tendo at\u00e9 mesmo jogado fora a carteira de motorista que tirei aos 18 anos e que praticamente nunca utilizei. Ainda prefiro, em geral, estar sozinho; ainda sinto grande rever\u00eancia e agita\u00e7\u00e3o diante do mar. E outras coisas. Continuo sendo, na ess\u00eancia, o que j\u00e1 era desde o princ\u00edpio, e n\u00e3o deixa de ser uma evid\u00eancia disso perceber, a esta altura, algumas daquelas velhas perguntas renovando-se e brotando ainda em meu esp\u00edrito, como se este jamais conseguisse permanecer apenas no presente, apreciando o aqui e agora, e preferisse ao inv\u00e9s disso manter-se em um estado de cont\u00ednuas proje\u00e7\u00f5es, ocupado em medir, incessantemente, o amanh\u00e3 contra o hoje, o virtual contra o real. Pois eu me perguntava dia desses: como ser\u00e1 minha rela\u00e7\u00e3o com estas m\u00fasicas todas que venho acumulando \u2014 os concertos na mem\u00f3ria e os discos nas estantes \u2014 quando eu for um tranquilo e recurvado velhinho? Ser\u00e1 que a oportunidade que estou tendo neste breve ex\u00edlio escoc\u00eas de assistir a muitos concertos, \u00e0s vezes dois ou tr\u00eas por semana \u2014 ser\u00e1 que este excesso n\u00e3o ir\u00e1 tornar banal esta experi\u00eancia outrora t\u00e3o excitante, t\u00e3o especial? Quando eu tiver, sei l\u00e1, 70 anos, ainda vou me animar este tanto que me animo hoje em sair de casa para ir a uma loja de discos (se ainda existirem) ou assistir e escutar m\u00fasica ao vivo? Eu pensava em coisas assim alguns dias atr\u00e1s quando uma resposta completa e incontest\u00e1vel foi-me praticamente atirada \u00e0 cara. Foi na \u00faltima quinta-feira, quando fomos assistir ao [Delta Piano Trio](https:\/\/www.deltapianotrio.com) tocar Beethoven, Schoenberg e Lera Auerbach. As performances das pe\u00e7as dos dois mestres mais antigos foram brilhantes \u2014 o trio holand\u00eas \u00e9 de fato incr\u00edvel, duas mo\u00e7as e um mo\u00e7o que me pareceram extremamente habilidosos em seus instrumentos e conectados por um entendimento e uma harmonia bastante acima da m\u00e9dia \u2014, mas foi o *Trio No. 1* da russa [Auerbach](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Lera_Auerbach) que me tocou profundamente e me fez perceber que sim, a resposta para todas aquelas perguntas \u00e9 sim, m\u00fasica vai continuar sendo para mim este combust\u00edvel que \u00e9 hoje, este alimento imprescind\u00edvel e raz\u00e3o quase suficiente para a exist\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 minha, mas de todo o universo. Algo desta magnitude, ao contr\u00e1rio de receios e incompreens\u00f5es infantis, n\u00e3o desbota, n\u00e3o desvanece, n\u00e3o tem como desvanecer: tem o peso e o tamanho do oceano, sua perenidade, belezas e mist\u00e9rios. E se ainda sinto que sou aquele do velho quarto infantil, das tardes solit\u00e1rias de anos e anos atr\u00e1s, perdidas no tempo mas bastante vivas na mem\u00f3ria, ent\u00e3o aos 70 \u00e9 natural que eu continue sendo este c\u00e1 de agora, e ainda aquele outro de l\u00e1, todos o mesmo afinal.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Delta Piano Trio em foto de autor desconhecido copiada [daqui](https:\/\/snapemaltings.co.uk\/whats-on\/delta-piano-trio\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":751,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2019","post_timestamp":"2019-03-06T01:20:59+00:00","url":"2019_03_05_discos_do_mes_fevereiro_de_2019","post":"**Pierre-Laurent Aimard - Messiaen: Catalogue d\u2019Oiseaux**\r\n\r\nNo ciclo de pe\u00e7as que comp\u00f5em *Catalogue d\u2019Oiseaux*, o compositor franc\u00eas Olivier Messiaen transformou a m\u00fasica dos p\u00e1ssaros em m\u00fasica para piano. Ou extraiu do som dos p\u00e1ssaros um tipo de m\u00fasica humana. Ou traduziu a linguagem dos p\u00e1ssaros em um tipo de som humano. Ou qualquer coisa por a\u00ed, n\u00e3o importa. Ao longo da obra, que costuma passar f\u00e1cil das duas horas se executada inteira, algumas das fronteiras entre essas categorias \u2014 som, m\u00fasica, linguagem \u2014 parecem desvanecer e revelar a vis\u00e3o mais ampla de algo que poder\u00edamos chamar apenas de \u201cambiente\u201d. E n\u00e3o s\u00f3 estas fronteiras caem: tamb\u00e9m aquelas entre seres humanos e animais selvagens, instinto e pensamento, t\u00e9cnica e natureza, tamb\u00e9m estas parecem diluir, ou regredir um passo antes da taxonomia, um passo antes do c\u00e9rebro investigador e racional como o conhecemos hoje, quando n\u00e3o havia m\u00fasica, ou quando todo som era m\u00fasica e toda m\u00fasica era som. A inten\u00e7\u00e3o de Messiaen, pelo o que pude ler por a\u00ed a respeito de *Catalogue d\u2019Oiseaux*, era n\u00e3o apenas recriar o som emitido pelos p\u00e1ssaros mas tamb\u00e9m seus habitats, suas rela\u00e7\u00f5es com as esta\u00e7\u00f5es, com a luz do dia e a escurid\u00e3o da noite, etc. As pe\u00e7as s\u00e3o muito bonitas e as ferramentas adotadas pelo compositor na tentativa de aproximar-se deste seu po\u00e9tico e abstrato intento s\u00e3o uma variedade enorme de contrastes e coloridos, de mudan\u00e7as de intensidade e velocidade, e sobretudo de sil\u00eancios. N\u00e3o conhe\u00e7o muitas vers\u00f5es, somente esta do pianista franc\u00eas Pierre-Laurent Aimard e outra do tamb\u00e9m conterr\u00e2neo de Messiaen Roger Muraro; Aimard me parece focar mais no aspecto po\u00e9tico do que no percussivo (Messiaen comparava o som de alguns de seus p\u00e1ssaros prediletos ao de pedras chocando-se umas com as outras -- estranho elogio!), mas h\u00e1 tamb\u00e9m momentos \u201cmusculares\u201d de proeza virtuosa, como na pe\u00e7a de n\u00famero 9, *La bouscarle*. Talvez n\u00e3o seja m\u00fasica para qualquer um, tal sua liberdade e rarefa\u00e7\u00e3o; para mim, seu apelo irresist\u00edvel reside na vis\u00e3o que abrange arte e mundo natural, a tentativa de depurar uma coisa a partir da outra \u2014 arte a partir do mundo natural, ou mundo natural a partir da arte, tanto faz \u2014, uma bela e reverente concep\u00e7\u00e3o de vida e natureza com a qual eu tenho me identificado cada vez mais.\r\n\r\n**Talk Talk - The Colour of Spring**\r\n\r\nA \u00faltima semana de fevereiro come\u00e7ou bastante triste com a not\u00edcia da morte de Mark Hollis. J\u00e1 no dia seguinte, segunda-feira de manh\u00e3 cedo, aqui em casa n\u00f3s tra\u00e7amos e iniciamos nosso pequeno tributo \u00e0 Hollis: um disco do Talk Talk por dia, durante a primeira refei\u00e7\u00e3o, em ordem cronol\u00f3gica de lan\u00e7amento. Os dois primeiros s\u00e3o deliciosos para quem gosta de synth-pop; os dois \u00faltimos s\u00e3o obras-primas incompar\u00e1veis para quem gosta da vida. O disco do meio, *The Colour of Spring*, est\u00e1 perfeitamente colocado entre esses pilares: seus trejeitos de m\u00fasica pop oitentista s\u00e3o apenas penduricalhos em algo que come\u00e7a a explorar muito, muito adiante. No dia em que o escutamos, quarta-feira, ele me impressionou bastante, bem mais do que em qualquer outra ocasi\u00e3o anterior, e voltei a escut\u00e1-lo mais algumas vezes nestes \u00faltimos dias. Come\u00e7ando com a segunda colocada no meu ranking da categoria \u201cas melhores can\u00e7\u00f5es que utilizam coros infantis\u201d \u2014 de acordo aqui com meus registros, *Happiness Is Easy* fica atr\u00e1s somente de *Cry Little Sister*, de Gerard McMann, faixa da trilha-sonora do fime *The Lost Boys*, e ambas bem \u00e0 frente da terceira colocada, *Another Brick in the Wall, Part 2*, de voc\u00ea-sabe-quem \u2014 e terminando com esta preciosidade chamada *Time It\u2019s Time*, *The Colour of Spring* \u00e9, na verdade, muito melhor do que eu lembrava. Entre a primeira e a \u00faltima faixa, demonstra\u00e7\u00f5es variadas de que Hollis n\u00e3o era um compositor comum, um m\u00fasico entre outros, mas sim algu\u00e9m de uma sensibilidade exclusiva, uma esp\u00e9cie de artes\u00e3o determinado a lapidar, lenta e cuidadosamente, algo vislumbrado em sonhos, prestes a revelar ao mundo este seu achado extraordin\u00e1rio \u2014 os dois discos finais do Talk Talk e mais seu \u00fanico solo, lan\u00e7ado em 1998 \u2014 e, em breve, silenciar, porque descobertas desse tipo n\u00e3o surgem o tempo todo, n\u00e3o nascem para suprir mercados, n\u00e3o se repetem a partir da simples inten\u00e7\u00e3o ou de rotinas de trabalho. Sentar para escrever, trocar id\u00e9ias e tocar instrumentos com outros m\u00fasicos, entrar num est\u00fadio de grava\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o basta. N\u00e3o me espantaria se nada como esses discos do Talk Talk surgisse nunca mais, mesmo que nunca mais seja um tempo bastante longo. *Time It\u2019s Time* \u00e9 uma m\u00fasica que justifica essa conclus\u00e3o, uma m\u00fasica que encapsula algo que vai bem al\u00e9m de seus meios e sua dura\u00e7\u00e3o: aquelas notas repetidas no fim da can\u00e7\u00e3o \u2014 um instrumento de sopro ou teclado, n\u00e3o sei bem, que se repete num padr\u00e3o despretensioso e quase invari\u00e1vel e conduz m\u00fasica e disco para seu final em *fade-out* \u2014 h\u00e1 algo mais ali que n\u00e3o sei explicar. Talvez seja simplesmente o efeito deste inesperado desfecho, um som monoc\u00f3rdio e relaxado ap\u00f3s alguns minutos de tumulto e esquizofrenia; talvez a promessa da m\u00fasica que estava para surgir na sequ\u00eancia; talvez algo bastante pessoal, que fale apenas comigo, como s\u00e3o tantas as can\u00e7\u00f5es que falam exclusivamente com um ou outro. N\u00e3o sei. Mais um dos mist\u00e9rios desta banda que gravou, ao mesmo tempo, t\u00e3o pouco e incomparavelmente mais do que a grande maioria de todas as outras.\r\n\r\n**Midnight Oil - Armistice Day**\r\n\r\nN\u00e3o posso terminar sem citar meus idolatrados australianos, a quem eu ouvia obsessivamente antes da morte de Hollis. Umas poucas palavras sobre este ao vivo *Armistice Day*, lan\u00e7ado no fim do ano passado: o disco \u00e9 bom; o problema \u00e9 a compara\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel com o *Scream in Blue*. Qualquer \u00e1lbum de rock \u2019n\u0027 roll gravado ao vivo empalidece diante do *Scream in Blue* (opini\u00e3o de um fan\u00e1tico, n\u00e3o precisaria dizer). Naqueles tempos, no auge da pot\u00eancia e da juventude, em muitas das faixas a banda soava exuberantemente descontrolada, quase que em combust\u00e3o, quando ent\u00e3o repentinamente, no meio de algumas delas \u2014 minhas favoritas \u2014 o grupo dava um jeito de se conter e embarcar em interl\u00fadios instrumentais que eu sempre imaginei necess\u00e1rios para evitar que algum deles morresse de overdose de adrenalina no palco. S\u00f3 para logo depois, claro, recuperado o f\u00f4lego, retomarem de onde pararam e finalizar a tempestade el\u00e9trica. Esse padr\u00e3o est\u00e1 em *Sell my Soul*, *Brave Faces*, *Hercules* e *Only the Strong*, can\u00e7\u00f5es que transbordam melodia e agressividade, e muito melhores do que os hinos radiof\u00f4nicos ultra-conhecidos da banda. Em *Armistice Day*, no entanto, *Only the Strong* j\u00e1 n\u00e3o soa mais t\u00e3o perigosa, t\u00e3o urgente quanto j\u00e1 fora um dia, o que deve-se compreender e perdoar ao Midnight Oil uma vez que tamb\u00e9m para eles o tempo passou e provavelmente chegou sob a forma de dores nas costas, f\u00f4lego reduzido, cordas vocais enfraquecidas, etc. Plenamente perdoados: limita\u00e7\u00f5es atl\u00e9ticas \u00e0 parte, a mensagem que a banda tem para dar em *Short Memory*, *US Forces*, *Put Down that Weapon*, entre tantas outras, continua sendo dada de forma clara, insistente e necess\u00e1ria.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":750,"title":"Mark Hollis (1955 - 2019)","post_timestamp":"2019-02-26T14:12:42+00:00","url":"2019_02_26_mark_hollis_1955_2019","post":"Os dos primeiros discos do Talk Talk t\u00eam estampas bastante convencionais: synth-pop caprichado para tocar nas r\u00e1dios dos anos 80, nada muito al\u00e9m disso. O terceiro, *The Colour of Spring*, come\u00e7ava um intrigante caminho em outra dire\u00e7\u00e3o. S\u00e3o os dois \u00faltimos, no entanto, que marcam indelevelmente como *sui generis* o legado desta banda londrina. Estes dois \u00e1lbuns, *Spirit of Eden* e *Laughing Stock*, s\u00e3o feitos de outra mat\u00e9ria. A beleza exuberante de ambos \u00e9 algo que, por mais que eu os ou\u00e7a, permanece sempre em mim a estranha impress\u00e3o de n\u00e3o ter captado em toda sua extens\u00e3o, em toda sua for\u00e7a e mist\u00e9rio. Como se fosse um disco \u2014 *Laughing Stock* em especial \u2014 de descobertas infinitas, de paisagens cujas fronteiras s\u00e3o emba\u00e7adas, cambiantes, indistingu\u00edveis. E as mais belas paisagens. Comecei a semana falando da minha banda favorita, e n\u00e3o imaginava que logo no dia seguinte estaria aqui falando do meu \u00e1lbum favorito, na triste ocasi\u00e3o da morte de seu mentor principal, Mark Hollis, cuja not\u00edcia do falecimento apareceu na internet ontem de noite. Sim, \u00e9 este, *Laughing Stock*: para mim, o maior dos discos j\u00e1 gravados. Nada chega perto. O Talk Talk encerrou atividades logo depois do lan\u00e7amento de seu \u00faltimo disco, em 1991. Tamb\u00e9m pudera: n\u00e3o haveria lugar para banda alguma prosseguir depois de *Laughing Stock*. Hollis morreu muito cedo, 64 anos, mas a respeito de sua obra, de pouqu\u00edssima outra m\u00fasica eu digo com a mesma convic\u00e7\u00e3o: ela ser\u00e1 eterna.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto copiada [aqui](https:\/\/www.loopzorbital.com\/blog\/2019\/02\/25\/rip-mark-hollis-talktalk-markhollis\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":749,"title":"Hist\u00f3ria resumida de uma paix\u00e3o","post_timestamp":"2019-02-25T13:23:16+00:00","url":"Historia_resumida_de_uma_paixao","post":"Tenho escutado muito Midnight Oil. V\u00e1rias vezes ao dia, e por dias a fio. Por um motivo em particular que j\u00e1 explicarei, ainda que nem precisasse de motivo particular algum: trata-se, afinal, da minha banda de rock \u2019n\u2019 roll mais querida de todas \u2014 \u00e9 a *minha* banda. Quem cultiva o esquisito h\u00e1bito de me ler por aqui talvez j\u00e1 tenho me visto dizer o mesmo, em outras \u00e9pocas, a respeito do Jane\u2019s Addiction ou do R.E.M.; do Pearl Jam ou do Smashing Pumpkins. Mas \u00e9 o Midnight Oil, senhoras e senhores, digo-lhes agora e em definitivo (se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o o disse antes \u2014 nesse caso, perdoem-me a repeti\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais a mesma). Foi a primeira banda por quem me apaixonei de verdade, quando n\u00e3o est\u00e1vamos ainda sequer na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado: eram os tempos das r\u00e1dios e das fitas cassetes, e muitos dos meus primeiros \u00eddolos nascidos naquele alvorecer da consci\u00eancia musical eu os adoro at\u00e9 hoje \u2014 s\u00e3o os casos do Gun N\u2019 Roses, do a-ha e do Dire Straits, para citar apenas alguns. Mas com o Midnight Oil \u2014 que junto com o Spy Vs. Spy, o Australian Crawl e o Men at Work formavam uma esp\u00e9cie de pelot\u00e3o de australianos intrusos no circuito do rock europeu e norte-americano \u2014 com o Oil a coisa logo tornou-se mais s\u00e9ria, mais pr\u00f3xima ao cora\u00e7\u00e3o. Havia algumas raz\u00f5es para isso logo de sa\u00edda, e outras foram se juntando ao longo do caminho: 1) o engajamento (ou \u201catitude\u201d, como gost\u00e1vamos de dizer naqueles dias) da banda, que deixa ainda hoje seus f\u00e3s justificadamente orgulhosos, e seus temas favoritos \u2014 o mar, a natureza, a vida ao ar livre e a consci\u00eancia b\u00e1sica de que fazemos parte indissoci\u00e1vel desse ambiente natural \u2014, coisas que tamb\u00e9m sempre me foram caras e fazem parte da minha vida; 2) *The Dead Heart*, uma m\u00fasica que carrega consigo uma carga t\u00e3o transbordante de mem\u00f3rias que nem vou come\u00e7ar a desfi\u00e1-las aqui pois isso acabaria com qualquer chance que tenho de conseguir dizer o que pretendo dizer neste texto, e depois 3) *Scream in Blue*, o disco ao vivo lan\u00e7ado em 1992 e um dos meus primeiros CDs, e que ainda hoje, passados 27 anos de sua aquisi\u00e7\u00e3o, raramente passo uma semana inteira sem voltar a ele pelo menos uma vez, e depois 4) *Breathe*, sobre o qual posso dizer exatamente o mesmo que foi dito sobre o *Scream in Blue*, apenas atualizando os c\u00e1lculos para o ano em que foi lan\u00e7ado e adquirido, 1996. Estes dois discos, *Scream in Blue* e *Breathe*, ocupam lugares especiais no pante\u00e3o dos meus discos preferidos: foram, entre muitos outros mas frequentemente eles, as trilhas-sonoras de muitos dos melhores (e tamb\u00e9m de alguns dos piores) momentos da minha juventude. Por \u00faltimo, passarei direto por sobre a estranheza de dizer \u201ca minha juventude\u201d assim desse modo pret\u00e9rito para registrar que o show que o Oil fez em Florian\u00f3polis em 1997 foi o meu primeiro grande show de rock de verdade, a primeira vez em que eu assisti ao vivo uma banda de quem eu era f\u00e3 \u2014 e n\u00e3o apenas f\u00e3, como estou aqui tentando explicar \u2014, o que tamb\u00e9m foi muito marcante e memor\u00e1vel. Estes foram alguns dos cap\u00edtulos mais importantes na constru\u00e7\u00e3o da minha intensa rela\u00e7\u00e3o com este australianos, hoje todos senhores de mais de 60 anos de idade, que l\u00e1 por volta de 2002 \u2014 justo no momento em que and\u00e1vamos mais distanciados, eu e eles, um \u00fanico e breve momento de caminhos divergentes \u2014, resolveram dar um descanso ao Midnight Oil e partir para carreiras solos, turn\u00eas menores, vida em fam\u00edlia, essas coisas. Peter Garrett, o vocalista-ativista e, com a devida licen\u00e7a para utilizar uma express\u00e3o em ingl\u00eas que adoro, figura genuinamente *larger than life*, arriscou quase tudo e atuou na arena pol\u00edtica de seu pa\u00eds servindo como ministro do meio ambiente por alguns anos, e escreveu tamb\u00e9m um livro de mem\u00f3rias que estou prestes a come\u00e7ar a ler. E ent\u00e3o, finalmente, chegamos ao tempo presente. Eu escrevi l\u00e1 no come\u00e7o que havia um motivo em particular para a overdose Midnight Oil que tenho vivido nestes \u00faltimos dias, e ele come\u00e7a em meados de 2016, quando a banda anunciou estar reunindo-se para uma turn\u00ea mundial; o rol\u00ea pelo planeta \u2014 este lugar t\u00e3o diferente e piorado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele de quando o Oil retirou-se dos palcos em 2002 \u2014 foi intitulado *The Great Circle 2017 World Tour* e rendeu uma passagem por Curitiba em abril daquele ano. O show, para o qual embarcamos numa r\u00e1pida *road trip* eu e um amigo j\u00e1 que dessa vez ningu\u00e9m na bel\u00edssima e provincian\u00edssima Ilha de Santa Catarina teve a brilhante id\u00e9ia (ou dinheiro suficiente) de contratar a banda para uma apresenta\u00e7\u00e3o, o que teria sido t\u00e3o \u00f3bvio e natural haja visto o que era Florian\u00f3polis nos anos 90, ou ao menos o que as minhas reminisc\u00eancias e a minha experi\u00eancia pessoal me informam que era a ilha naquela \u00e9poca \u2014 o show em Curitiba foi bom, mas o ambiente (era um teatro) e o p\u00fablico (juro que vi uma mo\u00e7a usando um casaco de pele!) amarraram a noite ao est\u00e1gio m\u00ednimo do qu\u00e3o boa ela poderia ser, e a banda, visivelmente, estava ciente disso. Garrett bateu palmas ir\u00f4nicas ao p\u00fablico que, ao soar das notas iniciais do primeiro hit radiof\u00f4nico da noite (*The Dead Heart*, se n\u00e3o me engano), enfim levantou-se de suas poltronas como se estivesse num, oras, onde de fato estavam, um show de rock \u2019n\u2019 roll. Foi \u00f3timo, de todo modo, rev\u00ea-los 20 anos depois, um pouco mais enrugados e talvez um pouco mais calmos (esta \u00faltima parte n\u00e3o se aplica \u00e0 Garrett), por\u00e9m indubitavelmente a mesma banda, movida ainda pelas mesmas cren\u00e7as e questionamentos, agora t\u00e3o ou mais urgentes quanto antes. Um par\u00eanteses para que eu n\u00e3o seja acusado de ingenuidade excessiva: cifras significativas podem tamb\u00e9m ter influ\u00eddo na decis\u00e3o destes cinco senhores de recolocar a banda na estrada, mas prefiro n\u00e3o especular sem saber ao certo, parecendo-me verdadeiramente razo\u00e1vel considerar que se trata de um grupo onde o dinheiro n\u00e3o \u00e9 o mais determinante de tudo; fecha par\u00eanteses. Poucos dias depois de Curitiba, no fim das contas, n\u00e3o deixei de [anotar que seria bom rev\u00ea-los ainda uma vez mais](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_05_02_discos_do_mes_abril_de_2017), e eis que, mais cedo do que eu imaginava (tamb\u00e9m n\u00e3o poderia demorar muito\u2026 ), surge a chance: tendo a banda anunciado mais alguns shows pela Europa e pela Austr\u00e1lia, logo descobri que estarei por perto de um deles, em Dublin, em junho pr\u00f3ximo. Os ingressos j\u00e1 foram comprados e resta-me agora controlar a ansiedade e a antecipa\u00e7\u00e3o \u2014 estou como uma crian\u00e7a \u00e0s v\u00e9speras do Natal! J\u00e1 arquitetei uma d\u00fazia de planos: escutar-lhes todos os discos por ordem de lan\u00e7amento numa esp\u00e9cie de contagem regressiva; reativar a publica\u00e7\u00e3o de conte\u00fado neste velho web-site e escrever uma se\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 banda, com biografia e discografia, como [faz\u00edamos antigamente](http:\/\/dyingdays.net\/bands\/); procurar e ir adquirindo os discos deles que ainda n\u00e3o tenho e quem sabe tamb\u00e9m alguns singles e EPs, plano que, evidentemente, esbarra em limita\u00e7\u00f5es financeiras, mas quem sabe se eu n\u00e3o estipular uma data para terminar\u2026 E por a\u00ed vai. Por ora, sigo ouvindo, ainda sem maiores m\u00e9todos ou organiza\u00e7\u00e3o, aos meus discos favoritos da minha banda favorita, como que investido numa nova velha obsess\u00e3o; um grupo que, \u00e9 bom saber, faz pleno sentido que ainda exista, mesmo que de forma intermitente, mesmo que depois de tanto tempo. Talvez fa\u00e7a at\u00e9 mais sentido agora do que jamais fez antes.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto copiada [daqui](https:\/\/academymusicgroup.com\/o2apollomanchester\/events\/1241831\/midnight-oil-tickets).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":748,"title":"Desvendando Steve Roach","post_timestamp":"2019-02-15T22:57:32+00:00","url":"2019_02_15_desvendando_steve_roach","post":"Eu n\u00e3o sei direito quem \u00e9 Steve Roach. Assumo logo isso porque tenho a vaga impress\u00e3o de que eu deveria saber um pouco mais sobre ele\u2026 Mas n\u00e3o sei de nada al\u00e9m do fato de ser um veterano da m\u00fasica ambiente\/eletr\u00f4nica que lan\u00e7a discos aos montes. \u201cAos montes\u201d, sem exageros \u2014 d\u00ea uma olhada [aqui](https:\/\/steveroach.bandcamp.com). Posso n\u00e3o conhecer muito sobre o sujeito, mas conhe\u00e7o alguns destes discos, velhos companheiros que, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha, eu nunca citei anteriormente por aqui \u2014 outra de minhas injusti\u00e7as para com Roach. Tenho que resolv\u00ea-las. Antes, contudo, de procurar algo para ler sobre o homem por tr\u00e1s da m\u00fasica, decidi navegar pela sua longa discografia dispon\u00edvel no bandcamp e escutar alguns dos \u00e1lbuns que eu ainda n\u00e3o conhe\u00e7o. A pujante produtividade de Roach \u00e9 algo incr\u00edvel, mas ainda mais incr\u00edvel \u00e9 que a grande maioria destes discos \u00e9 excepcional, e n\u00e3o poucos s\u00e3o at\u00e9 mesmo de cair o queixo, m\u00fasica verdadeiramente especial, do tipo que retira o ouvinte do mundo e o leva para muito longe. O homem tem uma vis\u00e3o, e uma miss\u00e3o \u2014 isso logo fica claro. N\u00e3o demorou muito para que eu, mesmo um pouco aflito diante da vastid\u00e3o deste mundo de sons \u2014 pois finalmente cheguei \u00e0quele est\u00e1gio da vida em que come\u00e7o a considerar a hip\u00f3tese de selecionar melhor o que ouvir, o que ler, o que assistir, etc., porque afinal a vida n\u00e3o dura para sempre \u2014 mesmo diante disso tudo acabei ficando com vontade de conhecer todos estes \u00e1lbuns em seus m\u00ednimos detalhes, habitar seus mundos por tantas horas quantas sejam necess\u00e1rias, e tamb\u00e9m de comprar alguns deles (tenho j\u00e1 em minha cole\u00e7\u00e3o, adquirido no ano passado, [este](https:\/\/steveroach.bandcamp.com\/album\/dreamtime-return-30th-anniversary-remastered-edition)) como forma de agradecimento ao seu autor e pequeno aux\u00edlio para a continuidade desta sua nobre miss\u00e3o musical. H\u00e1 muita coisa para download gratuito no link que passei acima, o que me faz pensar que Roach deve ter j\u00e1 meios e experi\u00eancia de composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o que o permitem ir soltando estes discos numa velocidade bem acima da m\u00e9dia, e de vez em quando, de acordo com seja l\u00e1 quais forem seus crit\u00e9rios pessoais para tal, ir tornando um ou outro trabalho gratuito. Muitos desses discos, de fato, d\u00e3o a impress\u00e3o de n\u00e3o terem demandado um grande esfor\u00e7o de concep\u00e7\u00e3o, ou uma produ\u00e7\u00e3o muito laboriosa e meticulosa, e muito menos o envolvimento de muita gente: \u00e9 m\u00fasica eletr\u00f4nica artesanal que parece obedecer impulsos privados, inspira\u00e7\u00f5es ou estados de esp\u00edrito casuais, seguidos pelo ligar de alguns aparelhos e pela experimenta\u00e7\u00e3o de alguns novos sons digitais, a busca pelos ru\u00eddos adequados, alongando-os para ver at\u00e9 onde v\u00e3o, e alguns toques no teclado e no mouse aqui e ali, alguns ajustes outros no [maquin\u00e1rio todo](https:\/\/avantmusicnews.files.wordpress.com\/2018\/06\/sd-me-music-steve-roach-20180128.jpg), e pronto, a\u00ed est\u00e1, m\u00fasica nova para mundo \u2014 este mundinho t\u00e3o necessitado daquelas velhas boas energias da Nova Era \u2014,  armazenada em arquivos digitais que sem maiores dificuldades extras logo estar\u00e3o on-line para a aprecia\u00e7\u00e3o de quem estiver atento. Espero n\u00e3o estar dizendo uma grande besteira e sendo injusto e ingrato com Mr. Roach, e pior ainda seria dar a impress\u00e3o de estar desdenhando da qualidade de seu trabalho, por isso repito: o que esse homem produz \u00e9 em sua maioria excepcional, e h\u00e1 ainda alguns discos verdadeiramente maravilhosos. Seus f\u00e3s lhe s\u00e3o muito gratos, Mr. Roach! Agora como ele consegue, isso eu j\u00e1 n\u00e3o sei dizer. Procurei por fotos suas na internet, para ver se obtinha alguma pista a partir de sua apar\u00eancia, e descobri apenas que ele \u00e9 meio parecido com o Vangelis, o que \u00e9 muit\u00edssimo interessante, mas n\u00e3o resolve a quest\u00e3o. Talvez viva num cont\u00ednuo de inspira\u00e7\u00e3o e trabalho desinteressados adquirido ap\u00f3s muitos anos de pr\u00e1tica em alguma forma secreta de medita\u00e7\u00e3o que utiliza discos de La Monte Young e Terry Riley como mantras, tendo finalmente atingido a perfei\u00e7\u00e3o absoluta com o advento da internet, meio de natureza similar \u00e0 sua m\u00fasica e que lhe proporciona a possibilidade de vaz\u00e3o quase imediata de sua produ\u00e7\u00e3o? Pode ser. Ou ent\u00e3o ele simplesmente veio de outro mundo. O \u00f3timo [Molecules of Motion](https:\/\/steveroach.bandcamp.com\/album\/molecules-of-motion) est\u00e1 gratuito l\u00e1 no bandcamp e me parece uma boa porta de entrada ao vasto e fant\u00e1stico mundo de Steve Roach, para quem se interessar.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto copiada [daqui](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Steve_Roach_(musician)).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":747,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. VIII","post_timestamp":"2019-02-06T18:12:23+00:00","url":"2019_02_06_impressoes_auditivas_vol_viii","post":"* Sempre que eu leio alguma not\u00edcia acerca desta terr\u00edvel crise humanit\u00e1ria em que se transformou a quest\u00e3o da imigra\u00e7\u00e3o \u2014 not\u00edcias absurdas que parecem estar todos os dias em todas as capas dos jornais: pa\u00edses barrando imigrantes, construindo muros em suas fronteiras; fam\u00edlias fazendo travessias perigos\u00edssimas pelo mar, arriscando suas vidas, morrendo afogadas; milhares e milhares de refugiados da guerra e da viol\u00eancia e da fome que por n\u00e3o terem [dinheiro suficiente](https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2019\/jan\/23\/eu-crackdown-golden-visas-criticised-half-hearted) ou a [cor certa da pele](https:\/\/www.theguardian.com\/us-news\/2019\/jan\/31\/trump-border-wall-national-emergency-negotiations) t\u00eam negado aquilo que deveria ser direito \u00faltimo e inalien\u00e1vel de todo ser humano, o de viver dignamente \u2014, nestas ocasi\u00f5es eu sempre lembro dos versos de uma m\u00fasica do Midnight Oil: \u0022Don\u0027t turn back the ships of freedom\/back to the south China Sea\/can you imagine\/the first taste of freedom for the refugee?\u201d. Esta m\u00fasica, *Ships of Freedom*, n\u00e3o est\u00e1 em nenhum dos LPs da banda; trata-se de uma b-side que aparece no tracklist do EP *In the Valley*, lan\u00e7ado na \u00e9poca do *Earth and Sun and Moon* (1993). Sua pertin\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos nossos sombrios tempos atuais, no entanto, fez a banda resgat\u00e1-la e toc\u00e1-la em muitos dos shows da turn\u00ea de reuni\u00e3o que fizeram em 2017 (e v\u00eam [mais uns shows por a\u00ed](https:\/\/www.midnightoil.com\/midnightoil2019\/)). \u0022Can you imagine the first taste of freedom for the refugee?\u201d \u00e9 muito bonito; a m\u00fasica toda \u00e9 \u00f3tima. S\u00f3 que escut\u00e1-la hoje em dia pode ser ainda mais angustiante: o travo amargo que ela provoca n\u00e3o v\u00eam mais apenas das imagens e temas expl\u00edcitos nas letras, mas tamb\u00e9m daquilo que j\u00e1 transcorreu desde ent\u00e3o, retrocessos e processos de desumaniza\u00e7\u00e3o impens\u00e1veis at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s. Supremacistas brancos desfilando por a\u00ed, democracias elegendo fascistas presidentes, o fim do pensamento e do conhecimento substitu\u00eddos pelo facebook e pelo WhatsApp, e por a\u00ed vai. Perdoem-me a vis\u00e3o sombria, mas de 1993 para c\u00e1 n\u00e3o foi s\u00f3 a capacidade de nos sensibilizarmos com a alegria de algu\u00e9m que tem a chance de iniciar uma nova vida, em paz, em liberdade, longe de seja l\u00e1 qual for a trag\u00e9dia que o tenha expulsado de sua provavelmente querida terra natal \u2014 me parece que n\u00e3o foi s\u00f3 isso o que perdemos.\r\n* Durante muito tempo, sempre que eu escutava *La Mer*, de Claude Debussy, aquele belo e apote\u00f3tico final do [primeiro movimento](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TqtuoN8WGgM) me torturava com uma lembran\u00e7a incompleta, que insistia em n\u00e3o vir \u00e0 tona: de onde eu conhecia anteriormente aquela melodia, aquele majestoso crescendo que anunciava o fim do movimento, lento e \u00e9pico, uma das obras mais bonitas do repert\u00f3rio cl\u00e1ssico? Pois eu j\u00e1 conhecia aquilo de algum lugar, tinha quase certeza que transposto para um outro contexto, alguma trilha-sonora, ou algo assim. E, \u00e0s vezes, eu chegava muito perto de lembrar, tenho a impress\u00e3o que chegava mesmo a agarrar no rabo da t\u00e3o perseguida lembran\u00e7a e que conseguiria enfim arrast\u00e1-la at\u00e9 o consciente e revelar-lhe por completo em plena luz do sol, s\u00f3 para ent\u00e3o v\u00ea-la escapar, ligeira e manhosa, desvanecendo-se na torrente das notas finais da primeira parte do poema sinf\u00f4nico de Debussy. Penso que era justamente o final do movimento o que sabotava a revela\u00e7\u00e3o que estava prestes a me acontecer: os bumbos e depois a orquestra silenciando faziam naufragar o processo rememorativo em andamento e que, tivesse apenas mais alguns poucos segundos de som no qual se mover, como um barco entrando \u00e1gua mas quase chegando \u00e0 costa, provavelmente teria me feito lembrar da m\u00fasica em quest\u00e3o h\u00e1 muito mais tempo. Pois \u00e9, tomou-me alguns anos, e era sempre muito irritante\u2026 At\u00e9 que dia desses, subitamente, lembrei: [\u201cWho wants to live forever\u2026? Who wants to live forever?\u201d](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6c75cOL0G8I) Sim, a can\u00e7\u00e3o do Queen, trilha-sonora do filme *Highlander*, m\u00fasica que sempre gostei muito mas, por qualquer motivo insond\u00e1vel, nunca me vinha \u00e0 mem\u00f3ria durante meus esfor\u00e7os em desvendar o enigma de *La Mer*. De quebra, resolveu-se o dilema: como pode essa banda que acho t\u00e3o ruim, t\u00e3o exagerada e cafona, ter gravado uma m\u00fasica que acho t\u00e3o boa? A\u00ed est\u00e1: plagiando Debussy.\r\n* Grava\u00e7\u00e3o recomendada de *La Mer*: [Eugene Ormandy regendo a Philadelphia Orchestra](https:\/\/www.discogs.com\/Debussy-Philadelphia-Orchestra-Eugene-Ormandy-La-Mer-Pr\u00e9lude-LApr\u00e8s-midi-Dun-Faune-Danse-Nocturnes\/release\/13081863).\r\n* Por falar em exagero e cafonice, mas do tipo que eu gosto: em 1998 o Iron Maiden costumava abrir os shows da sua *Virtual XI World Tour* com Prokofiev:\r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022528\u0022 height=\u0022380\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zUr_eKBo-eY\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allow=\u0022accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n \r\n(Eu estava neste show: 6 de dezembro de 1998, na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, a primeira e \u00fanica vez em que assisti ao Maiden e, provavelmente, a primeira vez em que escutei *Dance of the Knights*, parte do ballet *Romeo e Julieta* de Prokofiev.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"* A Disaster at Sea *, de Joseph Mallord William Turner, copiada [aqui](https:\/\/www.tate.org.uk\/art\/artworks\/turner-a-disaster-at-sea-n00558).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":746,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2019","post_timestamp":"2019-02-01T21:23:20+00:00","url":"2019_02_01_discos_do_mes_janeiro_de_2019","post":"**Maurizio Pollini - Debussy: Preludes II**\r\n\r\nSe eu tivesse escutado este disco ainda no ano passado, ele certamente teria entrado na minha lista dos preferidos de 2018. Pois \u00e9, n\u00e3o demorei quase nada para escrever a frase que, [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2019_01_04_meus_discos_preferidos_de_2018), adivinhei que escreveria em algum momento ao longo deste ano. O disco \u00e9 o do mestre italiano Maurizio Pollini tocando Debussy. Dentre as tantas homenagens ao centen\u00e1rio da morte de Debussy que tive a oportunidade de escutar at\u00e9 o momento, essa \u00e9 a mais fina de todas, e devo acrescentar que foram muitas as que escutei (a de Stephen Hough est\u00e1 na lista do fim do ano passado e a de Fazil Say estaria se a lista tivesse 20 itens). Pollini acaba de completar 77 anos; n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio escrever muito sobre ele. H\u00e1 um ensaio de Edward Said sobre os pianistas e sua arte, suponho que escrito h\u00e1 pelo menos 30 anos (n\u00e3o consegui achar sua data e local originais de publica\u00e7\u00e3o), em que o intelectual palestino-americano diz que o que distingue Pollini dos outros grandes pianistas \u00e9 o fato de que acompanhar suas performances e suas grava\u00e7\u00f5es \u00e9 como observar uma carreira *unfolding in time* (algo como \u201cdesdobrando-se no tempo\u201d). Em certa medida, trata-se de uma obviedade \u2014 afinal, estamos todos inseridos e sujeitados ao tempo, n\u00e3o? \u2014 por\u00e9m eu j\u00e1 havia pensado anteriormente coisa similar a respeito de muitas das minhas bandas de rock favoritas: Pearl Jam e B.R.M.C., por exemplo, continuam entre as minhas mais queridas e que acompanho mais de perto por perceber em suas trajet\u00f3rias a mesma coisa, as mudan\u00e7as e amadurecimentos que ora produzem vacilos, hesita\u00e7\u00f5es, cansa\u00e7os, mas tamb\u00e9m revela\u00e7\u00f5es, vozes pessoais e originais, e n\u00e3o menos importante: um senso de car\u00e1ter e honestidade inegoci\u00e1veis. Isso tudo pode nem sempre produzir m\u00fasica impec\u00e1vel, mas gera intimidade, fidelidade para al\u00e9m de momentos e modismos, coisa que, uma vez al\u00e7ados ao mundo das celebridades art\u00edsticas, nem sempre \u00e9 f\u00e1cil sustentar, e tampouco \u00e9 o caminho mais f\u00e1cil de trilhar. Uma pena Said, falecido em 2003, n\u00e3o poder testemunhar os est\u00e1gios atuais deste longo caminho percorrido at\u00e9 aqui por Pollini, pois estes s\u00e3o de uma beleza refinad\u00edssima. Said tamb\u00e9m cita, no referido ensaio, que Pollini toca (j\u00e1 tocava naquela \u00e9poca) como que sem grandes esfor\u00e7os, de maneira quase did\u00e1tica, calmamente desvendando ao p\u00fablico a obra e o pensamento dos grandes compositores, e este p\u00fablico deixa uma performance sua como que informado, evolu\u00eddo, mais esclarecido. Pois esta qualidade permanece proeminente na arte de Pollini, esta e todas as outras, reunidas e depuradas neste disco lan\u00e7ado pela Deutsche Grammophon, tardia continua\u00e7\u00e3o de um outro lan\u00e7ado pelos mesmos selo e pianista em 1999, aquele trazendo a primeira parte dos *Prel\u00fadios*, este, al\u00e9m da segunda parte, tamb\u00e9m uma pe\u00e7a menor chamada *En blanc et noir* na qual o mestre italiano toca acompanhado de seu filho tamb\u00e9m pianista Daniele. O disco \u00e9 fascinante, e informativo, e hipn\u00f3tico; assim como o primeiro volume, uma generosa demonstra\u00e7\u00e3o daquilo que de mais especial h\u00e1 na obra de Debussy para o piano solo: a atmosfera l\u00fadica e vaporosa, a beleza et\u00e9rea \u00e0 qual \u00e9 imposs\u00edvel resistir o abandono. A clareza e a leveza bals\u00e2micas. Debussy tocado pelos grandes \u00e9 sempre uma visita a um espa\u00e7o m\u00e1gico: m\u00fasica que \u00e9 como um v\u00e9u indutor ao mundo dos sonhos, onde estamos todos desarmados, inocentes e repousados. Um mundo que \u00e9 como um grande esquecimento.\r\n\r\n**M\u00e1rta Kurt\u00e1g \u0026 Gy\u00f6rgy Kurt\u00e1g - Gy\u00f6rgy Kurt\u00e1g: J\u00e1t\u00e9kok**\r\n\r\nNeste precioso disco lan\u00e7ado pela ECM em 1997 h\u00e1 uma interpreta\u00e7\u00e3o da transcri\u00e7\u00e3o que o compositor h\u00fangaro [Gy\u00f6rgy Kurt\u00e1g](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Gy\u00f6rgy_Kurt\u00e1g) elaborou para o movimento inicial da cantata *Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit*, tamb\u00e9m conhecida como *Actus tragicus*, uma das primeiras cantatas religiosas compostas por Johann Sebastian Bach (enumerada 106 no cat\u00e1logo [Bach-Werke-Verzeichnis](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Bach-Werke-Verzeichnis)). A transcri\u00e7\u00e3o \u00e9 para um piano e quatro m\u00e3os; neste disco, as m\u00e3os s\u00e3o do pr\u00f3prio Kurt\u00e1g e mais as de sua esposa M\u00e1rta. Esta \u00e9 uma das maravilhas de Bach \u2014 aquela que, inclusive, finalmente me atraiu ao infind\u00e1vel universo de sua m\u00fasica: existem as obras monumentais, os espetaculares concertos para violino, as missas insuper\u00e1veis, os \u00e9picos cheios de segredos e mist\u00e9rios para o teclado solo, pe\u00e7as magn\u00edficas e grandiosas que continuam intrigando m\u00fasicos e audi\u00eancias quase tr\u00eas s\u00e9culos depois da morte de seu compositor\u2026 Mas h\u00e1, tamb\u00e9m, aqui e ali, pequenas pe\u00e7as, movimentos e trechos de m\u00fasica muito mais simples e acess\u00edvel, e igualmente bel\u00edssima, m\u00fasicas nas quais a virtude reside, antes de tudo, num maravilhamento imediato e descomplicado, melodias serenas e triviais de impacto emocional quase garantido. Posso ser minoria, mas acredito que s\u00e3o estes peda\u00e7os de m\u00fasica que d\u00e3o a mais justa medida do g\u00eanio que foi este Johann Sebastian: a \u00e1ria das *Varia\u00e7\u00f5es Goldberg*; este primeiro movimento da cantata BWV 106; o [segundo movimento](https:\/\/youtu.be\/pzlw6fUux4o) da *Suite No. 3 in D major* (BWV 1068); o [coral](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=doJ2Fd6JRpQ) da cantata *Herz und Mund und Tat und Leben* (BWV 147), entre outros. S\u00e3o estes pequenos trechos de m\u00fasica que comprovam que Bach possu\u00eda algo muito raro e especial, e todo o restante de sua obra imortal muitas vezes parece apenas, por contraste, refor\u00e7ar essa possibilidade: o homem era capaz de compor algo do porte da *Missa em Si Menor* e, ao mesmo tempo, esse pequeno milagre que \u00e9 a abertura das *Varia\u00e7\u00f5es Goldberg*, a mais bela m\u00fasica de todos os tempos. A transcri\u00e7\u00e3o de Kurt\u00e1g explica isso tudo que pretendi dizer at\u00e9 aqui de forma bem mais eficiente: [neste v\u00eddeo](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g319gW5_O0o), ele e sua esposa, dois velhinhos lentos e simp\u00e1ticos, apresentam-se em Paris, e incluem a m\u00fasica no programa ([clique aqui](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=g319gW5_O0o\u0026t=1318s) para ir direto at\u00e9 ela). Disco e v\u00eddeo s\u00e3o maravilhosos, mas o v\u00eddeo tem a vantagem de, l\u00e1 no final, j\u00e1 no terceiro ou quarto bis, os Kurt\u00e1gs protagonizarem um delicioso momento c\u00f4mico: voltam eles ao palco, sem pressa, um ajudando ao outro, e come\u00e7am a vasculhar as partituras deixadas sobre as banquetas em busca da m\u00fasica que pretendem tocar. Cad\u00ea a partitura? O p\u00fablico se diverte e aplaude enquanto os Kurt\u00e1gs folheiam as tantas e tantas p\u00e1ginas, algo confusos mas aparentemente nada embara\u00e7ados, como se estivessem em casa, tomando ch\u00e1 e praticando ao piano, vestindo pantufas e pijamas e resmungando: \u0022Hol van a kibaszott oldal?\u201d (\u201cOnde est\u00e1 a maldita p\u00e1gina?\u201d em h\u00fangaro, de acordo com o Google Translate). M\u00e1rta, de vez em quando, volta-se para o p\u00fablico e balan\u00e7a os bra\u00e7os, a plat\u00e9ia responde com mais aplausos e risadas, e a coisa se estende por alguns minutos numa muito bem-vinda quebra dos empolados protocolos das salas de concerto. Finalmente eles encontram a p\u00e1gina desejada e juntos tocam novamente a transcri\u00e7\u00e3o do movimento inicial de *Actus tragicus*. Um final perfeito.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":745,"title":"Sacrif\u00edcio","post_timestamp":"2019-01-07T13:08:33+00:00","url":"2019_01_07_sacrificio","post":"Uma cena da adolesc\u00eancia de Susan Sontag:\r\n\r\n\u003E Our privacy was in cars. Merrill had a real driver\u2019s license, while mine was the \u201cjunior\u201d license one could hold from fourteen to sixteen in California then, entitling me to drive my parents\u2019 cars only. Since parents\u2019 cars were the only ones available to us, the difference was moot. In his parents\u2019 blue Chevy or my mother\u2019s green Pontiac we perched at night on the rim of Mulholland Drive, the great plain of twinkling lights below like an endless airport, oblivious of the mating couples in cars parked around us, pursuing our own pleasures. We pitched themes at each other in our inexact treble voices\u2014\u201cO.K., listen. Now, what\u2019s this?\u201d We quizzed each other\u2019s memory of K\u00f6chel listings, knowing by heart long stretches of the six hundred and twenty-six. We debated the merits of the Busch and the Budapest Quartets (I\u2019d become an intolerant partisan of the Budapest); discussed whether it would be immoral, given what I\u2019d heard from Elaine and Mel about Gieseking\u2019s Nazi past, to buy his Debussy recordings; tried to convince ourselves that we had liked the pieces played on the prepared piano by John Cage at last Monday\u2019s \u201cEvenings on the Roof\u201d concert; and talked about how many years to give Stravinsky.\r\n\u003E \r\n\u003E This last was one of our recurrent problems. Toward John Cage\u2019s squawks and thumps we were deferential\u2014we knew we were supposed to appreciate ugly music; and we listened devoutly to the Toch, the Krenek, the Hindemith, the Webern, the Schoenberg, whatever (we had enormous appetites and strong stomachs). But it was Stravinsky\u2019s music we sincerely loved. And since Stravinsky seemed grotesquely old (we had actually seen him on two Mondays in the small auditorium of the Wilshire Ebell, when Ingolf Dahl was conducting something of his), our fears for his life had given rise to a compelling fantasy \u00e0 deux about dying for our idol. The question, a question we discussed often, was: what were the terms of the sacrifice we so relished contemplating? How many more years of life for Stravinsky would justify our dying now, on the spot?\r\n\u003E \r\n\u003E Twenty years? Obviously. But that was easy and, we agreed, too good to hope for. Twenty years, granted to the ancient homely person we saw Stravinsky to be\u2014that was simply an unimaginably large number of years to the fourteen-year-old I was and the sixteen-year-old Merrill was in 1947. (How lovely that I.S. lived even longer than this.) To insist on getting Stravinsky twenty more years in exchange for our lives hardly seemed to show our fervor.\r\n\u003E \r\n\u003E Fifteen more years? Of course.\r\n\u003E \r\n\u003E Ten? You bet.\r\n\u003E \r\n\u003E Five? We began to waver But not to agree seemed like a failure of respect, of love. What was my life or Merrill\u2019s\u2014not just our paltry California-high-school students\u2019 lives but the useful, achievement-strewn lives we thought were awaiting us\u2014compared to making it possible for the world to enjoy five years more of Stravinsky\u2019s creations? Five years, O.K.\r\n\u003E \r\n\u003E Four? I sighed. Merrill, let\u2019s go on.\r\n\u003E \r\n\u003E Three? To die for only three additional years?\r\n\u003E \r\n\u003E Usually we settled on four\u2014a minimum of four. Yes, to give Stravinsky four more years either one of us was prepared right then and there to die.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de Eddie Hausner, copiada [daqui](https:\/\/www.sfgate.com\/books\/article\/Susan-Sontag-s-Journals-Notebooks-1964-1980-3516813.php).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":744,"title":"Meus discos preferidos de 2018","post_timestamp":"2019-01-04T19:41:34+00:00","url":"2019_01_04_meus_discos_preferidos_de_2018","post":"Um ano em que tivemos o lan\u00e7amento de n\u00e3o apenas um, mas dois discos do Keith Jarrett, n\u00e3o pode ter sido de todo um mal ano. Dentre os dois CDs lan\u00e7ados por Jarrett \u2014 os dois pela ECM e os dois fabulosos \u2014 gostei mais de *La Fenice*, grava\u00e7\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o do mestre americano em Veneza, em 2006. Acho que de todos os m\u00fasicos vivos sobre a Terra, de todos os meus \u00eddolos que continuam trabalhando e se apresentando mundo afora, aquele que eu mais gostaria de ver ao vivo (e que n\u00e3o tive a oportunidade ainda) \u00e9 Jarrett. E est\u00e1 mais do que na hora de cumprir essa miss\u00e3o, afinal, ele j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais nenhuma crian\u00e7a. \r\n\r\nDois outros pianistas figuram alto na minha lista de preferidos do ano: Lubomyr Melnyk com seu *Fallen Trees* e Yuja Wang com *The Berlin Recital*. O disco da [chinesa](https:\/\/menocchios.files.wordpress.com\/2017\/09\/58567cd3d950efc9348697fe6274f1a8-piano-yuja-wang.jpg?w=736), lan\u00e7ado pela Deutsche Grammophon, \u00e9 de uma beleza de tirar o f\u00f4lego, em especial a interpreta\u00e7\u00e3o da sonata de n\u00famero 8 de Sergei Prokofiev, que fecha o CD. S\u00e3o 30 minutos m\u00e1gicos, magistrais, que s\u00f3 resta agradecermos por terem sido gravados e estarem a\u00ed \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de nosso deleite individual privado e do futuro coletivo da ra\u00e7a humana perante algum j\u00fari c\u00f3smico vindouro. A eloquente e imediata ova\u00e7\u00e3o que a pianista recebe do p\u00fablico assim que mal termina de ressoar a \u00faltima nota (o disco, como seu t\u00edtulo deixa claro, \u00e9 a grava\u00e7\u00e3o de uma apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo em Berlin) \u00e9 just\u00edssima. Que inveja dos afortunados que estavam l\u00e1 assistindo! O ucraniano [Melnyk](https:\/\/media.gettyimages.com\/photos\/pianist-lubomyr-melnyk-is-photographed-for-self-assignment-on-march-picture-id505543284?k=6\u0026m=505543284\u0026s=612x612\u0026w=0\u0026h=jDKSdodEP-8knSS_2dqwS0dT5NBiWyrSn9ogUUMPNHk=) tamb\u00e9m vem contribuindo, h\u00e1 tempos, para uma melhor figura da humanidade para al\u00e9m da nossa suja e alquebrada atmosfera: s\u00f3 fui escutar *Fallen Trees* nos \u00faltimos dias do ano, e n\u00e3o me esque\u00e7o do choque que foi a primeira faixa, *Requiem for a Fallen Tree*. Aqui estou inerte, rendido, sem palavras para descrever a beleza daquela voz sobre o piano de Melnyk, uma inesperada voz humana, mel\u00edflua e misteriosa, pairando quase sobrenatural por sobre o fluxo cont\u00ednuo de notas de Melnyk, cortesia da cantora inglesa [Hatis Noit](https:\/\/www.erasedtapes.com\/artist\/hatis-noit). Esta primeira faixa, sozinha, \u00e9 o tipo de prova inconteste de que m\u00fasica \u00e9 a maior das artes, aquela que dever\u00edamos eleger para preserva\u00e7\u00e3o se f\u00f4ssemos obrigados a manter apenas uma e dispensar todas as outras, pois \u00e9 apenas atrav\u00e9s dela que certas coisas s\u00e3o acess\u00edveis e express\u00e1veis, coisas que de resto, sem a m\u00fasica, sequer ter\u00edamos desconfian\u00e7a de suas exist\u00eancias. (E enquanto algumas outras vozes aparecem em duas ou tr\u00eas faixas mais adiante, entrela\u00e7adas quase imperceptivelmente \u00e0 tessitura do piano de Melnyk, confesso um ligeiro desapontamento com o fato da participa\u00e7\u00e3o de Hatis Noit ficar restrita \u00e0 primeira faixa: o que esses dois artistas juntos podem fazer e demonstrado assim logo de sa\u00edda cria uma expectativa e uma hipnose sonora que infelizmente encerra-se ali mesmo. Ainda assim, o disco permanece magn\u00edfico o suficiente para ter sua posi\u00e7\u00e3o assegurada aqui, e n\u00e3o apenas pelos inigual\u00e1veis m\u00e9ritos de *Requiem for a Fallen Tree*.)\r\n\r\nOutro disco que tem Prokofiev como estrela entra na minha lista dos 14 preferidos: a violinista Lisa Batiashvili tocando obras do russo acompanhada do maestro Yannick N\u00e9zet-S\u00e9guin e da Chamber Orchestra of Europe, tamb\u00e9m este lan\u00e7ado pela DG. Na primeira pe\u00e7a, um excerto do bal\u00e9 *Romeu e Julieta*, a orquestra atr\u00e1s da solista soa densa, grave, exatamente como eu acho que esta m\u00fasica exige, um s\u00f3lido muro contra o violino de Lisa, que ainda assim, fazendo o papel que originalmente foi escrito para toda uma se\u00e7\u00e3o de cordas, ergue-se n\u00e3o sem certa petul\u00e2ncia, sem certa rebeldia. Um come\u00e7o e tanto. \u00c9 a partir do *Concerto para Violino n\u00ba 1*, contudo, que os ricos contrastes e melodias da m\u00fasica de Prokofiev se tornam mais evidentes, com o violino da georgiana soando ainda l\u00edrico e liberto, por\u00e9m encontrando, frequentemente, belos momentos de consolo e concilia\u00e7\u00e3o com a orquestra conduzida por N\u00e9zet-S\u00e9guin. O concerto de n\u00famero 2, que ocupa a segunda metade do \u00e1lbum, \u00e9 n\u00e3o menos sensacional.\r\n   \r\nEst\u00e1 tamb\u00e9m entre meus favoritos de 2018 Steve Tibbetts e sua m\u00fasica l\u00edquida esparramando encanto e generosidade pelo mundo \u2014 que n\u00e3o tenhamos que esperar mais oito anos para que ele volte a gravar um novo disco! Vai saber o que pode nos acontecer at\u00e9 l\u00e1, considerando os lun\u00e1ticos assassinos que est\u00e3o tomando conta do mundo. Sobre os outros \u00e1lbuns listados abaixo, alguns deles apareceram em meus coment\u00e1rios ao longo do ano; daqueles sobre os quais n\u00e3o falei nada, nem antes nem agora, digo o \u00f3bvio: s\u00e3o excepcionais. Nunca falta m\u00fasica excepcional no mundo. A estupidez e a viol\u00eancia nunca cessam; a rea\u00e7\u00e3o contra elas tamb\u00e9m n\u00e3o.\r\n\r\nE, como sempre, h\u00e1 dezenas de discos de bandas e artistas queridos(as) que ainda n\u00e3o escutei: Neil Young (tenho a impress\u00e3o que estas listas complementares de n\u00e3o-escutados sempre come\u00e7am com ele), No Age, Fucked Up, B.R.M.C., Dead Can Dance, Mudhoney, Mogwai, Ty Segall, Kurt Vile, Jeff Tweedy, Courtney Barnett, Behemoth, Mournful Congregation, Marduk, Body, a trilha-sonora que o Thom Yorke gravou para a refilmagem do *Suspiria*, Maurizio Pollini tocando Debussy, Angela Hewitt tocando Beethoven\u2026 Sobre alguns destes eu provavelmente comentarei algo no futuro, e prevejo que n\u00e3o faltar\u00e1 a anota\u00e7\u00e3o \u201cse tivesse ouvido antes, este disco certamente teria aparecido na minha lista de preferidos de 2018\u201d.\r\n\r\nBem, aqui vamos n\u00f3s, mais um ciclo ao redor do sol, mais um ano que n\u00e3o demora muito e estaremos relembrando com nostalgia (a nostalgia, afinal, sempre manipula um pouco as lembran\u00e7as), mais um ano a ser, em breve, acrescido em nossas contas pessoais, ou decrescido, conforme prefira-se ver. Da forma como vejo as coisas, nunca \u00e9 inoportuno relembrar que nossa passagem pela Terra \u00e9 uma rid\u00edcula d\u0027uma efemeridade, uma gota no oceano, portanto irmos um pouco mais devagar, prestando um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o ao caminho e em tudo que encontramos ao longo dele, n\u00e3o deve ser t\u00e3o mal conselho assim. Atentemos, principalmente, \u00e0s vozes que vivem sob o risco permanente de serem restringidas ou silenciadas. Na m\u00fasica e fora dela. Feliz 2019.\r\n\r\nOs 14, em ordem alfab\u00e9tica:\r\n\r\n* *And Nothing Hurt*, Spiritualized\r\n* *Bach: Goldberg Variations*, Quatuor Ardeo\r\n* *Bad Witch*, Nine Inch Nails\r\n* *Debussy*, Stephen Hough\r\n* *Fallen Trees*, Lubomyr Melnyk\r\n* *For My Crimes*, Marissa Nadler\r\n* *La Fenice*, Keith Jarrett\r\n* *Life Of*, Steve Tibbetts\r\n* *Lucus*, Thomas Str\u00f8nen \u0026 Time Is A Blind Guide\r\n* *Music For Six Musicians: Hommage A Olivier Messiaen*, Steve Swell\r\n* *Rhea Sylvia*, Thou\r\n* *The Berlin Recital*, Yuja Wang\r\n* *The Polish Violin*, Jennifer Pike \u0026 Petr Limonov \r\n* *Visions of Prokofiev*, Lisa Batiashvili, Yannick N\u00e9zet-S\u00e9guin \u0026 Chamber Orchestra of Europe","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":743,"title":"Selvagens","post_timestamp":"2019-01-01T16:50:57+00:00","url":"2019_01_01_selvagens","post":"\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\u003E (\u2026) Tudo o que se pode fazer \u00e9 reconhecer humildemente esse efeito poderoso e hipn\u00f3tico exercido sobre n\u00f3s, que, afinal, n\u00e3o somos t\u00e3o superiores aos selvagens que descobriram essas batidas.\r\n\r\nDo livro *Como Ouvir e Entender M\u00fasica*, logo depois do seu autor, Aaron Copland, explicar alguma min\u00facia t\u00e9cnica sobre o conceito de ritmo. Livro que estou lendo como parte de uma tardia educa\u00e7\u00e3o sobre teoria musical. Meio moroso o texto, mas algumas tiradas perceptivas como essa, aqui a ali, iluminam a leitura.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Aaron Copland at Interlochen, 1970, with ice cream cone*, autor desconhecido, copiada [daqui](https:\/\/www.loc.gov\/item\/copland.phot0060\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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A longa discografia dos caras \u00e9 uma alegria infinita: come\u00e7a l\u00e1 em 1989 e teve disco lan\u00e7ado ainda h\u00e1 pouco, neste funesto 2018 que se acaba \u2014 *Body* \u00e9 o t\u00edtulo deste \u00faltimo e ele me parece fundamentalmente diferente de seus antecessores, mas preciso ouvi-lo ainda mais algumas vezes antes de emitir um julgamento que diga algo mais do que isso. O disco que eles lan\u00e7aram em 2017, por outro lado, escutei-o diversas vezes nestas \u00faltimas semanas e ele logo transformou-se em um dos meu favoritos: *Unfold* \u00e9 longo e aventureiro, quatro faixas que logo de sa\u00edda, j\u00e1 nos segundos iniciais de cada uma delas, deixam devidamente claro ao ouvinte que n\u00e3o ir\u00e3o desaguar em lugar nenhum, n\u00e3o v\u00e3o decolar rumo aos desfechos apote\u00f3ticos t\u00e3o comuns em determinado tipo de m\u00fasica jazz\u00edstica e o tipo de coisa que o pr\u00f3prio Necks j\u00e1 fez com maestria em tantos e tantos discos. N\u00e3o desta vez: aqui a sensa\u00e7\u00e3o de desprendimento temporal \u00e9 intensa e a aus\u00eancia de linhas evolutivas, por vezes, soa desconcertante \u2014 a banda, mais do que em qualquer outra ocasi\u00e3o, solicita a aten\u00e7\u00e3o do ouvinte sem prometer absolutamente nada al\u00e9m de uma viagem sem destino conhecido algum, uma jornada por paisagens sonoras cuja raz\u00e3o de ser \u00e9 simplesmente o que s\u00e3o, e n\u00e3o no que se transformar\u00e3o. Embarque por sua conta e risco, eles dizem; voc\u00ea \u00e9 louco se n\u00e3o embarcar, digo eu.\r\n\r\n**Steve Swell - Music For Six Musicians: Hommage A Olivier Messiaen**\r\n\r\nA premissa desse disco \u00e9 homenagear o compositor franc\u00eas Olivier Messiaen e o sexteto encarregado da miss\u00e3o \u2014 a partir de composi\u00e7\u00f5es do trombonista Steve Swell \u2014 \u00e9 uma banda de jazz. O resultado, no entanto, \u00e9 maior do que a simples soma dessas partes. A obra de Messiaen sempre me soou ao mesmo tempo bastante estranha e fascinante, uma m\u00fasica impregnada de uma intrigante religiosidade heterodoxa, uma forma muito particular de express\u00e3o e venera\u00e7\u00e3o na qual parece estar codificado um caminho para a ilumina\u00e7\u00e3o. E a transposi\u00e7\u00e3o disso para o jazz n\u00e3o \u00e9, de forma alguma, uma id\u00e9ia t\u00e3o desarrazoada quanto pode parecer a princ\u00edpio: o jazz \u00e9 e sempre foi gentil e acolhedor para com vias alternativas e explora\u00e7\u00f5es, tanto \u00e9 que h\u00e1 um sub-g\u00eanero pr\u00f3prio seu para abrigar os muitos e maravilhosos resultados desta hospitalidade, desta reciprocidade: o free jazz. E a coisa funciona muit\u00edssimo bem neste disco: o entrosamento da banda para recriar os tempos e ritmos singulares de Messiaen \u2014 passagens que remetem \u00e0 intricadas figuras geom\u00e9tricas tra\u00e7adas nos c\u00e9us ao inv\u00e9s de partituras \u2014 \u00e9 fenomenal, um farto banquete para os ouvidos. Emo\u00e7\u00f5es caleidosc\u00f3picas se seguem, o esp\u00edrito enigm\u00e1tico da m\u00fasica de Messiaen sendo constantemente evocado. H\u00e1 ainda momentos em que o sexteto, insolitamente, soa quase como uma destas antigas *big bands* americanas, coisa da qual nunca fui muito f\u00e3, mas fico tentado a considerar que se Messiaen compusesse para *big bands*, talvez eu pudesse apreciar o resultado. Uma incr\u00edvel aventura musical este \u00e1lbum, t\u00edtulo certo na lista dos meus favoritos de 2018 que pretendo publicar a seguir.\r\n\r\n**George Winston - Linus and Lucy: The Music of Vince Guaraldi**\r\n\r\nDentre as poucas tradi\u00e7\u00f5es que gostamos de cultivar \u2014 e mesmo estas sem nenhuma rigorosidade \u2014 est\u00e3o, por ocasi\u00e3o do Natal, assistir ao *It\u2019s a Wonderful Life* (possivelmente o filme que mais vezes assisti na minha vida) e escutar ao disco que o Vince Guaraldi Trio gravou como trilha-sonora para o especial natalino de 1965 da turma do Charlie Brown. Nada de \u00e1rvore de Natal, nada de presentes, nada de festan\u00e7as: somente isso, um disco e um filme. Pode parecer pouco, mas na verdade \u00e9 muit\u00edssimo: dois s\u00edmbolos que acabam por transferir \u00e0 data bem mais gra\u00e7a e significado do que costumam fazer os outros mais tradicionais citados anteriormente, que de resto, em minha opini\u00e3o, nestes \u00faltimos tempos s\u00f3 serviram para obscurecer os reais significados pretendidos pelos crist\u00e3os quando estes apropriaram-se das antigas comemora\u00e7\u00f5es pag\u00e3s em torno do solst\u00edcio de inverno e fundaram o Natal mais ou menos como o conhecemos hoje. E se nada disso fosse, ao menos rendem (disco e filme) um bom fechamento de ano com m\u00fasica e cinema do mais alto calibre: *A Charlie Brown Christmas*, afinal, \u00e9 n\u00e3o somente um disco que eu gosto de ouvir numa \u00e9poca espec\u00edfica do ano, mas um dos meus discos favoritos de todos os tempos. Se j\u00e1 houve de fato algum milagre associado ao Natal e fora das narrativas religiosas, certamente \u00e9 a grava\u00e7\u00e3o deste pequeno tesouro. Pois bem, neste \u00faltimo Natal cumprimos parte da tradi\u00e7\u00e3o e assistimos ao maravilhoso filme de Frank Capra, precisamente no dia 25; *A Charlie Brown Christmas*, contudo, dessa vez cedeu lugar a *Linus and Lucy: The Music of Vince Guaraldi*, de George Winston. Trata-se de um tributo \u00e0 m\u00fasica que Guaraldi comp\u00f4s para os desenhos dos personagens concebidos por Charles M. Schulz, por\u00e9m rearranjada para o piano solo, ou seja, Winston compila e recria usando unicamente suas duas m\u00e3os muitas das faixas do trio piano-baixo-bateria acrescido de coros infantis que Guaraldi utilizava para a grava\u00e7\u00e3o dos temas de Charlie Brown, Sally, Snoopy \u0026 cia. O resultado \u00e9 \u00f3timo: sempre me surpreendo com a pletora de sons que um pianista habilidoso \u00e9 capaz de tirar do seu instrumento, a capacidade de sozinho \u2014 e acusticamente \u2014 criar mundos t\u00e3o ricos e completos de m\u00fasica, e Winston \u00e9 um destes m\u00e1gicos. Seu piano soa livre e contagiante na inigual\u00e1vel *Linus \u0026 Lucy*, melodioso e audacioso em *The Masked Marvell*, paciente e nost\u00e1lgico em *Bon Voyage*. Mas \u00e9 nas faixas mais soturnas \u2014 este o toque especial dos temas originais de Guaraldi: a ternura e a delicadeza com que salientam os tons de melancolia que os desenhos, n\u00e3o obstante terem como p\u00fablico-alvo o infantil, sempre exibiram como um dos seus componentes principais, expressos principalmente nas desventuras e na personalidade de Charlie Brown \u2014 \u00e9 aqui que o piano de Winston brilha de verdade, e os destaques s\u00e3o tantos que n\u00e3o vou nem enumer\u00e1-los.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":741,"title":"Jazz noite adentro","post_timestamp":"2018-12-13T18:30:30+00:00","url":"2018_12_13_jazz_noite_adentro","post":"A banda \u2014 que mudava continuamente de forma\u00e7\u00e3o e era ora um quarteto, ora um quinteto \u2014 tinha como l\u00edder um ilustre desconhecido, t\u00e3o desimportante que no site do local anunciava-se um outro nome para aquela noite, e decerto n\u00e3o se deram ao trabalho de retificar quando surgiu a necessidade da substitui\u00e7\u00e3o pois provavelmente n\u00e3o faria diferen\u00e7a para ningu\u00e9m. O local, na cartografia do mundo, n\u00e3o importa. Era um por\u00e3o. A m\u00fasica enchia o ambiente como s\u00f3 bandas de jazz conseguem faz\u00ea-lo: a subst\u00e2ncia sonora preenchendo o espa\u00e7o sem subterf\u00fagios, sem intermedi\u00e1rios, puro ritmo e movimento humano. Talvez eu n\u00e3o saiba a defini\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica exata de \u0022ritmo\u0022 \u2014 meus conhecimentos sobre teoria musical e seus termos constitutivos s\u00e3o quase nulos. Mas eu sei o que \u00e9 uma boa banda de jazz tocando num por\u00e3o. Nevava l\u00e1 fora; a banda labutava, gotejava l\u00e1 dentro. E dava risadas. Vieram-me \u00e0 mente, diversas vezes, descri\u00e7\u00f5es de concertos de jazz lidas em muitos livros de Jack Kerouac. \u201cGo! Go! Go!\u201d. Comunh\u00e3o, poetas mortos e enterrados em cemit\u00e9rios quase irreais de t\u00e3o distantes, impress\u00f5es embevecidas sobre o c\u00e9u noturno. Os temas e os entusiasmos adolescentes de Kerouac s\u00e3o os culpados por tanta gente torcer o nariz para os seus livros \u2014 \u201cliteratura juvenil\u201d, j\u00e1 ouvi de muita gente; \u201cn\u00e3o \u00e9 literatura, \u00e9 datilografia\u201d, esnobou outro \u2014 e de fato h\u00e1 um tanto de leviandade em seus textos, e frequentemente uma recusa teimosa e inflex\u00edvel de conduzir os pensamentos e as elabora\u00e7\u00f5es para sequer algumas poucas horas adiante, para qualquer coisa al\u00e9m do momento imediato\u2026 Uma boa trupe de jazz, no entanto, \u00e9 capaz de nos fazer entender o valor deste agora absoluto, da transpira\u00e7\u00e3o, da aten\u00e7\u00e3o retil\u00ednea e sustentada no presente. \u00c9 como se ela (a banda) propusesse um di\u00e1logo, e a m\u00fasica vem em nosso apoio para expressar(mos) algo que s\u00f3 atrav\u00e9s dela somos capazes, mesmo que n\u00e3o sejamos n\u00f3s a execut\u00e1-la, mesmo que estejamos ali somente assistindo-a. O jazz lida com algo de essencial, de comunidade e sintonia, que \u00e9 dif\u00edcil de definir. \u00c9 um tipo muito especial de express\u00e3o, pela qual os adjetivos e nossas capacidades de descri\u00e7\u00e3o fazem muito pouco; em um n\u00edvel muito mais verdadeiro do que na maioria dos casos em que este clich\u00ea \u00e9 aplicado, \u00e9 m\u00fasica para sentir e presenciar. Tr\u00eas sets, mais de duas horas de m\u00fasica para um min\u00fasculo p\u00fablico rotativo, com apenas um punhado parecendo realmente interessado na m\u00fasica \u2014 e a banda foi at\u00e9 o fim, fez seu trabalho at\u00e9 a \u00faltima nota, quando j\u00e1 era madrugada, esfor\u00e7ados oper\u00e1rios em prol da causa maior. Porque se o jazz morre, morre este di\u00e1logo, e morre a humanidade.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Cool Jazz*, de Debra Hurd, copiada [daqui](http:\/\/debrahurd.blogspot.com\/2017\/09\/abstract-jazz-music-paintings.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":740,"title":"\u00c9 mais do que voc\u00ea pode ver ou ouvir","post_timestamp":"2018-12-02T16:27:29+00:00","url":"2018_12_02_e_mais_do_que_voce_pode_ver_ou_ouvir","post":"\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\u003E O som \u00e9 algo complexo. N\u00e3o basta reconhecer uma can\u00e7\u00e3o e ouvir a melodia. H\u00e1 muito mais na m\u00fasica do que isso. Muitos jovens nunca ouviram o que eu ouvi, e era assim quando eu era jovem. Na era da tecnologia, n\u00f3s nos acostumamos \u00e0 conveni\u00eancia e \u00e0 facilidade. Crescemos na era da conveni\u00eancia e do oportunismo. Os v\u00eddeos podem ser compartilhados e vistos pelo mundo afora, assim como a m\u00fasica, como qualquer documento. O \u00fanico problema disso \u00e9 que a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 assim. Ela \u00e9 uma tempestade para os sentidos, o nascer e o p\u00f4r do sol para a alma, mais profunda do que o profundo, mais abrangente do que o abrangente. \u00c9 mais do que voc\u00ea pode ver ou ouvir. \u00c9 o que voc\u00ea sente. Isso est\u00e1 faltando na tecnologia atual para a m\u00fasica, apesar de muitas coisas terem surgido para ocupar seu lugar e nos distrair de sua aus\u00eancia.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"copiada [daqui](http:\/\/the-talks.com\/interview\/neil-young\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":739,"title":"Aqui de longe","post_timestamp":"2018-11-29T17:08:55+00:00","url":"2018_11_29_aqui_de_longe","post":"Ora essa, \u00e9 n\u00e3o \u00e9 que vim parar numa cidade altamente musical? Min\u00fascula, gelada, cinza e s\u00e9pia mesmo \u00e0 beira do mar \u2014 mesmo o pr\u00f3prio mar \u2014, fustigada por chuvas e ventos vindos de n\u00e3o sei que inferno glacial e em quantidades que parecem originalmente dimensionadas para encharcar e esfriar todo um continente, por\u00e9m devido a alguma antiga maldi\u00e7\u00e3o viking ou talvez, mais ordinariamente, algum raro fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico (fico com a hip\u00f3tese viking), v\u00eam desaguar todas aqui, v\u00eam a\u00e7oitar exclusiva e inclementemente este pequeno peda\u00e7o de terra ao norte da Esc\u00f3cia, onde por obra e arte de toda esta hostilidade clim\u00e1tica a popula\u00e7\u00e3o de corvos parece ter se tornado maior do que a de humanos. Tudo isso, sim, mas altamente musical. Todo cidad\u00e3o desta cidade deve tocar algum instrumento ou cantar em algum coro, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Estou por aqui h\u00e1 duas semanas e j\u00e1 assisti sonatas para flauta e cravo de Bach e Telemann, pe\u00e7as de Couperin para cravo solo e de Schumann e Parry para \u00f3rg\u00e3o, e ainda Bach transcrito para \u00f3rg\u00e3o por Max Reger e o orat\u00f3rio *Messiah* de H\u00e4ndel, com direito ao cort\u00eas povo escoc\u00eas se levantando \u2014 parte dele, ao menos \u2014 durante o famoso coro *Hallelujah*, tradi\u00e7\u00e3o que remonta \u00e0s primeiras apresenta\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a l\u00e1 se v\u00e3o quase tr\u00eas s\u00e9culos, conforme ouvi uma senhorinha explicar para dois alem\u00e3es que ficaram, assim como eu fiquei, sem saber o que fazer quando tanta gente p\u00f4s-se subitamente de p\u00e9. Eu tamb\u00e9m me levantei, afinal, mas foi para poder continuar assistindo ao coro e \u00e0 orquestra e n\u00e3o por defer\u00eancia ao rei ou \u00e0 igreja ou seja l\u00e1 quem for. E n\u00e3o deixei de perceber que algumas pessoas ficaram gravemente sentadas e im\u00f3veis, marcando suas posi\u00e7\u00f5es com mais afinco e convic\u00e7\u00e3o do que aqueles que cumpriram o cerimonioso protocolo. Hoje \u00e0 noite a St. Andrews Symphony Orchestra prestar\u00e1 homenagem aos 100 anos de nascimento de Leonard Bernstein; confesso que n\u00e3o sou l\u00e1 grande f\u00e3 da m\u00fasica circense de Bernstein, mas como no programa tem ainda Prokofiev \u2014 e esse sim eu tenho em alt\u00edssima conta \u2014 estou pensando em ir l\u00e1 dar uma espiada e aproveitar para novamente sentir na pele, na hora de ir embora, os pren\u00fancios de neve que julgo sentir no frio silencioso das horas mais avan\u00e7adas da noite. Bem, talvez n\u00e3o haja pren\u00fancio algum, talvez esse frio nem seja grande coisa perto do que ainda est\u00e1 por vir l\u00e1 para fins de dezembro, in\u00edcio de janeiro; talvez tudo isso seja apenas minha imagina\u00e7\u00e3o cheia de esperan\u00e7as. Fato \u00e9 que o frio, a possibilidade de neve, a noite invernal europ\u00e9ia com seus halos de luzes amarelas, seus vultos de chap\u00e9us e sobretudos entrando e saindo por portas que revelam brevemente, atr\u00e1s de si, pequenos redutos humanos, resguardados e aquecidos, bebendo e conversando \u00e0 vozes baixas \u2014 tudo isso s\u00f3 favorece ainda mais meu estado de esp\u00edrito. Amanh\u00e3, quem sabe, sa\u00edmos para investigar uma misteriosa \u201cvibrante cena jazz\u201d sobre a qual li em algum lugar, mas n\u00e3o vi ainda nem sinal \u2014 talvez esteja escondida em alguma das poucas vielas que ainda n\u00e3o percorremos, semi-oculta na escurid\u00e3o que, nesta \u00e9poca do ano, come\u00e7a a descer lentamente sobre a cidade a partir das tr\u00eas horas da tarde. Nada disso foi planejado: acabamos decidindo morar aqui meio de improviso, em cima da hora, sem esconder certos receios sobre o que haver\u00edamos de fazer numa cidade que atravessa-se toda, de uma ponta a outra, em menos de meia hora de caminhada. Eu j\u00e1 me ia esquecendo, pelo visto, das benesses do mundo civilizado\u2026 Ser\u00e1, enfim, al\u00e9m de uma temporada feliz e tranquila \u2014 o que seria de qualquer modo (penso eu agora) s\u00f3 pelo fato de estarmos longe \u2014 ser\u00e1 tamb\u00e9m uma temporada de m\u00fasica, talvez ainda mais do que sempre o foi a minha vida, essa estendida temporada musical pontuada por intromiss\u00f5es ocasionais do que de mais h\u00e1 no mundo, e nos \u00faltimos tempos demasiadamente pelo o que o mundo tem de pior. Espero anot\u00e1-la frequentemente por aqui.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"Vista do castelo de St. Andrews, Esc\u00f3cia.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":738,"title":"Descendo","post_timestamp":"2018-10-29T15:22:09+00:00","url":"2018_10_29_descendo","post":"\u00c9 no poema de Virg\u00edlio que encontramos aquela preciosa advert\u00eancia: \u201cdescer at\u00e9 o inferno \u00e9 f\u00e1cil; seus port\u00f5es est\u00e3o abertos dia e noite. Retornar de l\u00e1, voltar ao ar livre, a\u00ed est\u00e1 a tarefa dif\u00edcil.\u201d Sup\u00f5e-se que o romano entendia do assunto, afinal, Dante n\u00e3o elegeria um qualquer para servir-lhe de guia em suas perambula\u00e7\u00f5es pelo outro mundo. \u00c9 incr\u00edvel como neste pa\u00eds chamado Brasil evaporaram-se a intelig\u00eancia, a experi\u00eancia, o discernimento b\u00e1sico. Ou: incr\u00edvel como arrancou-se sem pudor algum, sem reflex\u00e3o alguma, a m\u00e1scara que vinha escondendo isso que hoje temo ser obrigado a reconhecer como nossa verdadeira natureza. A estupidez que grassa por aqui sempre foi enorme e not\u00f3ria, mas chancel\u00e1-la democraticamente como norma p\u00fablica e pol\u00edtica de estado, isso eu realmente n\u00e3o achei que veria acontecer \u2014 achei que a parcela minimamente razo\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o teria tamanho e for\u00e7a suficientes para evitar. Que horror tanta gente sentir-se representada por este sujeito min\u00fasculo e grotesco. Que horror tanta gente n\u00e3o perceber a obtusidade e a indignidade deste que acabaram de nomear mandat\u00e1rio da rep\u00fablica. Que horror esse mundo virtual do Facebook e do WhatsApp, essas nega\u00e7\u00f5es da vida real que a intui\u00e7\u00e3o sempre me aconselhou permanecer o mais afastado poss\u00edvel. Que horror nossa falta de educa\u00e7\u00e3o, de cultura, de tudo. A hist\u00f3ria, no entanto, ir\u00e1 cobrar sua conta: pa\u00eds algum elege um [fascista](https:\/\/www.nexojornal.com.br\/colunistas\/2018\/N\u00e3o-use-a-palavra-\u2018fascismo\u2019-em-v\u00e3o) presidente e passa impune por isso. N\u00e3o tenho vontade nenhuma de escrever sobre a m\u00fasica que ouvi ao longo deste tenebroso m\u00eas de outubro (e foi bastante m\u00fasica, talvez at\u00e9 mais do que de costume). Estou prestes a me mudar e passar um tempo na Esc\u00f3cia, e somente as muitas tarefas envolvidas na mudan\u00e7a me impedem de descer at\u00e9 algum n\u00edvel in\u00e9dito de tristeza e frustra\u00e7\u00e3o. Estarei longe, mas de alguma forma o inferno chegar\u00e1 at\u00e9 mim, tenho certeza. Que a escalada de volta comece logo, antes que o caminho para tal suma de uma vez por todas de nossas vistas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Uma das ilustra\u00e7\u00e3o de Gustave Dor\u00e9 para o *A Divina Com\u00e9dia*, de Dante Alighieri.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":737,"title":"Amputa\u00e7\u00e3o","post_timestamp":"2018-10-25T19:46:23+00:00","url":"2018_10_25_amputacao","post":"Low, Spiritualized, Stereolab, Marissa Nadler, Kate Bush, Mount Eerie, Wendy Carlos, as trilhas-sonoras do John Carpenter, o *M\u00fasica para cordas, percuss\u00e3o e celesta* de Bela Bart\u00f3k \u2014 eu fazia um esfor\u00e7o meio distra\u00eddo, constantemente interrompido, para relembrar os discos que escutei nos \u00faltimos dias e tentar imaginar algo para escrever sobre eles, esfor\u00e7o que me rendesse alguma concentra\u00e7\u00e3o sossegada por pelo menos um par de horas. Esfor\u00e7o natimorto. A rotina dos \u00faltimos dias \u00e9 ser interrompido; \u00e9 desligar-se gradualmente da rotina anterior sem ter ainda uma nova para colocar em seu lugar; \u00e9 tentar resignar-se com a vileza que em breve estar\u00e1 certificada e liberada para ser o novo princ\u00edpio p\u00e1trio, ou n\u00e3o t\u00e3o novo assim, mas agora democraticamente eleito, majoritariamente legitimado, oficialmente ungido. As not\u00edcias dos jornais \u2014 meu deus, as not\u00edcias do jornal. E ent\u00e3o minha m\u00e3e me liga para contar que minha av\u00f3 amputou um p\u00e9. N\u00e3o me ocorreu na hora perguntar se foi o p\u00e9 esquerdo ou o direito\u2026 Acho que as bandas e artistas que mais escutei nos \u00faltimos dias foram mesmo Low, Mount Eerie e John Carpenter, al\u00e9m dos novos discos do Spiritualized e da Marissa Nadler, que s\u00e3o \u00f3timos. O Spiritualized \u00e9 destas bandas que ainda fazemos quest\u00e3o absoluta de comprar os discos assim que anunciados e postos em pr\u00e9-venda, para depois saborear a expectativa de sua chegada, quem sabe ouvir com indulg\u00eancia uma ou outra faixa que apare\u00e7a como aperitivo na internet, e finalmente receb\u00ea-lo na caixa postal e planejar uma noite especial em casa em torno dele, em torno de sua primeira audi\u00e7\u00e3o, o primeiro contato da agulha com o vinil. Vinho, luzes baixas, essas coisas. Noites como estas n\u00f3s ainda temos aqui em casa, mas ultimamente elas t\u00eam vindo acompanhadas de uma certa contri\u00e7\u00e3o, um gosto amargo de culpa e afli\u00e7\u00e3o. Vejam os sorrisos dessas pessoas na imagem acima \u2014 como descrever isso? Como seguir normalmente a vida depois disso? Como chegamos a esse n\u00edvel de covardia e barb\u00e1rie? Morando em um pa\u00eds que normalizou essa viol\u00eancia absurda, essa desumanidade sem nome, como ter uma noite de m\u00fasica e sossego e alegria inebriada? \u00c9 como se estiv\u00e9ssemos indo um passo al\u00e9m da impossibilidade da poesia, que Adorno apontou como uma das consequ\u00eancias do Holocausto. O dito do fil\u00f3sofo alem\u00e3o era a respeito de \u201cfazer poesia\u201d; pois n\u00f3s brasileiros vamos inaugurar a impossibilidade de \u201cescutar poesia\u201d. Em meio a tanta desola\u00e7\u00e3o, assim que minha m\u00e3e me informou a respeito da cirurgia da minha av\u00f3, n\u00e3o foi dif\u00edcil consolar-me com o fato de que ela j\u00e1 n\u00e3o precisa tanto de seus p\u00e9s, e quase me vi invejoso do fiapo que lhe resta de consci\u00eancia, de lucidez, vivendo seus dias e noites infinitos sem sair da cama da enfermaria em que vive: quem quer ser l\u00facido em tempos como estes?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":736,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2018","post_timestamp":"2018-10-03T15:51:57+00:00","url":"2018_10_03_discos_do_mes_setembro_de_2018","post":"Eu vinha escutando continuamente algumas grava\u00e7\u00f5es do \u00fanico quarteto de cordas escrito por Jean Sibelius, obra conhecida como *Voces intimae*. Isso foi l\u00e1 no come\u00e7o de setembro: ainda fazia frio, ainda era tempo de recolhimento e roupas grossas, a poss\u00edvel trag\u00e9dia nas nossas elei\u00e7\u00f5es ainda parecia distante. Estas grava\u00e7\u00f5es do quarteto de Sibelius n\u00e3o raro v\u00eam acompanhadas por um dos dois quartetos de Grieg, compositor cuja afinidade com Sibelius \u00e9 uma quest\u00e3o de nacionalidades: Sibelius era finland\u00eas; Grieg, noruegu\u00eas. N\u00e3o sei se chegaram a conhecer um ao outro, mas os cen\u00e1rios n\u00f3rdicos descortinados pela m\u00fasica de ambos aproximam seus trabalhos naturalmente, e seus legados gozam hoje do status de serem partes indissoci\u00e1veis da identidade nacional de seus pa\u00edses de origem, na\u00e7\u00f5es vizinhas de terra e de folclore e que calculo ficarem distantes do Brasil cerca de, numa estimativa conservadora, uns 400 trilh\u00f5es de anos-luz. N\u00e3o pode ser menos do que isso, tal a diferen\u00e7a entre c\u00e1 e l\u00e1. Mas eu dizia: em pelo menos dois discos que tenho aqui comigo com o *Voces intimae* um dos quartetos de Grieg vem junto. Eu escutava com interesse maior o trabalho de Sibelius, mas ia assimilando aos poucos os de Grieg, gostando cada vez mais, e comecei a esbo\u00e7ar um texto para este post que foi logo delineando-se uma reflex\u00e3o n\u00e3o tanto sobre as obras em si, mas sobre minha intensa paix\u00e3o por este formato de m\u00fasica: sim, de novo embarcava em um paneg\u00edrico entusiasmado \u2014 e provavelmente muito brega \u2014 acerca da beleza inebriante dos dois violinos somados a um violoncelo e uma viola (\u0022beleza inebriante dos dois violinos somados a um violoncelo e uma viola\u201d eu copiei daquele texto \u2014 como podem ver, estava ficando p\u00e9ssimo), e acrescentei algo sobre os m\u00e9ritos do suposto inventor dos quartetos, [Joseph Haydn](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/String_quartet), e falei ainda alguma coisa sobre o fato dos invernos nos ensinarem mais do que os ver\u00f5es, mas j\u00e1 n\u00e3o lembro porque e j\u00e1 n\u00e3o importa. Escrevi tamb\u00e9m algo sobre as diferen\u00e7as culturais entre as pessoas e especulei acerca da possibilidade de existir algum m\u00ednimo denominador comum entre n\u00f3s todos. O texto estava ainda em andamento, cheio de id\u00e9ias incompletas e totalmente insatisfat\u00f3rio, quando de repente tive que interromp\u00ea-lo pois surgiu um compromisso em S\u00e3o Paulo. Viagem marcada; hotel reservado; planos feitos. Sobrava-nos ainda algum tempo livre na megal\u00f3pole quando tive a id\u00e9ia de dar uma olhada na programa\u00e7\u00e3o da Orquestra Sinf\u00f4nica do Estado de S\u00e3o Paulo, e olha s\u00f3 o que estava marcado para exatamente a primeira das duas noites que passar\u00edamos na cidade: [quartetos de Grieg e Sibelius](http:\/\/www.osesp.art.br\/concertoseingressos\/concerto.aspx?IdApresentacao=7022). Quase d\u00e1 de dizer que havia deuses operando em meu favor, n\u00e3o? Afinal, a paz e a prosperidade reinam imperturb\u00e1veis no mundo, n\u00e3o h\u00e1 muito por a\u00ed que esteja necessitando de mais interven\u00e7\u00e3o divina do que minha car\u00eancia de m\u00fasica ao vivo\u2026 Bem, foi uma noite muit\u00edssimo bonita: Sibelius e Grieg foram apresentados com grande \u00edmpeto e destreza (o quarteto selecionado de Grieg foi o segundo, que o compositor n\u00e3o chegou a terminar mas que costuma ser apresentado assim mesmo incompleto mundo afora, tal qual a famosa sinfonia inacabada de Schubert), e tamb\u00e9m a terceira pe\u00e7a da noite, o primeiro quarteto do franc\u00eas Philippe Manoury (que estava presente l\u00e1 no p\u00fablico), achei excepcional: obra extravagante e experimental, que claramente desagradou algumas pessoas, mas eu fiquei hipnotizado pela m\u00fasica e gostei muito. O quarteto de cordas da OSESP me pareceu muito bom, digo do alto do meu amadorismo no assunto. Talvez o Brasil n\u00e3o fique, afinal, t\u00e3o longe assim da Noruega e da Finl\u00e2ndia\u2026 De volta em casa, na prov\u00edncia onde moro, perdi a vontade de finalizar aquele texto, mas voltei a escutar algumas das grava\u00e7\u00f5es citadas anteriormente, em especial, a do Emerson String Quartet que traz, al\u00e9m do *Voces intimae*, o primeiro quarteto de Grieg \u2014 que prefiro ao apresentado pelo quarteto da OSESP \u2014 e tamb\u00e9m uma [pe\u00e7a menor](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/At_the_Bier_of_a_Young_Artist) de Nielsen. A experi\u00eancia da m\u00fasica ao vivo \u00e9 insubstitu\u00edvel, mas esse disco n\u00e3o \u00e9, de maneira alguma, menos valioso.\r\n\r\nOutro CD que escutei diversas vezes nos \u00faltimos dias foi este gravado em parceria por Kurt Vile e Courtney Barnett. Vile eu j\u00e1 conhecia, e gosto muito de seus discos; sobre a australiana Courtney Barnett eu j\u00e1 tinha lido algo a respeito aqui e ali, mas nunca tinha escutado sua m\u00fasica. O \u00e1lbum, que se chama *Lotta Sea Lice*, \u00e9 muit\u00edssimo bom; tivesse escutado ano passado, ele certamente teria aparecido na minha lista de favoritos daquele ano! As can\u00e7\u00f5es da dupla t\u00eam uma brandura e uma intimidade que nascem, em primeiro lugar, de suas vozes, vozes que n\u00e3o s\u00e3o, de modo algum, as de cantores na acep\u00e7\u00e3o mais formal do termo: parece que eles est\u00e3o ali, durante todo o tempo do disco, envolvidos numa coisa mais privada e descompromissada do que a execu\u00e7\u00e3o e a grava\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es de trabalho, algo voltado para pessoas que est\u00e3o mais ali por perto, compartilhando hist\u00f3rias e bebida enquanto conduzem, na medida do poss\u00edvel, sem maiores esfor\u00e7os \u2014 como que para ter algo para fazer com os dedos e com as m\u00e3os, algo para abra\u00e7ar as palavras \u2014 uma eletricidade calma e af\u00e1vel. \u00c9 algo que adoro: as guitarras \u2014 que suponho tocadas pelos dois, pois s\u00e3o ambos guitarristas em seus discos solos \u2014 vagam a esmo ao longo de faixas que parecem nascer espontaneamente, gravadas num take, concebidas no ato. Fazem-me lembrar frequentemente dos meus discos favoritos do Neil Young, a maneira como muitas de suas melhores m\u00fasicas soam como que coisas em andamento, despojadas de f\u00f3rmulas e nota\u00e7\u00f5es mais estritas, em conex\u00e3o direta com algo que reside no inconsciente do m\u00fasico. Kurt e Courtney ([estes](http:\/\/www.tenhomaisdiscosqueamigos.com\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/Courtney-Barnett-e-Kurt-Vile.jpg), n\u00e3o [aqueles](https:\/\/www.all4women.co.za\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/New-Kurt-Cobain-doccie-647x395.jpg?x21828)) devem ter um bom punhado de vinis do velho Neil em suas cole\u00e7\u00f5es, eu apostaria nisso. H\u00e1 ainda em *Lotta Sea Lice* alguns viol\u00f5es e alguma desilus\u00e3o inevit\u00e1vel; uma alegria moderada aqui e ali e um certo cansa\u00e7o que parece ter se acumulado cedo demais na vida desses jovens. N\u00e3o h\u00e1 pretens\u00e3o alguma: apenas \u00f3timas can\u00e7\u00f5es, amigos fazendo o que t\u00eam de fazer, o que sabem fazer, preenchendo o tempo de suas vidas.\r\n\r\nPra finalizar, men\u00e7\u00e3o r\u00e1pida \u2014 at\u00e9 porque n\u00e3o escutei tanto quanto os dois discos citados acima \u2014 ao *A.O. Mod. TV. Vers.* do Spy V Spy. Porque h\u00e1 aqueles dias em que nostalgia adolescente e rock \u2019n\u2019 roll australiano s\u00e3o os \u00fanicos ref\u00fagios poss\u00edveis\u2026","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":735,"title":"Um jardim \u00e0 parte","post_timestamp":"2018-09-20T22:19:43+00:00","url":"2018_09_20_um_jardim_a_parte","post":"Tenho uma rela\u00e7\u00e3o dif\u00edcil com o Dead Can Dance: n\u00e3o sei se amo ou odeio. Ou algo por entre estes extremos. \u00c9 algo que me desconcerta, \u00e0s vezes: n\u00e3o conseguir decidir se gosto ou n\u00e3o de uma m\u00fasica ou de uma banda \u2014 pois n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com o Dead Can Dance que me ocorre isso; \u00e9 com certa frequ\u00eancia, na verdade. \u00c9 como se, em determinadas ocasi\u00f5es, uma manta dessas de tecido ao mesmo tempo \u00e1spero e fino, de fios entrela\u00e7ados e cheios de n\u00f3s, descesse sobre meus olhos, um v\u00e9u de indecis\u00f5es e obscuridades que impedem um julgamento l\u00edmpido e efetivo, deixando-me desequilibrado entre pensamentos e sensa\u00e7\u00f5es incertas. A luz entra filtrada e os vultos s\u00e3o vis\u00edveis do outro lado; a convic\u00e7\u00e3o sobre o que se est\u00e1 vendo ou sentindo, contudo, n\u00e3o existe, fica movendo-se entre a empatia e o desinteresse, a conex\u00e3o ef\u00eamera e a indiferen\u00e7a geral. Pragmaticamente, talvez fosse o caso de dizer, nestas ocasi\u00f5es: n\u00e3o gosto. Se o agrado n\u00e3o vem de imediato, incontest\u00e1vel, deve-se descartar a experi\u00eancia, afinal, h\u00e1 um oceano infind\u00e1vel de outras m\u00fasicas por a\u00ed aguardando para ser escutado, e n\u00e3o valeria a pena \u2014 de acordo com essa teoria objetivista \u2014 perder tempo com aquilo que exige tanta recapitula\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o para ser assimilado e apreciado\u2026 Isso, por\u00e9m, n\u00e3o funciona comigo \u2014 em termos de m\u00fasica, minha racionalidade tem fronteiras claramente delimitadas. H\u00e1 tempos que reconhe\u00e7o e convivo com estes conflitos nascidos de res\u00edduos m\u00ednimos que certas bandas e certas m\u00fasicas deixaram (e continuam deixando) em mim, em audi\u00e7\u00f5es long\u00ednquas e desvanecidas (ou na semana passada, a ser recuperada daqui alguns anos) \u2014 \u00e0s vezes algo de complexo ou de misterioso, que n\u00e3o se revela f\u00e1cil, o oposto da m\u00fasica pop que atrai de imediato, do rock \u2019n\u2019 roll que ainda amo como a religi\u00e3o de minha adolesc\u00eancia e da qual jamais desacreditei\u2026 A sugest\u00e3o de algo rec\u00f4ndito, a despeito de uma instrumenta\u00e7\u00e3o ou melodia que pouco me atraia, uma obliquidade intrigante qualquer que me chame a aten\u00e7\u00e3o por meio segundo, isso basta. Sei que n\u00e3o esquecerei, \u00e9 mais uma banda ou uma m\u00fasica para o meu cat\u00e1logo das coisas que n\u00e3o me decido se gosto ou n\u00e3o gosto. \u00c9 como se houvesse uma cota reservada para isso, obrigat\u00f3ria, um cultivo que se d\u00e1 num jardim \u00e0 parte, acobertado em algum canto menos luminoso do terreno do meu c\u00e9rebro. Um espa\u00e7o segregado mas nunca totalmente rejeitado: \u00e9 a\u00ed que mora o Dead Can Dance, entre outros. O disco que ouvi algumas vezes nesses \u00faltimas dias, sempre amortalhado nestas sombras de aten\u00e7\u00f5es inconstantes, foi o primeiro que a banda lan\u00e7ou, em 1984. E, para mim, foi uma revela\u00e7\u00e3o chocante: o Dead Can Dance nasceu na Austr\u00e1lia! (N\u00e3o, eles n\u00e3o anunciam isso na m\u00fasica \u2014 eu li em algum lugar.) Se me perguntassem, eu daria como certo que eles eram alem\u00e3es ou, v\u00e1 l\u00e1, ingleses ou poloneses, qualquer coisa mais antiga cujo concreto dos pr\u00e9dios guarda ainda a lembran\u00e7a de tempos mais sombrios e suas trag\u00e9dias variadas \u2014 uma vez descartada a possibilidade de serem de algum reino de conto de fadas g\u00f3tico, claro. Mas n\u00e3o, nada disso, eles s\u00e3o \u003Ci\u003Eaussies\u003C\/i\u003E; de alguma maneira insond\u00e1vel para mim conceberam esta m\u00fasica trevosa na terra cheia de cangurus e surfistas que deu ao mundo o Australian Crawl e o Men at Work. Lisa Gerrard, a vocalista \u2014 e cujos discos solos, estes sim eu os adoro inequivocamente \u2014 nasceu em Melborne; Brendan Perry, seu parceiro mais longevo na banda, \u00e9 londrino, o que poderia explicar o fen\u00f4meno em parte\u2026 Ainda assim, a coisa me soa incongruente, por mais que estes esteri\u00f3tipos sejam apenas isso \u2014 esteri\u00f3tipos. Devem existir, afinal, bibliotecas na Austr\u00e1lia, e decerto nem todo mundo tem o cabelo descolorido por parafina e usa bermudas o tempo todo. Deve at\u00e9 chover de vez em quando. O disco de n\u00famero 2 da banda foi lan\u00e7ado em 1985 e chama-se *Spleen and Ideal*, refer\u00eancia ao t\u00edtulo da parte inicial do *Les Fleurs du mal*, de Baudelaire; a capa \u00e9 um primor e uma prova cabal da insuspeit\u00e1vel beleza que nasce de certas combina\u00e7\u00f5es entre um bom conceito e uma p\u00e9ssima execu\u00e7\u00e3o; a primeira faixa chama-se *De profundis* ([mais livro de capa dura velha carcomida pelo tempo](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/De_Profundis_(livro))) e outras trazem estes t\u00edtulos: *Ascension*, *Circumradiant Dawn* e *Advent*. Uma extravag\u00e2ncia completa de dark wave e poesia e misticismo \u2014 vindos da Austr\u00e1lia \u2014 que garante o lugar do Dead Can Dance no meu jardim das afinidades nebulosas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"foto de autor desconhecido, copiada [daqui](http:\/\/obviousmag.org\/archives\/2012\/06\/dead_can_dance.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":734,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2018","post_timestamp":"2018-09-03T18:01:28+00:00","url":"2018_09_03_discos_do_mes_agosto_de_2018","post":"**Eugen Jochum \u0026 Berliner Philharmoniker - Bruckner: 9 Symphonies**\r\n\r\nDe forma longa e pacientemente planejada, regulada por limita\u00e7\u00f5es de dinheiro e de oportunidades, administrando com cuidado os espa\u00e7os dispon\u00edveis nas estantes, refreando (com dificuldades) a \u00e2nsia infantil que ainda hoje experimento em tudo que diz respeito ao h\u00e1bito de comprar discos \u2014 em suma: atrav\u00e9s de todo um dif\u00edcil arranjo de circunst\u00e2ncias e disciplina foi que eu adquiri, nos \u00faltimos tempos, tr\u00eas box-sets com as sinfonias completas de Beethoven, Mahler e Brahms, o trio de tit\u00e3s imortais da m\u00fasica cl\u00e1ssica. N\u00e3o s\u00f3 isso: fiz tamb\u00e9m leituras pr\u00e9vias a respeito delas e downloads (ops, n\u00e3o contem para ningu\u00e9m) de outras vers\u00f5es das mesmas obras, gravadas por outros maestros regendo outras orquestras, para fazer audi\u00e7\u00f5es comparadas e eleger minhas favoritas, escut\u00e1-las at\u00e9 memoriz\u00e1-las, tornar-me \u00edntimo dessas epop\u00e9ias t\u00e3o fascinantes, t\u00e3o m\u00edticas, muralhas que aparentam ser inexpugn\u00e1veis ante o desmoronamento de todo o resto. Beethoven, Mahler e Brahms n\u00e3o foram, obviamente, escolhidos ao acaso: conhe\u00e7o bem j\u00e1 algumas de suas sinfonias e sei que h\u00e1 ainda um universo imenso a ser desbravado em seus tantos e tantos movimentos e sons e experi\u00eancias. Qu\u00e3o ir\u00f4nico \u2014 e educativo \u2014 ser\u00e1 ent\u00e3o o fato de que estou come\u00e7ando esta aventura de imers\u00e3o sinf\u00f4nica n\u00e3o por Beethoven, e nem por Mahler e nem por Brahms, por nenhuma destas t\u00e3o acalentadas aquisi\u00e7\u00f5es, mas por\u2026 Anton Bruckner? E olha que nem tenho CD algum com nenhuma de suas nove sinfonias; tenho apenas os arquivos digitais (arquivos [lossless](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Compress\u00e3o_sem_perda_de_dados), claro) da caixa lan\u00e7ada pela Deutsche Grammophon reunindo as nove obras gravadas pela [Berliner Philharmoniker sob a reg\u00eancia de Eugen Jochum](https:\/\/www.deutschegrammophon.com\/en\/cat\/4698102), al\u00e9m de vers\u00f5es isoladas de uma ou outra em mp3. Bem, creio que alguma medida de imprevisibilidade, eventualmente, \u00e9 imposs\u00edvel evitar que se infiltre nestes planos e altere o rumo dos acontecimentos. Deparei-me com uma grava\u00e7\u00e3o recente da s\u00e9tima (essa [aqui](https:\/\/www.discogs.com\/Bruckner-Wagner-Andris-Nelsons-Gewandhausorchester-Symphony-No-7-Siegfrieds-Funeral-March\/release\/11812858)) umas semanas atr\u00e1s, que acabei escutando e me deslumbrando, da\u00ed escutei outra, e li tamb\u00e9m alguma coisa a respeito da quarta (parece ser esta a obra-prima \u2014 \u0022a nona\u201d \u2014 de Bruckner)\u2026 E assim foi, uma coisa puxando a outra, de modo que agora estou escutando as sinfonias deste (tamb\u00e9m) alem\u00e3o em sequ\u00eancia, atentamente, enquanto Beethoven, Mahler e Brahms aguardam na estante, resignados, ainda embrulhados em seus inv\u00f3lucros de pl\u00e1stico, talvez apenas um pouco magoados, embora seus orgulhos e emp\u00e1fias teut\u00f4nicas os impe\u00e7am de demonstr\u00e1-lo muito abertamente. Sim, eu vejo ali na minha estante de discos certos rostos, certas express\u00f5es, certos fantasmas, \u00e9 coisa minha, nada muito psic\u00f3tico e nem perigoso, eu espero. Bruckner, a figura, na minha imagina\u00e7\u00e3o tem fei\u00e7\u00f5es bastante diferentes destes outros: esse nome me faz pensar em algu\u00e9m grande, obeso, de gestos amplos, barba farta, algo debochado e depravado, um sujeito parecido com o [Quint](https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/736WfO6TIeY\/maxresdefault.jpg) de *Tubar\u00e3o*. Sei l\u00e1 como ele era \u2014 provavelmente algo muito longe disso, j\u00e1 que n\u00e3o s\u00e3o muitos os registros hist\u00f3ricos de pescadores beberr\u00f5es que eram tamb\u00e9m grandes compositores eruditos nas horas vagas. O que sabemos \u00e9 que suas sinfonias s\u00e3o essas coisas incr\u00edveis, cheias de climas e mudan\u00e7as, verdadeiramente \u00e9picas, massas sonoras colossais movendo-se entre tempestades e placidez\u2026 Alternando tumulto e calmaria\u2026 Sim, sim, todos esses clich\u00eas. Perdoem-me. O neg\u00f3cio \u00e9 que descrever sinfonias, tentar transpor para o mundo das palavras as imagens que estes sons evocam em nossas mentes, \u00e9 muito dif\u00edcil de fazer sem lan\u00e7ar m\u00e3o destas express\u00f5es t\u00e3o desgastadas, que nem sequer costumam ter o efeito na medida desejada, ainda mais nas m\u00e3os de um inepto como eu, ent\u00e3o paremos de perfil\u00e1-las. Uma alegoria, no entanto, pode ser bastante eficiente; roubo uma de Mallarm\u00e9, o poeta que dizia que o mundo existe apenas para terminar em um livro: Bruckner tem me convencido de que o mundo, na verdade, existe apenas para terminar em uma sinfonia.\r\n\r\n**Roland P\u00f6ntinen, Torleif Thed\u00e9en \u0026 Stenhammar Quartet - Bergman: Music from the Films**\r\n\r\nS\u00e3o v\u00e1rias as efem\u00e9rides importantes em 2018: os [100 anos da morte de Debussy](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2018_01_26_impressoes_auditivas_vol_i); o centen\u00e1rio dos nascimentos de Ingmar Bergman e de Leonard Bernstein; os 50 anos do lan\u00e7amento de *2001: A Space Odyssey*. Costumo assistir ao cl\u00e1ssico da dupla Arthur C. Clarke \u0026 Stanley Kubrick pelo menos uma vez por ano \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[(*)](#f1), embora este ano ainda n\u00e3o o tenha feito (n\u00e3o tardar\u00e1). O tributo ao diretor sueco, por outro lado, venho prestando j\u00e1 h\u00e1 alguns meses, vendo e revendo seus filmes, e escutando este \u00e1lbum chamado *Bergman: Music from the Films*, [lan\u00e7ado pela BIS](http:\/\/bis.se\/performers\/pontinen-roland\/ingmar-bergman-music-from-the-films) no m\u00eas passado. O repert\u00f3rio \u00e9 fant\u00e1stico e as performances de Roland P\u00f6ntinen (piano), Torleif Thed\u00e9en (violoncelo) e do Stenhammar Quartet s\u00e3o de primeir\u00edssima. N\u00e3o sei se todas as faixas escolhidas s\u00e3o obras (ou partes de obras) que figuram nas trilhas-sonoras dos filmes de Bergman, ou se algumas escolhas foram por afinidade, ou algo assim; \u00e9 indiscut\u00edvel, no entanto, como a coisa funciona bem. Por exemplo: as su\u00edtes para violoncelo de Bach (que aparecem no \u00faltimo filme de Bergman, *Saraband*, de 2003), as de n\u00famero 2 em diante, costumam ser eclipsadas pela magnific\u00eancia da primeira, que \u00e9 uma daquelas melodias que mesmo quem nunca ouviu falar em Bach deve conhecer, de t\u00e3o usada e abusada que \u00e9 esta obra \u2014 j\u00e1 escutei-a at\u00e9 mesmo numa propaganda de construtora de edif\u00edcios aqui em Florian\u00f3polis, coisa de muitos anos atr\u00e1s, e o pior, devo admitir, \u00e9 que o efeito daquele comercial foi poderoso, pois ainda hoje me recordo das imagens de uma piscina refletindo um c\u00e9u azul imaculado, quase que um espelho de t\u00e3o lisa e brilhante, e fam\u00edlias de fei\u00e7\u00f5es escandinavas, sorridentes e despreocupadas, caminhando de m\u00e3os dadas pelas cercanias verdes do \u201cempreendimento\u0022 que a tal propaganda anunciava com todo o cinismo e a indec\u00eancia t\u00edpicas da publicidade deste ramo de neg\u00f3cios. Sim, estas imagens eug\u00eanicas e falsificadas (\u00e9 duro dizer isso; sinto-me como que num div\u00e3 de psicanalista revelando alguma coisa muito suja e inconfess\u00e1vel) est\u00e3o frequentemente entre as coisas que me v\u00eam \u00e0 mente quando escuto a su\u00edte n\u00famero 1, uma maldi\u00e7\u00e3o ultrajante que nunca consegui extirpar, infelizmente, mas que ao menos ensinou-me bastante sobre o pouco controle que temos no que diz respeito \u00e0s associa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o estabelecidas em nossas mentes, a arbitrariedade das rela\u00e7\u00f5es entre m\u00fasica, imagens e recorda\u00e7\u00f5es que constru\u00edmos ao longo da vida, principalmente aquelas forjadas na inf\u00e2ncia. \u00c9 uma escolha arrojada e muito acertada, ao fim e ao cabo, os curadores do repert\u00f3rio deste disco terem permanecido fi\u00e9is ao esp\u00edrito de Bergman e inclu\u00eddo trechos das menos cotadas mas n\u00e3o menos belas su\u00edtes de n\u00fameros 2, 4 e 5 em seu tracklist e deixado de lado a n\u00famero 1 \u2014 no conjunto, uma m\u00fasica magn\u00edfica que combina muit\u00edssimo bem com os climas lentos e saturados de religiosidade her\u00e9tica dos filmes do mestre sueco, nascido 100 anos atr\u00e1s, falecido h\u00e1 11. Outros pontos altos s\u00e3o trechos de sonatas de Schubert e Scarlatti, al\u00e9m de um indefect\u00edvel Chopin e de uma descoberta para mim, o quinteto para piano Op. 44 de Schumann.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E(*)\u003C\/b\u003E Tenho percebido que nos \u00faltimos tempos o ju\u00edzo geral a respeito de *2001: A Space Odyssey* vem se modificando: de quase unanimidade o filme vai se transformando, pouco a pouco, em extravag\u00e2ncia antiga de gosto duvidoso, mesmo entre os cin\u00e9filos mais sofisticados, e isso me surpreende bastante. Dia desses, conversando com um amigo, ele me dizia que n\u00e3o gosta do filme pois acha seus efeitos especiais e a maquiagem dos macacos e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea tudo muito defasado, ris\u00edvel at\u00e9, o que comprometeria toda a obra\u2026 Fiquei boquiaberto diante dessa opini\u00e3o, eu que nem me importo muito com essas quest\u00f5es t\u00e9cnicas, mas que achava (ingenuamente, pelo visto) que esse aspecto do filme ainda era um de seus prod\u00edgios, ainda n\u00e3o havia sido igualado em sua beleza e naturalidade, mesmo passado meio s\u00e9culo de seu lan\u00e7amento. Bem, talvez o incr\u00edvel avan\u00e7o tecnol\u00f3gico dos efeitos especiais tal como vistos nestes filmes contempor\u00e2neos de super-her\u00f3is, com seus cataclismas e apocalipses delirantes, que de t\u00e3o r\u00e1pidos e deslumbrantes mal permitem que o olho humano (ou, ao menos, o meu par de olhos j\u00e1 meio cansados) apreenda por completo aquilo tudo que est\u00e1 observando \u2014 talvez tudo isso esteja j\u00e1 enviesando a percep\u00e7\u00e3o das pessoas sobre o lento e herm\u00e9tico filme de Kubrick, quem sabe at\u00e9 mesmo inviabilizando sua aprecia\u00e7\u00e3o e as reflex\u00f5es que ele prop\u00f5e\u2026 N\u00e3o me vejo de modo algum como um conservador em termos de arte; se esta \u00e9 a nova forma e a nova fun\u00e7\u00e3o do cinema, assim determinada por seus criadores e sancionada por seu p\u00fablico, por mim tudo bem. Na contram\u00e3o deste novo consenso, contudo, minha paix\u00e3o por *2001* n\u00e3o arrefece de maneira nenhuma.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":733,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. VII","post_timestamp":"2018-08-29T02:50:24+00:00","url":"2018_08_28_impressoes_auditivas_vol_vii","post":"* Mariposas ficam enlouquecidas com o barulho produzido por um molho de chaves balan\u00e7ando. \u00c9 verdade, fizemos o teste aqui em casa, e a pobre da mariposa que nos serviu de cobaia ficou doidinha voando desvairadamente de um lado para outro, fazendo bruscas mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o, um comportamento bem diferente daquele eterno voar em c\u00edrculos que lhes \u00e9 caracter\u00edstico. A explica\u00e7\u00e3o vem pela f\u00edsica: as chaves se estatelando umas nas outras produzem determinado som que n\u00f3s humanos n\u00e3o percebemos (devido sua frequ\u00eancia superior \u00e0quela que nossos ouvidos conseguem captar), ru\u00eddo semelhante ao som que os morcegos emitem durante seus v\u00f4os noturnos e que os auxilia a desviarem-se de obst\u00e1culos invis\u00edveis na escurid\u00e3o \u2014 os ecos que eles recebem de volta o tempo todo, rebatidos por tudo ao seu redor, permitem aos morcegos \u201cenxergar com os ouvidos\u201d o terreno no qual se encontram. Trata-se de um ultrassom para n\u00f3s humanos, mas n\u00e3o para as mariposas: elas conseguem escutar este som emitido pelos morcegos, que, como se sabe, al\u00e9m de se transformarem em Bela Lugosi e Christopher Lee para degustar sangue humano, curtem tamb\u00e9m um *tartare* de mariposa de vez em quando, para variar o card\u00e1pio. Os tantos e tantos anos de evolu\u00e7\u00e3o, de conflitos entre seres esfomeados e seres apetitosos, dotaram ent\u00e3o as fr\u00e1geis mariposas desta t\u00e1tica evasiva, que \u00e9 posta em a\u00e7\u00e3o quando elas captam o som amea\u00e7ador de um morcego movendo-se pelas cercanias: voar alucinadas de um lado para outro, para escapar do predador que pode estar indo em sua dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel tudo isto? O ep\u00edlogo dessa nota, contudo, \u00e9 meio triste: a pobre coitada da cobaia aqui de casa estava bem protegida de morcegos e de quaisquer outros perigos; o ambiente estava aquecido e iluminado, a m\u00fasica que ouv\u00edamos decerto n\u00e3o era m\u00e1. O destino, n\u00e3o obstante, foi implac\u00e1vel e encontrou-se com ela minutos depois, terminando-lhe os dias no azulejo da sala, morte por esmagamento, pisada por algu\u00e9m que n\u00e3o a percebeu ali parada, provavelmente exausta depois de nosso cruel experimento cient\u00edfico. Suponho que ser\u00e3o ainda necess\u00e1rias muitas gera\u00e7\u00f5es de mariposas antes que elas aprendam os perigos de se pousar no ch\u00e3o de um apartamento.  \r\n* Mas isso tudo foi outro dia, e aquele f\u00f4ra um dia bastante normal \u2014 ter como companheira uma astrof\u00edsica faz com que experimentos cient\u00edficos caseiros n\u00e3o sejam exatamente uma novidade para mim. Ontem, por outro lado, em certo momento o dia pareceu-me algo estranho, inerte, esgotado antes do previsto, sem mudan\u00e7as de cor, sem mariposas sondando as janelas, como se j\u00e1 defunto antes mesmo de tornar-se amanh\u00e3 \u2014 um dia liquidado antes mesmo do crep\u00fasculo e da noite. E assim, julguei sem maiores alarmes, as coisas ficariam, irresolvidas e in\u00e9ditas, as horas desgarradas e suspensas no infinito. Sorte que tem m\u00fasica para isso, tem m\u00fasica para tudo: *Alwyn: String Quartets Nos. 10 to 13*, quatro quartetos do compositor ingl\u00eas William Alwyn gravados pelo tamb\u00e9m ingl\u00eas Tippett Quartet. Sei de nada sobre Alwyn, mas afei\u00e7oei-me bastante a estes quartetos, sem que eles sejam propriamente uma m\u00fasica extraordin\u00e1ria. De fato, interrompi tudo que estava fazendo, trabalho e tarefas dom\u00e9sticas, para exclusivamente escutar-lhes, e decidi assim ficar enquanto o tempo permanecesse retido em seu dilema \u2014 quem sabe tivesse ele pr\u00f3prio subitamente tornado-se consciente de sua natureza secreta e indecifr\u00e1vel, e assim ficou, estancado, indeciso, estarrecido, e sabe-se l\u00e1 quanto tempo demoraria o tempo voltar a ser tempo. A m\u00fasica amena e descomplicada de Alwyn ressoou alto aqui em casa, flutuando alheia ao imbr\u00f3glio todo, e ent\u00e3o, nem percebi exatamente quando, o impasse resolveu-se: o disco acabou, encaminhou-se a noite, tudo terminou como de costume. Dia seguido de noite, nem mais dia nem menos dia do que qualquer outro antes ou depois. Luzes amarelas e mariposas noturnas, leitura err\u00e1tica e sono corretivo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"\u0022L\u0027empire des lumi\u00e8res\u0022 (1954), de Ren\u00e9 Magritte.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":732,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. VI","post_timestamp":"2018-08-15T20:48:50+00:00","url":"2018_08_15_impressoes_auditivas_vol_vi","post":"* Estava aqui pensando sobre os usos utilit\u00e1rios da m\u00fasica. Um deles, nem um pouco desimportante: escut\u00e1-la alta, com fones de ouvido, para abafar o barulho que vizinhos pouco civilizados imp\u00f5em, cada vez mais frequentemente, a todos ao seu redor. Valha-me Deus! Das tantas trag\u00e9dias nossas em andamento, neste pa\u00eds, esta \u00e9 certamente uma das menos graves, das menos relevantes, mas justo ela, creio, ainda vai me render um AVC ou um infarte fulminante: a perda gradual do direito ao sil\u00eancio, do direito ao descanso. \u201cSans\u00e3o, os filisteus est\u00e3o chegando!\u201d\r\n* Foi durante o Romantismo que alguns compositores e instrumentistas come\u00e7aram a desenvolver certos desacordos (quando n\u00e3o ojeriza frontal e conflituosa) com os gostos do seu p\u00fablico \u2014 me refiro ao p\u00fablico de concertos, que come\u00e7ava a se tornar um dos vetores no mundo da m\u00fasica, naquela \u00e9poca, com a populariza\u00e7\u00e3o dos concertos abertos ao p\u00fablico e com a transforma\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos em her\u00f3is populares. Este fen\u00f4meno correlato come\u00e7ou ent\u00e3o a desenvolver-se: m\u00fasicos come\u00e7aram a se dividir em dois tipos, os que compunham para o p\u00fablico (e, portanto, para a fama e sucesso) e os que compunham para si, em detrimento expl\u00edcito da causa que movia aqueles do primeiro tipo (Beethoven talvez tenha sido o primeiro grande representante desta categoria, ele, que na \u00e9poca de seu rompimento com as expectativas do p\u00fablico e da cr\u00edtica, j\u00e1 era um grande her\u00f3i popular e reconhecidamente genial). Estes \u00faltimos, n\u00e3o raro, fizeram refer\u00eancias em suas composi\u00e7\u00f5es e em seus textos acerca daquilo que identificavam ser uma vulgariza\u00e7\u00e3o crescente do gosto do p\u00fablico, a mediocridade espiritual da burguesia materialista que frequentava seus concertos mas que n\u00e3o conseguia acompanhar ou entender a evolu\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica, um p\u00fablico que s\u00f3 queria saber de m\u00fasica f\u00e1cil e de \u00f3peras c\u00f4micas italianas, etc. A \u00faltima das 20 pe\u00e7as que comp\u00f5e a obra *Carnaval* de Robert Schumann se chama *Marche des \u0022Davidsb\u00fcndler\u0022 contre les Philistins*. Schumann talvez tenha sido o rom\u00e2ntico arquet\u00edpico. Morreu aos 46 anos de uma doen\u00e7a, \u00e0 \u00e9poca, diagnosticada como \u0022melancolia psic\u00f3tica\u201d. As \u00faltimas obras de Beethoven foram consideradas \u201cru\u00ednas\u0022 e \u201cescombros\u0022 por muitos de seus cr\u00edticos contempor\u00e2neos, o que, para mim, soam como belos elogios, mas evidentemente n\u00e3o o eram naquela \u00e9poca.\r\n* Andrei Bely: \u201cTalvez eu deva lhe contar o maior dos mist\u00e9rios dentre os mist\u00e9rios, para que voc\u00ea sossegue de uma vez: n\u00e3o existem mist\u00e9rios.\u201d","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"\u201cChanteurs\u201d, de Honor\u00e9 Daumier (1860), copiada [daqui](http:\/\/drakontomalloi.tumblr.com\/post\/173143741360\/drakontomalloi-honor\u00e9-daumier-singers-1860).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":731,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2018","post_timestamp":"2018-08-02T04:00:20+00:00","url":"2018_08_02_discos_do_mes_julho_de_2018","post":"Hora de escrever novamente sobre o Thaw: tem [disco novo](https:\/\/agoniarecords.bandcamp.com\/album\/grains) deles na pra\u00e7a \u2014 na verdade, n\u00e3o t\u00e3o novo assim: foi lan\u00e7ado em dezembro passado, mas s\u00f3 uns dias atr\u00e1s \u00e9 que fui escut\u00e1-lo \u2014 e \u00e9 m\u00fasica nada menos do que espetacular, como aparentemente sempre haver\u00e1 de ser em se tratando desses poloneses. Vou ainda mais longe: metal n\u00e3o pode ficar melhor do que isso, pelo menos n\u00e3o se voc\u00ea concordar comigo a respeito de quais s\u00e3o os atributos mais importantes do g\u00eanero, a saber: seriedade, peso, escurid\u00e3o, misticismo, mist\u00e9rio. O triunfo do Thaw \u00e9 assinalar este grande momento da m\u00fasica tenebrosa, quando uma de suas facetas n\u00e3o apenas evoluiu e deixou de ser coisa de adolescentes arruaceiros e tornou-se arte de verdade \u2014 arte que mere\u00e7a ser chamada por esse nome, sem rodeios e nem escusas \u2014, mas quando tornou-se inclusive do tipo grande, arte profunda e elevada, concebida e transmitida com coragem e independ\u00eancia inegoci\u00e1veis, vis\u00e3o e intui\u00e7\u00e3o leg\u00edtimas antecedendo a t\u00e9cnica, e um sentido de jornada espiritual que claramente os distingue (ao Thaw e a todos os outros que estejam seguindo nesta mesma senda) da grande maioria dos grupos de m\u00fasica pesada mundo afora. Porque fazer barulho e encher as letras e as capas dos discos com refer\u00eancias ao capeta \u00e9 f\u00e1cil; fazer o som que esses caras fazem, isso j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria.\r\n\r\nN\u00e3o d\u00e1 de afirmar nada parecido sobre o Amorphis, temos que reconhecer, mas eu tamb\u00e9m gosto muito desses finlandeses. Ao longo deste m\u00eas de julho escutei intensamente ao *Tuonela*, CD que lembro de ter comprado junto com o *Machina\/The Machines of God* do Smashing Pumpkins logo ap\u00f3s o lan\u00e7amento deste \u00faltimo, no come\u00e7o de 2000 \u2014 e l\u00e1 se v\u00e3o quase 20 anos. Durante todo esse tempo, nunca acumulou muito p\u00f3 em torno dele: tiro-o da estante para escutar com bastante frequ\u00eancia (me refiro ao *Tuonela*; do *Machina\/The Machines of God* n\u00e3o posso dizer o mesmo) e j\u00e1 h\u00e1 muito tempo sou completamente familiarizado com todas as suas faixas, conhe\u00e7o-o inteiramente do primeiro ao \u00faltimo segundo. Por isso me parece incr\u00edvel que, mesmo com toda essa intimidade, o disco ainda retenha algo m\u00e1gico que pode torn\u00e1-lo, subitamente, quase que numa novidade, algo de pot\u00eancia in\u00e9dita e magn\u00e9tica: por cerca de uma semana escutei-o diariamente, completamente deslumbrado por m\u00fasicas fant\u00e1sticas como *Greed* e *The Way*. N\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel isso? Se eu tivesse que meter apressadamente numa mala apenas uma pequena pilha de discos, digamos que uns 20, em meio a uma fuga urgente devido a um inc\u00eandio ou a um segundo turno de elei\u00e7\u00e3o presidencial com Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, ou qualquer outra cat\u00e1strofe desesperadora deste tipo, acho que eu n\u00e3o esqueceria do meu *Tuonela*.\r\n\r\nN\u00e3o me esqueceria tampouco de meter na mala o disco duplo que traz as duas grava\u00e7\u00f5es de Glenn Gould para as *Goldberg Variations*, a obra-prima de Bach (h\u00e1 quem prefira as missas ou as cantatas; eu fico com as *Goldberg Variations*). Ou talvez nem fosse necess\u00e1rio: pois este \u00e9 do tipo m\u00e1gico de m\u00fasica que basta uma \u00fanica audi\u00e7\u00e3o para que se leve-a consigo para o resto da vida, sem que seja necess\u00e1ria a posse de CDs ou de qualquer outro tipo de objeto f\u00edsico que reproduza as ondas sonoras correspondentes \u2014 a m\u00fasica permanece conosco, sua Aria, ao menos (as varia\u00e7\u00f5es podemos cada um inventar nossas pr\u00f3prias), invis\u00edvel, tranquila, imperec\u00edvel, flutuando por aquele canto nosso mais \u00edntimo e emp\u00e1tico que tende a resistir aos apelos por desumaniza\u00e7\u00e3o e por disc\u00f3rdia, por mais que estes pare\u00e7am elevar cada vez mais o volume e a estrid\u00eancia de suas vozes. Podem vir: venham mais ruidosos e insistentes; mais raivosos e hist\u00e9ricos. Venham Alckmin, Bolsonaro, sei l\u00e1 mais quem, essa gente c\u00ednica e arrivista prestes a tomar conta das conversas de todo mundo at\u00e9 o fim do ano, a berrar preconceitos e desinforma\u00e7\u00e3o em palanques apinhados de gente que deveria estar na cadeia por tantos e tantos crimes e por nunca utilizar um maldito dum desodorante que evite aquelas marcas redondas de suor debaixo do bra\u00e7o, mal escondendo quem s\u00e3o seus patr\u00f5es, a quais interesses servem, a pobreza de suas vis\u00f5es de mundo. Podem vir: n\u00e3o ir\u00e3o corromper, nunca, aqueles que t\u00eam consigo as *Goldberg Variations*. Ao piano \u2014 instrumento mais pr\u00f3ximo ao cravo para o qual Bach originalmente comp\u00f4s sua partitura \u2014 Glenn talvez seja imbat\u00edvel, mas a riqueza dessa m\u00fasica \u00e9 algo t\u00e3o extraordin\u00e1rio que ao experiment\u00e1-la sendo executada por um quarteto de cordas, ningu\u00e9m estar\u00e1 necessariamente fora de seu ju\u00edzo se cogitar estar ouvindo a vers\u00e3o ideal, o m\u00e1ximo da beleza poss\u00edvel, a pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o perfeita tal qual teria sido imaginada em sonhos pelo seu autor, o mestre supremo, o velho Johann Sebastian, em meio aos seus incont\u00e1veis filhos, seus potes de tinta e canetas tinteiros e suas pilhas de pap\u00e9is, instrumentos por todos os lados, seu mundo particular feito de mais m\u00fasica do que j\u00e1 o foi o de qualquer outro ser humano. Cortesia do Quatuor Ardeo essa maravilhosa transcri\u00e7\u00e3o das *Goldberg Variations* para dois violinos, uma viola e um violoncelo.\r\n\r\nAgora sinto que devo pedir desculpas a quem estiver me lendo, por citar estes t\u00e3o indignos geraldos e jaires nos par\u00e1grafos anteriores: perdoem-me por mencionar gente dessa estatura junto de Bach e Glenn Gould e das mo\u00e7as do Quatuor Ardeo, pelo travo azedo que devo ter adicionado a\u00ed na periferia de suas mentes. Creio que teremos sim gente digna concorrendo no pleito de outubro; citei apenas os asquerosos para efeito de contraste. Parafraseando Carl Sagan naquele lind\u00edssimo epis\u00f3dio final da s\u00e9rie *Cosmos*: \u201cwe are what hydrogen atoms can do after 15 billion years of cosmic evolution\u201d: a beleza infind\u00e1vel de um Bach, mas tamb\u00e9m a iniquidade de um lambe-botas de militares assassinos. Sorte que estes ter\u00e3o, pouco a pouco, seus nomes escoados para o esgoto da hist\u00f3ria, e no futuro suas imagens assustar\u00e3o somente os pobres infelizes que passarem diante das rid\u00edculas fileiras de retratos de ex-n\u00e3o-sei-o-qu\u00eas que haver\u00e3o de estar ainda penduradas nas paredes dos pr\u00e9dios p\u00fablicos em cujas salas tais figuras tocavam suas negociatas \u2014 as salas com seus quadros bregas e pomposos, seus computadores praticamente vazios para evitar que municiem de provas algum eventual acusador que consiga apreender-lhes os arquivos, men\u00e7\u00f5es \u00e0 Deus e \u00e0 p\u00e1tria em algum lugar sobre as mesas \u2014, e seus legados ser\u00e3o relembrados, com triste e incontest\u00e1vel desprezo, somente por soci\u00f3logos e outros masoquistas que se dedicarem a estudar nossa triste sina de corrup\u00e7\u00e3o e atraso. Enquanto isso e at\u00e9 o fim dos tempos Bach permanecer\u00e1 um gigante, e tudo que se pode pensar quando se tem este nome diante de si \u00e9 rever\u00eancia, felicidade, fraternidade, assim como Brahms \u2014 finalmente cheguei ao nome que queria, e quanto nos custou! \u2014 e a beleza farta e generosa de sua obra, cuja parte que sempre mais me atraiu, apesar de suas quatro magn\u00edficas sinfonias \u2014 e apesar at\u00e9 mesmo de *Ein deutsches Requiem*, obra majestosa pela qual sinto um fasc\u00ednio absoluto \u2014, \u00e9 a camer\u00edstica: os quartetos, quintetos, trios, sonatas, etc. Acabo de perceber, ali\u00e1s, que raramente cito grava\u00e7\u00f5es de Brahms por aqui, o que \u00e9 bastante estranho considerando-se que ele \u00e9, provavelmente, meu compositor favorito\u2026 Bem, talvez seja a pr\u00f3pria perenidade de sua m\u00fasica aqui comigo o que me faz escrever pouco a respeito dela. Como esse texto j\u00e1 vai longo demais, deixo apenas recomendado um disco dedicado \u00e0 Brahms lan\u00e7ado h\u00e1 pouco: Jean-Guihen Queyras no violoncelo e Alexandre Tharaud no piano tocando [duas sonatas e algumas das Dan\u00e7as h\u00fangaras](https:\/\/www.discogs.com\/Jean-Guihen-Queyras-Alexandre-Tharaud-Brahms-Cello-Sonatas-Hungarian-Dances\/release\/11445309). A quinta destas *Dan\u00e7as h\u00fangaras*, a [mais famosa de todas](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QAMxkietiik), possui uma curiosidade: Brahms escreveu-a pensando estar transcrevendo para o piano uma antiga e an\u00f4nima can\u00e7\u00e3o popular h\u00fangara, quando na verdade tratava-se de uma composi\u00e7\u00e3o de B\u00e9la K\u00e9ler. Bem, acaso eu tenha estragado o dia de algu\u00e9m ao citar deprimentes personagens da pol\u00edtica brasileira \u2014 algu\u00e9m que esteja disciplinadamente tentando manter-se saud\u00e1vel e feliz, longe da intermin\u00e1vel trag\u00e9dia do notici\u00e1rio p\u00e1trio, e n\u00e3o imaginava ver esse nomes por aqui \u2014 espero que com a recomenda\u00e7\u00e3o deste disco eu tenha pago uma indeniza\u00e7\u00e3o bem mais do que justa. E se nunca escutou \u00e0s *Goldberg Variations*, sugiro tamb\u00e9m que o fa\u00e7a imediatamente: \u00e9 po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica cujo efeito persiste por 1.000 anos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":730,"title":"Antes do sol","post_timestamp":"2018-07-17T00:01:25+00:00","url":"2018_07_16_antes_do_sol","post":"D\u00ea uma olhada na pintura acima (ou em maiores dimens\u00f5es [aqui](https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Giorgione_(attributed_to)_-_The_Hour_Glass_-_Google_Art_Project.jpg)), obra atribu\u00edda a [Giorgione](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Giorgione), artista italiano que viveu entre os s\u00e9culos XV e XVI. H\u00e1 um mundo de coisas que podem ser ditas sobre ela, mas \u00e9 claro que o mais importante \u00e9 o que se pode dizer a respeito da figura com o violino fazendo sua pequena m\u00fasica. Quase consigo ouvi-la: simples e espont\u00e2nea, arranhada, baixinha (em meio aos sons naturais ao redor), feita de pausas e recome\u00e7os distra\u00eddos. Mal sendo escutada pela concentrada figura ao lado \u2014 mas esta, por certo, percebe-a em algum n\u00edvel, talvez at\u00e9 mesmo viva dentro dela. Voltaremos \u00e0s duas figuras humanas depois; comecemos pelo o que est\u00e1 em segundo plano, o sol que nasce ao longe, emergindo de uma fenda nas montanhas que parece evocar o nascimento de uma crian\u00e7a tal como visto do ponto de vista \u00fanico da m\u00e3e \u2014 a m\u00e3e olhando pela primeira vez para seu filho ou filha enquanto este(a) deixa seu primeiro abrigo, o ventre materno, as pernas flexionadas e afastadas que lhe revelam (\u00e0 m\u00e3e) a vis\u00e3o da crian\u00e7a como no quadro as montanhas revelam a vis\u00e3o do sol, e a dor e a alegria sublimes que eu, como um homem, sequer cogito imaginar ou descrever qualquer coisa a respeito. Posso ser tolo e pretensioso o suficiente para me meter a escrever sobre uma sonata de Schubert, ou um noturno de Chopin, mas n\u00e3o para escrever sobre uma m\u00e3e dando \u00e0 luz um filho. Permitirei-me apenas revelar o seguinte pensamento: sempre considerei que um filho \u00e9, sobretudo, filho de sua m\u00e3e. Antes e acima de tudo. O pai, o homem, \u00e9 uma figura marginal, costumeiramente espa\u00e7osa, quase meramente biol\u00f3gica, e n\u00e3o raro arrogante (quando n\u00e3o hostil), e creio que a humanidade ir\u00e1 melhorar bastante quando os homens ao redor do mundo come\u00e7arem a perceber isso. (E antes que algum eventual psicanalista que esteja me lendo comece a imaginar problemas meus com meu pai, adianto que n\u00e3o \u00e9 a minha experi\u00eancia familiar que me diz isso: \u00e9 a minha experi\u00eancia completa de vida. E \u00e9 claro que um psicanalista n\u00e3o ir\u00e1 me acreditar\u2026). Mas eu dizia que o sol nasce ao longe, iniciando ou reiniciando o ciclo da vida naquele pequeno peda\u00e7o do mundo, e j\u00e1 ali \u2014 presume-se que antes mesmo da luz solar e portanto, alegoricamente, antes da vida \u2014 h\u00e1 a m\u00fasica, o som preenchendo o espa\u00e7o antes mesmo da luz faz\u00ea-lo, contradizendo a narrativa b\u00edblica que diz que em primeiro lugar houve a luz. E h\u00e1 tamb\u00e9m uma casa do lado direito, quase escondida, e agora, na minha vis\u00e3o, h\u00e1 uma quest\u00e3o de propor\u00e7\u00e3o (\u00e0s margens do lago sob o sol parece haver tamb\u00e9m uma vila ou algo do tipo). A casa \u2014 e o vilarejo, se for isso mesmo \u2014 ocupam o qu\u00ea, 5% de toda a imagem? O mundo como era naquela \u00e9poca de Giorgione: algo imenso e de limites desconhecidos, obscuro, inexplorado, feito essencialmente de florestas e mares e montanhas sem fim, tendo ainda como senhorio absoluto a natureza, enquanto ao homem e suas edifica\u00e7\u00f5es sobrava apenas um papel secund\u00e1rio, coadjuvante, minorit\u00e1rio, avan\u00e7ando cheio de temores e perplexidade, as pernas tr\u00eamulas, o dia de amanh\u00e3 incerto, ou sentado em uma clareira para refletir\u2026 E fazer m\u00fasica, apaziguando-se de suas ang\u00fastias. Alguma medida de nossa subalternidade perante a natureza decerto ainda existe nos dias de hoje, mas parece j\u00e1 n\u00e3o haver a defer\u00eancia, a rela\u00e7\u00e3o respeitosa, e s\u00e3o cada vez mais frequentes os sinais de que isso pode n\u00e3o dar muito certo. Finalmente, a segunda figura na tela, o pensador, o especulador manipulando sua ampulheta (costuma-se chamar essa obra de \u201cA ampulheta\u201d) enquanto esfor\u00e7a-se para compreender algo sobre o mist\u00e9rio fundamental e inesgot\u00e1vel que \u00e9 o tempo. Penso que o in\u00edcio da consci\u00eancia acerca do tempo \u00e9 o in\u00edcio da pr\u00f3pria consci\u00eancia humana \u2014 ou pelo menos da consci\u00eancia humana em seu mais recente est\u00e1gio \u2014 e a tela parece insistir na preced\u00eancia da m\u00fasica: mesmo antes de tentarmos compreender porque vivemos j\u00e1 nos ocup\u00e1vamos de ter alguma m\u00fasica ao fundo, como se fosse ela que nos dotasse de raz\u00e3o, a nutri\u00e7\u00e3o espiritual necess\u00e1ria para a exist\u00eancia e para a posterior e inevit\u00e1vel reflex\u00e3o sobre a exist\u00eancia. A figura da ampulheta \u00e9 um homem enquanto a do violino \u00e9 (ou parece ser) uma mulher; contudo, para al\u00e9m da simbologia disso, para al\u00e9m de qualquer outro contraste visual entre as duas personagens, uma vestida de vermelho e a outra vestida de branco, h\u00e1 tamb\u00e9m algo em comum entre elas, algo que as aproxima em um outro n\u00edvel: o grau de abstra\u00e7\u00e3o de ambas, o ex\u00edlio mental provis\u00f3rio que parecem experimentar violinista e fil\u00f3sofo em rela\u00e7\u00e3o ao mundo ao seu redor, \u00e0 presen\u00e7a f\u00edsica um do outro, e at\u00e9 mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 si pr\u00f3prios. Retirados da paisagem e dos corpos; reunidos em esp\u00edrito. Pois h\u00e1 essa vida da mente, do pensamento, quando ent\u00e3o somos mais do que corpos perambulando por a\u00ed e por conta do que pensamos e criamos podemos continuar existindo at\u00e9 mesmo depois que nossos corpos s\u00e3o silenciados e baixados de volta \u00e0 terra. Estamos aqui, afinal, falando sobre o trabalho de um homem que morreu s\u00e9culos atr\u00e1s. Talvez n\u00e3o seja, no entanto, necess\u00e1ria toda esta reflex\u00e3o sobre o quadro de Giorgione: basta olh\u00e1-lo com alguma dose poss\u00edvel da calma que nos resta nestes tempos t\u00e3o hist\u00e9ricos para perceber-lhe a aura de serenidade, o fasc\u00ednio e a rever\u00eancia que seus poucos elementos conjuram, sem maiores caprichos, sem maiores detalhes. A generosidade do artista e o comovente testemunho de humanidade estampados em sua tela. \u00c9 provavelmente a menor quantidade de linhas e de cores e de tintas a jamais abarcar esse tanto do essencial e do maravilhoso da jornada humana.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":729,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2018","post_timestamp":"2018-07-03T00:30:13+00:00","url":"2018_07_02_discos_do_mes_junho_de_2018","post":"Nessa \u00e9poca do ano, eu, que em condi\u00e7\u00f5es normais j\u00e1 sou um sujeito bastante caseiro, torno-me ainda mais avesso a sa\u00eddas noturnas, e os meus melhores amigos deixam de ser aqueles que moram por a\u00ed para tornarem-se aqueles que moram nas minhas estantes de discos. Oras, quem precisa de muitos amigos se voc\u00ea \u00e9 amigo do King Diamond? (Meus bons camaradas que me l\u00eaem sabem que esta \u00e9 apenas uma introdu\u00e7\u00e3o zombeteira para um texto pouco inspirado.) Pena que King anda meio sumido; h\u00e1 tempos n\u00e3o tenho not\u00edcias suas. Ter\u00e1 ele se aposentado? Ser\u00e1 que d\u00e9cadas e d\u00e9cadas de agudos inacredit\u00e1veis arruinaram suas cordas vocais? Seu \u00faltimo disco \u00e9 de 2007, e da sua outra banda, o Mercyful Fate, tampouco anda-se falando muito por a\u00ed\u2026 Por sorte [The King](https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/M7WDG2ulodY\/maxresdefault.jpg) deixou muitos disc\u00edpulos espalhados pelo globo, dentre os quais tornei-me f\u00e3 recentemente dos suecos do Ghost. Certamente um bando para quem eu pagaria uma rodada de boa cerveja! Sim, eu sei que h\u00e1 controv\u00e9rsias em torno do grupo: o teste de DNA que comprovaria a afilia\u00e7\u00e3o com King \u00e9 histericamente contestado por alguns. Parece-me, no entanto, que a turma que torce o nariz para o Ghost \u00e9 a mesma que, indo aos extremos do seu excesso de seriedade, ou de sua falta de sutileza, j\u00e1 andou cometendo homic\u00eddios e queimando igrejas por a\u00ed. Se a m\u00fasica do Ghost obedece ou n\u00e3o aos graus m\u00ednimos de metalicidade necess\u00e1rios para poder utilizar o selo oficial de pureza comprovada, na verdade, pouco importa: uma banda que tenha o m\u00ednimo tra\u00e7o que seja de metal em sua m\u00fasica e que faz covers de Eurythmics, Pet Shop Boys, ABBA e Depeche Mode merece todo o meu respeito justamente por tirar um belo sarro das normas e diretrizes que um dia sancionaram a exist\u00eancia de um, digamos, Manowar (para ficar num s\u00f3 nome suficientemente constrangedor). Este \u00faltimo disco do Ghost, *Prequelle*, lan\u00e7ado h\u00e1 pouco, me pareceu ainda mais ousado e divertido, um passo a mais para longe da ortodoxia tradicional do metal, ao qual eles eram indiscutivelmente mais ligados no come\u00e7o. Talvez eles estejam deixando alguns f\u00e3s antigos pelo caminho e arrebanhando outros novos cuja sofistica\u00e7\u00e3o do gosto musical ningu\u00e9m nunca saber\u00e1 se est\u00e1 acima ou abaixo da dos agora ex-f\u00e3s \u2014 ningu\u00e9m nunca saber\u00e1 se o Ghost est\u00e1 evoluindo ou regredindo ou o que diabos est\u00e1 acontecendo com esta banda, e para mim, repito, pouco importa: adorei aquela m\u00fasica cujo refr\u00e3o \u00e9 \u201cI just wanna be \/ wanna bewitch you in the moonlight\u201d, uma mistura improv\u00e1vel de deboche, filme de terror e refr\u00e3o de disco do Van Halen que, sabe-se l\u00e1 como, funciona muit\u00edssimo bem. Tem at\u00e9 saxofones em outras faixas do disco!\r\n\r\nPara ficar nas bandas que embara\u00e7am as fronteiras do que \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 metal: o [Thou](http:\/\/thou.bandcamp.com) j\u00e1 lan\u00e7ou dois discos este ano e parece que vem mais por a\u00ed. Ser\u00e1 dif\u00edcil, por\u00e9m, superar este bel\u00edssimo *Inconsolable*, pequena obra-prima de 33 minutos e clim\u00e3o ac\u00fastico soturno e aconchegante, para ser apreciado numa noite invernal daquelas. A impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que a banda gravou estas oito can\u00e7\u00f5es enquanto exilada numa casa perdida nas profundezas de um arvoredo inc\u00f3gnito, entre \u00e1lamos esparsos e lobos que nunca se deixam ver, sem eletricidade, \u00e0 luz de velas, floresta vizinha a territ\u00f3rio ind\u00edgena que por s\u00e9culos mantiveram-se longe de suas margens por temerem os esp\u00edritos malignos que sem d\u00favida por l\u00e1 habitam. D\u00e1 de sentir cada m\u00ednima part\u00edcula desse lindo cen\u00e1rio \u2014 suas cores, luzes filtradas, n\u00e9voas, murm\u00farios noturnos \u2014 enquanto se escuta este disco, mesmo que voc\u00ea o fa\u00e7a em seu apartamento localizado na avenida mais barulhenta da metr\u00f3pole onde mora. A \u00faltima faixa amea\u00e7a, por um momento, trazer o bom e velho Thou infernal e el\u00e9trico de sempre, mas fica s\u00f3 na amea\u00e7a, que se desvanece como o \u00faltimo fiapo de fuma\u00e7a saindo da chamin\u00e9 e se perdendo na escurid\u00e3o da noite gelada.\r\n\r\nAgora, uma decep\u00e7\u00e3o: acho os dois discos anteriores da Chelsea Wolfe magn\u00edficos \u2014 sem tirar nem relativizar peso algum desse superlativo: realmente dois disca\u00e7os fabulosos. Chelsea n\u00e3o precisou em nenhum momento desses \u00e1lbuns recorrer aos recursos tradicionais do metal para construir uma m\u00fasica t\u00e9trica e sinistra do tipo raro que pode desequilibrar qualquer um que escut\u00e1-la com aten\u00e7\u00e3o. Neste *Hiss Spun* que ela lan\u00e7ou ano passado, contudo, e sabe-se l\u00e1 porque motivo, Chelsea resolveu encher suas m\u00fasicas de guitarras pesadonas, vocais de monstrinhos t\u00edpicos de black metal e coisas do g\u00eanero, uma massa sonora vulgarmente col\u00e9rica e fatigante, totalmente desnecess\u00e1ria em face do que j\u00e1 conhecemos de suas capacidades de compositora. At\u00e9 a capa do disco parece um mau clich\u00ea de filme de terror contempor\u00e2neo. Pode-se especular que ela estivesse talvez imbu\u00edda de um esp\u00edrito de inconformismo, algo em geral elogi\u00e1vel, por\u00e9m este costuma vir acompanhado por aspira\u00e7\u00f5es explorat\u00f3rias, de avan\u00e7ar sobre o que n\u00e3o se sabe ainda o que \u00e9, ao inv\u00e9s de ir (ou voltar, o que nem \u00e9 o caso dela aqui) em dire\u00e7\u00e3o ao ultra-conhecido e apelativo \u2014 um inconformismo pregui\u00e7oso, portanto, este, na melhor das hip\u00f3teses. O disco melhora um pouco na segunda metade (algumas de suas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o boas como as menos boas de *Abyss* e *Pain is Beauty*), mas, ao menos para mim, n\u00e3o se salva: naufraga clamorosamente devido ao peso descabido da primeira metade.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":728,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2018","post_timestamp":"2018-06-01T22:55:31+00:00","url":"2018_06_01_discos_do_mes_maio_de_2018","post":"S\u00e3o duas imagens somente a\u00ed em cima, mas n\u00e3o se enganem: elas abarcam um universo de m\u00fasica, um espa\u00e7o imenso composto de harmonias celestiais, buracos negros, multid\u00f5es de anjos, e tudo o mais que par de olhos algum jamais viu mas a imagina\u00e7\u00e3o humana, que vai bem al\u00e9m do que a vis\u00e3o consegue captar, j\u00e1 os intuiu e garantiu-lhes a exist\u00eancia. Pois \u00e9, a toada continua a mesma dos \u00faltimos meses: new age, experimentos eletr\u00f4nicos, e por a\u00ed afora. Paisagens sonoras amplas e desterradas. E Bach. Estou atravessando uma longa maratona barroca: escutando atentamente, disco a disco, a linda caixa *Bach Cantatas*, lan\u00e7ada pela Soli Deo Gloria em 2013. Aqui est\u00e3o reunidas todas as [cantatas](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Cantata) de tem\u00e1tica religiosa compostas por Johann Sebastian Bach e gravadas por John Eliot Gardiner em um projeto que ficou conhecido como [Bach Cantata Pilgrimage](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Coro_Monteverdi#Bach_Cantata_Pilgrimage). S\u00e3o todas as gravadas por Gardiner e seus conjuntos corais, ainda que n\u00e3o sejam exatamente todas as compostas por Bach, uma vez que \u00e9 tido como certo que muitas de suas partituras de can\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas se perderam ao longo do anos. N\u00e3o d\u00e1, no entanto, de reclamar de m\u00e1 sorte: sobraram-nos suficientes para preencher 28 discos duplos \u003Cspan id=\u0022a1\u0022\u003E[(*)](#f1)\u003C\/span\u003E, horas e horas de m\u00fasica de alta voltagem espiritual, compostas em um tempo em que os homens ainda entendiam a arte musical como uma evid\u00eancia da ordem divina e, por conseguinte, a miss\u00e3o dos compositores na Terra n\u00e3o era coisa pequena, n\u00e3o era mat\u00e9ria para amadores ou diletantes quaisquer. \u00c9 recente meu interesse por esse tipo de m\u00fasica (acho que d\u00e1 de localizar seu in\u00edcio exatamente [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2018_04_10_segunda_feira)), e apenas um pouco mais jovem do que minha admira\u00e7\u00e3o por essa figura gigante que foi Bach. Estou ainda no come\u00e7o da peregrina\u00e7\u00e3o \u2014 hoje (domingo, dia 27 de maio) devo escutar o disco n\u00famero 5 \u2014 mas j\u00e1 posso dizer tranquilamente que a beleza da coisa toda n\u00e3o cabe em palavras. Passaram-se ent\u00e3o dois s\u00e9culos da morte de Bach, mudaram-se os meios e os instrumentos, e temos Laurie Spiegel. Nem todo mundo hoje relaciona m\u00fasica com des\u00edgnios divinos \u2014 nem todo mundo hoje sequer acredita no divino, o que me parece uma inescap\u00e1vel e muito bem vinda mudan\u00e7a na mentalidade humana \u2014 mas o entendimento da m\u00fasica como algo que supera o homem, algo que est\u00e1 na base mesmo da estrutura universal, a percep\u00e7\u00e3o disso creio que todo mundo j\u00e1 deve ter experimentado ao menos uma vez na vida, por mais perif\u00e9rico que seja o seu interesse nesta arte. H\u00e1 extensa literatura entrela\u00e7ando m\u00fasica e astronomia, m\u00fasica e as leis que movem os astros, teorias e tratados que descrevem solenemente essa rela\u00e7\u00e3o com ares de mist\u00e9rio e misticismo, quando o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o fasc\u00ednio pela m\u00fasica \u2014 n\u00e3o s\u00f3 pelo ouvir m\u00fasica, mas tamb\u00e9m pelo fazer, pelo compreender, etc. \u2014 e essas vis\u00f5es grandiloq\u00fcentes de m\u00fasica como uma linguagem sobre-humana, c\u00f3smica, demi\u00fargica, o mais prov\u00e1vel \u00e9 que tudo isso seja explicado pelo fato de que nossa capacidade de fazer e de apreciar ritmos e melodias \u00e9 \u00edntima da nossa capacidade de compreender e admirar o universo, ou aquela \u00e9 uma esp\u00e9cie de antevis\u00e3o desta: \u00e9 como uma forma que inventamos, antes das muitas descobertas acerca das leis f\u00edsicas que regem o universo, uma forma metaf\u00f3rica e po\u00e9tica que inventamos para admirar e reverenciar o cosmos, usando como mat\u00e9ria-prima um de seus elementos b\u00e1sicos e que temos todos (ou quase todos) \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de nossos sentidos, um dos itens essenciais da vida c\u00e1 na Terra: o som. Tudo isso enquanto nos esfor\u00e7amos para compreend\u00ea-los, som e universo, para desvend\u00e1-los cada vez mais a fundo, de acordo com as precariedades e ilus\u00f5es de cada \u00e9poca. \u00c9 como um processo inevit\u00e1vel: h\u00e1 o universo, e h\u00e1 a m\u00fasica, porque estamos o tempo todo olhando para o c\u00e9u. Quase perdi o fio da meada, mas de Bach a Laurie Spiegel, o que eu queria dizer \u00e9 que alguns princ\u00edpios n\u00e3o mudaram: a devo\u00e7\u00e3o destes criadores pela sua miss\u00e3o; a rever\u00eancia e a perplexidade; a consci\u00eancia de que s\u00e3o ambos, c\u00e9u e m\u00fasica, engendrados a partir de uma mesma origem e que entender um \u00e9 entender o outro. Laura Spiegel est\u00e1 entre as pioneiras de uma nova forma de se empreender esta busca, forma surgida em meados do s\u00e9culo passado: a [m\u00fasica eletr\u00f4nica](https:\/\/img.discogs.com\/ytNcVuR1j9zhFNgFaWkK3hmzwcI=\/500x758\/smart\/filters:strip_icc():format(jpeg):mode_rgb():quality(90)\/discogs-images\/A-32206-1499890789-3759.jpeg.jpg). Uma de suas grava\u00e7\u00f5es, *The Expanding Universe*, lan\u00e7ada originalmente em [1980](https:\/\/www.discogs.com\/Laurie-Spiegel-The-Expanding-Universe\/release\/340640) e relan\u00e7ada em uma fant\u00e1stica edi\u00e7\u00e3o ampliada em [2012](https:\/\/www.discogs.com\/Laurie-Spiegel-The-Expanding-Universe\/release\/3866978), \u00e9 item essencial para qualquer um que se interesse por esse tipo de m\u00fasica experimental e especulativa na linha de Pauline Oliveros e Karlheinz Stockhausen. Talvez, para n\u00f3s aqui neste nosso momento da hist\u00f3ria, com nossa j\u00e1 ampla bagagem de computadores, video-games e efeitos especiais no cinema, talvez os sons a que somos apresentados inicialmente em *The Expanding Universe* soem um pouco ing\u00eanuos, como que feitos a partir de nossos primeiros brinquedos eletr\u00f4nicos nos anos 80 \u2014 as traquitanas da Tectoy, o Atari, o Genius, os primeiros PCs com suas placas de som da Sound Blaster. Mas \u00e9 um efeito que n\u00e3o dura; as faixas come\u00e7am a se estender, criam ambi\u00eancias e texturas que logo reconhecemos em nosso \u00edntimo e nos absorvem, e reconhecemos tamb\u00e9m alguns dos ritmos que predominam em nossas mentes nos momentos de maior abstra\u00e7\u00e3o e quietude e que parecem ser ainda os \u00faltimos vest\u00edgios de nossa origem estelar, ecos remotos persistindo obstinadamente em nossos sentidos como uma lembran\u00e7a vaga, ancestral. [Aqui uma p\u00e1gina](http:\/\/retiary.org\/ls\/expanding_universe\/index.html) cuja leitura \u00e9 imperd\u00edvel para quem se interessar por *The Expanding Universe* e pelo trabalho de Laurie Spiegel. A certa altura, elaborando sobre a composi\u00e7\u00e3o *Kepler\u2019s Harmony of the Worlds*, ela comenta sobre as conjecturas de [Johannes Kepler](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Johannes_Kepler) a respeito da possibilidade de existir uma certa harmonia das estrelas, que seria aud\u00edvel apenas pelos ouvidos de Deus. \u00c9 tudo muito bonito e comovente, mas Laurie, entre outras, fez algo ainda mais belo: ajudou a nos desvencilharmos dessas amarras mitol\u00f3gicas todas e a explorarmos o mundo sem medo, o que nos proporcionou enfim a possibilidade de admira\u00e7\u00e3o ampla e irrestrita pela m\u00fasica e pelo universo. S\u00e3o as mulheres, como sempre, melhorando aquilo que fizeram os homens antes delas.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E(*)\u003C\/b\u003E Uma nota sobre os CDs: a imagem que ilustra o alto deste post \u00e9 da caixa que abriga os discos; estes, no entanto, possuem tamb\u00e9m artes pr\u00f3prias, sendo a capa de cada um deles o retrato de uma pessoa vestida e ornamentada de acordo com culturas e \u00e9pocas diversas. Digite \u0022bach cantatas gardiner\u201d no Google Images para ver uma amostra dessas imagens. \u00c9 uma das artes fonogr\u00e1ficas mais lindas que j\u00e1 vi na minha vida \u2014 se n\u00e3o a mais a bela de todas. [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":727,"title":"O primeiro rock \u0027n\u0027 roll star","post_timestamp":"2018-05-21T04:30:02+00:00","url":"2018_05_21_o_primeiro_rock_rn_roll_star","post":"\u003Cp\u003E\u003C\/p\u003E\r\n\u003E Mas nem tudo em [Paganini](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Niccol\u00f2_Paganini) era talento natural. Ao repert\u00f3rio t\u00e9cnico do m\u00fasico ele acrescentou duas caracter\u00edsticas que acabaram se tornando important\u00edssimas: capacidade de representar e sensualidade. Para aumentar a tens\u00e3o, aperfei\u00e7oou a arte da entrada retardada no palco do concerto, adentrando-o somente quando a expectativa do p\u00fablico atingira o paroxismo. De seus in\u00fameros artif\u00edcios, o mais famoso foi aparecer com tr\u00eas ou quatro cordas do violino soltas \u2014 e depois executar brilhantemente uma pe\u00e7a com a \u00fanica corda remanescente. Tamb\u00e9m tinha o cuidado de cultivar seu mist\u00e9rio, n\u00e3o permitindo a publica\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas que tocava nos concertos: memorizava sua pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o e levava embora as partes orquestrais t\u00e3o logo terminasse a apresenta\u00e7\u00e3o. A combina\u00e7\u00e3o de arte e artif\u00edcio criaria uma imagem de grande for\u00e7a.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"desenho copiado [daqui](https:\/\/www.deviolines.com\/paganini-o-el-rey-peste\/) (autor desconhecido).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":726,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. V","post_timestamp":"2018-05-11T15:20:30+00:00","url":"2018_05_11_impressoes_auditivas_vol_v","post":"* Que m\u00fasica extraordin\u00e1ria faz Meredith Monk, a cantora da foto acima. Ao mesmo tempo t\u00e3o ex\u00f3tica e t\u00e3o natural; t\u00e3o simples e t\u00e3o profunda. Procurem pelo disco [Mercy](https:\/\/www.discogs.com\/Meredith-Monk-Mercy\/release\/583149) \u2014 para desvendar as aparentes contradi\u00e7\u00f5es da frase anterior, basta escut\u00e1-lo. \u00c9 como a m\u00fasica feita por algu\u00e9m que ainda se lembra de algo que todo o resto do mundo j\u00e1 esqueceu.\r\n* A frase \u00e9 atribu\u00edda ao fil\u00f3sofo e matem\u00e1tico alem\u00e3o Leibniz: \u201cm\u00fasica \u00e9 a matem\u00e1tica do esp\u00edrito que n\u00e3o sabe calcular\u201d. Isso pode ser entendido como uma redu\u00e7\u00e3o grosseira (em preju\u00edzo da m\u00fasica, claro), mas, por outro lado, tem um certo nexo, que eu vislumbro em uma situa\u00e7\u00e3o bem espec\u00edfica: quando o prazer de se escutar determinada obra, emergindo de forma gradativa e mediante certo grau de aten\u00e7\u00e3o, vai se tornando parecido com um outro antigo tipo de prazer, aquele sutil e estimulante deleite intelectual que surgia, nos tempos do col\u00e9gio, quando come\u00e7\u00e1vamos a compreender certas mat\u00e9rias mais complexas da f\u00edsica e da matem\u00e1tica, quando come\u00e7\u00e1vamos a ver o sentido e a conex\u00e3o com a realidade daquelas f\u00f3rmulas e n\u00fameros e vari\u00e1veis aparentemente imperscrut\u00e1veis que nossos professores sofriam para fazer com que entend\u00eassemos para al\u00e9m da urg\u00eancia de passar de ano \u2014 quando, enfim, compreend\u00edamos como algumas coisas funcionam na natureza e perceb\u00edamos subitamente a beleza das abstra\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas que foram formuladas ao longo dos tempos para demonstr\u00e1-las, e a import\u00e2ncia daquilo tudo. (Comigo, em geral, isso nunca acontecia em sala de aula, e sim nos estudos apressados e solit\u00e1rios em casa, nas v\u00e9speras das provas.) Pois bem \u2014 m\u00fasica como uma esp\u00e9cie de matem\u00e1tica do esp\u00edrito, nessas situa\u00e7\u00f5es, faz total sentido. Olivier Messiaen e sua *Turangal\u00eela-Symphonie*, principalmente, me fazem pensar nisso.  \r\n* E essa [aqui](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Cdcxx56nnB8) tamb\u00e9m. (Perdoem-me, n\u00e3o resisti.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](https:\/\/www.npr.org\/2011\/01\/11\/132810433\/meredith-monk-a-voice-for-all-time).","author":{"name":"Fabricio C. 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Sei exatamente quantas vezes escutei-o: foram tr\u00eas, e ao final da terceira eu me dei conta de que n\u00e3o havia mais nenhum motivo para repetir a dose. O disco \u00e9 exigente e audacioso, a capa \u00e9 [linda](http:\/\/www.wavmagazine.net\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/5054429000207.jpg), todos os sinais apontavam para algo pelo qual eu me apaixonaria intensamente, por\u00e9m nos mais de 500 minutos que passei em sua companhia, nem a mais microsc\u00f3pica semente que fizesse florescer um interesse continuado foi plantada em minha mente \u2014 o \u00e9pico n\u00e3o despertou afei\u00e7\u00e3o alguma em mim, suas m\u00fasicas passavam em brancas nuvens, n\u00e3o me vi em momento algum pensando \u201cquero ouvir esse disco quando chegar em casa\u201d. E \u00e9 isso, basicamente, o que define minhas paix\u00f5es musicais. Dei-o como descartado no fim desta terceira audi\u00e7\u00e3o, e foi bastante desconfiado que resolvi experimentar *Harmony of Difference*\u2026 E que bom que o fiz! J\u00e1 na segunda faixa eu estava bastante empolgado com o disco, que em pouco mais de 30 minutos entrega, pelo menos aos meus sentidos, muit\u00edssimo mais do que aqueles tantos outros de *The Epic*. E nem foi o jazz que mais me encantou nestes \u00faltimos dias: este atende pelo nome de Cecil Taylor, cujo obitu\u00e1rio figurou nos jornais e portais musicais no dia 5 de abril, uma perda muito triste. Seus discos s\u00e3o fabulosos, e s\u00e3o [muitos](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Cecil_Taylor_discography), um incr\u00edvel universo de m\u00fasica aventureira, tumultuosa e instigante, uma alegria sem fim para quem gosta de desafios. Cecil tinha 89 anos quando morreu; Bob Dylan tem 76 anos. N\u00e3o \u00e9 fant\u00e1stico termos uma figura do porte de Dylan ainda entre n\u00f3s, ainda compondo e escrevendo e levando sua [Never Ending Tour](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Never_Ending_Tour) mundo afora? Acho perfeitamente compreens\u00edvel tanta gente torcer o nariz para o trovador norte-americano: sua voz pode mesmo ser um obst\u00e1culo muito grande para a aprecia\u00e7\u00e3o de seus discos. Eu, no entanto, sempre gostei muito de Dylan, e no que diz respeito ao instrumento natural alojado dentro de sua garganta, que parece ter vindo com algum defeito de f\u00e1brica, tenho com este uma rela\u00e7\u00e3o similar \u00e0 que tenho com a voz de Chico Buarque: tamb\u00e9m o \u0022cantor\u0022 Chico Buarque \u00e9 frequentemente enxovalhado, e tamb\u00e9m esta voz t\u00e3o peculiar, e sua aparente falta de jeito como cantor, muito me atraem e t\u00eam o efeito inverso de me agradar por soarem \u00fanicos, idiossincr\u00e1ticos, corajosos na interpreta\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prios composi\u00e7\u00f5es a despeito da falta de carisma ou de uma aptid\u00e3o natural que se encaixe nos padr\u00f5es mercadol\u00f3gicos. S\u00e3o, ambos, criadores e contadores de hist\u00f3rias e cen\u00e1rios exclusivos, inigual\u00e1veis, e isso come\u00e7a por suas letras e passa tamb\u00e9m, inevitavelmente, por suas vozes. E, claro, seus mais importantes talentos \u2014 os da escrita \u2014 estes suplantam em muito estes pormenores. Chico \u00e9 um gigante, e os insultos que v\u00eam recebendo nestes \u00faltimos tempos por conta de suas opini\u00f5es pol\u00edticas, neste nosso pa\u00eds t\u00e3o grosseiro e tacanho, s\u00f3 evidenciam mais e mais sua grandeza; Dylan n\u00e3o fica atr\u00e1s: n\u00e3o foi \u00e0 toa que o americano ganhou dia desses o Nobel de Literatura; n\u00e3o \u00e0 toa sua obra \u00e9 uma pedra angular nas artes modernas deste lado do Atl\u00e2ntico e na compreens\u00e3o deste cap\u00edtulo t\u00e3o importante na hist\u00f3ria do mundo que s\u00e3o os EUA, uma voz cr\u00edtica e po\u00e9tica e m\u00edstica e pol\u00edtica tudo ao mesmo tempo, abarcando toda a complexidade e contradi\u00e7\u00f5es e belezas americanas. Uma pequena amostra disso, para quem nunca conseguiu levar a s\u00e9rio a mais famosa voz fanha de todos os tempos, est\u00e1 em *With God on Our Side*, do \u00e1lbum *The Times They Are a-Changin\u2019* (que escutei repetidas vezes nos \u00faltimos dias). Ou\u00e7a esta m\u00fasica, leia sua letra com aten\u00e7\u00e3o, e torne-se tamb\u00e9m um admirador arrebatado de Bob Dylan.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":723,"title":"Segunda-feira","post_timestamp":"2018-04-10T16:33:57+00:00","url":"2018_04_10_segunda_feira","post":"A segunda-feira quente e ensolarada em que fiz 39 anos, comecei-a no mar e terminei-a ouvindo uns discos de free jazz e Bach. Ao melhor estilo daquele personagem do Woody Allen (n\u00e3o me lembro de qual filme) que gostava de ir ao cinema em dias de semana e bem no meio da tarde pois assim sentia-se um subversivo por estar vendo um filme enquanto todos seus amigos estavam labutando em seus empregos, nesse dia eu acordei na praia e me preparava para voltar para casa, para fazer o que quase todos est\u00e3o fazendo \u00e0s segunda-feiras de manh\u00e3 \u2014 trabalhar \u2014 quando ent\u00e3o pensei: por que n\u00e3o? Afinal, era meu anivers\u00e1rio. Quero dizer, eu n\u00e3o dou a m\u00ednima para isso, mas se for para justificar um \u00faltimo mergulho subversivo, ent\u00e3o passo a defender entusiasticamente a import\u00e2ncia dos anivers\u00e1rios. Foi assim que \u00e0s 9h da manh\u00e3 l\u00e1 estava eu flutuando pouco depois da rebenta\u00e7\u00e3o, o c\u00e9u azul brilhante escondendo astros e estrelas, a \u00e1gua fria e seu abismo invis\u00edvel por debaixo (que ainda hoje me provoca certo fr\u00eamito sempre que vou um pouco mais para o fundo e j\u00e1 n\u00e3o toco mais os p\u00e9s no ch\u00e3o), ningu\u00e9m \u00e0 vista, era como se estivesse sozinho no oceano. Na areia, uma penca de c\u00e3es correndo de um lado para o outro \u2014 quem pode garantir que tamb\u00e9m eles n\u00e3o sentem essa alegria incompar\u00e1vel da praia, e, nesta hip\u00f3tese, como \u00e9 poss\u00edvel nos arvorarmos do direito de proibi-los de l\u00e1 estarem? De noite, j\u00e1 em casa, j\u00e1 cumpridas as tarefas do trabalho, j\u00e1 descansado, j\u00e1 com 39 anos, j\u00e1 inebriado por algumas ta\u00e7as de vinho (novamente, a data do anivers\u00e1rio serviu-me de alguma coisa), resolvi escutar o jazz de Anthony Braxton, sobre quem havia lido alguma coisa dia desses. Achei esse [disco](https:\/\/www.discogs.com\/Max-Roach-Featuring-Anthony-Braxton-Birth-And-Rebirth\/release\/1441455) de Braxton com o baterista Max Roach chamado *Birth and Rebirth*. Um espet\u00e1culo! N\u00e3o sei dizer onde fica a fronteira exata entre o jazz e o free jazz: se o improviso delineia uma coisa da outra, ent\u00e3o esse \u00e9 um genu\u00edno disco de free jazz, mas ele n\u00e3o vai para t\u00e3o longe da fronteira, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o \u00e1spero quanto outras coisas que j\u00e1 experimentei do mundo *avant-garde* \u2014 \u00e9, enfim, perfeitamente assimil\u00e1vel e prazeroso, alternando barulho e melodia, experimento e formalismo. Depois escutei um disco ao vivo em que Braxton forma um quarteto ao lado de Dave Holland, Barry Altschul e Kenny Wheeler \u2014 este, no entanto, achei mais desafiante, precisarei escut\u00e1-lo novamente outra hora (vejam os [t\u00edtulos dessas m\u00fasicas](https:\/\/www.discogs.com\/Anthony-Braxton-Quartet-At-Moers-Festival\/release\/517765)!). Por fim, coloquei para fechar a noite *Lamento*, [\u00e1lbum](https:\/\/www.discogs.com\/Magdalena-Ko\u017een\u00e1-Musica-Antiqua-K\u00f6ln-Reinhard-Goebel-Lamento\/release\/5498028) da cantora Magdalena Ko\u017een\u00e1 e composi\u00e7\u00f5es da [fam\u00edlia Bach](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fam%C3%ADlia_Bach). Em geral, n\u00e3o sou f\u00e3 de m\u00fasica protagonizada por sopranos, tenores e outros vozeir\u00f5es \u2014 coisas como \u00e1rias e *Lieder* \u2014 mas esse disco \u00e9 muit\u00edssimo bonito. H\u00e1 um equil\u00edbrio fino entre a voz de Magdalena e a orquestra\u00e7\u00e3o da Musica Antiqua K\u00f6ln (conduzida por Reinhard Goebel) que al\u00e7a a m\u00fasica \u00e0s alturas, \u00e0s esferas onde esse tipo de linguagem, na minha imagina\u00e7\u00e3o, \u00e9 plaus\u00edvel, cancelando o efeito burlesco e antiquado de quando ela permanece aferrada \u00e0 Terra narrando dramas aristocratas de reis e damas. Se bem que talvez estivesse eu, com todo aquele sal na pele e vinho no sangue, nas alturas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Praia da Solid\u00e3o, Florian\u00f3polis, em 9 de abril de 2018.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":722,"title":"Um cap\u00edtulo da fascinante hist\u00f3ria do... Bal\u00e3o M\u00e1gico","post_timestamp":"2018-04-09T23:21:55+00:00","url":"2018_04_09_um_capitulo_da_fascinante_historia_do_balao_magico","post":"\u003Cbr \/\u003E\r\n\u003E Biggs havia fugido da pris\u00e3o na Inglaterra e vivia desde 1970 no Rio de Janeiro, onde se tornara uma atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica, dando aut\u00f3grafos para visitantes ingleses e participando de festas com bandas de rock como Sex Pistols e Rolling Stones. Em abril de 1981, foi sequestrado por um grupo de mercen\u00e1rios brit\u00e2nicos que queria lev\u00e1-lo de volta \u00e0 Inglaterra e exigir uma recompensa do governo do pa\u00eds. Mike apareceu na TV fazendo um apelo emocionado pela liberta\u00e7\u00e3o do pai. Os executivos da CBS ficaram impressionados com o carisma do menino e o contrataram. Biggs tamb\u00e9m teve sorte: o navio no qual seus sequestradores o levavam teve problemas t\u00e9cnicos em Barbados, e a turma toda foi presa. Como Barbados n\u00e3o tinha tratado de extradi\u00e7\u00e3o com a Inglaterra, Biggs retornou ao Brasil.\r\n\r\nBiggs \u00e9 [Ronald Biggs](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ronald_Biggs). Sim, isso \u00e9 parte da hist\u00f3ria do Bal\u00e3o M\u00e1gico, aquele grupo infantil dos anos 80 (eu tinha todos os discos --- quero dizer, tenho-os ainda). Para entender, clique [aqui](https:\/\/blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br\/2018\/04\/09\/quem-fez-subir-o-balao-magico\/).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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O tipo de frase cujo aparente enigma se esvai em menos de um segundo, se voc\u00ea p\u00e1ra para pensar: voc\u00ea a repete e a entende, compreende sua verdade, pois h\u00e1 no \u00edntimo de todos n\u00f3s a chave que decodifica a met\u00e1fora imediatamente, instintivamente. \u201cO tempo \u00e9 uma crian\u00e7a brincando.\u201d Pensava nisso ontem enquanto ouvia [uma grava\u00e7\u00e3o](https:\/\/www.discogs.com\/Tchaikovsky-Leningrader-Philharmonie-Evgeny-Mravinsky-Symphony-Nos-4-5-6-Path\u00e9tique\/release\/8676255) da quinta sinfonia de Tchaikovsky, essa alegre maravilha de fins do s\u00e9culo XIX, bela como algumas das p\u00e1ginas mais reservadas de Whitman, ainda que aquele embalo mais solto e colorido do segundo movimento possa ter feito levantar-se da cadeira o velho poeta e colocado-o para dan\u00e7ar, o homem que era todos os homens e sua barba desgrenhada rodopiando e rindo das afli\u00e7\u00f5es do passado e do futuro, rindo dos vivos, rindo dos mortos, e Tchaikovsky, sisudo como vemos nas [fotos e imagens](http:\/\/cdn-images.audioaddict.com\/3\/0\/3\/1\/7\/7\/303177293f1308b00e152c8993902cdd.png), ali ao seu lado, aprovando, secretamente, com sua barba bem delineada, o efeito desvairado de sua m\u00fasica.\r\n* O caso \u00e9 que sinfonias, frequentemente, assemelham-se \u00e0s dram\u00e1ticas figuras de pedra da imagem acima: tit\u00e2nicas, intimidantes, coisas de dura\u00e7\u00f5es e l\u00f3gicas desmedidas, rel\u00edquias de um tempo que j\u00e1 ficou distante. Outras vezes, contudo, elas descem ao territ\u00f3rio profano das duas figuras pedestrianas da mesma foto, o mundo simpl\u00f3rio e secular do casal confabulando seus assuntos cotidianos, com suas t\u00edpicas indument\u00e1rias humanas, os passos leves sobre o ch\u00e3o, passando indiferentes ao peso colossal do tempo.\r\n* Tendo dito tudo isso, se por acaso eu tiver acendido uma fagulha de curiosidade em algu\u00e9m que nunca ouviu sinfonia alguma, ent\u00e3o, al\u00e9m das famosas de Tchaikovsky, Beethoven, Mahler e Brahms, sugiro um outro nome: Bruckner. \u00c9 um oceano ao qual eu apenas acabo de me lan\u00e7ar \u2014 mal deixei o porto invis\u00edvel para tr\u00e1s \u2014 mas j\u00e1 estou fascinado. (Comecei pela de n\u00famero 7, desta [grava\u00e7\u00e3o](https:\/\/www.discogs.com\/Bruckner-Wagner-Andris-Nelsons-Gewandhausorchester-Symphony-No-7-Siegfrieds-Funeral-March\/release\/11812858).) \r\n* Mudando de assunto: [yes, it\u0027s been too damn long](http:\/\/www.metalinjection.net\/latest-news\/carcass-bill-steer-says-the-band-has-about-50-minutes-of-new-music-written).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"*Le Combat du Centaure*, de Robert Doisneau (1971).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":720,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2018","post_timestamp":"2018-04-02T23:21:13+00:00","url":"2018_04_02_discos_do_mes_marco_de_2018","post":"O estado de calamidade em que vivemos neste pa\u00eds, por mais inconceb\u00edvel que isso possa parecer, continua a agravar-se, a despeito do que dizem os velhacos de ternos bem cortados e portugu\u00eas tosco l\u00e1 de Bras\u00edlia. E como no resto do mundo as not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o de deixar ningu\u00e9m muito mais otimista, a vontade que sinto \u00e9 de fugir para algum mundo imposs\u00edvel como o fundo do mar, ou buscar ref\u00fagio nalgum interst\u00edcio de espa\u00e7o-tempo que me desconecte totalmente disso que estamos fazendo com este espa\u00e7o e este tempo, com este planeta e esta gente, em especial com os mais necessitados, e com as minorias, e com os que ousam defender estas minorias, e os nascidos nas zonas de guerra do mundo. Tornar-se um ap\u00e1trida, um excomungado de toda e qualquer organiza\u00e7\u00e3o humana, para ao menos n\u00e3o ter o desgosto da associa\u00e7\u00e3o \u2014 geogr\u00e1fica, social, gen\u00e9tica, qualquer que seja \u2014 com certa parcela de humanos que n\u00e3o se sabe se por ignor\u00e2ncia ou por pura e simples perversidade parece estar se divertindo e aplaudindo a vis\u00e3o do fundo do po\u00e7o, cada vez mais perto, todos rindo e urrando ante a degrada\u00e7\u00e3o total daquilo a que costum\u00e1vamos nos referir como nossa \u0022humanidade\u0022, ante a vis\u00e3o de nosso colapso final. Como essas fugas s\u00e3o todas imposs\u00edveis, ao menos uma, repetida dia ap\u00f3s dia, ritualmente, durante algumas fra\u00e7\u00f5es de tempo destas cansativas jornadas: em dire\u00e7\u00e3o ao mundo desterrado da m\u00fasica. Dessa ainda n\u00e3o nos despojaram. Tenho escutado intensamente um certo tipo de m\u00fasica que, na impossibilidade de identific\u00e1-la por apenas um ou dois r\u00f3tulos mais precisos, vou ent\u00e3o listar desordenadamente alguns de seus elementos distintivos, algumas medidas que, a despeito da diversidade de tipos e ordens de grandeza, compartilham de alguma coisa meio indefinida, algo de ordem mais abstrata, para al\u00e9m do fato de estarmos falando mais ou menos de uma mesma \u00e9poca (por volta dos anos 70 e 80) e de uma mesma forma (\u00e9 sobretudo m\u00fasica instrumental): new age, krautrock, alem\u00e3es malucos experimentando sons eletr\u00f4nicos, sintetizadores, esoterismo, m\u00fasica ambient e minimalista. Viagens astrais, expans\u00e3o da mente e m\u00fasica c\u00f3smica. Deu para ter uma id\u00e9ia? Talvez o que toda essa m\u00fasica tenha em comum seja uma esp\u00e9cie de g\u00eanese on\u00edrica, lis\u00e9rgica, nada que seja terreno completamente inexplorado para mim, mas nunca antes eu havia passado tanto tempo seguido em companhia de Tangerine Dream, Vangelis, Kitaro, Isao Tomita, Steve Roach, La Monte Young, Lisa Gerrard, entre outros. S\u00e3o bandas e artistas (ou pelo menos boa parte deles) que tinham tudo para soar, hoje em dia, bastante datados, obsoletos, alguns at\u00e9 mesmo inapelavelmente bregas, e, no entanto, estranhamente, nada disso acontece \u2014 ao menos para mim eles t\u00eam oferecido uma boa alternativa para essas fugas imposs\u00edveis, um bom destino para recobrar o \u00e2nimo, frequentemente de car\u00e1ter escapista e fugaz, \u00e9 verdade, mas nem sempre: uma ou outra vis\u00e3o oferecida pelos seus mais audaciosos mensageiros pode fixar-se poderosamente no esp\u00edrito. Considere o cl\u00e1ssico *Zeit*, dos alem\u00e3es do Tangerine Dream: este amplo e vaporoso firmamento sonoro poder\u00e1 ir bem al\u00e9m da mera expurga\u00e7\u00e3o mental que nos \u00e9 exigida ap\u00f3s a leitura das not\u00edcias do dia; poder\u00e1 mesmo ocasionar uma inesperada viagem extragal\u00e1ctica, sem naves ou propulsores, sem preparativos, sem nada \u2014 um mergulho s\u00fabito e profundo para cima, rumo ao inc\u00f3gnito. Tem sido esta minha rotina nas \u00faltimas semanas: acordo, tomo meu caf\u00e9 e leio as not\u00edcias; depois, coloco algo do Tangerine Dream ou do Vangelis para tocar, desconecto-me do mundo e come\u00e7o a trabalhar. J\u00e1 entre os sons mais recreativos, tem uma banda que eu descobri alguns dias atr\u00e1s, uns alem\u00e3es (eles novamente) que se chamam You e cujo disco *Time Code*, de 1984, \u00e9 sensacional: sons eletr\u00f4nicos que parecem gravados por uma gente que se criou nos mundos surreais daqueles filmes de fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica ultra-coloridos dos anos 50 e 60, *Fantastic Voyage*, *Forbidden Planet*, entre outros cl\u00e1ssicos. Sim, \u00e9 realmente espantosa a quantidade de m\u00fasica fant\u00e1stica que come\u00e7ou a surgir na Alemanha a partir do fim dos anos 60.\r\n\r\nKitaro, por sua vez, \u00e9 a face mais popular da new age, a mais reconhec\u00edvel e terrena. Mesmo que este nome aparentemente n\u00e3o lhe diga nada, \u00e9 muito prov\u00e1vel que voc\u00ea j\u00e1 tenha escutado algumas de suas flautas e teclados, a trilha-sonora oficial de todos aqueles maravilhosos clich\u00eas: os sons de um novo amanhecer, do homem emancipado, do \u00dcbermensch de Nietzsche tomando banho nas \u00e1guas termais da Big Sur de Henry Miller, de tudo aquilo que n\u00e3o temos mais absolutamente nenhuma esperan\u00e7a de ver tornar-se realidade algum dia. E mesmo que n\u00e3o, que voc\u00ea nunca tenha escutado nenhuma de suas m\u00fasicas, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sequer necess\u00e1rio que o fa\u00e7a para saber do que se trata, pois basta ler seus t\u00edtulos: *Cosmic Energy*, *Rising Sun*, *Fragrance Of The Nature*\u2026 Estas s\u00e3o algumas das faixas de *Oasis*, disco que Kitaro lan\u00e7ou em 1979, o mesmo ano em que o Clash lan\u00e7ou *London Calling* \u2014 enquanto os punks convocavam a rebeli\u00e3o e os alem\u00e3es especulavam sobre como seria a m\u00fasica feita por hippies alien\u00edgenas, o velho japon\u00eas sugeria o recolhimento e a medita\u00e7\u00e3o.\r\n\r\nTenho ouvido tamb\u00e9m muito Jimi Hendrix e Led Zeppelin \u2014 dos ingleses, muitos bootlegs, que muitas vezes s\u00e3o sublimes, outras tantas apenas exerc\u00edcios de prolongada paci\u00eancia cujo desejo de voltar a escutar uma segunda vez n\u00e3o consigo imaginar habitando a mente de algu\u00e9m que goze de boa sa\u00fade ps\u00edquica \u2014 mas desses nada tenho de novo para escrever\u2026 J\u00e1 dediquei centenas de laudas deste blog para estes velhos her\u00f3is do passado. Jimi: a tattoo ainda vai sair, meu chapa, tenha paci\u00eancia (o que na sua atual condi\u00e7\u00e3o creio que n\u00e3o lhe seja muito dif\u00edcil). Tem um outro disco, no entanto, de outro artista que cito recorrentemente por aqui, que eu queria tentar dizer alguma coisa. Trata-se de *The Harp Of New Albion*, de Terry Riley. O mestre americano, homenageado pelo Who na can\u00e7\u00e3o *Baba O\u2019Riley* e ainda vivo e produtivo, toca o piano solo deste \u00e1lbum duplo baseado num mito cuja explica\u00e7\u00e3o mais detalhada n\u00e3o achei em lugar nenhum \u2014 sei apenas que Albion era um nome antigo para a Inglaterra e New Albion foi uma das primeiras denomina\u00e7\u00f5es da Ba\u00eda de San Francisco, na California. Pouco importa: a m\u00fasica \u00e9 suficiente. Para mim, mais do que suficiente: me vejo, neste momento, \u00e0s portas da obsess\u00e3o por ela, cada vez mais ref\u00e9m de seu incr\u00edvel efeito de hipnose. Algumas das dez partes da obra atingem tal n\u00edvel de beleza, de intensidade sonora, que tem-se a n\u00edtida impress\u00e3o que aquilo n\u00e3o \u00e9 apenas um piano, mas uma orquestra completa; de fato, em seus melhores momentos, uma esp\u00e9cie de halo forma-se sobre a m\u00fasica, uma massa sonora flutuante e elusiva que, a princ\u00edpio, assombra e confunde o ouvinte, enquanto segue acumulando-se e tornando-se cada vez mais densa, dissipando pouco a pouco a incredulidade, convertendo-a em puro e concentrado deslumbramento. Aqui tamb\u00e9m se trata de m\u00fasica para refugiar-se dentro dela, e enquanto ela dura, n\u00e3o parece haver nenhuma outra possibilidade de vida mais sublime.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Fato \u00e9 que algu\u00e9m, algum dia, importou, ou ganhou de presente de um amigo estrangeiro, ou trouxe em sua bagagem esse CD da Blue Note, a m\u00edtica gravadora americana cujos discos e suas lind\u00edssimas capas s\u00e3o parte essencial do mundo jazz. Eu andava pelo cora\u00e7\u00e3o da cidade, entre a catedral e a Pra\u00e7a XV, indo fazer a coisa mais vulgar e ordin\u00e1ria de todas: sacar dinheiro no banco. Andava e pensava nisso e naquilo, o trabalho que tinha que fazer quando chegasse em casa, o hor\u00e1rio do \u00f4nibus que me levaria at\u00e9 l\u00e1 assim que sa\u00edsse do banco, etc., e meio perplexo, como sempre, com a variedade de rostos e personalidades que se v\u00ea habitualmente num centro urbano em hor\u00e1rio de movimento. Na feira que se instala naquele espa\u00e7o \u00e0s ter\u00e7as-feiras tem a banca do seu Lima, com seu usual lote de quinquilharias (candelabros, conchas e tabuleiros de xadrez cujas peculiaridades especiais residem no fato de n\u00e3o terem absolutamente nenhuma peculiaridade especial) dividindo espa\u00e7o com livros e discos usados. Dei uma olhada autom\u00e1tica meio de longe, distraidamente, e a capa de um CD me chamou a aten\u00e7\u00e3o de imediato, um pequeno quadradinho monocrom\u00e1tico em meio \u00e0s m\u00faltiplas cores das outras coisas todas empilhadas na mesa diante do seu Lima, uma \u00fanica coisa est\u00e1tica e silenciosa em meio ao alvoro\u00e7o e ao burburinho da multid\u00e3o que atravessava a feira naquele momento, como que uma p\u00e9rola brilhante afixada no meio de uma montanha de objetos foscos e cambiantes, mas ao contr\u00e1rio \u2014 s\u00f3 aquele disco n\u00e3o refulgia sob o sol alto das 13h, s\u00f3 aquele objeto parecia n\u00e3o estar envolvido no esfor\u00e7o de locomo\u00e7\u00e3o e de chamar a aten\u00e7\u00e3o que atravessava em ondas a multid\u00e3o barulhenta em seus caminhos fren\u00e9ticos, em suas jornadas repetitivas e infrut\u00edferas neste pa\u00eds cuja rotina priorit\u00e1ria parece ser, cada vez mais, acostumar-se e tornar-se indiferente \u00e0s piores atrocidades. Fui em dire\u00e7\u00e3o ao seu Lima imediatamente, a intui\u00e7\u00e3o do ca\u00e7ador sussurrando que aquilo era algo que eu poderia querer levar comigo para casa, eu que j\u00e1 carregava uma caixa retirada do correio minutos antes. Pois bem, o disco era nada mais nada menos do que *Money Jungle*, [lan\u00e7ado pela Blue Note em 1963](https:\/\/www.discogs.com\/Duke-Ellington-Charlie-Mingus-Max-Roach-Money-Jungle\/release\/2936339) e gravado por Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach, um daqueles times que, quando rememorados pelos devotos do jazz, provocam imediatamente francas e largas gargalhadas de puro prazer, pura alegria em saber que um dia esses tr\u00eas mestres j\u00e1 fizeram m\u00fasica juntos, e essas pessoas ficam sem saber o que falar, continuam simplesmente rindo, seus olhares transmitindo: \u201c\u00c9 Duke, Mingus e Max juntos, oras, n\u00e3o precisa dizer mais nada\u201d, mais ou menos como os saudosos dos bons tempos do futebol brasileiro devem se expressar sobre a Sele\u00e7\u00e3o de 1958, aquela que tinha Pel\u00e9 e Garrincha. Comprei o CD por 15,00 reais, em excelente estado, praticamente novo, ainda que os vest\u00edgios de uma hist\u00f3ria agora irrecuper\u00e1vel \u2014 como esse disco foi parar numa banca de cacarecos usados, ao lado de estandes vendendo gel\u00e9ias e roupinhas para beb\u00eas? \u2014 as marcas que comprovam que ele j\u00e1 foi manipulado antes estejam nas bordas do encarte e numa e noutra mancha de dedo na parte de cima do CD. Como algu\u00e9m adquiriu-o, tirou-o de seu pl\u00e1stico original, possivelmente escutou sua m\u00fasica exuberante e o descartou em troca de sei l\u00e1 quantos pouqu\u00edssimos reais? N\u00e3o saberemos jamais\u2026 A caixa que eu trazia comigo tinha dentro o meu t\u00e3o aguardado *Moving Picures* em vinil, mas de noite, ontem (pois isso tudo foi ontem), esquecemos o Rush e o que escutamos foi Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach, e enxugamos uma garrafa de vinho, e nos deslumbramos com a sorte de eu ter achado esse pequeno mist\u00e9rio no centro da cidade num dia absolutamente banal qualquer, e depois lavei a lou\u00e7a e recoloquei o disco em sua caixinha e juntei-o \u00e0s dezenas de outros pequenos mist\u00e9rios que j\u00e1 ocupam quase todos os espa\u00e7os da minha estante de discos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":717,"title":"Impress\u00f5es auditivas, Vol. III","post_timestamp":"2018-03-14T16:25:06+00:00","url":"2018_03_14_impressoes_auditivas_vol_iii","post":"* O rumor do mar noturno (uma forma de ouvir): resqu\u00edcio antigo e duradouro do lento iniciar da vida. Lembrete perene do que nos trouxe at\u00e9 aqui: uma enorme paci\u00eancia.\r\n* Uma nota sobre um disco do Lightning Bolt, *Hypermagic Mountain*: tem alguma coisa de intrigante nesse t\u00edtulo, no arranjo dessas duas (ou tr\u00eas) palavras, que eu n\u00e3o consigo situar bem\u2026 Talvez por fazer men\u00e7\u00e3o direta a algo que n\u00e3o \u00e9 o aspecto mais famoso da m\u00fasica desta banda, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de ultra-psicodelia? Suponho que n\u00e3o seja nesses termos que as pessoas pensem no [Lightning Bolt](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=F5I7dfgmH38); \u00e9 prov\u00e1vel que eu esteja completamente equivocado. Mas outros t\u00edtulos da banda remetem a isso: *Wonderful Rainbow*, *Earthly Delights*\u2026 \u00c9 um vocabul\u00e1rio rico e colorido que encontra uma ex\u00f3tica congru\u00eancia com o som produzido pelo rigoroso e limitado arsenal da dupla: baixo, voz e bateria. Talvez nada disso: apenas um astuto uso de palavras e o poder da sugest\u00e3o.\r\n* Teria sido melhor n\u00e3o come\u00e7ar a escutar ao Acid Mothers Temple. Eu tinha uma intui\u00e7\u00e3o sobre isso, mas acho que era uma daquelas fracas demais para se imp\u00f4r, uma voz d\u00e9bil e incerta em meio a tantas outras mais hist\u00e9ricas. Um alerta sufocado e quase impercept\u00edvel. Tarde demais.\r\n* O rumor do mar noturno (outra forma de ouvir): prel\u00fadio s\u00e1dico e estrondoso para o paciente fim do mundo. Lembrete implac\u00e1vel de que um dia n\u00e3o estaremos mais aqui.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Acid Mothers Temple em fotografia copiada [deste site](http:\/\/blueskiesturnblack.com\/show\/1454) (sem cr\u00e9ditos).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":716,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2018","post_timestamp":"2018-03-06T15:36:56+00:00","url":"2018_03_06_discos_do_mes_fevereiro_de_2018","post":"**Rush - Different Stages**\r\n\r\nO que eu tenho escutado de Rush nas \u00faltimas semanas \u00e9 algo bastante grave. Um verdadeiro esc\u00e2ndalo! Prevejo at\u00e9 uma cena desenrolando-se num futuro que espero ainda distante, certo dia em que irei olhar para tr\u00e1s e relembrar, cheio de nostalgia e dores nas costas: \u201chouve um ano, no in\u00edcio deste s\u00e9culo\u2026\u201d \u2014 a imprecis\u00e3o temporal que h\u00e1 de vir com a idade \u2014 \u201c\u2026 naquele ano eu tive um Ver\u00e3o do Rush\u201d. Vou torrar a paci\u00eancia de algum outro infeliz alquebrado como eu com minhas reminisc\u00eancias musicais\u2026 Meu \u201cVer\u00e3o do Rush\u201d, conjugando-o ainda no presente: tranquilo, n\u00e3o t\u00e3o quente quanto os \u00faltimos, feito de visitas a mares serenos e longas caminhadas por ruazinhas e servid\u00f5es v\u00edtimas em variados graus do processo de serem engolidas pelas \u00e1rvores \u2014 a natureza reclamante admoestada para tr\u00e1s com muito esfor\u00e7o pelos poucos que ainda n\u00e3o necessitam de bairros urbanos com farm\u00e1cias em todas as esquinas \u2014, a companhia de tucanos e seus v\u00f4os imposs\u00edveis, e pelo menos uma sess\u00e3o do trio canadense por dia. A febre come\u00e7ou com um ou outro disco, inofensivamente, em homenagem aos c\u00e9lebres novos aposentados do rock \u2019n\u2019 roll, e logo percebi que n\u00e3o conhe\u00e7o t\u00e3o bem assim os \u00e1lbuns mais antigos da banda; depois relembrei que sempre adorei sem nenhum constrangimento ou reserva aqueles discos cheios de teclados dos anos 80, discos que, ali\u00e1s, lembro de j\u00e1 terem sido parte da minha trilha-sonora de um outro ver\u00e3o mais antigo, passado num cen\u00e1rio n\u00e3o muito diferente deste (na mesma ilha), num ano em que choveu intensamente, intransigentemente, sem tr\u00e9gua, e passei aqueles dias de f\u00e9rias em que simplesmente n\u00e3o havia mais nada para se fazer ouvindo fitas cassetes que traziam gravados os \u00e1lbuns *Signals*, *Grace Under Pressure* e *Power Windows*, o walkman no colo enquanto observava as goteiras despencando pesadas das beiradas do telhado da velha casa de praia da fam\u00edlia, sentado numa esp\u00e9cie de cadeira de balan\u00e7o que mais parecia um enigma geom\u00e9trico de marcenaria experimental. Isso foi h\u00e1 bastante tempo. Na paixonite (palavra que ouvi uma menina falando dia desses no \u00f4nibus) atual, al\u00e9m de dedicar-me com mais aten\u00e7\u00e3o aos discos dos anos 70, tenho escutado bastante aos muitos registros ao vivo que o Rush lan\u00e7ou ao longo do seus 40 anos (li em algum lugar que a banda tinha a pol\u00edtica de lan\u00e7ar um disco ao vivo a cada quatro de est\u00fadios lan\u00e7ados), prefer\u00eancia explicada pelo conveniente destas compila\u00e7\u00f5es trazerem sempre algumas incr\u00edveis sequ\u00eancias de j\u00f3ias do maravilhoso cat\u00e1logo da banda. Veja, por exemplo, a sequ\u00eancia final de *A Show of Hands*, de 1989: *Force Ten*, *Time Stand Still*, *Red Sector A* e *Closer To The Heart*. Ou ent\u00e3o, minha favorita: as quatros faixas finais do segundo disco do *Different Stages*, lan\u00e7ado em 1998: *Natural Science*, *The Spirit of Radio*, *Tom Sawyer* e *YYZ*. Os discos ao vivo do Rush s\u00e3o excepcionais, justificam-se plenamente atrav\u00e9s de suas dosagens perfeitas de t\u00e9cnica, paix\u00e3o e repert\u00f3rio. Toda a discografia desses caras \u00e9, na verdade, algo quase sem nenhuma repara\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria (desde que voc\u00ea, evidentemente, n\u00e3o fa\u00e7a parte da outra metade do mundo, aquela que odeia o Rush; nesse caso, a mera exist\u00eancia da banda \u00e9 um \u00fanico e enorme e irrepar\u00e1vel erro), o que acaba por suprimir quaisquer tristezas que poderiam advir do recente an\u00fancio do fim do trio. Deve ocorrer justo o contr\u00e1rio: o f\u00e3 de Rush deve ser todo orgulho por v\u00ea-los saindo de cena com grande dignidade, sem m\u00e1culas, o que pouqu\u00edssimas bandas sabem faz\u00ea-lo. A lamentar somente o fato de eu, este f\u00e3 meio relapso, n\u00e3o t\u00ea-los visto ao vivo.\r\n\r\n**Trevor Jones \u0026 Randy Edelman: The Last of the Mohicans Soundtrack**\r\n\r\nEu tinha, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, um certo tema de m\u00fasica de cinema na cabe\u00e7a, uma m\u00fasica \u00e9pica e orquestrada, de melodia grandiloquente, que eu n\u00e3o conseguia me lembrar de qual filme ela fazia parte. Era aflitivo: de tempos em tempos o tema me vinha \u00e0 lembran\u00e7a e o filme parecia prestes a ressurgir diante dos meus olhos, e ent\u00e3o\u2026 Nada. Tela negra, nada de filme nem de cenas nem de personagem algum, s\u00f3 a m\u00fasica desenrolando-se imperturb\u00e1vel em minha mente, em seu tempo espa\u00e7ado e imponente, com uma nota subjacente de zombaria pela minha mem\u00f3ria fraca. At\u00e9 que dia desses resolvi re-assistir um filme do Michael Mann chamado *O \u00daltimo dos Moicanos*, como parte de uma nova chance que eu estava disposto a dar a este diretor, de quem eu havia me tornado inicialmente indiferente (em ordem cronol\u00f3gica:) quando assisti a um dos seus filmes pela primeira vez, justamente esse *O \u00daltimo dos Moicanos*, e n\u00e3o gostado nem um pouco (mas foi a\u00ed, agora eu sei, que a m\u00fasica alojou-se na minha cabe\u00e7a, muito tempo atr\u00e1s); depois tornei-me f\u00e3 quando ele lan\u00e7ou aquele filme *Heat*, com o Al Pacino e o Robert De Niro fazendo uma das duplas de antagonistas mais memor\u00e1veis de todos os tempos; depois, contudo, perdi o interesse nos filmes de Mann quando saiu *Colateral*, que achei muito ruim, a despeito dos louvores quase un\u00e2nimes que o filme recebeu na \u00e9poca; finalmente, umas semanas atr\u00e1s, assinei novamente minha ficha de filia\u00e7\u00e3o ao f\u00e3-clube deste diretor americano quando vi um de seus primeiros filmes, *Manhunter*, a primeira adapta\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Hollywood para uma obra do escritor Thomas Harris, o criador do Hannibal Lecter. Essa insist\u00eancia em tentar gostar de Mann se d\u00e1 porque reconhe\u00e7o nele um diretor, como se costuma dizer, \u0022autoral\u0022, desses que t\u00eam id\u00e9ias est\u00e9ticas pr\u00f3prias, um cuidado especial com a m\u00fasica, desenvolve seus personagens, etc. Todos os diretores deveriam ser assim, mas como Hollywood deixou h\u00e1 muito tempo de ser sobre arte e passou a ser sobre dinheiro, estes artistas est\u00e3o tornando-se cada vez mais raros: eles v\u00e3o perdendo suas oportunidades de trabalho para aqueles que s\u00e3o profissionais mais competentes em produzir sucessos de bilheteria, o que n\u00e3o necessariamente significa bons filmes com alguma relev\u00e2ncia art\u00edstica. Bem, assisti novamente ao *O \u00daltimo dos Moicanos*, e l\u00e1 est\u00e1 o tema orquestrado \u00e9pico que por tanto tempo fustigou minha mem\u00f3ria em busca do filme ao qual pertencia, sempre em v\u00e3o. O filme continua bem ruim, na minha opini\u00e3o, bastante bagun\u00e7ado, um ritmo estranho que denuncia claramente que houve todo tipo de problemas em sua produ\u00e7\u00e3o (inger\u00eancias de est\u00fadio, edi\u00e7\u00f5es exigidas por produtores ou sei l\u00e1 quem, demiss\u00f5es de pessoas no meio de seus trabalhos, coisas do g\u00eanero), e o uso da m\u00fasica sofre e denuncia tudo isso: frequentemente t\u00eam-se a impress\u00e3o de que ela est\u00e1 num tempo errado, desconectada em rela\u00e7\u00e3o ao que se passa na tela, como que deslocada \u2014 \u00e0s vezes prematura, outras simplesmente inadequada. A coisa toda \u00e9 bastante convoluta. Mas o tema principal, autoria de Trevor Jones e Randy Edelman, \u00e9 mesmo \u00f3timo, e o disco da trilha-sonora traz ainda diversas outras faixas acess\u00f3rias menores (que tenho a impress\u00e3o de aparecerem em maior propor\u00e7\u00e3o no filme do que no \u00e1lbum), v\u00e1rios sons que quase exageram nos clich\u00eas new age\/world music \u2014 vocais \u00e0 moda Enya, gaitas de fole, etc. \u2014 e que muito provavelmente, de fato, exageram, e bem al\u00e9m daquilo que pessoas saud\u00e1veis conseguem tolerar, mas como eu tenho esse engui\u00e7o cerebral de adorar esses sons clich\u00eas daquela \u00e9poca, ent\u00e3o para mim isso n\u00e3o \u00e9 problema. O disco \u00e9 \u00f3timo, melhor do que o filme. Como diretor, Michael Mann \u00e9 altamente inconstante, mas na m\u00fasica de seus filmes ele e seus colaboradores quase nunca erram.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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O universo de suas hist\u00f3rias parece ser este mesmo em que vivemos, este cada vez mais esquadrinhado e desencantando\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E pelos nossos computadores, e seus temas centrais s\u00e3o feitos das mesmas quest\u00f5es contempor\u00e2neas que nos afligem aqui do lado de fora do mundo da fic\u00e7\u00e3o. N\u00e3o obstante tudo isso, seus livros s\u00e3o frequentemente pontuados por passagens sobrenaturais e at\u00e9 mesmo bizarras. As tramas s\u00e3o enormes e os personagens s\u00e3o dezenas, mas nunca falta espa\u00e7o para pequenos interst\u00edcios ins\u00f3litos, que surgem do nada e encerram-se sem deixar vest\u00edgios, e ficam por isso mesmo, sem maiores explica\u00e7\u00f5es e sem influir de modo determinante na narrativa que est\u00e1 em curso. Pynchon parece se divertir em fazer o contr\u00e1rio com o inverso do que ocorre no cinema: nunca vemos, nos filmes, pequenos fatos banais e inconsequentes como um telefone tocar e ser engano, ou um pernilongo morder a perna de um personagem que tem que se abaixar para co\u00e7\u00e1-la antes de continuar a fazer seja l\u00e1 o que for que ele esteja fazendo \u2014 em suma, as pequenas interrup\u00e7\u00f5es que nos acontecem o tempo todo na vida real, mas nunca aos personagens de um filme, de modo que, quando estas parecem acontecer na tela, nossos c\u00e9rebros calejados imediatamente nos alertam de que tal fato aparentemente banal n\u00e3o vai demorar para se revelar, na verdade, crucial para o seguimento da trama, como a caneta que o diretor da pris\u00e3o de Hannibal Lecter se d\u00e1 conta que perdeu, na cena em que ele precisa assinar determinado documento e a procura em v\u00e3o em seus bolsos, em *O Sil\u00eancio dos Inocentes*. Obviamente, n\u00e3o \u00e9 uma mera caneta perdida. O procedimento de Pynchon \u00e9 o mesmo do cinema, mas com os sinais invertidos: o extraordin\u00e1rio prosaico \u00e9 descrito \u2014 ou: n\u00e3o \u00e9 omitido \u2014 e n\u00e3o redunda em nada. Por exemplo: em *Contra o dia*, um personagem vai a um concerto numa catedral para assistir *The Lark Ascending*, de Elgar. Durante o concerto, ele pr\u00f3prio, o dito personagem, come\u00e7a a levitar em meio ao p\u00fablico, movido pela beleza da obra. N\u00e3o \u00e9 uma mera sensa\u00e7\u00e3o descrita por ele \u2014 \u00e9 levita\u00e7\u00e3o mesmo, f\u00edsica, minuciosamente narrada em seus detalhes espaciais e testemunhada pelos outros presentes na catedral. Por isso que eu disse que o procedimento de Pynchon \u00e9 o contr\u00e1rio com o inverso: no filme, uma caneta que \u00e9 s\u00f3 uma caneta (menos ainda: uma caneta perdida) desempenha papel fundamental na trama, sua (n\u00e3o-)presen\u00e7a cumpre uma miss\u00e3o essencial \u00e0 narrativa; no livro, uma m\u00fasica que \u00e9 [uma m\u00fasica t\u00e3o fant\u00e1stica e t\u00e3o linda](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=IOWN5fQnzGk) faz um ser humano levitar sem que isso, no entanto, se desdobre em algo importante, sem que isso fa\u00e7a diferen\u00e7a alguma, algo que sequer precisaria ter sido mencionado\u2026\r\n* Ali\u00e1s, uma frase atribu\u00edda a Thelonious Monk serve de ep\u00edgrafe no come\u00e7o de *Contra o dia*: \u0022\u00c9 sempre noite, do contr\u00e1rio a gente n\u00e3o precisaria de luz.\u201d\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1\u003C\/b\u003E \u201cDesencantado\u201d, claro, se levarmos em conta o conceito secular de \u201cencanto\u201d. Aqueles de mente mais cient\u00edfica, por outro lado, devem julgar que o universo est\u00e1 ficando, na verdade, cada vez mais encantado\u2026 Tendo a concordar com eles. [\u21a9](#a1)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Imagem copiada [daqui](http:\/\/news.cygnus-x1.net\/2016\/02\/rushs-early-years-exclusive-interview.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":714,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2018","post_timestamp":"2018-02-07T02:36:32+00:00","url":"2018_02_06_discos_do_mes_janeiro_de_2018","post":"**R.E.M. - Around the Sun**\r\n\r\nDiferente do que ocorre com, digamos, Pearl Jam e Radiohead, com o R.E.M. eu estou sempre renovando meus votos de paix\u00e3o fiel. Posso passar longos per\u00edodos de tempo sem escutar aos dois outros citados pesos-pesados dos anos 90, a quem adoro de verdade, e tamb\u00e9m ao Smashing Pumpkins e ao Jane\u2019s Addiction, tamb\u00e9m eles estimad\u00edssimos grupos cujos discos acontece-me vez por outra de passar meses sem ouvir, por\u00e9m com o R.E.M. nada disso ocorre \u2014 meu v\u00ednculo com eles n\u00e3o permite, o status dessa banda comigo \u00e9 algo que eu n\u00e3o saberia nomear. Escrevi dia desses algo sobre o *Automatic for the People*, n\u00e3o foi? (E s\u00f3 n\u00e3o vou pesquisar no hist\u00f3rico do blog quando foi exatamente pois, sendo esse um dos meus \u00e1lbuns mais queridos, tenho certeza que deitei longas linhas de bobagens melodram\u00e1ticas, ent\u00e3o pouparei-me o constrangimento de reler aquilo.) E tamb\u00e9m escuto muito frequentemente ao *New Adventures in Hi-Fi* e ao *Murmur*, e ao *Monster* e ao *Out of Time*. Tenho, contudo, uma d\u00edvida com a banda: os tr\u00eas \u00faltimos discos. Acho que o \u00faltimo \u00e1lbum lan\u00e7ado pelo R.E.M. a quem dediquei o tempo merecido foi o *Reveal*; os tr\u00eas que sa\u00edram depois eu escutei muito pouco. Pois bem, resolvi dar um jeito nisso, come\u00e7ando pelo *Around the Sun*, que Stipe, Buck \u0026 Mills lan\u00e7aram em 2004 \u2014 \u00e9 o terceiro \u00e1lbum sem Berry, o baterista que deixou o grupo logo ap\u00f3s o lan\u00e7amento de *New Adventures in Hi-Fi*. Minha lembran\u00e7a da \u00e9poca em que *Around the Sun* foi lan\u00e7ado \u00e9 de ter ficado bastante frustrado com o disco, que pareceu-me d\u00e9bil e evanescente exatamente como as figuras que aparecem em sua capa. Isso foi o que ficou registrado na minha mem\u00f3ria: a capa desse disco \u00e9 uma imagem fidedigna da m\u00fasica que ele cont\u00e9m, e talvez venha indicando a chegada do inverno da banda, o come\u00e7o do fim. E assim a coisa ficou. Mas n\u00e3o \u00e9 raro acontecer o seguinte: o tempo passa e as bandas se dissolvem, e o julgamento mais duro que reserv\u00e1vamos a este ou \u00e0quele \u00e1lbum, opini\u00f5es calcificadas pela falta de provas e contesta\u00e7\u00f5es, passam a pedir por reavalia\u00e7\u00f5es. Afinal, \u00e9 isto o que teremos para sempre; n\u00e3o haver\u00e1 acr\u00e9scimos, reviravoltas, retifica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o s\u00e3o apenas os tempos verbais que mudam: um sentimento premente de n\u00e3o se poder descartar nada nos leva a adotar ouvidos mais ternos e receptivos para os discos que julg\u00e1vamos menores, discos que talvez \u2014 agora enfim percebemos, ou nos convencemos \u2014 tenham sido afetados por expectativas irreais na \u00e9poca de seus lan\u00e7amentos, sabotados pelas decep\u00e7\u00f5es que traziam quando enfim chegavam em nossas m\u00e3os e n\u00e3o encontr\u00e1vamos neles uma correspond\u00eancia entre uma coisa e outra, entre o que quer\u00edamos e o que a banda tinha para oferecer, e tais frustra\u00e7\u00f5es anexavam-se aos discos e l\u00e1 ficavam enquanto a banda existia e estava dispon\u00edvel para, em breve, quem sabe, reabilitar-se. Enfim \u2014 acontece, \u00e0s vezes, da banda n\u00e3o estar mais l\u00e1; acontece, \u00e0s vezes, de nos vermos obrigados a reconfigurar nossas rela\u00e7\u00f5es com estes \u00e1lbuns aos quais n\u00e3o est\u00e1vamos em bons termos, porque \u00e9 tudo o que nos resta. E adivinha? Pois \u00e9: *Around the Sun* j\u00e1 n\u00e3o me parece t\u00e3o deficiente assim. H\u00e1 coisas perigosamente pr\u00f3ximas de serem mais do que apenas descart\u00e1veis no disco, sim, mas isso \u00e9 uma constante na discografia do R.E.M., h\u00e1 deslizes e tombos monumentais mesmo em seus melhores \u00e1lbuns. E h\u00e1 as p\u00e9rolas: *Final Straw*, *Electron Blue* e *Wanderlust* s\u00e3o as faixas de que mais gosto em *Around the Sun*. Ok, talvez n\u00e3o d\u00ea de enumerar tantas faixas boas assim\u2026 Mas o disco n\u00e3o \u00e9, de modo algum, fraco como eu me lembrava. Aquelas formas humanas na capa parecem ter ganhado um pouco mais de cor e de foco. Vamos ver como ir\u00e3o sair-se, na sequ\u00eancia, *Accelerate* e *Collapse into Now*, os dois \u00faltimos \u00e1lbuns do R.E.M..\r\n\r\n**Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason**\r\n\r\nSuponho que esse processo de luto e ressignifica\u00e7\u00e3o que descrevi acima deve ter acontecido com muitos \u00f3rf\u00e3os do Pink Floyd em um momento ou outro do longo e agonizante perecimento da banda, a respeito desse ou daquele \u00e1lbum, mas principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao *A Momentary Lapse of Reason*, o primeiro disco que o grupo lan\u00e7ou ap\u00f3s a conturbada sa\u00edda de Roger Waters, l\u00e1 no remoto ano de 1987. Bem, comigo n\u00e3o foi o caso: sempre gostei deste \u00e1lbum, desde que escutei-o pela primeira vez. Considero-me um f\u00e3 relativamente profissional de Pink Floyd e n\u00e3o tenho prefer\u00eancia por Waters ou Gilmour, essa polariza\u00e7\u00e3o boboca que existe entre muitos f\u00e3s e que em geral determina as opini\u00f5es a respeito desse disco. \u00c9 um outro Pink Floyd este comandado por Gilmour, sem d\u00favida, mas o Pink Floyd exatamente anterior, o do *The Final Cut*, era algo que o mundo poderia perfeitamente abrir m\u00e3o sem perder muita coisa. Mesmo o *The Wall*, que tem can\u00e7\u00f5es maravilhosas e todo um culto erguido ao seu redor, mesmo esse disco eu acho bastante irregular, j\u00e1 apontando para um futuro bastante incerto para a banda caso algo n\u00e3o mudasse. Mas, sobre o *A Momentary Lapse of Reason*, eu dizia: eu gosto do disco, e dia desses a m\u00fasica *One Slip* me assaltou subitamente; sem t\u00ea-la escutado \u2014 pelo menos n\u00e3o no estado de vig\u00edlia \u2014 ela de repente tomou minha consci\u00eancia como ref\u00e9m e ficou dias e dias em execu\u00e7\u00e3o no meu c\u00e9rebro, e foi s\u00f3 uns tr\u00eas ou quatro dias depois que resolvi enfim escutar ao disco para ver se negociava uma rendi\u00e7\u00e3o. Abri, finalmente, a vers\u00e3o remasterizada em CD que estava na minha estante j\u00e1 h\u00e1 uns bons dois ou tr\u00eas anos, esse tempo todo com o pl\u00e1stico intacto esperando a ocasi\u00e3o correta para ser rompido, e escutei-a atentamente e relembrei que \u00e9 isso mesmo, eu gosto deste disco, de seu n\u00facleo caloroso que se manifesta sob a forma de pulsos sobre uma superf\u00edcie aparentemente \u00e1rida e fria (o \u00e1lbum quase ele todo um desdobramento de *Welcome to the Machine*, do *Wish You Were Here*), mas\u2026 Bem, ele tem um problema. Ele continua tendo esse maldito problema, uma droga d\u0027um problema que sempre me incomodou profundamente, e eu tinha a esperan\u00e7a de que uma nova visita ao disco depois de tanto tempo o encontrasse n\u00e3o t\u00e3o grave assim, qui\u00e7\u00e1 at\u00e9 resolvido, amenizado, sei l\u00e1. Que nada: ele continua l\u00e1, inabal\u00e1vel. Pergunto: como \u00e9 que esses caras puderam colocar *Learning to Fly* na segunda faixa? O que essa m\u00fasica tem a ver com o fim de *Signs of Life*, a magn\u00edfica instrumental de abertura? *Signs of Life* constr\u00f3i lentamente todo um clima m\u00e1gico e promissor para o disco \u2014 s\u00f3 para ver tudo destro\u00e7ado por *Learning to Fly*? Ningu\u00e9m percebeu a incongru\u00eancia? Ningu\u00e9m avisou-os que aquelas sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram para um dos mixurucas discos solos do Gilmour? N\u00e3o \u00e9 exatamente uma m\u00fasica ruim, mas \u00e9 totalmente inadequada: aquelas guitarras e teclados \u00e1lacres resvalando na pura breguice, que melhor soariam num disco da Madonna ou do Michael Jackson, s\u00e3o como um balde de \u00e1gua despejado sobre uma bela fogueira, uma faixa t\u00e3o anti-Pink Floyd quanto poss\u00edvel, um colossal anti-cl\u00edmax. \u00c9 uma pena, uma enorme e lastim\u00e1vel pena, pois depois o disco cresce, a fogueira ganha vida novamente, e segue majestosa e crepitante at\u00e9 o fim. O *The Division Bell* tamb\u00e9m tem uma faixa assim, que n\u00e3o me lembro o t\u00edtulo, mas ela est\u00e1 meio escondida, inofensiva, alijada em algum ponto da segunda metade do \u00e1lbum, se eu n\u00e3o me engano, e n\u00e3o na important\u00edssima posi\u00e7\u00e3o que *Learning to Fly* ocupa em *A Momentary Lapse of Reason*. Fico pensando se n\u00e3o foi uma provoca\u00e7\u00e3o ao Roger Waters, cuja seriedade nunca permitiria isso.\r\n\r\n**Mastodon - Emperor Of Sand**\r\n\r\nTivesse ouvido antes, talvez este \u00faltimo do Mastodon aparecesse na minha lista de favoritos de 2017. Havia perdido um pouco esses caras de vista; bom saber que eles continuam em forma! A ressalva (pode at\u00e9 parecer, mas ressalvas n\u00e3o s\u00e3o o tema deste post) \u00e9: quando *Emperor Of Sand* chega l\u00e1 pela metade \u2014 e tal acontece comigo em todos os \u00e1lbuns do quarteto \u2014 a minha capacidade de aten\u00e7\u00e3o come\u00e7a a dar sinais de esgotamento, e depois disso \u00e9 um longo e doloroso triturar de neur\u00f4nios devido ao excesso de volume e peso e arpejos e acordes complicados\u2026 A coisa vai tornando-se, pouco a pouco, uma ma\u00e7aroca sonora indistingu\u00edvel. Nesse ponto, por\u00e9m, a viagem j\u00e1 foi plenamente compensada, e o bot\u00e3o de pausa e de stop s\u00e3o nossos amigos e servem para isso mesmo. Mas talvez a banda devesse, n\u00e3o sei, colocar uma advert\u00eancia na contra-capa do \u00e1lbum, sugerindo a audi\u00e7\u00e3o em duas sess\u00f5es, ou algo assim\u2026 Bem, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que o fa\u00e7am: eles se chamam Mastodon, afinal de contas. A melhor m\u00fasica do \u00e1lbum tem tamb\u00e9m um v\u00eddeo bem divertido:\r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022528\u0022 height=\u0022290\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HEubrZV04b0?controls=0\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allow=\u0022autoplay; encrypted-media\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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E assim cartas an\u00f4nimas s\u00e3o distribu\u00eddas, mensagens obscuras e bras\u00f5es meticulosamente imaginados s\u00e3o entalhados nas paredes da pris\u00e3o, t\u00faneis s\u00e3o cavados com p\u00e1s (\u201cmas vamos fingir que s\u00e3o pequenas colheres\u0022), etc. E o prisioneiro tem que ter um animal de estima\u00e7\u00e3o, algu\u00e9m que lhe sirva de \u00fanico companheiro na solid\u00e3o do encarceramento de tantas d\u00e9cadas (na verdade, foram s\u00f3 alguns dias). Tom sugere uma cascavel, pois, se ele muito n\u00e3o est\u00e1 enganado, isso nunca foi feito antes por nenhum outro grande rebelde em fuga, e tal ineditismo emprestaria ainda mais gl\u00f3ria e notoriedade \u00e0 fa\u00e7anha do trio. Mas Jim n\u00e3o gosta de cascav\u00e9is, prefere at\u00e9 mesmo permanecer cativo se tiver que se meter com uma\u2026 Depois de muita discuss\u00e3o, Tom concede que sejam pequenas cobrinhas inofensivas de jardim com bot\u00f5es colados em suas caudas, para que se pare\u00e7am com cascav\u00e9is. Finalmente, Tom assevera que Jim, nas noites que preceder\u00e3o a evas\u00e3o, deve tocar algum tipo de m\u00fasica para os animais (\u00e0s cobras e pequenos outros animais, ratos e aranhas, que Huck e Tom conseguiram capturar e introduzir na cela). Jim argumenta que os animais n\u00e3o ligariam para a m\u00fasica; Tom responde: \r\n\r\n\u003E Yes, they would. They don\u2019t care what kind of music \u2019tis. A [jews-harp](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jew%27s_harp) [em portugu\u00eas conhecido como [berimbau de boca](https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Berimbau_de_boca), e uma das poucas posses de Jim] is plenty good enough for a rat. All animals likes music \u2014 in prison they dote on it. Specially, painful music; and you can\u2019t get no other kind out of a jews-harp. It always interests them; they come out to see what\u2019s the matter with you. Yes, you\u2019re all right; you\u2019re fixed very well. You want to set on your bed nights before you go to sleep, and early in the mornings, and play your jews-harp; play The Last Link is Broken \u2014 that\u2019s the thing that\u2018ll scoop a rat quicker\u2018n anything else; and when you\u2019ve played about two minutes you\u2019ll see all the rats, and the snakes, and spiders, and things begin to feel worried about you, and come. And they\u2019ll just fairly swarm over you, and have a noble good time.\r\n\r\nJim, o escravo negro, \u00e9 um dos seres humanos mais decentes em toda a aventura de Huckleberry Finn ao longo do Mississipi. \u00c9 convivendo com Jim que Huck torna-se tamb\u00e9m ele um ser humano consciencioso e sela de vez seu div\u00f3rcio com a sociedade racista ao seu redor. No fim do livro (spoilers \u00e0 frente), Tom Sawyer toma um tiro e quase morre; Huck, por sua vez, alimenta planos de fugir para o oeste selvagem; Jim, finalmente, torna-se um homem livre. 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Ent\u00e3o, como de h\u00e1bito, levanto-me e vou para a sacada observar o dia, s\u00f3 para descobrir que n\u00e3o h\u00e1 chuva alguma, vento algum, sequer nuvem alguma. Sil\u00eancio total.\r\n* 2018 marca 100 anos da morte de Claude Debussy. Achille-Claude Debussy \u2014 esse era o nome que seus pais lhe deram; logo ele inverteu os dois primeiros nomes e passou a assinar Claude-Achille Debussy; a posterioridade o conhece simplesmente como Claude Debussy \u2014 morreu de c\u00e2ncer em Paris, em 25 de mar\u00e7o de 1918. Seu funeral aconteceu enquanto a cidade era bombardeada pelos alem\u00e3es durante a Primeira Guerra Mundial, e, por esse motivo, n\u00e3o foi acompanhado por ningu\u00e9m. Debussy est\u00e1 enterrado no Cimeti\u00e8re de Passy, \u201centre \u00e1rvores e p\u00e1ssaros\u201d, conforme seu pedido.\r\n* No momento em que escrevo isto, tenho a mais absoluta e convicta certeza de que *Shine On You Crazy Diamond* \u00e9 a melhor m\u00fasica de todos os tempos. Escutei-a ontem \u00e0 noite antes de dormir. Hoje de noite pretendo escutar [este disco](https:\/\/www.sacredbonesrecords.com\/collections\/frontpage\/products\/sbr177-john-carpenter-anthology-movie-themes-1974-1998), cujo vinil comprado em 22 de dezembro de 2017 chegou ontem \u00e0 minha caixa postal. Por\u00e9m, \u00e9 muito prov\u00e1vel que n\u00e3o o fa\u00e7a \u2014 planos feitos pela manh\u00e3 de coisas para escutar \u00e0 noite (ou ler, ou assistir) muito frequentemente n\u00e3o se concretizam, perdem completamente o sentido ao longo do dia. O que eu vou escutar hoje de noite, neste momento (8h50 da manh\u00e3) \u00e9 uma completa inc\u00f3gnita.\r\n* [Isso aqui \u00e9 muito interesante.](https:\/\/www.theatlantic.com\/science\/archive\/2018\/01\/when-your-eyes-move-so-do-your-eardrums\/551237\/)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Claude Debussy em foto de Henri Manuel (ano desconhecido).","author":{"name":"Fabricio C. 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O \u00e1lbum dos belgas do Wiegedood \u00e9 a segunda parte de um projeto cujo primeiro volume eu n\u00e3o escutei ainda; pretendo fazer isso em breve, junto com uma penca de outros discos de metal lan\u00e7ados em 2017 e que tamb\u00e9m n\u00e3o tive ainda a chance de experimentar, mas cujos t\u00edtulos anotei a partir das rela\u00e7\u00f5es de melhores do ano publicadas em alguns sites que gosto muito, conclaves metaleiros cujas fileiras s\u00e3o formadas por malucos que devem ouvir metal o dia todo (de minha parte, devo dizer que certas bandas de black metal, se ouvidas antes de adormecer, s\u00e3o garantia de lindos sonhos celestiais) e que no fim do ano promovem esse maravilhoso servi\u00e7o de utilidade p\u00fablica ao compilar seus \u00e1lbuns preferidos. Uma tremenda m\u00e3o na roda, essas listas, para quem se ressente de n\u00e3o conseguir acompanhar os lan\u00e7amentos e as novas bandas. O rock \u2019n\u2019 roll tem mais representantes na minha lista de favoritos deste ano tenebroso que ficou para tr\u00e1s (s\u00f3 a designa\u00e7\u00e3o num\u00e9rica se foi; a tenebrosidade, como os jornais atestam diariamente, permanece): comentei sobre o Elbow, o Godspeed You! Black Emperor e o Drab Majesty ao longo do ano, nos meus relatos mensais; sobre o Robert Plant acho que n\u00e3o falei nada, mas seu lugar aqui na lista \u00e9 obrigat\u00f3rio: adorei *Carry Fire*. Ali\u00e1s, Plant vem enfileirando discos excepcionais um atr\u00e1s do outro. A parceria entre Brian Eno e Tom Rogerson tamb\u00e9m tem lugar garantido aqui, e olha que escutei este disco uma \u00fanica vez (Eno, sozinho, lan\u00e7ou um outro disco em 2017, mas este n\u00e3o tive oportunidade de ouvir ainda).\r\n\r\nM\u00fasica cl\u00e1ssica n\u00e3o faltou ao longo dos meus dias de 2017. Creio ter sido um ano excepcional em termos de grava\u00e7\u00f5es de pianistas executando sonatas, noturnos, prel\u00fadios, fugas, e toda sorte de obras para o instrumento solo. Tivemos Evgeny Kissin tocando Beethoven e Yulianna Avdeeva tocando Bach, e os mestres Nelson Freire e Maurizio Pollini com Brahms e Chopin, respectivamente. E isso s\u00f3 para citar alguns not\u00e1veis cujos \u00e1lbuns n\u00e3o escutei ainda\u2026 Mas escutei o disco de Krystian Zimerman tocando duas das sonatas de Franz Schubert, e ele conseguiu o que me parecia imposs\u00edvel: ultrapassou a minha ent\u00e3o favorita Mitsuko Uchida na performance deste repert\u00f3rio. Esse disco de Zimerman \u00e9 excepcional, e talvez eu conferisse a ele o topo da lista, se tivesse que arranj\u00e1-la em ordem de prefer\u00eancia. Tamb\u00e9m o \u00e1lbum de C\u00e9dric Tiberghien \u00e9 extraordin\u00e1rio: o franc\u00eas v\u00eam empreendendo o lan\u00e7amento de toda a obra para piano de B\u00e9la B\u00e1rtok, sendo o disco que ele lan\u00e7ou em 2017 o terceiro volume da s\u00e9rie e o melhor de todos at\u00e9 aqui, na minha opini\u00e3o. A sonata que abre o disco, e que eu adoro, nesta interpreta\u00e7\u00e3o de Tiberghien soa algo meio estranha aos meus ouvidos, mas \u00e9 uma m\u00fasica estranha por natureza, ent\u00e3o tudo bem \u2014 deve ser o meu costume com alguma outra vers\u00e3o que agora n\u00e3o me lembro qual \u00e9. Dif\u00edcil escapar de um ou outro lapso de conservadorismo nestes assuntos do cora\u00e7\u00e3o, certo? A *Sonata para dois pianos e percuss\u00e3o*, por outro lado, fecha maravilhosamente o disco e garantiu Tiberghien aqui na lista, que tem ainda Jeroen van Veen tocando composi\u00e7\u00f5es de John Adams e a infal\u00edvel Angela Hewitt com o segundo volume das sonatas de Domenico Scarlatti. Hewitt tocando Scarlatti: m\u00fasica sublime capaz ampliar a expectativa de vida de quem a escuta, capaz de purificar o ar, matar c\u00e9lulas cancerosas, e toda esp\u00e9cie de curas e restaura\u00e7\u00f5es n\u00e3o alcan\u00e7adas ainda pelo artif\u00edcio cient\u00edfico\u2026 Talvez at\u00e9 mesmo restituir a vida a rec\u00e9m-falecidos. Deveriam experimentar tocar esse disco num necrot\u00e9rio: pode ser algo bem divertido. Completam a rela\u00e7\u00e3o dos meus favoritos de 2017 tr\u00eas discos com obras de c\u00e2mara: o Del Sol String Quartet tocando uma obra recente de Terry Riley chamada *Dark Queen Mantra*, o Quatuor Voce tocando Bart\u00f3k, Schulhoff e Jan\u00e1\u010dek (as obras de Schulhoff e Jan\u00e1\u010dek s\u00e3o excepcionais, mas o destaque fica com a obra-prima que \u00e9 o primeiro quarteto de Bart\u00f3k, executado com maestria pelo Quatuor Voce) e o Hebrides Ensemble tocando a m\u00fasica do compositor ingl\u00eas Peter Maxwell Davies.\r\n\r\nA\u00ed est\u00e1 a lista completa, meus 14 discos favoritos de 2017, sem ordem de prefer\u00eancia:\r\n\r\n* Almyrkvi - *Umbra*\r\n* Angela Hewitt - *Domenico Scarlatti: Sonatas Vol. 2*\r\n* Brian Eno \u0026 Tom Rogerson \u2013 *Finding Shore*\r\n* C\u00e9dric Tiberghien - *Bart\u00f3k: Sonata for two pianos and percussion \u0026 other piano music*\r\n* Del Sol String Quartet - *Terry Riley: Dark Queen Mantra*\r\n* Drab Majesty - *The Demonstration*\r\n* Elbow - *Little Fictions*\r\n* Godspeed You! Black Emperor - *Luciferian Towers*\r\n* Hebrides Ensemble - *The Last Island - Chamber Music by Peter Maxwell Davies\r\n* Jeroen van Veen - *Adams: Piano Music*\r\n* Krystian Zimerman - *Schubert: Piano Sonatas D 959 \u0026 960*\r\n* Quatuor Voce - *Bart\u00f3k \/ Schulhoff \/ Jan\u00e1\u010dek: Lettres Intimes*\r\n* Robert Plant - *Carry Fire*\r\n* Wiegedood - *De Doden Hebben Het Goed II*","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":710,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2017","post_timestamp":"2018-01-01T16:46:45+00:00","url":"2018_01_01_discos_do_mes_dezembro_de_2017","post":"**Fine Young Cannibals - The Raw \u0026 The Cooked**\r\n\r\nFoi bem no come\u00e7o de dezembro quando, em resposta a uma destas minhas recorrentes crises de nostalgia, resolvi baixar o segundo disco do Fine Young Cannibals, o *The Raw \u0026 The Cooked*, lan\u00e7ado em 1988. A id\u00e9ia era escutar novamente, depois de muitos anos, o inesquec\u00edvel hit *She Drives Me Crazy*, e quem sabe descobrir alguma outra coisa interessante entre as demais can\u00e7\u00f5es do disco, faixas que eu supunha nunca ter escutado antes. Era um tranquilo dia de semana, de temperatura ainda amena \u2014 no momento em que escrevo isso, j\u00e1 pr\u00f3ximo do Natal, o calor do ver\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 derretendo tudo a\u00ed fora \u2014 e a voz engra\u00e7ada do cantor da banda, Roland Gift, n\u00e3o demorou para se transformar em uma boa companhia para a pr\u00f3xima hora de trabalho que eu tinha pela frente. As m\u00fasicas foram ent\u00e3o se sucedendo, a maioria delas bastante razo\u00e1vel se for considerar as reduzidas expectativas que costumo ter em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica pop deste tipo, e eu at\u00e9 j\u00e1 considerava a hip\u00f3tese de reavaliar a banda como algo mais do que uma fr\u00edvola one-hit wonder quando resolvi fazer uma pausa para um caf\u00e9 \u2014 pausa no trabalho somente, enquanto o disco continuou em execu\u00e7\u00e3o. L\u00e1 fui eu para a cozinha e comecei a manipular filtro, coador, \u00e1gua fervendo, o cheiro delicioso do caf\u00e9 desobstruindo vasos e agitando neur\u00f4nios antes mesmo do primeiro gole, quando ent\u00e3o uma nova faixa inicia e me paralisa imediatamente. Reconhecia-a inteira de uma s\u00f3 vez, toda a melodia e a sequ\u00eancia de verso, pr\u00e9-refr\u00e3o, refr\u00e3o, etc., e as guitarras que repicam no refr\u00e3o, e at\u00e9 mesmo os \u201cu-huuu-huuu\u201d em volume diminuto j\u00e1 no fade-out do fim da m\u00fasica (uma coisa bem comum naquela \u00e9poca: quando uma m\u00fasica come\u00e7ava a acabar, toda sorte de uivos e gritos eram vazados nas grava\u00e7\u00f5es, como que para demonstrar que na banda eram todos amigos e estavam se divertindo para valer no est\u00fadio), tudo isso numa acrobacia cerebral vertiginosa que comprimiu, de algum modo, tr\u00eas minutos e meio dentro de uma mera fra\u00e7\u00e3o de segundo, e em seguida os tais [tr\u00eas minutos e meio](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=THD_vY2-AXA) na velocidade normal e eu mergulhado em total perplexidade, de algum jeito finalizando o preparo do caf\u00e9 sem reparar direito no que fazia com as m\u00e3os e a pergunta acachapante, irretorqu\u00edvel, ganhando forma e ocupando pouco a pouco todo o espa\u00e7o restante do dia: como \u00e9 poss\u00edvel que eu n\u00e3o me lembrava de *Don\u2019t Look Back*? Como \u00e9 poss\u00edvel essa m\u00fasica ter ficado armazenada e adormecida no meu c\u00e9rebro por tantos e tantos anos, sem ter vindo \u00e0 superf\u00edcie da consci\u00eancia em nenhum momento (ao contr\u00e1rio de *She Drives Me Crazy*, que eu muito frequentemente cantarolo), e no entanto, quando finalmente evocada, ela se apresentou absolutamente inteira, intacta, em todos os seus detalhes, chegando at\u00e9 mesmo a me parecer que eu venho escutando-a diariamente desde 1988? Como pode? N\u00e3o achei resposta plaus\u00edvel ainda.\r\n\r\n**Marin Alsop \u0026 Bournemouth Symphony Orchestra - John Adams: Shaker Loops**\r\n\r\nEu adoro v\u00e1rios compositores americanos do s\u00e9culo XX \u2014 ali\u00e1s, eu adoro os Estados Unidos. Nunca me deixei cair no lugar-comum do anti-americanismo, que soa para mim uma estupidez t\u00e3o grande quanto certo tipo de patriotismo, aquele nacionalismo tosco que n\u00e3o raro \u00e9 apenas ignor\u00e2ncia ou mesmo \u00f3dio expl\u00edcito dos outros disfar\u00e7ado de algo positivo, em geral para fins pol\u00edticos e eleitoreiros. \u00c9 isso: anti-americanismo (ou anti-qualquer outro pa\u00eds) e patriotismo s\u00e3o as duas faces da mesma moeda, cujo valor de troca \u00e9 pregui\u00e7a intelectual e preconceito. Essas abstra\u00e7\u00f5es a que chamamos pa\u00edses nos d\u00e3o um sem n\u00famero de motivos para am\u00e1-los e detest\u00e1-los, e o saldo em todos os casos \u00e9 sempre o mesmo. E n\u00e3o venham me falar em tend\u00eancias para a opress\u00e3o ou autoritarismo: elas apenas se alternam, de acordo com as circunst\u00e2ncias. Quem n\u00e3o tem o seu quinh\u00e3o? Que pa\u00eds \u00e9 livre dos pecados humanos? Oras, os Estados Unidos nos deram golpes de estado e Donald Trump, mas tamb\u00e9m Walt Whitman e Jimi Hendrix\u2026 Como odi\u00e1-los? No fim das contas, estou com William Burroughs (outro grande cidad\u00e3o norte-americano): pa\u00edses n\u00e3o deveriam existir, e tampouco fam\u00edlias. Mas n\u00e3o vim aqui falar sobre isso, perdoem-me a divaga\u00e7\u00e3o; eu dizia que adoro os compositores norte-americanos do s\u00e9culo passado, gente como Samuel Barber, Charles Ives e John Adams, principalmente este \u00faltimo, que ainda est\u00e1 vivo e produtivo. H\u00e1 ainda os minimalistas e tamb\u00e9m os inclassific\u00e1veis Morton Feldman e John Cage, e adoro todos esses tamb\u00e9m, contudo, ao longo de 2017, eu acho que escutei mais frequentemente aqueles primeiros nomes citados, autores de uma obra mais facilmente reconhec\u00edvel como m\u00fasica cl\u00e1ssica na linha da grande tradi\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, ainda que tenham, cada um a seu modo, injetado em suas composi\u00e7\u00f5es boas doses da paisagem e do esp\u00edrito m\u00edtico americanos. Adams, na verdade, pode figurar tanto ao lado dos pioneiros Ives e Barber como tamb\u00e9m dos modernos Steve Reich e Philip Glass, por conta de algumas aventuras suas no mundo da m\u00fasica m\u00ednima, como por exemplo em *Shaker Loops*. Composta originalmente em 1978 para um septeto de cordas, tenho [este CD](https:\/\/www.naxos.com\/catalogue\/item.asp?item_code=8.559031) onde a maestra Marin Alsop rege toda a se\u00e7\u00e3o de cordas da Bournemouth Symphony Orchestra e o resultado \u00e9 excepcional: a m\u00fasica ganha um vulto estonteante, irradiante mesmo em seus trechos mais lentos e meditativos, que mal conseguem esconder o pulso que anima toda a composi\u00e7\u00e3o e que parece capturar de maneira mais profunda a aten\u00e7\u00e3o do ouvinte, submergindo-o na corrente sonora e indo mais fundo, trazendo-o para dentro de si, para o centro de seu motor que parece cheio de um combust\u00edvel ultra-aditivado alqu\u00edmico. Em geral, quando come\u00e7o a escut\u00e1-la, n\u00e3o quero que essa m\u00fasica acabe nunca: temo que ela esteja tomando o lugar do sangue que corre pelas veias, e, na sua falta, o corpo desfale\u00e7a, a vida falte. Inspirado por Steve Reich e tamb\u00e9m por Terry Riley, Adams criou um tipo de m\u00fasica muito especial, que eu planejo explorar amplamente neste novo ano que est\u00e1 iniciando.\r\n\r\n**U2 - War**\r\n\r\nPara finalizar, em dezembro tive tamb\u00e9m uma fase U2. Em geral, sou bastante indiferente ao U2, tendo sempre considerado que um disco de Bono Vox e cia. s\u00f3 pode ser bom na mesma medida em que um filme com o Mel Gibson pode ser bom, ou seja, a coisa esbarra em muitas limita\u00e7\u00f5es naturais, essas que ditam os princ\u00edpios do entretenimento de massa. Mas Mel Gibson \u00e9 o Mad Max original e tamb\u00e9m o U2 tem alguns grandes \u00e1lbuns nos anos 80. Por que ent\u00e3o n\u00e3o escuto-os com mais frequ\u00eancia? Pensei seriamente sobre isso e encontrei tr\u00eas motivos: 1) na banda tem um cara que se chama (?) \u0022The Edge\u0022; 2) o ultrajante disco *Pop*; 3) a m\u00fasica *Pride (In The Name Of Love)*. Meu problema com *Pride* \u00e9 o refr\u00e3o que nunca consegui entender o motivo para ter sido gravado daquele jeito t\u00e3o excessivamente esgoelado (porque de resto a m\u00fasica \u00e9 muito boa), um esfor\u00e7o f\u00edsico t\u00e3o exagerado e desnecess\u00e1rio que sempre me faz cogitar ter sido a inten\u00e7\u00e3o de Bono Vox garantir que sempre que algu\u00e9m viesse a escutar esta m\u00fasica, ent\u00e3o todo ser vivo dotado de orelhas num raio de cinco quil\u00f4metros fosse obrigado a escut\u00e1-la tamb\u00e9m. N\u00e3o necessariamente escutar \u00e0 m\u00fasica \u2014 escutar \u00e0 sua voz, exclusivamente. Sim, acho a coisa bastante nauseante, e ela se repete, sei l\u00e1, umas cinco ou seis vezes, mas parece mesmo 300 vezes. Acho que \u00e9 principalmente por causa de *Pride (In The Name Of Love)* que eu n\u00e3o escuto tanto ao U2: ela trincou alguma coisa no meu c\u00e9rebro e o dano permanente faz com que eu raramente me lembre da banda, mais ou menos da mesma maneira como algumas pessoas suprimem de suas lembran\u00e7as certos eventos traum\u00e1ticos do passado. Mas reconhe\u00e7o que *The Joshua Tree* \u00e9 um bel\u00edssimo \u00e1lbum, e o pr\u00f3prio *The Unforgettable Fire* tamb\u00e9m \u00e9 muito bom, a despeito de *Pride* \u2014 ali\u00e1s, ambos os \u00e1lbuns produzidos por Brian Eno e Daniel Lanois. Meu favorito, por\u00e9m, \u00e9 o disco que precedeu este dois, o *War*, de 1983, um dos discos de m\u00fasica pop mais \u00e1cidos e relevantes de todos os tempos. *New Year\u2019s Day* \u00e9 minha m\u00fasica favorita do U2. Ali\u00e1s, sei que no atual cen\u00e1rio brasileiro \u00e9 quase um acinte dizer isso, mas seguindo a tradi\u00e7\u00e3o: feliz 2018 para todos! Fa\u00e7amos o que for poss\u00edvel.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":709,"title":"S\u00f3 na m\u00fasica","post_timestamp":"2017-12-17T22:37:45+00:00","url":"2017_12_17_so_na_musica","post":"\u003E J\u00e1 sem se sentir cansado, Henry se afasta da parede onde estava recostado e caminha para o meio do audit\u00f3rio escuro, na dire\u00e7\u00e3o da grande m\u00e1quina de som. Deixa que o som o envolva. Existem esses raros momentos em que, juntos, m\u00fasicos atingem algo mais doce do que tudo o que j\u00e1 obtiveram antes, nos ensaios e nas apresenta\u00e7\u00f5es, algo al\u00e9m da mera compet\u00eancia t\u00e9cnica e cooperativa, quando a express\u00e3o deles se torna t\u00e3o f\u00e1cil e elegante quanto a amizade ou o amor. \u00c9 ent\u00e3o que nos proporcionam um relance do que pod\u00edamos ser, do que temos de melhor, e de um mundo imposs\u00edvel em que damos para os outros tudo o que temos, mas sem perdermos nada. No mundo real, existem planos minuciosos, projetos vision\u00e1rios de reinos de paz, todos os conflitos resolvidos, felicidade para todos, para sempre \u2014 miragens em nome das quais as pessoas est\u00e3o dispostas a morrer e matar. O reino de Cristo na terra, o para\u00edso dos trabalhadores, o estado isl\u00e2mico ideal. Mas s\u00f3 na m\u00fasica, e s\u00f3 em raras ocasi\u00f5es, a cortina, de fato, se levanta para esse sonho de comunidade, e ele \u00e9 evocado de forma fascinante, antes de se dissolver junto com as \u00faltimas notas. (...)\r\n\r\nTrecho de *S\u00e1bado*, de Ian McEwan, tradu\u00e7\u00e3o de Rubens Figueiredo [Companhia das Letras]","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":708,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2017","post_timestamp":"2017-12-02T18:31:26+00:00","url":"2017_12_02_discos_do_mes_novembro_de_2017","post":"Continuo saboreando generosas doses di\u00e1rias de quartetos de cordas. O card\u00e1pio foi bem variado neste m\u00eas que passou \u2014 teve black metal, teve blues e teve Bach \u2014 mas as pe\u00e7as para dois violinos, uma viola e um violoncelo continuam em evid\u00eancia. Nos \u00faltimos dias atravessei, novamente, o conjunto dos 15 quartetos escritos por Dmitri Shostakovich e gravados pelo Quatuor Danel, horas e horas de m\u00fasica sublime espalhada em uma caixa de cinco CDs e, na capa, o [russo fumando e lendo o Pravda](https:\/\/images-na.ssl-images-amazon.com\/images\/I\/814YZVQZkSL._SL1400_.jpg), express\u00e3o algo contrariada, cenho franzido, talvez percebendo que a utopia comunista come\u00e7ava a se tornar pesadelo totalit\u00e1rio. Estes s\u00e3o alguns dos meus quartetos favoritos, junto com os de Szymanowski, Bart\u00f3k e Schubert. Os de Beethoven eu sei que s\u00e3o muito estimados pelos f\u00e3s de m\u00fasica cl\u00e1ssica, devido sobretudo \u00e0 diversidade em termos de estilos e significados (o g\u00eanio natural do alem\u00e3o, presente em tudo que ele comp\u00f4s, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio citar), mas estes eu n\u00e3o encarei ainda \u2014 estou esperando por uma ocasi\u00e3o especial. Voltando aos de Shostakovich: se algu\u00e9m ficar curioso e come\u00e7ar a escut\u00e1-los, e se apaixonar tamb\u00e9m por eles, ent\u00e3o aqui vai mais um presente: este [site](http:\/\/www.quartets.de).\r\n\r\nAgora, para variar um pouco, vou falar mal de um disco. Eu conheci o primeiro do Elbow, o *Asleep in the Back*, t\u00e3o logo ele foi lan\u00e7ado em 2001, e me tornei f\u00e3 da banda imediatamente. Ap\u00f3s a prolongada esta\u00e7\u00e3o de f\u00faria e guitarras dos anos 90, ele parecia representar, naquele momento, uma pausa para respirar e refletir \u2014 uma nova m\u00fasica para os novos tempos que iniciavam-se, a rebeldia adolescente ficando para tr\u00e1s, a vida mudando em diversas frentes (era este o meu ponto de vista). Havia outras bandas criando esta ambienta\u00e7\u00e3o, mas o Elbow logo ganhou posi\u00e7\u00e3o de destaque. Os discos seguintes foram ficando ainda melhores e a banda continua uma das minhas favoritas; o *Asleep in the Back*, no entanto, ficou meio de lado, eclipsado pelos lan\u00e7amentos posteriores, e passei muito tempo sem escut\u00e1-lo. Resolvi fazer isso uns dias atr\u00e1s e fiquei um pouco decepcionado com o que ouvi. O caso \u00e9 que em 2001 eu ainda n\u00e3o conhecia o Talk Talk, influ\u00eancia confessa do Elbow. N\u00e3o sei dizer quando foi que enfim descobri esta fant\u00e1stica banda, mas o certo \u00e9 que n\u00e3o demorei muito para perceber a beleza t\u00e3o superior e refinada de seu \u00faltimo \u00e1lbum, o miraculoso *Laughing Stock*. E agora, ao revisitar o *Asleep in the Back*, foram v\u00e1rias as faixas que me fizeram pensar que o Elbow n\u00e3o estava fazendo muito mais do que (tentando) emular a m\u00e1gica da obra-prima do Talk Talk, aquela cad\u00eancia meio \u00e9bria, let\u00e1rgica, uma m\u00fasica que parece nascer e morrer e ressuscitar o tempo todo, existindo em uma linha de tempo pr\u00f3pria \u2014 mas sem, evidentemente, atingir os resultados sublimes de *Laughing Stock*. At\u00e9 uma m\u00fasica com fim abrupto tem no *Asleep in the Back*, o que soa como um gesto de rever\u00eancia demasiadamente honesto, ou ent\u00e3o algo que na verdade tem outro nome. N\u00e3o passei a consider\u00e1-lo um disco ruim, claro que n\u00e3o \u2014 um disco que tem em seu tracklist uma m\u00fasica como *Scattered Black and Whites* nunca ser\u00e1 um disco ruim \u2014 por\u00e9m um dos efeitos colaterais de portentos como o *Laughing Stock* \u00e9 este: empalidecer os outros que lhe s\u00e3o tribut\u00e1rios.\r\n\r\nMas eu n\u00e3o gosto de ocupar este espa\u00e7o com opini\u00f5es depreciativas, ainda mais a respeito de bandas queridas, ent\u00e3o finalizo dizendo que o *Howl*, este sim continua inabalavelmente magn\u00edfico! Nunca fico muito tempo sem escutar ao Black Rebel Motorcycle Club, mas esta nova visita ao meu \u00e1lbum favorito deles, no m\u00eas passado, se deu por um motivo especial\u00edssimo: chegou, finalmente, minha aguardada vers\u00e3o em vinil, que encomendei meses atr\u00e1s e as acrobacias da log\u00edstica do com\u00e9rcio globalizado fizeram com que, antes de ser finalmente entregue em minha caixa postal, o pacote que a trazia fosse primeiro dar um rol\u00ea pelas Bahamas, pegasse um sol por l\u00e1 e fizesse um pouco do que seja l\u00e1 o que for que se faz nas Bahamas, e no meio do passeio ganhasse uns amassados nos cantos da capa que abriga os dois discos, mas tudo bem, eles chegaram inteiros e soando gloriosamente bem. Sempre desconfiei que \u00e9 este o jeito correto de apreciar este \u00e1lbum: a partir do negro e pesado vinilz\u00e3o. O \u00faltimo lado do segundo disco \u00e9 um fen\u00f4meno, m\u00fasica que sempre escuto em estado de embevecimento total: s\u00e3o tr\u00eas faixas, *Sympathetic Noose*, *The Line* e uma faixa escondida que j\u00e1 vi nomeada em algum lugar como *Open Invitation* (esse t\u00edtulo n\u00e3o aparece em lugar nenhum do vinil, e nem na vers\u00e3o em CD), tr\u00eas m\u00fasicas que sempre me d\u00e3o a impress\u00e3o de serem ainda melhores do que o m\u00e1ximo que esta banda poder\u00e1 jamais ser\u2026 E olha que eu sou f\u00e3 incondicional do BRMC, adoro-os intensamente e gosto at\u00e9 mesmo de exibir isso \u2014 estou vestindo, no momento em que escrevo isto, uma camiseta da banda \u2014, o que n\u00e3o me impede, todavia, de reconhecer neles um grupo de rock \u2019n\u2019 roll que tem seus limites criativos. Estes, no entanto, em *Howl*, foram solenemente ignorados e superados num desses maravilhosos milagres da m\u00fasica que sempre me faz pensar naquelas hist\u00f3rias de velhos cantores de blues assinando pactos com o diabo em encruzilhadas poeirentas e abandonadas no interior profundo dos Estados Unidos. Pois \u00e9, parece que em 2005 o tinhoso andou fazendo neg\u00f3cios em San Francisco.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":707,"title":"As belezas fugidias","post_timestamp":"2017-11-18T00:57:47+00:00","url":"2017_11_17_as_belezas_fugidias","post":"J\u00e1 faz mais de um ano que a m\u00fasica cl\u00e1ssica [tornou-se uma companhia praticamente di\u00e1ria em minha vida](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2016_07_06_discos_do_mes_junho_de_2016) e eu queria dizer algo sobre isso, mas antes de come\u00e7ar me permitam um par\u00eanteses: publicar aqueles relatos mensais sobre discos escutados traz a vantagem adicional de me permitir localizar com precis\u00e3o uma ou outra coisa na minha linha do tempo, o que resolve um problema que tenho desde que comecei a fazer um uso razoavelmente consciente da mem\u00f3ria: o de nunca conseguir dizer, como tantas pessoas o fazem t\u00e3o naturalmente, que tal coisa me aconteceu quando eu tinha 12 anos, outra foi em 2010, e assim por diante. Os fatos da minha vida nunca se colam \u00e0s datas em que aconteceram; \u00e9 como se fossem duas linhas retas (marca\u00e7\u00e3o do tempo e lista de eventos) correndo paralelas, ou seja, lado a lado mas sem nunca se tocarem para uma futura recorda\u00e7\u00e3o de qual ponto de uma corresponde a determinado ponto da outra. N\u00e3o que isso tenha alguma import\u00e2ncia vital, e acho at\u00e9 que quando algu\u00e9m diz \u201ccerta vez, quando eu tinha 7 anos\u2026\u201d, na maioria das vezes as pessoas est\u00e3o chutando uma idade aproximada qualquer\u2026 Por\u00e9m, agora eu posso dizer com plena certeza, pois pude conferir na lista de posts c\u00e1 deste blog, que foi em 2016 \u2014 quando eu tinha 37 anos \u2014 que eu me tornei, finalmente, um amante da m\u00fasica erudita. (Pensando sobre isso dias atr\u00e1s, eu achava que aquelas audi\u00e7\u00f5es revelat\u00f3rias de Schoenberg tinham se dado em 2015.) Foi quando sa\u00ed do arm\u00e1rio, por assim dizer, j\u00e1 que o interesse sempre existiu e audi\u00e7\u00f5es esparsas tamb\u00e9m, mas desde o ano passado, quando penso em m\u00fasica, o que primeiro vem em minha mente s\u00e3o sonatas, sinfonias, quartetos de cordas, m\u00fasica de c\u00e2mera, at\u00e9 mesmo missas e orat\u00f3rios, e quando me perguntam o que eu tenho escutado, eu respondo: m\u00fasica cl\u00e1ssica. Beethoven, Debussy e Prokofiev. E o que eu queria dizer a esse respeito \u00e9 o seguinte: embora as explos\u00f5es estelares previstas naquela ocasi\u00e3o n\u00e3o tenham se concretizado, algo em minha vida mudou, sim. Com essa m\u00fasica ao fundo da maioria dos meus pensamentos \u2014 a m\u00fasica e seus caminhos ora errantes e especulativos, ora arrojados e impetuosos; seus sil\u00eancios carregados e desvarios brincalh\u00f5es; suas sofistica\u00e7\u00f5es e delicadezas \u2014 creio que passei a ver as coisas de modo diferente, tentando enxergar sempre al\u00e9m das superf\u00edcies, de forma mais compreensiva e paciente. Algumas leituras em paralelo t\u00eam tamb\u00e9m me ajudado a trilhar o caminho para este novo patamar, cuja vis\u00e3o em perspectiva diferente daquela a que eu estava habituado me confere uma calma que eu nunca havia experimentado antes, e isso tudo parece chegar no momento perfeito, uma sincronia que n\u00e3o sei se fruto de um felic\u00edssimo acaso ou se de algum mecanismo biol\u00f3gico, alguma intui\u00e7\u00e3o dessas cuja origem reside nos instintos ainda n\u00e3o anulados, os que d\u00e3o conta de captar os n\u00edveis de hostilidade no ambiente e, se for o caso, procuram modos de defender-se, mesmo que n\u00e3o se perceba de forma muito consciente esse processo em andamento. Em se tratando desta \u00faltima hip\u00f3tese, claro, n\u00e3o seria acaso nem sincronia coisa alguma \u2014 seria apenas o meu senso de sobreviv\u00eancia em a\u00e7\u00e3o, a natureza perseverando por meio do meu corpo. Bem, n\u00e3o sei. Fato \u00e9 que somente esse equil\u00edbrio, essa serenidade, me parecem capaz de deter o desespero que, n\u00e3o fosse este o meu estado de esp\u00edrito, pressinto que poderia invadir-me diante das vis\u00f5es sinistras do que vem ocorrendo mundo afora, a trag\u00e9dia social no Brasil (que querem resolver, como \u00e9 de praxe neste pa\u00eds, dificultando ainda mais a vida das multid\u00f5es dos andares de baixo e salvaguardando os pouqu\u00edssimos dos andares de cima), a viol\u00eancia sem fim causada por fan\u00e1ticos de todos os credos nos EUA e na Europa, a crueldade com que s\u00e3o tratados imigrantes por todos os portos e cidades do mundo, o inacredit\u00e1vel assanhamento de neo-nazistas por toda parte, enfim, parece-me \u00e0s vezes que estamos perdendo o controle sobre as possibilidades de conviv\u00eancia global e est\u00e1 se tornando inequivocamente claro o qu\u00e3o ilus\u00f3ria foi, durante tanto tempo, essa bonita id\u00e9ia de civiliza\u00e7\u00e3o. A calma dentro de mim, contudo, vem do olhar paciente e da m\u00fasica, da reflex\u00e3o e da compreens\u00e3o das causas e efeitos, dos motivos que nos enredaram e nos levaram a esta prova\u00e7\u00e3o; vem de n\u00e3o sucumbir a estes motivos, de manter-se puro e generoso, mesmo contra tudo e contra todos, como um abnegado e resoluto crist\u00e3o em tempos de bancada evang\u00e9lica e de gan\u00e2ncia e pec\u00falio como motores oficiais da sociedade; v\u00eam, finalmente, de saber conservar em si, apesar de aqui na nossa escala humana as coisas estarem indo de mal a pior, saber exercitar e conservar a capacidade de maravilhar-se com este infinito que nos abriga, esse espa\u00e7o sem inten\u00e7\u00f5es e ainda repleto de enigmas do qual somos apenas um \u00ednfimo desdobramento, vagando por a\u00ed meio aturdidos e desamparados. \u201cReceber de bom grado as belezas fugidias e ter pena dos sofrimentos fugidios, sem esquecer, por um momento sequer, o quanto s\u00e3o fugidios\u201d, \u00e9 um trecho de Santayana que li dia desses. Mesmo sendo essa insignific\u00e2ncia c\u00f3smica, vassalos desses \u00e1timos fugidios todos, n\u00f3s o constatamos \u2014 a seta do tempo nos dotou destes sentidos que nos permitem perceber, mesmo que parcialmente, a n\u00f3s mesmos e ao universo, e assim vamos desvendando esta trama, pedacinho por pedacinho, expressando uns aos outros nossas vis\u00f5es por meio de modelos te\u00f3ricos, f\u00f3rmulas, filosofias, imagens, vamos diminuindo nossa import\u00e2ncia perante tanto tempo e tanto espa\u00e7o, e transformando tudo isso, tamb\u00e9m, em m\u00fasica. N\u00e3o raro, o fazemos com m\u00e1xima beleza atrav\u00e9s de quartetos de cordas, e o paradoxo da economia de recursos deste formato conseguir alcan\u00e7ar t\u00e3o amplos resultados \u2014 tocar o z\u00eanite daquilo que se pode ver e sentir atrav\u00e9s de sons \u2014 \u00e9 isto o mais fascinante de tudo. A chave, creio eu, est\u00e1 na beleza elusiva do som desses instrumentos, que parecem falar diretamente \u00e0quela parte nossa que, mesmo que n\u00e3o queiramos escutar sua voz silenciosa, mesmo que nos esforcemos em soterr\u00e1-la sob alguma cren\u00e7a de imortalidade ou qualquer outro tipo de nega\u00e7\u00e3o da morte, a parte nossa que sabe que iremos, em breve, desaparecer, nosso sentido inato de saber-se passageiro, um amontoado circunstancial de mat\u00e9ria auto-consciente, fugidia tal qual o som de um violino. Parecem compartilhar algum segredo, os violinos e nossas almas; \u0022aproveite o privil\u00e9gio e agarre-se \u00e0 beleza instant\u00e2nea do real e do imediato\u201d, \u00e9 a dica que o instrumento se permite nos confidenciar. Sempre tenho impulsos de sair indicando para todo mundo os melhores discos com quartetos de cordas que escuto, pois n\u00e3o consigo imaginar forma melhor de exercer esta minha prefer\u00eancia radical por altru\u00edsmo e bondade, n\u00e3o consigo imaginar que a beleza destes discos v\u00e1 passar desapercebida por quem escut\u00e1-los\u2026 N\u00e3o, algumas dessas obras enriquecem e mudam vidas, mudan\u00e7as decisivas que, multiplicando-se, podem finalmente nos desviar dessa rota funesta em que nos metemos. Pureza e generosidade; \u201c\u2026 sem esquecer, por um momento sequer, o quanto s\u00e3o fugidios\u201d. Cedendo ent\u00e3o a este impulso, vou indicar aqui tr\u00eas discos de quartetos que me assombraram e me comoveram nos \u00faltimos dias. O [primeiro](http:\/\/www.klarthe.com\/index.php\/fr\/enregistrements\/constellations-detail) \u00e9 franc\u00eas do in\u00edcio ao fim: *Constellations* traz tr\u00eas dos maiores filhos da Fran\u00e7a \u2014 Ravel, Debussy e Dutilleux \u2014 interpretados pelo Quatuor Psophos, grupo nascido no Conservatoire National de Lyon. Tenho a impress\u00e3o de que n\u00e3o s\u00e3o muitas as obras para quarteto de cordas escritas por franceses; esses tr\u00eas compositores, por exemplo, escreveram somente uma cada um deles. E, no entanto, que tesouros! Admiro particularmente o quarteto de Ravel, um compositor de quem tenho aprendido a gostar cada vez mais. O [segundo disco](http:\/\/www.harmoniamundi.com\/%7C#!\/albums\/2292) \u00e9 o quarto volume da s\u00e9rie *Harmonia Nova*, projeto que o grande selo franc\u00eas Harmonia Mundi iniciou este ano com o intuito de divulgar artistas jovens e promissores (solistas ou conjuntos de c\u00e2mara), e que nesta edi\u00e7\u00e3o traz o espanhol Quartet Gerhard tocando obras de Schumann, Berg e Kurt\u00e1g. Por fim, a [terceira dica](https:\/\/www.discogs.com\/Szymanowski-Webern-Carmina-Quartet-String-Quartets-No1-In-C-Major-Op37-No2-Op56-Langsamer-Satz\/release\/3355161) traz os veteranos su\u00ed\u00e7os do Carmina Quartet tocando os dois quartetos do polon\u00eas Karol Szymanowski. Tenho uma queda pelos compositores do leste europeu e sua m\u00fasica, em geral, plangente e enigm\u00e1tica, e estes dois quartetos s\u00e3o justificativas cabais para esta minha prefer\u00eancia. E tem espa\u00e7o no disco ainda para *Langsamer Satz*, pequena e lind\u00edssima pe\u00e7a de Webern cuja melodia de abertura \u00e9 daquelas coisas que se escuta uma vez e n\u00e3o se esquece nunca mais, talvez por assemelhar-se a alguma esp\u00e9cie de prot\u00f3tipo perfeito das melhores trilhas-sonoras dos anos de ouro de Hollywood\u2026 E olha que Webern estava no n\u00facleo duro da Segunda Escola de Viena, o grupo radical que praticamente fundou a m\u00fasica contempor\u00e2nea com seus experimentos com atonalidade, dodecafonismo, serialismo, etc. Pois \u00e9, os mestres s\u00e3o os mestres, e m\u00fasica \u00e9 m\u00fasica.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Quatuor Psophos em foto de Marie Julliard, copiada [daqui](http:\/\/guillaumemartigne.com\/project\/quatuor-psophos\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":706,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2017","post_timestamp":"2017-11-05T19:38:54+00:00","url":"2017_11_05_discos_do_mes_outubro_de_2017","post":"Os dois tit\u00e3s do post-rock, Mogwai e Godspeed You! Black Emperor, lan\u00e7aram novos discos recentemente, e embora sejam ambos \u00f3timos, eles o s\u00e3o em correspond\u00eancia \u00e0 expectativas diferentes. O \u00e1lbum do Mogwai parece ser apenas a sequ\u00eancia natural de uma rotina que a banda estabeleceu para si, uma \u00e9tica profissional cuja regularidade no lan\u00e7amento de seus resultados me leva a crer que os caras da banda t\u00eam calend\u00e1rios padronizados pregados nas paredes de suas cozinhas, e l\u00e1 est\u00e3o alguns dias do ano circulados em vermelho e anotados com \u201ccompor novo disco\u201d, e depois no m\u00eas seguinte, \u201cgravar novo disco\u201d, e da\u00ed por diante, e a coisa n\u00e3o falha \u2014 a cada dois ou tr\u00eas anos temos a newsletter do Mogwai chegando em nossas caixas postais com o an\u00fancio de uma data de lan\u00e7amento. At\u00e9 aqui, essa dilig\u00eancia n\u00e3o deixou de render discos no m\u00ednimo satisfat\u00f3rios, e com frequ\u00eancia eles s\u00e3o at\u00e9 muito bons, ainda que eu tenha a impress\u00e3o de que depois do *Rock Action* eles foram se tornando cada vez menos distingu\u00edveis entre si, como se tivessem passado a obedecer rigorosamente a uma cartilha de f\u00f3rmulas ou algo do tipo, falhando assim em surpreender e maravilhar, coisa que o Mogwai logrou fazer espetacularmente em seus tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns. N\u00e3o me entendam mal: *Every Country\u0027s Sun* \u00e9 \u00f3timo, escutei-o diversas vezes nos \u00faltimos dias \u2014 acho at\u00e9 que j\u00e1 \u00e9 o disco p\u00f3s-*Happy Songs for Happy People* que mais vezes escutei \u2014, e se o Mogwai t\u00eam de fato uma f\u00f4rma para criar suas m\u00fasicas, ent\u00e3o ela continua muito bem azeitada, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas quanto a isso. E tamb\u00e9m n\u00e3o acho ruim que uma banda trabalhe bastante e lance v\u00e1rios discos, \u00e9 claro que n\u00e3o\u2026 No entanto, acho que esses escoceses prometiam algo mais do que isso, alguns anos atr\u00e1s, quando surgiram e deram ao mundo, logo de cara, tr\u00eas obras-primas, frutos que pareciam resultados menos de per\u00edcia e assiduidade profissional do que de inspira\u00e7\u00f5es sobrenaturais.\r\n\r\nJ\u00e1 o Godspeed You! Black Emperor \u00e9 outra hist\u00f3ria completamente diferente. Essa trupe continua an\u00e1rquica, imprevis\u00edvel, sem calend\u00e1rios nas paredes. Seus discos s\u00e3o esses portentos que aparecem de repente inundando o mundo com uma m\u00fasica de alma sinf\u00f4nica, intensa e cat\u00e1rtica, corajosa em suas extens\u00f5es e ambi\u00e7\u00f5es, sem fazer concess\u00e3o alguma, atributos poss\u00edveis somente para um grupo de artistas cuja energia vital n\u00e3o foi domesticada pelos compromissos com a ind\u00fastria musical, e apesar de nos \u00faltimos cinco anos termos tido tr\u00eas \u00e1lbuns do GY!BE, o tempo parece transcorrer de forma diferente para eles. Talvez o fato de n\u00e3o se ter tantas not\u00edcias sobre a banda nos leve a pensar que eles estejam sempre recolhidos, acumulando o vigor e o conhecimento alqu\u00edmico necess\u00e1rios para a gesta\u00e7\u00e3o de um novo \u00e1lbum, e ent\u00e3o, quando estes finalmente surgem, as primeiras audi\u00e7\u00f5es sempre fazem surgir em minha mente imagens como as vistas [nestas impressionantes fotos do universo](https:\/\/apod.nasa.gov\/apod\/ap171104.html) \u2014 gal\u00e1xias, nebulosas, nascimentos e mortes de estrelas, colossos c\u00f3smicos que d\u00e3o a impress\u00e3o de portar alguma esp\u00e9cie de vida ou consci\u00eancia, de estarem com seus imensos olhos abertos, as retinas dilatadas e duradouras de um esp\u00edrito primordial encarando eternamente a si pr\u00f3prio. Os relatos do que v\u00eaem, claro, ficam a cargo dessa cria\u00e7\u00e3o sua, o ser humano. O GY!BE \u00e9, nesse sentido, uma esp\u00e9cie de Dante Alighieri revivido: o explorador que se aventura pelas esferas superiores e inferiores, que viaja pelos c\u00e9us dos astros e pelos mundos dos mortos, e volta para descrever aos seus pares, dessa vez por via de som e eletricidade, aquilo que seus olhos testemunharam.\r\n\r\nMeu grande momento musical neste m\u00eas que passou, contudo, n\u00e3o veio de uma novidade. Fazia muito tempo que eu n\u00e3o escutava ao *Automatic for the People* em modo de concentra\u00e7\u00e3o exclusiva. \u0022Concentra\u00e7\u00e3o exclusiva\u201d, na verdade, \u00e9 apenas uma maneira de dizer, uma vez que os outros sentidos n\u00e3o podem ser desligados enquanto o da audi\u00e7\u00e3o est\u00e1 ocupado\u2026 Em todo o caso, aconteceu de eu me encontrar dia desses numa das minhas situa\u00e7\u00f5es preferidas para ouvir m\u00fasica: um trajeto relativamente longo de \u00f4nibus por cen\u00e1rios novos e bastante diferentes daqueles aos quais estou habituado, longe de casa e completamente fora da rotina. Por motivos que a neuroqu\u00edmica deve explicar, nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o as capacidades de registro e aprecia\u00e7\u00e3o dos sentidos da vis\u00e3o e da audi\u00e7\u00e3o amplificam-se e alimentam-se um do outro, num processo que n\u00e3o raro faz nos sentirmos mais leves e exultantes do que nunca. Navegando pelos discos que trazia comigo, o *Automatic for the People* surgiu como primeiro candidato \u00e0 trilha-sonora; um disco de Chopin interpretado pela Martha Argerich foi tamb\u00e9m cogitado, e alguma coisa do Jan Garbarek. Coube mesmo ao R.E.M., no fim das contas, a tarefa de me acompanhar naquele trecho da viagem que come\u00e7ava ent\u00e3o a terminar \u2014 o desfecho de uma semana maravilhosa perambulando por um pa\u00eds em que eu nunca havia estado antes, imerso em uma forma de vida e uma cultura in\u00e9ditas para mim, uma enorme cole\u00e7\u00e3o de novas imagens e aromas e sensa\u00e7\u00f5es no c\u00e9rebro e acho que nas veias ainda os resqu\u00edcios de um excesso de tequila cometido uns dois ou tr\u00eas dias antes, um raro descomedimento j\u00e1 absorvido e dilu\u00eddo, servindo apenas de lembran\u00e7a perif\u00e9rica desta certeza \u00edntima adquirida h\u00e1 tempos, a de que prefiro sempre estar s\u00f3brio e atento, exatamente como eu estava naquele momento. Com as pernas cansadas e o esp\u00edrito aberto, preparava-me para voltar para a casa \u2014 era esse o contexto no momento em que apertei o play e come\u00e7ou *Drive*. O \u00e1lbum, por ser um dos meus favoritos, me \u00e9 muito familiar, por\u00e9m, devido ao tempo sem escut\u00e1-lo \u2014 absurdo cuja explica\u00e7\u00e3o reside neste cruel imenso oceano de coisas que temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para ouvir hoje em dia \u2014, aconteceu de ele me surpreender um punhado de vezes durante seus pouco mais de 45 minutos: \u00e0s vezes por eu n\u00e3o me recordar que m\u00fasica seguiria-se ao fim de outra \u2014 era uma surpresa que vinha sempre aos pares: a primeira surgia subitamente no breve sil\u00eancio entre as faixas ao n\u00e3o lembrar-me de imediato do som que estava prestes a iniciar e a segunda um ou dois segundos depois quando, \u00f3bvio!, \u00e9 tal m\u00fasica! \u2014 e tamb\u00e9m, em outras ocasi\u00f5es, pela redescoberta de detalhes e letras que estavam um pouco empoeirados na mem\u00f3ria. *Sweetness Follows* \u00e9 uma das minhas m\u00fasicas mais queridas e que mais vezes escutei em toda minha vida, e, mesmo assim, eu juro, me emocionei de verdade naquele primeiro e inesperado *oooh ooooh, oooh ooooh, sweetness follows*, aquela inflex\u00e3o t\u00e3o sutil e t\u00e3o pungente na melodia e na voz de Michael Stipe. O cen\u00e1rio que passava lentamente pela janela, no plano mais ao fundo, era o verde de tons nobres de bosques e florestas ancestrais, alguns vulc\u00f5es, muitas montanhas, terreno onde muito tempo atr\u00e1s habitaram maias e astecas, e hoje, nas pequenas vilas e lugarejos \u00e0 beira da estrada, em primeiro plano, passando velozes junto ao \u00f4nibus \u2014 instant\u00e2neos de crian\u00e7as brincando despreocupadas, *perros* pregui\u00e7osos, taquerias e habita\u00e7\u00f5es desgastadas pelo tempo e pela falta de dinheiro \u2014 hoje naquele territ\u00f3rio moram os mexicanos, um povo que me pareceu t\u00e3o simp\u00e1tico e humilde, orgulhoso e zeloso do legado de arte e conhecimento deixado pelas civiliza\u00e7\u00f5es antigas das quais descendem, uma gente que tem no sangue ainda a lembran\u00e7a do exterm\u00ednio de seus antepassados pelos europeus e que nos tempos atuais tem que conviver com a humilha\u00e7\u00e3o imposta pelo repugnante agiota que sabe-se l\u00e1 como chegou \u00e0 presid\u00eancia do pa\u00eds mais ao norte prometendo construir um muro para vetar aos mexicanos o direito que deveria ser o de todos os seres vivos, o de ir e vir livremente sobre a Terra, a qualquer momento, em qualquer lugar. *Man on the Moon*, faixa j\u00e1 l\u00e1 pro final do disco e pela qual eu nunca nutri maiores simpatias por ach\u00e1-la excessivamente formulaica, mesmo ela desta vez me soou algo diferente, como se naquele calmo recitar de anedotas desconexas houvesse uma intima\u00e7\u00e3o subjacente para que eu afrouxe um pouco esta minha inclina\u00e7\u00e3o \u00e0 seriedade, e para que eu reavalie minhas expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao mundo, expectativas estas t\u00e3o esvaziadas nos \u00faltimos tempos, em particular pelos acontecimentos dos \u00faltimos dois ou tr\u00eas anos no Brasil. *Nightswimming*, por outro lado, sempre foi especial para mim: ela muito me ajudou, em outros tempos, a conviver em paz com minhas prefer\u00eancias por recolhimento e solid\u00e3o, a aceitar sem maiores traumas minha introvers\u00e3o, coisa que a essa altura da vida j\u00e1 n\u00e3o faz muita diferen\u00e7a, e no entanto, nesses tempos de histeria e conflito por toda parte, uma nova luz parece emanar dessa can\u00e7\u00e3o, uma luz que ser\u00e1 sempre renovada quando necess\u00e1rio, que estar\u00e1 sempre pronta para acolher quem dela precisar. No M\u00e9xico, nos restaurantes, as pessoas que chegam e v\u00e3o se encaminhando para suas mesas passam desejando *buen provecho* aos totais estranhos sentados nas outras mesas, e isso para um brasileiro \u00e9 uma coisa espantosa, uma folga muit\u00edssimo bem-vinda em nossa trag\u00e9dia cotidiana de falta de compreens\u00e3o e de xingamentos infantis aprendidos em redes sociais, nossa triste sina de intoler\u00e2ncia e agress\u00e3o. O M\u00e9xico tem cidades chamadas Tlaxcala, Teotihuac\u00e1n e Tlaquepaque, nomes s\u00f3lidos e eternos que parecem por si s\u00f3 tranquilizar os seus habitantes quanto \u00e0 repara\u00e7\u00e3o vindoura, a certeza de que o direito e o exerc\u00edcio pleno da dignidade vir\u00e1 algum dia, enquanto que no Brasil\u2026 Bem, antes que eu entre em uma nova espiral de amargura, finalizo dizendo que *Find the River* sempre opera a m\u00e1gica de apaziguar meus pensamentos, de evocar lembran\u00e7as de um passado que acumulou-se num presente, apesar dos pesares, bastante tranquilo e ditoso, e tamb\u00e9m lembran\u00e7as de um futuro (citando Borges novamente) em que vamos todos sobreviver \u00e0s trag\u00e9dias contempor\u00e2neas, vamos todos sobreviver a isso em que se transformou o Brasil ou ao que quer que seja, progn\u00f3stico esse assegurado pelos backing vocals de Mike Mills, aquele canto distante pairando sobre a can\u00e7\u00e3o, de uma beleza celestial que n\u00e3o pode significar outra coisa.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":705,"title":"Esta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica","post_timestamp":"2017-10-19T16:55:54+00:00","url":"2017_10_19_estacao_da_musica","post":"Embora ainda tenhamos que nos precaver ao sair muito cedo ou muito tarde de casa, o inverno j\u00e1 ficou para tr\u00e1s. Os guapuruvus come\u00e7aram a florir, pontilhando de buqu\u00eas amarelos os morros da Ilha de Santa Catarina; \u00e9 o primeiro sinal efetivo da chegada da primavera, um m\u00eas depois da data oficial assinalada no calend\u00e1rio. Na algazarra dos p\u00e1ssaros tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel discernir uma mudan\u00e7a de tom, como se os dedos da natureza tivessem feito avan\u00e7ar as p\u00e1ginas de uma partitura infinita, e enquanto experimento uma tranquila euforia ao perceber tudo isso, me pergunto se n\u00e3o me chegou o tempo em que, quando chegado \u00e0 Borges, f\u00ea-lo escrever \u201cagora prefiro as manh\u00e3s, o centro e a serenidade\u0022. Quero dizer, eu ainda adoro o ver\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 raro, durante os dias mais insuportavelmente quentes \u2014 e estes t\u00eam sido mais frequentes a cada ano que passa\u2014 n\u00e3o \u00e9 raro eu praguejar contra a esta\u00e7\u00e3o das melhores lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia e agora, adulto, ansiar pelo inverno; de modo an\u00e1logo, eu adoro o inverno, amo o frio e seria ainda mais feliz do que j\u00e1 sou se houvesse neve por aqui \u2014 daquelas nevascas de verdade, que d\u00e3o outros usos para as p\u00e1s \u2014 mas depois de duas ou tr\u00eas semanas seguidas em que sair da cama de manh\u00e3 cedo \u00e9 coisa para atletas ol\u00edmpicos ou ascetas, nesta altura eu passo a n\u00e3o gostar mais tanto assim e come\u00e7o a desejar mais do que tudo que chegue logo o calor do ver\u00e3o. Quase pode-se dizer que eu nunca estou satisfeito\u2026\u201cQuase\u201d, porque existe a primavera: esta, ao contr\u00e1rio das outras duas, e tamb\u00e9m ao contr\u00e1rio do outono e seus pren\u00fancios, \u00e9 incontest\u00e1vel. A primavera nos d\u00e1 tudo em doses equilibradas; \u00e9 tamb\u00e9m o trecho da jornada da Terra em sua \u00f3rbita ao redor do Sol onde, primeiro em uma das faces do planeta e depois em outra, o prod\u00edgio da vida parece tornar-se mais compreens\u00edvel, mais natural e invenc\u00edvel, e a chave para se compreender este momento est\u00e1 justamente no tal equil\u00edbrio proporcionado pela esta\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 como se um esp\u00edrito renovado encarnasse na natureza, e ent\u00e3o, em sua mente pacificada e revigorada, em suas a\u00e7\u00f5es mais suaves e moderadas, ela pode conceber e dar origem a todas essas coisas que brilham e cantam e se reproduzem e se multiplicam. Na observa\u00e7\u00e3o deste est\u00e1gio primaveril e sua equidist\u00e2ncia para os per\u00edodos de condi\u00e7\u00f5es mais radicais podemos aprender muito sobre n\u00f3s mesmos e sobre os ciclos dos quais fazemos parte. Outro benef\u00edcio \u00e9: quase qualquer m\u00fasica cabe nesse estado de esp\u00edrito da mente-natureza. Percorrendo esse caminho do meio, n\u00e3o estamos distantes de nada; mesmo os extremos est\u00e3o ao alcance de nossos sentidos e nenhuma aventura nos parece desaconselh\u00e1vel, nenhuma m\u00fasica descabida. H\u00e1 lugar para madrigais de fr\u00e1geis vozes humanas recitando textos renascentistas e para retumbantes sinfonias mahlerianas; cabem tamb\u00e9m na primavera as longas medita\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas de \u00c9liane Radigue, as evoca\u00e7\u00f5es cavernosas do Sunn O))) e as experimenta\u00e7\u00f5es e as ora\u00e7\u00f5es de Miles e Coltrane. As sonatas de Schubert e Beethoven cabem em qualquer circunst\u00e2ncia, mas na primavera elas s\u00e3o ainda mais emocionantes, e o synthpop est\u00e1 perfeitamente desculpado \u2014 n\u00e3o \u00e9 preciso nenhuma daquelas desculpas esfarrapadas com as quais eu sempre introduzo a-Ha e Erasure nos meus relatos mensais. Cabem perfeitamente Neil Young, Bob Dylan e Bob Marley; cabem Chico, Gil e Elis. Por fim, para os dias mais ensolarados e festivos, qualquer rock \u2019n\u2019 roll com o qual j\u00e1 tenhamos alguma hist\u00f3ria soar\u00e1 como os hinos definitivos de nossas vidas \u2014 voc\u00ea pode ir de uma ponta \u00e0 outra, pode ir de Byrds \u00e0 Bad Brains, e tudo soar\u00e1 extasiante \u2014 enquanto que o heavy metal e suas variantes mais ou menos malignas, bem, estes tem que caber de qualquer jeito, afinal, para n\u00f3s aqui no hemisf\u00e9rio sul, cai justamente na primavera a data mais legal do ano, o Dia das Bruxas. Ent\u00e3o em outubro temos King Diamond, Black Sabbath e Rob Zombie dividindo espa\u00e7o com todos esses nomes citados acima, e muitos outros. \u0022Esta\u00e7\u00e3o das flores\u201d \u00e9 uma alcunha muito bonitinha inventada para nos referirmos \u00e0 primavera, contudo, se me perguntarem, eu respondo que \u0022esta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica\u201d \u00e9 muito melhor.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Obra de Vincent Van Gogh.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":704,"title":"In a glass full of jelly","post_timestamp":"2017-10-11T02:12:11+00:00","url":"2017_10_10_in_a_glass_full_of_jelly","post":"Um coment\u00e1rio que n\u00e3o quer esperar, sobre o *Good God\u2019s Urge*, o segundo e (por enquanto) \u00faltimo disco do Porno for Pyros. Lan\u00e7ado em 1996, esse \u00e9 um daqueles \u00e1lbuns que eu amo t\u00e3o profundamente, ele me \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3ximo ao cora\u00e7\u00e3o \u2014 cada uma de suas m\u00fasicas como um recanto sagrado de retiro e restaura\u00e7\u00e3o \u2014 que n\u00e3o h\u00e1 muito o que eu possa elaborar e descrever por meio desse instrumento limitado que \u00e9 a linguagem, mas h\u00e1 algo que eu queria dizer mesmo assim, e \u00e9 sobre a voz de Perry Farrell. Apesar de ser um devoto fan\u00e1tico do Jane\u2019s Addiction (possivelmente o mais pr\u00f3ximo que eu tive de uma religi\u00e3o em toda minha vida), *Good God\u2019s Urge* me parece ser o disco que Perry nasceu para fazer; foi aqui que esta sua voz t\u00e3o peculiar encontrou a moldura mais natural, as can\u00e7\u00f5es e os arranjos perfeitos: todos aqueles viol\u00f5es e sons da natureza, de p\u00e1ssaros e de ondas, de m\u00fasica feita na beira da praia e sob a inspira\u00e7\u00e3o da lua do Tahiti e da luz matinal de Bali etc. \u2014 \u00e9 em meio a esse cen\u00e1rio azul-ensolarado e verde-arom\u00e1tico, num compasso l\u00e2nguido de sossego e harmonia, que Perry soa como que em seu lar definitivo, enfim o momento e o local para uma liberta\u00e7\u00e3o t\u00e3o penosamente perseguida e tantas vezes adiada antes de ser finalmente alcan\u00e7ada, enfim o momento e o local onde ele poderia novamente mudar de nome \u2014 antes de Perry ele j\u00e1 fora Peretz Bernstein, o nome que seus pais lhe deram, e agora ele poderia ter apenas um breve e bem-humorado apelido oriental qualquer, ou mesmo nome algum, e assim deixar-se estar para sempre \u2014, e esse lugar, para n\u00f3s outros todos, \u00e9 uma m\u00fasica de textura rica e variada cujos melhores momentos t\u00eam esse efeito de b\u00e1lsamo para ser desfrutado nos domingos de manh\u00e3 cedo, que \u00e9 o que fazemos frequentemente aqui em casa, enquanto bebericamos vagarosamente nosso ch\u00e1, n\u00e3o raro o primeiro e o \u00fanico disco do dia todo, para que passemos o resto do fim de semana sob seu doce feiti\u00e7o. Acho que me ocorre apenas um outro \u00e1lbum que tenha esse status aqui para n\u00f3s \u2014 o *Laughing Stock*, do Talk Talk. Bem, sei que \u201cesse status\u0022 n\u00e3o deve significar l\u00e1 grande coisa para quem quer que esteja me lendo\u2026 Por\u00e9m, aqui no universo circunscrito de nossa casa, significa muit\u00edssimo \u2014 talvez seja at\u00e9 mesmo o maior dos elogios que podemos dedicar a qualquer um dos nossos discos mais queridos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":703,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2017","post_timestamp":"2017-09-30T23:17:45+00:00","url":"2017_09_30_discos_do_mes_setembro_de_2017","post":"Dif\u00edcil imaginar coisa que seja mais s\u00edmbolo de outra maior do que Led Zeppelin e hard rock setentista, certo? Certo. Portanto, se eu disser que neste m\u00eas que passou a minha trilha sonora foi feita praticamente s\u00f3 de velhos discos de hard rock dos anos 70, \u00e9 razo\u00e1vel supor que eu tenha escutado aos murros de Bonham (a parte maravilhosa do som da banda) e \u00e0s cordas de Page e Jones (a parte miraculosa) e ao gog\u00f3 de Plant (a parte, \u00e9\u2026 vocal da banda) em algum momento, certo? Certo tamb\u00e9m, mas n\u00e3o aconteceu. Escutei bandos e bandos de cabeludos hedonistas amantes de blues e de cannabis, alguns que j\u00e1 me causaram danos auditivos anteriormente, outros que me foram apresentados pela primeira vez, por\u00e9m n\u00e3o escutei nada, absolutamente coisa alguma do embaixador de todos eles, o sacrossanto Led Zeppelin. A explica\u00e7\u00e3o para esse incr\u00edvel fen\u00f4meno que deve estar deixando voc\u00ea, meu caro leitor, perplexo de curiosidade, come\u00e7a trivial, sem planejamento algum. Aconteceu que certo dia resolvi escutar o primeiro disco do Budgie e foi tal qual um rastilho de p\u00f3lvora: enfileirei os discos dessa fant\u00e1stica banda galesa um atr\u00e1s do outro. Acho que at\u00e9 ent\u00e3o eu nunca tinha ouvido um \u00e1lbum inteiro do Budgie, cuja refer\u00eancia maior em minha cabe\u00e7a ainda era a vers\u00e3o do Metallica para *Breadfan* e cuja voz \u00e0 frente dos instrumentos, pelo pouco que eu me recordava das faixas esparsas escutadas aqui e ali, eu pensava ser uma voz feminina. Ou seja: eu realmente mal conhecia a banda. Um v\u00eddeo do Lenny Kaye falando da paix\u00e3o dele pelo primeiro \u00e1lbum do Budgie, no entanto, me fez ficar curioso e me levou a organizar um r\u00e1pido assalto pirata em \u00e1guas virtuais, assalto que, inicialmente, seria algo inocente, breve, sem maiores preju\u00edzos a seja l\u00e1 quem for que esteja sendo prejudicado quando se baixa arquivos mp3 da internet, por\u00e9m, esse pequeno il\u00edcito acabou se transformando, \u00e0 medida que eu ia escutando o que ia encontrando, em alguns gigabytes a mais de m\u00fasica ilegalmente adquirida no meu computador, pois acho que no fim das contas baixei a discografia completa dos caras (posto que s\u00e3o tr\u00eas caras, nenhuma mulher), algo em torno de 15 discos, entre os de est\u00fadio e alguns ao vivo. Eu recuso, de todo modo, acusa\u00e7\u00f5es de banditismo ou imoralidade: eu nunca compraria um disco do Budgie sem t\u00ea-los escutado antes, e agora que virei f\u00e3 do trio, certamente irei compr\u00e1-los quando tiver oportunidade, vou compr\u00e1-los at\u00e9 mesmo antes de comprar o primeiro disco do Led Zeppelin, que at\u00e9 hoje eu n\u00e3o tenho em minha cole\u00e7\u00e3o pois n\u00e3o sou l\u00e1 grande f\u00e3 desse \u00e1lbum \u2014 muitos dos discos do Budgie que eu escutei nestes \u00faltimos dias s\u00e3o bem melhores do que o *I* do Led, melhores at\u00e9 mesmo do que o celebrado *II* (e claro que a partir do *III*, Plant, Page, Bonham e Jones se transmutam em outra coisa contra a qual poucas bandas podem rivalizar). O Budgie tinha, evidentemente, a vantagem de ir pisando em territ\u00f3rio j\u00e1 desbravado antes pelo Led Zeppelin e pelo Cream \u2014 \u00e9 necess\u00e1rio fazer esta defer\u00eancia em favor dos pioneiros \u2014, por\u00e9m o caso \u00e9 que o faziam com total destreza e furor, um rock \u0027n\u0027 roll barulhento e exultante como poucos. A citada *Breadfan* est\u00e1 no terceiro \u00e1lbum da banda, *Never Turn Your Back On A Friend*, lan\u00e7ado em 1973, uma belezura de disco do in\u00edcio ao fim, mas \u00e9 no *Bandolier*, lan\u00e7ado dois anos depois, que est\u00e1 a minha faixa preferida do Budgie, *Napoleon Bona - Part One \u0026 Two*. E s\u00f3 agora que eu escrevi o t\u00edtulo dessa m\u00fasica e bati os olhos nele \u00e9 que percebi a piadinha boba.\r\n\r\nForam horas e horas trabalhando e ouvindo Budgie nos \u00faltimos dias, e n\u00e3o duvido que as intermin\u00e1veis linhas de c\u00f3digo-fonte que escrevi nesse per\u00edodo estejam de algum modo contaminadas por este som. Houve, contudo, outra coisa que eu ouvi ainda mais do que os galeses: trata-se dessa fant\u00e1stica, enorme e *sui generis* banda inglesa chamada Hawkwind (eles s\u00e3o t\u00e3o incr\u00edveis, fenomenais e prol\u00edficos que quando voc\u00ea vai elogi\u00e1-los, \u00e9 necess\u00e1rio atribuir-lhes pelo menos tr\u00eas adjetivos para dar conta da tarefa). Eu j\u00e1 conhecia de longa data o cl\u00e1ssico *Warrior on the Edge of Time*, o disco mais famoso deles, e cultivei por algum tempo o plano de ler sobre a hist\u00f3ria da banda e procurar por mais alguma coisa de sua discografia, por\u00e9m tudo caminhava para que, sendo a palavra \u201cplano\u0022 uma daquelas que comportam muitos significados e sendo um deles \u201calgo que voc\u00ea escreve numa lista de coisas para fazer e nunca faz\u201d, tudo caminhava para que essa explora\u00e7\u00e3o fosse ficar s\u00f3 no mundo das inten\u00e7\u00f5es e em minha mente o Hawkwind se transformasse, pouco a pouco, em mais um dos dinossauros setentistas sobre os quais eu n\u00e3o estou perdendo muita coisa por n\u00e3o conhecer mais a fundo, tipo Deep Purple. Foi sorte eu ter lembrado desses caras e resolvido finalmente investigar! Vem sendo uma longa e divertid\u00edssima aventura: longa por que os caras come\u00e7aram a lan\u00e7ar discos em 1970 e n\u00e3o pararam mais, e divertida porque, bem, voc\u00ea sabe, os tr\u00eas adjetivos. Falando s\u00e9rio: \u00e9 uma discografia fant\u00e1stica. Deve ser a \u00fanica banda na hist\u00f3ria que d\u00e1 de associar, em um momento ou outro, ao rock progressivo, ao heavy metal, ao punk rock, ao hard rock, e a quase qualquer outro rock que seja digno de nota, por mais d\u00edspares ou at\u00e9 mesmo antag\u00f4nicos que sejam entre si. Tem discos do Hawkwind cujas capas se parecem com as do Iron Maiden, enquanto que outras se parecem com as da Madonna, e outras lembram ainda Kraftwerk, e outras Big Brother and the Holding Company, e outras Rob Zombie, e Yes e Wolfbrigade. E n\u00e3o se trata da banda mais oportunista ou tresloucada da hist\u00f3ria, pelo contr\u00e1rio: em geral eles estavam l\u00e1 no come\u00e7o das barafundas todas, inventando ou ajudando a inventar ou no m\u00ednimo sendo citados pelos inventores. Digo \u201celes\u201d mas a banda \u00e9 basicamente [Dave Brock](http:\/\/assets.teamrock.com\/image\/88e95284-86eb-4021-90e6-cb0392eb7026?w=1280), cantor, guitarrista e compositor de umas letras muito peculiares que parecem abranger todos os temas favoritos da cl\u00e1ssica s\u00e9rie americana *The Twilight Zone* \u2014 e com isso, al\u00e9m de tudo, a banda \u00e9 tida tamb\u00e9m como a inventora do tal space rock. Nada mais justo: um termo bomb\u00e1stico como esse tinha que ser criado para conter o Hawkwind. Como pode ser que nunca cruzei com nenhum f\u00e3 fan\u00e1tico desses caras, assim como existem os fan\u00e1ticos pelo Pink Floyd, pelo Rush, pelo Black Sabbath e at\u00e9 mesmo pelo Jethro Tull? Para mim \u00e9 um mist\u00e9rio. No momento em que escrevo isto, eu j\u00e1 escutei uns dez \u00e1lbuns do Hawkwind \u2014 al\u00e9m do disco \u00fanico do Hawklords, que foi um projeto paralelo no fim dos anos 70 \u2014 e s\u00e3o todos no m\u00ednimo \u00f3timos, e cito dois logo de uma vez para ilustrar este paneg\u00edrico e engordar a imagem que o encima: *In Search of Space* e *Hall of the Mountain Grill*, 1971 e 1974, respectivamente. E se nada disso que eu escrevi at\u00e9 aqui o convenceu de que o Hawkwind \u00e9 um fen\u00f4meno que vale a pena conhecer, fique sabendo que entre 1971 e 1975, antes de formar o Mot\u00f6rhead, Ian Fraser Kilmister, vulgo \u201cLemmy\u0022, fez parte do line-up da banda \u2014 \u0022Motorhead\u0022, inclusive, \u00e9 o nome de uma can\u00e7\u00e3o que Lemmy comp\u00f4s enquanto tocava baixo e dividia os vocais com Brock, lan\u00e7ada como b-side de um dos singles de *Warrior on the Edge of Time*. Depois do lan\u00e7amento desse disco, Lemmy foi demitido porque j\u00e1 naquela \u00e9poca ele exagerava nas doses de Jack Daniels, e isso, em um meio em que ningu\u00e9m \u00e9 exatamente famoso pela modera\u00e7\u00e3o, deve significar alguma coisa. N\u00e3o se pode lamentar, no entanto, esse desfecho: tamb\u00e9m o Mot\u00f6rhead come\u00e7ou a lan\u00e7ar discos e n\u00e3o parou mais, quero dizer, parou faz pouco tempo, quando enfim a natureza cobrou a conta de Lemmy, mas houve tempo suficiente para que hoje tenhamos dezenas e dezenas de discos fant\u00e1sticos de uma e outra banda para alegrar nossos turnos de trabalho.\r\n\r\nPois bem, ouvi ainda alguns outros nomes irmanados destes citados acima, parentescos estabelecidos seja pela m\u00fasica, seja pela \u00e9poca, seja pelo apetite por narc\u00f3ticos, e no mais das vezes por tudo isso ao mesmo tempo. Ouvi o Nazareth, banda escocesa cujo disco *Razamanaz* certa vez comprei de um hippie provindo de algum pa\u00eds vizinho e que vendia, no centro de Florian\u00f3polis, fitas K7 piratas com capinhas toscas xerocadas em preto e branco, com\u00e9rcio feito na pra\u00e7a central da cidade sob a sombra das \u00e1rvores que abrigavam ainda diversos outros artes\u00f5es de proced\u00eancias v\u00e1rias, as fitas daquele dispostas sobre uma toalha estendida no ch\u00e3o e os colares e incensos dos outros expostos do mesmo modo, e todos eles negociavam tamb\u00e9m outras coisas que n\u00e3o ficavam expostas, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria \u2014 sobre o camarada das fitas K7, ficou na minha mem\u00f3ria que durante nossa breve conversa ele insistiu para que eu lesse \u201cLas Venas\u201d de Eduardo Galeano, dito assim mesmo, em sua l\u00edngua natal, e s\u00f3 depois eu compreendi que ele se referia ao *As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina*. Tenho at\u00e9 hoje a fita; o livro eu ainda n\u00e3o o li. Ouvi tamb\u00e9m o Iron Claw, famosa pelo suposto processo que meteu-lhes Tony Iommi por terem eles um som demasiado parecido com o do Black Sabbath (n\u00e3o duvido que isso tenha mesmo acontecido; depois de ler o livro de Mick Wall sobre o Sabbath, a impress\u00e3o que fica sobre Iommi n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito positiva, infelizmente). Subindo um pouco a \u00e1rvore geneal\u00f3gica, j\u00e1 nos anos 80, ouvi alguns dos culpados por transformarem o hard rock em glam metal, tranqueiras tipo Winger e M\u00f6tley Cr\u00fce, que obviamente n\u00e3o merecem que eu me estenda muito sobre elas\u2026 Finalizo citando uma das poucas notas destoantes, mas apenas em termos cronol\u00f3gicos, porque no que diz respeito ao som, \u00e9 perfeitamente compat\u00edvel com tudo que citei acima: o novo disco do Black Angels \u00e9 um espet\u00e1culo! Sonzeira entorpecente e espacial cheia de ecos e sensa\u00e7\u00f5es de viagens incorp\u00f3reas, o vocal vindo l\u00e1 de algum ponto bem longe no tempo e no espa\u00e7o. Para mim, isso \u00e9 psicodelia feita do jeito certo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":702,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2017","post_timestamp":"2017-09-03T19:16:10+00:00","url":"2017_09_03_discos_do_mes_agosto_de_2017","post":"**Trail of Dead - IX**\r\n\r\n*Source Tags and Codes* continua sendo, na minha opini\u00e3o, o melhor disco de rock \u2014 rockz\u00e3o puro sangue, rock pauleira \u2014 lan\u00e7ado no s\u00e9culo XXI. A nova rodada de cem anos apenas come\u00e7ava (2002), mas nada do que veio depois conseguiu ainda chegar perto deste colosso, que inclusive acaba de ganhar uma reedi\u00e7\u00e3o especial de anivers\u00e1rio de 15 anos. Os dois \u00e1lbuns que o Trail of Dead lan\u00e7ou na sequ\u00eancia, no entanto, s\u00e3o meio, como podemos colocar\u2026 esquisitos? Algo assim, com a devida complac\u00eancia que a banda merece. Embora tenha certo apre\u00e7o pelo *Worlds Apart*, posso compreender a saraivada de cr\u00edticas negativas que o sucessor do *Source Tags and Codes* recebeu na \u00e9poca. Ningu\u00e9m entendeu nada, e a empolga\u00e7\u00e3o quase un\u00e2nime que existia em torno da banda murchou um pouco. Em rea\u00e7\u00e3o, eles parecem ter pensado: \u201cvoc\u00eas ainda n\u00e3o viram nada\u201d, e gravaram o ainda mais extravagante *So Divided*, consolidando de vez a opini\u00e3o de que a banda tornara-se completamente desorientada, mais perdida do que cego em tiroteio, sem eira nem beira, zuretinha da silva. Foi justo quando eu, que n\u00e3o sou l\u00e1 muito f\u00e3 de montanhas-russas de emo\u00e7\u00f5es, perdi o interesse no Trail of Dead, foi justo nesse momento que o bonde que vinha desgovernado parece ter voltado aos trilhos e os quatro discos que sa\u00edram depois do *So Divided* foram gradualmente reabilitando o Trail of Dead. S\u00e3o \u00e1lbuns que exigem apenas que voc\u00ea tenha vivido os anos 90 para que simpatize com eles, diferente dos dois anteriores, que exigiam que voc\u00ea tivesse uma mir\u00edade bastante ampla e improv\u00e1vel de interesses que inclu\u00edssem rock progressivo, can\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas russas, Guided by Voices, pop pomposo a\u00e7ucarado, pedantismos do tipo *November Rain*, e j\u00e1 nem lembro mais o qu\u00ea\u2026 Uma misturan\u00e7a por demais bizarra e indigesta, tipo sorvete com catchup e fanta-uva. Os \u00e1lbuns que vieram na sequ\u00eancia, contudo, como eu dizia, s\u00e3o bons; o *The Century of Self* e o *Tao of the Dead* eu escutei displicentemente na \u00e9poca de seus lan\u00e7amentos (em 2006 e 2009, respectivamente), e se n\u00e3o chegaram a reacender a chama da minha paix\u00e3o pela banda \u2014 paix\u00e3o que l\u00e1 pelos idos de 2003 poderia ser facilmente qualificada como obsessiva \u2014 ao menos eu lembro de ter gostado moderadamente de ambos, sem maiores ressalvas. Claro estava que a banda voltava a ter algo parecido com um foco. J\u00e1 o *Lost Songs*, de 2012, esse sim \u00e9 um belo disco, e finalmente, *IX*, lan\u00e7ado em 2014, este \u00e9 provavelmente o terceiro melhor item da discografia da banda, ficando atr\u00e1s apenas do *Source Tags and Codes* e do *Madonna*. \u00c0queles que se entusiasmaram tanto com os tr\u00eas primeiros discos do Trail of Dead e depois largaram de m\u00e3o durante a fase desvairada da banda, fica portanto a recomenda\u00e7\u00e3o: vale a pena dar uma nova chance aos mo\u00e7os, pois eles ainda sabem protagonizar uma barulheira noventista de primeira linha.\r\n\r\n**Glenn Gould: Bach - Varia\u00e7\u00f5es Goldberg**\r\n\r\nCarregar sempre consigo, aonde quer que fosse, o banquinho que seu pai constru\u00edra para ele parece ter sido a menor das excentricidades de Glenn Gould. O pianista canadense ia apresentar-se nos EUA e a pe\u00e7a de madeira e estofado tomava o avi\u00e3o com ele; viajava ao outro lado do mundo e l\u00e1 estava o banquinho diante do piano para o divertimento respeitosamente silencioso do p\u00fablico japon\u00eas antes que o m\u00fasico entrasse em cena; para a Europa tamb\u00e9m, para todo lado \u2014 apenas naquele assento Gould poderia sentar-se para tocar o piano. Tocar o piano: no caso de Glenn Gould trata-se de uma simplifica\u00e7\u00e3o, evidentemente. Podemos perdoar-lhe todas as manias e at\u00e9 mesmo o fato de ter parado de dar concertos p\u00fablicos ainda em 1964 quando se escuta suas grava\u00e7\u00f5es das Varia\u00e7\u00f5es Goldberg de Bach. Os fen\u00f4menos e as complexidades que envolvem as rela\u00e7\u00f5es dos grandes int\u00e9rpretes com a obra de seus compositores favoritos s\u00e3o revelados nestas grava\u00e7\u00f5es \u2014 que s\u00e3o duas, uma em 1955 e outra em 1981 \u2014 com grande eloqu\u00eancia; a beleza da m\u00fasica \u00e9 inexprim\u00edvel, mas h\u00e1 tempo suficiente nestas execu\u00e7\u00f5es para que se rompa o fasc\u00ednio hipn\u00f3tico vez por ou outra e deixe-se cair, aqueles que t\u00eam alguma tend\u00eancia para isso, numa aprecia\u00e7\u00e3o mais racional da t\u00e9cnica sobrenatural exibida pelo pianista, e tamb\u00e9m das nuances de tempos e ritmos, e \u00e9 poss\u00edvel ainda distrair-se com o jogo intelectual de [identificar as varia\u00e7\u00f5es do tema principal](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Variation_(music)) aqui e ali, e de novo a t\u00e9cnica, e de novo a beleza pura e simples \u2014 e finalmente o arremate final da volta do tema principal, que, tendo sido atravessadas todas as 30 varia\u00e7\u00f5es, soa incrivelmente pungente e luminosa, como que o maior dos deleites poss\u00edveis de ser experimentado pelos sentidos humanos, um momento de \u00eaxtase que conta ainda com a conveni\u00eancia de poder ser reproduzido sempre que se quiser, bastando para isso ter o disco e uma horinha de tempo dispon\u00edvel para ouvi-lo. Todo mundo deveria ter uma hora semanal para escutar as Varia\u00e7\u00f5es Goldberg, de prefer\u00eancia essas executadas por Glenn Gould. Tem de tudo nesta m\u00fasica inesgot\u00e1vel e exuberante, e a paix\u00e3o que Gould demonstra por ela \u00e9 igualmente comovente. \u00c9 um pacote completo, do tipo que nos faz pensar que talvez n\u00e3o fosse preciso mais nada al\u00e9m disso para se atravessar a vida, e o sujeito que finalmente puder fazer a experi\u00eancia de escut\u00e1-las diariamente, talvez acabe se transformando no ser humano mais longevo e feliz de todos os tempos. Talvez venha at\u00e9 mesmo a viver para sempre. Meu apego pela primeira vers\u00e3o, a de 1955, \u00e9 maior creio que simplesmente por t\u00ea-la ouvido mais vezes, mas assim como foi chegada a hora de Gould gravar a segunda (movido por mudan\u00e7as em sua forma de encarar a m\u00fasica de Bach e, talvez, a m\u00fasica de modo geral), acho que \u00e9 chegada a hora de eu adot\u00e1-la tamb\u00e9m. E uma nota final sobre Bach: demorei e demorei e demorei, e cheguei mesmo a pensar que nem aconteceria\u2026 Por\u00e9m, come\u00e7o a compreender, finalmente, a devo\u00e7\u00e3o das pessoas por este antigo mestre. Onde eu assino minha ficha de convertido?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":701,"title":"Alguns pensamentos enquanto escuto Bach e leio as not\u00edcias","post_timestamp":"2017-08-23T01:36:08+00:00","url":"2017_08_22_alguns_pensamentos_enquanto_escuto_bach_e_leio_as_noticias","post":"Sobre certos compositores, homens como Bach e Beethoven, eu penso o seguinte: o que eles possu\u00edram, e que tanto destacou-os em meio aos outros, n\u00e3o era somente uma extraordin\u00e1ria voca\u00e7\u00e3o e nem mesmo os maiores dos talentos musicais poss\u00edveis de se encontrar num ser humano \u2014 atributos que eles tamb\u00e9m possu\u00edram, \u00e9 claro. O verdadeiro diferencial depositado na alma desses homens, contudo, creio ter sido alguma esp\u00e9cie de amor essencial e absoluto, um amor que n\u00e3o lhes era poss\u00edvel ignorar, silenciar, reservar. Talvez essa palavra, amor, conceito ao mesmo tempo t\u00e3o consagrado e t\u00e3o surrado, que pode significar tudo e pode significar nada, talvez n\u00e3o seja ela a mais adequada; deixemos ent\u00e3o a coisa dita na forma n\u00e3o especificamente nominada de um sentimento vasto e profundo que transbordava-lhes sob a forma de m\u00fasica, uma m\u00fasica que, pensando bem, de m\u00fasica no sentido consensual da coisa tem muito pouco, uma vez que nos casos de Bach e Beethoven (j\u00e1 que deles comecei falando), cham\u00e1-las por esse nome seria rebaix\u00e1-las brutalmente, pois tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasica aquilo que ouvimos por a\u00ed em volumes via de regra mais altos do que o necess\u00e1rio. Sim, \u00e9 m\u00fasica tamb\u00e9m isso que ouvimos por a\u00ed \u2014 ningu\u00e9m nunca vai me ouvir depreciar m\u00fasica popular alguma \u2014 mas o legado que os Bs citados acima nos deixaram n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso \u2014 \u00e9 muito mais. A hist\u00f3ria humana, at\u00e9 aqui, \u00e9 predominantemente uma hist\u00f3ria de barb\u00e1rie e de opress\u00e3o, mas Bach, Beethoven, Chopin, Mahler, e tantos outros, e tamb\u00e9m seus int\u00e9rpretes ao longo dos tempos, e tantos poetas e pintores e etc., eles nos mostram que h\u00e1 algo mais no esp\u00edrito humano, uma possibilidade de generosidade incondicional, algo em que bem que poder\u00edamos prestar mais aten\u00e7\u00e3o e utilizar como inspira\u00e7\u00e3o para uma mudan\u00e7a de rumo enquanto ainda \u00e9 tempo. Por ora, o que acontece, no melhor das vezes (\u00e0 parte o prazer est\u00e9tico) \u00e9 isso: o trabalho da vida desses homens, que foi nos revelar o sublime e nos dar motivos plenos e justificados para reverenciar a natureza e o estar vivo, nos deixa apenas cansados e envergonhados pelo v\u00f3rtice de destrui\u00e7\u00e3o e intoler\u00e2ncia no qual parece que nos empenhamos cada vez mais. Sou levado a pensar que nunca houve um futuro l\u00e1 muito promissor para a humanidade \u2014 em \u00faltima inst\u00e2ncia, o universo vai colapsar e tudo, tudo, na acep\u00e7\u00e3o mais larga da palavra, vai desaparecer \u2014 e mesmo assim eles criaram o que criaram, guiados por algo de essencial, algo irrepres\u00e1vel e universal. Temos urgentemente que assimilar e compartilhar desse sentimento de fraternidade que os levou a nos dar tanto, desse [amor profundo](http:\/\/darma.info\/trechos\/2007\/08\/maitreya-o-buda-do-amor\/), antes que ele se dilua completamente e se torne apenas um conceito ut\u00f3pico distante, coisa de poetas desaparecidos no tempo e budas decorativos sobre a geladeira, e v\u00e1 tudo por \u00e1gua abaixo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Imagem copiada [daqui](http:\/\/insanity.blogs.lchwelcome.org\/2013\/01\/24\/back-to-practicing-bach\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Ou\u00e7am esse disco, quem n\u00e3o o fez ainda, e me digam se \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o amar essa banda. Ali est\u00e1 um conjunto de can\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam l\u00e1 grandes virtudes especiais em termos de composi\u00e7\u00e3o, nenhumas delas \u00e9 memor\u00e1vel a ponto de entrar para o pante\u00e3o das melhores can\u00e7\u00f5es de rock de todos os tempos, nenhuma delas \u00e9 aspirante a cl\u00e1ssico eterno; a precis\u00e3o e a paix\u00e3o da banda na execu\u00e7\u00e3o de cada uma delas, no entanto, a convic\u00e7\u00e3o dessas mo\u00e7as no que fazem, \u00e9 de arrepiar. \u00c9 a convic\u00e7\u00e3o de um olhar do Bruce Lee, mirando 30 oponentes e sabendo que vai derrubar todos eles, um por um e em tal e tal ordem. O disco \u00e9 feroz e impetuoso, cada momento \u00e9 como o \u00faltimo da vida, e elas, as Savages, parecem ter uma miss\u00e3o: \u00e9 disso que s\u00e3o feitas as bandas de rock que realmente interessam.\r\n\r\n**Paul Lewis: Liszt - Sonata in B minor**\r\n\r\nCerta vez, me vi numa loja de discos com tr\u00eas ou quatro grava\u00e7\u00f5es da Sonata in B minor (\u201cem Si menor\u201d, em portugu\u00eas) de Franz Listz em m\u00e3os, em d\u00favida de qual levar. Aquela que eu procurava, a [m\u00edtica vers\u00e3o](https:\/\/www.discogs.com\/Liszt-Schumann-Martha-Argerich-Sonate-H-Moll-In-B-Minor-Sonate-G-Moll-In-G-Minor\/release\/5366534) gravada pela pianista argentina Martha Argerich em 1971, eu n\u00e3o encontrara, infelizmente \u2014 acho at\u00e9 que est\u00e1 fora de cat\u00e1logo, s\u00f3 sendo poss\u00edvel adquiri-la, atualmente, se n\u00e3o for uma c\u00f3pia usada do disco original com muita sorte achada em um sebo, ent\u00e3o atrav\u00e9s de algum dos muitos box sets ou compila\u00e7\u00f5es que saem anualmente em homenagem \u00e0 obra de Argerich. As vers\u00f5es que eu tinha em m\u00e3os eram todas de pianistas que eu n\u00e3o conhecia, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de um deles, o ingl\u00eas Paul Lewis, de quem eu j\u00e1 ouvira algumas boas grava\u00e7\u00f5es de Schubert e tamb\u00e9m j\u00e1 o havia visto *in concert*, em uma apresenta\u00e7\u00e3o do Concerto para Piano No. 1 de Brahms junto \u00e0 Filarm\u00f4nica de Paris. Sendo este o \u00fanico fator de desempate poss\u00edvel naquele momento, acabei levando a vers\u00e3o de Lewis. A sonata de Liszt \u00e9 uma dessas m\u00fasicas absolutas, incompreendida em seu tempo (como \u00e9 t\u00e3o comum \u2014 quase regra \u2014 ter acontecido com as obras-primas quando analisadas em retrospectiva) devido principalmente \u00e0 estrutura de seus movimentos, mas para al\u00e9m das quest\u00f5es hist\u00f3ricas e conceituais, ela \u00e9 simplesmente magn\u00edfica, m\u00fasica universal. A performance de Lewis, no entanto, come\u00e7a meio incerta, ao meu ver. Sua m\u00e3o est\u00e1 meio pesada nas notas iniciais, e a constru\u00e7\u00e3o da melodia \u2014 a apresenta\u00e7\u00e3o do tema, como costumam dizer \u2014 vai se dando de maneira algo mec\u00e2nica. Mas parece ser apenas uma quest\u00e3o de aquecimento, no fim das contas; j\u00e1 na metade do primeiro movimento Lewis come\u00e7a a apresentar sinais de possess\u00e3o pelo esp\u00edrito do compositor h\u00fangaro, e dali em diante a coisa segue excepcional at\u00e9 o fim. Em tempo: compara\u00e7\u00f5es com a vers\u00e3o de Martha Argerich s\u00e3o covardia. A argentina, em sua grava\u00e7\u00e3o desta sonata, incorporou Liszt plenamente (al\u00e9m de compositor, ele era tamb\u00e9m um virtuoso no piano) e parece deslizar sobre as teclas do instrumento movida por for\u00e7as outras que n\u00e3o meramente as motoras exercidas por dedos feitos de carne e ossos.\r\n\r\n**Maurizio Pollini: Beethoven - Complete Piano Sonatas**\r\n\r\nEssa habilidade sobre-humana, no entanto, n\u00e3o \u00e9 exclusividade de Argerich. \u00c9 muito dif\u00edcil assistir ou escutar \u00e0s performances extraordin\u00e1rias dos maiores pianistas de todos os tempos e n\u00e3o ceder ao impulso de atribuir-lhes poderes miraculosos. Mas s\u00e3o apenas hip\u00e9rboles, claro, os elogios entusiasmados que esses mestres merecem. O italiano Maurizio Pollini \u00e9 outro pleno merecedor destes louvores que t\u00eam que buscar nas met\u00e1foras sobrenaturais um termo justo de descri\u00e7\u00e3o. Enquanto Mitsuko Uchida \u00e9, para mim, a [psic\u00f3grafa definitiva de Schubert](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_05_02_discos_do_mes_abril_de_2017), Pollini \u00e9 o mestre insuper\u00e1vel das sonatas de Beethoven. Sobre este conjunto de obras do mais famoso dos alem\u00e3es (o sujeito deplor\u00e1vel que talvez algumas pessoas se lembrem primeiro n\u00e3o era alem\u00e3o: era austr\u00edaco), n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer muita coisa: poucas cria\u00e7\u00f5es humanas ombreiam-se com elas. A atua\u00e7\u00e3o de um pianista, no entanto, \u00e9 sempre um fator decisivo, e depois de ouvir Pollini tocando, por exemplo, a sonata de n\u00famero 29, apelidada *Hammerklavier*, somos obrigados a render a ele quase que a mesma exalta\u00e7\u00e3o daquela dirigida ao compositor da m\u00fasica. Tenho a impress\u00e3o que \u00e9 muito dif\u00edcil identificar as fronteiras dos m\u00e9ritos e dos talentos, quando a coisa chega em um determinado alt\u00edssimo n\u00edvel \u2014 uma esp\u00e9cie de exosfera musical \u2014 \u00e9 muito dif\u00edcil separar e dedicar esse ou aquele elogio ao compositor e esse ou aquele elogio ao instrumentista, pois este e aquele est\u00e3o, de algum modo, por alguns momentos, um dentro do outro, um falando pelas m\u00e3os do outro, outro olhando pelos olhos do um. Nem o pequeno inconveniente de um deles estar morto h\u00e1 quase dois s\u00e9culos parece importar nessa hora. Para se atingir os tantos momentos sublimes que h\u00e1 na caixa das sonatas completas de Beethoven [gravadas por Pollini](http:\/\/www.deutschegrammophon.com\/en\/cat\/4794120), \u00e9 certo que s\u00f3 os talentos naturais do pianista n\u00e3o bastam: \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1ria essa forma de mediunidade, de recuperar o momento da cria\u00e7\u00e3o e traz\u00ea-la ao presente e ambos os protagonistas atuarem simultaneamente com as fronteiras entre os seus esp\u00edritos embaralhadas. S\u00e3o poucos, evidentemente, os que dominam essa arte, mas Maurizio Pollini e Martha Argerich s\u00e3o duas unanimidades.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":699,"title":"A volta dos que n\u00e3o foram","post_timestamp":"2017-07-12T00:33:39+00:00","url":"2017_07_11_a_volta_dos_que_nao_foram","post":"Gostei tanto desse disco *The Demonstration*, do Drab Majesty, que vou me antecipar ao \u201cDiscos do m\u00eas\u201d e j\u00e1 deixar registrada aqui minha empolga\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, gostei tanto que, pela manh\u00e3, eu o escutei duas vezes seguidas, e escutar um mesmo \u00e1lbum duas vezes seguidas \u00e9 algo que devo ter feito pela \u00faltima vez em 1994, no dia em que eu comprei o *Vitalogy*. Que achado, essa [banda](https:\/\/drabmajesty.bandcamp.com)! \u00c9 para quem gosta de Cure, Depeche Mode, New Order, goth rock, new wave, synthpop\u2026 Recentemente eu li um texto, n\u00e3o lembro onde, que considerava o synthpop um fen\u00f4meno interessante: passada a empolga\u00e7\u00e3o com o primeiro boom de bandas, nos estertores musicais dos anos 80, o g\u00eanero foi deixado de lado, desprezado e at\u00e9 mesmo n\u00e3o raro alvo de galhofas, e no entanto, passadas a\u00ed tr\u00eas d\u00e9cadas, seu legado e influ\u00eancia hoje s\u00e3o bastante significativos. Minha impress\u00e3o \u00e9 que a coisa n\u00e3o chegou a ter seu atestado de \u00f3bito assinado por ningu\u00e9m, pelo contr\u00e1rio: assim como as trilhas-sonoras feitas com sintetizadores, esse som achou seu nicho em ambientes fora do mainstream para onde Pet Shop Boys e a-ha o haviam levado, e no underground \u2014 em clubes de m\u00fasica eletr\u00f4nica e nas cole\u00e7\u00f5es de discos de esquisit\u00f5es \u2014 a coisa sobreviveu por bastante tempo, revigorando-se at\u00e9, e \u00e9 por isso que hoje temos tantas bandas fant\u00e1sticas influenciadas por Duran Duran e Depeche Mode, bandas que parecem ainda viver nos anos 80 tal a fidedignidade de sua m\u00fasica para com aquela \u00e9poca, e mesmo esses dois dinossauros, Duran Duran e Depeche Mode, continuam na ativa e s\u00e3o altamente respeitados e adorados. O Drab Majesty \u00e9 o exemplo mais bem acabado disso a\u00ed: o melhor do Cure \u2014 mais especificamente, o melhor do *Pornography* \u2014 unido ao melhor do Depeche Mode, e todos aqueles ecos e sintetizadores e atmosferas pesadas caracter\u00edsticos, tudo gravado parece que dentro de uma caixa de papel\u00e3o, e o incr\u00edvel trabalho de guitarras que \u00e9 a cereja do bolo. \u00c9 uma f\u00f3rmula que se repete com poucas varia\u00e7\u00f5es faixa ap\u00f3s faixa, e \u00e9 uma melhor do que a outra. Mas talvez essa seja imbat\u00edvel: \r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022528\u0022 height=\u0022297\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Yqn9fXzYWoo?ecver=1\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":698,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2017","post_timestamp":"2017-07-02T00:12:55+00:00","url":"2017_07_01_discos_do_mes_junho_de_2017","post":"*Singles*, o filme, \u00e9 uma bobagem, mas sua trilha-sonora continua sensacional, n\u00e3o \u00e9 mesmo? No m\u00eas passado, durante a como\u00e7\u00e3o pela morte do Chris Cornell e a nostalgia inevitavelmente suscitada, revisitei este disco (que, ali\u00e1s, numa triste coincid\u00eancia, acabara de ter sua vers\u00e3o especial de 25 anos lan\u00e7ada, acho que um dia antes da morte de Cornell) e relembrei num misto de exulta\u00e7\u00e3o adolescente e ternura adulta o qu\u00e3o espetacular \u00e9 esta sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas, como que um \u00e1lbum de recorda\u00e7\u00f5es feito s\u00f3 de fotos tiradas pelos melhores fot\u00f3grafos da \u00e9poca. Levando-se em conta o contexto geogr\u00e1fico do filme, faltou, evidentemente, o Nirvana, e para os meus gostos estranhos e particulares o Melvins, sendo a aus\u00eancia do primeiro provavelmente explicada por motivos burocr\u00e1ticos e a do segundo por motivos \u00f3bvios de nexo \u2014 o filme \u00e9 uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica, afinal de contas \u2014 e mesmo assim o \u00e1lbum \u00e9 uma maravilha do in\u00edcio ao fim. A abertura com esta esfinge sonora chamada *Would?* \u2014 uma m\u00fasica que continua t\u00e3o especial quanto era um quarto de s\u00e9culo atr\u00e1s \u2014 p\u00f5e logo tudo abaixo e fica dif\u00edcil n\u00e3o considerar que foi o Alice in Chains a melhor de todas aquelas bandas, coisa que j\u00e1 cogitei por aqui mais de uma vez, apesar da minha rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com o Pearl Jam. *Seasons*, do Cornell, \u00e9 magn\u00edfica, e tamb\u00e9m a faixa do agora definitivamente liquidado Soundgarden, *Birth Ritual*, \u00e9 outro super-trunfo do disco. *State of Love and Trust*, do Pearl Jam, \u00e9 uma das melhores b-sides de todos os tempos, distin\u00e7\u00e3o que poder\u00edamos igualmente atribuir \u00e0 *Drown*, do Smashing Pumpkins \u2014 e tamb\u00e9m ela est\u00e1 no tracklist, embora a banda seja de Chicago. Pena que exagerei na dose e resolvi assistir ao filme novamente, mesmo restando bastante v\u00edvida a lembran\u00e7a de t\u00ea-lo achado uma porcaria na primeira vez em que o vi, e no fim das contas tive que retificar minha mem\u00f3ria: o neg\u00f3cio \u00e9 ainda pior do que eu lembrava! Nem esse tanto de m\u00fasica fant\u00e1stica (e ainda outras mais que tocam no filme e que n\u00e3o est\u00e3o no disco da trilha-sonora, como R.E.M. e Jane\u2019s Addiction) e tampouco a ambienta\u00e7\u00e3o na cidade onde a maioria dessas bandas nasceu, nos clubes onde elas fizeram suas primeiras apresenta\u00e7\u00f5es, nas esquinas e caf\u00e9s cheias de p\u00f4steres artesanais anunciando shows, nada disso salva o filme de ser uma hora e pouco de tempo perdido.\r\n\r\nMas eu queria falar um pouco dos sons do presente. Suponho que os amigos que estejam mais em dia com o rock \u0027n\u0027 roll contempor\u00e2neo, quando l\u00eaem aqui sobre minhas \u00faltimas descobertas nestas cercanias, devem dar risadas, afinal, s\u00e3o sempre bandas que j\u00e1 t\u00eam tr\u00eas ou quatro discos lan\u00e7ados, j\u00e1 existem pelo menos desde a d\u00e9cada passada, j\u00e1 devem at\u00e9 mesmo ter feito shows pelo Brasil, enfim, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais novidade para quase ningu\u00e9m. War on Drugs, Ty Segall, xx, Kurt Vile, Savages, DIIV, Warpaint, s\u00e3o algumas que venho escutando desde o ano passado, tendo j\u00e1 citado uma e outra por aqui. E agora, mais uma para a lista: Lower Dens. Escutei esse nome pela primeira vez num dos v\u00eddeos da [What\u2019s in my Bag?](https:\/\/www.amoeba.com\/whats-in-my-bag\/#\/grid\/1), \u00f3tima s\u00e9rie de entrevistas produzida por esta filial do para\u00edso na Terra chamada Amoeba Records. N\u00e3o me recordo quem era exatamente a entrevistada, lembro-me apenas que era uma mo\u00e7a, e entre um e outro vinil ela comentou estar comprando tamb\u00e9m o novo Lower Dens, enquanto um trecho muito breve de uma das m\u00fasicas deste \u00e1lbum tocava ao fundo. O som me chamou a aten\u00e7\u00e3o de imediato; comecei a pesquisar sobre a banda e de repente, sem que eu percebesse, a internet transferiu para o meu computador os tr\u00eas discos que eles lan\u00e7aram at\u00e9 aqui, aproveitando alguma brecha nos dispositivos de seguran\u00e7a do meu sistema\u2026 (Tenho chance de ser acreditado e absolvido, se eu disser isso perante um j\u00fari?) Bem, n\u00e3o querendo contrariar a internet, ouvi os tr\u00eas discos e achei-os todos sensacionais, com o t\u00edtulo de favorito ficando com o *Nootropics*, lan\u00e7ado em 2012. Esta \u00e9 uma de suas faixas: \r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022520\u0022 height=\u0022293\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OyxzjF8IjE8?ecver=1\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\nLi em algum lugar o r\u00f3tulo \u0022dream pop\u0022 associado ao Lower Dens e admito que acho a etiqueta bonitinha: a textura dos sonhos est\u00e1, de fato, em boa parte de suas m\u00fasicas. E se o \u201cpop\u201d est\u00e1 na alma da banda, na gen\u00e9tica identificamos o pertencimento \u00e0 linhagem do post-punk, aquela mesma est\u00e9tica levada aos limites da sa\u00fade auditiva pelo shoegaze e que a partir de ent\u00e3o foi sendo gradualmente sublimada, como se o desconforto e o morma\u00e7o das roupas pesadas e dos efeitos sem fim nas guitarras tivessem finalmente se tornado insuport\u00e1veis e cada nova gera\u00e7\u00e3o de bandas fosse deixando pelo caminho um pouco daqueles excessos e juntando outras influ\u00eancias de acordo com suas predile\u00e7\u00f5es, por exemplo, o synthpop do New Order e do Depeche Mode aparece com frequ\u00eancia, o g\u00f3tico de Cure e Cocteau Twins tamb\u00e9m fez escola, e no caso do Lower Dens, pelo menos neste *Nootropics*, h\u00e1 infus\u00f5es muito sagazes de krautrock \u2014 aquelas progress\u00f5es estranhas e ritmos esparsos que me parece estarem tamb\u00e9m entre os amores do xx, que \u00e9 outra das minhas descobertas tardias \u2014 e tamb\u00e9m algumas doses de lisergias pinkfloydianas. Em resumo, um mistura muito rica que rende um caldo muit\u00edssimo bom. Ali\u00e1s, por falar em shoegaze, parece que andou rolando um shoegazing revival recentemente, n\u00e3o \u00e9 isso? Ou ainda est\u00e1 rolando, n\u00e3o sei\u2026 Slowdive e Jesus and Mary Chain gravaram discos novos, estou sabendo, e, no entanto, n\u00e3o me vejo muito compelido a escut\u00e1-los, assim como o t\u00e3o aguardado terceiro LP do patriarca deles todos, o l\u00edder da Congrega\u00e7\u00e3o da Sant\u00edssima Guitarra, o My Bloody Valentine, o disco que eles lan\u00e7aram finalmente em 2013 eu o escutei umas duas ou tr\u00eas vezes apenas e a coisa esgotou-se para mim\u2026 Embora eu ainda escute tudo isso de vez em quando (principalmente ao *Honey\u2019s Dead*, do Jesus, que sempre foi uma ardorosa paix\u00e3o pessoal) e tamb\u00e9m as bandas de Seattle citadas acima, em termos de rock \u0027n\u0027 roll ou m\u00fasica popular minhas aten\u00e7\u00f5es atuais est\u00e3o voltadas, definitivamente, aos herdeiros dessa turma a\u00ed, bandas com integrantes mais jovens do que eu e am\u00e1lgamas sonoros refinados que resultam numa m\u00fasica que pode-se dizer pertencente ao novo mil\u00eanio. Tudo se recicla, afinal, no mundo da m\u00fasica pop, sem nenhum constrangimento, o contr\u00e1rio do que parece ocorrer no universo da m\u00fasica cl\u00e1ssica, onde as obsess\u00f5es e teoricismos acerca de quest\u00f5es como a evolu\u00e7\u00e3o da composi\u00e7\u00e3o e o papel da arte musical na contemporaneidade muitas vezes acabam por sabotar a pr\u00f3pria m\u00fasica.\r\n\r\nE, por fim, h\u00e1 m\u00fasicas que parecem n\u00e3o se preocupar com nada disso, que parecem viver fora do tempo, independentes de tudo, independentes at\u00e9 mesmo da pr\u00f3pria natureza restrita \u00e0s leis da f\u00edsica do som \u2014 est\u00e3o mais para cosmologias temporariamente abreviadas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica, se bem que algu\u00e9m poderia dizer \u201celevadas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de\u201d e eu n\u00e3o contestaria. *Deep Listening*, de Pauline Oliveros e seus colaboradores Stuart Dempster e Peter Ward (aka Panaiotis), \u00e9 um destes exemplares: m\u00fasica que equivale ao que prop\u00f5em as imagens do filme *2001: A Space Odyssey*. Ou \u00e0s maiores cogita\u00e7\u00f5es dos maiores fil\u00f3sofos. \u00c9 o som do infinito, o som que nos leva onde, movendo-se livre de cronologia e prescindindo de mat\u00e9ria, talvez n\u00e3o cheguemos por outros meios jamais, digress\u00e3o necess\u00e1ria de vez em quando porque a rotina di\u00e1ria nos esmaga e nos faz esquecer, pouco a pouco, do qu\u00e3o extraordin\u00e1rio \u00e9 estarmos \u0022aqui, e n\u00e3o l\u00e1, neste tempo, e n\u00e3o noutro\u0022, como dizia Blaise Pascal. As pessoas de antigamente mantinham seus rituais, temiam entidades invis\u00edveis e inescrut\u00e1veis, celebravam missas e cultos o tempo todo, viam a si pr\u00f3prias de modo mais humilde e inserido em algo muito maior, conjecturando quais e quais forma\u00e7\u00f5es estelares eram simp\u00e1ticas ou contr\u00e1rias \u00e0 natureza humana\u2026 Eram vidas onde o encanto e a perplexidade com o que n\u00e3o se entendia ainda era parte importante da exist\u00eancia, enquanto que atualmente, n\u00e3o obstante ainda existir tanta coisa inexplicada ou obscura, parecemos estar cada vez mais abdicando de tais reflex\u00f5es por n\u00e3o caberem mais em nossos cotidianos repletos de demandas por aten\u00e7\u00e3o, e agendas abarrotadas de trabalho, e estamos perdendo at\u00e9 mesmo o h\u00e1bito milenar de dar uma breve espiada no c\u00e9u noturno e seu manto de estrelas, vis\u00e3o inspiradora que, sobre nossas cabe\u00e7as, permanece a mesma daqueles tempos antigos, talvez um pouco ofuscada pelo excesso de luzes urbanas, mas l\u00e1 ainda, imensa e desconcertante. E vai nos custando caro essa vida moderna, essa capitula\u00e7\u00e3o diante das for\u00e7as mundanas \u00e0s quais n\u00e3o conv\u00e9m que as pessoas permane\u00e7am livres e conectadas \u00e0 natureza\u2026 N\u00e3o proponho que voltemos \u00e0s igrejas, ao mundo assombrado por dem\u00f4nios de outrora, evidente que n\u00e3o; aos templos das religi\u00f5es institucionais s\u00f3 resta mesmo cumprir o destino que outro fil\u00f3sofo lhes previu, o de tornarem-se escombros. Um pouco mais de aberturas ao deslumbramento, contudo, acho que n\u00e3o seria nada mal. Os caminhos poss\u00edveis para isso hoje em dia s\u00e3o bem outros, naturalmente: poesia, ci\u00eancia, metaf\u00edsica, estas s\u00e3o algumas possibilidades ao alcance de qualquer um\u2026 H\u00e1, por\u00e9m, um atalho m\u00e1gico, que tenho certeza que voc\u00eas que me l\u00eaem sabem qual direi ser ele: m\u00fasica! De volta ao disco, pois: a m\u00e1gica operada por *Deep Listening*, com efic\u00e1cia poucas vezes igualada, \u00e9 fazer o cidad\u00e3o tecnologicamente evolu\u00eddo e espiritualmente debilitado do s\u00e9culo XXI adentrar uma esp\u00e9cie de portal cujas recompensas ap\u00f3s terminada a incurs\u00e3o poder\u00e3o ser os sentidos rejuvenescidos e a redescoberta do antigo encanto pelo cosmos e seus enigmas, alguns deles inc\u00f3gnitas que persistir\u00e3o sempre um passo adiante de toda a ci\u00eancia humana, eternamente inalcan\u00e7\u00e1veis. \u00c9 uma jornada mist\u00e9rio adentro indispens\u00e1vel, ao meu ver, pois para al\u00e9m de todos os m\u00faltiplos horrores dos dias atuais, algo me diz que perdermos a curiosidade seria a verdadeira grande trag\u00e9dia da humanidade, o evento irrepar\u00e1vel que anunciaria o come\u00e7o de nossa derrocada.\r\n\r\nPauline Oliveros, essa feiticeira dos tempos modernos, morreu no fim do ano passado, mas Sofia Gubaidulina continua viva \u2014 tem 86 anos. *The Canticle of the Sun*, gravado por Gidon Kremer e sua Kremerata Baltica e lan\u00e7ado em 2012 pela ECM, traz duas obras da compositora russa e segue a linha de *Deep Listening*: m\u00fasica vasta e profunda. As formas e a instrumenta\u00e7\u00e3o podem ser um pouco mais convencionais do que as utilizadas por Pauline e sua turma de exploradores \u2014 aqui \u00e9 inconfundivelmente \u0022m\u00fasica cl\u00e1ssica\u0022 \u2014 mas o efeito \u00e9 o mesmo: assombro, fascina\u00e7\u00e3o, recalibragem do esp\u00edrito. Como j\u00e1 gastei meu vocabul\u00e1rio pomposo e grandiloquente descrevendo o *Deep Listening*, encerro por aqui. N\u00e3o deixe de ouvir, quem estiver me lendo e que anseie por uma m\u00fasica que seja mais do que simplesmente um som a preencher o espa\u00e7o enquanto se trabalha ou se lava a lou\u00e7a.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":697,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2017","post_timestamp":"2017-06-02T16:50:07+00:00","url":"2017_06_02_discos_do_mes_maio_de_2017","post":"**Soundgarden: Down on the Upside**\r\n\r\nQue coisa mais deselegante, eu falando mal da reuni\u00e3o do Soundgarden nos dias que se seguiram \u00e0 morte do Chris Cornell. O Sid, nos coment\u00e1rios [daquele post](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_05_22_requiem_para_chris_cornell), tem toda a raz\u00e3o: se os caras se divertiram nos shows e nas sess\u00f5es de est\u00fadio que resultaram em *King Animal*, a coisa esteve plenamente justificada. Tamb\u00e9m o Alexandre, [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_05_19_rip_chris), disse mais ou menos a mesma coisa, com outras palavras. E mesmo que os motivos da volta tivessem sido todos de ordem meramente pecuni\u00e1ria, isso n\u00e3o \u00e9 da conta de ningu\u00e9m: eles fazem o que querem com a banda que eles mesmos criaram. Vou tentar compensar minha grosseria falando do *Down on the Upside*, que escutei uma \u00fanica vez no m\u00eas que passou, uma audi\u00e7\u00e3o marcante pelas circunst\u00e2ncia e pelo poder que o disco conserva ainda intocado em suas 16 faixas. Era uma noite que j\u00e1 avan\u00e7ava e eu come\u00e7ava a ficar com sono, mas o som me despertou imediatamente, t\u00e3o logo apertei o play e veio aquela lembran\u00e7a contundente de que *Pretty Noose* \u00e9 mais do que uma m\u00fasica excepcional: ela traz tamb\u00e9m em si, em mensagem cifrada por\u00e9m perfeitamente recebida e decodificada por qualquer um que tenha j\u00e1 uma sensibilidade mais treinada para m\u00fasica, o an\u00fancio de que ela abre um disca\u00e7o, a promessa impl\u00edcita de que toda a mais de uma hora de m\u00fasica que vai se seguir a partir dali ser\u00e1 impec\u00e1vel, n\u00e3o tem como ser diferente. Al\u00e9m do mais, se cada disco da banda era como uma depura\u00e7\u00e3o de seu anterior, e o *Superunknown* \u00e9 magn\u00edfico, ent\u00e3o ao *Down on the Upside* s\u00f3 podem ser aplicados adjetivos ainda mais superlativos. \u00c9 um dos meus discos de rock favoritos \u2014 nada menos que isso. Da monumental *Pretty Noose*, passando por *Burden in my Hand* e *Switch Opens*, chegando ao desfecho opaco e enigm\u00e1tico de *Boot Camp*, o n\u00edvel do \u00e1lbum permanece o tempo todo nas alturas \u2014 creio que seja o sublime citado pelo Alexandre em seu post \u2014, cada segundo \u00e9 argumento suficiente para desmoralizar qualquer um que tente hoje em dia [relativizar a qualidade da m\u00fasica sa\u00edda de Seattle naqueles anos](http:\/\/www.avclub.com\/article\/did-grunge-really-matter-105354). De determinado ponto de vista, n\u00e3o havia como a banda fazer algo melhor do que *Down on the Upside*; a retomada feita com o *King Animal* talvez mere\u00e7a ent\u00e3o um pouco mais de condescend\u00eancia, um outro enfoque. No conjunto da obra, s\u00e3o pouqu\u00edssimas as bandas que t\u00eam uma discografia do quilate da do Soundgarden para se orgulhar.\r\n\r\n**R.E.M. - Monster**\r\n\r\nEsse talvez caia na vala dos discos menores do R.E.M., mas \u00e9 um dos meus favoritos, me vejo escutando-o muito frequentemente, e sempre que o fa\u00e7o enquanto estou andando na rua, eu desacelero o passo para que a caminhada seja mais longa e eu tenha oportunidade de ouvir ao m\u00e1ximo poss\u00edvel de suas can\u00e7\u00f5es. Adoro as guitarras altas e distorcidas que se repetem em praticamente todas as faixas, uma presen\u00e7a insistente que faz com que o disco tenha essa \u00edndole altamente el\u00e9trica e padronizada, quase que uma \u00fanica longa can\u00e7\u00e3o com modula\u00e7\u00f5es de melodia, mais ou menos como o *NYC Ghosts \u0026 Flowers* do Sonic Youth: suas m\u00fasicas, se tomadas individualmente, s\u00e3o irregulares ou mesmo simplesmente uma droga (foi o que disseram na \u00e9poca do lan\u00e7amento do CD do Youth), mas juntas elas conjuram algum feiti\u00e7o que faz com que o disco funcione como obra completa, indivis\u00edvel, um pouco mais exigente de aten\u00e7\u00e3o e cuja jornada no fim das contas tem suas recompensas se atravessada inteira e sem interrup\u00e7\u00f5es (pelo menos \u00e9 o que eu digo). No caso do *Monster*, talvez seja exagero dizer que nenhuma can\u00e7\u00e3o ali se destaca individualmente \u2014 afinal, temos no tracklist p\u00e9rolas como *What\u0027s the Frequency, Kenneth?*, *Star 69* e *Bang and Blame* \u2014 mas o forte do disco, ao contr\u00e1rio dos \u00e1lbuns anteriores do R.E.M., \u00e9 a sua soma. E quando a coisa amea\u00e7a tornar-se cansativa, l\u00e1 pro ter\u00e7o final, quando a eletricidade toda come\u00e7a a confundir um pouco o c\u00e9rebro e ao iniciar *I Took Your Name* voc\u00ea tem certeza que essa m\u00fasica j\u00e1 tocou antes \u2014 surge ent\u00e3o, na sequ\u00eancia, a bel\u00edssima *Let Me In*, supostamente uma homenagem ao ent\u00e3o rec\u00e9m-falecido Kurt Cobain, o suicida que (\u00e9 o que dizem) escutava ao *Automatic for the People* no momento em que disparou uma arma contra sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a. E o disco fecha muito bem com *Circus Envy* e *You*. Que saudade do R.E.M.! Era uma daquelas bandas de presen\u00e7a inabal\u00e1vel em nossas vidas, e que muitos de n\u00f3s, em algum momento de nossas adolesc\u00eancias, consideramos que nunca haveria de deixar de existir, mais ou menos como em algum momento de nossas inf\u00e2ncias pensamos que nossos pais nunca haveriam de morrer, e tamb\u00e9m os antagonistas de nossos pais, os Ramones, tamb\u00e9m eles seriam eternos. Mas as bandas se v\u00e3o; as pessoas se v\u00e3o. E tudo indica que n\u00e3o est\u00e1 previsto no roteiro do drama humano o dia em que aprenderemos a lidar com essas mortes todas, a nos conformarmos com o fim das coisas. A finitude parece ser, ao mesmo tempo, a maravilha e a trag\u00e9dia da exist\u00eancia: aqui ficamos a lamentar enquanto l\u00e1 estar\u00e3o para sempre em paz os que partiram. Percebi que a morte de Cornell (voltando ao tema) comoveu muita gente; foi, al\u00e9m de tudo, uma parte de n\u00f3s, uma parte de nossa m\u00fasica e de nossas mem\u00f3rias \u2014 mais uma \u2014 que morreu tamb\u00e9m. Fica o consolo da paz eterna, que h\u00e1 de chegar para todos, cada qual em seu tempo.\r\n\r\n**Brigitte Engerer - Fr\u00e9d\u00e9ric Chopin: Nocturnes**\r\n\r\nPensei muito em Chris Cornell nesses \u00faltimos dias, e tamb\u00e9m em Layne Staley e Cobain, estes t\u00e3o imperfeitos e t\u00e3o queridos \u00eddolos musicais da minha gera\u00e7\u00e3o, todos mortos t\u00e3o cedo, e um som que me acompanhou nessas reflex\u00f5es, al\u00e9m de suas respectivas bandas \u2014 as melhores de Seattle?, quero dizer, as melhores depois do Melvins? \u2014 foram os Noturnos de Chopin, que tenho em CD gravados pela pianista Brigitte Engerer. Essa m\u00fasica \u00e9 uma das proezas de nossa esp\u00e9cie, n\u00e3o? Aqui est\u00e1, na minha opini\u00e3o, o equil\u00edbrio insuper\u00e1vel entre som, serenidade e beleza. Mesmo quem n\u00e3o se aventura muito pelo repert\u00f3rio cl\u00e1ssico h\u00e1 de conhecer uma ou duas das pe\u00e7as desse conjunto do compositor polon\u00eas, que s\u00e3o 21 no total, escritas entre 1827 e 1846. O nome n\u00e3o \u00e9 fortuito; \u00e9 m\u00fasica noturna mesmo, que parece flutuar pelos ares dos mundos opostos ao da consci\u00eancia. M\u00fasica-sonho. Um bom sedativo para esses dias t\u00e3o exasperantes, e algo que poder\u00edamos exibir com orgulho para alguma esp\u00e9cie de algum outro planeta, e comprovar para eles que n\u00f3s tamb\u00e9m, apesar de todas essas puls\u00f5es de morte e viol\u00eancia t\u00e3o latentes em nosso planeta ultimamente, n\u00f3s tamb\u00e9m compartilhamos algo do inexaur\u00edvel poder de cria\u00e7\u00e3o do universo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":696,"title":"R\u00e9quiem para Chris Cornell","post_timestamp":"2017-05-22T16:19:04+00:00","url":"2017_05_22_requiem_para_chris_cornell","post":"\u00c9 tentador falar em premoni\u00e7\u00e3o ou algo do tipo, mas \u00e9 claro que n\u00e3o foi nada mais do que uma triste coincid\u00eancia: j\u00e1 h\u00e1 alguns dias eu vinha escutando grava\u00e7\u00f5es diversas de *Requiem*, a missa f\u00fanebre de Gabriel Faur\u00e9, quando chegou a not\u00edcia da morte de Chris Cornell. O obitu\u00e1rio veio dividindo as p\u00e1ginas dos jornais com as not\u00edcias escatol\u00f3gicas acerca da divulga\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es onde a ratazana que ocupa atualmente o posto m\u00e1ximo da Rep\u00fablica \u00e9 flagrada costurando acordos com o bandido dono do famoso matadouro de animais, dois personagens asquerosos tramando rapinagens na calada da noite em plena resid\u00eancia oficial do presidente, fora da agenda oficial, encontro que por si s\u00f3 j\u00e1 seria motivo para esc\u00e2ndalo em qualquer pa\u00eds decente \u2014 n\u00e3o precisaria nem divulgar o teor da conversa. Ao menos o filho da puta teve a dec\u00eancia de n\u00e3o vazar da presid\u00eancia naquele mesmo dia, dado que seria bem dif\u00edcil acomodarmos no mesmo estado de esp\u00edrito a tristeza pela morte de Cornell e a felicidade pela sua ren\u00fancia. Devo dizer que n\u00e3o sou o maior entusiasta da volta do Soundgarden; eles eram, para mim, uma dessas rar\u00edssimas bandas que ao encerrar deixou legada ao mundo uma discografia quase perfeita, de \u00e1lbuns praticamente sem falhas, cada qual melhor que seu predecessor, todos eles igualmente extraordin\u00e1rios. A coisa estava encapsulada em cristal precioso, irrepreens\u00edvel, intoc\u00e1vel \u2014 mas por qualquer motivo que seja, resolveram tocar, e para mim o *King Animal* \u00e9 um arranh\u00e3o na trajet\u00f3ria do Soundgarden, uma mancha de dedos engordurados, e agora a coisa acabou assim, truncada e um pouco maculada. Escutei ao disco novamente nos \u00faltimos dias com bastante boa vontade, e n\u00e3o tem jeito, na minha opini\u00e3o nada ali justifica a volta da banda \u2014 nada ali chega sequer perto do momento mais fraco que possa haver em *Down on the Upside*, e fica ent\u00e3o essa desconfort\u00e1vel desconfian\u00e7a que a volta se deu por outros motivos menos nobres. Mas talvez eu n\u00e3o devesse estar dando essas opini\u00f5es agora, elas pouco ou nada importam; a morte est\u00fapida de Cornell \u00e9 lament\u00e1vel demais e o importante \u00e9 nos despedirmos agradecendo-o pela m\u00fasica fenomenal que ele nos deixou, m\u00fasica que reverbera alto ainda, m\u00fasica cuja pot\u00eancia e esplendor os deixar\u00e3o no z\u00eanite do rock \u2019n\u2019 roll por muito tempo ainda, qui\u00e7\u00e1 eternamente. E recomendado fica, se algu\u00e9m se interessar em prestar um outro tipo de homenagem a Cornell: a *Requiem* gravada por Philippe Herreweghe com o seu grupo coral La Chapelle Royale, [lan\u00e7ada em 2002 pela Harmonia Mundi](https:\/\/www.discogs.com\/Faur\u00e9-Herreweghe-Requiem\/release\/1001112). Os segundos iniciais deste disco, assim como os segundos iniciais de *Pretty Noose*, s\u00e3o de arrepiar a espinha. Mais do que isso: ser\u00e3o eternos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](http:\/\/www.rollingstone.com\/music\/news\/chris-cornell-looks-back-on-20-years-of-soundgardens-superunknown-20140527).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":695,"title":"Rip Chris","post_timestamp":"2017-05-19T17:02:18+00:00","url":"2017_05_19_rip_chris","post":"Me ocorreu de escrever porque estou com a sensa\u00e7\u00e3o de ter perdido um amigo, e sei que era um amigo em comum nosso.\r\n\r\nNo meio de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo (que tempos vivemos!) \u00e9 at\u00e9 estranho receber uma not\u00edcia dessas e se sentir impactado, pois n\u00e3o pensava mais ser poss\u00edvel esse tipo de proximidade nessas alturas do campeonato. Mas sim, a m\u00fasica do Chris Cornell sempre esteve ali presente desde o come\u00e7o quando comecei a ouvir rock l\u00e1 por 92, e nunca deixei de ouvir. \u00c9 dif\u00edcil passar uma semana sem que ou\u00e7a a voz do Chris Cornell pelo menos uma vez, sempre foi, mais do que uma refer\u00eancia, um companheiro. \r\n\r\nMuito do que produziu pode ser colocado junto ao que de mais sublime foi produzido no rock. Ele tamb\u00e9m cometeu seus deslizes (oi, Scream) mas isso n\u00e3o o diminui, at\u00e9 nos aproxima, fazendo dele n\u00e3o uma figura infal\u00edvel acima do bem e do mal, mas cara, um artista, com seus erros, acertos e contradi\u00e7\u00f5es. Tive a oportunidade de v\u00ea-lo em apresenta\u00e7\u00e3o solo em junho de 2013 em Porto Alegre, o pa\u00eds pegava fogo (exatamente como agora). O cara era uma usina, apresentando uma m\u00fasica com um vigor e uma pot\u00eancia inquestion\u00e1vel mesmo no formato voz e viol\u00e3o. E nos \u00faltimos tempos ele parecia muito bem resolvido na sua rela\u00e7\u00e3o com a carreira, intercalando projetos com naturalidade. O Soundgarden especialmente, retornou com naturalidade, um bom disco e bons shows, e seguia em frente consciente de sua pr\u00f3pria grandeza, sem precisar provar nada pra ningu\u00e9m. At\u00e9 o Temple of the Dog foi retomado para uma turn\u00ea comemorativa recentemente, e mesmo o Audioslave teve um show ainda esse ano na ocasi\u00e3o da posse do presidente Trump. E isso torna um pouco mais triste e inesperada a sua perda. Vamos sentir sua falta, amigo!","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Alexandre Luzardo","url":"alexandre_luzardo"}},{"id":694,"title":"Feliz anivers\u00e1rio, Johannes!","post_timestamp":"2017-05-08T00:20:10+00:00","url":"2017_05_07_feliz_aniversario_johannes","post":"Johannes Brahms nasceu em 7 de maio de 1833, em Hamburgo, no norte da Alemanha. Curiosidade: Tchaikovsky nasceu no mesmo 7 de maio, sete anos mais tarde. Sou muito mais Brahms, de todo modo. Pode botar na conta deste senhor a\u00ed em cima boa parte da minha (t\u00e3o tardiamente descoberta) paix\u00e3o pela m\u00fasica cl\u00e1ssica.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":693,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2017","post_timestamp":"2017-05-03T01:57:22+00:00","url":"2017_05_02_discos_do_mes_abril_de_2017","post":"**Deutsches Streichtrio - Paul Hindemith: String Trios 1 \u0026 2**\r\n\r\nDia desses, ao chegar em casa, me senti como que protegido por anjos. E n\u00e3o uns anjinhos gorduchos e relapsos quaisquer cuidando para que eu n\u00e3o pisasse numa casca de banana ou algo besta desse tipo; provavelmente, acompanhou-me na meia hora anterior uma equipe muito atenta e qualificada, n\u00e3o sei se formada por cuidadores particulares que me foram especialmente designados por algum muit\u00edssimo indulgente funcion\u00e1rio do departamento angelical \u2014 haja visto que, sendo ateu desde as cinco semanas de idade, sequer fiz catequese na inf\u00e2ncia \u2014 ou se eram simplesmente os anjos p\u00fablicos respons\u00e1veis pelos b\u00eabados da comarca em que moro, anjos seccionais, algo assim. Seja qual for o caso, agrade\u00e7o-lhes. Eu n\u00e3o estava b\u00eabado, come\u00e7o esclarecendo: estava num outro estado cujas capacidades de aten\u00e7\u00e3o podem ficar ainda mais comprometidas do que o \u00e1lcool \u00e9 capaz de tornar. Eu caminhava para casa, e resolvi colocar os fones e escutar alguma coisa. Navegando pela discoteca que trazia comigo no telefone celular, encontrei um disco com algumas obras do compositor alem\u00e3o Paul Hindemith, a quem eu nunca havia escutado at\u00e9 ent\u00e3o. Hindemith ocupa aquele patamar intermedi\u00e1rio dos compositores que n\u00e3o s\u00e3o de conhecimento do grande p\u00fablico, n\u00e3o possuem o status de Mozart, Beethoven ou Bach, mas tampouco s\u00e3o considerados artistas menores; seu nome aparece recorrentemente em textos de ou conversas com pessoas que possuem boa milhagem de aventuras no mundo da m\u00fasica erudita. Digamos que no mundo do rock \u2019n\u0027 roll, uma banda correspondente seria o Mission of Burma: se voc\u00ea n\u00e3o p\u00e1ra no Nirvana e nem no Sonic Youth, ent\u00e3o uma hora voc\u00ea vai ouvir o Burma. De maneira an\u00e1loga, se voc\u00ea n\u00e3o p\u00e1ra em Beethoven e nem em Stravinsky, logo voc\u00ea ouvir\u00e1 Hindemith. Chegara ent\u00e3o a minha hora de ouvi-lo, eu que lamento a pouca vida que terei para ouvir o tanto de m\u00fasica que gostaria. O disco em quest\u00e3o traz os dois trios de cordas que Hindemith comp\u00f4s, trabalhos de 1924 e 1933, em vers\u00f5es gravados pelo Deutsches Streichtrio. E o que aconteceu \u00e9 que eu n\u00e3o estava preparado para gostar tanto do que estava prestes a ouvir: o disco \u00e9 \u00f3timo, as duas pe\u00e7as s\u00e3o fant\u00e1sticas! Fui capturado imediatamente pela m\u00fasica, pela m\u00e1gica concentrada que somente esses pequenos grupos formados por instrumentos de cordas s\u00e3o capazes. E quando enfim cheguei ao pr\u00e9dio onde moro e enfiei a chave na porta de casa, percebi meio aterrorizado que tudo que havia transcorrido no espa\u00e7o exterior \u00e0quele entre os dois fones enfiados em minhas orelhas (esse espa\u00e7o ao mesmo tempo min\u00fasculo e infinito ocupado por um c\u00e9rebro enquanto escuta m\u00fasica), tudo que se passara ao meu redor durante aquela \u00faltima meia hora de caminhada \u2014 em que faixas de seguran\u00e7a eu atravessei, diante de que pessoas eu passei, de quais \u00f4nibus desabalados passando pr\u00f3ximos demais da cal\u00e7ada eu recuei, se \u00e9 que o fiz \u2014 de nada disso eu me lembrava, em nada disso eu havia prestado aten\u00e7\u00e3o alguma enquanto caminhava e escutava o Deutsches Streichtrio interpretando os trios de Hindemith. Posso muito bem ter atravessado fora das faixas diante dos homicidas em potencial a que chamamos de motoristas e at\u00e9 mesmo passado pelo pr\u00f3prio Jesus Cristo ressuscitado andando na cal\u00e7ada, com a coroa de espinhos ainda enfiada na cabe\u00e7a e proferindo serm\u00f5es sobre amor e igualdade, sendo ignorado pelas demais pessoas por assemelhar-se a um mendicante doid\u00e3o qualquer (coisa que, afinal, ele provavelmente foi em seu tempo) \u2014 e eu n\u00e3o reparei em nada disso! A m\u00fasica me abduziu completamente e todo o tr\u00e2nsito de pessoas e autom\u00f3veis ao meu redor deslizou para algum outro lugar al\u00e9m do meu campo de percep\u00e7\u00e3o. Posso at\u00e9 mesmo ter passado direto por algum vira-lata sem fazer a devida cataloga\u00e7\u00e3o mental que sempre fa\u00e7o dos cachorros com quem cruzo, tentando decifrar o destino da marcha acelerada e cheia de senso de prop\u00f3sito de uns e o que se passa na mente daqueles outros que parecem apenas observar o tempo passando deitados bem no meio da cal\u00e7ada, sem embara\u00e7o algum, no m\u00e1ximo o reflexo involunt\u00e1rio de recolher o rabo para que este n\u00e3o seja pisado por algum transeunte que se aproxima. Bem, c\u00e3es nas ruas temos aos montes por aqui, n\u00e3o preciso lamentar ter perdido um ou outro; Jesus Cristo ressuscitado andando em Florian\u00f3polis me parece improv\u00e1vel\u2026 O problema mesmo s\u00e3o os carros. Ainda que tenha maquinalmente atravessado somente nas faixas de seguran\u00e7a, n\u00e3o s\u00e3o poucos os deliquentes que n\u00e3o sabem direito para que servem aquelas barras paralelas pintadas de branco no ch\u00e3o, e por isso sabe-se l\u00e1 como cheguei vivo em casa. Protegido por anjos, s\u00f3 pode. Tenho que tomar mais cuidados com essas coisas; ateus n\u00e3o podem contar com anjos o tempo todo.\r\n\r\n**Mitsuko Uchida plays Schubert**\r\n\r\nPois \u00e9, Franz Schubert de novo. Mas serei breve: Mitsuko Uchida \u00e9, para mim, a melhor int\u00e9rprete das sonatas de Schubert. J\u00e1 escutei muitas vers\u00f5es pelas m\u00e3os de muitos pianistas, mas Mitsuko \u00e9 insuper\u00e1vel. Esse box com oito discos lan\u00e7ado pela Decca em 2004 traz a pianista japonesa naturalizada brit\u00e2nica tocando, al\u00e9m das sonatas, v\u00e1rias pe\u00e7as para piano solo: os Six moments musicaux, os Impromptus, entre outras. \u00c9 ouro puro\u2026 Quero dizer, \u00e9 muito melhor do que ouro.\r\n\r\n**Midnight Oil: Earth and Sun and Moon**\r\n\r\nEste sempre foi o meu \u201cmenos favorito\u201d \u00e1lbum do Midnight Oil. Por\u00e9m, depois de rev\u00ea-los em a\u00e7\u00e3o, uns dias atr\u00e1s \u2014 o que foi precedido e sucedido pela audi\u00e7\u00e3o de quase todos os seus discos, como ritual de prepara\u00e7\u00e3o antes e como suplemento ap\u00f3s o show na noite gelada de Curitiba \u2014, e de ver reacendida uma vez mais a minha enorme paix\u00e3o pela banda, acho que passei a gostar mais dele. Meu problema com o *Earth and Sun and Moon* sempre foi a sensa\u00e7\u00e3o de uma dose demasiada de pompa e a\u00e7\u00facar nas melodias e nos refr\u00f5es, principalmente os refr\u00f5es, muitos deles cantados a plenos pulm\u00f5es por v\u00e1rias vozes que n\u00e3o economizam na grandiloqu\u00eancia e no aspecto hin\u00e1rio da coisa toda. *Diesel and Dust* e *Blue Sky Mining* eram j\u00e1 parte do caminho do Oil nessa dire\u00e7\u00e3o, mas aqui houve um pouco de exagero, eu sempre pensei\u2026 \u00c9 como um \u00e1pice ao qual a banda n\u00e3o precisava ter chegado. E provavelmente eles concordaram comigo no fim das contas, pois o disco seguinte, meu amado *Breathe*, tem um esp\u00edrito que \u00e9 quase o oposto absoluto ao de *Earth and Sun and Moon*. Bem, de todo modo, n\u00e3o sei se \u00e9 a benevol\u00eancia que vem com a idade ou o qu\u00ea, o fato \u00e9 que acabei voltando ao *Earth and Sun and Moon* mais de uma vez nestes \u00faltimos dias. H\u00e1 uma sequ\u00eancia formid\u00e1vel entre as faixas quatro e sete, come\u00e7ando com a m\u00fasica que d\u00e1 t\u00edtulo ao disco e terminando com *Drums of Heaven*, s\u00e9rie que praticamente redime tudo aquilo que vejo como excessivamente agridoce no restante do \u00e1lbum. O show em Curitiba, a despeito de ter sido num teatro \u2014 com assentos e tudo mais \u2014, foi \u00f3timo. Boa parte do p\u00fablico estava l\u00e1 para ouvir *Beds are Burning* e *The Dead Heart*, isso \u00e9 inescap\u00e1vel, e a banda n\u00e3o deixou ningu\u00e9m desamparado: nem quem apenas lembrava vagamente do refr\u00e3o injetado de adrenalina de *Forgotten Years* ficou, e tampouco eu fiquei, depois de *Kosciuszko*, *Only the Strong* e *Sell my Soul*. Claro, faltou essa e aquela (e n\u00e3o faltou *Blue Sky Mine*\u2026), mas no geral, sa\u00edmos todos felizes e rejuvenescidos. Espero que n\u00e3o tenha sido a minha \u00faltima vez num show do Midnight Oil.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":692,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2017","post_timestamp":"2017-04-04T00:20:46+00:00","url":"2017_04_03_discos_do_mes_marco_de_2017","post":"**Elbow - Little Fictions**\r\n\r\nMas que excelente este novo disco do Elbow! E que bela e s\u00f3lida discografia vem construindo essa banda, uma trupe de boas-pra\u00e7as cujos sotaques do norte da Inglaterra parecem calibrados para soarem apenas levemente c\u00f4mico, e cuja inadequa\u00e7\u00e3o para as praxes do mundo do rock mainstream ingl\u00eas \u2014 aquilo que outrora cham\u00e1vamos de brit-pop \u2014 essa sim \u00e9 total. Colocar o Elbow numa mesma frase em que constam bobagens como Oasis e Blur me parece um despaut\u00e9rio \u2014 acho que essas bandas nem existem mais, devem ter evaporado junto com a etiqueta e as revistas que lhes davam o sentido da exist\u00eancia. O Elbow, por outro lado, prova disco ap\u00f3s disco ter m\u00fasica para continuar existindo de forma saud\u00e1vel e independente (mesmo tendo perdido recentemente um de seus pilares, o baterista Richard Jupp), sem precisar de r\u00f3tulos sazonais e pol\u00eamicas adolescentes servindo-lhes de m\u00eddia e anteparo. N\u00e3o h\u00e1 em sua discografia dois \u00e1lbuns em sequ\u00eancia sem que pelo menos um n\u00e3o seja excepcional. O anterior, *The Take Off And Landing Of Everything*, eu admitido n\u00e3o ter escutado muitas vezes, mas j\u00e1 escolado pelos antecedentes da banda, eu nunca apostaria contra eles\u2026 E a\u00ed est\u00e1 o rec\u00e9m-lan\u00e7ado *Little Fictions* me dando raz\u00e3o. Bel\u00edssimo CD, de produ\u00e7\u00e3o esmerada, cada camada de som soando como que cuidadosamente elaborada e executada. A grava\u00e7\u00e3o de um disco \u00e9 um trabalho cheio de componentes tecnol\u00f3gicos, mas os \u00e1lbuns do Elbow sempre trazem essa agrad\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de um dedicado trabalho artesanal, algo de certo modo tang\u00edvel, humano, e enobrecido por uma distingu\u00edvel marca individual, um padr\u00e3o de qualidade pr\u00f3prio que os impedir\u00e1 para sempre de lan\u00e7ar algo ruim ou meramente banal. Acho que de muitas poucas bandas contempor\u00e2neas \u2014 pelo menos dentre as que fazem sucesso comercial e nos \u00e9 dada a chance de conhec\u00ea-las \u2014 podemos dizer algo desse tipo.\r\n\r\n**O Grande Drag\u00e3o Branco (trilha-sonora)**\r\n\r\nO novo disco do Elbow \u00e9 mesmo excepcional e estamos escutando ele quase todos os dias de noite aqui em casa; eu continuo explorando e me maravilhando com um monte de m\u00fasica de outros s\u00e9culos \u2014 a \u00faltima descoberta que preciso compartilhar: as lindas sonatas para piano de Domenico Scarlatti; e ainda: as novas edi\u00e7\u00f5es em vinil do *No Code* e do *Yield* finalmente chegaram e tamb\u00e9m estes dois disca\u00e7os \u2014 velhos amigos de muitos ver\u00f5es \u2014 eu venho ouvindo frequentemente. Mas a t\u00f4nica desse m\u00eas que passou, na verdade, foi outra. Um pouco diferente. Digamos assim: gostar das trilhas-sonoras criadas pelo John Carpenter e pelo Tangerine Dream nos anos 80 pode at\u00e9 ser um pouco esquisito, ou antiquado, mas n\u00e3o \u00e9 nada que chegue a colocar em d\u00favida a sa\u00fade mental de algu\u00e9m, certo? Agora, gostar da trilha-sonora de *O Grande Drag\u00e3o Branco* \u2014 sim, o filme do Van-Damme; sim, Jean Claude Van-Damme, [ele mesmo](https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/_KP0YyGRGMM\/maxresdefault.jpg) \u2014 e n\u00e3o apenas gostar, mas gostar muito, e escut\u00e1-la frequentemente, isso muito provavelmente j\u00e1 \u00e9 caso para um eletroencefalograma urgente, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Se bem que eu j\u00e1 fiz um exame desses e o m\u00e9dico disse que estava tudo normal\u2026 Pois \u00e9, admito logo: eu gosto muito dessa trilha-sonora! O filme, a despeito de sua imensa ruindade, \u00e9 [idolatrado como um cl\u00e1ssico](https:\/\/demmentia.wordpress.com\/2017\/02\/04\/o-grande-dragao-branco-bloodsport-1988\/) por toda uma gera\u00e7\u00e3o de garotos, e muitos devem se lembrar ainda hoje do rock-tonificante *Fight to Survive*, o tipo de m\u00fasica que n\u00e3o pode faltar nestes filmes desde o surgimento da imortal *Eye of the Tiger* em *Rocky III*. S\u00e3o as composi\u00e7\u00f5es instrumentais de Paul Hertzog, contudo, que se destacam em *O Grande Drag\u00e3o Branco*: a m\u00fasica que escutamos nas [cenas da cidade murada de Kowloon](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Tsry5nc9pr8) e nas indefect\u00edveis sess\u00f5es de treinamento, essas s\u00e3o sensacionais! \u00d3tima trilha-sonora para uma tarde de trabalho entediante.\r\n\r\n**Erasure - Wild!**\r\n\r\nE depois da trilha-sonora do *O Grande Drag\u00e3o Branco*, falar que eu gosto do Erasure s\u00f3 pode significar que a m\u00e1quina onde fiz o eletroencefalograma estava com defeito, n\u00e3o? Provavelmente sim, n\u00e3o fosse o fator nostalgia. Eu muito frequentemente me vejo com vontade de voltar aos primeiros discos que comprei na vida, os Bon Jovis, Dire Straits e a-has que menciono tantas vezes aqui nestes textos, e tenho a sincera curiosidade de saber se isso acontece com todo mundo ou se em mim falhou algum mecanismo biol\u00f3gico previsto para desenvolver-se na adolesc\u00eancia e que faz com que as pessoas, gradativamente, percam o interesse pela m\u00fasica de sua inf\u00e2ncia \u2014 recurso adquirido e aperfei\u00e7oado ao longo dos milhares de anos de evolu\u00e7\u00e3o e cujo objetivo deve ser ajudar os indiv\u00edduos da esp\u00e9cie a serem mais respeitados por seus pares e terem mais parceiros sexuais e serem mais aptos para os desafios da vida, etc. Afinal, n\u00e3o deve haver absolutamente nenhuma vantagem ou justificativa de qualquer outra natureza para algu\u00e9m ainda ouvir Erasure, ou a-ha, certo? Bem, o Erasure na verdade eu n\u00e3o ou\u00e7o muito, mas nas \u00faltimas semanas, movido por uma estranha obsess\u00e3o, botei para tocar diversas vezes o *Wild!*, disco lan\u00e7ado em 1989 e o terceiro CD que eu comprei na vida. H\u00e1 em seu tracklist um mega hit radiof\u00f4nico da \u00e9poca, uma tatuagem no c\u00f3rtex de todo mundo da minha gera\u00e7\u00e3o chamada *Star*; o objeto da minha fixa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 outro: a ligeiramente alien\u00edgena *Blue Savannah*, uma dessas can\u00e7\u00f5es dif\u00edceis de se precisar o que exatamente h\u00e1 de ins\u00f3lito nela, e no entanto \u00e9 evidente que algo h\u00e1 \u2014 algo sutil, fugidio, e ao mesmo tempo completamente manifesto. N\u00e3o somente o efeito de eco nos vocais, que fazem com que a coisa pare\u00e7a transcorrer em espa\u00e7os extra-terrenos\u2026 Talvez algo que n\u00e3o resida na f\u00edsica das ondas sonoras, e sim, na metaf\u00edsica? Quem sabe o contraste abissal entre o esp\u00edrito da can\u00e7\u00e3o e o destes nossos sombrios tempos atuais? Ou quem sabe seja hora de um novo eletroencefalograma?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":691,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2017","post_timestamp":"2017-03-03T00:01:36+00:00","url":"2017_03_02_discos_do_mes_fevereiro_de_2017","post":"**Krzysztof Komeda - Astigmatic**\r\n\r\nUm fato hist\u00f3rico ajuda a entender a surpreendente maravilha que \u00e9 o jazz feito na Pol\u00f4nia: o comunismo. Naqueles anos em que a liberdade era restrita, uma parte da represada criatividade art\u00edstica dos poloneses acabava rebentando em bares escondidos em por\u00f5es, clubes literalmente subterr\u00e2neos onde a \u201cdecadente m\u00fasica ocidental\u201d podia ser praticada sem que os m\u00fasicos corressem o risco de ganhar uma passagem s\u00f3 de ida para a Sib\u00e9ria. As apresenta\u00e7\u00f5es eram testemunhadas por apenas umas poucas dezenas de almas, e no entanto a proximidade e a intensidade daquelas sess\u00f5es cat\u00e1rticas deixavam marcas profundas em todos, e assim o jazz tornou-se lentamente parte do cen\u00e1rio musical polon\u00eas. Ent\u00e3o passou-se o tempo, caiu o muro... mas a m\u00fasica continuou rica e vigorosa, mesmo quando deixou de ser subversiva: ainda hoje os clubes de jazz na Crac\u00f3via, uma cidade de irrefre\u00e1vel pendor art\u00edstico, s\u00e3o incr\u00edveis experi\u00eancias musicais, uma das coisas mais legais de se fazer nesta pequena e simp\u00e1tica cidade, onde tais por\u00f5es \u2014 n\u00e3o mais clandestinos, evidentemente \u2014 recebem amantes de jazz que v\u00eam de todas as partes do mundo para assistir ao generoso card\u00e1pio de sub-g\u00eaneros que vai do mais tradicional e alegre quinteto ao trio mais soturno e meditativo, do bom e velho bebop ao mais experimental e barulhento free jazz. S\u00f3 n\u00e3o d\u00e1 mais de dizer que os locais s\u00e3o atmosf\u00e9ricos e esfuma\u00e7ados, j\u00e1 que agora \u00e9 proibido fumar em locais fechados\u2026 a vodca polonesa, por outro lado, continua permitida e maravilhosa. Em termos de registros fonogr\u00e1ficos, o disco *Astigmatic*, de Krzysztof Komeda, \u00e9 uma unanimidade entre os entusiastas que j\u00e1 investiram tempo para investigar o que h\u00e1 al\u00e9m das fronteiras dos Estados Unidos. Escutei-o diversas vezes nas \u00faltimas semanas, e a conclus\u00e3o \u00e9 mesmo incontest\u00e1vel: n\u00e3o \u00e9 apenas um dos melhores discos de jazz j\u00e1 gravados na Pol\u00f4nia \u2014 \u00e9 um dos melhores discos de jazz de todos os tempos. S\u00e3o tr\u00eas faixas magistrais, que fluem com a mesma m\u00e1gica dos grandes \u00e1lbuns dos mestres americanos. N\u00e3o tivesse a morte precoce em 1969 lhe impedido de estender e evoluir sua obra, tenho certeza que hoje Krzysztof Komeda seria um dos grandes, ao lado de Monk, Coleman e Coltrane.\r\n\r\n**Jan Garbarek - Visible World**\r\n\r\nApesar de ter sido lan\u00e7ado em 1996, este disco come\u00e7a empilhando em suas primeiras faixas muitos dos cacoetes que nos anos 70 e 80 acabaram se tornando a face musical da New Age, todos aqueles truques meio bregas que pretendiam evocar os sons relaxantes da natureza, do c\u00e9u noturno estrelado, da correnteza de riachos perdidos na selva amaz\u00f4nica e xam\u00e3s libertando os esp\u00edritos debilitados dos moradores das grandes urbes ocidentais, estes escravos modernos subjugados pela televis\u00e3o e pelo consumismo. Coisas deste tipo. \u00c9 realmente uma overdose, e se voc\u00ea tem traumas daquela \u00e9poca e sente um gosto nauseante na boca quando ouve algu\u00e9m citar o nome de Enya, passe longe desse CD. Mas se voc\u00ea tolera, ou at\u00e9 mesmo gosta (n\u00e3o consigo decidir qual \u00e9 o meu caso), ent\u00e3o tem aqui um disco imperd\u00edvel. Garbarek \u00e9 um saxofonista noruegu\u00eas que ap\u00f3s um come\u00e7o de carreira influenciado por Albert Ayler, logo abandonou o free jazz e passou a injetar uma certa sofistica\u00e7\u00e3o nas formas de sua m\u00fasica, com parcerias com gente como Keith Jarrett, Charlie Haden e George Russell amparando e fazendo evoluir esta sua inclina\u00e7\u00e3o, isso tudo ainda l\u00e1 nos anos 70, uma expans\u00e3o que foi tornando sua m\u00fasica gradualmente mais pura e flex\u00edvel, suas grava\u00e7\u00f5es guiando-se cada vez mais pelo imperativo da beleza, estivesse ela onde estivesse. E assim, na fase madura de sua carreira, vieram parcerias com grupos vocais de m\u00fasica barroca, pianistas eruditos e compositores contempor\u00e2neos dos mais variados lugares do mundo: \u00cdndia, Ge\u00f3rgia, Gr\u00e9cia e Checoslov\u00e1quia, para citar alguns. Em *Visible World*, as faixas *Desolate Mountains I* e *Desolate Mountains II* ([Rainer Br\u00fcninghaus](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Rainer_Br\u00fcninghaus) no piano) s\u00e3o exemplos eloquentes desta dire\u00e7\u00e3o, e elas marcam tamb\u00e9m o ponto em que o disco praticamente abandona as sonoridades da Nova Era e fica ainda mais bonito, tra\u00e7ando belas paisagens atemporais, com apenas um ou outro pecadilho perfeitamente desculp\u00e1vel \u2014 a filha do xam\u00e3, por exemplo, aparece para cantar no lindo desfecho do \u00e1lbum.\r\n\r\n**Valery Afanassiev \u2013 Franz Schubert: Sonate B-Dur, D 960**\r\n\r\nEu adoro o carnaval! \u00c9 sempre uma \u00f3tima oportunidade para uma folga no trabalho e um retiro sossegado em casa, preenchendo o tempo com maratonas de filmes, discos e leituras. Esse ano eu planejava me atirar no oceano da m\u00fasica de Brahms, pretendia abrir finalmente uns tr\u00eas ou quatro CDs dedicados a sua obra camer\u00edstica que comprei no ano passado e que aguardavam lacrados na estante pelo momento certo de\u2026 Mas acabou que este plano n\u00e3o se concretizou. O cansa\u00e7o de uma viagem da qual eu havia acabado de retornar me obrigou a repor algumas horas de sono, e tamb\u00e9m algumas horas de trabalho atrasado tiveram que ser compensadas. Tudo bem \u2014 Brahms pode esperar. Enquanto isso, outro compositor acabou [re-encontrando](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2017_01_01_discos_do_mes_dezembro_de_2016) seu caminho por aqui: Schubert e sua obra para piano solo foram \u00f3timos companheiros nos \u00faltimos dias de fevereiro, uma trilha-sonora de cad\u00eancia e suavidade em perfeita sintonia com a pregui\u00e7osa readapta\u00e7\u00e3o ao fuso hor\u00e1rio e ao clima para os quais retornei. A sonata D 960 \u2014 a \u00faltima escrita por Schubert, que morreu aos 31 anos \u2014 \u00e9 uma obra-prima, \u00e9 m\u00fasica para se perder no fim da tarde, com sua beleza t\u00e3o natural aos ouvidos, t\u00e3o generosa e introspectiva, uma beleza vinda direto da ess\u00eancia do que h\u00e1 de mais extraordin\u00e1rio no humano. \u00c9 muito f\u00e1cil entender como algumas pessoas acabam se tornando [obsessivas por estas sonatas finais de Schubert](https:\/\/musicophilesblog.com\/2016\/10\/20\/schubert-a-journey-through-11-versions-of-schuberts-piano-sonata-d959\/). Tenho esse CD com a D 960 gravada pelo pianista russo Valery Afanassiev, mas em meu computador h\u00e1 tamb\u00e9m lindas vers\u00f5es pelas m\u00e3os de Paul Lewis, Mitsuko Uchida e Murray Perahia, e cada grava\u00e7\u00e3o dessas, com suas nuances e tempos distintos, \u00e9 como um tesouro \u00fanico e inestim\u00e1vel. Tamb\u00e9m muitos destes artistas s\u00e3o acima de tudo homens e mulheres generosos e generosas para os quais n\u00e3o h\u00e1 aplausos entusiasmados nas casas de concerto que bastem, n\u00e3o h\u00e1 ova\u00e7\u00e3o que seja suficiente para lhes demonstrar nossa gratid\u00e3o por manterem vivos Schubert, e Liszt, e Chopin e Beethoven.\r\n\r\n**Martha Argerich - Liszt: Piano Sonata in B Minor \/ Schumann: Sonata in G Minor**\r\n\r\nPor mais hip\u00e9rboles que eu use, nada do que vai dito a\u00ed em cima faz juz \u00e0s obras e seus autores e int\u00e9rpretes, e nem tenho essa pretens\u00e3o, j\u00e1 que a palavra escrita n\u00e3o tem como competir com a m\u00fasica (\u00e9 minha opini\u00e3o, pelo menos). Estes textos que vou publicando por aqui t\u00eam mais a ver com devaneios, desvendamentos \u00edntimos e a ordena\u00e7\u00e3o dos pensamentos, ou pode-se dizer tamb\u00e9m desta forma: tentativas de fazer o c\u00e9rebro observar e refletir sobre o esp\u00edrito, que \u00e9 a parte de n\u00f3s com quem as melhores m\u00fasicas falam. (E \u00e9 claro que eu sei que \u201cesp\u00edrito\u0022 \u00e9 tamb\u00e9m mera atividade neurol\u00f3gica, mas n\u00e3o tenho nada contra preservarmos a antiga met\u00e1fora.) Os textos finais soam tolos na maioria das vezes, mas tudo bem, a elabora\u00e7\u00e3o deles segue sendo um divertido exerc\u00edcio intelectual, com a publica\u00e7\u00e3o neste espa\u00e7o funcionando como uma estrat\u00e9gia bastante eficiente para manter a disciplina da escrita. E me estimula tamb\u00e9m, claro, a chance de acabar intermediando o encontro de algu\u00e9m com alguma m\u00fasica que venha a lhe tocar da mesma forma que eu fui tocado por ela, fazer repetir-se a m\u00e1gica que me levou em primeiro lugar a escrever sobre tal disco ou tal obra. H\u00e1 o caso de certas m\u00fasicas, no entanto \u2014 e finalmente aqui vai o que eu queria dizer desde o princ\u00edpio \u2014 h\u00e1 os casos em que o melhor \u00e9 n\u00e3o tentar escrever nada. N\u00e3o racionalizar, n\u00e3o procurar palavras, n\u00e3o tentar compreender o que se passa intimamente durante a audi\u00e7\u00e3o \u2014 n\u00e3o perder tempo com nada disso e apenas ouvir. O poeta T. S. Eliot expressou isso assim: \r\n\r\n\u003E Music heard so deeply\u003Cbr \/\u003E\r\n\u003E That is not heard at all, but you are\u003Cbr \/\u003E\r\n\u003E The music\u003Cbr \/\u003E\r\n\u003E While the music lasts\r\n\r\nE este \u00e9 um exemplo disto:\r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022528\u0022 height=\u0022297\u0022 src=\u0022https:\/\/www.youtube.com\/embed\/n04GkRTC_Lo?ecver=1\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":690,"title":"Prisma","post_timestamp":"2017-02-17T16:21:01+00:00","url":"2017_02_17_prisma","post":"\u003E Eu comparo minha m\u00fasica com a luz branca, que cont\u00e9m todas as cores. 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Eram sons que n\u00e3o pareciam se prestar a uma vida pr\u00f3pria, n\u00e3o pareciam realmente preocupados com a possibilidade de descolarem-se das imagens para serem ouvidos isoladamente\u2026 E ainda assim, devido ao poder m\u00e1gico dos filmes, muitos deles tornaram-se inesquec\u00edveis, se transformaram em elementos distintivos de uma era e de um tipo de cinema, e como sempre h\u00e1 loucos para tudo neste mundo (diziam-nos nossos pais, como se revelando um grande segredo que lhes fora ensinado pela larga experi\u00eancia, enquanto que hoje em dia isso \u00e9 fato \u00f3bvio e banal para aqueles nascidos j\u00e1 na era da internet), logo surgiram os aficcionados e os praticantes desse tipo de m\u00fasica estranha, um nicho pequeno por\u00e9m entusiasmado e duradouro. John Carpenter, que n\u00e3o dirige cinema h\u00e1 anos, lan\u00e7ou recentemente dois \u00e1lbuns com composi\u00e7\u00f5es suas que n\u00e3o entraram em seus filmes, ou seja, h\u00e1 ainda interesse na boa e velha m\u00fasica de sintetizador, ainda que a coisa nunca tenha de fato deixado o underground. Por isso o impacto da primeira faixa deste disco do Brian Eno, que come\u00e7a como se fosse a melhor destas trilhas-sonoras, gravada para um filme que jamais existiu. Soa deliciosamente atmosf\u00e9rica e anacr\u00f4nica, um tributo aos sons e imagens de uma \u00e9poca que j\u00e1 nos parece agora t\u00e3o rudimentar, quando tudo era t\u00e3o lento e simpl\u00f3rio em compara\u00e7\u00e3o com a est\u00e9tica destes nossos tempos atuais. Depois desta primeira faixa, o disco, que voltei a ouvir frequentemente ap\u00f3s finalmente t\u00ea-lo comprado no ano passado, fica bastante variado, com faixas curtas que parecem abranger o amplo espectro de sons criados nos \u00faltimos 40 anos por Eno, com mais alguns pequenos temas t\u00edpicos de trilhas-sonoras oitentistas emergindo de vez em quando \u2014 a melodia da primeira faixa, inclusive, volta a repetir-se aqui e ali em outras roupagens. E, claro, \u00e9 importante dar o seguinte cr\u00e9dito: um dos colaboradores de Eno nesse \u00e1lbum \u00e9 Jon Hopkins, que tem em sua discografia algumas [trilhas-sonoras reais](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Jon_Hopkins#Soundtrack_albums), inclusive uma para um filme chamado [Monsters](http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt1470827\/) que foi bastante elogiada mais ou menos pelos mesmos motivos expostos acima. *Small Craft on a Milk Sea* se transformou rapidamente em meu disco favorito do Eno fora da s\u00e9rie *Ambient*.\r\n\r\n**Steve Reich: Octet\/Music for a Large Ensemble\/Violin Phase**\r\n\r\n\u00c9 inevit\u00e1vel como a solu\u00e7\u00e3o de um enigma matem\u00e1tico (express\u00e3o maravilhosa roubada de Thomas Pynchon): sempre que eu ou\u00e7o uma obra maior do Steve Reich durante o dia, eu sonho com ela de noite. Confesso que n\u00e3o sou um f\u00e3 muito entusiasmado de Reich; dentre os pioneiros do minimalismo americano tenho prefer\u00eancia pelo mestre Terry Riley, de quem tudo que conhe\u00e7o \u00e9 excepcional. Contudo, \u00e9 ineg\u00e1vel que a m\u00fasica de Reich tamb\u00e9m opera algo em mim, ainda que em alguma regi\u00e3o perif\u00e9rica do consciente onde seus efeitos n\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis de imediato, enquanto estou desperto \u2014 \u00e9 mat\u00e9ria para o mundo dos sonhos, quando ent\u00e3o esses sons voltam a preencher o tempo e o espa\u00e7o, e de seus ritmos hipnotizantes e repeti\u00e7\u00f5es geom\u00e9tricas e de toda aquela pureza prolongada e expurgat\u00f3ria emerge finalmente a mensagem que n\u00e3o p\u00f4de ser captada \u00e0 luz do dia, durante a vigil\u00e2ncia dos olhos abertos e dos sentidos alertas. Qual \u00e9 essa mensagem, t\u00e3o cristalina e evidente ali, no universo intermedi\u00e1rio do sono? N\u00e3o sei, nunca consigo me lembrar, ela me escapa nos primeiros segundos do despertar\u2026 Mas desconfio que tenha a ver com aquilo que sabem plenamente os monges tibetanos e ascetas montanheses e demais desgarrados de todas as eras e sociedades, coisas relativas \u00e0 quietude e \u00e0 disciplina como modo de vida, a observ\u00e2ncia dos ritmos naturais e a verdadeira natureza do som e do sil\u00eancio, que s\u00e3o muito mais complexos e poderosos do que \u00e0 maioria de n\u00f3s \u00e9 dada a chance de compreender ao longo de nossas aceleradas vidas urbanas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":688,"title":"M\u00fasica","post_timestamp":"2017-01-10T17:48:15+00:00","url":"2017_01_10_musica","post":"Eu, na verdade, come\u00e7o a antipatizar com este termo \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica\u201d. Por mais que, pelo costume que temos de utiliz\u00e1-lo j\u00e1 h\u00e1 tanto tempo, acabe funcionando para identificar com precis\u00e3o ao menos uma grande por\u00e7\u00e3o do legado musical da humanidade, ele hoje me parece acima de tudo defasado para designar muitos dos desdobramentos e possibilidades que foram surgindo a partir dos preceitos fundamentais do segmento dito \u0022erudito\u0022 da m\u00fasica (em oposi\u00e7\u00e3o ao \u0022popular\u0022) e da produ\u00e7\u00e3o ampla e disciplinada dos compositores que frequentaram conservat\u00f3rios e que de alguma forma se identificam com esta linhagem, uma enorme quantidade e variedade de m\u00fasica que, por pura letargia, continuamos a chamar de \u201ccl\u00e1ssica\u201d, ou, quando muito, \u201ccl\u00e1ssica contempor\u00e2nea\u201d, ou algo do tipo. O problema \u00e9 que \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica\u0022 evoca tamb\u00e9m senhores e senhoras em trajes de gala, elitismo, arte feita sob encomenda para homenagear dinastias reais, f\u00f3rmulas e tradi\u00e7\u00f5es de s\u00e9culos atr\u00e1s, e por a\u00ed vai, coisas que n\u00e3o t\u00eam absolutamente nada a ver com o ethos da m\u00fasica de, por exemplo, Giacinto Scelsi. \u201cM\u00fasica cl\u00e1ssica\u201d acaba sendo totalmente inoportuno para descrever o fant\u00e1stico mundo de sons deste italiano, haja visto que afastar\u00e1 imediatamente qualquer um que tenha uma mais do que compreens\u00edvel repulsa ao aspecto esnobe e conservador de tudo que \u00e9 \u201ccl\u00e1ssico\u201d, neste seu sentido mais antiquado, o que \u00e9 uma pena, pois, por exemplo, f\u00e3s de Sunn O))) e de drone, e destas variantes mais elaboradas de black metal, e de qualquer coisa de verve t\u00e9trica e experimental, deixar\u00e3o de conhecer pe\u00e7as como *Uaxuctum* e *Anahit*, ambas compostas por Scelsi na d\u00e9cada de 60, composi\u00e7\u00f5es povoadas de cantorias e percuss\u00f5es ins\u00f3litas, sil\u00eancios e sibila\u00e7\u00f5es enigm\u00e1ticas, sons que se alongam e se agravam ao ponto do aterrorizante, tudo conduzindo o ouvinte a cen\u00e1rios surrealistas totalmente opostos \u00e0queles criados por, digamos, Mozart e Vivaldi, e no entanto, continua sendo \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica\u201d \u2014 boa parte da t\u00e9cnica \u00e9 a mesma, tem partitura e maestro, uma por\u00e7\u00e3o de instrumentos, tem descend\u00eancia e afinidades identific\u00e1veis com a m\u00fasica lit\u00fargica de Bach e Bruckner e com os mais contempor\u00e2neos Stravinski, Ligeti e Penderecki, e voc\u00ea encontra nas prateleiras das lojas de discos especializadas em m\u00fasica cl\u00e1ssica, ao lado daqueles mesmos Mozart e Vivaldi. \u00c9 e n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica cl\u00e1ssica; no fim, o que importa \u00e9 que \u00e9 fascinante. Portanto, n\u00e3o tenha medo da \u201cm\u00fasica cl\u00e1ssica\u201d! Trata-se de um termo reducionista que n\u00e3o d\u00e1 conta de tudo que pretende abranger hoje em dia, e que poderia perfeitamente, a essa altura, ser abreviado simplesmente para \u201cm\u00fasica\u0022.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Giacinto Scelsi em foto copiada [daqui](http:\/\/kammermusikkammer.blogspot.com.br\/2013\/07\/wei-es-scelsi.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":687,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2016","post_timestamp":"2017-01-01T18:39:28+00:00","url":"2017_01_01_discos_do_mes_dezembro_de_2016","post":"**Patricia Kopatchinskaja \u0026 Saint Paul Chamber Orchestra: Schubert: Death and the Maiden**\r\n\r\nSe algum dia me pedirem uma lista de discos, mesmo uma bem resumida, que tenha por objetivo servir como instrumento de convencimento ou porta de entrada para o mundo da m\u00fasica cl\u00e1ssica, esse t\u00edtulo \u00e9 item absolutamente certo. O Quarteto de Cordas n\u00ba 14 de Franz Schubert, conhecido tamb\u00e9m como *Death and the Maiden*, \u00e9 dessas obras imortais que, embora eu reconhe\u00e7a as diferen\u00e7as fundamentais que existem entre as pessoas, n\u00e3o consigo conceber que algu\u00e9m possa escut\u00e1-la em execu\u00e7\u00e3o minimamente competente e depois dizer \u201ceu n\u00e3o gosto dessa m\u00fasica\u201d. Tal conclus\u00e3o seguir-se a esta m\u00fasica \u00e9 imposs\u00edvel como um ser humano respirar debaixo d\u2019\u00e1gua; imposs\u00edvel como a Terra cessar seu movimento ao redor do sol e ficar im\u00f3vel, absolutamente inerte em meio \u00e0 dan\u00e7a das \u00f3rbitas dos outros astros todos, dan\u00e7a esta que quase d\u00e1 a impress\u00e3o de ganhar impulso por conta de m\u00fasicas como esta, produzidas c\u00e1 neste p\u00e1lido ponto azul, como assim chamava a Terra o saudoso Carl Sagan. A obra \u00e9 genial por si s\u00f3, por\u00e9m este disco tem ainda outras virtudes: n\u00e3o sei dizer o qu\u00e3o original \u00e9 isso \u2014 \u00e9 a primeira vez que ou\u00e7o algo do tipo \u2014 mas aqui, a violinista austr\u00edaca Patricia Kopatchinskaja intercalou a obra de Schubert, que \u00e9 dividida em quatro partes, com outras obras de outros compositores. O resultado \u00e9 fant\u00e1stico. Ao inv\u00e9s de come\u00e7ar o \u00e1lbum com o magn\u00edfico movimento de abertura de *Death and the Maiden*, temos inicialmente uma breve can\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica, uma composi\u00e7\u00e3o an\u00f4nima que estabelece um clima leve e medieval, desarmando o esp\u00edrito do ouvinte; esta \u00e9 ent\u00e3o seguida por uma outra melodia bastante diferente, vagarosa e sombria, que come\u00e7a a invocar, por meio de espectros desvanecentes, o que vir\u00e1 a seguir\u2026 Finalmente, na terceira faixa, temos o in\u00edcio do quarteto de Schubert, em toda sua exuber\u00e2ncia grave e vertiginosa e execu\u00e7\u00e3o arrasadora de Kopatchinskaja junto com a Saint Paul Chamber Orchestra. O disco segue intercalando cl\u00edmax extasiantes e entreatos de beleza doce, remissiva, meditativa, sejam parte da obra original de Schubert, ou dos outros compositores convocados, entre eles: Gy\u00f6rgy Kurt\u00e1g, o c\u00e9lebre louco italiano [Carlo Gesualdo](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Carlo_Gesualdo) e John Dowland. O \u00e1lbum todo, do primeiro ao \u00faltimo segundo, \u00e9 hipn\u00f3tico e emocionante, uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria que se n\u00e3o conseguir converter um c\u00e9tico quanto \u00e0s belezas da m\u00fasica erudita, ent\u00e3o, bem, este ser humano veio com defeito.\r\n\r\n**1999 AFCM Ensemble: Schnittke: Piano Quintet \/ String Trio**\r\n\r\nAlguma grava\u00e7\u00e3o do Quinteto para Piano de Alfred Schnittke tamb\u00e9m haveria de estar presente nesta lista. Aqui a m\u00fasica \u00e9 circunspecta e melanc\u00f3lica, cheia de sil\u00eancios e pesar, uma reflex\u00e3o de Schnittke \u00e0 \u00e9poca da morte de sua m\u00e3e. Assim como creio que deve ocorrer em qualquer reflex\u00e3o mais profunda sobre a morte, h\u00e1 momentos de ang\u00fastia quase intoler\u00e1veis, tornados sons atrav\u00e9s de gritos lancinantes de violino, esse instrumento t\u00e3o humano, que muitas vezes parece ser a pr\u00f3pria voz da massa do sangue a fluir por nossas veias\u2026 Mas eles se dissipam, e d\u00e3o lugar a um movimento final que \u00e9 das coisas mais tocantes na hist\u00f3ria da m\u00fasica. Tenho v\u00e1rias grava\u00e7\u00f5es desta obra, e a que est\u00e1 presente neste disco da Naxos n\u00e3o \u00e9 a minha preferida, mas cito-o aqui porque escutei-o recentemente, uma audi\u00e7\u00e3o atenta e devotada no dia de Natal (a data foi apenas uma coincid\u00eancia: minha religi\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica), e em seu tracklist h\u00e1 ainda uma grava\u00e7\u00e3o para o fant\u00e1stico Trio para Cordas, outra das obras de Schnittke que me fazem t\u00ea-lo como um dos meus compositores favoritos.\r\n\r\n**Led Zeppelin - III**\r\n\r\nMas estamos, uma vez mais, na esta\u00e7\u00e3o do sol e de tudo enlouquecidamente vivo, e as coisas parecem evitar morrer nesta \u00e9poca, ou morrem discretamente, indistintas em meio a toda essa luz e reflexos ofuscantes, l\u00e1grimas e suor, e me vejo novamente \u00e0s voltas com meus discos indispens\u00e1veis de ver\u00e3o, sendo o *Led Zeppelin III* um deles. Foi numa temporada de f\u00e9rias de janeiro, estimo que em 1994 ou 95, que por interm\u00e9dio deste disco eu me tornei f\u00e3 da banda, depois de um texto escrito por um dos caras do Tit\u00e3s e publicado na revista Bizz \u2014 era uma coluna do tipo \u201cdiscos favoritos\u201d ou algo do tipo \u2014 me convencer a enfim ouvir um \u00e1lbum inteiro do Zepelim de Chumbo, os venerados autores de certo \u00e9pico m\u00edstico que fazia algumas pessoas chorarem s\u00f3 de ouvir a flauta na introdu\u00e7\u00e3o, mas que a mim nunca havia sensibilizado muito (trauma de t\u00ea-la ouvido pela primeira vez numa trilha-sonora de novela, provavelmente), e nem uma ou outra m\u00fasica escutadas aqui e ali haviam operado em mim coisa alguma em rela\u00e7\u00e3o ao Led, que era a forma \u00edntima como todos se referiam \u00e0 banda\u2026 Por\u00e9m era mais do que passada a hora de ouvi-los melhor, dar-lhes uma chance mais justa, e o texto do tit\u00e3 era bom, me deixou intrigado toda aquela hist\u00f3ria da composi\u00e7\u00e3o do disco ter ocorrido num local isolado sem \u00e1gua e eletricidade nos ermos duma floresta brit\u00e2nica. Foi ent\u00e3o este o disco escolhido para algo que eu ainda n\u00e3o sabia se seria uma inicia\u00e7\u00e3o ou um desprezo oficial e definitivo; por volta do Natal eu aluguei o CD, gravei-o numa fita K7, coloquei-a na caixinha junto das outras escolhidas para formarem a trilha-sonora daquele ver\u00e3o que se iniciava e no qual eu mal contabilizava uma d\u00e9cada e meia de vida, e tocamos para a casa de praia onde pass\u00e1vamos as f\u00e9rias, eu e minha fam\u00edlia. E acho que foi s\u00f3 o que eu escutei, diariamente, por semanas, nos intervalos dos banhos de mar e do futebol nos gramados da vizinhan\u00e7a, dos livros do Julio Verne e da Agatha Christie e dos pratos de macarr\u00e3o com carne mo\u00edda que minha m\u00e3e fazia \u00e0s toneladas para dar conta dos apetites meu e do meu irm\u00e3o e do ocasional outro pirralho que aparecesse por l\u00e1 para filar um rango. Foi, definitivamente, uma inicia\u00e7\u00e3o, e um dos cap\u00edtulos mais marcantes das minhas mem\u00f3rias musicais, o *III* permanecendo at\u00e9 hoje meu disco favorito do Led, tranquilo, envolto em densa camada de id\u00edlio e sinestesia. Mesmo passados mais de 20 anos daquele ver\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 a temperatura come\u00e7ar a subir \u2014 se bem que hoje em dia sobe demais; um term\u00f4metro marcar 38 graus nesta cidade, naquela \u00e9poca em que escutei pela primeira vez este disco, era algo impens\u00e1vel, ou pelo menos rar\u00edssimo, seria o \u00e1pice dos p\u00edncaros de um ver\u00e3o excepcionalmente quente; hoje em dia \u00e9 banal, e de fato, vi um hoje (dia 27 de dezembro) de manh\u00e3 \u2014, \u00e9 s\u00f3 o calor estabelecer-se, uma folga curta do trabalho e das preocupa\u00e7\u00f5es da vida adulta, o primeiro mergulho no mar e o sal na pele, e pronto, meus mecanismos fisiol\u00f3gicos, que parecem funcionar n\u00e3o somente \u00e0 base de alimentos e oxig\u00eanio, mas tamb\u00e9m de m\u00fasica, disparam *Immigrant Song* na minha cabe\u00e7a, e *Gallows Pole* e *That\u2019s the Way*, e *Celebration Day* com seu esfuziante  \u201cMy, my, my, I\u0027m so happy!\u201d. Bem-vindo, 2017! Nas atuais circunst\u00e2ncias, parece-me que o m\u00e1ximo que podemos lhe pedir \u00e9 que sejas uma pausa no afluxo de horror corrente, mas vai que este sol incinerante destes tristes tr\u00f3picos desperte tamb\u00e9m alguma outra coisa que ande adormecida, murcha, inerte, que provoque finalmente as rea\u00e7\u00f5es nas quais, neste ano que passou, aprendemos a n\u00e3o ter mais esperan\u00e7as\u2026 ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":686,"title":"Meus discos favoritos de 2016","post_timestamp":"2016-12-30T15:51:03+00:00","url":"2016_12_30_meus_discos_favoritos_de_2016","post":"Olhando em retrospectiva, me vejo perplexo com a quantidade de m\u00fasica extraordin\u00e1ria que eu descobri e escutei neste ano que vai findando. Foi, no balan\u00e7o geral, um intervalo de 12 meses abomin\u00e1vel, o ano em que perdi de vez as esperan\u00e7as no pa\u00eds em que nasci, com toda esta estupidez e mesquinharia geneticamente p\u00e1trias, e tamb\u00e9m um ano sombrio em v\u00e1rias outras partes do mundo, cada qual com seu quinh\u00e3o de desgra\u00e7as, seus magnatas e fan\u00e1ticos de todas as estirpes, tendo sobre seus altares deuses ou cifras, tanto faz, dando curso inabal\u00e1vel a esta hist\u00f3ria de opress\u00e3o e de horror, que \u00e9 a hist\u00f3ria da humanidade, escrita desde sempre por estes mesmos personagens, com uma ou outra nota de rodap\u00e9 a servir apenas como falsa esperan\u00e7a, como renova\u00e7\u00e3o de nossos vistos de eterna massa de alienados. Por\u00e9m, em termos de m\u00fasica, h\u00e1 de ter sido um dos mais memor\u00e1veis, talvez sendo este fen\u00f4meno mesmo uma resposta a estas fal\u00eancias e atrocidades todas, a for\u00e7a criativa da humanidade tentando desesperadamente compreender o que acontece consigo pr\u00f3pria, como pode caminharmos t\u00e3o convictamente em dire\u00e7\u00e3o a nossa pr\u00f3pria extin\u00e7\u00e3o. Diante dessas vis\u00f5es m\u00f3rbidas todas, minha cole\u00e7\u00e3o de discos, se a mod\u00e9stia me permite diz\u00ea-lo, adquire cada vez mais a forma de um ref\u00fagio de recompensas infinitas, uma defesa inexpugn\u00e1vel contra o desmoronamento de tudo o mais. N\u00e3o que eu seja um recluso ou um solit\u00e1rio total (em alguma medida, sou um pouco ambas as coisas, devo reconhecer, mas nada que chegue a despertar coment\u00e1rios e suspeitas da vizinhan\u00e7a... eu acho), por\u00e9m se um dia vier a tornar-me um, por motivos internos ou externos quaisquer que sejam, estarei muito bem equipado para sobreviver sem sair de casa. S\u00f3 n\u00e3o posso me esquecer, antes de me enclausurar em definitivo, de providenciar a compra de um novo aparelho de som, pois o meu atual come\u00e7a a dar sinais de esgotamento.\r\n\r\nDe modo que a brincadeira anual de escolher os meus discos favoritos do ano foi bastante intrincada. Escolher apenas 14 dentre tantos escutados e apreciados foi uma grande crueldade... Pera\u00ed, como assim, 14? N\u00e3o eram sete? Sim, sempre foram sete (j\u00e1 n\u00e3o me lembro mais que cabala nos levou a escolher esse n\u00famero estranho), contudo, neste ano em que o arco dos meus interesses musicais cresceu consideravelmente \u2014 se for pensar em termos de abrang\u00eancia temporal, mais que quintuplicou \u2014 resolvi dobrar o n\u00famero de homenageados, que \u00e9 para dar conta desse mundo de sons e fazer justi\u00e7a a mais discos. Poderia chutar logo o pau da barraca e apontar tranquilamente uns 30 discos, mas acho que exercitar uma certa rigorosidade \u00e9 bom tamb\u00e9m\u2026 E 14 \u00e9 um bom n\u00famero: mant\u00e9m-se um v\u00ednculo com aquele original, que lega a este novo a impress\u00e3o de algo meio rand\u00f4mico. \u00c9 a evolu\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, sem elimin\u00e1-la completamente. Bom, uma completa trivialidade isso tudo, claro, ent\u00e3o vamos logo aos meus discos favoritos de 2016, sem ordem de prefer\u00eancia: \r\n\r\n* Radiohead: *A Moon Shaped Pool*\r\n* David Bowie: *Black Star*\r\n* Savages: *Adore Life*\r\n* DIIV: *Is the Is Are*\r\n* Inter Arma: *Paradise Gallows*\r\n* Cobalt: *Slow Forever*\r\n* Oranssi Pazuzu: *V\u00e4r\u00e4htelij\u00e4*\r\n* Vijay Iyer \u0026 Wadada Leo Smith: *A Cosmic Rhythm With Each Stroke*\r\n* Yann Tiersen: *EUSA*\r\n* Maria Radutu: *Insomnia*\r\n* Katia \u0026 Marielle Lab\u00e8que: *Invocations*\r\n* Anja Lechner, Kadri Voorand, T\u00f5nu K\u00f5rvits, Tallinn Chamber Orchestra, T\u00f5nu Kaljuste \u0026 Estonian Philharmonic Chamber Choir: *T\u00f5nu K\u00f5rvits: Mirror*\r\n* Patricia Kopatchinskaja \u0026 Saint Paul Chamber Orchestra: *Schubert: Death and the Maiden*\r\n* Pinchas Zukerman \u0026 Royal Philharmonic Orchestra: *Vaughan Williams: The Lark Ascending \u0026 Tallis Fantasia \/ Edward Elgar: Introduction and Allegro \u0026 In Moonlight*\r\n\r\nSobre alguns destes eu [escrevi ao longo do ano](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/index\/tag\/discos_do_mes); sobre os outros, nada me ocorreu em forma de palavras \u00e0 \u00e9poca de meus contatos iniciais com eles, o que n\u00e3o significa que tenham me marcado menos. Foram, eu sua maioria, audi\u00e7\u00f5es mesmerizadas de fim de tarde, quando tenho por h\u00e1bito escutar alguma coisa que me ajude a desapegar da primeira se\u00e7\u00e3o do dia \u2014 a parte iluminada na qual me ocupo de trabalho e coisas pr\u00e1ticas \u2014 e lan\u00e7ar-me para o outro lado desta dicotomia b\u00e1sica que nos define desde sempre, para a parte escura, para a noite. O *A Cosmic Rhythm With Each Stroke*, por exemplo, \u00e9 de uma beleza inebriante inesquec\u00edvel, e eu o colocaria em primeiro lugar da lista, se tivesse que arranjar estes t\u00edtulos em ordem de prefer\u00eancia. Escuto-o novamente neste exato momento, enquanto escrevo este texto, um domingo de chuva fina ainda bem cedo e cercanias silenciosas, e tudo me parece mais belo e profundo com este som, me parece at\u00e9 mesmo que h\u00e1 alguma chance de reden\u00e7\u00e3o para este confuso aglomerado humano que somos. Quem sabe, h\u00e1.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\nComo de h\u00e1bito, termino citando algumas bandas e artistas queridos cujos discos lan\u00e7ados em 2016 eu ainda n\u00e3o tive oportunidade de ouvir, o que, obviamente, os tirou do p\u00e1reo, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel que alguns deles aparecessem na lista, caso eu j\u00e1 tivesse me dedicado a eles. Por isso, \u00e9 justo mencionar que n\u00e3o escutei: os dois que o Neil Young lan\u00e7ou, e tamb\u00e9m os dois do Melvins; a trilha-sonora do Mogwai e o \u00faltimo do Swans (que, de acordo com o Michael Gira, \u00e9 o \u00faltimo n\u00e3o apenas no sentido de mais recente, mas tamb\u00e9m o \u00faltimo definitivo a ser lan\u00e7ado por esta incr\u00edvel forma\u00e7\u00e3o da banda, e isso \u00e9 mais uma das tantas mortes lament\u00e1veis de 2016); Nick Cave and the Bad Seeds, PJ Harvey, Wilco, Leonard Cohen, Bon Iver, Warpaint e o disco solo do Peter Garrett (Midnight Oil); SubRosa, Neurosis, John Carpenter, Body, Aluk Todolo e Entombed. Devo estar esquecendo alguma coisa, mas estes s\u00e3o os nomes principais.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":685,"title":"Patti Smith: seventy years of being human.","post_timestamp":"2016-12-20T15:39:52+00:00","url":"2016_12_20_patti_smith_seventy_years_of_being_human","post":"\u003E When my husband, Fred, died, my father told me that time does not heal all wounds but gives us the tools to endure them. I have found this to be true in the greatest and smallest of matters. Looking to the future, I am certain that the hard rain will not cease falling, and that we will all need to be vigilant. The year is coming to an end; on December 30th, I will perform \u201cHorses\u201d with my band, and my son and daughter, in the city where I was born. And all the things I have seen and experienced and remember will be within me, and the remorse I had felt so heavily will joyfully meld with all other moments. Seventy years of moments, seventy years of being human.\r\n\r\nTexto completo [aqui](http:\/\/www.newyorker.com\/culture\/cultural-comment\/patti-smith-on-singing-at-bob-dylans-nobel-prize-ceremony).","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":684,"title":"Li\u00e7\u00e3o do dia","post_timestamp":"2016-12-03T18:53:27+00:00","url":"2016_12_03_licao_do_dia","post":"\u003E Estamos todos numa noite profunda, e eu n\u00e3o sei para onde estou indo. Estou t\u00e3o perdido quanto voc\u00eas.\r\n\r\nOlivier Messiaen, para seus alunos do Conservat\u00f3rio de Paris, em 1955.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto copiada [daqui](http:\/\/jamiskoli.tumblr.com\/post\/15778417414\/olivier-messiaen).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":683,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2016","post_timestamp":"2016-12-02T18:05:41+00:00","url":"2016_12_02_discos_do_mes_novembro_de_2016","post":"**Steve Tibbetts - Safe Journey**\r\n\r\nSteve Tibbetts \u00e9 minha mais recente paix\u00e3o, tendo a coisa evolu\u00eddo dos segundos iniciais da primeira audi\u00e7\u00e3o explorat\u00f3ria, meio alheia e desatenta enquanto eu trabalhava, suavemente para uma readequa\u00e7\u00e3o do ritmo respirat\u00f3rio e a convoca\u00e7\u00e3o de todas as atividades cerebrais para que se concentrassem exclusivamente naquilo que eu ouvia, chegando finalmente \u00e0 como\u00e7\u00e3o profunda sem nenhum esfor\u00e7o, descansadamente, e acho que o disco que eu ouvia, este *Safe Journey*, n\u00e3o estava nem na terceira faixa ainda quando eu me dei conta disso tudo. Breve biografia: nascido nos EUA em 1954, Steve Tibbetts toca guitarra, viol\u00e3o e instrumentos de percuss\u00e3o diversos e lan\u00e7a discos desde 1977, a maioria deles colocada no mundo pelo vener\u00e1vel selo alem\u00e3o [ECM](https:\/\/www.ecmrecords.com), aquele cujos discos come\u00e7am sempre com um breve momento de sil\u00eancio. A m\u00fasica de Tibbetts \u00e9 bela e pura demais para ser rotulada. \u00c9 m\u00fasica que faz sentido e emociona antes de toda a cultura, de todo o cansativo conhecimento que vamos acumulando sobre as vulgaridades do mundo, de todas as consequ\u00eancias destes processos temporais aos quais estamos implacavelmente submetidos. \u00c9 m\u00fasica para se ouvir com aten\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o, e a linguagem e seus labirintos nada podem fazer al\u00e9m de sabotar nossa capacidade de se deslumbrar com ela, portanto, paro por aqui, e sugiro que as pessoas se fa\u00e7am o infinito bem de escutar a este disco.\r\n\r\n**Bon Jovi - These Days**\r\n\r\nEu j\u00e1 escrevi em outras ocasi\u00f5es que eu gosto do Bon Jovi, certo? Ent\u00e3o posso abandonar de vez os melindres e constragimentos que ainda me restam quanto a isso. O fato \u00e9 que uma das peculiaridades da minha intensa paix\u00e3o por m\u00fasica \u00e9 a de reter por um tempo indeterminado o prazer de escutar aos discos que fazem parte da minha vida, reproduzindo quase sempre estes prazeres tais como eles eram l\u00e1 no in\u00edcio, na origem da minha rela\u00e7\u00e3o com eles (os discos), mesmo que isso signifique uma dist\u00e2ncia temporal de mais de 20 anos. Em outras palavras: eu nunca deixo de gostar de um \u00e1lbum do qual eu j\u00e1 gostei em algum momento da minha vida. A estes n\u00e3o se aplica a evolu\u00e7\u00e3o das minhas predile\u00e7\u00f5es \u2014 \u00e9 como se eles se tornassem parte inviol\u00e1vel de uma esp\u00e9cie de galeria espiritual, uma paisagem interna sobre a qual n\u00e3o tenho absolutamente nenhum controle racional\u2026 Estes discos est\u00e3o eximidos das exig\u00eancias est\u00e9ticas que se refinam com o passar do tempo, est\u00e3o eternamente absolvidos. Sei dizer precisamente porque a m\u00fasica do Bon Jovi n\u00e3o me interessaria se a descobrisse hoje, sendo a pessoa que sou agora, com os meus interesses e a minha experi\u00eancia acumulada atuais, mas em uma das etapas da minha vida eu fui f\u00e3 da banda e gravei muitas fitas K7 com seus discos e as escutei incont\u00e1veis vezes, assim como uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o do planeta fez a mesma coisa em fins dos anos 80 e come\u00e7o dos 90, e \u00e9 por isso que eu continuo escutando-os, por n\u00e3o haver se esgotado o prazo de validade daquele entusiasmo original nos tempos infanto-juvenis. Terei alguma esp\u00e9cie de s\u00edndrome de Peter Pan? N\u00e3o os escuto mais com a mesma frequ\u00eancia, \u00e9 evidente que n\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 raro eu voltar \u00e0s boas companhias do *Keep the Faith* ou do *New Jersey*, \u00e1lbuns que fazem parte de mim, da minha forma\u00e7\u00e3o de meloman\u00edaco e de colecionador de discos\u2026 S\u00e3o os meus dois preferidos, mas durante uns cinco ou seis dias seguidos l\u00e1 pelo meio de novembro eu escutei ao menos uma vez por dia ao *These Days*, lan\u00e7ado em 1995, uma das trilhas-sonoras de que mais me recordo daquele ano, \u00e9poca em que eu me preparava para o vestibular que prestaria em janeiro seguinte. \u00c0quela altura minhas aten\u00e7\u00f5es principais j\u00e1 se voltavam para outros cen\u00e1rios sonoros, mas um amigo com quem eu estudava diariamente para as provas ainda era um f\u00e3 desavergonhado do Bon Jovi e havia rec\u00e9m-comprado este CD, e sempre que eu ia na casa dele para enfiarmos as caras nos cadernos, este era o disco que mais tocava. E \u00e9 um bom disco de rock \u2019n\u2019 roll este *These Days*, ouso dizer agora mesmo sem a parcialidade da heran\u00e7a de um v\u00ednculo pessoal mais forte com ele, e se o tipo de m\u00fasica que o Bon Jovi faz puder ser reduzido a algo bem espec\u00edfico e setorizado \u2014 soft-hard-rock, hard-pop-rock\u2026 alguma evolu\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica e estil\u00edstica do hair-metal, que havia sido devidamente aniquilado pelo furac\u00e3o vindo de Seattle pouco tempo antes \u2014 ent\u00e3o este disco h\u00e1 de ser um dos pin\u00e1culos deste sub-sub-g\u00eanero. N\u00e3o que seja este um grande t\u00edtulo que v\u00e1 lhe conferir um lugar nos anais da hist\u00f3ria da m\u00fasica\u2026 Talvez um elogio mais honesto seja: duvido que algu\u00e9m que tenha escutando-o naquela \u00e9poca tenha se esquecido dos refr\u00f5es de *Something for the Pain* e *These Days*. E *Something to Believe In* \u00e9 uma grande m\u00fasica, isso creio que deve ser dito sem rodeios ou ressalvas de qualquer tipo.\r\n\r\n**The War on Drugs - Lost in the Dream**\r\n\r\nOutra \u00f3tima e tardia descoberta deste m\u00eas que passou (calma, gente, falta s\u00f3 mais um para terminar este ominoso 2016; n\u00e3o que exista qualquer perspectiva de um 2017 melhor, mas a essa altura a gente se apega a qualquer coisa) foi o The War on Drugs, banda que eu j\u00e1 tinha lido a respeito aqui e ali, por\u00e9m nunca chegara de fato a colocar entre as minhas prioridades. At\u00e9 que dias desses escutei o trecho de uma m\u00fasica deles em um v\u00eddeo da Amoeba Records, era mera m\u00fasica de fundo, executada durante uma entrevista, mas a coisa me tocou imediatamente. Encontrei para download este \u00e1lbum *Lost in the Dream* \u2014 n\u00e3o fa\u00e7am isso em casa, crian\u00e7as, \u00e9 il\u00edcito \u2014 e transformei-me imediatamente em f\u00e3 da banda: que belo disco! Flui com uma beleza irresist\u00edvel, calcado em um maravilhoso trabalho de guitarras, que s\u00e3o inegavelmente a alma da banda, prestando tributo a gente como Cure, Wilco e Neil Young pela maneira como est\u00e3o sempre em primeiro plano a comandar o espet\u00e1culo, sem nunca abrir m\u00e3o da delicadeza e da melodia. \u00c9 *aquele* tipo de som, que parece se propor a nos redimir, por um momento que seja, das frustra\u00e7\u00f5es cotidianas. Definitivamente, n\u00e3o \u00e9 uma boa decis\u00e3o adiar muito a hora de escutar esses caras\u2026 E se algum representante da lei estiver lendo esse texto e j\u00e1 pensando em me encarcerar pelo crime abomin\u00e1vel do download de arquivos MP3, fique tranquilo pois vou adquirir o CD assim que puder.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":681,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2016","post_timestamp":"2016-11-01T16:42:45+00:00","url":"2016_11_01_discos_do_mes_outubro_de_2016","post":"Os tr\u00eas discos que eu conhe\u00e7o deste colosso de banda chamado Cobalt s\u00e3o todos absolutamente devastadores, o que talvez n\u00e3o seja l\u00e1 um grande elogio, afinal, n\u00e3o \u00e9 exatamente um talento muito raro ou especial este que permite algu\u00e9m compor e executar uma m\u00fasica que seja violenta e massiva, que se pare\u00e7a com a trilha-sonora para o apocalipse: basta que, no plano da f\u00edsica, a coisa soe como um ataque frontal aos sentidos, e na metaf\u00edsica, uma dose de niilismo e algum senso de maldade. Talvez nem isso: alguma destreza t\u00e9cnica e as devidas configura\u00e7\u00f5es nas guitarras e demais equipamentos podem ser mais do que suficientes. Entretanto, faz\u00ea-la como fazem esses caras, hipn\u00f3ticas como as faixas deste magn\u00edfico \u00e1lbum duplo *Slow Forever* \u2014 isso sim \u00e9 somente para alguns poucos aben\u00e7oados ao inverso. Elegi-o meu disco favorito de metal de 2016 quando ainda n\u00e3o havia passado nem tr\u00eas minutos da primeira faixa, j\u00e1 no primeiro play. E n\u00e3o foi uma surpresa constatar que toda a uma hora e 22 minutos que vem depois \u00e9 igualmente excepcional, alucinante e selvagem de fazer [ferver o tutano dos ossos](https:\/\/profoundlorerecords.bandcamp.com\/album\/slow-forever).\r\n\r\nEu ia acrescentar ao par\u00e1grafo acima que o Cobalt \u00e9 a melhor banda de metal da atualidade, mas resolvi deixar essa frase de efeito de lado, afinal, seria uma imprecis\u00e3o ou no m\u00ednimo uma simplifica\u00e7\u00e3o. S\u00e3o muitas as bandas de metal fant\u00e1sticas na atualidade; como j\u00e1 escrevi aqui algumas vezes, na minha opini\u00e3o vivemos o grande momento da m\u00fasica do mal, a despeito dos anos 80 quando havia tantas camisetas do Iron Maiden e do Metallica nas ruas que hoje, uma gera\u00e7\u00e3o depois, elas foram incorporadas ao vestu\u00e1rio das pessoas que obedecem aos ditames da moda e do com\u00e9rcio de shopping center. Mas aquilo tudo era brincadeira de crian\u00e7as birrentas perto do cen\u00e1rio atual. N\u00e3o hesito em dizer que hoje a coisa \u00e9 concebida e executada como arte de verdade, talvez em fun\u00e7\u00e3o das bandas terem calibrado melhor suas expectativas e ambi\u00e7\u00f5es a partir da exaust\u00e3o do primeiro boom do g\u00eanero e do posterior estabelecimento da internet como meio de divulga\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, meio este que torna poss\u00edvel um p\u00fablico, ainda que restrito, mesmo para os artistas com as vis\u00f5es mais singulares e bizarras imagin\u00e1veis. E hoje, de fato, voc\u00ea chuta uma \u00e1rvore na web (ou seja l\u00e1 qual for a alegoria equivalente no mundo paralelo intern\u00e9tico) e caem centenas de bandas com maravilhosas vis\u00f5es singulares e bizarras. Ou\u00e7am, por exemplo, o \u00faltimo e totalmente insidioso disco do Oranssi Pazuzu, chamado *V\u00e4r\u00e4htelij\u00e4*, uma farta e audaciosa mistura de sons e climas que transitam entre evoca\u00e7\u00f5es de terrores c\u00f3smicos e enigmas velados em abismos marinhos, em ambos os casos atmosferas de cores e densidades completamente diferentes da nossa cotidiana, para n\u00e3o falar nas carrancas e apetites das criaturas que l\u00e1 habitam. Um futuro (ainda distante, talvez at\u00e9 mesmo incerto) onde todas as esp\u00e9cies e todos os quadrantes do universo estejam cartografados e catalogados talvez seja meio sem gra\u00e7a, e acho \u00f3timo que ainda estejamos neste meio de caminho da humanidade, com amplo espa\u00e7o para a imagina\u00e7\u00e3o e a fantasia, e bandas como o Oranssi Pazuzu com suas especula\u00e7\u00f5es sobre os enigmas das zonas penumbrosas.\r\n\r\nE este [\u00faltimo do Inter Arma](https:\/\/interarma.bandcamp.com\/album\/paradise-gallows-2), o que dizer deste glorioso cataclismo sonoro? Uma catedral diab\u00f3lica de sons consagrados aos anjos ca\u00eddos, hinos m\u00edsticos que v\u00eam direto dos c\u00edrculos do inferno. Uma del\u00edcia! Parece n\u00e3o haver mais limite algum a restringir o que podem fazer essas bandas, ap\u00f3s terem dominado essa esp\u00e9cie de alquimia moderna: eletricidade transformada em veneno.\r\n\r\nA m\u00fasica que mais tenho escutado nos \u00faltimos dias, no entanto, e embora possa ocupar essa mesma categoria de m\u00fasica cabal\u00edstica, ou m\u00fasica sinistra, ou seja l\u00e1 o que for que tamb\u00e9m a distingue da m\u00fasica ordin\u00e1ria feita para nos sentirmos humanos e felizes, esta \u00e9 de execu\u00e7\u00e3o completamente diferente. A m\u00fasica de Gy\u00f6rgy Ligeti foi escolhida por Stanley Kubrick para ser a protagonista et\u00e9rea do miraculoso *2001: A Space Odyssey*, o que pode ser perfeitamente igualado a ganhar a medalha de ouro nas Olimp\u00edadas definitivas da m\u00fasica no fim dos tempos. Algo parecido ou um t\u00edtulo ainda maior. A obra deste compositor h\u00fangaro \u00e9 um mundo de sons deslumbrantes, \u00e0s vezes perturbadores, \u00e0s vezes vaporosos e insond\u00e1veis, sons que parecem vazar de uma outra dimens\u00e3o durante breves e imprevistas intersec\u00e7\u00f5es de espa\u00e7os-tempos que ainda exigir\u00e3o muitos s\u00e9culos para termos id\u00e9ia do que pode ser isto, de onde pode estar vindo isto. O que acaba resultando num espasmo de assombro quando retornamos deles e nos vemos novamente entre as paredes de casa, e ouvimos a TV do vizinho sintonizada na novela e o horroroso estr\u00e9pito dos autom\u00f3veis na rua, e estes objetos todos, s\u00f3lidos e im\u00f3veis, a nos circundar, a lei da gravidade mantendo tudo grudado ao ch\u00e3o e mais ou menos em equil\u00edbrio\u2026 E por fim sentimos todo o peso e a indiferen\u00e7a das coisas e nos damos conta de que aquele outro mundo \u00e9 t\u00e3o-somente uma partitura concebida por um homem apenas, executada por um grupo de aten\u00e7\u00f5es e bra\u00e7os e vozes convergentes, seguindo as marca\u00e7\u00f5es daquele primeiro \u2014 ainda assim, um grupo de pessoas comuns feitas de carne e ossos. Como pode isso? Por que n\u00e3o nos ensinam isso nas escolas, a manusear esse poder de transcend\u00eancia, ou saber de sua exist\u00eancia, pelo menos, e explorar preliminarmente as incr\u00edveis possibilidades de vis\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o deste m\u00fasculo que carregamos no alto de nossos esqueletos? A resposta est\u00e1, me parece, na conveni\u00eancia de nos preparar para outros fins, para os quais a liberdade e a coragem podem ser at\u00e9 mesmo uma amea\u00e7a. H\u00e1 de se ter f\u00e9 de que um dia isso ser\u00e1 nada mais do que um long\u00edquo passado, negro e obsoleto.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Esta obra, dividida em quatro partes, cont\u00e9m todo um mundo em si: come\u00e7a imponente e amea\u00e7adora (o Terror de St\u00e1lin come\u00e7ando a tornar-se inexor\u00e1vel, presumo), transforma-se em beleza indiz\u00edvel, e segue adiante repleta de tens\u00f5es antecipat\u00f3rias, transmutando-se de uma coisa em outra sem que se perceba fronteiras muito claras \u2014 \u00e0s vezes um delicado fiapo de m\u00fasica que sustenta sobre sua forma inst\u00e1vel e evanescente, sabe-se l\u00e1 como, um peso inconceb\u00edvel de sublimidade, \u00e0s vezes ritmos fren\u00e9ticos e impetuosos de tirar o f\u00f4lego, e por a\u00ed vai. \u00c9 o tipo de m\u00fasica que faz o pensamento desprender-se das r\u00e9deas habituais, nos faz especular o quanto \u00e9 poss\u00edvel abarcar com a m\u00fasica. Faz pensar tamb\u00e9m naquela frase, cujo autor me escapa completamente agora: \u201ctodas as artes gostariam de ser m\u00fasica\u201d.\r\n\r\n**Marillion: Misplaced Childhood**\r\n\r\nNem vou perder meu tempo tentando explicar, mas o fato \u00e9 que eu gosto do Marillion. A coisa passa pela minha inf\u00e2ncia, passa por associa\u00e7\u00f5es inquebr\u00e1veis que habitam o n\u00edvel mais basilar das funda\u00e7\u00f5es da minha vida, passa principalmente por *Kayleigh* \u2014 que est\u00e1 no tracklist de uma compila\u00e7\u00e3o de sucessos radiof\u00f4nicos que foi muito provavelmente o primeiro disco da minha vida \u2014 e passa, \u00e9 claro, por uma s\u00e9rie de defici\u00eancias em meus genes. Gosto particularmente deste disco, o *Misplaced Childhood*, que acabo de adquirir em uma vers\u00e3o especial dupla recheada de b-sides, vers\u00f5es demos e um encarte delirante e bastante fajuto, criado com pouco ou nenhum zelo, uma impress\u00e3o toda granulada que s\u00f3 deve ter passado pelos usuais testes de qualidade devido ao fato de que em todas as etapas do processo as pessoas envolvidas deviam pensar \u201cora, deixa pra l\u00e1, ningu\u00e9m vai comprar isso mesmo\u201d. Pessoas que gostam ou j\u00e1 gostaram de Marillion devem ter o vinil original de 1985 em alguma caixa esquecida no fundo de um arm\u00e1rio, seus nomes inscritos com caneta Bic sobre o algod\u00e3o das nuvens da arte sensacionalmente brega de Mark Wilkinson, e interesse zero por m\u00fasica hoje em dia, ocupadas que est\u00e3o com seus filhos e carreiras ou ent\u00e3o com a completa aus\u00eancia de filhos e carreiras e ao inv\u00e9s disso a preocupante quantidade, cada vez maior, de \u00e1lcool que precisam para tocar adiante seus dias, ainda que na lembran\u00e7a ocasional desse disco corram para o YouTube para escut\u00e1-lo outra vez e n\u00e3o raro surpreendam-se a si pr\u00f3prios em vias de derramar umas l\u00e1grimas ao perceberem ser imposs\u00edvel resgatar seja l\u00e1 o que se perdeu ao longo do caminho. Ou ent\u00e3o, quem sabe, continuem apaixonadas pela banda, e pelo King Crimson e pelo Yes, e pelo Supertramp e pelos discos solos do Fish e do Roger Waters, aos quais escutam regularmente a partir de discos de vinil ultra bem-conservados em cujas capas tiveram o bom-senso precoce na adolesc\u00eancia de n\u00e3o escrever seus nomes, em aparelhos de som caros e sofisticados comprados com facilidade devido aos altos sal\u00e1rios proporcionados por seus cargos importantes em multinacionais, enquanto tomam doses bem regradas de whiskey. O infort\u00fanio de ter sido uma banda de (neo-)progressivo nos [anos 80](https:\/\/i.ytimg.com\/vi\/NeXtLVqsx-A\/maxresdefault.jpg)! Nem ter gravado esse \u00f3timo \u2014 quero dizer, assim me parece \u2014 *Misplaced Childhood* salvou-os desse futuro, desse patrim\u00f4nio bastante question\u00e1vel: ser escutado pelos sujeitos descritos acima, e por mim.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":678,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2016","post_timestamp":"2016-08-31T01:10:19+00:00","url":"2016_08_30_discos_do_mes_agosto_de_2016","post":"E n\u00e3o muito antes e nem muito depois \u2014 no tempo certo da natureza, como sempre \u2014 surgem os primeiros press\u00e1gios de mudan\u00e7a de esta\u00e7\u00e3o, os sinais \u00f3bvios na temperatura e os sutis na orquestra dos animais alados, incluindo a\u00ed o maldito zumbido dos pernilongos, que est\u00e3o de volta depois da tr\u00e9gua de seu sumi\u00e7o sazonal. A m\u00fasica que preenche meus dias, entretanto, essa n\u00e3o muda j\u00e1 h\u00e1 uns dois meses, e ela ainda h\u00e1 de atravessar comigo um bom per\u00edodo. Nesse exato momento, minhas obsess\u00f5es atendem pelos nomes suntuosos e ex\u00f3ticos de Johannes Brahms e Leo\u0161 Jan\u00e1\u010dek, mas ao longo do m\u00eas de agosto a grande estrela foi aquela mesma indicada [aqui anteriormente](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2016_08_07_dmitri), Dmitri Shostakovich, cujas sinfonias e quartetos de cordas devem ter deixado o meu perfil no [last.fm](http:\/\/www.last.fm\/pt\/user\/fabricioboppre) completamente zureta, acostumado que este sempre esteve a contabilizar apenas artistas de rock, metal e jazz, e de repente aquele monte de movimentos, de *adagios*, de *lentos*, *largos*, *moderatos*, F-minor, E-flat, todo um sistema de numera\u00e7\u00e3o e um vocabul\u00e1rio que para mim ainda \u00e9 bastante enigm\u00e1tico, mas que vou decifrando aos poucos. Um disco que eu indicaria imediatamente, para quem quiser come\u00e7ar a se aventurar no mundo da m\u00fasica erudita (e tamb\u00e9m para quem essa id\u00e9ia aparentemente estapaf\u00fardia nunca ocorreu eu indico mesmo assim): *Webern \/ Shostakovich \/ Burian*, gravado pelo Rosamunde Quartett, cuja interpreta\u00e7\u00e3o magnetizante do quarteto de cordas No. 8, minha pe\u00e7a preferida dentre todas que ouvi at\u00e9 aqui do mestre russo, \u00e9 formid\u00e1vel para al\u00e9m das palavras. A certa altura, a coisa ganha um andamento e uma intensidade que te levam a lugares que eu n\u00e3o sabia que este tipo de m\u00fasica era capaz de levar. \u00c9 t\u00e3o bom quanto os melhores momentos de Pink Floyd e Miles Davis, ou seja, \u00e9 maravilhoso como pouqu\u00edssima outra m\u00fasica \u00e9.\r\n\r\nSinfonias s\u00e3o, para mim, um *acquired taste*, cujo processo ainda est\u00e1 em plena fermenta\u00e7\u00e3o, mas as poucas que ouvi at\u00e9 aqui de Shostakovich s\u00e3o todas, sem rodeios, fabulosas --- em que pese esse adjetivo ser muito pobre, totalmente insuficiente se formos falar sobre a quinta de suas obras sinf\u00f4nicas: escutei-a duas vezes somente (em grava\u00e7\u00e3o da Royal Philharmonic Orchestra conduzida por Vladimir Ashkenazy), sendo que a \u00faltima audi\u00e7\u00e3o tem j\u00e1 umas tr\u00eas semanas, e n\u00e3o obstante seus efeitos permanecem latentes em mim, h\u00e1 alguma coisa vibrando ainda em algum ponto de meu c\u00e9rebro e que tenho medo de estimular ainda mais sob o risco de trincar irremediavelmente alguma coisa. A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que sempre que esta obra \u00e9 executada por uma orquestra minimamente capacitada, seja l\u00e1 em que parte do planeta, seja l\u00e1 para que audi\u00eancia, a Terra transforma-se em um emiss\u00e1rio de sinais estent\u00f3reos e imortais que chegam aos confins do universo e v\u00e3o al\u00e9m, e informam aos seres de aspectos inimagin\u00e1veis que por certo existem por a\u00ed de que h\u00e1 alguma coisa extraordin\u00e1ria acontecendo em alguma outra coordenada remota do cosmo. Por ora, a Quinta de Shostakovitch \u00e9 para mim o que parece ser a Nona de Beethoven para o restante da parcela da humanidade apreciadora de m\u00fasica cl\u00e1ssica: a cria\u00e7\u00e3o musical definitiva.\r\n\r\nB\u00e9la Bart\u00f3k, outro preferido da casa, \u00e9, de certo modo, oposto a isso tudo. Sua m\u00fasica tem uma coisa mais leve e terrena que me encanta, um esp\u00edrito \u00e0s vezes at\u00e9 mesmo brincalh\u00e3o, algo que nunca funcionou comigo quando aplicado ao rock \u2019n\u0027 roll \u2014 eu sempre detestei rock metido a engra\u00e7adinho (quase fui defenestrado da turma de amigos do col\u00e9gio na \u00e9poca do Mamonas Assassinas, por ousar achar aquilo rid\u00edculo), mas na m\u00fasica cl\u00e1ssica, veja s\u00f3!, isso funciona, e um violino brincalh\u00e3o pode ser uma das coisas mais deliciosas que h\u00e1 no reino dos sentidos. Leio que Bart\u00f3k era muito envolvido e influenciado pelo folclore h\u00fangaro, o que me faz amar ainda mais a Hungria, uma terra em que nunca pisei, mas que j\u00e1 apreciava muito por ter-nos dado outro [B\u00e9la fundamental](http:\/\/www.thrillvania.com\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/Annex-Lugosi-Bela-Dracula_02.jpg), e que agora virou meu pr\u00f3ximo sonho de viagem de f\u00e9rias.\r\n\r\nOutro que posso citar dentre os de m\u00fasica mais mi\u00fada \u00e9 o franc\u00eas Erik Satie, cujas pe\u00e7as para piano, de sonoridades rarefeitas e arcanas, j\u00e1 ocupam um lugar especial aqui no meu repert\u00f3rio de m\u00fasica noturna.\r\n\r\nPor \u00faltimo: curioso como \u00e9 o Alice in Chains a banda que, dentre aquelas queridas todas de Seattle, vem gradualmente se consolidando como a mais relevante de todas para mim. Refiro-me \u00e0 m\u00fasica antiga deles, claro, os discos cl\u00e1ssicos com o Layne Staley; esses \u00faltimos da segunda encarna\u00e7\u00e3o da banda eu escutei muito pouco, e nem tenho muito interesse em resolver isso. \u00c9 curioso pois acho que seria o candidato menos \u00f3bvio: eu provavelmente apostaria em Pearl Jam, ou Nirvana, ou Soundgarden, ou mesmo Screaming Trees e Mudhoney, se algu\u00e9m me questionasse sobre isso l\u00e1 atr\u00e1s, quando \u00e9ramos adolescentes, se naquela \u00e9poca fiz\u00e9ssemos uma brincadeira especulat\u00f3ria sobre qual daquelas bandas ainda estar\u00edamos ouvindo quando estiv\u00e9ssemos chegando \u00e0 beirada dos 40 anos. Bem, eu escuto a elas todas ainda, mas conquanto seja o Pearl Jam aquela da qual eu ainda me sinta mais pr\u00f3ximo, de escutar mais regularmente e comprar reedi\u00e7\u00f5es em vinil e tudo mais, \u00e9 a m\u00fasica do Alice in Chains a \u00fanica que parece conservar certos espa\u00e7os rec\u00f4nditos nos quais podemos nos recolher e nos deslumbrar sem nenhum ressaibo ou saudosismo, e a voz insuper\u00e1vel de Staley volta muito frequentemente para me assombrar durante o dia. Dia desses escutei hipnotizado ao disco ac\u00fastico deles. Can\u00e7\u00f5es como *Nutshell* e *Sludge Factory*, com suas cargas quase insuport\u00e1veis de desamparo, suspense e densidade, emocionam a todos ainda? Ou estarei eu em total descompasso com os outros da minha gera\u00e7\u00e3o? Muito do que escrevi aqui parece apontar para esta segunda op\u00e7\u00e3o, mas tenho a sensa\u00e7\u00e3o n\u00edtida de que os discos do Alice in Chains v\u00e3o envelhecendo melhor do que os dos seus conterr\u00e2neos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":677,"title":"Dmitri","post_timestamp":"2016-08-07T15:44:53+00:00","url":"2016_08_07_dmitri","post":"A [jornada](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2016_07_21_ha_musica_ha_musica) continua, intensa e fascinante. Acho que finalmente posso dizer, sem restri\u00e7\u00f5es ou eufemismos, que eu gosto, e muito, de m\u00fasica cl\u00e1ssica. J\u00e1 se desvaneceram os preconceitos e incompreens\u00f5es que restavam \u2014 \u201cm\u00fasica \u00e9 m\u00fasica\u201d, dizia Alban Berg. E j\u00e1 h\u00e1 um postulante ao cargo de dono do local mais alto no meu altar de compositores favoritos, hierarquia que vai se desenhado devagarinho, a cada dia que passa: \u00e9 o senhor da foto acima, Dmitri Shostakovich, cujo palet\u00f3 folgado de n\u00famero aparentemente maior s\u00f3 vem a confirmar que sim, era um g\u00eanio. O m\u00eas j\u00e1 vai avan\u00e7ado e estou meio sem tempo neste momento para um \u201cDiscos do m\u00eas\u201d para julho, mas para agosto tenho certeza de que terei muito a escrever.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](https:\/\/friendsofchambermusic.ca\/composer-spotlight-dmitri-shostakovich\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":676,"title":"H\u00e1 m\u00fasica! H\u00e1 m\u00fasica!","post_timestamp":"2016-07-21T23:35:00+00:00","url":"2016_07_21_ha_musica_ha_musica","post":"Acho que esse m\u00eas n\u00e3o vai rolar \u201cDiscos do m\u00eas\u201d, n\u00e3o por n\u00e3o ter ouvido m\u00fasica \u2014 que eu n\u00e3o paro de ouvir, mesmo quando n\u00e3o est\u00e1 tocando m\u00fasica alguma \u2014 mas porque estou bastante atarefado e no s\u00e1bado viajo e fico uns dias fora; quando voltar, acho que n\u00e3o vai mais fazer muito sentido escrever sobre o que eu ouvi no m\u00eas anterior \u00e0 viagem. Ando escutando muito o mo\u00e7o da foto acima, e sinto que o exorcismo est\u00e1 prestes a completar-se. Explico: h\u00e1 um texto meu neste site sobre um disco do Coltrane, mas \u00e9 um texto pelo qual sinto uma profunda vergonha, foi uma tentativa de falar sobre o *A Love Supreme* que redundou num desastre completo. Palavroso demais, pretencioso, abomin\u00e1vel \u2014 essas s\u00e3o as palavras mais doces que consigo imaginar para aquele erro hediondo. Ele ainda est\u00e1 por a\u00ed, mas n\u00e3o o procurem, por favor. A temporada de Coltrane, de qualquer modo, est\u00e1 longe de esgotar-se, de maneira que no post sobre os discos de agosto muito provavelmente tentarei me desculpar perante o mundo publicando aqui alguma coisa que fa\u00e7a um pouco mais de sentido e n\u00e3o ofenda os olhos de ningu\u00e9m (me darei por satisfeito se pelo menos um desses objetivos for alcan\u00e7ado).\r\n\r\nAl\u00e9m de Coltrane, um mundo de violinos e pianos anda ocupando minha mente tamb\u00e9m. [Ainda](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2016_07_06_discos_do_mes_junho_de_2016). E essa viagem pr\u00f3xima tem tudo para encher de ainda mais cores e formas e percep\u00e7\u00f5es este meu rito de passagem, que vem sendo atravessado segurando na m\u00e3o de russos e h\u00fangaros e de fantasmas de s\u00e9culos atr\u00e1s. \r\n\r\nComo disse um amigo meu, em meio a uma [discuss\u00e3o](https:\/\/charllescampos.blogspot.com.br\/2016\/07\/kazantzakis.html) sobre Deus, religi\u00e3o, ter filhos ou n\u00e3o t\u00ea-los, e j\u00e1 n\u00e3o me lembro mais o qu\u00ea \u2014 \u0022eu n\u00e3o quero saber se h\u00e1 deus, h\u00e1 m\u00fasica! H\u00e1 m\u00fasica!\u201d","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto de Esmond Edwards, copiada [daqui](https:\/\/jazzinphoto.wordpress.com).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":675,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2016","post_timestamp":"2016-07-06T16:18:53+00:00","url":"2016_07_06_discos_do_mes_junho_de_2016","post":"**Midnight Oil: 10 9 8 7 6 5 4 3 2 1**\r\n\r\nA not\u00edcia da reuni\u00e3o desses mo\u00e7os para uma turn\u00ea em 2017, que li no final de maio, reativou minha sede de Midnight Oil. Eu nunca fico muito tempo sem escut\u00e1-los, mas seria pouco prov\u00e1vel isso acontecer com a intensidade com que de fato aconteceu naquela ocasi\u00e3o, sob aquele frio glacial que vinha fazendo umas semanas atr\u00e1s. Temperaturas congelantes, que nos p\u00f5em sob quilos de roupas e cachec\u00f3is e nos fazem travar uma cansativa batalha por aquecimento, de prefer\u00eancia dentro de casa, esse tipo de clima costuma designar \u00e0s minhas trilhas-sonoras os sons mais densos ou ent\u00e3o os mais acolhedores, sons que de uma maneira ou de outra sirvam como abrasadores, uma conveni\u00eancia que \u2014 pelo menos de acordo com os meus crit\u00e9rios e manias muito particulares \u2014 em nada combina com a experi\u00eancia que \u00e9 ouvir estes amotinados da costa australiana reclamar histericamente de corpora\u00e7\u00f5es e interesses privados loteadores de praias e florestas, o que fazem por meio de um h\u00edbrido extravagante de p\u00f3s-punk e melodias perfeitamente radiof\u00f4nicas. N\u00e3o, n\u00e3o era a \u00e9poca para ouvi-los\u2026 Mas o Midnight Oil \u00e9 a \u003Ci\u003Eminha\u003C\/i\u003E banda. Digo isso de forma definitiva. Bem sei que j\u00e1 devo ter dito algo similar sobre o Jane\u0027s Addiction, talvez Pearl Jam ou R.E.M., que s\u00e3o todos grupos que eu amo... Mas \u00e9 o Oil! S\u00e3o eles a banda de quem primeiro me tornei f\u00e3 com toda a seriedade poss\u00edvel para esse tipo de coisa na inf\u00e2ncia \u2014 um despertar para o que viria a ser a m\u00fasica na minha vida, digamos. Evidente que muitas outras estavam naquele caldeir\u00e3o inicial alimentado pelas r\u00e1dios e amigos e trilhas-sonoras de novelas, por\u00e9m a grande maioria delas hoje \u00e9 s\u00f3 fetiche, ao contr\u00e1rio do Oil, com quem meu relacionamento foi ficando mais e mais s\u00e9rio \u00e0 medida que a adolesc\u00eancia avan\u00e7ava, o que teve como efeito torn\u00e1-los a banda mais frequente no fundo musical de muitas das minhas mem\u00f3rias mais queridas. Foi tamb\u00e9m o primeiro grande show de rock que eu fui, e, como se j\u00e1 n\u00e3o bastasse tudo isso, \u00e9 daquelas raras bandas que autorizam plenamente aos seus f\u00e3s o requinte de se ter orgulho de ser f\u00e3 \u2014 orgulho insolente mesmo, de fazer tatuagens e colar p\u00f4steres na parede do quarto e tudo mais \u2014 devido \u00e0 postura e ao ativismo pol\u00edtico que sempre foram parte fundamental do esp\u00edrito do grupo, e nada de jogo de cena aqui para engabelar jovens rebeldes de classe m\u00e9dia, como na maioria dos casos \u2014 as hist\u00f3rias a corroborar a genuinidade das posi\u00e7\u00f5es da banda s\u00e3o muitas. Enfim, botei pra tocar algumas vezes o *Breath*, um dos meus amuletos sagrados, e tamb\u00e9m o *Scream in Blue*, esse disco ao vivo em que o \u0022eletrizante\u0022 normalmente empregado para descrev\u00ea-lo \u00e9 algo quase literal, e principalmente o *10 9 8 7 6 5 4 3 2 1*, o quarto LP da carreira do Oil, altivamente recheado de cl\u00e1ssicos como *Short Memory*, *Read About It*, *US Forces* (que nunca faltou nos setlists da banda, mesmo nos show nos EUA), *Power and the Passion* e *Tin Legs and Tin Mines*. Poucas vezes uma voz soou t\u00e3o perfeitamente aninhada nos veios de uma torrente de guitarras como a de Peter Garret soa em *Only the Strong* (que por mais sensacional que soe aqui em sua encarna\u00e7\u00e3o oficial de est\u00fadio, \u00e9 a vers\u00e3o man\u00edaca e incendi\u00e1ria do *Scream in Blue* que vai ficar para a eternidade); poucas bandas, dentre as que falavam \u00e0s massas, escreveram m\u00fasicas mais incisivas sobre as grandes quest\u00f5es de nosso tempo (\u0022wake up in a sweat at dead of night, and in the tents new rifles, hey, short memory!\u0022); poucas bandas fazem mais falta ao mundo do que o Midnight Oil, a quem n\u00e3o se aplica, de maneira alguma, as suspeitas que sempre recaem sobre os grupos que se re\u00fanem anos ap\u00f3s se separarem. Ainda h\u00e1 raz\u00e3o e motivos para o Oil existir, ent\u00e3o, como dizem os f\u00e3s: \u003Ci\u003Elet the Midnight Oil burn again\u003C\/i\u003E!\r\n\r\n**Lou Reed - Legendary Hearts**\r\n\r\nMinha intimidade com a discografia solo do Lou Reed \u00e9 irris\u00f3ria, vergonhosamente quase nula. Ouvindo esse *Legendary Hearts*, \u00e9 com certa tristeza que eu me dou conta disso. Ocupados que passamos nossas adolesc\u00eancias com os sons bomb\u00e1sticos e tonificantes como Pearl Jam, Nirvana e Midnight Oil, os de beleza incomensur\u00e1veis como Pink Floyd e Led Zeppelin, e os infantis e escapistas como Iron Maiden e Ramones, acabamos por vezes deixando passar os que n\u00e3o contam com nenhum desses predicados, mas cujas virtudes advindas do comedimento e da poesia de m\u00e9trica justa aos poucos v\u00e3o nos atraindo. Sem epifanias ou eloqu\u00eancias arrebatadoras, mas de forma persistente e calorosa, como um descansado sol de outono em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s lascividades do ver\u00e3o. E ent\u00e3o se d\u00e1 a m\u00e1gica e encontramos finalmente espa\u00e7o para mais m\u00fasica no ba\u00fa de tesouros de nossas vidas. O *Transformer* \u2014 o \u00fanico disco do Lou Reed de que eu posso dizer ter j\u00e1 uma afinidade mais antiga \u2014 j\u00e1 deveria ter me ensinado tudo isso h\u00e1 mais tempo, mas tudo bem: a descoberta \u00e9 sempre um prazer, um deleite de efeito at\u00e9 mesmo rejuvenescedor, portanto bem-vindo a qualquer \u00e9poca.\r\n\r\n**LaSalle Quartet - Schoenberg: Complete String Quartets**\r\n\r\nEnt\u00e3o, finalmente, o inverno fez valer suas prerrogativas, e \u00e9 isso que venho escutando nos \u00faltimos dias: Debussy, Liszt, Ligeti, Strauss, Schoenberg. *Assim falou Zaratustra*, de Richard Strauss, \u00e9 algo t\u00e3o monumental e acachapante que eu nem me atrevo a escrever sobre. As sinfonias de Mahler, ouso dizer aqui do alto do meu amadorismo no assunto, deveriam conferir a este compositor a mesma estatura colossal de Beethoven. E as maravilhas de Bach, e Mozart\u2026 De todo modo, tenho me interessado mais pelas coisas que vieram depois dos grandes mestres daquele antiqu\u00edssimo mundo pr\u00e9-fotografia, mestres eternizados em lendas e bustos de fei\u00e7\u00f5es severas: venho ouvindo principalmente \u00e0quilo que convencionou-se chamar de \u201cA segunda escola de Viena\u201d, formada pelos herdeiros da vener\u00e1vel patota vienense, rebeldes de mon\u00f3culos e comportamentos amb\u00edguos que ousaram experimentar e levar adianta a musica cl\u00e1ssica, debatendo-se sobre quest\u00f5es acerca da ent\u00e3o nascente m\u00fasica popular, o papel da m\u00fasica erudita no s\u00e9culo XX e a, porque por que n\u00e3o?, quebra das normas e regras estabelecidas pelos c\u00e2nones, o que passava por quest\u00f5es t\u00e9cnicas como a atonalidade e a emancipa\u00e7\u00e3o de acordes e harmonias que eram tidos como an\u00e1temas entre compositores, p\u00fablico e cr\u00edtica. Debatiam tamb\u00e9m muito acerca de sexo, religi\u00e3o e pol\u00edtica \u2014 era o in\u00edcio dos anos 1900, afinal, era a Viena de Freud \u2014 mas isso n\u00e3o vem ao caso. \u00c9 tamb\u00e9m aqui um aprendizado; meus primeiros contatos com m\u00fasica cl\u00e1ssica datam da inf\u00e2ncia, pois eu tinha um av\u00f4 que gostava e escutava muito, e depois que ele faleceu eu herdei muitos de seus discos, uma por\u00e7\u00e3o de vinis e CDs que atravessa uns bons tr\u00eas s\u00e9culos de m\u00fasica e aos quais sempre escutei de forma esparsa e desatenta, sem ter at\u00e9 hoje sustentando um per\u00edodo mais longo de interesse e audi\u00e7\u00f5es a ponto de poder dizer que eu manejo bem os vocabul\u00e1rios da m\u00fasica cl\u00e1ssica. N\u00e3o, longe disso \u2014 contudo, pressinto que isso pode iniciar-se a qualquer momento, e ser\u00e1 como a explos\u00e3o de uma super-nova e o consequente nascimento de um buraco-negro! Uma pequena revolu\u00e7\u00e3o em minha vida, quero dizer, retomando aqui o equil\u00edbrio e a sobriedade. \u00d3pera, na verdade, n\u00e3o me interessa muito; j\u00e1 entre as sinfonias cl\u00e1ssicas existem coisas que soam maravilhosas aos meus ouvidos, mas muitas tamb\u00e9m, confesso aqui um pouco encabulado, muitas n\u00e3o conseguem prender minha aten\u00e7\u00e3o por muito tempo. J\u00e1 as pe\u00e7as para piano e para cordas dessa turma do segundo advento de Viena (Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg formam o triunvirato), e tamb\u00e9m B\u00e9la Bartok e Stravinsky e outros mais contempor\u00e2neos como Gy\u00f6rgy Ligeti e Arvo P\u00e4rt, isso tudo me fascina enormemente, sem nenhuma dificuldade ou estranhamento. *Os Quartetos para Cordas* de Schoenberg t\u00eam sido at\u00e9 mesmo uma monomania nos \u00faltimos dias, uma m\u00fasica que n\u00e3o sai da minha cabe\u00e7a, uma tens\u00e3o controlada e estendida que me faz sentir permanentemente dentro de um filme, e um filme muit\u00edssimo bom, de fotografia hipn\u00f3tica e uma atmosfera de mist\u00e9rio e sutilezas. Apesar do car\u00e1ter flu\u00eddo, o mais intrigante desse ciclo de m\u00fasica \u00e9 o seu come\u00e7o, precisamente o come\u00e7o do quarteto n\u00famero 1, pelo qual sempre inicio: \u00e9 como acordar de um pesadelo, mas ao contr\u00e1rio: \u00e9 \u003Ci\u003Eimergir\u003C\/i\u003E em um pesadelo, desacordar diretamente em seu \u00e2mago mais constrito. Nada de viol\u00eancia ou desespero, mas ainda assim uma forma de instabilidade, uma m\u00fasica que parece estar em conflito consigo mesma, totalmente alheia, um drama de vultos esvanecentes que se passa em esferas mais elevadas, o que nos permite, no fim das contas \u2014 e de fato acenando, convidando-nos maliciosamente \u2014 a permanecer dentro dela, em seguran\u00e7a, apenas admirando a intemp\u00e9rie desenrolar-se ao redor.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":674,"title":"Uma foto: Patti Smith e Lou Reed","post_timestamp":"2016-06-14T00:24:27+00:00","url":"2016_06_13_uma_foto_patti_smith_e_lou_reed","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Patti Smith e Lou Reed em New York, 1976. Foto de Richard E. Aaron, copiada [daqui](http:\/\/www.lpm-blog.com.br\/?p=22694).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":673,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2016","post_timestamp":"2016-05-31T18:16:02+00:00","url":"2016_05_31_discos_do_mes_maio_de_2016","post":"**Radiohead: A Moon Shaped Pool**\r\n\r\nMas que maravilha este novo disco do Radiohead! Foi paix\u00e3o \u00e0 primeira escutada, tal como o *In Rainbows*. Est\u00e3o ali todas as grandes virtudes da banda, depuradas e executadas com a habitual precis\u00e3o lapidar, mas principalmente aquela deliciosa esquizofrenia, uma esquizofrenia sutil, requintada --- m\u00fasicas cheias de beleza e pequenas esquisitises que deixam sempre um desconforto meio indefinido pairando no ar, um encanto nunca desacompanhado de um laivo de estranheza. Como se fosse a trilha-sonora de um outro planeta em que o LSD \u00e9 distribuido gratuitamente mas as pessoas nem se interessam muito posto que a subst\u00e2ncia n\u00e3o acrescenta muita coisa ao estado natural delas. O \u00e1lbum anterior, *The King of Limbs*, me passou completamente batido --- n\u00e3o devo t\u00ea-lo escutado mais do que tr\u00eas vezes --- e isso esfriou meu interesse pelo Radiohead nos \u00faltimos tempos, mas agora fiz as pazes com a banda, tornei-me novamente um f\u00e3 devotado e acho at\u00e9 que j\u00e1 sei qual ser\u00e1 o meu disco favorito de 2016.\r\n\r\n**Nick Cave and the Bad Seeds: No More Shall We Part**\r\n\r\nNosso querido amigo Nick Cave \u00e9 tamb\u00e9m escritor e autor de roteiros para cinema, mas h\u00e1 um item de sua discografia com os Bad Seeds em que ele parece juntar num \u00fanico pacote esses seus talentos todos: me refiro ao fant\u00e1stico *No More Shall We Part*, de 2001. \u00c9 um disco longo, denso, por vezes at\u00e9 mesmo \u00e9pico, cheio de dramas e narrativas, cuja m\u00fasica encerrada ali parece apenas a muito custo se conter para n\u00e3o romper seus limites f\u00edsicos e transformar-se em imagens e banhos de sangue e neve gelada de verdade contra a pele. Disca\u00e7o daqueles que clamam prepara\u00e7\u00e3o especial para sua aprecia\u00e7\u00e3o: recolhimento, luz de velas, uma garrafa de vinho... ainda que nenhuma dessas coisas mundanas impe\u00e7am que, se atingida a devida sintonia, voc\u00ea logo se veja transportado para o interior de igrejas sem sinos e bares semi-vazios e esfuma\u00e7ados, os lugares habitualmente frequentados pelos fan\u00e1ticos e desesperados que s\u00e3o os personagens de Cave.\r\n\r\n**Rolling Stones: Beggars Banquet**\r\n\r\nEu j\u00e1 dei umas espinafradas nos Stones por aqui, falando mal deles por conta desse mega-espet\u00e1culo em que eles se tornaram, esses shows enormes e horr\u00edveis que eles fazem, tudo em total contradi\u00e7\u00e3o com o blues de seus her\u00f3is originais. \u00c9 o poder do dinheiro que degenera, que \u0022destr\u00f3i coisas belas\u0022, como j\u00e1 dizia o poeta. Mas se cheguei a dizer que eu n\u00e3o gosto dos Stones, me perdoem, eu estava mentindo. Mentira deslavada, bravata pura... eu adoro os Rolling Stones! Vejam a sequ\u00eancia matadora que eles gravaram e lan\u00e7aram entre 1968 e 1972: *Beggars Banquet*, *Let It Bleed*, *Sticky Fingers* e *Exile on Main St.*. Esses quatro discos sozinhos teriam sido suficientes para tornar justa a fama intergal\u00e1ctica da banda. Tenho a impress\u00e3o de que o *Exile on Main St.* \u00e9 o mais celebrado de todos, mas certamente n\u00e3o por mim; gosto dele, mas menos do que o  *Let It Bleed*, e fico entre o *Beggars Banquet* e *Sticky Fingers* na hora de apontar o meu favorito, pendendo para o *Beggars*, que parece homenagear meio vagamente os temas e personagens de *A \u00d3pera dos Mendigos*, obra escrita por John Gay e Johann Christoph Pepusch em 1724, e que inspirou tamb\u00e9m o disco *\u00d3pera do Malandro*, do Chico Buarque. H\u00e1 algo de estranho nesse disco, no entanto, algo amb\u00edguo que sempre me deixou intrigado, justamente na letra de *Salt of the Earth*, que come\u00e7a como uma ode \u00e0 classe trabalhadora (\u0022let\u0027s drink to the hard working people, let\u0027s drink to the lowly of birth...\u0022), mas l\u00e1 pelas tantas, com uma franqueza enigm\u00e1tica, tem Mick Jagger cantando que \u0022when I search a faceless crowd, a swirling mass of gray and black and white, they don\u0027t look real to me, in fact, they look so strange\u0022. \u00c9, talvez seja Jagger antevendo quem seria o p\u00fablico exclusivo das apresenta\u00e7\u00f5es de sua banda, no futuro, algo bem diferente do *salt of the earth* que devia assisti-los na Inglaterra meio s\u00e9culo atr\u00e1s... ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":672,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2016","post_timestamp":"2016-05-02T21:10:44+00:00","url":"2016_05_02_discos_do_mes_abril_de_2016","post":"Charada: o que os discos *Happy Songs for Happy People* do Mogwai, *Acid Eaters* do Ramones, *Superunknown* do Soundgarden, *Boys Don\u0027t Cry* do Cure e aquele ao vivo do Pantera de que n\u00e3o me recordo o nome t\u00eam em comum? (Al\u00e9m do fato --- piada roubada [desse filme](http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0087507\/) --- de n\u00e3o serem chineses?) Resposta: o fato deles todos terem um CD-R dentro de suas caixinhas em minha estante, j\u00e1 que os CDs originais pifaram. O \u00fanico motivo que consigo imaginar para esses \u00f3bitos todos \u00e9 prazo de validade excedido --- datas que deveriam vir grafadas nas embalagens, mas n\u00e3o v\u00eam. Prefiro n\u00e3o especular a respeito de como estar\u00e1 essa estat\u00edstica funesta daqui uns 20 anos.\r\n\r\nO do Cure \u00e9 o mais recente sepultado no meu cemit\u00e9rio dos CDs que n\u00e3o tocam mais: fui escut\u00e1-lo uns dias atr\u00e1s, e bem quando inicia a minha amada *Jumping Someone Else\u0027s Train* come\u00e7a tamb\u00e9m aquele maldito tchic-tchic-tchic-tchic e a coisa engui\u00e7a totalmente antes da m\u00fasica ultrapassar 20 segundos. E depois n\u00e3o querem que baixemos m\u00fasica da internet! Bem, no caso desse disco, \u00e9 claro que n\u00e3o me acalmou os nervos saber que tenho-o tamb\u00e9m em mp3, e tampouco possuir a vers\u00e3o deluxe do *Three Imaginary Boys* me sossegou: apesar do *Boys Don\u0027t Cry* ser uma vers\u00e3o um pouco diferente do *TIB* (ele foi lan\u00e7ado nos EUA meio que como uma compila\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas do *TIB* e mais alguns singles que n\u00e3o entraram no tracklist deste \u00faltimo, ap\u00f3s a banda se tornar um sucesso comercial na Inglaterra), \u00e9 s\u00f3 no *BDC* que \u00e9 poss\u00edvel escutar *Killing an Arab*, j\u00e1 que nem no disco b\u00f4nus da vers\u00e3o deluxe do *TIB* ela entrou, desse vez por ser considerada uma m\u00fasica pol\u00eamica. E tamb\u00e9m tem o fato da *Jumping Someone Else\u0027s Train* estar enterrada l\u00e1 pro final do disco b\u00f4nus no *TIB* deluxe... Ou seja, n\u00e3o d\u00e1 de ficar sem o *Boys Don\u0027t Cry* na cole\u00e7\u00e3o. O *Three Imaginary Boys* \u00e9 o disco de est\u00fadio oficial, o primeiro da banda, e \u00e9 \u00f3timo, mas eu prefiro o *Boys Don\u0027t Cry*. O Cure \u00e9 uma banda que eu adoro, apesar de n\u00e3o escut\u00e1-los mais com muita frequ\u00eancia.\r\n\r\nE esse foi, na verdade, um m\u00eas praticamente inteiro dedicado somente \u00e0s minhas bandas mais queridas, e aos discos que s\u00e3o os meus portos seguros: Black Rebel Motorcyle Club, Smashing Pumpkins, Cure, Wilco, Pearl Jam; *In Utero*, *Are You Experienced* e *New Adventures in Hi-Fi*. Do Wilco escutei muito o *A Ghost Is Born*. Acho que pouca gente comenta isso, mas foi um verdadeiro milagre que depois de um disco espetacular como *Yankee Hotel Foxtrot*, a banda tenha lan\u00e7ado esse espantoso *A Ghost Is Born*, que na minha opini\u00e3o \u00e9 ainda melhor que o *Yankee Hotel Foxtrot*. \u00c9 um disco inteiramente fant\u00e1stico, de cabo a rabo, mas h\u00e1 uma m\u00fasica nele que se destaca de forma especial, sem maiores alardes, munida apenas de uma beleza tranquilizadora, \u00edmpar: a minha favorita *Hell is Chrome*. Eu tamb\u00e9m adoro a *Handshake Drugs* --- acho at\u00e9 que por algum tempo eu a tive como minha preferida oficial --- mas com o passar do tempo a *Hell is Chrome* foi se impondo, um pouquinho mais a cada vez que ela tocava no r\u00e1dio da minha consci\u00eancia, de onde as m\u00fasicas emergem meio que aleatoriamente durante o dia, e numa estat\u00edstica total consolidada, com todas as m\u00fasicas conhecidas por mim ao longo destes 37 anos de vida completados dias atr\u00e1s, \u00e9 garantido que a *Hell is Chrome* esteja entre as cinco primeiras mais tocadas, e \u00e9 das poucas que quando come\u00e7am costumam ir at\u00e9 o fim --- das primeiras notas ao piano e a voz serena de Jeff Tweedy, verso por verso, e depois aquele solo de guitarra ultra-torto vibrando sem pressa no sil\u00eancio, e o fim da can\u00e7\u00e3o, pl\u00e1cido como um lago num fim de tarde de ver\u00e3o --- e quase nunca ela se perde pela metade, ou se abrevia diante de outros pensamentos, outras m\u00fasicas, outros barulhos.\r\n\r\nE finalmente, passados quatro anos da compra --- durante esse tempo todo a caixa tendo permanecido intocada no arm\u00e1rio --- finalmente me assaltou tamb\u00e9m a vontade de voltar mais seriamente ao *Mellon Collie and the Infinite Sadness*, e resolvi ent\u00e3o explorar esta vers\u00e3o deluxe, ou estendida, ou especial, ou seja l\u00e1 qual o nome tenham dado \u00e0 paquid\u00e9rmica reedi\u00e7\u00e3o do *magnum opus* do Smashing Pumpkins. Puseram-no embalado num bel\u00edssimo produto, de capricho est\u00e9tico apurado, livretos enormes que exalam em quantidades ainda mais embriagantes aquele aroma de discos novos rec\u00e9m-abertos, e o conte\u00fado sonoro distribu\u00eddo em cinco CDs e um DVD. Inicialmente me ative aos dois discos originais mesmo, velhos conhecidos, e em alguns momentos senti recapturado o fasc\u00ednio da descoberta desta singular\u00edssima cole\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas, o que aconteceu h\u00e1 exatos 20 anos. \u00c9 um leque de m\u00fasica extraordin\u00e1ria e variada ainda n\u00e3o igualada nessa medida de extens\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o avassaladora, n\u00e3o? Lembro do choque das primeiras audi\u00e7\u00f5es, da compuls\u00e3o que foi me tomando gradualmente \u00e0 medida que eu compreendia que aquilo *era poss\u00edvel*; sim, *The Arms of Sleep* e *Tales of a Scorched Earth* num disco s\u00f3; sim, *Muzzle*, *Porcelina of the Vast Oceans* e *Thru the Eyes of Ruby* mirando o infinito, sem receios quanto a tudo que elas t\u00eam de exagerado e de enorme, porque \u00e9 isso a\u00ed, n\u00e3o h\u00e1 mesmo limites para o esp\u00edrito humano, ou se h\u00e1, ainda estamos muito longe de encontrar suas fronteiras. A plenitude de *Bodies* e  *Tonight, Tonight* a aniquilar t\u00edmpanos e sistemas pessoais de equil\u00edbrio. *33*, *Beautiful*, *1979*, *We Only Come Out at Nigh*: s\u00f3 o fato de existirem nessas suas formas imaginativas e extravagantes. \u00c9 um disco todo extravagante, na verdade --- na ambi\u00e7\u00e3o, na voz rasgada do cantor que parece gritar mais e mais na medida mesma que se d\u00e1 conta de quanto ela \u00e9 esquisita quando muito exigida, na aus\u00eancia de modera\u00e7\u00e3o e na coragem de enfileirar 24 m\u00fasicas que t\u00eam abismos a separ\u00e1-las, e assim o \u00e1lbum se descortina como essa paisagem ampla, mas tamb\u00e9m pontilhada de detalhes meticulosos, como que brechas para mundos abstratos noturnos, metaf\u00edsicos, um quadro em quatro dimens\u00f5es. E mais uma penca de adjetivos poder\u00edamos despejar aqui, mas chega. H\u00e1 discos menores melhores, por certo; h\u00e1, evidentemente, discos mais revolucion\u00e1rios; mas n\u00e3o h\u00e1 disco algum como o *Mellon Collie and the Infinite Sadness*. Ele meio que justifica a espiral de loucura e egocentrismo em que gradualmente se meteu o Billy Corgan depois de seu lan\u00e7amento. Justifica, seguramente, a posi\u00e7\u00e3o de meu disco n\u00famero 1, ainda.\r\n\r\nE pra citar rapidamente pelo menos um disco n\u00e3o pertencente \u00e0 categoria \u0022discos-ouvidos-j\u00e1-mais-de-uma-milh\u00e3o-de-vezes\u0022, na qual todos os citados acima se encaixam: tem essa banda Polvo que conheci recentemente atrav\u00e9s do disco *Exploded Drawing*. O som \u00e9 noventista cl\u00e1ssico salpicado com umas boas influ\u00eancias de Wire, naquilo que tem de minimalismo baixo-guitarra-bateria inventivo --- soando sempre t\u00e3o somente isso, mas ao mesmo tempo parecendo muito mais --- e tamb\u00e9m de PiL, a quem eu acho que, na verdade, a grande maioria das bandas do p\u00f3s-punk devem alguma coisa. Nesse sentido \u00e9 o oposto do *Mellon Collie and the Infinite Sadness*, o que n\u00e3o significa de modo algum que n\u00e3o seja \u00f3timo. [\u00c9 ou n\u00e3o \u00e9](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=JG5T251zXqo)? \u00c9 sensacional, e preciso procurar mais discos desses caras.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":671,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2016","post_timestamp":"2016-04-03T18:07:54+00:00","url":"2016_04_03_discos_do_mes_marco_de_2016","post":"Primeiro foi o Iron Maiden, uns meses atr\u00e1s, quando fiz uma contagem regressiva para o lan\u00e7amento do *The Book of Souls* ouvindo cada um dos discos da banda em ordem de lan\u00e7amento, um por dia, culminando na data em que o novo \u00e1lbum chegou \u00e0s lojas, quando ent\u00e3o comprei-o e passei a escut\u00e1-lo alucinadamente. Foram duas ou tr\u00eas semanas como uma crian\u00e7a aguardando ansiosamente e ent\u00e3o finalmente de posse e fascinada com seu brinquedo novo. Depois foi o Black Sabbath: nova maratona de audi\u00e7\u00e3o de discografia completa em ordem, desta vez em jornada paralela \u00e0 leitura da biografia da banda. Atravessei a coisa toda: *Tyr*, *Headless Cross*, *Forbidden*, etc. No fim, eu misturo os nomes de todos aqueles vocalistas e baixistas e bateristas contratados e demitidos e recontratados (n\u00e3o necessariamente nessa ordem) incont\u00e1veis vezes pelo Tony Iommi ao longo do tempo, mas foi bem legal. E ent\u00e3o, terminada a maratona do Sabbath, senti o foco do meu interesse mover-se gradualmente para uma outra pilha de discos da minha estante, a pilha que tem os discos do Metallica e do Sepultura.\r\n\r\nSepultura eu sempre ouvi com regularidade; Metallica, nem tanto. Com o Metallica eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o bem incomum: adoro o *Load*, o disco que 138% dos f\u00e3s detestam, mas eu verdadeiramente o considero um belo CD, j\u00e1 o disse aqui algumas vezes. Por outro lado, os idolatrados primeiros discos, esses eu custei at\u00e9 conseguir me interessar de verdade por eles. Lembro que nos tempos de col\u00e9gio eu tinha um amigo que os tinha todos, e eu frequentemente pegava com ele o *Master of Puppets* e o *\u2026And Justice for All* emprestados, mas aquilo nunca me caia bem: me soava um metal excessivamente quadrad\u00e3o, abrutalhado, ma\u00e7ante demais em sua total falta de nuance. Sem nenhum su\u00edngue, se \u00e9 que voc\u00eas me entendem. O *Ride the Lightning* tem *Creeping Death* e *For Whom the Bell Tolls*, ent\u00e3o n\u00e3o tem como n\u00e3o gostar, mas estes dois seguintes --- \u00edcones sagrados na Santa Ortodoxia Metaleira --- n\u00e3o eram m\u00fasica para mim, conclu\u00ed em algum momento daqueles anos feitos de poucos vinis e CDs e muitas fitas K7. Por\u00e9m, com o passar do tempo, sempre curioso em entender o culto prestado principalmente ao *Master of Puppets*, passei a me entender melhor com esse disco, e at\u00e9 mesmo a gostar dele; passei a apreciar essa massa avassaladora de guitarras que ainda me soa absurdamente opressiva e antiquada, mas tamb\u00e9m divertida e saciadora de algum apetite primitivo por trucul\u00eancia animalesca que talvez reste em nossos genes. E esse apetite esteve intenso aqui em casa recentemente, e foi al\u00e9m: durante alguns dias o CD (ao qual me rendi de vez e comprei no ano passado) transfigurou-se em um verdadeiro monolito extraterreno em minha estante, criando um campo gravitacional que frequentemente me apanhava e me levava at\u00e9 ele e me fazia colocar o CD no aparelho de som, para mais uma escutada naquelas m\u00fasicas s\u00f3lidas, colossais, de \u00e2ngulos resolutamente retos tal qual o artefato clarke-kubrikiano. \u00c9, enquanto o gosto da maioria das pessoas parece evoluir, o meu vai no sentido contr\u00e1rio, convergindo em dire\u00e7\u00e3o ao seja l\u00e1 o que for aquilo que seja correspondente ao zero em termos de capacidade de aprecia\u00e7\u00e3o musical... \r\n\r\nSobre o Sepultura, andei ouvindo muito o *Beneath the Remains* ([uma das capas de disco mais lindas de todos os tempos](http:\/\/www.vandohalen.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Sepultura-Beneath-The-Remains-Front.jpg)). Sou muito afei\u00e7oado ao Sepultura, em todas as suas fases --- das tosquices dos primeiros discos aos lan\u00e7ados com o Derrick Green ---, mas com admira\u00e7\u00e3o especial pelo lugar em que chegaram Max e o resto da banda antes de separarem seus caminhos, *Chaos AD* e *Roots*, esse \u00faltimo uma das coisas mais radicais e cat\u00e1rticas na hist\u00f3ria do metal, reafirmo isso para mim mesmo sempre que o escuto.\r\n\r\nMas n\u00e3o s\u00f3 de m\u00fasica xucra foi feito este meu \u00faltimo m\u00eas. Eu j\u00e1 tive o *Test for Echo* do Rush na minha cole\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o me lembro do que aconteceu com ele, se o perdi (improv\u00e1vel), ou emprestei e ele n\u00e3o me foi devolvido (talvez), ou troquei por alguma outra coisa em tempos de pouca grana e interesse por Rush esvaziado (deve ter sido isso). E esse disco \u00e9 m\u00fasica bonita por excel\u00eancia, n\u00e3o? \u00c9 inspiradora e altamente sinest\u00e9sica, pois me faz pensar naquela coisa da busca pela perfei\u00e7\u00e3o na escultura cl\u00e1ssica; um som de formas perfeitas, refinadas, idealizadas, que parecem flutuar por atmosferas mais limpas, muito longe da coisa rastejante suja de terra e sangue dos Sepulturas e Metallicas. Gosto muito do *Test for Echo*, apesar de ser provavelmente o Rush mais pop de todos, um Rush fofinho lavado com amaciante, mas gosto muito mesmo assim e resolvi ent\u00e3o tentar rep\u00f4-lo na cole\u00e7\u00e3o procurando primeiro nos sebos da cidade, mas em vez dele achei o *Permanent Waves*, de que tamb\u00e9m sou f\u00e3 e acabei comprando. \u00c9 um Rush fase intermedi\u00e1ria, que tem na fant\u00e1stica *Natural Science* um dos \u00faltimos suspiros progressivos da banda, e pelo menos duas faixas certeiras maravilhosas: *The Spirit of Radio* e *Freewill*. O *Test for Echo* eu n\u00e3o achei e acabei encomendando pelo Mercado Livre, deve chegar essa semana.\r\n\r\nE nos estertores deste verdadeiro festival de horrores que foi o Mar\u00e7o de 2016 no Brasil (com promessas de cap\u00edtulos ainda mais deprimentes a serem apresentados nos pr\u00f3ximos meses), redescobri o primeiro do Horrors, chamado *Strange House*. Quem conhece esse som? Eles costumavam ser uma vers\u00e3o alucinada do Cramps --- um Cramps rejuvenescido e de olhos esbugalhados injetados de sangue, com uns toques de dem\u00eancia a la Liars e a t\u00f4nica maluca californiana substitu\u00edda pelo g\u00f3tico ingl\u00eas --- de quem me tornei f\u00e3 desde a primeira escutada, e o segundo disco tamb\u00e9m \u00e9 bem legal, mas j\u00e1 indicava uma abrandada no som, ou uma amadurecida, algu\u00e9m poderia dizer, depois de passada alguma febre da juventude que tenha acometido os rapazes quando ainda podiam dedicar-se intensamente aos grandes \u00edcones da Inglaterra, a saber: cerveja, The Cure e Hammer Film Productions. O terceiro disco, para minha decep\u00e7\u00e3o, j\u00e1 parece mergulhado de cabe\u00e7a nessa moda da \u0022neo-psicodelia\u0022 e seus sons rarefeitos e insonsos perfeitos para as novas gera\u00e7\u00f5es das redes sociais, m\u00fasica de fundo para j\u00e1 um outro fundo, esse novo cimentado pelas not\u00edcias e memes e conversas ub\u00edquas e intermin\u00e1veis a manter as pessoas acorrentadas aos computadores e celulares... Mas talvez eu esteja sendo injusto, pois escutei-o poucas vezes, e talvez o contraste em rela\u00e7\u00e3o ao primeiro disco \u00e9 que tenha me brochado. Vou dar uma nova chance a ele, e tentar ouvir tamb\u00e9m o quarto e mais recente \u00e1lbum.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":670,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2016","post_timestamp":"2016-03-02T23:29:58+00:00","url":"2016_03_02_discos_do_mes_fevereiro_de_2016","post":"**Tangerine Dream - Sorcerer Soundtrack**\r\n\r\nTrilha-sonora do espetacular filme de William Friedkin, que se passa em uma floresta sul-americana n\u00e3o-identificada, um inferno verde cheio de amea\u00e7as e sortil\u00e9gios que os personagens principais do filme devem atravessar em condi\u00e7\u00f5es sinistr\u00edssimas. A m\u00fasica do Tangerine Dream \u00e9 essencial para a experi\u00eancia: como nas melhores cenas dos melhores filmes de Kubrick, Carpenter e Argento, ela instaura um clima maligno, enigm\u00e1tico, cheio de pren\u00fancios de calamidades. Um caso exemplar de casamento bem-sucedido entre som e imagem, mas d\u00e1 para apreciar tamb\u00e9m somente a trilha-sonora, que foi o que eu fiz v\u00e1rias vezes depois de ter visto o filme num dos dias do feriado de carnaval.\r\n\r\n**God Machine - One Last Laugh In A Place Of Dying...**\r\n\r\nO som dessa banda \u00e9 90s no talo, com excel\u00eancia em todos os itens essenciais daquele l\u00e9xico musical: as guitarras cheias de distor\u00e7\u00e3o e feedback, o melodrama das melodias e das altern\u00e2ncias de clima, a aspereza calculada e dissolvida para nunca chegar a ser m\u00fasica restrita a c\u00edrculos muito pequenos. At\u00e9 a entona\u00e7\u00e3o da voz do vocalista parece nos convidar para um teletransporte r\u00e1pido para um outro tempo e uma outra geografia, tempo de \u00e1pices e de ru\u00ednas diversas, tempo que j\u00e1 ficou h\u00e1 muito para tr\u00e1s na torrente da hist\u00f3ria. Mas \u00e9 esse o ponto: *One Last Laugh In A Place Of Dying...* \u00e9, pra mim, um dos discos daquela \u00e9poca que melhor resistiu aos anos, ali\u00e1s, o s\u00e3o os dois LPs dessa banda, que por uma lastim\u00e1vel injusti\u00e7a, nunca chegou a experimentar da mesma popularidade de tantas outras daquele per\u00edodo, algumas que n\u00e3o chegam nem aos p\u00e9s do God Machine. Mais lament\u00e1vel do que isso s\u00f3 a morte prematura do baixista, Jimmy Fernandez, que abreviou a carreira da banda e truncou sua discografia em apenas dois discos. Se n\u00e3o conhece, ou\u00e7a *In Bad Dreams*, *Painless* e *The Life Song* e junte-se ao f\u00e3-clube.\r\n\r\n**Black Sabbath - Dehumanizer**\r\n\r\nOverdose de Black Sabbath por aqui nos \u00faltimos tempos, eu sei. Se isso lhe desagrada, se voc\u00ea n\u00e3o gosta do grande Sabi\u00e1 Negro imortal --- se voc\u00ea n\u00e3o cultua essa banda e n\u00e3o reza pela sa\u00fade de Tony Iommi todos os dias antes de ir dormir --- ent\u00e3o n\u00e3o somos amigos. Lembro de quando esse disco foi lan\u00e7ado, no \u00e1pice do sucesso das bandas de Seattle, e falava-se da influ\u00eancia de Alice in Chains e Soundgarden no novo som do Sabbath. Ora, n\u00e3o fosse Tony Iommi, n\u00e3o haveria o grunge, ent\u00e3o esse tipo de correla\u00e7\u00e3o meio solta e superficial deveria ser um pouco mais elaborada, em respeito aos vener\u00e1veis precursores. E por mais que o timbre atualizado da guitarra de Iommi de fato pare\u00e7a sa\u00eddo do *Facelift* ou do *Badmotorfinger*, *Dehumanizer* soa feroz e brutal como banda nenhuma de Seattle jamais soou. Mesmo para os padr\u00f5es sabbathianos, \u00e9 um disco devastador, uma aula de metalz\u00e3o \u003Ci\u003Ebadass\u003C\/i\u003E dos infernos. Dio, em particular, est\u00e1 monstruoso: a performance mais intensa e amea\u00e7adora de sua fant\u00e1stica carreira, na minha opini\u00e3o. Uma pena o baixinho ter nos deixado t\u00e3o cedo. N\u00e3o tive (ainda?) a oportunidade de ver o Sabbath original, mas vi a vers\u00e3o Heaven \u0026 Hell em 2009 (a abutre Sharon Osbourne j\u00e1 tinha o controle do nome Black Sabbath naquela \u00e9poca, e obviamente n\u00e3o autorizaria que ele fosse usado sem que a m\u00famia do seu marido estivesse envolvida), a \u00faltima forma\u00e7\u00e3o com o Dio \u00e0 frente da banda, e foi uma \u00f3tima surpresa v\u00ea-los tocando algumas faixas do *Dehumanizer*. Da\u00ed tem a quest\u00e3o da mixagem do disco, que suscita discuss\u00f5es entre os f\u00e3s nos f\u00f3runs on-line: n\u00e3o vejo tantos problemas assim; posso concordar que soa um tantinho mais metalizada e abafada do que o necess\u00e1rio, e fosse um pouco mais direta e grosseira o \u00e1lbum talvez ficasse ainda melhor. Mas n\u00e3o \u00e9 nem de longe esquisito como a lama sonora do *Born Again* (que eu at\u00e9 acho que de maneira n\u00e3o-premeditada faz parte do charme do t\u00e3o subestimado \u00e1lbum com o Ian Gillan). Enfim, como vi algu\u00e9m escrever em algum lugar, um prisma poss\u00edvel para se considerar essas quest\u00f5es todas --- n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico \u00e1lbum do Sabbath a provocar esse tipo de discuss\u00e3o --- \u00e9 o da boa-ventura de se ter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o toda essa variedade de sonoridades dentro do longo cat\u00e1logo da banda. Para os aficcionados nesses detalhes, deve ser divers\u00e3o sem fim. E pra finalizar essa minha temporada Black Sabbath: uma pena, uma verdadeiramente muito grande e lament\u00e1vel pena que dever\u00e1 ser mesmo o *13* o cap\u00edtulo final da carreira fonogr\u00e1fica da banda, pois \u00e9 um disco muito fraco. O *The Devil You Know* (o disco \u00fanico lan\u00e7ado pelo Heaven \u0026 Hell), mesmo n\u00e3o trazendo Black Sabbath impresso na capa, teria sido um desfecho muito mais \u00e0 altura do legado da maior de todas as banda.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":669,"title":"Relato de uma festa","post_timestamp":"2016-02-09T02:16:34+00:00","url":"2016_02_08_relato_de_uma_festa","post":"Em fins de janeiro n\u00f3s fizemos uma festinha do vinil, eu e uns amigos: cada um levava quatro ou cinco discos de sua cole\u00e7\u00e3o particular, e ouv\u00edamos uma ou duas faixas de cada e fic\u00e1vamos substituindo os discos na vitrola e bebendo e rindo, e foi legal pra caramba. Alguns dos sons que tocamos: Oingo Boingo, Sepultura antig\u00e3o, Ratos de Por\u00e3o (*RDP ao Vivo*: disca\u00e7o), RPM tamb\u00e9m ao vivo (n\u00e3o sei o que dizer), Mot\u00f6rhead, Technotronic, Neurosis, Guns N\u0027 Roses, Erasure (nessa hora, algu\u00e9m que filmava trechos da festa me apontou a c\u00e2mera e me perguntou o que eu achava do Erasure, e eu queria muito lembrar qual foi a minha resposta, mas tenho medo de pedir para ver a grava\u00e7\u00e3o) e Roberto Carlos. Pois \u00e9, sempre tem que rolar a praga do Roberto Carlos. Duas figuras esdr\u00faxulas que me assombram desde as mais remotas lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia: S\u00edlvio Santos e Roberto Carlos, protagonistas frequentes daqueles deprimentes domingos da fam\u00edlia brasileira em frente \u00e0 TV, nossa mis\u00e9ria geral muito provavelmente elucidada atrav\u00e9s dos mesmos fundamentos que explicam tamb\u00e9m o prest\u00edgio de que gozam esses dois ainda hoje. Achei oportuno exp\u00f4r esta minha teoria antropol\u00f3gica para um ou dois amigos durante a festa, mas n\u00e3o lembro se eles compreenderam alguma coisa. O fato \u00e9 que l\u00e1 estavam alguns representantes da galera revisionista que ama o \u0022Roberto\u0022 --- assim o chamam com uma intimidade que me d\u00e1 calafrios ---, a turma que enxerga nele um g\u00eanio vanguardista ou sei l\u00e1 o qu\u00ea, e eu acho legal esse interesse em pesquisar e valorizar as coisas antigas de nosso pa\u00eds, de fato temos um acervo musical maravilhoso (a melhor parte infelizmente acessada e celebrada por apenas alguns poucos), mas Roberto Carlos, voc\u00eas t\u00eam certeza? Botaram para tocar um disco chamado *Em Ritmo de Aventura*, que pelo o que pude apreender \u00e9 a trilha-sonora de um filme de mesmo nome estrelado pelo pr\u00f3prio \u0022Rei\u0022, e o neg\u00f3cio era calamitosamente ruim, completamente ris\u00edvel para ser levado minimamente a s\u00e9rio --- na verdade, nem mesmo como momento c\u00f4mico aquilo funcionou para mim, pois tinha um tal n\u00edvel de repel\u00eancia constrangedora (antevis\u00f5es pessimistas de um Brasil destinado \u00e0 mediocridade espiritual eterna) que me obliterava completamente a possibilidade de relaxar e unir-me \u00e0s gargalhadas daqueles de ju\u00edzo mais equilibrado que encaravam aquela m\u00fasica como mera piada somente, nada de muito s\u00e9rio. \u0022Ah, mas naquela \u00e9poca\u0022, algu\u00e9m pode dizer... N\u00e3o. Em \u00e9poca alguma. Roberto Carlos j\u00e1 era t\u00e3o rid\u00edculo naquela \u00e9poca quanto \u00e9 hoje, isso est\u00e1 evidente na capa e na contra-capa deste disco e na m\u00fasica rocambolesca que emana dele. Mas acabei descobrindo que a coisa do revisionismo atinge graus ainda mais desvairados: captei trechos de uma conversa sobre a descoberta da discografia do... Ronnie Von. O primeiro disco do Ronnie Von \u00e9 pura psicodelia, algu\u00e9m garantiu, e eu fiquei pensando que isso s\u00f3 pode ser alguma esp\u00e9cie de del\u00edrio coletivo. Bem, entre as figuras esdr\u00faxulas adoradas pelos meus pais e por alguns lun\u00e1ticos da minha pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o, e as figuras esdr\u00faxulas adoradas por mim e todos os demais, essas \u00faltimas pelo menos faziam uma m\u00fasica melhorzinha, n\u00e3o? Um dos discos que eu levei foi o *Appetite for Destruction* do Guns N\u0027 Roses, um vinil em muito bom estado e com a capa original, aquela que foi censurada em algumas partes do planeta devido a uma pouco disput\u00e1vel hip\u00f3tese de [sugest\u00e3o de estupro](http:\/\/imagens.ailhadometal.com\/2012\/07\/appetite-for-destruction-guns-n-roses.jpg). A festa era tamb\u00e9m a despedida de um amigo nosso que mora na Su\u00ed\u00e7a e estava passando seus \u00faltimos dias de f\u00e9rias aqui na ilha, e quando ele viu esse meu disco, ele pirou: ando atr\u00e1s desse vinil h\u00e1 tempos, disse-me ele todo cobi\u00e7oso, dessa vers\u00e3o com essa capa, claro, e o olhar lascivo t\u00edpico dos record junkies j\u00e1 percorria a superf\u00edcie negra do disco para avaliar seu grau de preserva\u00e7\u00e3o. Parece que l\u00e1 pelas bandas do Velho Mundo a arte original do *Appetite for Destruction* foi trocada por aquela outra da [cruz com as caveiras](http:\/\/ecx.images-amazon.com\/images\/I\/71dkjEG4IwL._SL1200_.jpg), o que torna este meu exemplar bastante raro e desejado por l\u00e1. Da\u00ed veio a proposta para vend\u00ea-lo, o que eu a princ\u00edpio n\u00e3o estava muito a fim de fazer, mas ele insistiu e eu acabei cedendo, ap\u00f3s considerar que talvez n\u00e3o demorasse tanto assim at\u00e9 achar uma outra c\u00f3pia em bom estado e pre\u00e7o razo\u00e1vel, coisa que meu amigo j\u00e1 estava resignado de que n\u00e3o lhe aconteceria nunca na Su\u00ed\u00e7a. E eu nem fa\u00e7o tanta quest\u00e3o assim daquela capa. Enfim, acabei trocando-o por v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es deste meu camarada, que \u00e9 um \u00f3timo cartunista, e agendei mentalmente para a semana seguinte o in\u00edcio da ca\u00e7ada por um novo *Appetite for Destruction*. E a festa foi at\u00e9 altas horas regada a cerveja e vodca e eu aproveitava para ir ao banheiro ou lavar a lou\u00e7a quando botavam Roberto Carlos e se matavam de rir, todo mundo j\u00e1 meio b\u00eabado, mas nem b\u00eabado eu via gra\u00e7a naquilo, ainda mais que tinha uma porrada de disco legal empilhado ali. Na semana seguinte, nas primeiras explora\u00e7\u00f5es pelos sebos e negociantes de vinil da cidade (existe um mercado subterr\u00e2neo de discos de movimenta\u00e7\u00e3o bem intensa por aqui, ainda que eu tenha grandes restri\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao estado da grande maioria dos itens que essa galera negocia), nas primeiras inquiri\u00e7\u00f5es, nada; um ou outro boato sobre um *Appetite for Destruction* com esse ou com aquele, por\u00e9m nada se concretizava. Acabou que achei o CD bem barato, e decidi lev\u00e1-lo para t\u00ea-lo em casa enquanto n\u00e3o achava o vinil (pois esse disco n\u00e3o pode faltar de forma muito prolongada), uma situa\u00e7\u00e3o inicialmente provis\u00f3ria mas que acabou se tornando sem data para expirar, pois me dei muito bem com o CDzinho, tendo escutado-o seguidamente nas \u00faltimas semanas. Como a ess\u00eancia da coisa toda para mim ainda \u00e9 a audi\u00e7\u00e3o, e no caso do Guns nunca fez muita diferen\u00e7a para mim se o som vinha de um CD ou uma fita K7 ou um vinil, ent\u00e3o abortei por ora a ca\u00e7ada para a reposi\u00e7\u00e3o do vinil. E finalmente, sobre o disco, n\u00e3o preciso me estender muito: como \u00e9 sensacional! O in\u00edcio com *Welcome to the Jungle* \u00e9 um dos melhores da hist\u00f3ria do rock \u0027n\u0027 roll, e, bem, indo direto ao ponto, l\u00e1 na faixa n\u00famero nove est\u00e1 a *Sweet Child O\u0027 Mine*. Essa m\u00fasica \u00e9 incontest\u00e1vel, n\u00e3o? O que \u00e9 essa m\u00fasica? \u00c9 uma m\u00fasica que \u00e9 um g\u00eanero pr\u00f3prio ela sozinha, g\u00eanero fundado e definido e encerrado por ela mesma; uma m\u00fasica cuja singularidade e estranheza ficam praticamente obscurecidas pelo qu\u00e3o boa ela \u00e9, o qu\u00e3o bem funcionam juntas cada uma daquelas poucas linhas simples e l\u00edmpidas que a comp\u00f5em, arranjadas numa cad\u00eancia relaxada e meio sedativa, algo verdadeiramente \u00fanico, ficando apenas debilmente latente em algum canto perif\u00e9rico de nossa consci\u00eancia a percep\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 algo de ins\u00f3lito ali, alguma coisa que nos deixa levemente atentos desde o primeiro mil\u00e9simo de segundo e assim vai at\u00e9 o trecho final mais exaltado que confirma aquela sensa\u00e7\u00e3o incubada, e serve de fundo para o solo \u00e9pico de Slash, e o fim que fecha alguns dos minutos mais memor\u00e1veis de todo o universo da m\u00fasica pop. Ou talvez n\u00e3o seja nada disso, e seja somente um hit radiof\u00f4nico com profundas resson\u00e2ncias na minha inf\u00e2ncia, na minha e na de muitos dos meus amigos, que se p\u00f5em a cantar \u0022\u0022u\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4-u\u00f4u-u\u00f4u sweet child o\u0027 mine\u0022 e a imitar as dancinhas de Axl Rose com sorrisos de felicidade genu\u00edna na cara, que transcende os efeitos do \u00e1lcool, quando rola essa m\u00fasica na vitrola.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=o430hzH50S0).","author":{"name":"Fabricio C. 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E percebam que em mat\u00e9ria de dar nomes para suas bandas, pelo menos para isso os cidad\u00e3os catarinenses apresentam aptid\u00f5es admir\u00e1veis: Skrotes \u00e9 o melhor nome de banda de todos os tempos, descontando uns dois ou tr\u00eas outros que eu mesmo, que tamb\u00e9m sou catarinense, inventei para algumas certas bandas imagin\u00e1rias. Pena que para quase todo o resto somos uma nulidade e uma constrangimento total, principalmente para qualquer coisa que envolva pol\u00edtica: votamos pior, por exemplo, do que os moradores [desta cidade](http:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2015\/09\/prefeita-ostentacao-se-entrega-policia-federal-no-maranhao.html). Mas eu falava sobre os Apicultores: tava para comprar esse *Astronauta do Campo* em formato digital via [bandcamp](https:\/\/apicultoresclandestinos.bandcamp.com) (eu sei, uma insensatez total, mas eu queria ajudar os caras e n\u00e3o achava meios de comprar o CD) quando por acaso descobri que a ilustra\u00e7\u00e3o da capa foi feita por um [camarada meu](http:\/\/www.koostella.blogspot.ch), e da\u00ed consegui comprar o CD com ele. O disco \u00e9 do ano passado, e pena que s\u00f3 fui escut\u00e1-lo agora no come\u00e7o de 2016: teria entrado f\u00e1cil na listinha dos meus preferidos de 2015! Surf music fren\u00e9tica e chapada, perfeita para o ver\u00e3o.\r\n\r\n**Black Sabbath - Heaven and Hell**\r\n\r\nDessas coisas curiosas da vida de colecionador: amo essa banda, adoro esse disco, mas s\u00f3 uns poucos dias atr\u00e1s \u00e9 que fui ajunt\u00e1-lo \u00e0 minha pilha de CDs do Sabbath. Nenhuma raz\u00e3o especial para a demora: at\u00e9 ent\u00e3o, nunca havia se apresentado naturalmente a ocasi\u00e3o para compr\u00e1-lo. Meu modus operandi de colecionador costuma seguir os caminhos e descaminhos da opotunidade, sem metodologias muito r\u00edgidas: \u00e9 raro eu me organizar para completar uma discografia ou fazer pedidos ao mercado cibern\u00e9tico on-line. Vou seguindo meus interesses do momento sempre que me vejo em alguma loja que eu gosto e com alguma grana para dispensar ao v\u00edcio, conjun\u00e7\u00e3o de fatores que nunca antes havia resultado na compra do *Heaven and Hell*... Mas na minha \u00faltima visita \u00e0 Roots Records --- a loja de discos que sobrou em Florian\u00f3polis, que por sorte continua \u00f3tima --- preenchi finalmente esta lacuna, comprando uma simp\u00e1tica edi\u00e7\u00e3o nacional de 2012 em formato digipack, muito agrad\u00e1vel ao toque e cuja arte gr\u00e1fica se vale muito da aus\u00eancia dos reflexos das caixinhas de acr\u00edlico. Ainda assim, Black Sabbath, na minha opini\u00e3o, continua sendo para ouvir em vinil; o som da banda perde muito no CD. N\u00e3o sei explicar em termos t\u00e9cnicos, mas a guitarra de Iommi parece vacilar sutilmente em alguns momentos, como pequenos guinchos angustiados de um animal que se v\u00ea de repente em um ambiente que n\u00e3o \u00e9 o seu natural (pode ser tamb\u00e9m alguma imper\u00edcia na produ\u00e7\u00e3o desta edi\u00e7\u00e3o em particular, creio eu), e toda uma camada espectral setentista do som da banda parece eliminada na limpeza cristalina dos CDs (camada que pode ser apenas a poeira dos dois ou tr\u00eas velhos vinis que tenho ou ainda o poder da auto-sugest\u00e3o de outrora, tempos de imagina\u00e7\u00e3o mais f\u00e9rtil). Mas enfim, ter toda a discografia da banda em vinil \u00e9 um possibilidade distante, ent\u00e3o por ora, tudo bem. Este \u00e9 o meu Sabbath favorito depois dos seis primeiros cl\u00e1ssicos insuper\u00e1veis: a faixa-t\u00edtulo \u00e9 das coisas mais poderosas e arrebatadoras gravadas pela banda em toda sua longa carreira e a abertura com *Neon Knights* \u00e9 o cl\u00e1ssico justamente idolatrado que eu fico imaginando que, em 1980, quando os f\u00e3s o escutaram pela primeira vez, ele os fez imediatamente perderem seus temores pela sa\u00edda do Ozzy e esquecerem por algum tempo de *Paranoid*. Mas a minha favorita ainda \u00e9 a *Children of the Sea* com sua linda introdu\u00e7\u00e3o ac\u00fastica: dentre todas as can\u00e7\u00f5es do Sabbath com o Dio, ela s\u00f3 fica atr\u00e1s, na minha opini\u00e3o, da *The Sign of the Southern Cross*. O Dio era foda: o melhor cantor da hist\u00f3ria, pra mim. Estou gastando o CD de tanto toc\u00e1-lo aqui em casa, depois de uma vida toda escutando-o unicamente atrav\u00e9s de fitas K7 e computador!\r\n\r\n**David Bowie - Blackstar**\r\n\r\nNunca fui um grande f\u00e3 do David Bowie, mas \u00e9 claro que me chamou muita aten\u00e7\u00e3o este ato final de sua vida: no dia de seu 69\u00b0 anivers\u00e1rio, ele lan\u00e7a um disco; morre dois dias depois; por fim, ficamos sabendo que seu corpo foi cremado numa cerim\u00f4mia secreta sem a presen\u00e7a de ningu\u00e9m, nem da fam\u00edlia e nem dos amigos mais pr\u00f3ximos, pois assim ele havia solicitado que fosse feito. Ou seja, nada de cerim\u00f4nia f\u00fanebre, enterro, como\u00e7\u00f5es p\u00fablicas espetaculosas: sua despedida foi, efetivamente, um \u00e1lbum. E depois ele se foi, discretamente. Fant\u00e1stico, n\u00e3o? Da\u00ed que fiquei curioso para escutar esse disco, a despeito de sequer ter escutado aquele anterior lan\u00e7ado com grande pompa e estardalha\u00e7o em 2013, o *The Next Day*. E que sensacional \u00e9 este *Blackstar*! \u00c9 realmente tudo que andam escrevendo por a\u00ed. Tem uma nota melanc\u00f3lica que ganhou, evidentemente, um sentido especial (\u0022I can\u0027t give everything... away... I can\u0027t give everything... away...\u0022, \u00e9 o apelo contidamente desesperado e solit\u00e1rio dos \u00faltimos segundos da \u00faltima faixa), e um andamento e uma unidade que prendem a aten\u00e7\u00e3o do in\u00edcio ao fim. Ouso dizer que tem at\u00e9 mesmo essa virtude rara e essencial dos grandes discos, de ser um pequeno mundo em si pr\u00f3prio, com sua natureza exclusiva e inclassific\u00e1vel, aut\u00f4noma e absorvente. \u00c9 claro que eu n\u00e3o ignoro que estes s\u00e3o todos predicados que os f\u00e3s e a cr\u00edtica sempre atribu\u00edram \u00e0 obra de Bowie, e que s\u00f3 muito tardiamente eu pare\u00e7o estar reconhecendo, com meu senso cr\u00edtico talvez meio afrouxado pela morte do cara... Mas o fato \u00e9 que mesmo agora n\u00e3o sinto vontade alguma de explorar mais atentamente sua discografia pregressa, cuja grande maioria dos \u00e1lbuns eu ouvi apenas uma ou duas vezes e os descartei por total falta de interesse (somente de uns tr\u00eas ou quatro posso dizer que verdadeiramente gostei e mantenho-os na minha cole\u00e7\u00e3o digital para algumas audi\u00e7\u00f5es ocasionais), enquanto que esse *Blackstar* me fascinou de imediato e me fez refletir com enlevo sobre este nosso pequeno-grande drama cotidiano da vida e da morte, que \u00e9 ao mesmo tempo tudo para cada um de n\u00f3s, e absolutamente nada para o universo. Um disco encharcado de morte para celebrar a vida, afinal, como dizia o Saramago, \u0022a morte serve para que possamos continuar a viver\u0022.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":666,"title":"Janeiro 2016","post_timestamp":"2016-01-19T20:10:51+00:00","url":"2016_01_19_janeiro_2016","post":"Viramos um ano e eu cada vez mais indiferente \u00e0s festas, ao ponto hoje enxergar os anos como meras representa\u00e7\u00f5es humanas do tempo. Tempo este que podemos, mesmo ele, questionar. Ele realmente existe? Bom, facilitando minha vida, deixo esse tipo de d\u00favida de lado e convenciono essa \u00e9poca como um feriado prolongado onde tenho o prazer cada vez maior de ver a cidade vazia e entrar num ritmo que me dou o direito de improvisar na hora. Os discos a seguir me acompanharam na academia, no carro ao trafegar vers\u00f5es semidesertas das ruas da cidade e em casa, quando soam ainda mais intimistas e detalhados. Bom ano para quem gosta de organizar a vida dentro dessas fatias de trezentos e sessenta e cinco dias.\r\n\r\n**Lift To Experience** : *The Texas Jerusalem Crossroads* (2001, Bella Union)\r\nAp\u00f3s sua fase de celebra\u00e7\u00e3o \u2013 quando o Lift To Experience ensaiou uma certa proemin\u00eancia no in\u00edcio daquela d\u00e9cada, *The Texas Jerusalem Crossroads* imergiu no esquecimento cercado por uma aura *maldita*, contr\u00e1ria a todas as expectativas.  A banda esvaiu-se em cinzas e seu interlocutor, Josh T. Pearson, seguiu errante em subempregos, acolhido por seitas religiosas, sugado pela crueza da vida real que as cr\u00edticas sobre seu disco jamais sugeririam. Mas h\u00e1, de fato, algo no \u00e1lbum que suscita reden\u00e7\u00e3o e grandiosidade florescendo a partir do amargor da realidade, um som intenso criado a partir da simplicidade de guitarra, baixo e bateria que adquire ares m\u00edticos, messi\u00e2nicos. \u00c9 imposs\u00edvel mergulhar em suas longas faixas sem o comprometimento com algo maior, sem a dedica\u00e7\u00e3o de tentar percorrer o contexto fabuloso-religioso das letras, sob pena de n\u00e3o se extrair todos os estados de esp\u00edrito que *The Texas Jerusalem Crossroads* desperta. Repleto de refer\u00eancias musicais provenientes do *indie rock* e ambienta\u00e7\u00e3o com um qu\u00ea da aridez texana, eis um disco que por vias ordin\u00e1rias mergulha o ouvinte num longo universo fant\u00e1stico como apenas grandes \u00e1lbuns conseguem fazer.\r\n\r\n**Jay Z** : *Magna Carta Holy Grail* (2013, Universal)\r\nEsse disco tem o perfil de tantos outros discos que eu n\u00e3o consigo n\u00e3o odiar. Produzido por *hitmakers* como Timbaland, conta com a participa\u00e7\u00e3o de \u201cartistas\u201d do naipe de Justin Timberlake (a primeira voz a ser escutada em *MCHG*) e Beyonc\u00e9. O pr\u00f3prio Jay Z j\u00e1 n\u00e3o contava com minha simpatia desde os tempos de MTV quando figurava nos v\u00eddeos com o Linkin Park. Enfim, como a primeira impress\u00e3o \u00e9 a que fica, enquadrei o rapper no grupo *mainstream*, suscet\u00edvel a manobras das grandes gravadoras e h\u00e1 tempos desvinculado da vida pregressa nos guetos. Mas escutei ocasionalmente uma das m\u00fasicas do disco na NTS Radio (* FuckWithMeYouKnowIGotIt*) e algo co\u00e7ou meu ouvido. Fui atr\u00e1s do disco e al\u00e9m de reconhecer que quase sua totalidade \u00e9 musicalmente atraente, fui surpreendido com o conceito ir\u00f4nico sobre o estilo de vida multimilion\u00e1rio de Jay Z ao inv\u00e9s duma confrot\u00e1vel tentativa de forjar mais um in\u00f3cuo e question\u00e1vel cap\u00edtulo sobre metralhadoras quando seu cotidiano est\u00e1 indubitavelmente voltado para champagnes, caviares e eventos sociais. *Magna Carta Holy Grail* \u00e9 um bom disco de hip-hop, recheado de esc\u00e1rnio, que ao menos permite visualizar Jay Z com ares de artista e rapper competente que, devo admitir, ele \u00e9. Uma boa oportunidade para rever conceitos.\r\n\r\n**Diiv** : *Is The Is Are* (2016, Captured Tracks)\r\nJ\u00e1 escrevi (algumas?) vezes sobre o Diiv e sobre como *Oshin*, seu primeiro \u00e1lbum, \u00e9 subestimado. Trata-se de um disco que al\u00e9m de revelar a banda, a consolida e, pelo menos por aqui, segue em cont\u00ednua rota\u00e7\u00e3o. As expectativas para o \u00e1lbum seguinte, de gesta\u00e7\u00e3o supostamente tortuosa em virtude dos problemas pessoais do protagonista Zachary Cole Smith, eram pulsantes, ao ponto de *Is The Is Are* ser alvo de uma ansiedade que h\u00e1 tempos eu n\u00e3o lembro de ter nutrido por \u00e1lbum algum. Ansiedade essa substitu\u00edda por uma recompensadora satisfa\u00e7\u00e3o no apagar das luzes de 2015, quando o disco chegou \u00e0 web. *Is The Is Are* mant\u00e9m amarras com seu antecessor atrav\u00e9s do clima que resvala para a *surf music* dos anos 80 fundida com o *guitar rock* dos 90. Mas os ecos de *shoegaze* e *dream pop* enfraqueceram, dando lugar ao *post punk* que em v\u00e1rias passagens se encaixariam tranquilamente num disco do The Cure e, de fato, fazem do disco um cap\u00edtulo mais obscuro no curto curr\u00edculo do Diiv. *Is The Is Are* \u00e9 um \u00e1lbum mais encorpado, melhor pensado e concebido, sem a percept\u00edvel urg\u00eancia que caracteriza *Oshin*. E o que ele oferece de mais encantador \u00e9 a dualidade entre o *upbeat* que conduz o som do Diiv e uma n\u00e9voa sombria que o adorna de ares g\u00f3ticos, como sair para passear num dia ensolarado sem que o esplendor do dia seja capaz de amenizar as ang\u00fastias que pairam no ar. Talvez o disco passe sem grandes repercuss\u00f5es para quem n\u00e3o nutre algum carinho por *Oshin*ou, ao conhecer a banda, considere-a apenas mais um grupo a ser escutado e esquecido. Mas para os que se identificaram com esses nova-iorquinos, *Is The Is Are* chegou para ocupar boas horas de audi\u00e7\u00e3o no ano que come\u00e7a.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":665,"title":"2015","post_timestamp":"2016-01-11T15:36:52+00:00","url":"2016_01_11_2015","post":"**Kendrick Lamar** : *To Pimp A Butterfly* (TDE \/ Aftermath \/ Interscope)\r\nN\u00e3o foi necess\u00e1rio muito esfor\u00e7o nem recontagens para eleg\u00ea-lo meu disco do ano. Se eu usasse alguma ferramenta de estat\u00edsticas de *plays*, *To Pimp A Butterfly* estaria ali com o *hi-score* de execu\u00e7\u00f5es, f\u00e1cil. Um disco que pessoalmente abriu o interesse para uma mir\u00edade de outros discos de hip-hop mas sem que as alternativas (algumas excelentes, por sinal) amea\u00e7assem seu reinado. Revivendo o conceito de \u00e1lbum, onde as m\u00fasicas se complementam e conduzem o ouvinte por um fluxo cont\u00ednuo de questionamentos at\u00e9 um derradeiro e acachapante desfecho, *Butterfly* \u00e9 um petardo. Produzido \u00e0 exaust\u00e3o e \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, apropria-se de m\u00faltiplos g\u00eaneros musicais que desafiam o conceito de que o hip-hop tende a ser redundante e cansativo. Kendrick incorpora personagens, alterna ritmos, adapta-se aos espa\u00e7os dispon\u00edveis, berra, gargalha, se embriaga. Levanta s\u00e9rias reflex\u00f5es sobre o papel dos negros na Am\u00e9rica do Norte e sobre a necessidade de interagirem positivamente entre si como o primeiro passo para despertarem sua autovaloriza\u00e7\u00e3o. Uma obra de arte audaciosa e grandiosa. Um obra-prima para a m\u00fasica contempor\u00e2nea.\r\n\r\n**Deafheaven** : *New Bermuda* (Anti)\r\n*New Bermuda* foi uma das grandes expectativas de 2015. Em 2012 *Sunbather* jogou o Deafheaven nas gra\u00e7as dos indies e convenceu metaleiros que a possibilidade de combinar a velocidade do black metal com a ambi\u00eancia do post rock e shoegazing n\u00e3o comprometeria a reputa\u00e7\u00e3o do mais obtuso dos cabeludos. *New Bermuda* seria ent\u00e3o o tipo de disco que ou se contentaria em circundar os arredores do \u00e1lbum predecessor, ou partiria dali em busca de novos sons. Felizmente, o disco revelou uma banda flex\u00edvel e entrosada, soando mais el\u00e1stica e diversificada do que no \u00e1lbum que a exp\u00f4s. Curiosamente, flerta com riffs cl\u00e1ssicos de metal, deixa os vocais, agora mais din\u00e2micos, em evid\u00eancia e, \u00f3bvio, n\u00e3o abre m\u00e3o das transi\u00e7\u00f5es entre as massas sonoras e os interl\u00fadios mel\u00f3dicos que marcam as composi\u00e7\u00f5es do Deafheaven. *New Bermuda* superou *Sunbather*, algo praticamente impensado, al\u00e9m de colocar a banda no pante\u00e3o do metal moderno. Viciante.\r\n\r\n**Craft Spells** : *Our Park By Night* (Captured Tracks)\r\nUm 7\u201d com apenas uma m\u00fasica. \u201cApenas\u201d \u00e9 quase uma sacanagem pois trata-se da minha m\u00fasica pop preferida de 2015.\r\n\r\n**Sunn O)))** : *Kannon* (Southern Lord)\r\nDif\u00edcil ignor\u00e1-los em qualquer circunst\u00e2ncia, basta acompanhar o *frenesi* que o an\u00fancio de suas turn\u00eas e novos \u00e1lbuns ainda provoca. Incr\u00edvel como a dupla segue relevante e solicitada fazendo sons que teoricamente n\u00e3o despertariam o interesse por mais de dois \u00e1lbuns. Mas Anderson e O\u0027Malley s\u00e3o acima de tudo incorrig\u00edveis e reinventam o Sunn O))) conduzindo-o a algo diferente, inusitado, desafiador. Claro, suas colabora\u00e7\u00f5es escolhidas a dedo apenas enaltecem sua reputa\u00e7\u00e3o e os apresentam a novos p\u00fablicos, eruditos o suficiente para passar a acompanh\u00e1-los e ampliar o que seria apenas uma sobrevida para bandas \u0022comuns\u0022. Seus trabalhos recentes com o Ulver e Scott Walker aferiram essa reputa\u00e7\u00e3o e, combinados com a guinada representada por *Monoliths\u0026Dimensions* em 2012, desfiguraram o som da banda ao ponto do Sunn O))) n\u00e3o poder mais ser rotulado com seu mais cl\u00e1ssico conceito: o das guitarras pesad\u00edssimas em busca da manifesta\u00e7\u00e3o de um nirvana negro. Vale lembrar que antes de chegar em *Kannon*, o Sunn O))) lan\u00e7ou dois LPs de demos que remetiam aos prim\u00f3rdios do projeto, calcados apenas em guitarras saturadas. Os *Rehearsal Demos* j\u00e1 davam, de fato, a t\u00f4nica de *Kannon* que \u00e9 um resgate das origens do Sunn O))), um reencontro com o n\u00facleo sonoro que nunca se perdeu mas acabou dissolvido nas metamorfoses dos \u00faltimos trabalhos. *Kannon* \u00e9 um resgate que reacende o poderio da dupla e sua *expertise* num ramo sonoro facilmente emul\u00e1vel e fadado ao cansa\u00e7o, com destaque para hoje indissoci\u00e1vel atua\u00e7\u00e3o de Attila Csihar protagonizando os vocais \/ mantras.\r\n\r\n**Black Wing** : *Black Wing ...Is Doomed* (Flenser)\r\nJ\u00e1 citei Dan Barrett por aqui e se compilarmos, veremos que sempre que o menciono tenho dificuldades para conter minha empolga\u00e7\u00e3o com sua m\u00fasica. Seja atrav\u00e9s do incr\u00edvel Have A Nice Life ou do projeto Giles Corey, Barrett lan\u00e7ou obras que, no universo musical que pratica, s\u00e3o cl\u00e1ssicos contempor\u00e2neos indispens\u00e1veis. Em *Black Wing* Dan se concentra na instrumenta\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica, com ra\u00edzes na forma oitentista de fazer m\u00fasica, por\u00e9m, com a ang\u00fastia e desilus\u00e3o caracter\u00edsticas de seus outros projetos. Apesar da suposta impessoalidade inerente \u00e0 eletr\u00f4nica, *... Is Doomed* n\u00e3o se afasta muito do *post-punk*, nem do clima de trevas que se esperaria de Barrett mas, novamente, tem-se um \u00e1lbum onde tudo acontece perfeitamente e se extrai grandes momentos que o consolidam como mais um disco indispens\u00e1vel.\r\n\r\n**Dr. Dre** : *Compton* (Aftermath \/ Interscope)\r\nDr. Dre \u00e9 uma das lendas vivas que transformaram o hip-hop num g\u00eanero f\u00e9rtil em ideias e dotado de crescente popularidade. *Compton* chegou emparceirado com a filme-biografia do NWA, banda de gangsta rap seminal da qual Dre foi membro ativo e que o oportunizou desencadear sua respeitada carreira de produtor e artista solo. O \u00e1lbum ultrapassa o estigma de ser o resultado de cerca de quinze anos de gest\u00e3o, nascido das cinzas de *Rehab*, um longo projeto que acabou engavetado, apresentando-se como uma avassaladora representa\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o que Dre ajudou a forjar desde os tempos em que atuava como DJ, nos prim\u00f3rdios do NWA. Apesar da alcunha, o \u00e1lbum n\u00e3o gira em fun\u00e7\u00e3o do ego de seu autor, ao contr\u00e1rio, parece muito mais um ve\u00edculo para Dre exercitar sua voca\u00e7\u00e3o de produtor e contar com a contribui\u00e7\u00e3o de seus rappers preferidos para contextualizar as m\u00fasicas. A jornada inclui nomes dos prim\u00f3rdios de sua carreira (Ice Cube, men\u00e7\u00f5es a Eazy-E), grandes rappers que estouraram por sua m\u00e3o (Snoop Dogg e Kendrick Lamar) e promessas que n\u00e3o surpreender\u00e3o se seguirem o mesmo caminho (Anderson .Paak). *Compton* \u00e9 um comp\u00eandio que comemora o passado e ao mesmo tempo projeta o futuro, reunindo diferentes d\u00e9cadas e subg\u00eaneros de hip-hop, conduzido com a maestria irrefut\u00e1vel de seu mentor.\r\n\r\n**Sumac** : *The Deal* (Sige \/ Profound Lore)\r\nAaron Turner e o baterista dos Bapstists, Nick Yacyshyn, enchem um container com *hardcore*, *thrash* e *mathcore * e o despejam sobre voc\u00ea. *The Deal* \u00e9 um conciso disco de metal que por vezes chega a lembrar a rispidez dum Old Man Gloom, por\u00e9m, sem senso de humor. A performance de Yacyshyn \u00e9 o ponto alto do Sumac, uma contundente ebuli\u00e7\u00e3o em forma de bateria, que enche o espa\u00e7o e deixa tudo muito confort\u00e1vel para as guitarras brutais e urros de Turner. Um disco que \u00e9 pura energia em toda sua extens\u00e3o.\r\n\r\n**Kamasi Washington** : *The Epic* (Brainfeeder)\r\nBem, *The Epic* \u00e9 um disco de jazz, no talo, sem prefixos de tipo *neo* ou *post*. H\u00e1 uma cl\u00e1ssica (e pol\u00eamica) brincadeira (com todos os fundos de verdade, dependendo de como se encara o contexto) que diz que \u201co jazz \u00e9 um g\u00eanero fant\u00e1stico para quem est\u00e1 tocando na banda\u201d ou algo assim, sugerindo que para os ouvintes seria, no m\u00ednimo, desinteressante. E a partir dessa natureza supostamente in\u00f3cua do jazz, seus apreciadores automaticamente estariam abra\u00e7ados em discos dos quais \u00e9 mais *cool* gostar do que efetivamente ouvir. Dentro desse contexto, o que chama aten\u00e7\u00e3o em *The Epic*? Primeiramente, Kamasi Washington veio \u00e0 tona gra\u00e7as a sua participa\u00e7\u00e3o nos arranjos do multiplatinado *To Pimp A Butterfly*, despertando o interesse de um p\u00fablico contempor\u00e2neo que teoricamente n\u00e3o consome discos de jazz. Segundo, sua busca \u00e9 longe de ser modesta: o \u00e1lbum acomoda dezessete longas m\u00fasicas executadas por uma orquestra de trinta e dois m\u00fasicos e um coral de vinte cantores, uma verdadeira usina sonora. E sua arte majestosa distribu\u00edda em tr\u00eas LPs graficamente fant\u00e1sticos \u00e9 o complemento que faz um interessado bater o martelo e imergir em nada menos do que duas horas e cinquenta e quatro minutos de uma mir\u00edade de subg\u00eaneros jazz\u00edsticos, onde basta apenas deixar-se levar por um gigante universo de sons, ritmos e sensa\u00e7\u00f5es. Para os novatos, uma bela porta de entrada. Para os calejados, uma obra que n\u00e3o deixa a desejar para discos de grandes nomes que provavelmente influenciaram Kamasi em sua trajet\u00f3ria.\r\n\r\n**Mamaleek** : *Via Dolorosa* (Flenser)\r\nO \u00e1lbum anterior dessa dupla j\u00e1 era de dif\u00edcil digest\u00e3o: *black metal*, *noise* e *eletr\u00f4nica* desenfreados, onde se criava um clima no m\u00ednimo ca\u00f3tico. *Via Dolorosa* \u00e9 muito melhor delineado e ao inv\u00e9s de atirar para todos os lados, parte de uma combina\u00e7\u00e3o de *jazz* (?!) e metal para consolidar um trabalho bastante criativo e convincente. Em tempos onde se mistura tudo com qualquer coisa, um disco onde as coisas funcionam do come\u00e7o ao fim \u00e9 digno de nota.\r\n\r\n**The Soft Moon** : *Deeper* (Captured Tracks)\r\nLuis Vasquez fez do Soft Moon um projeto consistente em seus discos anteriores. Eram bons, por\u00e9m, deixavam a impress\u00e3o de que algo deveria ser cavado mais profundamente para se chegar em um som mais vigoroso, capaz de suscitar uma melhor posteridade e repetidas audi\u00e7\u00f5es. *Deeper* chegou finalmente nesse est\u00e1gio, onde Vasquez encontra um DNA robusto e o forja com sua combina\u00e7\u00e3o de *post punk* e *eletr\u00f4nica* oitentista. Deixada para tr\u00e1s a tend\u00eancia \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o e um demasiado distanciamento do ouvinte, o Soft Moon acabou bem mais org\u00e2nico e convidativo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":664,"title":"New grass","post_timestamp":"2016-01-02T01:38:07+00:00","url":"2016_01_01_new_grass_1","post":"O \u00faltimo disco escutado em 2015 foi o *Laughing Stock*, do Talk Talk. Coloquei-o para tocar enquanto jant\u00e1vamos nas \u00faltimas horas de ontem, para abafar o som dos roj\u00f5es que os mais afobados j\u00e1 faziam explodir na rua antes mesmo da virada do ano, e tamb\u00e9m, claro, por ser um disco maravilhoso, sempre um dos mais cotados para servir de trilha-sonora para qualquer ocasi\u00e3o especial aqui em casa. Faz alguns anos j\u00e1 que a nossa tradi\u00e7\u00e3o de ano novo \u00e9 o recolhimento, o sossego assegurado pela maior dist\u00e2ncia poss\u00edvel das multid\u00f5es e das festas de pessoas vestidas de branco. Quero dizer, pelo menos assim tentamos, j\u00e1 que a paz \u00e9 sempre relativa com esse tanto de gente obstinada em invadir todos os espa\u00e7os poss\u00edveis, mesmo os privados, com suas maneiras estrondosas de comemorar seja l\u00e1 o que for... Bem, fizemos o poss\u00edvel. A noite passou e hoje, no primeiro dia do ano, acordei cedo e da sacada do apartamento me maravilhei com a m\u00e1gica operada nesse intervalo: a manh\u00e3 estava fresca e silenciosa, apenas os p\u00e1ssaros pareciam celebrar alguma coisa (como o fazem todas as manh\u00e3s), tudo em total e generosa oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 balb\u00fardia e ao calor intenso do dia anterior; na verdade, muito melhor do que isso: n\u00e3o houve m\u00e1gica nenhuma, foi apenas a noite com suas propriedades naturais que repousou seu manto sobre n\u00f3s e renovou tudo mais uma vez ao retir\u00e1-lo, totalmente indiferente \u00e0s nossas tramas de n\u00fameros e calend\u00e1rios e novas designa\u00e7\u00f5es temporais --- tudo uma grande ilus\u00e3o que se ao menos servisse para nos estimular algum senso de aprimoramento, mas ultimamente tem me parecido que nem isso, e as inten\u00e7\u00f5es para o ano novo se restringem cada vez mais ao descomedido consumismo que nos \u00e9 inoculado diuturnamente pela publicidade que se v\u00ea por toda parte e aos clich\u00eas vazios e intang\u00edveis de sempre. O CD do Talk Talk estava ainda dentro do aparelho de som e a sua caixinha de p\u00e9 sobre a mesa, e resolvi escut\u00e1-lo novamente, dessa vez com os fones de ouvido, para preservar ao m\u00e1ximo o sil\u00eancio fora de mim, e deitei-me na rede para apreciar a m\u00fasica com a maior aten\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. J\u00e1 escrevi aqui algumas vezes sobre esse disco, nunca com a pretens\u00e3o de dar justa dimens\u00e3o de sua beleza pois isso seria miss\u00e3o imposs\u00edvel, mas h\u00e1 uma outra coisa que sempre me ocorre quando eu o escuto, um aspecto enigm\u00e1tico que o torna ainda mais encantador: \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de que essa m\u00fasica n\u00e3o se assemelha em nada com um fruto de nossa \u00e9poca, desses nossos tempos de fins do s\u00e9culo passado para c\u00e1. Passados 25 anos de seu lan\u00e7amento, ela continua muito al\u00e9m das gnoses contempor\u00e2neas, das nossas capacidades coletivas de aten\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o, deslocada deste tempo-espa\u00e7o como a melhor garrafa da melhor safra do melhor vinhedo toscano sendo servida a um bando de primatas pr\u00e9-neandertais enquanto devoram as v\u00edsceras de um b\u00fafalo morto, dividindo a refei\u00e7\u00e3o com hienas e urubus; uma m\u00fasica cujos precedentes necess\u00e1rios para sua exist\u00eancia eu diria que, na melhor das hip\u00f3steses, ainda est\u00e3o sendo gestados pela humanidade em algum lugar remoto que segue oculto de nossa percep\u00e7\u00e3o consciente geral, excetuando-se talvez a dos poetas, antena da ra\u00e7a, como dizia Ezra Pound. \u00c9 uma pena que estejamos longe ainda, muito longe, de sermos uma civiliza\u00e7\u00e3o de leitores, que diria de poetas; ainda n\u00e3o atingimos o grau necess\u00e1rio de evolu\u00e7\u00e3o espiritual que torne conceb\u00edvel e natural ter com mais frequ\u00eancia uma m\u00fasica dessa beleza e cad\u00eancia entre n\u00f3s. Por\u00e9m, de um ponto de vista mais otimista, pode-se interpretar tamb\u00e9m esse disco como uma esp\u00e9cie de rara muta\u00e7\u00e3o que nos antecipa uma venturosa possibilidade de porvir, uma mensagem presciente de f\u00e9 no futuro, f\u00e9 de que iremos em algum momento, enfim, transcender os roj\u00f5es e fogos de artif\u00edcio, a necessidade de fartura e de cerim\u00f4nias empoladas de todos os tipos, os congestionamentos e as buzinas, o modo p\u00fablico e privado de fazer as coisas que s\u00f3 faz revelar que \u00e9 em um infind\u00e1vel oceano de mesquinharia que nadam as aspira\u00e7\u00f5es pessoais da maioria de n\u00f3s, todos diretamente respons\u00e1veis pelo notici\u00e1rio intermin\u00e1vel sobre gan\u00e2ncia e usura mas cegos e ego\u00edstas demais para perceber isso. De que iremos um dia ter a serenidade necess\u00e1ria para perceber as coisas que est\u00e3o desde sempre a flutuar pelo espa\u00e7o, a habitar o sil\u00eancio, por entre n\u00f3s e por entre as estrelas --- coisas que nossos sentidos ainda est\u00e3o embotados demais para perceber.\r\n\r\nPor ora, eu proporia o seguinte: a cada ser humano que nascer, que se d\u00ea de presente uma c\u00f3pia desse disco, e a recomenda\u00e7\u00e3o --- assumo plenamente o risco de soar piegas --- de que se deite mais sobre a grama, que se olhe mais para o c\u00e9u e para o mar, que se diminua um pouco esse tanto de coisa a nos ofuscar a vis\u00e3o. Ou que tomemos isso tudo como inten\u00e7\u00f5es para o ano novo. Quem sabe assim aceleramos um pouco o processo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](http:\/\/tophdimg.com\/sun-rise-in-mountains.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Ouvi tamb\u00e9m, enfim, os lan\u00e7amentos deste ano do Wire e do Modest Mouse, somente umas duas ou tr\u00eas vezes cada um deles, mas foi o que bastou para inclu\u00ed-los em minha [pequena lista de melhores de 2015](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2015_12_26_meus_sete_discos_preferidos_de_2015). O do Wire acabou puxando a audi\u00e7\u00e3o de outros discos mais antigos da banda, e deles venho me tornando gradualmente um f\u00e3 entusi\u00e1stico. Na sexta-feira dia 25, dia de Natal, bem cedo coloquei para tocar o *A Charlie Brown Christmas*, movido muito menos por sentimentos de tradi\u00e7\u00e3o do que por ser simplesmente um disco fant\u00e1stico. Ok, talvez um resqu\u00edcio de sentimento natalino tamb\u00e9m, devo admitir. De resto, a \u00fanica coisa minimamente disciplinada e atenta que eu poderia citar vem da audi\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie cronol\u00f3gica que venho empreendendo da discografia do Black Sabbath, em paralelo \u00e0 leitura da biografia sab\u00e1tica escrita pelo jornalista Mick Wall, cujo curr\u00edculo, a Wikipedia me informa, \u00e9 composto de livros sobre Iron Maiden, AC\/DC, Metallica e Guns N\u2019 Roses --- \u00e9, portanto, um cara do mundo do rock mainstream. Seu texto \u00e9 bem fraquinho, em termos de qualidade liter\u00e1ria, e a tradu\u00e7\u00e3o parece n\u00e3o ajudar, mas tudo bem, j\u00e1 que meu objetivo na leitura \u00e9 a mat\u00e9ria biogr\u00e1fica e fatual mesmo, e nisso o livro \u00e9 bastante bem servido. No momento em que escrevo isso aqui, estou no ponto das grava\u00e7\u00f5es do *Sabotage*, que devo ouvir em breve, o \u00faltimo disco que escutei tendo sido, por conseguinte, o *Sabbath Bloody Sabbath*. E \u00e9 um baita disco, n\u00e3o? O mais louc\u00e3o do Sabbath, o mais aventureiro e colorido, com direito a Rick Wakeman e sintetizadores e tudo mais. N\u00e3o \u00e9 meu preferido, mas gosto muito, e a m\u00fasica que d\u00e1 nome ao \u00e1lbum \u00e9 desde sempre uma das minhas favoritas do Sab\u00e3o imortal. E tem a *Who Are You*, a qual eu nunca havia prestado muita aten\u00e7\u00e3o, mas desde esta \u00faltima audi\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o sai da minha cabe\u00e7a.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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O do Maiden, por outro lado, tem uma p\u00e9ssima faixa final: apesar de todo o alarde feito em torno de *Empire of the Clouds* --- oh, a mais longa faixa na hist\u00f3ria da banda; oh, composta pelo Bruce Dickinson em seu piano; oh... --- apesar disso tudo eu a detestei, pomposa e estridente demais para o meu gosto, e ter que escut\u00e1-la ao cabo de um disco que \u00e9, de resto, todo excepcional, era sempre uma pequena tortura que nas \u00faltimas vezes eu s\u00f3 conseguia suportar mediante a esperan\u00e7a de estar assim aumentando minhas capacidades de ser paciente e sereno sob as mais dif\u00edceis circunst\u00e2ncias. Mas \u00e9 [claro que o The Book of Souls](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2015_09_29_discos_do_mes_setembro_de_2015) n\u00e3o poderia ficar de fora dessa lista, com *Empire of the Clouds* e tudo. O do Kylesa \u00e9 o \u00fanico item que me deixou um pouco na d\u00favida: poderia ter ficado de fora para a inclus\u00e3o do *Heathen* do Thou, cogitei isso v\u00e1rias vezes, mas acabei optando pelo Kylesa pois o escutei bem mais vezes do que o Thou, apesar deste \u00faltimo ter a minha [m\u00fasica preferida do ano](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2015_10_31_discos_do_mes_outubro_de_2015)... bem, fica o *Heathen* como men\u00e7\u00e3o honrosa. Por fim, Modest Mouse e Wire parecem n\u00e3o lan\u00e7ar discos ruins nunca; escutei-os somente algumas poucas vezes nas \u00faltimas semanas, mas foi suficiente para t\u00ea-los aqui.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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E andei tamb\u00e9m bastante atarefado com muitos trabalhos acontecendo simultaneamente, e nessas situa\u00e7\u00f5es, quando n\u00e3o h\u00e1 muito tempo ocioso para ficar navegando pela discoteca para escolher o que ouvir, acabo frequentemente indo direto aos meus discos mais velhos e queridos, aqueles de quem eu sou totalmente \u00edntimo e que me transportam para as zonas mais familiares e aconchegantes. Os \u00faltimos dias, por exemplo, comecei-os todos ouvindo o *Scoundrel Days*, do a-ha, que descobri ser, junto de uma bela x\u00edcara de caf\u00e9 com leite e o ar ainda fresco das primeiras horas da manh\u00e3, o arranjo perfeito para estabelecer logo cedo um estado de esp\u00edrito prop\u00edcio para o trabalho concentrado. Amo muito esse disco, e tenho alguma dificuldade em distinguir se ele tem de fato algum m\u00e9rito art\u00edstico ou se essa afei\u00e7\u00e3o toda se d\u00e1 pelo fato muito pessoal de ter sido meu primeiro CD e eu t\u00ea-lo escutado j\u00e1 infinitas vezes a ponto de poder dizer, atravessando a fronteira \u00faltima da met\u00e1fora com o literal, que esse disco faz parte de mim. Sim, porque suas dez m\u00fasicas est\u00e3o --- creio que podemos especular essas coisas sem ofender demais os neurologistas, j\u00e1 que, pelo o que eu sei, o c\u00e9rebro ainda conserva grandes mist\u00e9rios para a ci\u00eancia --- est\u00e3o todas elas entranhadas em meu c\u00e9rebro da maneira mais f\u00edsica e biol\u00f3gica poss\u00edvel. Mas, fazendo um esfor\u00e7o para me distanciar um pouco de mim mesmo, acho que ele tem sim algum m\u00e9rito, n\u00e3o? A m\u00fasica de abertura, para uma banda que ficou inicialmente famosa por frivolidades como *Take on Me*, \u00e9 altamente ousada e intrigante: come\u00e7a a fluir misteriosa como uma hist\u00f3ria de suspense bastante requintada e algo sobrenatural, para muito al\u00e9m da toada new age t\u00e3o em voga \u00e0 \u00e9poca, at\u00e9 explodir em um magn\u00edfico refr\u00e3o que nesta sua primeira ocorr\u00eancia muda o curso da trama, do suspense apenas sugerido e levemente inquietante para o de pesadelo acelerado e asfixiante. E por fim, a reden\u00e7\u00e3o. Acho-a fant\u00e1stica, verdadeiramente uma \u00f3tima m\u00fasica que eu nunca, se n\u00e3o o soubesse com anteced\u00eancia, acreditaria ter sido composta pela mesma banda de *You Are The One*. *The Swing of Things* \u00e9 outra cujo m\u00e9rito n\u00e3o acho poss\u00edvel atribuir somente \u00e0 nostalgia, tampouco *The Weight Of The Wind*, que sempre me soou o tipo de coisa que poderia vir das cinzas do Joy Division caso fosse o destino incontorn\u00e1vel delas se tornar uma banda de synthpop, mas que dessa predestina\u00e7\u00e3o tivesse surgido afinal algo melhorzinho do que o New Order. Por fim, *The Soft Rains of April* \u00e9 simplesmente linda, mesmo que voc\u00ea odeie com todas as suas for\u00e7as os anos 80 e defenda que deve ser atribu\u00edda ao a-ha a paternidade das boy bands que vieram logo na sequ\u00eancia, New Kids on the Block e Backstreet Boys e aberra\u00e7\u00f5es desse tipo. O que n\u00e3o \u00e9 de todo impreciso, devo concordar... Mas nesse disco, pelo menos nesse disco, estou quase certo de que h\u00e1 a forte sugest\u00e3o de que existia alguma coisa mais al\u00e9m da superf\u00edcie do trio noruegu\u00eas.\r\n\r\n**Sunn O))) - Terrestrials**\r\n\r\nTem disco novo do Sunn O))) prestes a chegar \u00e0s melhores lojas do ramo, confere? Ent\u00e3o \u00e9 bom j\u00e1 ir me acostumando com a id\u00e9ia de n\u00e3o saber quando deverei finalmente escut\u00e1-lo. Afinal, uma loja que tenha o novo disco do Sunn O))) n\u00e3o \u00e9 uma loja circunscrita a um raio de 10.000 quil\u00f4metros a partir de onde moro. Encomend\u00e1-lo, no momento, n\u00e3o parece boa id\u00e9ia, pelas quest\u00f5es econ\u00f4micas todas expostas em letras garrafais 24 horas por dia nas capas dos jornais e portais de not\u00edcias, como se fossem a performance da economia, o PIB e as taxas de c\u00e2mbio as coisas mais fundamentais para a continuidade do universo. Tampouco baix\u00e1-lo em mp3 \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o: Sunn O))) \u00e9 pra ouvir atrav\u00e9s do ritual sagrado do \u00e1lbum f\u00edsico e uma hora toda dedicada unicamente a ele. Ent\u00e3o, e n\u00e3o havendo viagem prevista para os pr\u00f3ximos meses, o neg\u00f3cio \u00e9 resignar-se e controlar a curiosidade, ou mesmo tentar desfrutar dessa expectativa, afinal, j\u00e1 diziam nossas m\u00e3es \u00e0s v\u00e9speras das festinhas de anivers\u00e1rio da inf\u00e2ncia, o melhor da festa \u00e9 esperar. N\u00e3o que naquela \u00e9poca adiantasse muito acreditar nisso, mas hoje que somos finalmente adultos, tem que funcionar. Al\u00e9m do que, tenho ainda coisas deles por escutar: *Soused*, lan\u00e7ado ano passado em colabora\u00e7\u00e3o com o cantor Scott Walker, eu vou adiando sem maior interesse pois tenho a suspeita forte de que n\u00e3o vou gostar; j\u00e1 a outra colabora\u00e7\u00e3o do ano passado, *Terrestrials*, com o Ulver, esse eu tenho escutado e gostado muito. \u00c9 m\u00fasica que parece vazar de um c\u00e9u baixo e apocal\u00edptico, um apocalipse lento e bonito de se ver, m\u00fasica sacra para as novas gera\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o se preocupam muito com o fato de sermos, cada um de n\u00f3s, o resultado de um ato carnal impuro e hediondo praticado pelos pecadores desavergonhados dos nossos pais, mas que temos todos ainda, em maior ou menor grau, essa atra\u00e7\u00e3o pelo desconhecido, pelo mist\u00e9rio, pelos enigmas insond\u00e1veis --- enfim, que temos ainda anseios por algum tipo de religiosidade. Para n\u00f3s, seres da primeira era intern\u00e9tica, Sunn O))) \u00e9 a igreja!","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":659,"title":"Le Bataclan","post_timestamp":"2015-11-17T06:25:51+00:00","url":"2015_11_17_le_bataclan","post":"\u00c9 bem comum, quando confrontados com aberra\u00e7\u00f5es do tipo Estado Isl\u00e2mico e seus terroristas --- ou, se n\u00e3o quiser ir muito longe, com a bancada evang\u00e9lica do Congresso nacional e seus Bolsonaros e Felicianos --- \u00e9 bem comum pensarmos algo na linha: em pleno s\u00e9culo XXI esse tipo de coisa grotesca e medieval? Mas nada, aparentemente, sugere que esse tal s\u00e9culo XXI tivesse de ser afinal o s\u00e9culo do triunfo da paz e da toler\u00e2ncia, da conviv\u00eancia serena entre as diferen\u00e7as e da racionalidade. Desconfio que o que nos leva a acreditar nessa ilus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nada menos do que uma grande e egoc\u00eantrica falta de perspectiva hist\u00f3rica --- \u00e9 o s\u00e9culo que vivemos, afinal, n\u00f3s, que h\u00e1 pouco --- e alguns at\u00e9 hoje --- acredit\u00e1vamos que o universo girava em nossa volta. Contudo a verdade \u00e9: pode parecer, mas n\u00e3o faz tanto tempo assim os campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, a escravid\u00e3o, o Tribunal do Santo Of\u00edcio, Giordano Bruno queimado vivo na fogueira dos inquisidores, Jesus Cristo crucificado. Daqui uns 10.000 anos talvez a viol\u00eancia e o fanatismo religioso sejam anacr\u00f4nicos e absurdos, mas hoje, em 2015, infelizmente ainda n\u00e3o o s\u00e3o, pelo contr\u00e1rio: s\u00e3o a t\u00f4nica de nossos dias, s\u00e3o os desenlances inevit\u00e1veis das narrativas de diversos locais e circunst\u00e2ncias, do grande tabuleiro da geopol\u00edtica das na\u00e7\u00f5es que n\u00e3o levam em conta o indiv\u00edduo aos morros e favelas brasileiros que despejam sem parar jovens sem educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica e sem futuro nas cidades entupidas de gente igualmente sem boas no\u00e7\u00e3o de civilidade, mas com um pouco mais de dinheiro no bolso e o salvo-conduto para todo tipo de gan\u00e2ncia socialmente permitida que lhes \u00e9 concedido atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o mais ou menos regular nos rituais das igrejas e do capitalismo. O resultado disso tudo \u00e9 viol\u00eancia.\r\n\r\nEstive v\u00e1rias vezes no Le Bataclan, um dos palcos da carnificina em Paris na \u00faltima sexta-feira. A foto acima eu tirei do Elbow no palco do Le Bataclan, em 2009, um dos mais belos shows da minha vida. Bad Religion e Medeski, Martin \u0026 Wood acho que vi l\u00e1 tamb\u00e9m (minha mem\u00f3ria come\u00e7a a me faltar com alguma frequ\u00eancia, por isso a incerteza), e pelo menos mais um ou dois shows que j\u00e1 n\u00e3o me recordo mais quais foram. Lembro das filas nas cal\u00e7adas e do pessoal entregando flyers dos shows que ocorreriam ali nas pr\u00f3ximas semanas. Imaginar agora pilhas de cad\u00e1veres l\u00e1 dentro \u00e9 terr\u00edvel. Claro que boa parte das ruas e momumentos de Paris e de muitas outras metr\u00f3poles europ\u00e9ias j\u00e1 foi palco de in\u00fameras guerras e revolu\u00e7\u00f5es e derramamentos de sangue, mas disso tudo temos a dist\u00e2ncia cronol\u00f3gica de d\u00e9cadas e s\u00e9culos assegurada pelos livros de hist\u00f3ria e a pr\u00f3pria dist\u00e2ncia infinita determinada pela nossa inexist\u00eancia quando daqueles acontecimentos todos. \u00c9 como se, apesar de n\u00e3o fazer tanto tempo assim, como se n\u00e3o f\u00f4ssemos parte daquilo tudo que aprendemos no col\u00e9gio, ou, no m\u00e1ximo, como se aquilo tudo --- movimentos sempre t\u00e3o \u00e9picos e teatrais --- fosse uma longa fic\u00e7\u00e3o imaginada por algum escritor ingl\u00eas morto h\u00e1 muito tempo, a quem coube explicar porque somos o que somos sem necessariamente ater-se aos fatos, enquanto que o massacre no Le Bataclan \u00e9 totalmente parte de n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 mais \u0022aquilo tudo\u0022, \u00e9 presente, \u00e9 brutalmente pr\u00f3ximo: um de nossos \u00eddolos estava sobre o palco; aconteceu na \u003Ci\u003E\u00faltima sexta-feira\u003C\/i\u003E; vimos incr\u00e9dulos as not\u00edcias sucederem-se e a contagem de corpos aumentar em tempo real nas telas de nossos aparelhos conectados \u00e0 internet, esse mesmo mecanismo mundial descentralizado e fant\u00e1stico que jihadistas utilizam tamb\u00e9m, para articular coisas como... isso. Isso. Isso aconteceu \u003Ci\u003Edepois\u003C\/i\u003E de eu ter ido e retornado algumas vezes \u00e0quele local. Isso: cento e poucas pessoas morrendo perfuradas por balas enquanto faziam algo que eu j\u00e1 fiz v\u00e1rias vezes, exatamente naquele mesmo lugar. Posso sentir nesse momento meus p\u00e9s ensopados pelo sangue que por l\u00e1 derramou-se em litros, em nome de Al\u00e1.\r\n\r\nVivemos ainda em um s\u00e9culo de barb\u00e1rie, em uma extens\u00e3o hist\u00f3rica dos s\u00e9culos que vieram antes. \u00c9 bom que tenhamos isso claro de uma vez, que reconhe\u00e7amos o cotidiano da barb\u00e1rie e nossa mis\u00e9ria e nossa fragilidade. E n\u00e3o veremos, nenhum de n\u00f3s e nem nossos filhos e nem nossos netos, infelizmente, chegar o tempo em que se poder\u00e1 dizer com um espanto minimamente justificado: ainda hoje esse tipo de coisa grotesca e medieval?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto por Fabricio C. 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E Clash e Ramones, claro, mas quais? O *Howl* do BRMC; *A Ghost is Born* do Wilco; *Scoundrel Days* do A-ha; *A Love Supreme* do Coltrane --- enfim, a coisa degringola, come\u00e7a a ficar calculada demais, fatores demais a serem considerados, uma vida toda de apaixonado por bandas e discos. Mas aqueles tr\u00eas primeiros, eles s\u00e3o as pedras fundamentais, os infal\u00edveis, talhados no ferro do n\u00edvel mais terminativo da minha mem\u00f3ria afetiva e que n\u00e3o h\u00e1 Parkinson ou Alzheimer ou doen\u00e7a degenerativa futura qualquer que v\u00e1 exclu\u00ed-los de mim. As letras lil\u00e1ses e cinzas da capa do disco do Sabbath, em especial, cintilam automaticamente em minha mente, com o efeito \u00f3tico adicional de faz\u00ea-las ondular bem de leve, efeito sugerido pela pr\u00f3pria tipografia do \u00e1lbum mas transformado na realidade efetiva de uma bandeira ao sabor do vento fincada em meu c\u00f3rtex cerebral por algum mecanismo inconsciente que parece se esfor\u00e7ar em posicion\u00e1-lo em um lugar ainda mais vis\u00edvel, exclusivo. BLACK SABBATH - MASTER OF REALITY - o meu disco favorito de todos os tempos? Ando tentado a dizer que sim, ultimamente. *Sweet Leaf* me obriga a dizer que sim; *After Forever* \u00e9 a m\u00fasica mais afirmativa da vida que existe, e ainda est\u00e3o l\u00e1, no tracklist, *Children of the Grave* e *Solitude*, esta \u00faltima uma cad\u00eancia e uma vis\u00e3o t\u00e3o intensamente linda e tocante como nunca concebida por banda alguma em tempo nenhum. 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Correndo o s\u00e9rio risco de me tornar [um chato monotem\u00e1tico](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2015_09_29_discos_do_mes_setembro_de_2015), come\u00e7o dizendo novamente que a atual variedade de bandas, estilos, ambi\u00e7\u00f5es e influ\u00eancias retroalimentando-se e expandindo fronteiras tornam o cen\u00e1rio met\u00e1lico muito rico e estimulante, mas dessa vez vou ainda mais longe e acrescento o seguinte: tem sido a experi\u00eancia mais intensa e memor\u00e1vel de toda minha trajet\u00f3ria de viciado em discos e m\u00fasica. Sim, mais extraordin\u00e1rio do que os anos 90, aos quais eu ainda sou todo ternura e nostalgia e gratid\u00e3o, mas terei obrigatoriamente de colocar em segundo lugar caso alguma dia tenha que fazer uma lista de quais foram as coisas que mais me entusiasmaram em mat\u00e9ria de m\u00fasica, em toda minha vida.\r\n\r\nO fator crucial dessa empolga\u00e7\u00e3o toda \u00e9 que o metal continua sendo, essencialmente, um marginal, uma forma de express\u00e3o insubmissa e feroz que insiste em operar seguindo \u00fanica e fielmente os seus princ\u00edpios e filosofias originais, n\u00e3o tendo sido arregimentada por interesses externos de nenhum tipo, pelo menos n\u00e3o na quantidade m\u00ednima necess\u00e1ria ao cont\u00e1gio fatal do todo --- refiro-me, principalmente, \u00e0s for\u00e7as mercadol\u00f3gicas que todos sabemos quais s\u00e3o, e para \u00e0s quais o rock revela, vez ou outra, uma perfeita aptid\u00e3o que p\u00f5e tudo a perder, por pelo menos algum per\u00edodo de tempo, fechando e reabrindo ciclos interminavelmente. O metal n\u00e3o se presta a isso, n\u00e3o tem como se prestar, pois est\u00e1 em seu c\u00f3digo gen\u00e9tico ser justamente o contraponto, o amparo dos rebeldes, o ref\u00fagio final para aqueles que n\u00e3o fazem concess\u00f5es e cujos ouvidos apurados (eu ia escrever \u0022refinados\u0022, mas de algum modo essa palavra n\u00e3o me parece adequada aqui...) exigem que sua m\u00fasica seja acima de tudo \u00edntegra e humana, mesmo com todas suas falhas e peculiaridades, de tal modo que se possa acreditar incondicionalmente nela e at\u00e9 mesmo viver por ela. Uma quest\u00e3o de independ\u00eancia e pureza. \u00c9 isso que faz o metal ser aparentado --- j\u00e1 meio distantes a essa altura da hist\u00f3ria, evidententemente, mas essa ess\u00eancia distintiva \u00e9 ainda reconhec\u00edvel em ambas as deriva\u00e7\u00f5es --- \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica e n\u00e3o raro o f\u00e3 de uma \u00e9 f\u00e3 da outra tamb\u00e9m, ou ao menos se respeitam e dialogam em algum n\u00edvel meio torto de afinidades.\r\n\r\nE tem sido uma aventura fant\u00e1stica acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o disso que j\u00e1 foi apenas um gueto de cabeludos desajustados. Pegue o Thaw, por exemplo, que eu recomendei no post anterior. Seu [primeiro disco](https:\/\/thaw.bandcamp.com\/album\/decay) \u00e9 de uma f\u00faria t\u00e3o selvagem e lancinante que parece o tempo todo prestes a transbordar os limites de sua exist\u00eancia sonora, a brutalidade em sua forma mais convicta e lim\u00edtrofe. E, tendo chegado \u00e0 beira do abismo logo em seu primeiro disco, s\u00f3 lhes restou dar o passo adiante e mergulhar e ir al\u00e9m: eles acabam de lan\u00e7ar um novo \u00e1lbum, chama-se *St. Phenome Alley* e \u00e9 espl\u00eandido. Duas longas m\u00fasicas instrumentais, mas nada de f\u00faria descontrolada destruidora de t\u00edmpanos, e sim uma longa textura sonora que vai lentamente coagulando e criando uma atmosfera de tal modo densa que \u00e9 quase como emergir em meio ao cen\u00e1rio daquele [obscuro filme p\u00f3s-apocal\u00edptico russo](https:\/\/sgtr.wordpress.com\/2014\/12\/02\/letters-from-a-dead-man-konstantin-lopushansky-1987\/), t\u00e3o depressivo e sufocante que quando enfim lhe ocorre a pergunta \u00f3bvia --- \u0022por que diabos \u00e9 que eu amo esse cen\u00e1rio e gostaria de morar dentro dele, sendo ele t\u00e3o horr\u00edvel?\u0022 --- a\u00ed ent\u00e3o voc\u00ea tem a resposta esf\u00edngica para o mist\u00e9rio da arte, aquela que ningu\u00e9m ensina para ningu\u00e9m: aprend\u00ea-la \u00e9 poss\u00edvel apenas solit\u00e1ria e intimamente. O tipo de revela\u00e7\u00e3o que cria sentidos ainda mais amplos para a vida. Sim, eu tenho perfeita no\u00e7\u00e3o do qu\u00e3o bomb\u00e1stica e pretensiosa \u00e9 essa \u00faltima frase, e mantenho-a aqui mesmo assim, para ver se consigo dar uma dimens\u00e3o do meu entusiasmo com essa banda polonesa.\r\n\r\nO Thaw \u00e9 um exemplo dessa vertente experimental que tateia caminhos novos e profundos, que podem at\u00e9 fazer algu\u00e9m se perguntar se isso \u00e9 realmente metal (a resposta \u00e9 sim, isso \u00e9 muito metal, ainda que misturado com outras coisas afins), mas tamb\u00e9m as bandas cujo som \u00e9 mais calcado nas trilhas j\u00e1 percorridas pelos mestres do passado vivem um momento iluminado. O [Bandcamp](https:\/\/bandcamp.com) se consolidou como meu segundo site favorito, e l\u00e1 descobri o Indesinence, cujo disco *III*, lan\u00e7ado em julho desse ano, eu tenho escutado quase todos os dias. Lembro que na primeira audi\u00e7\u00e3o a coisa n\u00e3o estava empolgando particularmente; eu adoro doom metal, esse veneno entorpecente que foi fervido pela primeira vez no caldeir\u00e3o da [banda-m\u00e3e de todas as bandas do mal](http:\/\/www.somosnerds.com.br\/noticias\/imagens\/209\/files\/blacksabbath.jpg), mas muitas vezes esse tipo de som funciona melhor como uma trilha de fundo para te colocar num ritmo de trabalho, ou num transe para outras atividades menos produtivistas, enfim, n\u00e3o raro a coisa transcorre meio vaporosa e inerte, e a audi\u00e7\u00e3o desse disco vinha sendo exatamente assim, at\u00e9 que de repente, inesperadamente, a faixa n\u00famero cinco, *Mountains Of Mind\/Five Years Ahead (Of My Time)*, me nocauteou de maneira espetacular. Vai [l\u00e1 e ouve](https:\/\/profoundlorerecords.bandcamp.com\/album\/iii-2).\r\n\r\nPara fechar, duas men\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, que n\u00e3o posso omiti-las: o Kylesa n\u00e3o decepciona nunca. Tamb\u00e9m o som deles est\u00e1 em franca evolu\u00e7\u00e3o rumo ao desconhecido, e o convite para acompanh\u00e1-los \u00e9 irrecus\u00e1vel. O novo cap\u00edtulo desta jornada que ganha cada vez mais ares de c\u00f3smica chama-se *Exhausting Fire* e estar\u00e1 provavelmente entre meus discos do ano. E outra banda que conheci via Bandcamp dever\u00e1 estar tamb\u00e9m na minha lista de melhores de 2015, o Thou. Diferente do Indesinence citado acima, o Thou posicionou logo no in\u00edcio de *Heathen* a sua m\u00fasica mais monumental. Ou\u00e7a [pelo menos essa primeira faixa](https:\/\/thou.bandcamp.com\/album\/heathen) e me diga: quando aquele vocal vindo de profundezas abissais come\u00e7a a revelar malignamente que \u0022we are the stone that starts the avalanche, we are the cough that spreads the plague, we are the spark that lights the inferno, we aaaaaaareeeee...\u0022, aquilo ali \u00e9 algo muito arrepiante e maravilhoso, n\u00e9 n\u00e3o? Bem, \u00e9 claro que eu consigo compreender que indiv\u00edduos de inclina\u00e7\u00f5es mais solares ou delicadas percebam esse som como algo absolutamente intrag\u00e1vel... Mas a virtude de enxergar a beleza dessa ru\u00edna em forma de m\u00fasica torna a n\u00f3s, os metaleiros, no m\u00ednimo, seres com maiores habilidades de adapta\u00e7\u00e3o e aprecia\u00e7\u00e3o da natureza, afinal, o futuro me parece cada vez menos com aquele pl\u00e1cido para\u00edso cheio de fam\u00edlias e animais em sorridente comunh\u00e3o que ilustravam os folhetos que as Testemunhas de Jeov\u00e1 nos entregavam antigamente, quando vinham aos pares bater em nossas portas para tentar nos converter.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Jazz \u00e9 o tipo de m\u00fasica que abduz o ouvinte das esferas cotidianas da vida e seus problemas mesquinhos, mesmo quando voc\u00ea est\u00e1 em modo [dead air](https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Dead_air), pois a m\u00fasica fica um tempo ainda reverberando na cabe\u00e7a e dando um ritmo diferente aos nossos di\u00e1logos internos, nos faz ver o mundo de forma um pouco mais emp\u00e1tica, algo muito valioso nesses dias de hoje. Mas a\u00ed veio o dia 4 de setembro, o novo Maiden foi lan\u00e7ado e isso tudo foi por \u00e1gua abaixo. Desde aquela sexta-feira em que fui de manh\u00e3 cedo ao centro da cidade e fui o quarto a comprar o disco (tive a curiosidade de perguntar ao meu amigo Gota, dono da melhor loja de discos de Florian\u00f3polis, quantos antes de mim j\u00e1 tinham ido l\u00e1 fazer a mesma coisa), desde aquela sexta-feira de c\u00e9u nublado e chuva leve at\u00e9 o momento em que escrevo isto aqui (dia 20 de setembro), acho que foram apenas dois ou tr\u00eas os dias que passei sem ouvir ao *The Book of Souls*. E, dessa vez, prestei aten\u00e7\u00e3o especial ao processo de desgusta\u00e7\u00e3o do disco, ao desenvolvimento gradual da afei\u00e7\u00e3o e do desvendamento das melodias e dos detalhes, e o compreendi como uma esp\u00e9cie de massagem da mem\u00f3ria que se torna pouco a pouco viciante por via de um prazer endorf\u00ednico que suponho ser similar ao experimentado pelos viciados em correr, mas que no caso aqui descrito de um disco do Iron Maiden, n\u00e3o te leva de um ponto a outro da cidade, nem a ficar mais magro ou mais relaxado, mas sim, conduz daquele primeiro contato meio confuso e talvez at\u00e9 mesmo meio frustrante com essa massiva hora e meia de guitarras e uivos e nomes de m\u00fasicas que s\u00e3o um clich\u00ea atr\u00e1s do outro at\u00e9 finalmente ao ponto do puro entusiasmo juvenil com essa maratona de m\u00fasica intensamente l\u00fadica e teatral, quando enfim voc\u00ea j\u00e1 estar\u00e1 calculando em qual posi\u00e7\u00e3o merece ficar o disco em seu ranking pessoal da discografia da banda, e voc\u00ea j\u00e1 saber\u00e1 de c\u00f3r o nome das m\u00fasicas e sua ordem no tracklist e j\u00e1 ter\u00e1 definidas suas faixas preferidas e quais entram no seu hipot\u00e9tico best of CD-triplo do Iron Maiden\u003Csup id=\u0022a1\u0022\u003E[1](#f1)\u003C\/sup\u003E. E talvez seja este tamb\u00e9m um bom momento para dar uma pausa e retornar \u00e0 vida adulta.\r\n\r\nPor sorte, hoje em dia o card\u00e1pio \u00e9 vasto e variado o suficiente para que voc\u00ea possa se identificar sem constrangimentos como um f\u00e3 de metal, mesmo tendo j\u00e1 passado dos 30 anos. Nada contra a dedica\u00e7\u00e3o leal ao Iron Maiden, ou ao Metallica, ou ao Mot\u00f6rhead --- e para quem eventualmente n\u00e3o tenha isso bem resolvido consigo mesmo, uma tentativa razo\u00e1vel de elucidar a fascina\u00e7\u00e3o de uma vida pelo Maiden pode ser lida [aqui](http:\/\/www.stereogum.com\/1825458\/lifelong-dirtbag-the-eternal-importance-of-iron-maiden\/franchises\/essay\/) --- por\u00e9m me parece improv\u00e1vel que o sujeito que percebe, em algum momento, que a m\u00fasica ser\u00e1 algo importante em sua vida, n\u00e3o venha a sentir absolutamente nenhuma curiosidade em ir al\u00e9m e procurar por coisas um pouco mais elaboradas e que n\u00e3o tenham na recrea\u00e7\u00e3o escapista seu \u00fanico prop\u00f3sito. Essa curiosidade deve fazer parte at\u00e9 mesmo das premissas biol\u00f3gicas e darwinianas, leis que todo mundo deveria respeitar, mesmo a turma predominantemente conservadora\u003Csup id=\u0022a2\u0022\u003E[2](#f2)\u003C\/sup\u003E f\u00e3 de m\u00fasica pesada. Eu, pelo menos, respeito-as diligentemente, e dentre as coisas um pouco mais \u0022adultas\u0022 que andaram tocando aqui nos meus fones e caixas de som, nesse m\u00eas que foi essencialmente um m\u00eas ouvindo metal, destaco o *Earth Ground* dos poloneses do Thaw e o *Melana Chasmata* dos su\u00ed\u00e7os do Triptykon. Esse \u00faltimo, em particular, \u00e9 um verdadeiro portento; lembro dele ter causado bastante alvoro\u00e7o nas comunidades metaleiras on-line no ano passado, quando foi lan\u00e7ado, e depois encabe\u00e7ou muitas listas de melhores do ano, mas s\u00f3 umas semanas atr\u00e1s \u00e9 que fui escut\u00e1-lo, e sim, ele \u00e9 tudo isso, \u00e9 realmente magn\u00edfico. O do Thaw \u00e9 tamb\u00e9m um assombro: a categoriza\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel os associa ao insidioso black metal, mas nada de bodes degolados e outros truques de circo de terror escandinavo aqui; h\u00e1 um senso de experimenta\u00e7\u00e3o e de arte verdadeira guiando essa banda, f\u00faria e arte brotando de uma mesma fonte espiritual, para al\u00e9m da mera vontade de chocar e de soar extremo. Vale a pena [experimentar](http:\/\/thaw.bandcamp.com\/album\/earth-ground).\r\n\r\nPor fim, coment\u00e1rio r\u00e1pido sobre a Chelsea Wolfe, s\u00f3 para atar a ponta que tinha ficado aberta no relato do m\u00eas passado. \u00c9 realmente fant\u00e1stico este *Abyss*, mais denso e um pouco menos t\u00e9trico do que o *Pain is Beauty*, mas igualmente hipn\u00f3tico e encantador. \u00c9 para ouvir de madrugada, naquela quietude profunda das altas horas, a penumbra silenciosa que parece se dedicar inteiramente a testemunhar que voc\u00ea \u00e9 a \u00fanica pessoa acordada no mundo inteiro. Minha suspeita j\u00e1 se transformou em certeza: \u00e9 meu disco favorito de 2015.\r\n\r\n\u003Chr \/\u003E\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f1\u0022\u003E1\u003C\/b\u003E Se algum maidenman\u00edaco estiver me lendo e ficar curioso, o meu ranking atual mostra o *The Book of Souls* no s\u00e9timo lugar, logo acima do *Brave New World* e logo abaixo do *Killers*, e no meu best of n\u00e3o faltariam *If Eternity Should Fail*, *The Great Unknown*, *When The River Runs Deep* e *Shadows Of The Valley*. \u00c9, talvez tenha que ser um \u00e1lbum qu\u00e1druplo. [\u21a9](#a1)\r\n\r\n\u003Cb id=\u0022f2\u0022\u003E2\u003C\/b\u003E Mesmo contrariados, temos que concordar com [isso](http:\/\/www.radixjournal.com\/journal\/2014\/7\/2\/why-metal-is-right-wing). Mas, ao mesmo tempo, o metal --- a m\u00fasica do tinhoso --- desperta a ira da turma conservadora mais radical, de vertentes religiosas; a\u00ed sim n\u00f3s metaleiros mais liberais temos motivos para nos orgulhar de nosso cl\u00e3! [\u21a9](#a2)","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":654,"title":"Discos do m\u00eas - Agosto de 2015","post_timestamp":"2015-08-30T18:41:42+00:00","url":"2015_08_30_discos_do_mes_agosto_de_2015","post":"**Miles Davis: In a Silent Way**\r\n\r\nAndei descobrindo umas coisas fascinantes em mat\u00e9ria de jazz nas \u00faltimas semanas: John Surman, Jan Garbarek, Keith Jarrett, Ralph Tower. O noruegu\u00eas Garbarek, cujos discos saem pela cultuada ECM desde 1970, \u00e9 incr\u00edvel e n\u00e3o deve demorar a aparecer aqui nas minhas divaga\u00e7\u00f5es, porque come\u00e7o a sentir o nascimento de uma empatia total pela obra do cara --- a cada disco que escuto, dobram meu deslumbramento e minha curiosidade, e o que come\u00e7ou como um convite meio circunspecto e misterioso j\u00e1 se transformou em algo mais pr\u00f3ximo \u00e0 compuls\u00e3o, o v\u00edcio na adrenalina experimentada durante a explora\u00e7\u00e3o destas novas dimens\u00f5es cujas maravilhas eram at\u00e9 ent\u00e3o apenas intu\u00eddas, e cuja amea\u00e7a nem um pouco desprez\u00edvel \u00e9 ser uma jornada sem retorno. At\u00e9 aqui foram tr\u00eas ou quatro discos, e foram todos devidamente anotados em minha lista de futuras aquisi\u00e7\u00f5es (sim, por enquanto, estou s\u00f3 na pirataria). Mas foi mesmo o bom e velho Miles quem mais tocou nas caixas de som aqui de casa nesses \u00faltimos tempos. Comprei recentemente o *In a Silent Way* em CD, e quando retirei-o do pl\u00e1stico e o escutei pela primeira vez, antes de tudo fiquei pasmado com a assimila\u00e7\u00e3o do fato de que eu passei todos esses anos ouvindo esse disco apenas esporadicamente, e a partir de arquivos digitais vagabundos, ainda por cima. \u00c9 um disco extraordin\u00e1rio, o g\u00eanio Miles Davis desbravando mares e indo al\u00e9m, desbravando profundidades e altitudes outras cuja cartografia infinita \u00e9 puro som, ecos e reverbera\u00e7\u00f5es. Voc\u00eas j\u00e1 devem ter percebido que n\u00e3o uso \u0022g\u00eanio\u0022 \u00e0 toa, certo? Pois Miles foi g\u00eanio, pleno e incontest\u00e1vel. Sempre tive uma predile\u00e7\u00e3o pelo Coltrane, pela figura asc\u00e9tica e de ares perdidamente contemplativos do Coltrane, um homem que parecia presciente do fato de que seria beatificado e [cultuado em igreja](http:\/\/www.coltranechurch.org) assim que morresse, o que, para emprestar ainda mais for\u00e7a ao mito, n\u00e3o tardaria a acontecer, e essa consci\u00eancia o fez preservar-se para esta futura vida santa incorp\u00f3rea, enquanto que Miles foi se tornando exc\u00eantrico com o passar do tempo, com seus palet\u00f3s e \u00f3culos bizarros, e sempre escutei mais, de fato, aos discos do Coltrane. Mas ultimamente s\u00f3 d\u00e1 Miles. Ele foi mais longe, teve tempo e aud\u00e1cia de faz\u00ea-lo, e sua obra parece inesgot\u00e1vel: apenas rocei de leve o p\u00e9 no rio fervilhante dos discos el\u00e9tricos da \u00faltima fase de sua carreira (fusion, como dizem os entendidos), que come\u00e7a na segunda metade dos anos 60 e tem como primeiro cl\u00e1ssico justamente o *In a Silent Way*, e depois se seguem outras maravilhas como *Bitches Brew*, *Jack Johnson*, *Pangaea*, *On the Corner*, *Agharta* e *Dark Magus*. Mas vamos com calma! Ainda estou sob o encanto e apreciando diariamente ao *In a Silent Way*.\r\n\r\n**Chelsea Wolfe: Pain is Beauty**\r\n\r\nBastou uma \u00fanica escutada no novo da Chelsea Wolfe, *Abyss*, para descobrir ali um disco fant\u00e1stico, provavelmente o meu preferido de 2015. Duvido muito que apare\u00e7a algo melhor esse ano. A segunda audi\u00e7\u00e3o me fez cogitar seriamente a possibilidade dele ser ainda melhor do que o *Pain is Beauty*, e neste ponto resolvi retornar a este \u00e1lbum, com quem eu tinha um assunto n\u00e3o-resolvido, a pend\u00eancia inc\u00f4moda que certos discos ocasionalmente fazem nascer em minha consci\u00eancia de n\u00e3o t\u00ea-los escutado o suficiente, e acabou que fiquei preso nele, ouvindo-o tamb\u00e9m numa base di\u00e1ria, tentando identificar liga\u00e7\u00f5es de irmandade m\u00fasico-espiritual entre Miles e Chelsea para poder ouvi-los em sequ\u00eancia, invertendo a ordem \u00e0s vezes, outras experimentando alguma coisa no meio, drones, ambients e jazz diversos. Dif\u00edcil dizer qual dentre estes dois \u00faltimos discos de Chelsea \u00e9 melhor; ambos possuem essa qualidade de dif\u00edcil descri\u00e7\u00e3o, uma certa contin\u00eancia taciturna conjurada pela economia de recursos e pelos compassos ins\u00f3litos, uma m\u00fasica cuja ess\u00eancia parece ser estar o tempo todo aberta ao inesperado e onde cada linha de som parece emergir seguindo alguma l\u00f3gica enigm\u00e1tica, extraterrena, sons puros e singulares que ent\u00e3o cedem repentinamente --- se apagam, submergem, morrem uma morte g\u00e9lida e sem deixar tra\u00e7os. E ent\u00e3o voltam a emergir do grande e implac\u00e1vel vazio. Esse vazio \u00e9 tamb\u00e9m ele pr\u00f3prio elemento fundamental nesta m\u00fasica, v\u00e1cuo e fragmentos de sil\u00eancio que v\u00e3o contribuindo para a sensa\u00e7\u00e3o vaga de rarefa\u00e7\u00e3o, de coisas fora do lugar. Se h\u00e1 algum contraponto a tudo isso, este acaba sendo a voz de Chelsea, que \u00e9 rigorosamente comum em seus predicados naturais, mas que ela manipula com destreza e simplicidade magistrais, ecos sutis, distanciamentos e prolongamentos que consubstanciam a beleza et\u00e9rea da coisa toda. No momento, o *Pain is Beauty* ainda \u00e9 o meu preferido, mas o *Abyss* e sua linda capinha est\u00e3o ali na estante em posi\u00e7\u00e3o de destaque, esperando pela noite que eu e ele sabemos que h\u00e1 de vir, em que eu vou escut\u00e1-lo novamente e ent\u00e3o n\u00e3o vou parar mais por alguns dias e tentarei novamente escrever sobre coisas muito dif\u00edceis de explicar.\r\n\r\n**Alice Coltrane: Transcendence**\r\n\r\nCerta vez um amigo me disse que considerava m\u00fasica a forma de arte menos importante dentre as mais populares. Ela seria inferior ao cinema e \u00e0 literatura, na escala hier\u00e1rquica deste meu camarada. Bem, eu acho que esse disco da Alice Coltrane \u00e9 a prova irrefut\u00e1vel. (Prova do contr\u00e1rio do que ele disse, evidentemente.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":653,"title":"M\u00fasica no computador","post_timestamp":"2015-08-03T14:51:07+00:00","url":"2015_08_03_musica_no_computador","post":"Copiado [daqui](http:\/\/www.marco.org\/2015\/07\/26\/dont-order-the-fish):\r\n\r\n\u003E iTunes\u2019 UI design is horrible for similar reasons: not because it has bad designers, but because they\u2019ve been given an impossible task: cramming way too much functionality into a single app while also making it look \u201cclean\u201d.\r\n\r\n\u003E iTunes is designed by the Junk Drawer Method: when enough cruft has built up that somebody tells the team to redesign it, while also adding and heavily promoting these great new features in the UI that are really important to the company\u2019s other interests and are absolutely non-negotiable, the only thing they can really do is hide all of the old complexity in new places.\r\n\r\n\u003E With the introduction of Apple Music, Apple confusingly introduced a confusing service backed by the iTunes Store that\u2019s confusingly integrated into iTunes and the iOS Music app (don\u2019t even get me started on that) and partially, maybe, mostly replaces the also very confusing and historically unreliable iTunes Match.\r\n\r\n\u003E So iTunes is a toxic hellstew of technical cruft and a toxic hellstew of UI design, in the middle of a transition between two partly redundant cloud services, both of which are confusing and vague to most people about which songs of theirs are in the cloud, which are safe to delete, and which ones they actually have. (...)\r\n\r\nUm bom resumo da coisa hoje. Usu\u00e1rios da Apple que se importam de verdade com m\u00fasica --- n\u00e3o os ouvintes casuais das paradas de sucesso --- s\u00e3o seres cada vez mais infelizes, cheios de apreens\u00f5es e pesadelos noturnos. Alguns relatos que li de pessoas que aderiram imediatamente ao tal Music citado acima e tiveram m\u00faltiplos problemas com suas cole\u00e7\u00f5es pr\u00e9-existentes no iTunes s\u00e3o tragic\u00f4micos. Eu uso este monstrengo chamado iTunes, mas desabilito sempre toda e qualquer fun\u00e7\u00e3o que tente gerenciar ou espionar minha cole\u00e7\u00e3o de m\u00fasica digital: n\u00e3o uso iCloud, n\u00e3o uso Match, n\u00e3o uso Genius, muito menos esses servi\u00e7os de aluguel de m\u00fasica via streaming (sendo o da Apple este rec\u00e9m-lan\u00e7ado chamado Music). Da minha cole\u00e7\u00e3o cuido eu; a minha m\u00fasica, seleciono e levo de um lado para outro, do jeito que eu achar melhor, ningu\u00e9m menos do que eu. Dessa maneira simplificada e desembara\u00e7ada, o iTunes at\u00e9 que funciona suficientemente bem, mas vez ou outra j\u00e1 me vejo cogitando utilizar algum outro player ([esse aqui](https:\/\/quodlibet.readthedocs.org) costuma ser bastante recomendado), pois do jeito que a coisa vai indo, me parece inevit\u00e1vel que em algum momento a Apple retire-nos essa possibilidade de independ\u00eancia de seus servi\u00e7os comerciais. De qualquer maneira, n\u00e3o tem muita import\u00e2ncia, j\u00e1 que essa cole\u00e7\u00e3o digital, embora muito \u00fatil e bastante ampla, n\u00e3o \u00e9 exatamente minha cole\u00e7\u00e3o \u0022titular\u0022: essa fica na sala, organizada em estantes, para ser apreciada com aten\u00e7\u00e3o e em boa qualidade, longe das inger\u00eancias e vontades da Apple, do mercado, da nuvem e de n\u00e3o sei quem mais.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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O calor, o barulho e a luminosidade s\u00e3o a propuls\u00e3o do fluxo emaranhado de vidas entre o mar e as ruas, e os discos de Guerrero me parecem a trilha-sonora perfeita para o desenrolar deste cen\u00e1rio ca\u00f3tico e animado, pois sua m\u00fasica parece desacelerar um pouco o ritmo vertiginoso que h\u00e1 na superf\u00edcie e revelar uma cativante harmonia interna, algo at\u00e9 mesmo meio comovente. \u00c9 a m\u00fasica natural deste ambiente, a nota certa para simpatizarmos com toda essa massa que quer apenas refrescar-se, beber, rir, expressar-se, e ainda que o som emude\u00e7a-lhe as milhares de vozes simult\u00e2neas, ele acaba por ressaltar suas figuras e suas almas, das mais discretas \u00e0s mais ex\u00f3ticas, e a tranquila conviv\u00eancia entre discri\u00e7\u00e3o e excentricidade me parece ser a melhor defini\u00e7\u00e3o da Calif\u00f3rnia. O melhor de *Soul Food Taqueria*, no entanto, s\u00e3o as faixas mais lentas e contemplativas, que sincronizam-se perfeitamente com o p\u00f4r-do-sol l\u00edquido caracter\u00edstico desses lugares, aquele entardecer que vai se esparramando dourado e horizontal, e tamb\u00e9m com o arrefecer da febre que antes atingia a todos vinda de cima com a luz equ\u00e2nime do sol --- agora a multid\u00e3o, lentamente, vai se recolhendo em pequenos nichos de luz e fechando-se em grupos mais \u00edntimos de pessoas, os contrastes v\u00e3o se embaralhando, a m\u00fasica emoldurando um retrato doce e sossegado dessa transforma\u00e7\u00e3o. *Soul Food Taqueria* ficou o tempo todo me dizendo: preste aten\u00e7\u00e3o, preste bastante aten\u00e7\u00e3o ao seu redor, ao ciclo do dia e da noite, n\u00e3o deixe seu cora\u00e7\u00e3o se calcificar a ponto de voc\u00ea n\u00e3o se enternecer mais com as multid\u00f5es e as cidades, e mantenha-se sempre por perto do mar.\r\n\r\n**Necks: Chemist**\r\n\r\nEnt\u00e3o, esse post \u00e9 meio \u0022Discos do m\u00eas\u0022, meio di\u00e1rio de viagem. Passei recentemente uma semana na Calif\u00f3rnia, e fui embora convencido de que poderia morar l\u00e1 para sempre. Vinhos e cervejas artesanais maravilhosos por todo o estado, lojas de discos e livrarias fant\u00e1sticas sobretudo em San Francisco e Los Angeles, um bel\u00edssimo litoral (ainda que eu prefira as praias brasileiras): isso \u00e9 basicamente tudo de que eu preciso. San Fracisco tem, al\u00e9m de um delicioso aroma de ervas flutuando permanentemente no ar, a City Lights Bookstore, outrora epicentro dos escritores e poetas beatniks de quem eu gosto muito e ainda hoje uma bel\u00edssima livraria; Los Angeles tem a Amoeba Records, um verdadeiro templo para *record junkies* de todos os tipos, da turma do hardcore californiano com bon\u00e9s do Suicidal Tendencies aos velhinhos de camisas enfiadas por dentro da cal\u00e7a garimpando singles raros de jazz em vinil, jovens e velhos igualados unicamente no pleno dom\u00ednio da arte de perscrutar pesadas fileiras de discos. Estive duas vezes na Amoeba e nas duas vezes sa\u00ed com sacolas cheias. Mas nessas visitas eu tinha em mente, em particular, um disco que procuro h\u00e1 anos e nunca achei nem mesmo nas lojas com as prateleiras de jazz mais generosas da Europa, e come\u00e7ava ent\u00e3o a me conformar com o fato de que n\u00e3o o acharia fora de seu pa\u00eds de origem, a Austr\u00e1lia, mesmo sabendo que h\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o inglesa desse \u00e1lbum. Trata-se do *Chemist*, do trio The Necks. Na primeira visita \u00e0 Amoeba acabei me distraindo com outras coisas, mas na segunda fui direto aos fundos da imensa loja, onde fica a se\u00e7\u00e3o jazz\/m\u00fasica cl\u00e1ssica\/trilhas-sonoras, pensando que era agora ou nunca ou se algum dia eu for para a Austr\u00e1lia, e na primeira pesquisada, decep\u00e7\u00e3o: nada de Necks sob a etiqueta N da se\u00e7\u00e3o principal de jazz. Ali\u00e1s, \u00e9 curioso como existem t\u00e3o poucas bandas e artistas de jazz que come\u00e7am com N. Reparei ent\u00e3o em algumas sub-categorias em prateleiras adjancentes, mas antes de ir explor\u00e1-las, meio frustrado que estava, resolvi consultar um dos benef\u00edcios que a Amoeba oferece: um especialista em jazz fica ali plantado em um balc\u00e3o abarrotado de revistas e velhos cat\u00e1logos de discos --- volumes grossos e pesados que quase n\u00e3o se fecham mais de tanto terem sido manuseados ---, al\u00e9m de um notebook, auxiliando as pessoas a acharem seus tesouros. Mesmo correndo o risco de n\u00e3o entender nada do que o cara me dissesse, j\u00e1 que \u00e0s vezes sofro para entender o ingl\u00eas r\u00e1pido dos americanos, eu perguntei ao sujeito de \u00f3culos de lentes fundo-de-garrafa se ele conhecia um trio australiano chamado Necks; como se pronuncia, ele perguntou, o que quase matou de vez minhas esperan\u00e7as --- se o especialista n\u00e3o conhece, ent\u00e3o alguma absurda conjun\u00e7\u00e3o de fatores deve fazer com que tamb\u00e9m os americanos n\u00e3o conhe\u00e7am essa fant\u00e1stica banda e a loja n\u00e3o tenha nada deles; respondi-lhe com um gesto apontando para o pesco\u00e7o, neck de pesco\u00e7o, e ele replicou que n\u00e3o era familiarizado com essa banda, mas vejamos aqui no sistema: tec tec tec no notebook, olhinhos apertados aumentados pelas lentes aparentemente insuficientes tentando decifrar a resposta do computador, e sim, n\u00f3s temos \u0022a couple of Necks albums\u0022. Que alegria! --- na verdade, aquela pr\u00e9-alegria meio apreensiva de quando voc\u00ea descobre que a loja tem o artista que voc\u00ea procura, e est\u00e1 prestes a descobrir se tem ou n\u00e3o o disco exato. Ele me indicou onde eles ficavam, era a se\u00e7\u00e3o \u0022experimental jazz\u0022 que eu n\u00e3o havia esquadrinhado ainda; fui at\u00e9 l\u00e1, corri os olhos sobre as lombadas dos CDs com o cora\u00e7\u00e3o na boca e achei uma c\u00f3pia do *Chemist*, vers\u00e3o americana que eu n\u00e3o sabia que existia, linda caixinha de papel\u00e3o e tr\u00eas longas faixas que funcionam como um dos narc\u00f3ticos sonoros mais inebriantes que eu conhe\u00e7o, e que passaram ent\u00e3o a fazer parte como protagonistas da trilha-sonora da viagem.\r\n\r\n**Bon Jovi: Slippery When Wet**\r\n\r\nPara finalizar, outro cap\u00edtulo da aventura californiana: num t\u00e1xi que pegamos em Los Angeles, tocou *Livin\u0027 on a Prayer* do Bon Jovi. Meu estado de esp\u00edrito receptivo e bem-disposto daquela semana deleitou-se, \u00e9 claro: Bon Jovi, de volta l\u00e1 aos anos 80, foi uma das minhas inicia\u00e7\u00f5es na m\u00fasica, e tenho e escuto ainda hoje alguns dos seus discos pois adoro mergulhar em nostalgia de vez em quando. Alguns dias depois, outro t\u00e1xi e de novo Bon Jovi no r\u00e1dio, novamente *Livin\u0027 on a Prayer*! A m\u00fasica, sem d\u00favida, combina com aquele cen\u00e1rio quente, kitsch e ostensivamente vulgar de Los Angeles, um lugar quase de fic\u00e7\u00e3o americana (e me pergunto se n\u00e3o foi da fic\u00e7\u00e3o americana que nasceu LA), e n\u00e3o deu outra, o cl\u00e1ssico *Slippery When Wet* passou ent\u00e3o a ocupar tamb\u00e9m uma boa parte da trilha-sonora do restante da viagem, porque eu costumo ser facilmente influenci\u00e1vel pelo ambiente e pelas circunst\u00e2ncias. \u00c9 nesse disco que est\u00e1 outro grande hit bonjoviano, *You Give Love a Bad Name*, e essas m\u00fasicas todas sempre me fizeram lembrar de s\u00e1bados de futebol na rua e vizinhos um pouco mais velhos exibindo-se para as meninas e lavando os carros de seus pais (provavelmente como parte da barganha para poderem utiliz\u00e1-los naquele dia de noite), carros ensaboados e mangueiras e camisetas regatas mais ao fundo daquilo que era uma via p\u00fablica mas tamb\u00e9m nossa quadra poli-esportiva privada, os hits radiof\u00f4nicos dos anos 80 tocando em bom volume atrav\u00e9s dos porta-malas abertos ou de micro-systems na cal\u00e7ada l\u00e1 na altura de todo aquele desperd\u00edcio de \u00e1gua, mas chegando at\u00e9 n\u00f3s em nossas partidas de futebol em frente ao pr\u00e9dio onde mor\u00e1vamos n\u00f3s a maioria das crian\u00e7as. Bon Jovi, Guns N\u0027 Roses, Roxette, Dire Straits, Erasure e a-ha s\u00e3o algumas das lembran\u00e7as musicais mais queridas dessa \u00e9poca, bandas que assimil\u00e1vamos praticamente sem nenhum filtro por via das ondas de r\u00e1dio, trilhas internacionais de novelas e desses citados vizinhos mais velhos (por sorte havia tamb\u00e9m os vizinhos e amigos do col\u00e9gio que escutavam Clash, Jesus and Mary Chain, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria), e esses sons todos iam se incorporando \u00e0s nossas caixinhas de fitas K7 e \u00e0s trilhas-sonoras de nossas vidas naquela \u00e9poca... Mas se por acaso minha mem\u00f3ria ainda estiver criando com o mesmo vigor de antes essas associa\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas e irremedi\u00e1veis entre m\u00fasica e tempo-espa\u00e7o, ent\u00e3o acho que a partir de agora Bon Jovi ir\u00e1 me lembrar para sempre da Calif\u00f3rnia.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":651,"title":"Sobre cisnes e esp\u00edritos","post_timestamp":"2015-07-09T21:11:22+00:00","url":"2015_07_09_sobre_cisnes_e_espiritos","post":"Aqueles [43 dias](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2015_05_27_fragmento_de_um_diario_inexistente) passaram muito r\u00e1pido. O show do Swans foi ontem, e me encontro neste momento ainda algo aturdido e sob forte impress\u00e3o do que vi, ouvi e senti. Pensei em escrever um longo e elaborado relato l\u00e1 para a nossa empoeirada [se\u00e7\u00e3o de shows](http:\/\/dyingdays.net\/shows\/), mas sabendo que n\u00e3o terei muito tempo dispon\u00edvel para isso nos pr\u00f3ximos dias, tentarei ent\u00e3o ao menos esbo\u00e7ar umas notas r\u00e1pidas por aqui, aproveitando que a experi\u00eancia ainda est\u00e1 trepidando por todo meu corpo e as poucas horas de sono p\u00f3s-show n\u00e3o foram suficientes para engavetar de vez boa parte das lembran\u00e7as que em breve, eu sei, ir\u00e3o passar a habitar alguma parte menos conscientemente acess\u00edvel da minha mem\u00f3ria. Foi o show da minha vida, isso eu digo logo de uma vez; houve um momento, quando a apresenta\u00e7\u00e3o, embora rec\u00e9m-iniciada, j\u00e1 estava repleta de uma intensidade sensorial colossal, que eu tive a n\u00edtida impress\u00e3o de que tinha atravessado toda minha vida, 36 anos at\u00e9 aqui, apenas para chegar ali naquele momento --- aquele era o \u00e1pice da minha vida e tamb\u00e9m conclus\u00e3o pr\u00e9via e irrevog\u00e1vel de que tudo valeu muito a pena, aconte\u00e7a o que acontecer daqui por diante. A alegria era imensa, mas esse pensamento me angustiou um pouco, confesso, pois ainda me sinto jovem e sadio e curioso. Depois percebi que era uma bobagem, o t\u00edpico entusiasmo hiperb\u00f3lico que nasce desse tipo de euforia profunda, e relaxei e aproveitei o resto da noite. Deixo, por\u00e9m, esse pequeno epis\u00f3dio registrado pois acho que n\u00e3o h\u00e1 como ilustrar melhor o que foi este show, esse enlevo religioso e prolongado que por v\u00e1rias vezes deu um n\u00f3 na minha garganta, e esse n\u00f3 subia para algum ponto atr\u00e1s do cr\u00e2nio e transferia-se para o fundo dos olhos e eu pensava, vou chorar. (A primeira vez que isso me aconteceu foi num show do Medeski, Martin \u0026 Wood, e naquela ocasi\u00e3o eu me segurei; sobre ontem eu j\u00e1 n\u00e3o posso dar nenhuma garantia de ter conseguido novamente.) Uma descri\u00e7\u00e3o factual plena e justa sobre o show em si \u00e9 inconceb\u00edvel dadas as limita\u00e7\u00f5es das palavras --- ou, pelo menos, impratic\u00e1vel dadas as minhas limita\u00e7\u00f5es no manejo delas ---, mas uma coisa em rela\u00e7\u00e3o ao Swans, algo que muita gente tenta articular depois de assisti-los e s\u00f3 \u00e9 mesmo poss\u00edvel compreender depois de presenciar, \u00e9 que a massa sonora radical que aqueles senhores criam no palco n\u00e3o \u00e9 mais uma mera quest\u00e3o de *forma*, ou de t\u00e9cnica, e de equipamentos bons o suficiente em providenciar volume: ela \u00e9 *forma* e tamb\u00e9m *conte\u00fado*, e possivelmente mais alguma outra coisa ainda n\u00e3o compreendida e decifrada por ningu\u00e9m, alguma outra coordenada oculta inerente ao mist\u00e9rio fundamental da vida, tudo isso conjurado numa subst\u00e2ncia que todos ali de frente \u00e0 banda sentem atravessar seus corpos, em ondas orquestradas sobretudo por Michael Gira, pelas m\u00e3os deste senhor de porte excelso e imperturb\u00e1vel, m\u00e3os e dedos nem sempre dedicados apenas a fazer vibrar as cordas de sua guitarra, mas frequentemente gesticulando e conduzindo um certo fluxo que ia do palco at\u00e9 a plat\u00e9ia, e eu via claramente, da posi\u00e7\u00e3o meio lateral e privilegiada em que eu estava, num n\u00edvel um pouco mais alto, eu via que o que ele mandava para o p\u00fablico ecoava e repercutia ali, e voltava ao palco, e a m\u00fasica, ou a performance, ou seja l\u00e1 como deve-se chamar a isso, ia seguindo um curso liberto e imprevis\u00edvel. Em alguns momentos eu saia do transe e tentava compreender o que se passava, era extraordinariamente bonita a simbiose entre banda e p\u00fablico, expressa em movimentos rituais e hipn\u00f3ticos, e n\u00e3o s\u00f3 essas duas entidades pareciam estar envolvidas neste jogo: esp\u00edritos antigos e j\u00e1 quase que completamente alheios aos homens pareciam voltar momentaneamente a se interessar por n\u00f3s, e a comungar com um pequeno grupo de pessoas reunidas em torno de uma celebra\u00e7\u00e3o, revalidando assim, por pelo menos mais uma gera\u00e7\u00e3o, o valor da eleva\u00e7\u00e3o m\u00edstica. Pois \u00e9, n\u00e3o tinha como n\u00e3o cair no clich\u00ea do m\u00edstico, sempre citado em qualquer texto sobre a banda, mas acreditem-me: num show do Swans, isso \u00e9 coisa muito s\u00e9ria e real.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Poster criado por Cyrille Rousseau, copiado [daqui](http:\/\/2lestudios.blogspot.fr\/2015\/07\/blood-on-your-hands.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":650,"title":"Discos do m\u00eas - Junho de 2015","post_timestamp":"2015-07-02T16:17:39+00:00","url":"2015_07_02_discos_do_mes_junho_de_2015","post":"**Black Rebel Motorcycle Club - Live in Paris**\r\n\r\nEu escrevo frequentemente sobre o BRMC por aqui, e de modo cada vez mais carinhoso, como que numa rela\u00e7\u00e3o onde os pares se enternecem at\u00e9 mesmo com os defeitos um do outro, que \u00e0s vezes se desapegam um pouco e depois voltam com afeto redobrado. Isso \u00e9 um degrau acima de ser f\u00e3, e acho que n\u00f3s, os loucos por bandas e discos, apesar dessa nossa loucura, acabamos por reunir apenas um pequeno punhado de nomes dos quais podemos dizer tal coisa ao longo da vida, ainda que sejamos f\u00e3s de dezenas, centenas de outros. Outro fator de distin\u00e7\u00e3o a\u00ed \u00e9 a forma como essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 constru\u00edda: ela vai se sedimentando pouco a pouco, disco a disco, e nunca atrav\u00e9s do fen\u00f4meno fugaz de um \u00fanico CD ou m\u00fasica ou show; h\u00e1 algo de entendimento lento e gradual, confian\u00e7a e gratid\u00e3o estratificando-se naturalmente, e de repente, percebemos, somos-lhes n\u00e3o mais apenas admiradores, n\u00e3o mais apenas compradores de seus discos, mas amigos \u00edntimos e fi\u00e9is. Sempre tenho a intui\u00e7\u00e3o de algo genu\u00edno e obstinado neste trio, que se materializa em uma persistente sibila\u00e7\u00e3o de fundo, e uma esp\u00e9cie de reverbera\u00e7\u00e3o que fica ainda vibrando por algum tempo ap\u00f3s ouvir qualquer um de seus discos: os caras acreditam enfaticamente no que fazem, p\u00f5es suas almas em cada disco, e ela est\u00e1 l\u00e1 mesmo quando a m\u00fasica n\u00e3o agrada particularmente. Bem, o caso \u00e9 que no ano passado eu escutei muito ao BRMC, acho que eles emplacaram umas duas ou tr\u00eas cita\u00e7\u00f5es nesta s\u00e9rie de relatos mensais (e s\u00f3 n\u00e3o foram mais vezes para n\u00e3o ficar muito repetitivo), e m\u00faltiplas escala\u00e7\u00f5es nas saudosas mixtapes das sexta-feiras, mas neste ano, por outro lado, eu n\u00e3o vinha escutando-os muito. Talvez tenhamos dado um tempo, como se diz. Ent\u00e3o veio a not\u00edcia do lan\u00e7amento de um [disco ao vivo](http:\/\/dyingdays.net\/albums\/view\/live_in_paris), e n\u00e3o um disco ao vivo qualquer, mas sim um gravado a partir de um show em que eu estava na plat\u00e9ia, e que foi um dos shows mais fant\u00e1sticos e emocionantes da minha vida (este comentado brevemente [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2014_03_07_mixtape_115)). A banda voltou com tudo aos meus fones e caixas de som: sem conseguir esperar pela oportunidade de comprar o disco, baixei j\u00e1 as mp3 e tenho escutado diariamente ao show, que teve o disco *Specter at the Feast* executado na \u00edntegra na primeira parte, e na segunda v\u00e1rias das minhas favoritas, sobretudo vers\u00f5es arrepiantes de *Rifles*, *White Palms* e *Mercy*. De quebra, redescobri o primeiro \u00e1lbum da banda, que nos \u00faltimos anos costumava ficar relegado mais para o fim da fila na hora de escolher algo do BRMC para escutar, mas \u00e9 um \u00e1lbum espetacular, e nunca me esque\u00e7o de que ele me foi enviado via e-mail por um amigo --- isso mesmo, por e-mail, cada faixa convertida em um arquivo mp3 e anexada a uma mensagem, totalizando onze e-mails que ressaltavam com muitos pontos de exclama\u00e7\u00e3o que eu tinha que conhecer imediatamente aquela *nova* banda e que devem ter ocupado a linha telef\u00f4nica de casa por algumas horas, pois isso foi muito antes da internet de banda larga e antes at\u00e9 mesmo do Napster, sendo que acabo de me dar conta de que at\u00e9 mesmo o Napster j\u00e1 \u00e9 coisa de outra era e muita gente n\u00e3o deve fazer id\u00e9ia do que se trata. Bom, s\u00e3o as hist\u00f3rias de uma rela\u00e7\u00e3o. Ta\u00ed uma banda que est\u00e1 no meu mais restrito e culminante grupo de mais queridas, no grau \u00faltimo de estima.\r\n\r\n**Iron Maiden - Brave New World**\r\n\r\nSaiu dias atr\u00e1s a not\u00edcia de que teremos agora no segundo semestre um novo disco do Iron Maiden. O disco se chamar\u00e1 *The Book of Souls* e tem uma [capa sensacional](https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/en\/7\/78\/Book_of_Souls_Iron_Maiden.jpg). N\u00e3o s\u00f3 isso: ser\u00e1 um disco duplo. N\u00e3o consigo estimar quais s\u00e3o as chances de quem estiver lendo isso aqui entender em toda a sua dimens\u00e3o o que vou dizer, mas essa \u00e9 uma not\u00edcia que faz exultar a crian\u00e7a dentro dos adultos que foram f\u00e3s de Iron Maiden em suas inf\u00e2ncias e adolesc\u00eancias, adultos esses que dificilmente obliteram por completo essa rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o devotada e intensa de outrora, e quando estes (n\u00f3s) ficamos sabendo de uma not\u00edcia desse tipo --- um disco *duplo*, o primeiro da banda! --- \u00e9 uma transmuta\u00e7\u00e3o quase f\u00edsica que sentimos: j\u00e1 passamos a sonhar com o dia da ida \u00e0 loja para comprar o disco, antecipamos o deleite de ouvi-lo pela primeira vez, e d\u00e1 vontade de puxar um caderno e desenhar na margem do alto da p\u00e1gina o logotipo da banda, que sabemos de cor em todos seus contornos e pontas, apesar de desprezar a pequena mudan\u00e7a que lhe aplicaram quando o Bruce Dickinson deixou a banda. Tem um m\u00e9rito a\u00ed que mesmo os n\u00e3o-f\u00e3s h\u00e3o de reconhecer: poucas bandas hoje em dia ainda s\u00e3o capazes de despertar esse alvoro\u00e7o em torno de um novo \u00e1lbum, poucas conseguem transformar o an\u00fancio do lan\u00e7amento de um desses objetos de pl\u00e1stico e papel em eventos dessa magnitude, e continuar a difundir sua m\u00fasica principalmente por meio desse artif\u00edcio t\u00e3o cheio de hist\u00f3ria e significados, ao inv\u00e9s de simplesmente faz\u00ea-la fluir diretamente aos nossos ouvidos por meio da tecnologia onipresente dos computadores, smartphones e internet. Ou seja, h\u00e1 o f\u00e3, a banda, e entre eles toda uma s\u00e9rie de rituais, j\u00e1 repetidos algumas dezenas de vezes, mas peri\u00f3dicos e teatralizados o suficiente para serem sempre renovados em cada uma de suas partes lit\u00fargicas constituintes e ent\u00e3o ansiosamente aguardados e festejados. Ok, eu entendo que n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9rito que devemos atribuir exclusivamente ao talento da banda, e sim parte do legado de um outro tempo, uma outra maneira de fazer as coisas, um processo semi-extinto e totalmente hierogl\u00edfico \u00e0s gera\u00e7\u00f5es atuais que j\u00e1 nasceram na era da internet, mas para os mais antigos o valor disso tudo \u00e9 inestim\u00e1vel, e a coisa toda j\u00e1 ganhou faz tempo ares de seita esot\u00e9rica e sigilosa, restrita a somente alguns poucos membros especiais. E seu poder, atestamos mais uma vez, ainda \u00e9 irresist\u00edvel e move nossas vidas. Enfim, como parte do processo de prepara\u00e7\u00e3o ao novo disco, tomei um banho de Maiden na \u00faltima semana: a velha e incans\u00e1vel donzela de ferro continua soando divertida e vigorosa como h\u00e1 30 anos atr\u00e1s. O que eu mais ouvi acho que foi o *Brave New World*, o CD de 2000 que marcou a volta do vocalista Bruce Dickinson ap\u00f3s este ter passado uns aninhos fora da banda, e \u00e9 um bel\u00edssimo disco, evid\u00eancia not\u00e1vel daquilo que sempre foi o atrativo maior do Maiden, na minha opini\u00e3o: cada faixa um pequeno mundo em si, um pequeno conto totalmente s\u00f3lido e auto-suficiente com suas atmosferas pr\u00f3prias e cl\u00edmax e tudo o mais. As letras s\u00e3o uma bobagem sem fim, claro, mas se uma m\u00fasica sobre o hero\u00edsmo dos n\u00f4mades soa majestosa e empolgante como aquela, voc\u00ea tem que respeitar e dar algum desconto, afinal, os caras ainda t\u00eam que tocar aquele monte de guitarras e se preparar para esse tanto de shows monumentais e pilotar avi\u00f5es e ainda cuidar do monstrengo Eddie. E agora termino essa reflex\u00e3o ponderada e adulta dando finalmente espa\u00e7o \u00e0 voz estrindente que n\u00e3o cala aqui na minha cabe\u00e7a e quer falar logo de uma vez e resumir a coisa toda: porra, um novo disco do Iron, que not\u00edcia massa pra caralho! Up the Irons!","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":649,"title":"Come\u00e7ando a semana com Chelsea Wolfe","post_timestamp":"2015-06-29T21:38:40+00:00","url":"2015_06_29_comecando_a_semana_com_chelsea_wolfe","post":"\u003Ciframe width=\u0027480\u0027 height=\u0027270\u0027 src=\u0027http:\/\/cache.vevo.com\/assets\/html\/embed.html?video=USQY51568929\u0027 frameborder=\u00270\u0027 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Em meio a drones, obscuridades, metais, experimentos sonoros, me dei ao luxo de brincar com a possibilidade de abrir o escopo sem tra\u00e7ar maiores julgamentos sobre as poss\u00edveis consequ\u00eancias (afinal, era carnaval), de modo que cheguei ao supracitado disco de estreia do DJ franc\u00eas. Assim como os conterr\u00e2neos do Daft Punk e Justice, Breakbot dedica-se \u00e0 saga de resgatar g\u00eaneros de black music dos anos 70 e 80 passando-os pelo inevit\u00e1vel tratamento eletr\u00f4nico contempor\u00e2neo, o que a m\u00eddia chamaria pregui\u00e7osamente de *electro*.  Embora n\u00e3o se possa reconhecer em seu \u00e1lbum uma magnitude ou maturidade sequer pr\u00f3xima de *Random Access Memories* (obra definitiva do Daft Punk), *By Your Side* oferece melodias de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o, letras dignas de uma \u00f3tima escola pop e grooves que combinados servem de meio de transporte capaz de aproximar um ouvinte obtuso do que seria um carnaval menos sisudo. Quando me dei conta, estava com o disco a tiracolo fazendo as vezes de abrir o sol em meio \u00e0 n\u00e9voa, sem grandes culpas ou constrangimentos, confesso. E, claro, como todo competente disco pop, ele tem seu grande *hit*, *Baby I\u0027m Yours* (que se n\u00e3o estou enganado foi celebrizado como fat\u00eddica trilha-sonora de comercial na televis\u00e3o). A descoberta (e companhia) foi t\u00e3o oportuna que adentrei mar\u00e7o prestigiando o disco com novas audi\u00e7\u00f5es, numa ironia que questiona a tese de que paix\u00f5es de carnaval nunca ser\u00e3o duradouras.\r\n\r\n**Aphex Twin: Syro (Warp, 2014)**\r\n\r\nDa s\u00e9rie \u0022m\u00fasicos que os outros dizem que ouvem mas eu n\u00e3o achava que era para mim\u0022, insisti no LP mais recente de Richard D. James e o absorvi lentamente, de in\u00edcio nas sess\u00f5es de academia (me satisfaz saber que eu e meu *MP3 player* criamos um contraponto \u00e0 trilha sonora plastificada que o som ambiente do recinto prolifera \u2013 \u00e9, sou um idiota) para aos poucos levar o disco para passeios casuais, percursos automotivos pela cidade e at\u00e9 durante o trabalho. Ainda n\u00e3o cheguei no est\u00e1gio de conhecer o restante de sua incensada obra, de modo que me centralizo em *Syro* ignorando a possibilidade de estar aqui talvez descrevendo o celebrado som do Aphex Twin caso o novo disco coincida com seus trabalhos anteriores. Em entrevistas, Richard comentou que *Syro* foi obra de in\u00fameras experimenta\u00e7\u00f5es com equipamentos que construiu, portanto, um \u00e1lbum onde os *meios* s\u00e3o no m\u00ednimo t\u00e3o importantes quanto o fim. Tal abordagem \u00e9 percebida j\u00e1 nos primeiros segundos, onde as expectativas de um desenvolvimento linear das faixas tombam quando diferentes ritmos, quebras de melodias eletr\u00f4nicas e intrus\u00f5es sampleadas colidem entre si. E assim, torto e fragmentado, o disco transcorre por onze intelig\u00edveis faixas. Esse efeito traz nas primeiras audi\u00e7\u00f5es uma indesej\u00e1vel impress\u00e3o que o Aphex Twin foi perspicaz o suficiente para n\u00e3o ter gravado um \u00e1lbum mas ter usufru\u00eddo de seu prest\u00edgio para lan\u00e7ar nada mais do que rascunhos reunidos, exerc\u00edcios t\u00e9cnicos pass\u00edveis de descarte. Por\u00e9m, o car\u00e1ter desafiador daquele conjunto de *beats* \u00e9 t\u00e3o intrigante que o ouvinte menos acomodado n\u00e3o se contenta enquanto n\u00e3o encontra um fio de meada, uma espinha dorsal que justifique tr\u00eas discos de vinil numa embalagem, ao passo de submeter-se a sucessivas audi\u00e7\u00f5es at\u00e9 que algo seja revelado. E \u00e9. *Syro* \u00e9 mais um daqueles \u00e1lbuns em que a cumplicidade \u00e9 necess\u00e1ria, assim como familiarizar-se com a linguagem que ele imp\u00f5e ao inv\u00e9s de tentar adapt\u00e1-la \u00e0s prerrogativas que trazemos em nossas bagagens. \u00c0 medida que o ouvinte se identifica com ele, passa a fazer sentido a quest\u00e3o do *meio* antes do *fim*, quando torna-se interessante acompanhar a trabalheira que Richard tem para conter e acomodar a incessante revoada de *beats* e carga eletr\u00f4nica que tentam escapar-lhe por entre os dedos, as melodias vazando pelas frestas, o descontrole de uma linha sonora que nasce vigorosa e em quest\u00e3o de segundos j\u00e1 est\u00e1 obsoleta, atropelada por outra mais recente. \u00c9 um \u00e1lbum *sensorial*, livre de formas e restri\u00e7\u00f5es, que mesmo sem se dar a chance de mergulhar em \u00e1reas profundas, \u00e9 instigante o suficiente para que a frieza dos seus sons desperte a curiosidade em torno de onde ele chegar\u00e1. E termina brilhantemente com *aisatsana [102]*, uma calorosa \u0022balada\u0022 ao piano acompanhada por cantos de p\u00e1ssaros que brindam a chegada do ouvinte at\u00e9 aquele ponto, contradizendo tudo o que foi explorado, revelando a carga humana at\u00e9 ent\u00e3o acobertada por aquela tonelada de sons fren\u00e9ticos.\r\n\r\n**Kendrick Lamar: To Pimp A Butterfly (Top Dawg \/ Aftermath \/ Interscope, 2015)**\r\n\r\nPois \u00e9, hip-hop \u00e9 um universo que n\u00e3o me comove muito. \u00c9 dif\u00edcil se envolver com um g\u00eanero t\u00e3o segmentado sem se sentir deslocado ou com a barra for\u00e7ada, como a cena cl\u00e1ssica do turista que visita o Rio de Janeiro e \u00e9 submetido a passos desequilibrados de samba com uma mulata de dois metros de altura. Seja pelo papel imprescind\u00edvel que os temas exercem no g\u00eanero ou pela dificuldade natural de se acompanhar as linhas recheadas de g\u00edrias e sotaques, tenho como paradigma que h\u00e1 pouco de interesse pessoal a tirar desses artistas, uma dificuldade natural de estabelecer um v\u00ednculo com o que eles t\u00eam a dizer. Por\u00e9m, pulsa em paralelo a insaci\u00e1vel curiosidade de escutar discos impensados, surpreendentes, capazes de transcender conceitos at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3lidos simplesmente sendo grandes discos, libertos de g\u00eaneros, r\u00f3tulos ou p\u00fablicos espec\u00edficos. *To Pimp A Butterfly* \u00e9 exatamente isso: uma obra incr\u00edvel, inventiva e altamente viciante. Kendrick Lamar despontou para a web com seu primeiro disco, *Section.80*, e conquistou as gra\u00e7as de uma ampla audi\u00eancia com *good kid, M.A.A.D. City*, discos razoavelmente fi\u00e9is \u00e0 est\u00e9tica do hip-hop, basicamente narrando a viol\u00eancia e segrega\u00e7\u00e3o das \u00e1reas prolet\u00e1rias dos Estados Unidos. \u00d3timos discos que demonstraram a incr\u00edvel habilidade de Kendrick de criar diferentes performances segundo a demanda de cada m\u00fasica. Mas o terceiro e recente \u00e1lbum, *To Pimp A Butterfly*, \u00e9 um arrega\u00e7o: transcende r\u00f3tulos, al\u00e7a voos por diversos tipos de m\u00fasica e nunca, absolutamente nunca se d\u00e1 por satisfeito em tentar algo diferente e inovador. Atropelando clich\u00eas do g\u00eanero, Kendrick distorce o conceito de que o hip-hop deve pregar o conflito, optando por questionar os pr\u00f3prios negros sobre a necessidade de emergir de suas rusgas rumo \u00e0 conquista da justa autoestima. Musicalmente, Kendrick conceitualiza o disco num crescendo, com cap\u00edtulos se revelando em cascata at\u00e9 culminarem em um grande ponto final. Ele destrincha e subverte hip-hop, jazz, funk, ragga, soul, desconstr\u00f3i personagens e resgata como h\u00e1 muito n\u00e3o se fazia o \u00e1lbum como um formato poderoso de entretenimento, justamente numa era onde a efemeridade dos *singles* reina nos *smartphones*. Indispens\u00e1vel.\r\n\r\n**Craft Spells: Nausea (Captured Tracks, 2014)**\r\n\r\nMeu apre\u00e7o pelo disco de estreia de Justin Vallesteros (*Idle Labor*, de 2011) n\u00e3o corr\u00f3i com o tempo. Embora tente emular alguma esp\u00e9cie de New Order (refor\u00e7ado pela quase cara-de-pau da capa escolhida), as m\u00fasicas s\u00e3o t\u00e3o inebriantes e dotadas de personalidade que o resultado transcende a influ\u00eancia e apresenta um belo dum daqueles discos gravados num dormit\u00f3rio com bateria eletr\u00f4nica e computador. Quando o elaborado *Nausea* saiu, a rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica foi de contradi\u00e7\u00e3o: arranjos de banda contrapondo a solid\u00e3o de *Idle Labor* e m\u00fasicas n\u00e3o t\u00e3o redondas, como se Justin tivesse que entreg\u00e1-las antes que um prazo expirasse. Com o tempo, entretanto, *Nausea* deixou pingar seus encantos, que residem justamente no fato dele ser diferente e antag\u00f4nico ao seu predecessor, revelando amadurecimento e ambi\u00e7\u00e3o. Agora que come\u00e7amos a enfrentar (ou aproveitar, no meu caso) a temporada fria do inverno, o disco \u00e9 um daqueles aliados que de alguma forma complementa a esta\u00e7\u00e3o, coerente com dias chuvosos, cinzentos ou mesmo nos que um sol esfor\u00e7ado n\u00e3o consegue elevar as teimosas temperaturas baixas. Seja na seara das baladas (*Komorebi*, *Laughing For My Life*) ou dos semi-hits (*Twirl*, *Breaking The Angle Against The Tide*), *Nausea* carrega consigo um misto onipresente de sensibilidade e fragilidade que remetem a Nick Drake ou ao primeiro disco solo de James Iha.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":646,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2015","post_timestamp":"2015-06-02T02:58:21+00:00","url":"2015_06_01_discos_do_mes_maio_de_2015","post":"**Compila\u00e7\u00e3o - Whatever Nevermind**\r\n\r\nPassei v\u00e1rios dias cantarolando minhas m\u00fasicas favoritas do *Nevermind* depois de ouvir este disco-tributo gravado em sua homenagem. *Drain You*, *In Bloom* e *Lounge Act* s\u00e3o can\u00e7\u00f5es fenomenais demais, *indefect\u00edveis*, que sempre desautorizam imediatamente j\u00e1 no in\u00edcio da formula\u00e7\u00e3o quaisquer cr\u00edticas que se queira fazer ao cl\u00e1ssico do Nirvana e que tenham a inten\u00e7\u00e3o de desqualific\u00e1-lo por via do contexto da \u00e9poca, do poder da MTV, Kurt Cobain isso, Kurt Cobain aquilo, bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1 --- \u00e9 tudo bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1 desimportante quando explode o refr\u00e3o de *Drain You*. Escutei este tributo umas quatro ou cinco vezes em poucos dias, elegendo como preferidas a \u00f3tima vers\u00e3o desacelerada de *Come As You Are* feita pelo Kylesa, a desmontagem e remontagem de *Lounge Act* por uma banda chamada Touche Amore (de quem eu nunca tinha ouvido falar) e a *In Bloom* fidedigna e selvagem gravada pelo Torche. E depois, com prazer renovado, voltei a escutar o *Nevermind* original por alguns dias, e \u00e9 incr\u00edvel como ele vai envelhecendo bem, mesmo que eu reconhe\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o sentir uma vontade muito frequente de escut\u00e1-lo. Mas, indo \u00e0s raias do otimismo, otimismo este que vem sendo nocauteado ami\u00fade nos \u00faltimos tempos, sou at\u00e9 mesmo capaz de achar que esse monte de camisetas do Nirvana que tenho visto ultimamente por a\u00ed, trajadas por gente que aparenta ter metade da minha idade --- ou seja, que estava nascendo quando Cobain estava morrendo --- essas camisetas todas talvez n\u00e3o sejam somente a modinha vendida como a tend\u00eancia rejuvenescedora da hora, como fora aquela das camisetas dos Ramones usadas at\u00e9 por madames em shopping centers, um tempo atr\u00e1s: talvez seja a gurizada realmente descobrindo esse \u00e1lbum e essa banda espetacular, que seus pais comentaram j\u00e1 algumas vezes terem ouvido durante a adolesc\u00eancia no jur\u00e1ssico s\u00e9culo passado... \r\n\r\n**Dire Straits - Dire Straits**\r\n\r\nEsse \u00e9 um dos pilares da minha cole\u00e7\u00e3o: comprado em julho de 1993, conforme registrado \u00e0 caneta preta na parte interna do encarte. Certamente um dos meus primeiros dez ou quinze CDs. J\u00e1 isto n\u00e3o est\u00e1 escrito, mas eu me lembro bem: comprado numa lojinha num pequeno shopping de Ciudad del Este, no Paraguai, para onde fomos, eu, meus pais e meu irm\u00e3o, tr\u00eas vezes no come\u00e7o dos anos 90 para fazer compras, pois alguma circunst\u00e2ncia pol\u00edtico-econ\u00f4mica dessas para as quais eu nunca tenho a intelig\u00eancia funcional de compreender e reter na mem\u00f3ria fazia com que as coisas todas que a classe-m\u00e9dia brasileira adora consumir --- perfumes, roupas, t\u00eanis, eletr\u00f4nicos, whisky --- fossem todas bem mais baratas nas lojas de l\u00e1, e por isso partiam caravanas de fam\u00edlias brasileiras em f\u00e9rias para l\u00e1, para trazer malas abarrotadas de coisas para rechear suas casas e apartamentos. Numa dessas ocasi\u00f5es, eu comprei este disco, e acho que al\u00e9m dele apenas um mini-microsc\u00f3pio para crian\u00e7as no qual eu nunca consegui ver as tais c\u00e9lulas vivas nos filetes de corti\u00e7a permanece em minha lembran\u00e7a dentre as tantas quinquilharias que eu devo ter comprado naquelas ruas apinhadas de brasileiros e paraguaios. Mas sobre este primeiro disco do Dire Straits eu tenho a dizer o seguinte: ainda que n\u00e3o seja um disco talhado para despertar paix\u00f5es arrebatadoras, eu o adoro. Abstenho-me de dizer que o amo pois o tipo de rela\u00e7\u00e3o que ele evoca \u00e9 algum coisa mais na linha companheirismo fiel, amizade sincera e genu\u00edna, feita de conversas tranquilas, onde as pessoas falam baixo e serenamente e com todas as pausas que lhes conv\u00eaem, para pensar nas palavras, pois as outras pessoas escutam, as outras pessoas t\u00eam aquela conduta cada vez mais rara de esperar e escutar. Essas alegorias me v\u00eaem a cabe\u00e7a por causa da entona\u00e7\u00e3o da voz de Mark Knopfler que n\u00e3o tem absolutamente nada de cantor de rock \u0027n\u0027 roll, da simplicidade da m\u00fasica, sua descomplica\u00e7\u00e3o cabal e despretenciosa, da brevidade e unidade do disco, que me \u00e9 como um todo t\u00e3o \u00edntimo e querido. \u0022Sweet surrender on the quayside...\u0022: s\u00f3 a primeira frase da primeira faixa j\u00e1 me me sossega e me traz uma felicidade como poucas outras m\u00fasicas s\u00e3o capazes! E foi a trilha-sonora perfeita durante alguns dos meus \u00faltimos dias, cuja acelera\u00e7\u00e3o de acontecimentos, de compromissos, de trabalho, de pessoas, enfim, de coisas a serem absorvidas e processadas --- e eu sempre fui muito lento nesses processos que come\u00e7am sociais e terminam cognitivos, e acho que sou cada vez mais, inclusive tive uma s\u00fabita confirma\u00e7\u00e3o disso ontem ao pegar uma carona num carro onde o r\u00e1dio estava ligado numa esta\u00e7\u00e3o de not\u00edcias, e eu, que n\u00e3o ou\u00e7o r\u00e1dio e n\u00e3o vejo TV j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, quase passei mal ouvindo aquela sucess\u00e3o initerrupta e vertiginosa de not\u00edcias e entrevistas e futebol por cerca de meia hora, e de repente percebi, com uma nitidez implac\u00e1vel, que houve em algum momento destes \u00faltimos anos algum descompasso entre o meu ritmo de vida e aquele que \u00e9 o consuetudin\u00e1rio, e eu me transformei em algu\u00e9m... defasado? Talvez seja s\u00f3 isso, eu estou envelhecendo precocemente. Mas eu dizia, a celeridade dos \u00faltimos dias exigia que nos meus momentos de recolhimento alguma coisa me ancorasse a alguma base s\u00f3lida e familiar, me acalmasse e me recompusesse, e esse disco acabava sendo n\u00e3o somente a trilha-sonora perfeita, mas penso mesmo que a \u00fanica poss\u00edvel. Um verdadeiro ant\u00eddoto milagroso, e um pequeno mundo no qual eu poderia viver para sempre. Bem, s\u00f3 conto com a minha experi\u00eancia para dizer isso, mas envelhecer por enquanto n\u00e3o est\u00e1 sendo t\u00e3o ruim assim.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":645,"title":"Fragmento de um di\u00e1rio inexistente","post_timestamp":"2015-05-27T18:11:15+00:00","url":"2015_05_27_fragmento_de_um_diario_inexistente","post":"A chuva vem caindo sobre esta ilha, nestes muitos \u00faltimos dias, como uma m\u00fasica do renascido Swans: j\u00e1 n\u00e3o se sabe se houve um come\u00e7o, se haver\u00e1 um fim. J\u00e1 transformou-se em presen\u00e7a cotidiana e inquestion\u00e1vel, como mais uma parede a ser contornada nos movimentos di\u00e1rios, e me faz voltar d\u00e9cadas de p\u00e1ginas na mem\u00f3ria, para relembrar um evento similar (pois, de alguma maneira inextric\u00e1vel, relembrar da ocorr\u00eancia passada de algo parece sempre nos ajudar a suportar melhor sua reincid\u00eancia), voltar ao cap\u00edtulo daquele ver\u00e3o que n\u00e3o foi exatamente um ver\u00e3o pois s\u00f3 choveu e ficamos dias intermin\u00e1veis dentro de casa, sem poder ir ao mar, sem poder jogar bola no gramado, sem arranhar bra\u00e7os e pernas no arame farpado que cercava o gramado, as bicicletas tristemente acorrentadas na garagem, pois s\u00f3 chovia durante o dia todo, sem cortar a grama (parte entediante) e no fim da tarde, com a grama que fora cortada j\u00e1 seca, amonto\u00e1-la e fazer fogueiras (parte extraordinariamente divertida), e s\u00f3 o que dava para fazer era ler e desenhar e ouvir m\u00fasica, e ler e desenhar e ouvir m\u00fasica pod\u00edamos perfeitamente fazer no apartamento mesmo, que era mais amplo e assim ocasionava menos exibi\u00e7\u00f5es de luta-livre entre irm\u00e3os agoniados com o pouco espa\u00e7o da velha casa de praia, ilhados nela que est\u00e1vamos pela chuva, e estar ilhado metaforicamente estando j\u00e1 ilhado literalmente, n\u00e3o poder usufruir da literariedade do nosso ilhamento natural, apenas ter que suportar a met\u00e1fora daquele ilhamento at\u00edpico, que implicava em \u00e1gua caindo do c\u00e9u e encharcando a grama e todo o resto fora de casa e n\u00e3o apenas nos circundando em trechos demarcados de nosso pequeno reino, estar ilhado tamb\u00e9m verticalmente, e naquele ilhamento vertical s\u00f3 nos restava ficar permanentemente sob um teto, ao contr\u00e1rio do horizontal cujo \u00fanico aborrecimento era lembrar de passar o filtro solar l\u00e1 pelas 10h45 por causa do tem\u00edvel sol das 11h, sol este que era praticamente a raz\u00e3o e o \u00e1pice de nossas vidas de crian\u00e7as, isso, em pleno ver\u00e3o, em plenas f\u00e9rias escolares, foi dif\u00edcil para n\u00f3s mas ainda mais para nossos pais que tinham de controlar a n\u00f3s, alimentar a n\u00f3s, acalmar a n\u00f3s, da\u00ed que voltamos para o apartamento e acho que esse foi o \u00fanico ver\u00e3o da minha inf\u00e2ncia que n\u00e3o foi passado na praia, quero dizer, foi o \u00fanico ano da minha inf\u00e2ncia que n\u00e3o houve ver\u00e3o. E agora, novamente, essa mesma chuva por dias e dias. Mas desta vez, diferente daquela outra --- e finalmente vou dizer o que vim aqui dizer desde o princ\u00edpio --- agora pouco me importa a chuva intermin\u00e1vel a\u00ed fora, pelo contr\u00e1rio, adoro-a, \u00e9 muito bonita, tudo ali\u00e1s anda muito bonito e estimulante, a cada dia que passa e \u00e9 um dia a menos, no momento exatos 43, para eu ver o Swans ao vivo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"printscreen do desktop de um ilhado.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":644,"title":"Discos do m\u00eas - Abril de 2015","post_timestamp":"2015-05-03T22:52:27+00:00","url":"2015_05_03_discos_do_mes_abril_de_2015","post":"**Miles Davis - Kind of Blue**\r\n\r\nRecapitulando abril: bastante trabalho; uma viagem \u00e0 It\u00e1lia; uma grande mudan\u00e7a na minha rotina di\u00e1ria; a gripe mais brutal que j\u00e1 tive na vida. Foram umas semanas deveras intensas e memor\u00e1veis, sendo que as coisas que aconteceram mais l\u00e1 pro come\u00e7o do m\u00eas me parecem, neste momento, terem ocorrido h\u00e1 muito mais tempo. A tal gripe n\u00e3o teve nada de corriqueiro: no auge do padecimento, uma noite de domingo para segunda que passei inteira \u00e0s claras, eu senti nitidamente que minha cabe\u00e7a estava prestes a explodir tal qual naquele velho e maravilhoso filme do David Cronenberg. Mas n\u00e3o chegou a esse ponto e ningu\u00e9m precisou enxaguar as paredes aqui de casa com \u00e1gua sanit\u00e1ria; sobrevivi, e na noite seguinte, ainda mal mas j\u00e1 entrando naquele per\u00edodo de convalesc\u00eancia molenga p\u00f3s-gripe, como novamente n\u00e3o estava conseguindo dormir, na hora mais silenciosa e tranquila da madrugada eu me deitei no sof\u00e1 da sala e pressenti que havia uma m\u00fasica rondando minha cabe\u00e7a, se insinuando devagarzinho por entre as frestas dos pensamentos, um som que eu deveria ouvir naquele momento e ele provavelmente teria efeito melhor do que a \u00faltima p\u00edlula de paracetamol que eu planejava tomar para extirpar de vez a doen\u00e7a (n\u00e3o gosto de rem\u00e9dios, evito-os ao m\u00e1ximo, mas o estado lastim\u00e1vel em que eu me encontrava n\u00e3o permitia recusar ajuda nenhuma, mesmo essa vinda da torpe ind\u00fastria farmac\u00eautica). N\u00e3o foi preciso muito esfor\u00e7o para descobrir que b\u00e1lsamo sonoro era esse: *Kind of Blue*, do Miles Davis. Enquanto ouvia o disco e sentia o prazer intenso, quase carnal, daquela m\u00fasica percorrendo e desobstruindo vias respirat\u00f3rias e canais sensoriais, passei definitivamente dos est\u00e1gios finais da febre para o de convalescente-relaxado, e depois para um outro semi-delirante e exultante, at\u00e9 que finalmente atingi a mediunidade e ainda regressei uns anos no tempo: estava dentro da mente de Miles Davis enquanto este concebia *Kind of Blue*. Tive ent\u00e3o acesso aos seus pensamentos, que me pareceram ser desta ordem: \u0022toda m\u00fasica \u00e9 uma perturba\u00e7\u00e3o do sil\u00eancio, mas eu preciso fazer uma m\u00fasica que n\u00e3o seja isso, que na verdade seja o oposto disso; uma m\u00fasica que n\u00e3o se oponha ao nada-sonoro, mas que germine deste, que seja uma evolu\u00e7\u00e3o org\u00e2nica deste para um outro est\u00e1gio que conserve do sil\u00eancio original a serenidade e nos relembre da cada vez mais perdida e remota familiaridade que t\u00ednhamos com ele\u0022. A espraiada influ\u00eancia de *Kind of Blue*, sua recorr\u00eancia no topo das listas de maiores discos de jazz de todos os tempos, e o poder medicinal que descobri naquela madrugada, testemunham que alguma coisa muito extraordin\u00e1ria Miles Davis conseguiu.\r\n\r\n**Medeski, Martin \u0026 Wood  - Radiolarians Vol. I**\r\n\r\nA viagem \u00e0 It\u00e1lia citada acima foi para Floren\u00e7a, cidade que eu j\u00e1 conhecia, mas que naquela primeira visita, em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias daquela vez, n\u00e3o pude captar bem o seu esp\u00edrito. Dessa vez foi diferente e apaixonei-me intensamente por Floren\u00e7a. Cidades, assim como corpos, tem suas formas, seus metabolismos, suas sutilezas diversas que v\u00e3o se encadeando e definindo a balan\u00e7a da atra\u00e7\u00e3o ou repulsa --- seus cheiros, cores, alma. Floren\u00e7a tem (e nem os milhares de turistas a percorrer suas ruas e museus conseguem solapar isso) uma suavidade e uma receptividade ao caminhante que a tornam desses lugares especiais para percorrer ouvindo m\u00fasica. Botei para tocar num daqueles dias --- que foram todos de perfeito c\u00e9u azul imaculado e aconchegante friozinho primaveril --- o primeiro volume da s\u00e9rie *Radiolarians* do Medeski, Martin \u0026 Wood, e me embrenhei pelos labirintos outrora percorridos por Da Vinci, Dante, Botticelli e Galileu com aquela m\u00fasica c\u00f3smica desvairada decretando os rumos e aumentando meu deslumbramento a cada passo. As impress\u00f5es causadas por cen\u00e1rio e m\u00fasica v\u00e3o se retro-alimentando, os limites entre os sentidos se diluindo, e para evitar a satura\u00e7\u00e3o, \u00e9 indicado parar numa trattoria qualquer, tirar os fones, descansar, e pedir um daqueles inigual\u00e1veis vinhos italianos. Ah! Para ter um \u00fanico dia desses por m\u00eas, eu toparia aguentar, mensalmente, at\u00e9 mesmo tr\u00eas ocorr\u00eancias daquela gripe descrita acima... \r\n\r\n**Bush - Razorblade Suitcase**\r\n\r\nEm algum momento entre os dois eventos narrados acima me ocorreu essa id\u00e9ia despirocada de escutar Bush. Algu\u00e9m lembra dessa banda? Tive durante um breve per\u00edodo o disco *Razorblade Suitcase* gravado numa fitinha, que creio n\u00e3o ter ouvido mais do que duas ou tr\u00eas vezes: muito rapidamente ela foi regravada com alguma outra coisa melhor que agora n\u00e3o tenho como lembrar o que era, j\u00e1 que \u0022alguma coisa melhor do que Bush\u0022 siginifica virtualmente tudo. J\u00e1 n\u00e3o gostava naquela \u00e9poca, mas desta vez, quando escutei ao \u00e1lbum novamente via mp3 (ah, a infind\u00e1vel montanha de lixo que \u00e9 a tal nuvem digital, viabilizando a vida de tarados e malucos diversos desde mil novecentos e noventa e poucos), dessa vez fiquei at\u00e9 meio envergonhado. Devo justificar esse ato bizarro como parte de um costume que tenho de vez ou outra escutar novamente algum disco h\u00e1 muito n\u00e3o escutado, algo ouvido em algum momento remoto da vida e logo depois descartado por falta de interesse maior --- tipo um programa meio espor\u00e1dico de recapitula\u00e7\u00e3o de tudo que j\u00e1 escutei at\u00e9 hoje. Uma bobagem, evidentemente, e somente os nost\u00e1lgicos como eu talvez n\u00e3o passem a me ver como um completo desocupado. Mas Bush j\u00e1 \u00e9 demais, devo reconhecer; o som dessa banda era desonestidade e c\u00e1lculo indecoroso por todos os poros, formulaico at\u00e9 n\u00e3o poder mais, de deixar tonto, n\u00edvel Creed de inf\u00e2mia. \u00c9 daquelas provas incontest\u00e1veis sobre o poder do mercado, da propaganda, da ind\u00fastria do entretenimento e sua maquinaria em permanente desova de produtos minuciosamente planejados para engrossar as prateleiras das lojas e fundamentar as \u0022tend\u00eancias\u0022, seus obsequiosos servidores e usufrutu\u00e1rios enredados num esquema que, em troca da participa\u00e7\u00e3o nesta ilus\u00e3o, drena suas almas. Aprendi lendo e relendo o Kafka que j\u00e1 somos todos, sem exce\u00e7\u00e3o, alienados, mas a mera exist\u00eancia de uma banda como o Bush demonstra que a coisa j\u00e1 foi longe demais nesses nossos dias atuais, e seria bom algu\u00e9m por ordem na humanidade.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":639,"title":"Discos do m\u00eas - Mar\u00e7o de 2015","post_timestamp":"2015-03-30T20:35:19+00:00","url":"2015_03_30_discos_do_mes_marco_de_2015","post":"Quando o m\u00eas de mar\u00e7o come\u00e7ou, eu ainda estava naquele embalo [hippie-psicod\u00e9lico-60s\/70s do m\u00eas anterior](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2015_03_04_discos_do_mes_fevereiro_de_2015), e tudo o que eu ouvi por alguns dias seguidos foi Led Zeppelin, principalmente os discos ao vivo, que por eu nunca t\u00ea-los escutado muitas vezes, traziam alguma coisa de novidade para mim. Eu sou capaz de entender algumas pessoas n\u00e3o gostarem do Led: o vocal do Robert Plant que soa um tanto barroco hoje em dia; a foto em frente ao avi\u00e3o com o nome da banda estampado evocando valores que hoje em dia associamos mais com coisas vindas de Dubai do que com grupos de rock; os excessos dos shows, eternizados nestes discos ao vivo. *Dazed and Confused*, *Whole Lotta Love* e *Moby Dick*, todas essas passavam tranquilamente dos 20 minutos ao vivo, e por mais que eu adore *Dazed and Confused* e consiga escut\u00e1-la por muitos e muitos minutos, *Whole Lotta Love* e *Moby Dick*, por outro lado, mesmo com v\u00e1rios pequenos trechos de outras m\u00fasicas enxertados, nunca foi exatamente o meu programa favorito ouvir essas duas estenderem-se por quase meia-hora. A m\u00e1gica do Led sempre esteve em outra parte, para mim. Est\u00e1, sobretudo, no disco *III*, nas sublimes *The Battle of Evermore* e *Going to California* do *IV*, e em boa parte do *Physical Graffiti*. Mas, voltando aos discos ao vivo, este recente *Celebration Day* e o *BBC Sessions* deixam-se escutar com muito prazer e curiosidade, s\u00f3 que o *real deal* ainda \u00e9 o cl\u00e1ssico *The Song Remains the Same*, lan\u00e7ado em 1976, com a banda no auge de suas for\u00e7as retumbantes, e ao qual mais recentemente veio se juntar o *How the West Was Won*. Este \u00faltimo, em particular, ouvi v\u00e1rias e v\u00e1rias vezes. A banda soa bomb\u00e1stica como no *The Song Remains the Same*, mas o disco triplo de 2003 tem o diferencial da pequena sess\u00e3o ac\u00fastica no fim do primeiro CD, formada por *Going to California*, *That\u0027s the Way* e *Bron-Yr-Aur Stomp*. Estou convencido de que \u00e9 ali naqueles 15 minutos de voz e viol\u00e3o, mais do que em todas as outras 2 horas e 15 minutos de rolo compressor el\u00e9trico, que a banda se credencia \u00e0 eternidade, e o faz com a pung\u00eancia irresist\u00edvel dos criadores que ultrapassam sem maiores esfor\u00e7os os limites que soerguem-se intranspon\u00edveis diante de praticamente todo o resto, e o conseguem com muito pouco barulho e muito pouco disp\u00eandio de energia.\r\n\r\nEu realmente n\u00e3o me importo em soar antiquado falando de discos ao vivo do Led Zeppelin em pleno 2015, esse ano que parece sa\u00eddo de filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica assistidos n\u00e3o muito tempo atr\u00e1s, mas o fato \u00e9 que depois houve uma s\u00fabita mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o, que come\u00e7ou com o resgate de dois discos muito queridos que eu n\u00e3o escutava fazia um tempinho: o *The Moon \u0026 Antarctica*, do Modest Mouse, e o *Rated R*, do Queens of the Stone Age. Talvez as tem\u00e1ticas n\u00e3o mudem muito em rela\u00e7\u00e3o ao que cantava o Led Zeppelin 40 anos atr\u00e1s... O disco do Queens para mim \u00e9 um indispens\u00e1vel cl\u00e1ssico de ver\u00e3o, acho que eu j\u00e1 disse isso por aqui: \u00e9 um dos meus grandes \u00e1lbuns para temporadas de f\u00e9rias e viagens e dias ensolarados e aventureiros, de mochilas nas costas, manh\u00e3s de sono com o sal do mar ainda na pele, quantidades vari\u00e1veis de subst\u00e2ncias intoxicantes no organismo a qualquer hora do dia. Fica ali junto dos meus Doors e Midnight Oils na estante. J\u00e1 o *The Moon \u0026 Antarctica* \u00e9 um disco que --- percebi meio desconcertado uns dias atr\u00e1s --- eu deveria ter escutado j\u00e1 muito mais vezes do que de fato escutei. \u00c9 um disco para deitar e ouvir com aten\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o, e planejo reparar essa lacuna nos pr\u00f3ximos dias.\r\n\r\nE ent\u00e3o o universo conjurou e aconteceu at\u00e9 mesmo algo bem raro de acontecer comigo: conheci uma banda nova muito boa, nova a ponto do seu primeiro disco ser de 2010. Ou seja, para algu\u00e9m como eu, que ainda tem Led Zeppelin, Doors e Pink Floyd como itens constitutivos fundamentais de sua trilha-sonora habitual, esta \u00e9 praticamente uma banda que ainda vai nascer no futuro e cuja m\u00fasica desembarca por aqui numa m\u00e1quina do tempo. Chama-se Warpaint e este seu primeiro CD, chamado *The Fool*, \u00e9 uma preciosidade. S\u00e3o umas meninas de Los Angeles (e acabo de me lembrar que tamb\u00e9m a \u00faltima banda nova muito boa que eu tinha conhecido \u00e9 s\u00f3 de meninas: La Luz) que parecem ter ouvido muito My Bloody Valentine na inf\u00e2ncia e t\u00eam na grande banda de Kevin Shields sua maior influ\u00eancia, mas sem incorrer no erro comum de querer adaptar o MBV para as gera\u00e7\u00f5es perfeitamente despertas que ouviram muito Smashing Pumpkins nos anos 90: ao contr\u00e1rio, elas mant\u00e9m sua m\u00fasica na esfera imprecisa do sonho, tal qual fizeram ainda sem concorr\u00eancia at\u00e9 hoje o MBV, diferenciando-se destes apenas por serem um pouco menos densas, mais af\u00e1veis. Acho que \u00e9 o que chamam de dream pop. Um shoegazing com um pouquinho de leite, digamos. Em suma, gostei muito, coroaram um m\u00eas que foi intenso aqui com uma m\u00fasica muito bonita e inebriante. Um m\u00eas acompanhado de um admir\u00e1vel arco de m\u00fasica: de Led Zeppelin, que se refugiava em casas de campo sem eletricidade para compor seus discos, \u00e0 Warpaint, que devem colocar no Facebook fotos e v\u00eddeos do andamento di\u00e1rio das grava\u00e7\u00f5es de suas m\u00fasicas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":633,"title":"Discos do m\u00eas - Fevereiro de 2015","post_timestamp":"2015-03-04T16:30:32+00:00","url":"2015_03_04_discos_do_mes_fevereiro_de_2015","post":"**Beatles: Rubber Soul**\r\n\r\nJ\u00e1 vou logo avisando: passei o feriado de carnaval ouvindo Pink Floyd. Mas antes disso, uma palavrinha sobre o *Rubber Soul*, que eu ouvi muito atentamente numa sexta-feira de noite enquanto ca\u00eda um p\u00e9 d\u0027\u00e1gua colossal: \u00e9 curioso como, tr\u00eas ou quatro faixas adentro deste \u00e1lbum, a gente j\u00e1 come\u00e7a a antever exatamente quando as m\u00fasicas ir\u00e3o terminar, sejam em cortes instrumentais planejados ou ent\u00e3o em fade-outs meio abruptos e apressados em sua pontualidade. Esse disco \u00e9 t\u00e3o cl\u00e1ssico e axiom\u00e1tico que suas faixas --- todas elas parte da mem\u00f3ria musical de qualquer cidad\u00e3o urbano que esteve em contato sistem\u00e1tico com qualquer aparelho de comunica\u00e7\u00e3o de massa durante sua vida --- suas faixas s\u00e3o at\u00e9 algo dif\u00edceis de se escutar de uma outra forma que n\u00e3o a de breves e perfeitas li\u00e7\u00f5es musicais, que v\u00e3o se sucedendo num ritmo cada vez mais persuasivo, e por isso essa coisa do final das can\u00e7\u00f5es, que acabam sendo tipo transi\u00e7\u00f5es disciplinadas entre as li\u00e7\u00f5es. Claro, o disco \u00e9 muito mais do que isso: \u00e9 extraordin\u00e1rio e altamente inventivo, tem at\u00e9 uns detalhes meio man\u00edacos que eu n\u00e3o sei dizer o qu\u00e3o vanguard\u00edsticos foram para aquela \u00e9poca porque eu n\u00e3o sou nenhum estudioso, e mais um monte de coisa comprimida em 35 minutos... Enfim, s\u00e3o os Beatles em plena transmuta\u00e7\u00e3o de \u00eddolos juvenis para entidade m\u00edtica imortal.\r\n\r\n**Pink Floyd: Wish You Were Here**\r\n\r\nN\u00e3o \u00e9 raro, nos \u00faltimos tempos, eu parar para escutar um disco mas n\u00e3o conseguir chegar at\u00e9 sua \u00faltima m\u00fasica. O que acontece \u00e9 que, l\u00e1 pela metade --- ou ainda antes, dependendo do disco ---, a mente come\u00e7a a ficar inquieta e a aten\u00e7\u00e3o a dispersar-se, procurando por qualquer coisa para folhear ou papel para rabiscar. Provavelmente um sintoma destas mudan\u00e7as neurol\u00f3gicas anunciadas pelos especialistas que estudam o comportamento do c\u00e9rebro do homem contempor\u00e2neo imerso em informa\u00e7\u00e3o e internet. Uma coisa muito triste e cujas consequ\u00eancias a longo prazo e em escala planet\u00e1ria eu prefiro nem parar para pensar. Mas algumas obras ainda triunfam gloriosamente sobre nossos c\u00e9rebros, e o *Wish You Were Here* \u00e9 o soberano delas todas: esse \u00e1lbum captura o ouvinte do come\u00e7o ao fim, sem tr\u00e9gua, para uma viagem por um vasto territ\u00f3rio ora \u00e1rido por entre m\u00e1quinas de progn\u00f3sticos psicodelicamente desconfiados de futuro, cheias de bot\u00f5es redondos verdes e vermelhos, ora celestial ascendendo at\u00e9 constela\u00e7\u00f5es de estrelas que parecem comunicar-se entre si. Vis\u00f5es que v\u00e3o do opressivo ao libertador a ressaltar a dist\u00e2ncia do que ainda somos e do que ainda poderemos ser. \u00c9 um disco que ultrapassa as fronteiras do que prop\u00f5em os seus vizinhos de prateleira e que reinvidica os mais belos e tranquilos amanheceres para si, pois este \u00e9 o momento ideal para apreci\u00e1-lo, com a mente fresca e descansada, pronta para ser despachada para outras dimens\u00f5es. Eu o ou\u00e7o regularmente estimo que h\u00e1 mais de 20 anos, e com a maturidade parece vir o entendimento do porqu\u00ea de certas bandas, ou escritores e pintores, ficarem imunes ao tempo e continuarem pertinentes e admir\u00e1veis por gera\u00e7\u00f5es sucessivas, independente de suas modas e convuls\u00f5es e readpta\u00e7\u00f5es cerebrais: \u00e0s vezes parece ser, acima de tudo, uma quest\u00e3o de *precis\u00e3o*. *Shine On You Crazy Diamond* \u00e9 impregnada de t\u00e9cnica, inegavelmente, mas se ouvida com a devida aten\u00e7\u00e3o, ela pode extrapolar as sensa\u00e7\u00f5es normalmente despertadas pelas melhores m\u00fasicas, e passar a funcionar como um rearranjo refinado de unidades de tempo e espa\u00e7o, acomodadas de uma forma que se nos afigura ent\u00e3o mais adequada para a vida, como que se ent\u00e3o pud\u00e9ssemos enfim entrar num acordo razo\u00e1vel com a nossa finitude, o que acaba por recapitular aquele desejo infantil de querer transportar-se para dentro de uma m\u00fasica, ou de livro, ou de filme (ou de um brinquedo: meu irm\u00e3o, quando pequeno, pedia para que o colocassem dentro de uma pequena nave espacial Playmobil que n\u00f3s t\u00ednhamos), naquilo que \u00e9 provavelmente uma preconiza\u00e7\u00e3o infantil ainda n\u00e3o muito clara e compreens\u00edvel de certas quest\u00f5es que ainda ir\u00e3o, com o passar do tempo, render muita reflex\u00e3o e, em muitos casos, boas doses de p\u00e2nico tamb\u00e9m. E o que dizer de *Wish You Were Here*? Talvez soe um exagero (e o digo mesmo assim porque a essa altura voc\u00eas j\u00e1 devem estar acostumados com meus exageros...), mas sempre que ou\u00e7o essa m\u00fasica, ela me soa como uma amostra antecipat\u00f3ria da futura e redentora vit\u00f3ria do esp\u00edrito humano diante das coisas que mais tememos e ainda n\u00e3o compreendemos --- do horror do espa\u00e7o infinitamente vazio e possivelmente desprovido de qualquer outra forma de vida, org\u00e2nica ou demi\u00fargica. Estamos sozinhos nessa imensid\u00e3o (ou em uma \u0022fish bowl, year after year...\u0022), mas e da\u00ed?, se podemos preench\u00ea-la com coisas como... essa m\u00fasica? Ela ainda h\u00e1 de ser um dos primeiros ind\u00edcios reconhec\u00edveis, aos olhos de uma civiliza\u00e7\u00e3o de um futuro ainda muito al\u00e9m dos nossos horizontes atuais --- uma civiliza\u00e7\u00e3o a estudar retrospectivamente como foi que ela conseguiu sobreviver \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do planeta e \u00e0s guerras mundiais que ainda est\u00e3o por vir ---, um dos primeiros sinais inequ\u00edvocos em seu pren\u00fancio de que mesmo entre aqueles seres primitivos e violentos que \u00e9ramos\/somos n\u00f3s, j\u00e1 era poss\u00edvel distinguir alguma esperan\u00e7a, esperan\u00e7a para n\u00f3s mesmos, anulando a hip\u00f3tese mais ou menos aceita hoje em dia daquilo que disse certa vez um escritor tcheco, de que havia esperan\u00e7a sim, mas n\u00e3o para n\u00f3s.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Quantas decis\u00f5es question\u00e1veis quanto ao direcionamento de uma carreira ou entrevistas desastradas s\u00e3o necess\u00e1rias para simplesmente largar de m\u00e3o? Hoje em dia onde a restri\u00e7\u00e3o \u00e9 de tempo e n\u00e3o de acesso, a possibilidade \u00e9 muito maior de descobrir novos sons ao n\u00e3o ficar restrito aos velhos nomes do passado que j\u00e1 n\u00e3o tem muito a dizer.\r\n\r\nParece simples, mas a racionalidade n\u00e3o se imp\u00f5e t\u00e3o f\u00e1cil e eu sempre acabo abrindo espa\u00e7o para seguir acompanhando discografias que comecei a montar na \u00e9poca da fita cassete. Pensando sobre isso cheguei \u00e0 imagem de encontrar um conhecido de inf\u00e2ncia d\u00e9cadas depois de passado o conv\u00edvio, ao acaso. Ao inv\u00e9s de um protocolar cumprimento, a op\u00e7\u00e3o por ouvi-lo contar das novidades e dos seus interesses mesmo que os caminhos da vida o tenham colocado em outro contexto. \u00c9 uma analogia rasa e tola, e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 bem isso que ajudaria a explicar em parte minha dificuldade em praticar um \u0027desapego musical\u0027. Al\u00e9m da mera curiosidade ou da nostalgia de relembrar figuras familiares e importantes em uma outra \u00e9poca, o ponto seria a sensa\u00e7\u00e3o de constru\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de narrativa. Pois cada banda ou artista constr\u00f3i uma trajet\u00f3ria \u00fanica, com ascens\u00e3o e queda, deslizes e triunfos, pequenas incoer\u00eancias e mudan\u00e7as de rumo n\u00e3o explicadas. S\u00e3o por estas hist\u00f3rias constru\u00eddas disco a disco que, indiferente da m\u00fasica n\u00e3o fazer tanto sentido nesse momento da minha vida, continuo acompanhando determinados artistas, definitivamente.\r\n\r\n***\r\n\r\nPara n\u00e3o me furtar de dar nome aos bois, dois discos que ouvi que se encaixam na descri\u00e7\u00e3o acima: *Love Stories \u0026 Other Musings* do Candlebox e *For Your Friends* do Blind Melon.  \r\n\r\nE , sim, tem bandas que ouvi h\u00e1 pouco tempo e abandonei de vez porque tudo tem limite. Uma delas Architecture in Helsinki, da qual tinha gostado do *In Case We Die*, disco de uma psicodelia pop inquieta e criativa, mas que descambou num pop eletr\u00f4nico convencional e desinteressante nos mais recentes. E outra o Death From Above 1979, que, acho que na verdade nunca teve nada a ver comigo em tempo algum.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Alexandre Luzardo","url":"alexandre_luzardo"}},{"id":628,"title":"Janeiro \/ 2015","post_timestamp":"2015-02-09T19:34:52+00:00","url":"2015_02_09_janeiro_2015","post":"Mount Eerie : *Wind\u0027s Poem* (2009, P.W. Elverum \u0026 Sun Ltd.)\r\n\r\nEm meio a uma \u00e9poca de intermitentes reflex\u00f5es pessoais, a qual ainda n\u00e3o apresentou sinais de expirar, ando experimentando bandas sobre as quais sempre li mas nunca ouvi. Reflex\u00f5es pessoais (acho) pressup\u00f5em o exerc\u00edcio da habilidade de mudar e nada mais oportuno do que um livro inusitado ou um disco impensado para dar suporte \u00e0 essa tarefa de colheitas incertas. Abrem a cabe\u00e7a. Sempre relacionei o Mount Eerie com aquelas bandas que os indies incensam sem necessariamente carregar consigo os MP3s, isto \u00e9, justificando a ova\u00e7\u00e3o com efetivas audi\u00e7\u00f5es. Sabia que tratava-se de uma sequ\u00eancia natural dos The Microphones (outros queridinhos daquela turma) e imaginava alguma rela\u00e7\u00e3o com aquele tipo de m\u00fasica que faz voc\u00ea se sentir por fora do que est\u00e1 acontecendo ou, numa vis\u00e3o menos condescendente, um idiota sem os requisitos necess\u00e1rios para entend\u00ea-los. Mas j\u00e1 que o meu contexto atual de certa forma sugere peito aberto para se deparar com frustra\u00e7\u00f5es, escutei ent\u00e3o alguns discos do Mount Eerie e at\u00e9 certo ponto n\u00e3o encontrei grandes contradi\u00e7\u00f5es com o que esperava deles. \u00c9 sim um tipo de m\u00fasica de\/para criaturas introspectivas e sem empatia, em que a simplicidade do *low fi* anda junto com uma certa erudi\u00e7\u00e3o, ostentando a tal *fin\u00e8sse* que os faz soar \u0022espertos\u0022 mas que por sua vez exige do ouvinte o dia e hor\u00e1rio certo para digeri-la. Por\u00e9m, esse *Wind\u0027s Poem*, calcado sobre influ\u00eancias de black metal (!?), traz o Mount Eerie para uma esfera um pouco familiar e, dos discos que ouvi, \u00e9 o que melhor representa o apelo que celebra a banda. O citado black metal n\u00e3o se faz presente de forma literal: n\u00e3o s\u00e3o todos os momentos onde a m\u00e3o pesa um pouco mais. Praticamente n\u00e3o h\u00e1 urros guturais (pelo contr\u00e1rio). O cruzamento se d\u00e1 com aquilo que o g\u00eanero supostamente cultiva: tristeza e desilus\u00e3o, por\u00e9m, por outras vias. Phil Elverum \u00e9 realmente muito bom em usar sentimentos melanc\u00f3licos e temas sinistros e apresent\u00e1-los atrav\u00e9s de roupagens bastante diversificadas, com a solid\u00e3o atuando feito fio condutor entre as faixas. Isso faz com que *Wind\u0027s Poem* transcorra por diversos g\u00eaneros e suscite predicados d\u00edspares como beleza, grandiosidade, simplicidade e intimismo com a maior flu\u00eancia poss\u00edvel. *Wind\u0027s Dark Poem* e *Hidden Stone* flertam com a est\u00e9tica do black metal (esta \u00faltima com fant\u00e1sticos vocais), *My Heart Is Not At Peace* d\u00e1 as coordenadas da qualidade mel\u00f3dica das m\u00fasicas de Elverum. *Between Two Mysteries* se apodera de um trecho da trilha de Twin Peaks e torna-se t\u00e3o obrigat\u00f3ria quanto assistir \u00e0 s\u00e9rie e ainda h\u00e1 manipula\u00e7\u00f5es sonoras em *(Something)* e lirismo indie em *Through The Trees*.  Tenho dificuldades de afirmar que *Wind\u0027s Poem* abrir\u00e1 o leque do Mount Eerie \/ Microphones para mim. Por\u00e9m, sua miss\u00e3o de embalar meus questionamentos e instigar minha zona de conforto foi cumprida com \u00eaxito.\r\n\r\nInterpol : *El Pintor* (2014, Matador):\r\n\r\nCitei esse \u00e1lbum no meu rescaldo e como a rota\u00e7\u00e3o dele est\u00e1 alta por aqui, acho que vale reafirmar a boa surpresa que ele causou. A banda estava com filme meio chamuscado depois do (quase constrangedor) disco hom\u00f4nimo de 2010, onde ficou bem evidente a crise de identidade gerada pela sa\u00edda do baixista e antecipada na irregularidade da qualidade dos discos solo de Paul Banks. Comparei o Interpol com os Smashing Pumpkins, banda que a partir de um certo momento foi obrigada a travar cruzadas particulares para se realocar no panorama musical de hoje e tentar soar de alguma forma relevante. Pois se os ouvintes ainda n\u00e3o conseguem desvincular o Interpol de seus grandes momentos, esperando de novos trabalhos um resgate da empolga\u00e7\u00e3o provocada por *Turn On The Bright Lights*, o trio (assim como o Billy Corgan) parece ter conseguido resolver boa parte de suas hesita\u00e7\u00f5es, apresentando um disco mais direto e autom\u00e1tico, representando o que de melhor p\u00f4de criar em 2014. Apesar do esfor\u00e7o na releitura dos \u00eaxitos passados evidenciar-se, o que faz de *El Pintor* uma esp\u00e9cie de porcelana reconstitu\u00edda, a banda conseguiu retomar significativamente seus principais atributos e, mesmo sem soar t\u00e3o sorumb\u00e1tica (talvez o que causava maior fasc\u00ednio em seus primeiros discos), reuniu um grupo bem consolidado de novas can\u00e7\u00f5es. *Everything Is Wrong* e *Ancient Ways* t\u00eam assinatura cl\u00e1ssica da banda, *Anywhere* e *My Desire* parecem extra\u00eddas do terceiro \u00e1lbum, alguma coisa de *Antics* \u00e9 resgatada em *Same Town, New Story* e *My Blue Supreme*. Praticamente nada do experimentalismo inconsistente de *Interpol* (o disco) pode ser encontrado e h\u00e1 ainda a faixa clim\u00e1tica que fecha o disco em ritmo reflexivo, *Twice As Hard*, como tem sido h\u00e1bito nos \u00faltimos discos do Interpol. Para uma banda que mesmo em sua arrebatadora estreia ficou marcada como uma nova roupagem do Joy Division, *El Pintor* at\u00e9 que nos brinda com um bom conte\u00fado, como nos agradecendo por n\u00e3o a termos abandonado at\u00e9 aqui.\r\n\r\nOBS.: Esta \u00e9 uma banda que usa terno e gravata.\r\n\r\nBroken Social Scene : *Broken Social Scene* (2005, Arts \u0026 Crafts)\r\n\r\nTenho escutado bastante a Leslie Feist (escreverei sobre ela na pr\u00f3xima oportunidade) e das sucessivas audi\u00e7\u00f5es de seus discos \u00e0 redescoberta do Broken Social Scene, com o qual ela esporadicamente contribui, foi um tapa. \u00c9 um coletivo em que o car\u00e1ter colaborativo est\u00e1 em primeiro plano, suas m\u00fasicas n\u00e3o preservam formatos, g\u00eaneros e comumente partem de um ponto para terminar em outros completamente inusitados, dificultando que nos recordemos dos caminhos que nos levaram at\u00e9 aquele final. Isso faz com que ele imponha uma certa dificuldade de assimila\u00e7\u00e3o: muitas coisas acontecem ao mesmo tempo em uma \u00fanica m\u00fasica, h\u00e1 uma overdose de criatividade combinada a partir das m\u00faltiplas contribui\u00e7\u00f5es de quem participa de uma determinada faixa, muitas vezes deixando o ouvinte soterrado em tanta informa\u00e7\u00e3o musical. Dos tr\u00eas discos que disponho, esse hom\u00f4nimo \u00e9 o que melhor equilibra os devaneios com os momentos assimil\u00e1veis e nele est\u00e3o a maioria das faixas que mais se parecem com *hits*. *7\/4 Shoreline* conta com os vocais indefect\u00edveis da supracitada Feist e \u00e9 uma das can\u00e7\u00f5es que melhor representa as qualidades imediatas da banda. *Major Label Debut* e *Swimmers* (essa \u00faltima com uma predile\u00e7\u00e3o especial por aqui) ilustram os diferentes e por vezes conceitualmente d\u00edspares g\u00eaneros com os quais a banda flerta. *Fired Eye\u0027d Boy* \u00e9 a mais redonda do disco, quase um tributo a um New Order surgido na efervesc\u00eancia da m\u00fasica alternativa dos anos 90. Destaco ainda *It\u0027s All Gonna Break* com sua letra, ahm, *irreverente* recheada de significados exclusivos para a banda. Mas o que determina mesmo minha empatia com o Broken Social Scene \u00e9 a familiaridade que tenho com as influ\u00eancias deles e o conte\u00fado com o qual eles inflam suas m\u00fasicas. \u00c9 uma esp\u00e9cie de apanhado de muitas coisas boas feitas nos anos 90 \/ 00, reestruturadas num fren\u00e9tico rotor de ideias, sem compromisso com imediatismos ou mesmo uma coer\u00eancia que seus ouvintes supostamente esperariam. L\u00f3gico, eles n\u00e3o conseguem fazer isso sem pecar pelo excesso mas, mesmo assim, a tormenta de \u00eaxtase ao criar m\u00fasica impossibilita que se fique indiferente ao som deles.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiadas do Google Images.","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":626,"title":"Discos do m\u00eas - Janeiro de 2015","post_timestamp":"2015-02-03T23:38:51+00:00","url":"2015_02_03_discos_do_mes_janeiro_de_2015","post":"**Bad Religion - Stranger Than Fiction**\r\n\r\nCerta vez acompanhei um amigo ao centro da cidade para que ele comprasse o rec\u00e9m-lan\u00e7ado *Stripped*, dos Rolling Stones. Smiths, Cure, Stones e Ramones eram as quatro bandas que eu e esse amigo compartilh\u00e1vamos o gosto, e fora isso, mais nada: ele gostava tamb\u00e9m da horrorosa dance music que tocava naquelas boates que fazia parte do ritual adolescente come\u00e7ar a frequentar aos 15 anos, e at\u00e9 hoje eu me pergunto como ele conseguia gostar ao mesmo tempo disso e de Ramones, a ponto de ter discos de ambas as coisas dividindo espa\u00e7o nos porta-CDs que ficavam sobre sua escrivaninha, os discos de dance music sendo sempre colet\u00e2neas com t\u00edtulos do tipo *Dance Hits 94* e *Hot Techno Hits 95* e capinhas gen\u00e9ricas multicoloridas. Mas t\u00ednhamos esses outros interesses em comum, e t\u00ednhamos tamb\u00e9m um acordo que previa compras e alugu\u00e9is coordenados dos \u00e1lbuns destas quatro bandas (e a consequente grava\u00e7\u00e3o em fitas K7 para o outro daquilo que cada um adquiria\/alugava), de modo a abranger a maior quantidade poss\u00edvel de discos diferentes, uma colabora\u00e7\u00e3o que nos ajudava a conhecer mais discos e aumentar nossas cole\u00e7\u00f5es de um jeito bem mais r\u00e1pido do que se ag\u00edssemos sozinhos, com o pouco ou quase nenhum dinheiro que t\u00ednhamos nos tempos de col\u00e9gio. Lembro de como, certa vez, no raro evento de termos n\u00f3s dois conseguido economizar para comprar um disco cada ao mesmo tempo, fomos ent\u00e3o juntos a uma loja do shopping perto de casa (vejam como tudo isso \u00e9 velho: havia lojas de discos dentro dos shopping centers!) e eu comprei o *Acid Eaters* e ele comprou o *Mondo Bizarro*, na fase em que mais escut\u00e1vamos Ramones. Mas naquela vez em que ele queria comprar o *Stripped*, eu n\u00e3o tinha muito dinheiro, e quando sa\u00ed de casa, n\u00e3o sabia ainda se compraria algo, de modo que a ocasi\u00e3o acabou sendo uma das minhas primeiras li\u00e7\u00f5es sobre minha doen\u00e7a consumista de discos. Pois o que aconteceu foi o seguinte: fomos \u00e0 loja que esse meu amigo queria ir --- uma loja que eu nunca tinha ido antes, numa parte da cidade que eu n\u00e3o conhecia direito --- e enquanto ele procurava pelo disco dos Stones, eu fiquei olhando uma outra prateleira onde os pre\u00e7os estavam todos em promo\u00e7\u00e3o. E l\u00e1 encontrei o ent\u00e3o mais recente lan\u00e7amento do Bad Religion, *Stranger Than Fiction*, custando algo que eu podia pagar naquele momento. Eu ainda n\u00e3o havia escutado aquele disco, mas j\u00e1 era f\u00e3 da banda: tinha deles uns tr\u00eas ou quatro outros CDs gravados, entre eles o *Suffer*, cuja encarna\u00e7\u00e3o em fita K7 era sempre transit\u00f3ria, j\u00e1 que o disco precisava ser regravado em uma nova fita religiosamente a cada semestre, de tanto que eu o escutava e deteriorava as fitas rapidamente. Resolvi ent\u00e3o comprar o Bad Religion, negociando com o meu amigo que comprava o *Stripped* uma tr\u00e9gua no nosso acordo das quatro bandas, e fui para casa escutar o meu primeiro CD da banda. E foi paix\u00e3o \u00e0 primeira escutada; que disco maravilhoso \u00e9 este! Reavaliando as velhas convic\u00e7\u00f5es, eu nunca cheguei a cogitar um preferido do Bad Religion que n\u00e3o o velho e querido *Suffer*, mas enquanto escutava novamente o *Stranger Than Fiction* uns dias atr\u00e1s, me dei conta de que \u00e9 este, na verdade, o meu preferido, algo que suponho j\u00e1 saber desde que o escutei pela primeira vez, mas era at\u00e9 ent\u00e3o uma dessas compreens\u00f5es que ficam limitadas \u00e0quela camada sub-consciente do pensamento, ainda n\u00e3o protocolada e oficializada pelas inst\u00e2ncias mais l\u00facidas e verbais. E, de um modo geral, acho que este \u00e1lbum \u00e9 o ponto culminante na discografia do Bad Religion, ainda mais se levarmos em conta que o anterior, o tamb\u00e9m muito bom *Recipe for Hate*, deixou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da banda um caminho muito limpo e sedutor em dire\u00e7\u00e3o ao sucesso comercial, caminho que a banda esnobou com muita f\u00faria e convic\u00e7\u00e3o nas 17 faixas deste \u00e1lbum seguinte. Dentre tantas p\u00e9rolas de um ou dois minutos e pouco, tem a *Tiny Voices*, cuja letra eu me esfor\u00e7ava em memorizar pois pressentia ali uma li\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria bem mais \u00fatil do que aquelas aprendidas na escola, com todas as suas datas e nomes e eventos diligentemente copiados nos cadernos que depois do fim das aulas pouco prestavam para qualquer coisa, excetuando-se, claro, o fato de suas p\u00e1ginas finais servirem-me sempre muito bem para anotar tracklists de mixtapes, fitinhas que eu come\u00e7ava a planejar durante as aulas mais pra perto do fim do ano pensando j\u00e1 nas f\u00e9rias de ver\u00e3o na praia.\r\n\r\n**M\u00f4nica Salmaso - Corpo de Baile**\r\n\r\nEscutar um disco da M\u00f4nica Salmaso \u00e9 sempre uma sess\u00e3o de renova\u00e7\u00e3o do afeto pelo Brasil. Com a voz de M\u00f4nica e os belos arranjos dados ao variado repert\u00f3rio de can\u00e7\u00f5es brasileiras que comp\u00f5em seus \u00e1lbuns, v\u00eam as mais v\u00edvidas vis\u00f5es de tudo que eu mais adoro neste peda\u00e7o t\u00e3o maltratado do planeta: o mar sublime e magn\u00e2nimo, os pores-do-sol mais deslumbrantes, a mistura de sons e cores e gentes que ainda h\u00e1 de ser o nosso principal legado ao mundo, e tamb\u00e9m o rico folclore descrito em livrinhos onde sempre havia aquele av\u00f4 bonach\u00e3o contador de hist\u00f3rias, e assistido com medo e deslumbre nas apresenta\u00e7\u00f5es teatrais nas ruas de pedras da inf\u00e2ncia, e ainda a variedade sem fim de p\u00e1ssaros, e crian\u00e7as brincando nas pra\u00e7as de bairros pequenos e tranquilos com pessoas a conversar em cadeiras junto \u00e0s portas de casas sem quintal na frente, e tantas outras coisas simples e humildes que ainda conservam suas liga\u00e7\u00f5es com uma certa antiga vis\u00e3o de mundo que vai sendo cada vez mais suprimida por n\u00e3o ser de interesse deste novo homem, esta pr\u00f3xima etapa da esp\u00e9cie que de nada ao seu redor entende, nada cultiva com aten\u00e7\u00e3o, mas tudo consome, \u00e1vido e alienado. Sou extremamente limitado em termos de m\u00fasica brasileira, mas sei o m\u00ednimo suficiente para lamentar profundamente que t\u00e3o pouca gente hoje em dia ainda ou\u00e7a Cartola e Nelson Cavaquinho, e aparentemente um n\u00famero menor ainda de pessoas conhe\u00e7a essa cantora magn\u00edfica... Enquanto isso, quando chega o fim do ano, \u00e9 imposs\u00edvel atravessar essa \u00e9poca sem que ao menos sejamos lembrados do programa especial do Roberto Carlos na Globo, e olha que eu n\u00e3o assisto televis\u00e3o. O Brasil tem um problema s\u00e9rio de mem\u00f3ria e de apura\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias culturais, algo que ainda vai nos custar muito at\u00e9 ser resolvido. M\u00f4nica deve possuir j\u00e1 seu pequeno s\u00e9quito de cultuadores (ela lan\u00e7a discos com alguma frequ\u00eancia j\u00e1 desde 1998), mas ela merece muito mais: cada disco novo seu deveria ser um evento nacional, uma celebra\u00e7\u00e3o do que h\u00e1 de melhor neste pa\u00eds, mas tanto n\u00e3o \u00e9 nada disso que eu s\u00f3 fiquei sabendo deste seu trabalho mais recente uns dias atr\u00e1s, tendo ele sido lan\u00e7ado j\u00e1 no ano passado. Da\u00ed eu vou l\u00e1 investigar e descubro que sua p\u00e1gina na Wikipedia n\u00e3o tem sequer uma discografia compilada, e a \u00faltima not\u00edcia que consta l\u00e1 \u00e9 de 2010... Bom, chega de lam\u00farias; em resumo, \u00e9 mais um disco lind\u00edssimo, e eu acho que todos deveriam ouvi-lo por incont\u00e1veis motivos, mas se tiver que ser apenas por um, ent\u00e3o que seja o fato de ele trazer uma m\u00fasica chamada *Bolero de Sat\u00e3*.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":625,"title":"Manifesto contra as bandas que usam terno","post_timestamp":"2015-02-02T16:38:30+00:00","url":"2015_02_02_manifesto_contra_as_bandas_que_usam_terno","post":"O m\u00ednimo que tenho a dizer sobre as bandas de rock que se apresentam trajando ternos \u00e9 que elas t\u00eam um p\u00e9ssimo senso de humor. E se n\u00e3o for meramente uma quest\u00e3o de humor, ent\u00e3o \u00e9 muito pior, \u00e9 um sentido totalmente falho de ocasi\u00e3o, circunst\u00e2ncia e hist\u00f3ria. Uma banda de rock que usa terno n\u00e3o tem sequer o senso m\u00ednimo necess\u00e1rio para distinguir que o terno n\u00e3o se situa em nenhum ponto entre os dois extremos do largo espectro de vestu\u00e1rio condizente com esta atividade, a saber: as mantas hippie-ind\u00edgenas do Jimi Hendrix de um lado e os h\u00e1bitos de monges da idade m\u00e9dia do Sunn O))) de outro. Esse m\u00ednimo necess\u00e1rio tamb\u00e9m ensina claramente que parecer-se com um pol\u00edtico ou um advogado n\u00e3o \u00e9 exatamente algo desej\u00e1vel para um artista, mesmo que voc\u00ea deixe o cabelo cuidadosamente desarrumado, e que se os Beatles usaram ternos no in\u00edcio da carreira, isso se deu simplesmente porque eles estavam inventando o rock naquela ocasi\u00e3o, e para com os inventores \u00e9 sempre permitida uma certa toler\u00e2ncia, uma vez que ningu\u00e9m sabe direito o que ser\u00e1 feito daquilo que est\u00e1 sendo inventado. (Desnecess\u00e1rio relembrar que no fim da carreira, eles, os Beatles, utilizavam batas indianas, sendo que o John Lennon, vez ou outra, preferia at\u00e9 mesmo usar roupa nenhuma.) A banda de rock que usa terno evidentemente sofre tamb\u00e9m de uma defasagem de imagina\u00e7\u00e3o, uma triste atrofia dos m\u00fasculos cerebrais respons\u00e1veis por um dos mais desej\u00e1veis pr\u00e9-requisitos para este modo de vida: me refiro ao coeficiente de rebeldia, de insubordina\u00e7\u00e3o. Nunca um compositor de can\u00e7\u00f5es de rock que usa terno ir\u00e1, por exemplo, entender o que diz aquele personagem do livro do Thomas Pynchon que, ao ver um comercial de atum enlatado na televis\u00e3o, come\u00e7a a discursar sobre a puls\u00e3o de morte que reside no \u00e2mago do capitalismo. Seus pensamentos (os do cantor de rock que usa terno) voltam-se constantemente \u00e0 agenda das pr\u00f3ximas sess\u00f5es de fotografia para as capas de revistas, n\u00e3o conseguindo, dessa forma, al\u00e7ar v\u00f4os imaginativos mais ousados e questionadores. O cantor de rock que usa terno tem como \u00eddolo, muito possivelmente, o ator Clark Gable ou ent\u00e3o o seu pr\u00f3prio pai, que trabalhava no banco, e n\u00e3o um poeta ou um guitarrista morto aos 27 anos. Isso eu at\u00e9 poderia entender se ao menos o seu pai se ocupasse, secretamente, de tarefas de sabotagem do sistema financeiro, agindo diretamente dentro da barriga da baleia, e lesse livros de filosofia de noite em casa junto aos filhos, mas geralmente n\u00e3o \u00e9 o caso (e Clark Gable, muito menos, ocupou-se de qualquer tarefa subversiva na vida; consta que ele cobrava 5 d\u00f3lares para dar um aut\u00f3grafo). A banda de rock que usa terno d\u00e1 um valor muito grande ao espa\u00e7o que h\u00e1 entre o palco e o p\u00fablico --- espa\u00e7o sempre muito convenientemente ocupado por seguran\u00e7as musculosos de olhar severo, seres abrutalhados sempre muito concentrados na perscruta\u00e7\u00e3o do p\u00fablico em busca de qualquer filetezinho insinuante de fuma\u00e7a de cigarro e nunca girando sequer num \u00e2ngulo m\u00ednimo o pesco\u00e7o para ver a m\u00fasica que est\u00e1 sendo produzida no palco \u00e0s suas costas (que, no caso das bandas de rock que usam terno, nunca \u00e9 grande coisa mesmo) ---, sem perceber que um show de rock deveria estar sempre aberto \u00e0 possibilidade de dilui\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o a qualquer momento, e \u00e0 possibilidade de fogueiras e dan\u00e7as ritual\u00edsticas. As bandas de rock que usam terno s\u00e3o sempre inglesas, mesmo quando n\u00e3o s\u00e3o, e elas tocam sempre no inverno, mesmo quando \u00e9 ver\u00e3o. Para finalizar, devo acrescentar apenas mais duas coisas: primeiro, que o Elbow \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra, pois pelo menos os ternos deles parecem ter manchas de cerveja e cheiro do bacon dos muquifos mais gordurosos de Manchester (sem contar que a m\u00fasica deles est\u00e1 rapidamente se transformando em algo que logo logo n\u00e3o ser\u00e1 mais reconhecido como rock), e segundo, que se isso que tenho a dizer sobre as bandas que usam terno soe talvez um pouco exagerado, ent\u00e3o \u00e9 melhor eu nem come\u00e7ar a falar sobre aquelas que, ainda por cima, usam tamb\u00e9m gravata.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":623,"title":"Sobre h\u00e1bitos e (re)descobertas + Coment\u00e1rios de sof\u00e1","post_timestamp":"2015-01-28T16:18:17+00:00","url":"2015_01_28_sobre_habitos_e_re_descobertas_comentarios_de_sofa","post":"Com o passar do tempo \u00e9 comum desenvolver alguns h\u00e1bitos onde ouvir m\u00fasica se encaixa de maneira quase que obrigat\u00f3ria. Uma das minhas manias \u00e9 correr ouvindo m\u00fasica no fone de ouvido. Correr em termos, atletas correm, eu no m\u00e1ximo troteio com meu fone de ouvido ligado no aleat\u00f3rio. Na verdade a gra\u00e7a de ouvir m\u00fasica n\u00e3o acontece durante a corrida em si. O foco durante a corrida est\u00e1 em controlar o f\u00f4lego, dosar o ritmo, cuidar o tempo e a dist\u00e2ncia. A m\u00fasica fica em plano secund\u00e1rio, as vezes nem percebo qual a m\u00fasica que est\u00e1 tocando. \u00c9 na hora de voltar para casa, j\u00e1 caminhando, que a m\u00fasica assume o papel principal. Durante aquela sensa\u00e7\u00e3o boa de relaxamento total causada pela libera\u00e7\u00e3o de endorfina (assim dizem). Trata-se do momento perfeito para ser impactado de uma maneira especial, can\u00e7\u00f5es que passaram despercebidas por muito tempo de repente fazem todo o sentido. Ou can\u00e7\u00f5es j\u00e1 h\u00e1 tempo incorporadas em todos o seus detalhes ressurgem como novidade. No \u00faltimo domingo redescobri [*Memphis*](https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HcSkSTGrubo) da PJ Harvey, que est\u00e1 entre as minhas favoritas dela. Tem alguma coisa especial ali. N\u00e3o pela letra, que \u00e9 t\u00e3o direta na homenagem a Jeff Buckley que chega a ser inc\u00f4moda em alguns momentos, mas na execu\u00e7\u00e3o. O jeito de cantar dela, n\u00e3o com agressividade, mas com vigor, acompanhado de um arranjo simples mas perfeito de guitarra, \u00e9 arrebatador, desde os primeiros segundos. A vontade foi de deixar no repeat e pegar um caminho mais longo apenas para prolongar o momento o m\u00e1ximo poss\u00edvel.\r\n\r\nMemphis \u00e9 um b-side da \u00e9poca do *Stories From the City, Stories From The Sea*, provavelmente meu disco favorito da senhora Polly Jean. Coincidentemente ou n\u00e3o, \u00e9 o mais acess\u00edvel. E ent\u00e3o acabei lembrando de uma contempor\u00e2nea da PJ Harvey que lan\u00e7ou disco novo semana passada, a Bj\u00f6rk. Assim como PJ Harvey, a islandesa parece pouco afeita a essas coisas menores como conex\u00e3o com o p\u00fablico e segue seus impulsos art\u00edsticos sem qualquer tipo de concess\u00e3o. Justamente por essa caracter\u00edstica \u00e9 que o trabalho da Bj\u00f6rk a partir do terceiro disco \u00e9 mais f\u00e1cil de admirar do que gostar, mas nem por isso \u00e9 menos instigante. [Aqui ](http:\/\/pitchfork.com\/features\/interviews\/9582-the-invisible-woman-a-conversation-with-bjork\/)ela detalha o novo disco, inspirado no fim de seu casamento e por isso tem letras bem pessoais e desconcertantes. A ver.\r\n\r\n***\r\n\r\nAssisti boa parte da transmiss\u00e3o do show do Foo Fighters no Rio de Janeiro no Multishow no \u00faltimo domingo, show que tinha cogitado de ir aqui em POA e acabou n\u00e3o rolando. Pois olha, tudo indica que eu perdi um show que dificilmente se repetir\u00e1, ao menos nessas circunst\u00e2ncias. Porque o Foo Fighters est\u00e1 no auge, sen\u00e3o criativo, ao menos de popularidade, e abra\u00e7ou o seu status atual reproduzindo em seu show toda a grandiosidade perform\u00e1tica de show grande, de banda de est\u00e1dio. Faltou s\u00f3 pirotecnia, o resto teve. No contexto do \u00e1lbum\/document\u00e1rio *Sonic Highways*, esse tipo de abordagem se justifica, at\u00e9 como homenagem \u00e0 hist\u00f3ria do rock. E a banda executou todos os \u0027truques\u0027 com propriedade e compet\u00eancia, esbanjando carisma. \r\n\r\nDe todo o jeito, se o Foo Fighers for voltar outras vezes como prometeu na despedida do show, que venha com um show mais enxuto, ao menos que n\u00e3o tenha vers\u00e3o estendida de todas as m\u00fasicas. Uma ou duas t\u00e1 na conta, mas n\u00e3o todas. O show n\u00e3o engrena, quebra o pique a todo momento. De repente na hora da pesquisa para o document\u00e1rio e para montar o conceito da turn\u00ea faltou prestar aten\u00e7\u00e3o em algum show do Ramones. Mas a cover do Rush ficou muito boa.\r\n","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Alexandre Luzardo","url":"alexandre_luzardo"}},{"id":621,"title":"A m\u00fasica e a crian\u00e7a","post_timestamp":"2015-01-20T17:26:15+00:00","url":"2015_01_20_a_musica_e_a_crianca","post":"\u003E A m\u00fasica, para mim \u00e9 como o mar. Tem adulto que nada no raso e crian\u00e7a que nada no fundo.\r\n\r\n[Entrevista ](http:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/25\/entrevista-helio-ziskind\/)muito interessante de H\u00e9lio Ziskind no [Scream \u0026 Yell](http:\/\/screamyell.com.br\/) abordando m\u00fasica para crian\u00e7as, um universo que tenho tido algum contato ultimamente. H\u00e9lio tem muito boas ideias, uma forma\u00e7\u00e3o musical e um hist\u00f3rico fascinante na chamada Vanguarda Paulistana nos anos 70, al\u00e9m de hist\u00f3rias divertid\u00edssimas sobre os bastidores dos programas infantis que marcaram \u00e9poca na TV Cultura. \r\n\r\nDesviando um pouco o assunto, \u00e9 desafiador estimular o interesse de uma crian\u00e7a pela m\u00fasica. E \u00e9 um momento m\u00e1gico perceber a crian\u00e7a, sobretudo um beb\u00ea, respondendo a esse est\u00edmulo e interagindo com a m\u00fasica. Para quem gosta de rock, \u00e9 natural que se exista a vontade e se crie a expectativa de ver um molequinho seguindo esse caminho, mas estou entre aqueles que preferem que essa descoberta aconte\u00e7a naturalmente. Evidente que a cole\u00e7\u00e3o de discos estar\u00e1 \u00e0s ordens, mas prefiro, usando a analogia do H\u00e9lio, que ele aprenda a nadar. ","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Alexandre Luzardo","url":"alexandre_luzardo"}},{"id":619,"title":"Rescaldo","post_timestamp":"2015-01-13T23:32:35+00:00","url":"2015_01_13_rescaldo","post":"Vamos ent\u00e3o ao rescaldo do que tamb\u00e9m valeu a pena em 2014, por\u00e9m, talvez n\u00e3o tenha sido t\u00e3o indispens\u00e1vel quanto os tradicionais sete que costumamos indicar. Se bem que, pensando bem, talvez alguns at\u00e9 sejam bem indispens\u00e1veis sim:\r\n\r\n**Nothing** \/ *Guilty Of Everything* (Relapse): Essa banda \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o por aqui. H\u00e1 uma s\u00e9rie de ouvintes que a adoram, consideram *GoE* um dos discos do ano. Mas \u00e0 primeira vista ele est\u00e1 muito mais para um oportunista pastiche de *shoegazing* do que para um disco reafirmador do g\u00eanero. Por\u00e9m, h\u00e1 alguns momentos onde as melodias s\u00e3o memor\u00e1veis, as paredes de guitarras se embaralham com o fr\u00e1gil vocal (como em *Beat Around The Bush*) de forma que o esquema todo passa de *fraco* para *interessante*. Nada muito fant\u00e1stico, mas de vez em quando vale uma visita.\r\n\r\n**White Suns** \/ *Totem* (Flenser): Esse disco \u00e9 *intenso*. Imagino esses caras sentados nos fundos de uma casa abandonada, em meio a usu\u00e1rios de crack, sem camisa, sob um calor de uns quarenta graus, mastigando bulbos de l\u00e2mpadas. \u00c9 um panorama desses que *Totem* sugere. Me lembram tamb\u00e9m a esquizofrenia do Lightning Bolt, por\u00e9m, um pouco mais controlada, consequentemente, mais eloquente.\r\n\r\n**Sunn O)))** \/ *LA Reh 12* (Southern Lord): Num ano praticamente dedicado ao papel de coadjuvantes em projetos de \u00f3tima repercuss\u00e3o, foi f\u00e1cil esquecer que no in\u00edcio de 2014 o Sunn O))) largou mais uma leva de grava\u00e7\u00f5es onde eles se reencontram com o que fazem de melhor: muros de guitarras que remetem ao *cl\u00e1ssico* *The Grimmrobe Demos*. N\u00e3o adianta, ningu\u00e9m faz isso melhor do que eles.\r\n\r\n**Whirr \/ Nothing** \/ *Whirr \/ Nothing* (Run For Cover): Split que marca a amizade entre as duas bandas (que tem um integrante em comum) atrav\u00e9s de registros que sucedem os seus prestigiados LPs de 2014. O Nothing apresenta duas faixas que percorrem punk e grunge, pouco relacionadas com o *shoegazing* de *Guilty Of Everything* e quem gosta da banda n\u00e3o tem muito do que reclamar. J\u00e1 o Whirr gravou duas *p\u00e9rolas* que, produzidas por Will Yip, os aproximou do emo, afastando-os da barulheira enlama\u00e7ada que os caracteriza. Por\u00e9m, as melodias s\u00e3o t\u00e3o belas e tudo \u00e9 t\u00e3o fortuito, que \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o colocar as duas faixas em constante rota\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem muito a ver com o lindo *Sway*, mas \u00e9 igualmente irresist\u00edvel.\r\n\r\n**Wreck And Reference** \/ *Want* (Flenser): Creio que j\u00e1 citei essa dupla por aqui, trata-se de dois caras que com uma bateria e um (acho) tablet fazem m\u00fasicas pesadas o suficiente para derrubar preceitos cl\u00e1ssicos do metal. Em *Want* o W\u0026R sai das texturas \u00e1ridas e pesadas e envereda por uma sonoridade mais limpa, como que por \u00f3rg\u00e3os e pianos acompanhados por batidas ensandecidas. O efeito cat\u00e1rtico fica ent\u00e3o menos pronunciado, por\u00e9m, n\u00e3o menos sugerido. \u00c9 interessante quando bandas conseguem soar mal\u00e9ficas sem lan\u00e7ar m\u00e3os de recursos familiares, pelo contr\u00e1rio, atrav\u00e9s de caminhos nada esperados.\r\n\r\n**Drcarlsonalbion \/ Rogier Small** \/ *Elephanto Bianco* (Toztizok Zoundz): Embora o elogiado \u00e1lbum do Earth ainda n\u00e3o tenha me pegado de jeito, esse segundo split entre o guitarrista e a baterista foi uma grata surpresa. Duas faixas de pura intensidade e sons cheios, pronunciados e amplos. O que tinha tudo para ser apenas mais um cap\u00edtulo pouco relevante nessa incurs\u00e3o de Dylan Carlson pelo *western* e suas varia\u00e7\u00f5es at\u00e9 que rendeu um bom caldo.\r\n\r\n**Ai Aso** \/ *Lone* (Ideologic Organ): O poder desse \u00e1lbum est\u00e1 em mostrar como a m\u00fasica tem a capacidade de comunicar por meios nem sempre literais. Registrado em uma apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo da cantora no Jap\u00e3o, Ai Aso canta exclusivamente em japon\u00eas, o que dentro do contexto fez todo o sentido. Mas para os ouvintes de fora do pais, resta imaginar que tipo de dor, que tipo de desilus\u00e3o, ou o qu\u00e3o s\u00f3 a protagonista deve se sentir. Pois a triste e fr\u00e1gil performance vocal acompanhada por m\u00ednimos instrumentos n\u00e3o nos d\u00e1 outra via de interpreta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja a franca comisera\u00e7\u00e3o e encantamento com aquela inoc\u00eancia intelig\u00edvel. Destaque tamb\u00e9m para a linda capa que complementa a tem\u00e1tica do LP.\r\n\r\n**Geryon** \/ *Geryon* (Gilead Media): Black metal tocado apenas com bateria e baixo. Combina\u00e7\u00e3o que limita as chances de se cair nos quase inevit\u00e1veis lugares-comum do g\u00eanero mas, talvez pela imposi\u00e7\u00e3o da limita\u00e7\u00e3o de recursos, o Geryon acaba superando entraves e convencendo pela ambi\u00eancia geral que alcan\u00e7a.\r\n\r\n**Interpol** \/ *El Pintor* (Matador): Talvez em circunst\u00e2ncias semelhantes \u00e0s citadas sobre *Monuments To An Elegy*, o Interpol tornou-se mais uma banda da qual muito se espera e que, a cada novo \u00e1lbum, tenta encontrar alternativas para soar t\u00e3o necess\u00e1ria quanto em seus grandes momentos que j\u00e1 passaram. *El Pintor* foi um tanto subestimado pois pouco se falou a respeito, terminando o ano como apenas mais uma tentativa do Interpol de n\u00e3o desaparecer do alcance dos ouvintes. Mas o trio gravou seu melhor registro desde *Antics*, quase que revisitando todos os bons momentos da carreira, um verdadeiro apanhado de boas possibilidades e acertos na medida. Talvez n\u00e3o se consiga mais o clima ao mesmo tempo sorumb\u00e1tico e refinado dos dois primeiros discos mas mesmo assim, *El Pintor* resgata o interesse pela banda e chega por momentos bem perto disso.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":618,"title":"A\u00ed sim fomos surpreendidos novamente","post_timestamp":"2015-01-13T17:19:45+00:00","url":"2015_01_13_ai_sim_fomos_surpreendidos_novamente","post":"Esbarrei nessa [entrevista ](http:\/\/www.hollywoodreporter.com\/race\/found-star-new-radicals-gregg-739434)do Gregg Alexander a partir do Twitter do [Giancarlo Ruffato](http:\/\/giancarlorufatto.tumblr.com\/), m\u00fasico independente que nos tempos do guaran\u00e1 de rolha trocava ideia na nossa mailist-list.\r\n \r\nE ent\u00e3o que Gregg Alexander era o l\u00edder do New Radicals, banda que estourou na segunda metade dos anos 90 com o hit \u0022You Get What You Give\u0022 e depois desapareceu sem deixar vest\u00edgios. Eu, que nunca mais tinha pensado no New Radicals desde aquela \u00e9poca, imaginei que no artigo ia me deparar com hist\u00f3rias t\u00edpicas de banda one-hit wonder que justificassem o sumi\u00e7o. Sei l\u00e1, do cara que n\u00e3o conseguiu cumprir as expectativas de sucesso, acabou dispensado pela gravadora e foi fazer outra coisa da vida, ou da banda que desintegrou-se a partir de brigas internas, que decaiu a partir de abuso de subst\u00e2ncias ou qualquer outra coisa do tipo. Mas o fato \u00e9 que aparentemente Gregg Alexander deixou sua carreira de lado por, digamos, integridade art\u00edstica. Gregg Alexander desfez o New Radicals antes mesmo do segundo disco desiludido com o showbiz, a ind\u00fastria da celebridade, a invers\u00e3o de valores que, talvez mais at\u00e9 do que a crise na forma de distribui\u00e7\u00e3o, \u00e9 o motivo pela m\u00fasica de qualidade ser cada vez menos massificada hoje em dia. \r\n \r\nA ironia \u00e9 que eu jamais desconfiaria dos princ\u00edpios por tr\u00e1s do New Radicals a partir daquele hit. Pelo contr\u00e1rio, parecia algo puramente comercial, lembro de coment\u00e1rios na finada MTV Brasil sobre o clipe da \u0022revolu\u00e7\u00e3o no shopping center\u0022. Era a safra de bandas como Semisonic, Fastball, Matchbox 20, nomes que, sem entrar no m\u00e9rito de qualidade, faziam um pop rock mais palat\u00e1vel que veio a retomar um espa\u00e7o que no come\u00e7o da d\u00e9cada esteve aberto \u00e0 bandas do chamado rock alternativo (uma \u00e9poca doida que um Sonic Youth ou Flaming Lips poderia tocar no r\u00e1dio). Um espa\u00e7o que hoje quase n\u00e3o existe mais, nem para um New Radicals, querendo ou n\u00e3o Gregg Alexander fazer parte do jogo. ","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Alexandre Luzardo","url":"alexandre_luzardo"}},{"id":616,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2014","post_timestamp":"2015-01-07T18:27:35+00:00","url":"2015_01_07_discos_do_mes_dezembro_de_2014","post":"**Smoke Fairies - Wild Winter**\r\n\r\nAs in\u00fameras grada\u00e7\u00f5es e varia\u00e7\u00f5es poss\u00edveis sob um r\u00f3tulo t\u00e3o geral e antigo quanto \u0022folk\u0022 fazem com que seja poss\u00edvel amar e odiar o folk, ao mesmo tempo. Em geral n\u00e3o me comovem aqueles artistas que parecem buscar a mais delicada e angelical das belezas com suas vozes e viol\u00f5es; Nick Drake, por exemplo, \u00e9 t\u00e3o bonito e t\u00e3o perfeito que me enfastia um pouco, e toda a gama de imitadores do ingl\u00eas n\u00e3o me desce pela garganta de jeito nenhum; do Bob Dylan e todas suas imperfei\u00e7\u00f5es e rebeldias eu gosto muito, e do Fairport Convention, pelas experimenta\u00e7\u00f5es e lisergia, tamb\u00e9m. J\u00e1 aquelas cantoras americanas da \u00e9poca dos hippies e de Woodstock, Joni Mitchell, Marianne Faithfull etc, tamb\u00e9m nunca arrancaram muitos suspiros meus... Isso para citar alguns nomes can\u00f4nicos. Mas duas outras mo\u00e7as, inglesas, t\u00eam sido respons\u00e1veis sozinhas por quase 100% das minhas audi\u00e7\u00f5es de folk nos \u00faltimos tempos. Conheci as Smoke Fairies ao ganhar um single delas de brinde do pessoal da Rough Trade, e gostei logo de cara, e passei a acompanh\u00e1-las atrav\u00e9s de cada lan\u00e7amento. Tamb\u00e9m naquela mesma \u00e9poca eu conheci a Laura Marling, que fez a apresenta\u00e7\u00e3o de abertura de um show do Neil Young que eu assisti, e ouvi o primeiro LP dela e gostei, e depois saiu outro que tamb\u00e9m ouvi mas j\u00e1 n\u00e3o me lembro muito dele, e depois outro tamb\u00e9m rapidamente esquecido, e ent\u00e3o meu interesse por ela se dissipou, mas as Smoke Fairies, pelo contr\u00e1rio, v\u00e3o ficando melhores a cada \u00e1lbum, seja EP ou LP. A dupla t\u00eam uma produ\u00e7\u00e3o intensa, e s\u00f3 neste ano que passou foram dois LPs --- sim, dois \u00e1lbuns completos, como faziam em seus tempos de juventude Beatles e Led Zeppelin... E, embora ora um pouco mais rarefeita, ora um pouco mais matizada, est\u00e1 sempre l\u00e1 na m\u00fasica delas uma certa estranheza on\u00edrica, uma atmosfera de encantamento das paisagens noturnas ou nevadas, que \u00e9 o que realmente me atrai nos discos delas. Escutei mais o disco que saiu em dezembro, o *Wild Winter*, que coloquei entre os meus [preferidos de 2014](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2014_12_23_meus_discos_preferidos_de_2014), mas acho que agora, durante o restinho da minha folga neste come\u00e7o de ano, vou me dedicar ao que saiu em abril, auto-intitulado. E n\u00e3o vou me espantar se, no fim das contas, eu constatar de que o justo teria sido colocar dois discos das Smoke Fairies entre os meus favoritos do ano passado...\r\n\r\n**Boards of Canada - Music Has the Right to Children \u0026 Bach - Os Concertos de Brandenburgo**\r\n\r\nTendo conseguido escapar das tr\u00eas ou quatro coisas para as quais fui convidado para a noite da virada do ano, passei-a sozinho assistindo ao \u00faltimo filme do Tarkovski que me faltava ver ([O Sacrif\u00edcio](http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0091670\/)), bebendo vinho, lendo e ouvindo uns discos, ou seja, uma noite quase perfeita, ainda mais pac\u00edfica e agrad\u00e1vel por conta da sensa\u00e7\u00e3o de desobedi\u00eancia e de ex\u00edlio, por estar fazendo algo totalmente auto-centrado e diferente do convencional --- em suma, por n\u00e3o estar em meio \u00e0 multid\u00e3o assistindo fogos de artif\u00edcio ou em uma aborrecida festa familiar com trilha-sonora feita das paradas globais do momento, cerim\u00f4nias compuls\u00f3rias para as quais eu j\u00e1 n\u00e3o tenho a menor paci\u00eancia. \u0022N\u00e3o, obrigado, mas \u00e9 que... \u0022 (posso ser pouco soci\u00e1vel, mas n\u00e3o sou ingrato: agradeci de cora\u00e7\u00e3o aos convites e expliquei francamente quais eram os meus planos). O calor absurdo daquele dia pedia o m\u00e1ximo de imobilidade poss\u00edvel, a bebida um pouco mais resfriada do que de costume e um som perfeitamente condizente (perfeitamente condizente significa condizente em n\u00edveis ainda mais cir\u00fargicos do que os costumeiros), e foi ent\u00e3o que a lombadinha azul-turqueza do *Music Has the Right to Children* praticamente saltou da estante quando passei os olhos sobre ela, no momento em que procurava por algo para ouvir antes da janta e do filme, e quando os mais exaltados e descontrolados come\u00e7avam j\u00e1 a soltar seus foguetes e roj\u00f5es pela vizinhan\u00e7a. E foi o disco perfeito: aliado ao vinho, me extraiu da realidade e me manteve firmemente ancorado ao mundo das minhas coisas preferidas, por mais que tudo e todos exigissem com estardalha\u00e7o que eu embarcasse junto na dire\u00e7\u00e3o diametralmente oposta \u00e0 toda e qualquer possibilidade de serenidade e metaf\u00edsica, e tomasse parte nessa overdose coletiva de trivialidades e vacuidades, como se j\u00e1 n\u00e3o tiv\u00e9ssemos uma dose insuport\u00e1vel disso durante todos os outros dias do ano, ou pelo menos t\u00eam aqueles que n\u00e3o conseguiram ainda se mudar para as montanhas e viver \u00e0 margem da sociedade. Um pouco mais tarde, durante o filme do Tarkovski, um personagem conta a outro sobre um jardim que havia na casa de sua m\u00e3e, e que era muito bonito, mas que ele pressentia que poderia ser melhorado, j\u00e1 que nos \u00faltimos tempos ele havia crescido desmazeladamente sem os cuidados de um jardineiro. Certo dia ele mesmo resolve lan\u00e7ar-se ao trabalho de jardinagem e ap\u00f3s muitas horas de cortes, podas, escava\u00e7\u00f5es e etc, enfim d\u00e1 o trabalho por terminado e afasta-se e p\u00f5e-se a contemplar o novo jardim, e ent\u00e3o entra em desespero, pois tudo que ele consegue enxergar ali \u00e9 viol\u00eancia, a imemorial e inquebrant\u00e1vel viol\u00eancia humana. Isso foi pouco antes dos fogos come\u00e7arem a estourar, no mundo real, por causa da meia-noite; terminado o filme, acendi um incenso e prolonguei ainda um pouco mais o meu ex\u00edlio espacial-temporal ouvindo *Os Concertos de Brandenburgo* de Bach (os filmes do Tarkovski sempre me deixam com vontade de ouvir m\u00fasica cl\u00e1ssica), e depois fui dormir, com a certeza tranquila de que 2015 ser\u00e1 tamb\u00e9m um bom ano, sem precisar de nenhum ritual de expurga\u00e7\u00e3o para isso.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":614,"title":"Meus discos preferidos de 2014","post_timestamp":"2014-12-23T23:31:13+00:00","url":"2014_12_23_meus_discos_preferidos_de_2014","post":"N\u00e3o vou me alongar muito neste post sobre os meus discos favoritos deste ano, em parte por falta de tempo e em parte por falta de qualquer coisa especial para dizer sobre eles. Nenhum me tocou particularmente. Alguns at\u00e9 meio que ca\u00edram no esquecimento depois de algum entusiasmo inicial (caso do Trail of Dead), mas acabaram entrando na lista por falta de outras escolhas mais convictas. Tem o caso curioso do Swans, que ouvi apenas umas duas ou tr\u00eas vezes, pouqu\u00edssimas para um disco escolhido como um favorito dentre os tantos lan\u00e7ados ao longo de doze meses, mas \u00e9 que se trata de um tipo de m\u00fasica que --- pelo menos assim se d\u00e1 comigo --- exige disposi\u00e7\u00f5es de esp\u00edrito e climas bem espec\u00edficos para aprecia\u00e7\u00e3o, uma combina\u00e7\u00e3o de fatores que n\u00e3o se alinharam tantas vezes assim neste ano que vai findando, e por isso a caixinha com os dois CDs empacou ali na prateleira e est\u00e1 pegando poeira j\u00e1 faz alguns meses... Mas tendo percebido-o como uma continua\u00e7\u00e3o natural ao *The Seer*, e t\u00e3o soberbo quanto este, \u00e9 claro que n\u00e3o teria como n\u00e3o t\u00ea-lo aqui. J\u00e1 um disco que talvez mere\u00e7a algum destaque e algumas palavras a mais \u00e9 o \u00faltimo das Smoke Fairies, mas estou ouvindo-o bastante ainda por esses dias, e creio que devo escrever algo sobre ele na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o da \u0022Discos do m\u00eas\u0022, portanto, fiquemos por aqui. Sem maiores enrola\u00e7\u00f5es, os meus sete preferidos de 2014 s\u00e3o esses, sem ordem de prefer\u00eancia:\r\n\r\n* *Infinity*, de Yann Tiersen;\r\n* *To Be Kind*, do Swans;\r\n* *Wild Winter*, das Smoke Fairies;\r\n* *Eyehategod*, do Eyehategod;\r\n* *Noise*, do Boris;\r\n* *IX*, do Trail of Dead e\r\n* *Dude Incredible*, do Shellac.\r\n\r\nE como j\u00e1 \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, compilo tamb\u00e9m algumas bandas cujos discos lan\u00e7ados em 2014 eu n\u00e3o ouvi, o que os deixou, obviamente, fora da disputa, mas como s\u00e3o todas bandas e artistas pelos quais tenho grande carinho, talvez estivessem na lista acima, caso eu j\u00e1 tivesse dado aten\u00e7\u00e3o a eles: Earth, Afghan Whigs, Melvins (e o solo do King Buzzo), Brian Eno, Buzzcocks, Fucked Up, Liars, Mastodon, Pennywise, Sunn O))), Yob e Smashing Pumpkins. Certamente tem mais, mas essas s\u00e3o as que me ocorrem agora.\r\n\r\nPor fim, para compensar o post meio breve, uma outra listinha. (Tudo isso \u00e9 altamente narcisista, \u00e9 claro, mas eu gosto de ler algumas dessas listas, ent\u00e3o suponho que algu\u00e9m pode ter curiosidade de ler estas minhas... Ademais, isso n\u00e3o \u00e9 nem de longe a coisa mais in\u00fatil e\/ou egoc\u00eantrica da internet, certo?) Quais foram as coisas que eu mais ouvi esse ano? De acordo com o [Last.fm](http:\/\/www.last.fm\/user\/fabricioboppre):\r\n\r\n1. Jimi Hendrix\r\n2. Midnight Oil\r\n3. Iron Maiden\r\n4. Black Sabbath\r\n5. Pearl Jam\r\n6. Danzig\r\n7. Pink Floyd\r\n8. Bruce Dickinson\r\n9. Judas Priest\r\n10. The Doors\r\n11. Amorphis\r\n12. Led Zeppelin\r\n13. Ozzy Osbourne\r\n14. Black Rebel Motorcycle Club\r\n15. Duran Duran\r\n16. Jack Johnson\r\n16. Bob Marley \u0026 The Wailers\r\n18. Rancid\r\n19. Pantera\r\n20. Anathema\r\n\r\n(\u00c9 claro que s\u00f3 est\u00e3o contabilizadas a\u00ed as audi\u00e7\u00f5es feitas via computador, j\u00e1 que o Last.fm ainda n\u00e3o tem poderes de monitorar o que eu escuto atrav\u00e9s de CDs e vinis no aparelho de som. De todo modo, provavelmente n\u00e3o mudaria muito... )","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiadas do Google Images.","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":613,"title":"Algo com que sonhar","post_timestamp":"2014-12-23T00:45:32+00:00","url":"2014_12_22_algo_com_que_sonhar","post":"\u003E Curto Strauss e Wagner, esses caras s\u00e3o bons, e acho que eles v\u00e3o formar a base da minha m\u00fasica. Pairando no ar, por cima de tudo, estar\u00e1 o blues --- blues ainda n\u00e3o me falta ---, e temos tambem a m\u00fasica do c\u00e9u ocidental e a doce m\u00fasica do \u00f3pio (cada um traga o seu pr\u00f3prio \u00f3pio!). Tudo isso misturado at\u00e9 formar uma coisa s\u00f3. E com essa m\u00fasica vamos pintar imagens da Terra e do espa\u00e7o, que v\u00e3o servir para levar o ouvinte a algum lugar. Temos que dar ao p\u00fablico algo com que sonhar.\r\n\r\nDo livro *Jimi Hendix por ele mesmo* (organizado por Peter Neal e Alan Douglas a partir dos di\u00e1rios, anota\u00e7\u00f5es e entrevistas de Jimi.)","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":612,"title":"2014","post_timestamp":"2014-12-19T17:02:54+00:00","url":"2014_12_19_2014","post":"Whirr \/ *Sway* (Graveface): O disco que relutou em dar espa\u00e7o a outros por aqui. Acabou como o melhor do ano, daqueles que j\u00e1 na largada se estabeleceram como uma grata promessa e, \u00e0 medida que foi digerido, cresceu ao ponto de encravar-se em alguma \u00e1rea sensorial do c\u00e9rebro para dali nunca mais se soltar. O inusitado \u00e9 que de um \u0022melhor disco do ano\u0022 costuma-se esperar tend\u00eancias inovadoras, no m\u00ednimo alguma resposta para o que se pode criar de novo e relevante num determinado per\u00edodo. Mas *Sway* \u00e9 apenas um bando de moleques com guitarras saturadas, bateria energ\u00e9tica e vocais t\u00edmidos, introspectivos, versando sobre as impossibilidades da paix\u00e3o. E o que se tem de t\u00e3o especial? A onipresen\u00e7a da dualidade entre rispidez e suavidade, seguida por um conjunto incr\u00edvel de melodias que recorrem simultaneamente ao peso e \u00e0 melancolia. Todos esses elementos combinados criaram mais um disco onde palavras dificilmente ajudam a explicar o magnetismo que se estabelece e talvez nem mesmo as audi\u00e7\u00f5es preliminares sejam suficientes para se chegar num est\u00e1gio de admira\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum. N\u00e3o li alguma men\u00e7\u00e3o ao Whirr nas listas que j\u00e1 est\u00e3o pipocando, a\u00ed parei para refletir se o meu ano \u00e9 que foi muito diferente do que esperava, ao ponto disso refletir nas coisas que foram importantes para mim. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que meu ano foi realmente diferente, mas n\u00e3o eximo o resto do mundo de estar equivocado em rela\u00e7\u00e3o a *Sway*.\r\n\r\nSwans \/ *To Be Kind* (Young God): Confesso que at\u00e9 esse ano o Swans era uma banda que os outros ouviam, muitos veneravam, mas transmitia uma no\u00e7\u00e3o de que eu n\u00e3o encontraria muito abrigo na sua obra. Existe uma s\u00e9rie de bandas e artistas que comp\u00f5em esse conjunto do qual n\u00e3o me aproximo mesmo sabendo que estou ignorando discos que mudariam mais uma vez minha forma de ouvir m\u00fasica. Se n\u00e3o mudariam, provavelmente abririam ainda mais perspectivas sobre as possibilidades dos sons e de como podemos nos comunicar atrav\u00e9s deles. Mas tive acesso a um preview de *To Be Kind* e l\u00e1 pela metade dele comecei a entender que o Swans gira em torno de tornar sua experi\u00eancia sonora hipnoticamente amarga. Basicamente o que grande parte das bandas de metal tentam fazer, por\u00e9m, nas m\u00e3os de Michael Gira o efeito \u00e9 incrivelmente real e verdadeiro, e sem o recurso cosm\u00e9tico de maquiagens, hist\u00f3rias demon\u00edacas ou guitarras obrigatoriamente pesadas. Creio que o fato de sua m\u00fasica partir de movimentos primais e \u00e0s vezes xaman\u00edsticos deixe ela naturalmente maligna, o que permite ao Swans uma interessante posi\u00e7\u00e3o onde at\u00e9 o mais singelo sussurro no decorrer duma faixa evoque desconforto.\r\n\r\nOld Man Gloom \/ *The Ape Of God* (Profound Lore \/ Sige): Uma das bandas mais pesadas do universo lan\u00e7ou o disco mais pesado do ano. O apelo do Old Man Gloom est\u00e1 na sugestiva indiferen\u00e7a com o que se poderia esperar deles, onde n\u00e3o se sabe exatamente se o que eles gravam tem algum compromisso com conte\u00fado ou se o trator desgovernado que eles lan\u00e7am em dire\u00e7\u00e3o ao planeta n\u00e3o passa de piadas internas. Tanto que lan\u00e7aram dois discos com o mesmo nome, isto \u00e9, existem dois *Apes Of God* na pra\u00e7a, diferentes, e voc\u00ea que trate identificar qual \u00e9 qual. Detalhes a parte, o Old Man Gloom j\u00e1 tem uma discografia que gira em torno de brutalidades entrela\u00e7adas com interl\u00fadios espaciais, onde se estabelece uma constante transi\u00e7\u00e3o entre momentos de hipnose e brutais estouros de boiadas. Em *The Ape Of God* eles atingem seu auge, concisos, com seus melhores riffs e transi\u00e7\u00f5es.\r\n\r\nHave A Nice Life \/ *The Unnatural World* (Flenser): Fui apresentado ao Have A Nice Life atrav\u00e9s deste disco e acabei descobrindo que eles j\u00e1 eram pais de um \u00e1lbum *cult* chamado *Deathconsciousness*, algo que poderia ser considerado um \u0022cl\u00e1ssico\u0022 das obscuridades da era intern\u00e9tica. Entendi ent\u00e3o que esse *The Unnatural World* n\u00e3o apenas era a sequ\u00eancia de um disco obscuro venerado por um punhado de ouvintes como poderia (ou n\u00e3o) reafirmar a dupla Tim e Dan em algum lugar relevante da m\u00fasica que nem todo mundo escuta. E embora este novo disco apresente uma envergadura n\u00e3o t\u00e3o \u00e9pica quanto a de seu sucessor, seu desenrolar \u00e9 intenso o suficiente para consolid\u00e1-los como uma banda diferenciada. Est\u00e3o ali, novamente, elementos como metal, eletr\u00f4nica, p\u00f3s-punk, combinados de uma forma que fazem voc\u00ea ter vontade de um dia montar sua banda de rock. A iniciativa foi t\u00e3o boa que o selo reeditou *Deathconsciousness* alguns meses depois, atendendo a apelos de quem buscava por vias legais o disco at\u00e9 ent\u00e3o esgotado, proporcionando aos ouvintes a possibilidade de fechar 2014 com os dois \u00e1lbuns nas suas cole\u00e7\u00f5es.\r\n\r\nPlanning For Burial \/ *Desideratum* (Flenser): Disco para f\u00e3s de discos de dias chuvosos onde procura-se esperan\u00e7a em v\u00e3o. Seu autor, Thom Wasluck, provavelmente ouviu muito Smashing Pumpkins, The Cure e todos os g\u00f3ticos e decidiu que faria tudo sozinho mas ainda mais deprimente e obscuro. *Desideratum* passa por incr\u00edveis colagens de manipula\u00e7\u00f5es sonoras, pedais, eletr\u00f4nicas e guitarras distorcidas onde o tentador *shoegazing* amea\u00e7a surgir como primeiro r\u00f3tulo, embora o que efetivamente se destaque sejam as texturas abrasivas que infestam o \u00e1lbum. Lentas e arrastadas, as m\u00fasicas exalam pessimismo e desilus\u00e3o e Thom soa como um cara realmente perturbado que voc\u00ea vai ignorar nos seus dias mais alegres. *Desideratum* \u00e9 um \u00e1lbum que voc\u00ea escolhe quando sabe que as coisas n\u00e3o est\u00e3o muito bem e que escut\u00e1-lo lhe trar\u00e1 aquela estranha sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 outros seres desiludidos vagando por a\u00ed, numa esp\u00e9cie de comisera\u00e7\u00e3o desajustada.\r\n\r\nThe Smashing Pumpkins \/ *Monuments To An Elegy* (BMG): Bom, sugeri que tive um ano at\u00edpico e que isso se refletiu nesta lista. Bem, o fato desse disco estar aqui, supostamente digno de uma recomenda\u00e7\u00e3o, \u00e9 mais um ind\u00edcio de que meu balan\u00e7o pessoal anual tem algum fundamento. Lan\u00e7ado aos 49 do segundo tempo, *Monuments To An Elegy* convence por tomar um caminho que Billy Corgan n\u00e3o percorria h\u00e1 anos: o de poupar em praticamente tudo. Ele poupou na escolha do baterista, no conceito das estruturas e arranjos das novas m\u00fasicas e, principalmente, em como definir o que ele chama de Smashing Pumpkins neste momento. N\u00e3o h\u00e1 aqui a insistente preocupa\u00e7\u00e3o em fazer da banda uma *banda*, o que aproxima bastante o disco do conceito de um trabalho solo. Se em *Oceania* ele corrigiu alguns erros pregressos mesmo tendo que se desdobrar para convencer sobre a relev\u00e2ncia do papel dos outros m\u00fasicos, em *Monuments To An Elegy* tem-se apenas o necess\u00e1rio para que Corgan respire com \u00edmpeto e uma saud\u00e1vel sugest\u00e3o de indiferen\u00e7a quanto ao que o \u00e1lbum significar\u00e1 para os ouvintes e \u00e0 discografia da banda. A quase totalidade das m\u00fasicas soa redonda e certeira, podadas de afrescos que vinham caindo muito mal para os Pumpkins, e se o novo disco est\u00e1 distante de cl\u00e1ssicos como *Siamese Dream* e *Mellon Collie And The Infinite Sadness*, ele est\u00e1 muito pr\u00f3ximo do melhor que Corgan pode fazer nos dias atuais.\r\n\r\nScott Walker + Sunn O))) \/ *Soused* (4ad): O que escrevi sobre um distanciamento natural que o Swans impunha at\u00e9 que o desse uma chance, vale para Scott Walker. Entretanto, por mais que o escute, as obras desse Sr. demandam um clima bem espec\u00edfico para serem digeridas e o clima em quest\u00e3o n\u00e3o se manifesta por aqui com grandes frequ\u00eancias. O fato do Sunn O))) \u0022dividir\u0022 o \u00e1lbum automaticamente estabeleceu um conceito onde ambos fariam algo que entrela\u00e7asse suas indefect\u00edveis caracter\u00edsticas para criar uma terceira via, por\u00e9m, *Soused* n\u00e3o confirma exatamente essa suposi\u00e7\u00e3o. O disco \u00e9, sobretudo, mais uma etapa na discografia de Walker e comunica-se pelos mesmos meios que os aclamados *The Drift* e *Bish Bosch*. Walker segue o formato onde seu vocal dram\u00e1tico protagoniza hist\u00f3rias decadentes, apoiadas sobre efeitos sonoros onde muitas vezes o sil\u00eancio oprime mais do que as tormentas sonoras. Mas o Sunn O))), embora mais coadjuvante do que a alcunha Scott O))) sugeriria, n\u00e3o passa em v\u00e3o, usando todos os espa\u00e7os que consegue ora com suas paredes de distor\u00e7\u00e3o, ora com outros instrumentos ou pasmem, usando a guitarra de forma um pouco mais convencional. *Soused* demorou a ser digerido por aqui mas \u00e0 medida que se percebe que as guitarras do Sunn O))) s\u00e3o talvez os elementos que menos se imp\u00f5em para forjar a perversidade onipresente no \u00e1lbum, conclui-se que m\u00fasica pesada pode sim girar em torno de vocais bar\u00edtonos de um senhor de setenta anos.\r\n\r\nEm termos de reedi\u00e7\u00f5es, 2014 nos brindou com o citado *Deathconsciousness*, com um *Adore* revisitado ao ponto de se entender os d\u00edspares caminhos percorridos pelos Smashing Pumpkins ap\u00f3s sua consagra\u00e7\u00e3o mundial e *Spiderland* do Slint que, se n\u00e3o ganhou muitos materiais extra de qualidade, fez seu papel de reafirmar o disco com uma das melhores obras gravadas nos tempos (nem t\u00e3o) recentes.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":608,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2014","post_timestamp":"2014-12-02T00:55:55+00:00","url":"2014_12_01_discos_do_mes_novembro_de_2014","post":"**Mad Season: Above**\r\n\r\nEsse \u00e9 o disco que me faz concluir, decididamente, que Seattle n\u00e3o foi uma mera casualidade superestimada e rapidamente esgotada por falta de subst\u00e2ncia real: havia, sim, algo na \u00e1gua daquela cidade, como se diz. Uma aflu\u00eancia de destinos e circunst\u00e2ncias que resultou em algo raro e especial. Pode n\u00e3o ser o melhor dos discos gravados por toda aquela assombrosa safra de bandas --- em minhas prefer\u00eancias pessoais aqui, eu talvez consiga elencar at\u00e9 mesmo uns dez outros \u00e0 sua frente ---, mas \u00e9 o conjunto de can\u00e7\u00f5es que, por outras vias, confirmam a verdade desta conclus\u00e3o com uma infalibilidade n\u00e3o encontrada nem mesmo no *Nevermind* do Nirvana, ou no *Vs* do Pearl Jam, ou no *Superunknown* do Soundgarden. Bastam os segundos iniciais da primeira faixa, *Wake Up*, para que isso se estabele\u00e7a atrav\u00e9s de uma certeza tranquila e indiferente \u00e0 concorr\u00eancias: \u00e9 um disco meio que soberano, pairando acima dos outros de sua gera\u00e7\u00e3o. Isso me veio enquanto eu o escutava atentamente uns dias atr\u00e1s, e aconteceu aquela sintonia perfeita que parece n\u00e3o negar nem mesmo ao tutano de nossos ossos uma parcela de estremecimento e eletricidade. E tamb\u00e9m me ocorreu que talvez a maior das evid\u00eancias disso esteja no fato de que *Above* sequer chega a despertar aquela dose de nostalgia t\u00e3o comum aos discos que lhe s\u00e3o contempor\u00e2neos e conterr\u00e2neos, com todos os seus cacoetes e associa\u00e7\u00f5es que v\u00eam na esteira de suas repeti\u00e7\u00f5es pra l\u00e1 de exaustivas: \u00e9 simplesmente m\u00fasica excelente e atemporal.\r\n\r\n**Jimi Hendrix: Crash Landing**\r\n\r\nJimi Hendrix \u00e9 uma constante em minha vida: ou\u00e7o sempre, em qualquer lugar, em qualquer esta\u00e7\u00e3o. Isso porque Jimi e sua guitarra elevam-se para muito al\u00e9m das trivialidades que por vezes norteiam nossos estados de esp\u00edritos; sua m\u00fasica \u00e9 desancorada, \u00e9 primal, \u00e9 como uma linguagem universal que fala atrav\u00e9s de um canal conectado diretamente ao que temos de mais b\u00e1sico e essencial, sem necessitar do interm\u00e9dio do pensamento, da cultura, de qualquer aprendizado. Estou ciente de que se diz a mesma coisa sobre muitas outras m\u00fasicas, mas na maioria das vezes, se for parar para pensar com algum rigor, \u00e9 s\u00f3 a repeti\u00e7\u00e3o vazia de um clich\u00ea, assim como tamb\u00e9m se repete sem qualquer parcim\u00f4nia aquele outro que imputa o r\u00f3tulo de g\u00eanio a qualquer jovem empres\u00e1rio que fica milion\u00e1rio com alguma inven\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da inform\u00e1tica, como se isso realmente denotasse alguma incr\u00edvel fa\u00e7anha intelectual ou coisa parecida, sendo que na grande maioria das vezes \u00e9 t\u00e3o somente uma mistura de oportunismo com total aus\u00eancia de constrangimento para o ato de se pisar por sobre os outros. Mas no caso de Hendrix (que, ali\u00e1s, nasceu em Seattle), n\u00e3o h\u00e1 adjetivo ou clich\u00ea que baste. Jimi morreu cedo, mas deixou um enorme legado de grava\u00e7\u00f5es, a ponto de ainda hoje acontecer de eu escutar pela primeira vez alguns de seus bootlegs e at\u00e9 mesmo compila\u00e7\u00f5es p\u00f3stumas oficiais, eu que j\u00e1 escuto Hendrix j\u00e1 faz mais de duas d\u00e9cadas, e que muito raramente deixo passar a oportunidade de dar play em algo seu que me apare\u00e7a pela frente. Minha \u00faltima descoberta \u00e9 esse *Crash Landing*, lan\u00e7ado pela Reprise em 1975, e que traz vers\u00f5es arrepiantes de *Power of Soul* (listada aqui como *With the Power*) e *Peace in Mississippi*. N\u00e3o \u00e9 nenhum aborrecimento que esses lan\u00e7amentos p\u00f3stumos todos tragam frequentemente vers\u00f5es repetidas das mesmas m\u00fasicas, ou ent\u00e3o vers\u00f5es com pequenas varia\u00e7\u00f5es: um disco de Hendrix acaba sendo, invariavelmente, algo muito maior do que a simples soma de suas partes. (E ainda outro que tenho escutado maravilhado nos \u00faltimos dias: o segundo volume da s\u00e9rie *Studio Sessions*, que s\u00f3 o primeiro disco j\u00e1 vale o investimento monet\u00e1rio ou as horas de download de seus seis discos.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":602,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2014","post_timestamp":"2014-11-01T23:04:42+00:00","url":"2014_11_01_discos_do_mes_outubro_de_2014","post":"**Black Sabbath: Born Again**\r\n\r\nSe tem gente que despreza o Black Sabbath com o Dio, imagina ent\u00e3o com o ex-cantor do Deep Purple Ian Gillan! Mas eu gosto deste pequeno monstrinho birrento chamado *Born Again*, e estou bem acompanhado nesta minha excentricidade: o [Dylan Carlson tamb\u00e9m gosta](http:\/\/thequietus.com\/articles\/08027-dylan-carlson-earth-favourite-albums?page=6). Poxa, *Zero the Hero* \u00e9 uma das melhores m\u00fasicas do Sabbath, e eu digo isso com a mais depurada das consci\u00eancias de que essa \u00e9 a banda que tem a lista de melhores m\u00fasicas mais espetacular de todas; essa \u00e9 a banda que deu ao mundo *After Forever*, *Iron Man*, *Paranoid*, *N.I.B.*, *Snowblind*, *Hole in the Sky*, *Symptom of the Universe*, *Sweet Leaf*, *Solitude*, *Planet Caravan*, *Supernaut*, e tantas outras, e sim, eu coloco *Zero the Hero* entre essas todas. Existe uma vers\u00e3o dessa m\u00fasica gravada pelo Cannibal Corpse, parte do tracklist do \u00e1lbum-tributo [Eternal Masters](http:\/\/www.discogs.com\/Various-Tribute-To-Black-Sabbath-Eternal-Masters\/master\/13110), que \u00e9 o lama\u00e7al mais espesso do mundo em forma de m\u00fasica, mas s\u00f3 procure ouvi-la se voc\u00ea for tamb\u00e9m um desses tipos esquisitos como eu e o Dylan Carlson.\r\n\r\n**Godflesh: A World Lit Only by Fire**\r\n\r\nNo exato momento em que escrevo isso, um sol aniquilador amea\u00e7a rachar as paredes e janelas do meu apartamento. Dia 30 de outubro de 2014, o dia de primavera mais quente de que eu tenho lembran\u00e7a, e o pin\u00e1culo de uma semana bem anormal. Eu j\u00e1 mencionei diversas vezes aqui que n\u00e3o gosto muito de rock\/metal industrial, n\u00e3o sou f\u00e3 de Godflesh, nem de Ministry, muito menos de Rammstein, e nem mesmo da encarna\u00e7\u00e3o anterior --- antes desses maravilhosos e irrotul\u00e1veis \u00faltimos discos --- do Swans eu gosto. Sempre achei um som opressivo demais, um som maquinado pelas experi\u00eancias urbanas mais deprimentes, as fal\u00eancias contempor\u00e2neas que mais repelem meu esp\u00edrito, e senti serem dolorosamente torcidas algumas das minhas fibras mais profundas nas poucas vezes em que escutei discos destas bandas. Ao Godflesh eu cheguei a dar mais algumas chances, pois sempre achei \u0022Godflesh\u0022 um dos nomes de banda mais fant\u00e1sticos e tamb\u00e9m porque gosto muito de todas as outras coisas que conhe\u00e7o do Justin Broadrick, mas sempre permanecia inalterada a conclus\u00e3o de que essa m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 pra mim. Ou pelo menos n\u00e3o \u00e9 para uma determinada configura\u00e7\u00e3o predominante de minhas inclina\u00e7\u00f5es e disposi\u00e7\u00f5es... Acontece que, motivado talvez por uma vontade obscura de distender alguns nervos e seus conceitos impregnados, ou simplesmente para testar algum m\u00e9todo novo de absor\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da realidade (a m\u00fasica sendo uma boa cobaia para isso, pois tamb\u00e9m ela apresenta-se frequentemente sob formas totalmente estranhas umas \u00e0s outras e aparentemente irreconcili\u00e1veis), tenho ouvido nesses \u00faltimos dias esse disco novo do Godflesh, *A World Lit Only by Fire*, e inclusive o ou\u00e7o novamente nesse exato instante. O t\u00edtulo do \u00e1lbum j\u00e1 havia me chamado a aten\u00e7\u00e3o ao conectar em minha consci\u00eancia certos elementos bem atuais n\u00e3o obstante meio distantes, sensa\u00e7\u00f5es e abstra\u00e7\u00f5es \u00e0 deriva no infind\u00e1vel mar das coisas coletadas o tempo todo pelos sentidos e processadas em diferentes n\u00edveis de consciente e subconsciente. E da\u00ed, em meio a esse estado de esp\u00edrito experimental, com o ju\u00edzo habitual temporariamente suspenso e n\u00e3o sabendo bem o que fazer com estes signos que me foram sublinhados nesse processo, o fato \u00e9 que eu tenho gostado bastante de ouvir o Godflesh. E at\u00e9 num sentido meio utilit\u00e1rio a experi\u00eancia tem valido a pena: como efeito colateral surgido da reequaliza\u00e7\u00e3o de certas frequ\u00eancias \u00edntimas com aquelas que jorram dessa m\u00fasica violenta e intransigente (efeito que inicialmente surgiu imprevisto, e depois intensifiquei induzido-o conscientemente), tenho me sentido melhor aparelhado e mais resistente, ou, para usar logo os termos mais legais, com a casca mais dura e o esp\u00edrito tal qual o de um faquir, para aguentar o inferno solar das ruas a\u00ed fora. At\u00e9 o ar-condicionado, que me \u00e9 sempre uma tortura ter que ligar, eu estou tolerando mais facilmente enquanto as guitarras do Godflesh reverberam alto aqui nas paredes, preenchendo rudemente todos os cantos poss\u00edveis. E a batida mec\u00e2nica e ma\u00e7ante que \u00e9 o elemento mais distintivo desse tipo de m\u00fasica eu enfrentei assim: certas coisas n\u00f3s temos que fazer delas parte da mob\u00edlia, \u0022aturar\u0022, como se diz, e nossas guarni\u00e7\u00f5es ganham assim em espessura e adaptabilidade. Essa banda faz parte, definitivamente, de uma outra concep\u00e7\u00e3o de mundo, uma aspereza e um desencanto que n\u00e3o me s\u00e3o f\u00e1ceis assimilar, malgrado o fato de eu gostar de muitas formas extremas de metal (no metal h\u00e1, quase sempre, algo de fantasia). N\u00e3o sei se o Godflesh persistir\u00e1 ainda por muito tempo na minha trilha-sonora do dia-a-dia, mas ao menos eles t\u00eam me ajudado a enfrentar esse outubro incandescente e incomum.\r\n\r\n**Corrupted: El Mundo Frio**\r\n\r\nE esse eu vinha ouvindo direto, antes do Godflesh: *El Mundo Frio*, dos japoneses do Corrupted. Um disco lind\u00edssimo, uma \u00fanica m\u00fasica com mais de 1 hora e 10 minutos de dura\u00e7\u00e3o. Pior que s\u00f3 bem depois de estar ouvindo o disco do Godflesh, conforme narrado acima, eu me dei conta do t\u00edtulo desse \u00e1lbum... Mas, bem, n\u00e3o vou me alongar aqui sobre isso. O mais prov\u00e1vel, decerto, \u00e9 que n\u00e3o haja nada mesmo para se especular, e seja apenas uma curiosa coincid\u00eancia...\r\n\r\n**Trail of Dead: IX**\r\n\r\nE falemos agora de temperaturas mais amenas: esse disco novo do Trail of Dead \u00e9 muito bom! Nesses \u00faltimos tempos eu tenho ouvido, essencialmente, metal (esta lista e a do m\u00eas passado me entregam), mas vez ou outra abro uma brecha para alguns discos de ambient e tamb\u00e9m de punk rock e hardcore (minha adolesc\u00eancia n\u00e3o acabou ainda). Talvez o Trail of Dead n\u00e3o seja nada disso --- talvez seja um pouco de tudo isso. O \u00e1lbum anterior, *Lost Songs*, tamb\u00e9m \u00e9 bem massa, ou pelo menos assim me pareceu num primeiro momento; acabou que ele n\u00e3o persistiu muito nos meus pensamentos, e n\u00e3o o escutei mais depois de apenas tr\u00eas ou quatro audi\u00e7\u00f5es. Sempre me apoiei muito nesses vest\u00edgios e insinua\u00e7\u00f5es das m\u00fasicas em meu c\u00e9rebro para selecionar meus discos favoritos, o que comprar para ter na cole\u00e7\u00e3o, o que levar numa viagem, etc, mas ultimamente j\u00e1 n\u00e3o tenho tanta confian\u00e7a neste m\u00e9todo: s\u00e3o muitos discos, lan\u00e7amentos em quantidades avassaladoras, coisas interessant\u00edssimas aparecendo por todos os lados, de forma que o compasso de audi\u00e7\u00f5es e decanta\u00e7\u00f5es que ritmava esse processo j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1 conta, e tenho certeza que muitos discos acabam me passando desapercebidos, \u00e1lbuns que se eu os ouvisse com mais tempo e dedica\u00e7\u00e3o poderiam ir entrando, gradualmente, nas minhas listinhas mais seletas de audi\u00e7\u00f5es frequentes e de discos favoritos. Mas, voltando a este *IX*, acho que com ele nada disso n\u00e3o vai acontecer: gostei bastante logo na primeira audi\u00e7\u00e3o, e vou coloc\u00e1-lo j\u00e1 no aparelhinho que carrego comigo para ouvir m\u00fasica fora de casa (isso \u00e0s vezes desequilibra o jogo em favor de um ou outro disco: t\u00ea-lo a m\u00e3o em determinados momentos ef\u00eameros e imprevistos) e vou torn\u00e1-lo, muito provavelmente, um dos meus discos favoritos desse ano. E da\u00ed, para a listinha de sete discos favoritos de 2014, faltar\u00e3o apenas seis.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":595,"title":"Discos do m\u00eas - Setembro de 2014","post_timestamp":"2014-10-01T19:13:55+00:00","url":"2014_10_01_discos_do_mes_setembro_de_2014","post":"**Bruce Dickinson: Skunkworks**\r\n\r\n*Skunkworks*, terceiro disco solo de Bruce Dickinson, ex-vocalista do Iron Maiden, causou apreens\u00e3o entre os f\u00e3s de metal na \u00e9poca do seu lan\u00e7amento (1996). \u0022Um disco de rock alternativo?!\u0022, comentavam muitos desses f\u00e3s, ressabiados, j\u00e1 decididos a n\u00e3o gostar antes mesmo de ouvi-lo. Era a \u00e9poca p\u00f3s-Nirvana e tamb\u00e9m a \u00e9poca de uma nova amea\u00e7a ao \u0022true metal\u0022, amea\u00e7a que atendia pelo nome de nu metal, e o ex-frontman da mais adorada das bandas dessa turma lan\u00e7ar um \u00e1lbum desse tipo (entenda-se de qualquer tipo que n\u00e3o o convencional; nu metal, rock alternativo, tanto faz) n\u00e3o parecia um press\u00e1gio muito animador para essa batalha que eles imaginavam estar iniciando-se, ainda mais com [esse t\u00edtulo](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Skunkworks_project) cheio de evoca\u00e7\u00f5es de inova\u00e7\u00e3o e originalidade, dois inimigos da ortodoxia t\u00edpica dos c\u00edrculos met\u00e1licos. \u0022At\u00e9 tu, Bruce?\u0022, perguntavam-se... Quanta bobagem. \u00c9 um \u00f3timo disco, que eu comprei logo que saiu, e ou\u00e7o at\u00e9 hoje. \u00c9 verdade que est\u00e1 muito mais para Soundgarden do que para Iron Maiden, mas os dois primeiros \u00e1lbuns-solos de Dickinson tampouco lembravam Iron Maiden, estavam muito mais para hard-rock, ou heavy metal de outras estirpes bem diferentes da do Maiden. Tentei mostrar *Inertia*, *Meltdown*, *Inside the Machine*, *Strange Death in Paradise* e outros \u00f3timos sons de *Skunkworks* para a turma com quem eu dividia os micro-\u00f4nibus para ir ver shows do Iron Maiden em Curitiba e Porto Alegre, mas n\u00e3o adiantou; antes da primeira cerveja ser derrubada no carpet do ve\u00edculo, *Skunkworks* j\u00e1 estava jogado de lado e *The Trooper* cavalgava alto nas caixa de som. N\u00e3o tem jeito, o destino de *Skunkworks* j\u00e1 estava selado desde que Dickinson resolveu cortar os cabelos para as fotos do encarte do \u00e1lbum. (A m\u00e1goa dos f\u00e3s, por\u00e9m, n\u00e3o durou muito: na sequ\u00eancia Bruce lan\u00e7ou dois bel\u00edssimos discos de heavy metal, e depois, a expia\u00e7\u00e3o definitiva de seus pecados: voltou para o Iron Maiden.)\r\n\r\n**Pantera: Official Live - 101 Proof**\r\n\r\nEsse disco \u00e9 uma prova dos temores que atormentavam os headbangers nos anos 90 e que comentei acima. Antes devo dizer que \u00e9 um disco fant\u00e1stico, possivelmente um dos meus cinco discos favoritos de metal ao vivo (no topo do ranking, inalcan\u00e7\u00e1vel, est\u00e1 o *Live After Death* do Maiden, e o resto da lista eu n\u00e3o sei, nunca parei para faz\u00ea-la, mas tem que ter esse do Pantera). *Cowboys from Hell*, *Vulgar Display of Power* e *Far Beyond Driven* s\u00e3o todos discos fundamentais que eu acho at\u00e9 que aprecio mais hoje do que em suas \u00e9pocas de lan\u00e7amento (eu n\u00e3o era muito f\u00e3 de Pantera nos anos 90), mas costumo ouvir mais frequentemente esse ao vivo, que \u00e9 meio que uma dose de Pantera mais intensa e concentrada, principalmente devido ao extraordin\u00e1rio empenho do Phil Anselmo; \u00e9 impressionante que esse cara tenha ainda uma garganta que funcione nos dias de hoje, a julgar pelo compromisso demonstrado por ele nas apresenta\u00e7\u00f5es que comp\u00f5e esse \u00e1lbum. Mas, retomando o que eu falava no come\u00e7o, esse disco contribui tamb\u00e9m para o rico anedot\u00e1rio do metal, com os coment\u00e1rios de Anselmo entre uma faixa e outra sobre o suposto fim da m\u00fasica pesada e como eles estavam ali reunidos, p\u00fablico e banda, para provar que isso era uma bobagem, e d\u00e1-lhe fuck yous para todos que n\u00e3o s\u00e3o do cl\u00e3. Passados a\u00ed uns 20 anos de tudo isso, pensar na ingenuidade dessa \u00e9poca dispara sensa\u00e7\u00f5es sinest\u00e9sicas diversas, lembran\u00e7as saudosas e muito divertidas.\r\n\r\n**Danzig: II - Lucifuge**\r\n\r\nEu gosto do Danzig. N\u00e3o, preciso ser justo e dizer: eu gosto muito do Danzig! Pelo o que me consta, ele inventou esse tipo de m\u00fasica, essa mistura improv\u00e1vel de metal, blues, Misfits, baladas, etc. N\u00e3o tem disco ruim na discografia do cara, excetuando-se talvez aquele *Blackacidevil*, que \u00e9 um experimento com sons eletr\u00f4nicos que eu s\u00f3 ouvi uma \u00fanica vez e foi suficiente. Ou\u00e7o com muito prazer todos os outros, mas meu preferid\u00e3o acho que \u00e9 mesmo esse *Danzig II: Lucifuge*, que andei ouvindo repetidamente nos \u00faltimos dias. Nem precisaria o uivo dram\u00e1tico sem igual que \u00e9 o vocal de Glenn Danzig para tornar esse um disca\u00e7o. E acabo de descobrir que ele tem n\u00e3o um, mas dois discos de m\u00fasica cl\u00e1ssica! Preciso escut\u00e1-los.\r\n\r\n**Sunn O))): Monoliths \u0026 Dimensions**\r\n\r\nEm algumas ocasi\u00f5es, para dar um descanso aos ouvidos desse tanto de barulho que os discos acima testemunham eu ter ouvido nas \u00faltimas semanas, eu colocava esta obra-prima do Sunn O))), e tamb\u00e9m algumas sess\u00f5es restauradores de Brian Eno, sobre quem eu j\u00e1 comentei alguma coisa no post do m\u00eas passado. Esse *Monoliths \u0026 Dimensions* \u00e9 um disco lindo demais. \u00c9 claro que se f\u00f4ssemos nos restringir \u00e0s categorias mais b\u00e1sicas e tradicionais de m\u00fasica, como numa loja, ele seria tamb\u00e9m catalogado na prateleira do metal, mas isso \u00e9 muito pouco --- afigura-me at\u00e9 que mesmo \u0022m\u00fasica\u0022 seja insuficiente para dar conta de suas dimens\u00f5es. Acho que j\u00e1 comentei aqui: o mais intrigante nesse disco, para mim, \u00e9 o seu fim: \u00e9 como se ele tivesse sido todo constru\u00eddo com vistas para aquele trecho final, um erguer lento e imperturb\u00e1vel, minucioso e obstinado, de uma descomunal catedral de pedra cheia de sombrios vitrais representando os tr\u00e1gicos eventos descritos nos livros sagrados de alguma religi\u00e3o alien\u00edgena, e de altura imensur\u00e1vel pois suas torres perdem-se de vista entre astros e estrelas de um c\u00e9u noturno viol\u00e1ceo, toda essa constru\u00e7\u00e3o tendo o prop\u00f3sito \u00fanico de ser demolida ao encaixar da \u00faltima pedra e ent\u00e3o revelar em seu interior, em seu exato e intacto n\u00facleo, um pequeno p\u00falpito de madeira bem trabalhada pelas m\u00e3os de um humilde artes\u00e3o, obra claramente humana na recogni\u00e7\u00e3o da delicadeza e esmero que dilu\u00edram-se na perenidade de uma civiliza\u00e7\u00e3o que se mede em milh\u00f5es de anos, p\u00falpito servindo de altar para um filete de fumacinha de incenso e uma oferenda qualquer iluminados pelo primeiro raio de luz de um planeta que vivia sob a escurid\u00e3o h\u00e1 incont\u00e1veis eras. E \u00e9 isso: das mais loucas fantasias Lovecraftianas somos trazidos para a dimens\u00e3o terr\u00e1quea humana num passe de m\u00e1gica, um contraste de uma beleza absurda e que ningu\u00e9m poderia antecipar, e eu realmente invejo quem nunca ouviu esse disco e est\u00e1 ainda para faz\u00ea-lo pela primeira vez... ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":592,"title":"Discos que eu n\u00e3o ouvi - Ed. 1","post_timestamp":"2014-09-17T18:58:03+00:00","url":"2014_09_17_discos_que_eu_nao_ouvi_ed_1","post":"Eu vivo escrevendo aqui sobre os discos que eu ouvi: os que eu ouvi muito e os que eu ouvi pouco; os que eu ouvi na inf\u00e2ncia e os que eu ouvi esse m\u00eas, e por a\u00ed vai. Da\u00ed tive essa id\u00e9ia maluca neste fim-de-semana: e os discos que eu n\u00e3o escutei? Me refiro \u00e0queles que normalmente me interessariam --- ou seja, n\u00e3o contam os milh\u00f5es de discos de artistas ou estilos que n\u00e3o est\u00e3o entre minhas prefer\u00eancias --- mas, por um motivo ou por outro, eu n\u00e3o escutei: por que n\u00e3o falar sobre eles, ou, mais precisamente, sobre esse motivo ou aquele outro que me levam a, deliberadamente, n\u00e3o dar um play neles?\r\n\r\n\u00c9 claro que isso n\u00e3o deve virar uma categoria de posts peri\u00f3dicos tipo \u0022Discos do m\u00eas\u0022, mas, por via das d\u00favidas, tasquei ali no t\u00edtulo um \u0022edi\u00e7\u00e3o 1\u0022. Se eu for me lembrando de outros (o que \u00e9 muito prov\u00e1vel), eu vou publicando novas edi\u00e7\u00f5es. Para estrear, esses s\u00e3o os que me ocorreram num exerciciozinho de mem\u00f3ria de 10 minutos:\r\n\r\n**Metallica \u0026 Lou Reed: Lulu**\r\n\r\nNa verdade, a id\u00e9ia de escrever isso aqui nasceu enquanto eu pensava sobre essa parceria inusitada. Eu estava lendo alguma coisa sobre o Metallica quando ent\u00e3o aparece citado no texto esse *Lulu*, e me dei conta de que eu nunca escutei esse disco, e nem sinto vontade alguma de faz\u00ea-lo. Eu gosto do Lou Reed e gosto do Metallica --- gosto inclusive muito do *Load*, que tanta gente detesta. Ent\u00e3o n\u00e3o seria natural ouvir o *Lulu*? N\u00e3o necessariamente. N\u00e3o consigo imaginar forma de isso funcionar, e olha que eu me considero bastante aventureiro e ecl\u00e9tico em meus gostos e experimenta\u00e7\u00f5es, mas nesse caso \u00e9 meio que uma quest\u00e3o de universos diferentes que n\u00e3o deveriam interagir. E agora com o Lou Reed morto e canonizado, \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de n\u00e3o correr o risco de macular o seu legado, tal como eu o conhe\u00e7o. Por isso, eu passo.\r\n\r\n**Thermals: Desperate Ground**\r\n\r\nOs tr\u00eas primeiros discos do Thermals s\u00e3o \u00f3timos, em especial o terceiro, o *The Body, the Blood, the Machine*, que eu ouvi at\u00e9 furar em 2006. Lembro da alta expectativa para o *Now We Can See*, alta expectativa seguida de um tombo espetacular, pois foi uma grande frustra\u00e7\u00e3o, achei o disco totalmente insonso. Depois veio o *Personal Life*; ouvi umas duas ou tr\u00eas vezes e nem me lembro de nada. Ano passado eles lan\u00e7aram *Desperate Ground* e eu n\u00e3o mexi um fio de sobrancelha para escut\u00e1-lo, e acho bem pouco prov\u00e1vel que venha a faz\u00ea-lo algum dia... S\u00f3 n\u00e3o digo convictamente que nunca o farei porque uma das coisas que a gente aprende depois de passar da marca dos 30 ver\u00f5es \u00e9 nunca dizer nunca.\r\n\r\n**Stone Temple Pilots: Stone Temple Pilots**\r\n\r\nEsse, na verdade, eu n\u00e3o tenho muita certeza... Ser\u00e1 que eu ouvi? Acho que n\u00e3o. Eu gosto moderadamente do Stone Temple Pilots; gosto um pouquinho mais s\u00f3 do *Tiny Music... Songs from the Vatican Gift Shop*, que vez ou outra eu escuto. Os dois primeiros discos e tamb\u00e9m o *No. 4* e o *Shangri-La Dee Da* fazem apenas apari\u00e7\u00f5es ocasionais durante as playlists aleat\u00f3rias da m\u00fasica que tenho armazenada no computador. J\u00e1 esse \u00faltimo eu acho que nem em mp3 eu tenho, e convivo com isso na boa. \u00c9 muito disco para pouca vida (e tamb\u00e9m muito megabyte para pouco HD), ent\u00e3o \u00e0s vezes temos que ser seletivos.\r\n\r\n**Chris Cornell: Scream**\r\n\r\nOk, esse eu ouvi sim, confesso. Mas preferiria n\u00e3o ter ouvido. Preferiria passar um semana inteira ouvindo Audioslave do que ser obrigado a escutar isso novamente, nem que fosse uma \u00fanica vez. Esse disco n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 indefensavelmente ruim: ele \u00e9 ruim e ele torna ruim muita coisa ao redor dele, \u00e9 um fen\u00f4meno espantoso. \u00c9 por causa desse disco que n\u00e3o consigo me empolgar com a volta do Soundgarden, n\u00e3o consigo achar muita legitimidade nessa reuni\u00e3o... Inclusive por muito pouco esse disco recente do Soundgarden n\u00e3o poderia estar aqui nessa lista, e seria culpa total deste *Scream*.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":589,"title":"Discos do m\u00eas - Julho e agosto de 2014","post_timestamp":"2014-09-04T00:56:42+00:00","url":"2014_09_03_discos_do_mes_julho_e_agosto_de_2014","post":"**Talk Talk: Laughing Stock**\r\n\r\nO Talk Talk \u00e9 paix\u00e3o relativamente recente, apesar de ser banda j\u00e1 antiga. Quero dizer, n\u00e3o antiga tipo Beatles ou Rolling Stones, mas antiga tipo R.E.M. e Cure. Os dois primeiros \u00e1lbuns que eles lan\u00e7aram n\u00e3o s\u00e3o l\u00e1 grandes coisas --- num deles tem at\u00e9 um hit oitentista que os aproximava de Duran Duran e a turma synthpop\/new-wave, *It\u0027s My Life*, lembram? ---, mas no terceiro LP revelou-se subitamente uma banda verdadeiramente distinta, e depois disso, no quarto e no quinto e \u00faltimo disco, cada part\u00edcula de som gravada por esses ingleses \u00e9 \u00edmpar e sublime. A m\u00fasica do Talk Talk, depois dessa emancipa\u00e7\u00e3o, parece prescindir de certas coisas \u00e0s quais estamos todos, ou quase todos, t\u00e3o acostumados: uma certa ordem, melodia, estrutura, e a possibilidade de rememor\u00e1-la. Neste maravilhoso *Laughing Stock*, por exemplo, o disco, quase que o tempo todo, apenas... segue. As faixas v\u00e3o se construindo em cad\u00eancias hipn\u00f3ticas, os instrumentos tateando seus caminhos sem pressa alguma, e h\u00e1 uma desconfian\u00e7a difusa de que voc\u00ea est\u00e1 sendo *farejado* por uma criatura libertina e incorp\u00f3rea que pretende descobrir algo sobre voc\u00ea, e o que acaba por ser constru\u00eddo, muito rapidamente o ouvinte se d\u00e1 conta, \u00e9 intensamente comovente e move-se por amplitudes nas quais poucas m\u00fasicas de aventuram. H\u00e1 tamb\u00e9m uma certa qualidade de jazz nesses discos (principalmente em *Laughing Stock*), como se tamb\u00e9m eles bebessem da fonte do esp\u00edrito de rebeldia e improviso, mas \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 interpretar a coisa como ainda mais radical: enquanto eu consigo pelo menos assobiar muitos trechos dos discos mais cl\u00e1ssicos de Coltrane, Mingus e Miles (tirando fora as experimenta\u00e7\u00f5es avant-garde do Coltrane, naturalmente), a m\u00fasica do Talk Talk, por outro lado, parece n\u00e3o deixar muitos tra\u00e7os na mem\u00f3ria ap\u00f3s o fim do disco, em termos de melodias que podem ser transcritas em alguma linguagem, ou de refr\u00f5es que podem ser cantarolados. Fora um trecho de guitarra aqui, um baixo encorpado acol\u00e1 (nisso eles s\u00e3o aparentados ao jazz de forma mais expl\u00edcita), o que mais persiste \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de uma audi\u00e7\u00e3o que se auto-consumiu lenta e totalmente em seu confinamento temporal, e o que nos resta ap\u00f3s estarmos fora destas herm\u00e9ticas divisas \u00e9 a lembran\u00e7a de uma experi\u00eancia sem exist\u00eancia fora de seus limites --- \u0022uma noite fora do tempo\u0022, como eu li certa vez o Cort\u00e1zar escrever sobre um show do Thelonious Monk --- que n\u00e3o quer se deixar contaminar ou misturar-se \u00e0s coisas que s\u00e3o facilmente rememor\u00e1veis porque estas s\u00e3o banais, e portanto exige que voc\u00ea volte ao disco para experiment\u00e1-lo de novo, compreend\u00ea-lo de novo. \u00c9 como se os fatores da equa\u00e7\u00e3o da m\u00fasica do Talk Talk n\u00e3o fossem somente as notas, os instrumentos, a voz: \u00e9 tudo isso e mais aquele instante \u00fanico e irrecuper\u00e1vel de sua execu\u00e7\u00e3o, passo-a-passo, segundo a segundo, livre e sereno, e a dist\u00e2ncia dessa m\u00fasica para a imensa maioria das outras \u00e9 a mesma dist\u00e2ncia que existe entre a no\u00e7\u00e3o de tempo numerado e cronol\u00f3gico --- aquele controlado pelos nossos rel\u00f3gios e agendas --- e a estonteante no\u00e7\u00e3o de infinito. Ou seja, incomensur\u00e1vel.\r\n\r\n**Brian Eno \u0026 Harold Budd: Ambient 2: The Plateaux of Mirror \u0026 The Pearl**\r\n\r\nEu estava ouvindo muito o *Ambient 2: The Plateaux of Mirror*, que \u00e9 um disco fant\u00e1stico, e da\u00ed fiquei curioso para saber mais sobre o Harold Budd. Dei uma pesquisada na discografia dele, anotei algumas coisas para procurar depois, mas descobri, sobretudo, que existe uma outra colabora\u00e7\u00e3o dele com o Brian Eno, e foi para este que parti direto. E *The Pearl* \u00e9 t\u00e3o bom quanto o *Ambient 2: The Plateaux of Mirror*, se n\u00e3o for melhor. \u00c9 praticamente uma continua\u00e7\u00e3o: m\u00fasica que te faz afundar na poltrona, ou se estirar sobre a grama com as m\u00e3os entrela\u00e7adas atr\u00e1s da cabe\u00e7a; \u00e9 m\u00fasica que, na verdade, exigiria que eu fosse imensamente mais h\u00e1bil com as palavras para dar conta de sua beleza, e nessas ocasi\u00f5es em que eu esbarro em minhas limita\u00e7\u00f5es eu sempre lembro da frase mais simples e perfeita que eu j\u00e1 li sobre m\u00fasica, e que estava num texto do Baudelaire que nem era sobre m\u00fasica, era sobre um determinado pintor, e esse pintor, se eu n\u00e3o me engano, conhecia o Chopin, e da\u00ed, muito de passagem, o poeta franc\u00eas descreve a m\u00fasica de seu conterr\u00e2neo assim: \u0022um brilhante p\u00e1ssaro esvoa\u00e7ando sobre os horrores de um abismo\u0022. Isso humilha qualquer um que tenta escrever sobre m\u00fasica, mas ao mesmo tempo d\u00e1 uma alegria indescrit\u00edvel, n\u00e3o? Ent\u00e3o, acho que para esses dois discos gravados em parceria pelo Brian Eno e pelo Harold Budd, eu teria que tirar da cartola algo desse n\u00edvel, o que, voc\u00eas h\u00e3o de me perdoar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, mas de uma forma ou de outra, quem ainda n\u00e3o os escutou, termina de ler esse textinho desconfiado de que deveria fazer isso imediatamente, e isso j\u00e1 \u00e9 alguma coisa.\r\n\r\n**Ramones: Greatest Hits Live**\r\n\r\nNos intervalos dessas m\u00fasicas contemplativas todas, eu ouvi bastante Ramones. N\u00e3o poderia ser nada intermedi\u00e1rio, nada cujas inten\u00e7\u00f5es pudessem se esfarelar perto da beleza dos discos citados acima, ent\u00e3o tinha que ser algo no outro p\u00f3lo da m\u00fasica, aquele meio infantil, nost\u00e1lgico, aquela m\u00fasica cujo barulho us\u00e1vamos contra o mundo, Mot\u00f6rhead, Metallica, Guns N\u0027 Roses, coisas desse naipe... Mas, principalmente, os insubstitu\u00edveis Ramones. Os discos ao vivo dos Ramones s\u00e3o todos \u00f3timos, mas esse tem a vantagem das duas bonus tracks de est\u00fadio, dois covers, com destaque \u00f3bvio para a grava\u00e7\u00e3o da m\u00fasica que o Mot\u00f6rhead fez em homenagem aos... Ramones. \u00c9 isso, os Ramones tocando uma m\u00fasica em homenagem a eles mesmos --- Joey at\u00e9 mesmo canta \u0022Joey calls me on the phone\u0022 ---, e se houve na hist\u00f3ria da m\u00fasica uma banda que poderia tocar uma m\u00fasica em auto-homenagem, essa banda sem d\u00favida alguma foi o Ramones.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":585,"title":"Robin Williams","post_timestamp":"2014-08-18T17:24:55+00:00","url":"2014_08_18_robin_williams","post":"Nesta \u00faltima mixtape eu inclu\u00ed o R.E.M., e eu tinha uma sensa\u00e7\u00e3o meio vaga de que havia um motivo mais espec\u00edfico para isso, para al\u00e9m da minha liga\u00e7\u00e3o intensa com a banda, mas nas breves reflex\u00f5es sobre o caso enquanto eu montava a fitinha eu n\u00e3o consegui identificar qual era este motivo, e acabei deixando o assunto de lado rapidamente, pois aquele dia estava bem atarefado e havia outras coisas ocupando minha cabe\u00e7a. At\u00e9 que hoje, segunda-feira, no primeiro pensamento mais elaborado do dia, ainda na cama enquanto reunia coragem para sair de debaixo dos cobertores --- pensamento preambular esse que n\u00e3o-raro, e aleatoriamente, costuma trazer algum desvendamento, algum boa id\u00e9ia, alguma solu\u00e7\u00e3o, engendrados sem esfor\u00e7o pelo c\u00e9rebro descansado e ainda n\u00e3o afetado pelas not\u00edcias e banalidades que logo come\u00e7ar\u00e3o a nos bombardear assim que o mundo souber que estamos enfim despertos ---, nesse primeiro racioc\u00ednio do dia me veio \u00e0 mente naturalmente, sem que eu sequer estivesse ainda preocupado com isso, a raz\u00e3o de eu ter cantarolado m\u00fasicas do R.E.M. durante boa parte da semana que passou: Robin Williams.\r\n\r\nA hist\u00f3ria \u00e9 assim: eu conheci o R.E.M. via *Out of Time*, era a \u00e9poca de *Losing My Religion* e *Shiny Happy People* tocando sem parar, e era tamb\u00e9m a \u00e9poca pr\u00e9-internet, 1991\/92, quando muitas vezes acontecia de conhecermos uma banda pelo r\u00e1dio e ficarmos ainda um bom tempo sem saber qual era a apar\u00eancia daquelas pessoas e de onde vinham e etc, pois n\u00e3o havia ainda o Google para pesquisarmos. A curiosidade s\u00f3 viria a ser saciada quando enfim os v\u00edssemos nas p\u00e1ginas da Bizz, que muito de vez em quando compr\u00e1vamos (com 12\/13 anos, a mesada mal dava para os gibis, para as figurinhas e para os doces da vendinha da esquina, que eram as prioridades, logicamente), ou quando os v\u00edssemos na TV, o que tamb\u00e9m se daria por via de uma eventualidade bem improv\u00e1vel j\u00e1 que a MTV ainda n\u00e3o estava na casa dos amigos (eu nunca a tive na casa dos meus pais), e s\u00f3 havia (havia mesmo?) uns pouqu\u00edssimos programas de not\u00edcias musicais e videoclipes que podiam passar R.E.M. na TV aberta naquela \u00e9poca. Havia ent\u00e3o espa\u00e7o de sobra para a imagina\u00e7\u00e3o, e muito baseado nas faixas do *Out of Time* que tocavam no r\u00e1dio (tocava bastante tamb\u00e9m a *Near Wild Heaven*, e essa eu gostava mais do que todas as outras) foi que eu formei uma imagem na cabe\u00e7a de como deveriam ser os caras daquela banda t\u00e3o legal. E, o cantor, eu imaginava, devia ser um cara parecido com o Robin Willlams.\r\n\r\nN\u00e3o sei se foi por causa dos filmes de Willians, que faziam bastante sucesso naquela \u00e9poca; *Hook*, por exemplo, eu fui ver no cinema, e *Sociedade dos Poetas Mortos* foi um dos primeiros filmes que eu acho que vi com um olhar n\u00e3o mais infantil, e me tocou de verdade, sendo que ainda hoje o adoro, e o revi nesta sexta-feira mesmo da \u00faltima fitinha, como um tributo pessoal ao ator rec\u00e9m-falecido. Acho que *Shiny Happy People*, principalmente, tem responsabilidade por esse conex\u00e3o: \u00e9 uma m\u00fasica bem-humorada, quase que uma com\u00e9dia em forma de m\u00fasica (com\u00e9dia boba e fraquinha, devo dizer), e apesar dos pap\u00e9is mais c\u00f4micos e palha\u00e7os de Willians, no come\u00e7o dos anos 90, ainda estarem por vir, ele j\u00e1 tinha aquele jeit\u00e3o benevolente e aquele tocante sorriso de rosto inteiro... Sorriso que j\u00e1 exibia, por maneiras sutis mas que nunca me passaram desapercebidas, algo de sombrio e profundamente melanc\u00f3lico.\r\n\r\nPois bem, a semana passada come\u00e7ou com a not\u00edcia tr\u00e1gica do suic\u00eddio do ator --- que tentou primeiro cortando os pulsos e depois finalmente se enforcou, o que \u00e9 bem dif\u00edcil de conceber. Dif\u00edcil conceber que chegou a esse ponto o Mork, o Peter Pan, o prof. Keating. Mas da\u00ed as not\u00edcias come\u00e7am a surgir e descobrimos o alcoolismo, a depress\u00e3o, os problemas financeiros... Enfim, era uma t\u00edpica estrela de Hollywood que passou dos 60 anos. Pensei nisso v\u00e1rias vezes durante a semana, enquanto m\u00fasicas do R.E.M. me vinham constantemente \u00e0 cabe\u00e7a, sem que eu ligasse uma coisa com a outra, o que s\u00f3 aconteceu, repentinamente, agora, nos primeiros momentos desse novo dia em que eu j\u00e1 deveria estar trabalhando, mas primeiro tenho que terminar de escrever isso aqui. J\u00e1 n\u00e3o lembrava da historinha relatada acima h\u00e1 muito tempo, at\u00e9 porque n\u00e3o deve ter demorado muito para vermos como eram de fato Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry, e \u00e9 uma pena que ela retorne \u00e0 minha lembran\u00e7a nessas circunst\u00e2ncias... Mas isso \u00e9 uma das coisas que a sucess\u00e3o dos dias nos trazem: as coisas ficam para tr\u00e1s, empalidecem, e muitas vezes at\u00e9 somem. O que n\u00e3o precisa ser necessariamente uma coisa ruim, e pena que nem todo mundo se aperceba disso. Thank you for playing, Mr. Willians!","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](http:\/\/www.modelmayhem.com\/po.php?thread_id=917894).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":582,"title":"Poster: Soundgarden \u0026 Nine Inch Nails","post_timestamp":"2014-07-28T14:09:52+00:00","url":"2014_07_28_poster_soundgarden_nine_inch_nails","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"Poster criado por [Miles Tsang](http:\/\/www.milestsang.com), copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.fr\/2014\/07\/nine-inch-nails-soundgarden-toronto-poster-miles-tsang-world-premiere.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Era sempre assim: uma malha de lendas e rumores frequentemente relembrados e expandidos por vozes em tons modulados de participantes de seitas, prontos para montar um altar feito de um toca-discos e um videocassete e iniciar um culto proibido. Apesar disso, o experimento ficava sempre para o dia seguinte e acabou que ningu\u00e9m nunca deu esse passo fundamental, e a coisa ficou para sempre (e n\u00e3o se pode dizer que de forma totalmente n\u00e3o-intencional) no territ\u00f3rio da especula\u00e7\u00e3o enigm\u00e1tica, assim como aquelas hist\u00f3rias do copo que se mexia sozinho e fazia previs\u00f5es e que eram sempre contadas pelas irm\u00e3s mais velhas dos amigos, que juravam solenemente, com um tiquinho mal disfar\u00e7ado de excita\u00e7\u00e3o e temor na voz, que um ex-namorado de uma amiga de uma prima havia participado de uma sess\u00e3o e morrido atropelado no dia seguinte. Sobre essas hist\u00f3rias do copo eu dava risada e fazia piadas (e provavelmente por isso as irm\u00e3s mais velhas dos meus amigos n\u00e3o gostavam de mim), mas a hist\u00f3ria do Pink Floyd me intrigava. Como dito acima, eu n\u00e3o cheguei a testar (e hoje sei que a coisa \u00e9 bem for\u00e7ada), mas por mim mesmo descobri uma outra sincronia muito mais sutil e fascinante, que \u00e9 a do *The Division Bell* com um passeio matutino pela cidade num dia ensolarado, bem cedo. Eu a adoro, e a refiz algumas vezes nesses \u00faltimos dias, e ela funciona de modos sempre diferentes e imprevistos. Se for nesses dias de outono, de frio moderado, e que parecem brilhar mais intensamente, os resultados s\u00e3o ainda mais interessantes. Na verdade, este n\u00e3o \u00e9 um grande disco; seria preciso muita boa vontade para se dizer isso. O Pink Floyd sem o Roger Waters \u00e9 um Floyd mutilado, ou mesmo um outro conjunto. E nem se trata aqui de prefer\u00eancia pessoal pelo talento de Waters --- basta dizer que acho os discos solos de ambos os protagonistas, David Gilmour e Waters, muito fracos e desinteressantes. \u00c9 inevit\u00e1vel utilizar o clich\u00ea aqui: a qu\u00edmica que existia na banda completa e que foi quebrada em 1985 com a sa\u00edda de Waters era, provavelmente, o que fazia do Floyd um grupo t\u00e3o especial, e por isso os dois \u00e1lbuns p\u00f3s-Waters, o *A Momentary Lapse of Reason* (1987) e o *The Division Bell* (1994), e tamb\u00e9m o anterior, o *The Final Cut* (1983), que \u00e9 praticamente um Floyd s\u00f3 com o Waters, \u00e9 por causa da falta dessa qu\u00edmica que eles s\u00e3o t\u00e3o insuficientes. Diante de todo o espectro de maravilhas da obra anterior da banda, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o admitir que faltam coisas nestes discos, assim como sobram outras, e eles ficam ali no meio do caminho entre meios e fins, entre afirmarem-se como discos do Pink Floyd ou de uma outra banda formada por ex-membros do Pink Floyd. Disso ressentem-se os f\u00e3s mais man\u00edacos (e o Floyd os t\u00eam em elevad\u00edssimo n\u00famero); contudo, empregando-se pelo menos uma parcela da boa vontade citada acima, pode-se dizer tamb\u00e9m que o esfor\u00e7o que o trio empenhou neste \u00faltimo rendeu melhores resultados, e acho que a maioria dos f\u00e3s da banda concorda comigo neste aspecto. Mas h\u00e1 a\u00ed tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de afeto particular influindo: o *The Division Bell* \u00e9 um dos pilares da minha cole\u00e7\u00e3o, um dos meus cinco primeiros CDs, e eu o escutei muitas, incont\u00e1veis vezes, em tantos lugares e situa\u00e7\u00f5es diferentes, de modo que ele est\u00e1 ali incontest\u00e1vel entre meus CDs mais queridos, ainda que eu reconhe\u00e7a seu valor relativo. Enfim: \u00e9 por estas muitas lembran\u00e7as particulares associadas, e tamb\u00e9m por esta incapacidade de capturar plenamente a aten\u00e7\u00e3o mas ainda assim afagar generosamente nossos esp\u00edritos com aquilo que \u00e9 claramente o melhor que Gilmour, Mason e Wright poderiam nos oferecer como um \u00faltimo registro fonogr\u00e1fico desta vener\u00e1vel banda, \u00e9 por tudo isso que pelo menos como uma espetacular trilha-sonora para um passeio esse disco funciona t\u00e3o incrivelmente bem.\r\n\r\n**Earth: Angels of Darkness, Demons of Light I**\r\n\r\nA m\u00fasica desses \u00faltimos discos do Earth \u00e9 muito prop\u00edcia \u00e0 loucas associa\u00e7\u00f5es e divaga\u00e7\u00f5es --- eu pelo menos n\u00e3o consigo evit\u00e1-las. Por exemplo: \u00e0s vezes tenho a impress\u00e3o de que ela parece progredir como um crep\u00fasculo, luz desvanecente sobre a encosta de uma morro coberto de densa floresta, a copa das \u00e1rvores recebendo a luz cada vez mais horizontal e dourada dos \u00faltimos raios de sol e o verde se aprofundando e escurecendo cada vez mais, at\u00e9 que finalmente temos um cen\u00e1rio indistinto do qual, no m\u00e1ximo, se entrev\u00eaem vultos ou formas obscuras. Mas a presen\u00e7a daquela colina, dali em diante, n\u00e3o nos \u00e9 completamente inapreens\u00edvel em toda sua amplid\u00e3o; para al\u00e9m do conhecimento pr\u00e9vio de que ela permanece ali sob a escurid\u00e3o, h\u00e1 uma intui\u00e7\u00e3o de sua presen\u00e7a, h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia em um outro plano feito de ru\u00eddos e energia e solidez. Acho que a m\u00fasica do Earth \u00e9, afinal, sobre a paciente exist\u00eancia de todas essas coisas invis\u00edveis; a t\u00eanue consci\u00eancia dessas exist\u00eancias capturada e reordenada em m\u00fasica de andar vagaroso que parece o tempo todo prestes a capitular diante das for\u00e7as mais intransigentes que incidem sobre nossos sentidos mais ordin\u00e1rios, mas que persiste e prossegue; montanha inabal\u00e1vel e sombria sob o manto da noite: uma presen\u00e7a imperturb\u00e1vel que prescinde de luz para ser percebida. E n\u00e3o lembro onde foi que eu li que uma montanha \u00e9, ao mesmo tempo, a coisa mais bela e mais monstruosa a existir na natureza (esse \u00faltimo aspecto, provavelmente, derivado das antigas lendas e mitos que punham os deuses e outros seres temidos a morar em montanhas, lendas, por sua vez, derivadas das primeiras vis\u00f5es de vulc\u00f5es, tempestades em cumes distantes etc). M\u00fasica perfeitamente redigida no livro das coisas poss\u00edveis, dada sua forma t\u00e3o simples e b\u00e1sica, mas em cujas amplas entrelinhas est\u00e3o inscritos alguns dos infinitos enredos sobre todas essas coisas ocultas da nossa percep\u00e7\u00e3o mais imediata.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":574,"title":"Poster: Nick Cave and the Bad Seeds","post_timestamp":"2014-07-01T15:02:14+00:00","url":"2014_07_01_poster_nick_cave_and_the_bad_seeds","post":"Convidado especial: Mark Lanegan... Nada mal, hein?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Poster criado por [Jon Smith](http:\/\/www.smithbellcraft.com), copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.com.br\/2014\/06\/nick-cave-bad-seeds-seattle-poster-by.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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S\u00e3o dois \u00e1lbuns de envergadura, seis discos cada, e que n\u00e3o somente pelas dimens\u00f5es exigem disposi\u00e7\u00f5es muito espec\u00edficas para aprecia\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m os tracklists s\u00e3o desafiadores: sequ\u00eancias enormes de uma mesma faixa tocada e repetida e novamente tocada e novamente repetida, longas jams delirantes, trechos cortados bruscamente, e tudo isso nem sempre na melhor das qualidades sonoras. Mas finalmente escutei o volume 1 e a jornada compensa plenamente, pois h\u00e1 muita coisa fant\u00e1stica nessas muitas horas de um Jimi Hendrix na plenitude de suas for\u00e7as e aparentemente t\u00e3o \u00e0 vontade em est\u00fadios quanto ficava sobre o palco. H\u00e1 uma vers\u00e3o de *Angel* gravada por Jimi em seu apartamento na mais despojada das t\u00e9cnicas e circunst\u00e2ncias, e a m\u00fasica revela uma dimens\u00e3o m\u00e1gica que o tempo todo se infere de suas vers\u00f5es mais famosas, mas ainda assim ela emociona de maneira in\u00e9dita e contagiante. O blues ac\u00fastico *Hear My Train A\u0027 Comin*, depois de um come\u00e7o incerto e entrecortado por conversas, irrompe sublime e assombroso, quase que uma apari\u00e7\u00e3o espectral de amplas conota\u00e7\u00f5es --- aquele que \u00e9 afinal o grande efeito dos mais transcedentais dos blues americanos, e que Jimi aqui parece alcan\u00e7ar como quem coloca um chap\u00e9u ou ajeita uma gola de camisa, finalizando o take \u00fanico com uma risadinha zombeteira de quem se sabe muito mestre de sua arte e v\u00ea pela en\u00e9sima vez a prova disso no olhar embasbacado daqueles que o acompanhavam no est\u00fadio naquele dia. J\u00e1 *Voodoo Child* \u00e9 uma dessas que se repetem v\u00e1rias vezes, mas cada uma soa melhor do que a outra, sempre original e indom\u00e1vel. Tem ainda um som chamado *Calling All Devil\u0027s Children* que eu nunca havia escutado antes, uma faixa instrumental em tr\u00eas vers\u00f5es todas igualmente fant\u00e1sticas que me fazem reafirmar ainda mais enfaticamente o que eu j\u00e1 disse aqui antes: de todas as mortes prematuras da hist\u00f3ria da m\u00fasica --- e o rock, em particular, \u00e9 riqu\u00edssimo em ocorr\u00eancias desse tipo --- a mais tr\u00e1gica e lament\u00e1vel de todas foi a de Jimi Hendrix, pois at\u00e9 onde este g\u00eanio poderia ter chegado, fossem-lhe dadas mais algumas d\u00e9cadas de vida, \u00e9 simplesmente inimagin\u00e1vel. E h\u00e1 ainda neste volume 1 toda uma mir\u00edade de sons que se n\u00e3o se destacam individualmente, se destacam por fazer assomar vividamente diante de nossos olhos a figura sem igual de Jimi com sua guitarra, sempre uma performance hipn\u00f3tica feita de movimentos mais naturais do que aqueles que qualquer outro m\u00fasico j\u00e1 executou com seu instrumento. Tenho certeza que no volume 2 me aguardam outros tantos tesouros semelhantes.\r\n\r\n**Marilyn Manson: Antichrist Superstar**\r\n\r\nNo meu modo de ver as coisas, o Marilyn Manson \u00e9 resultado dos mesmos processos e demandas que resultam em Backstreet Boys, Spice Girls e [coloque aqui os nomes dos grandes \u00edcones infanto-juvenis da atualidade; nas minhas \u00faltimas lembran\u00e7as de ver alguma coisa das not\u00edcias deste mundo, esses dois que eu citei eram os nomes ent\u00e3o em voga, mas suponho que nem existam mais]. Ele supre as necessidades de um mesmo tipo de p\u00fablico de uma mesma faixa et\u00e1ria, com a diferen\u00e7a apenas de ser a est\u00e9tica oposta, a deixar claro o n\u00e3o-pertencimento ao grupo majorit\u00e1rio apegado \u00e0s belezas plastificadas, romancezinhos adolescentes e temas banais. Em resumo: tudo muita imagem e n\u00e3o necessariamente alguma m\u00fasica. Al\u00e9m, claro, da perfeita integra\u00e7\u00e3o aos mecanismos engenhosos daquela terceira parte que financia e lucra bastante em cima deste grande circo de apar\u00eancias. No geral, acho que \u00e9 isso, mas \u00e9 claro que o interesse no Manson pode se dar por outros caminhos tamb\u00e9m, como por exemplo, o gosto por m\u00fasica ruim --- meu caso. Lembro que a primeira vez em que eu ouvi falar de Manson foi lendo uma resenha desse disco *Antichrist Superstar* numa edi\u00e7\u00e3o da revista Veja (vejam o tipo de coisa deplor\u00e1vel que eu confesso aqui...); fiquei curioso para ouvir aquilo, comprei o disco e gostei bastante, uma afei\u00e7\u00e3o nascida provavelmente das mesmas deformidades que fazem com que eu adore filmes de terror dos anos 80, por exemplo. A coisa \u00e9 bastante tosca e vazia, um tanto prim\u00e1ria em mat\u00e9ria de choque e de esquisitice, mas no fim das contas \u00e9 bom que existam, mesmo nesse n\u00edvel de ingenuidade, figuras como Manson, que se prestam a esse papel de outro lado da mesma moeda, pois para al\u00e9m de servirem como uma primeira forma de representa\u00e7\u00e3o para a garotada que n\u00e3o se encaixa naquele perfil de saud\u00e1veis bons meninos e meninas que sonham seus pais, podem acabar tamb\u00e9m servindo de est\u00edmulo para estes irem mais a fundo e descobrirem que existe um vasto mundo de sons verdadeiramente diferentes, obscuros e instigantes por a\u00ed.\r\n\r\n**Inter Arma: Sky Burial**\r\n\r\nMas falemos agora de m\u00fasica brutal de verdade: n\u00e3o me dediquei muito a ouvir esse disco quando ele saiu no ano passado, mas agora estou compensando o atraso enfileirando as muitas audi\u00e7\u00f5es que ele merece. A f\u00f3rmula \u00e9 perfeita: os vocais que parecem berrar distantes l\u00e1 de alguma dimens\u00e3o extraviada do universo conhecido; as faixas instrumentais e os viol\u00f5es que d\u00e3o aquele clim\u00e3o de misticismo e ru\u00edna; guitarras que parecem elevar a intensidade de tudo isso para um inconceb\u00edvel patamar ainda acima, sempre que elas v\u00eam para demolir tudo, e elas sempre v\u00eam, inexor\u00e1veis como h\u00e3o de ser as tormentas que preceder\u00e3o o apocalipse. O apocalipse \u00e9 coisa muito s\u00e9ria, j\u00e1 me advertiu uma professora ruiva de ingl\u00eas l\u00e1 ainda nos primeiros anos do ensino prim\u00e1rio --- certo dia, ela n\u00e3o ensinou os nomes das cores ou dos bichos em ingl\u00eas, e deu as seguintes orienta\u00e7\u00f5es para a classe: ao fim da aula, ter\u00edamos que ir embora e, ao chegar em casa, preparar muitos vidros de comida em conserva, e depois n\u00e3o sair de casa de jeito nenhum, pois a coisa ficaria bem feia do lado de fora. Na outra semana (j\u00e1 que esse Ju\u00edzo Final ou seja l\u00e1 o que seria acabou n\u00e3o acontecendo, para al\u00edvio de uns e decep\u00e7\u00e3o de outros) teve uma reuni\u00e3o com os pais dos alunos e a tia do ingl\u00eas nunca mais foi vista, \u00e9 claro. E com essa lembran\u00e7a, acaba de me ocorrer que talvez essa professora tenha sua parcela de culpa por hoje, 25 anos depois, eu ouvir Marilyn Manson e Inter Arma. Quais ser\u00e3o e como se manifestam atualmente os traumas que ficaram no esp\u00edrito dos agora adultos que eram ent\u00e3o crian\u00e7as e que estavam naquela inesquec\u00edvel sala de aula comigo? Nunca me esquecerei do terror nos olhos da coleguinha que sentava do meu lado enquanto a transtornada professora, gaguejando e com enormes pingos de suor sobre as sardas de sua testa, dava detalhes do que estava para acontecer dali algumas horas... Bem, de minha parte, s\u00f3 posso dizer: obrigado, professora de ingl\u00eas. Fan\u00e1ticos religiosos s\u00e3o um saco, mas convenhamos que sem eles o mundo seria um pouco menos divertido.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":563,"title":"Poster: Queens of the Stone Age","post_timestamp":"2014-05-28T20:43:36+00:00","url":"2014_05_28_poster_queens_of_the_stone_age","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.com.br\/2014\/05\/neal-william-queens-of-stone-age-tulsa.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Pepper\u0027s Lonely Hearts Club Band**\r\n\r\nN\u00e3o costumo tomar parte na briguinha vinil X CD pois tenho minhas liga\u00e7\u00f5es afetivas com os dois formatos e compro discos de ambos os tipos indiscriminadamente, mas se fosse for\u00e7ado a escolher um lado, eu escolheria o do vinil, e o faria sacando um argumento que me parece incontest\u00e1vel: *Sgt. Pepper\u0027s Lonely Hearts Club Band*. Pra come\u00e7ar, a capa: o que o CD fez com a arte deste disco \u00e9 crime contra a humanidade --- aquilo que aquela senhorinha italiana fez com o quadro l\u00e1, ao tentar restaur\u00e1-lo, n\u00e3o \u00e9 nada perto disso. E tem o detalhe do fim do disco: o vinil termina, ou melhor, *n\u00e3o* termina de forma maravilhosa, genial (*), enquanto o CD s\u00f3 termina, um fade-out sem gra\u00e7a que mutila a obra, outro crime grotesco. S\u00e3o detalhes que avultam ainda mais esse disco t\u00e3o peculiar, ao qual dediquei umas boas horas de audi\u00e7\u00e3o nessas \u00faltimas semanas. Confesso que nem \u00e9 o meu preferido dos Beatles (por esse posto, \u00e1lbum branco e *Let It Be* est\u00e3o um pouco a frente), mas \u00e9 inegavelmente um disco especial, riqu\u00edssimo de sons e id\u00e9ias, um marco de uma banda que \u00e9 ela pr\u00f3pria um marco na hist\u00f3ria da m\u00fasica. Nem me ocorre nada muito original para acrescentar; deve haver farta literatura sobre o *Sgt. Pepper\u0027s Lonely Hearts Club Band* por a\u00ed, j\u00e1 que \u00e9 not\u00f3rio que as sess\u00f5es de grava\u00e7\u00f5es deste disco --- mais de 700 horas --- foram \u00e9picas. Mas n\u00e3o poderia deixar de cit\u00e1-lo aqui, ainda mais depois de ter citado os Stones m\u00eas passado... \r\n\r\n(*) Na verdade, eu s\u00f3 sei que \u00e9 assim, por j\u00e1 ter lido a respeito; a edi\u00e7\u00e3o brasileira em vinil que tenho aqui n\u00e3o tem a famosa faixa final da multid\u00e3o em repeti\u00e7\u00e3o infinita.\r\n\r\n**Neil Young: Dead Man (Trilha-sonora)**\r\n\r\nA trilha-sonora do Neil Young para o filme *Dead Man*, dirigido por Jim Jarmusch, \u00e9 daquelas que parecem provocar apenas rea\u00e7\u00f5es extremas: ou se adora ou se odeia. Eu adoro. Ver o filme lembra muito aquelas sess\u00f5es de cinema mudo --- e tamb\u00e9m o filme de Jarmusch \u00e9 em preto-e-branco --- onde um pianista presente na sala onde ocorre a proje\u00e7\u00e3o vai criando a trilha-sonora ao vivo, ali na hora: a guitarra de Young \u00e9 puro improviso ao longo das cenas da aventura do desafortunado contador vivido por Johnny Depp, personagem que compartilha seu nome com o grande poeta ingl\u00eas William Blake. O filme \u00e9 \u00f3timo, todo on\u00edrico e recheado de simbolismos, a m\u00fasica de Young intensificando a surrealidade da narrativa a passos que variam entre o indeciso e o cat\u00e1rtico, pontuada ainda por muitos sil\u00eancios e apenas alguns poucos trechos que parecem seguir alguma linha mel\u00f3dica reconhec\u00edvel, linhas t\u00eanues que logo diluem-se, assim como dilui pouco a pouco o v\u00ednculo entre o William Blake americano, ferido de morte, com a vida terrena.\r\n\r\n**Nirvana: Blind Pig Beginnings (Bootleg)**\r\n\r\nO Nirvana, por tudo que representou, em todos os aspectos, j\u00e1 deve ter recebido todas as cr\u00edticas e opini\u00f5es poss\u00edveis, indo de um extremo ao outro incont\u00e1veis vezes. Eu mesmo j\u00e1 devo ter escrito um punhado de coisas contradit\u00f3rias umas com as outras nesses 15 anos de opini\u00f5es irrelevantes e mon\u00f3logos amalucados neste site. Mas tendo ouvido recentemente alguns bootlegs dos primeiros anos da banda (tenho aqui grava\u00e7\u00f5es do per\u00edodo 1987-90, breve intervalo em que existiram como banda underground comum e n\u00e3o fen\u00f4meno pop internacional), reparei que nunca --- salvo engano de uma mem\u00f3ria j\u00e1 meio cansada --- nunca escrevi nada sobre essa \u00e9poca em que Kurt, Krist e seja l\u00e1 quem fosse o baterista da ocasi\u00e3o iam para seus shows em vans e notadamente ouviam muito Melvins e Black Flag, e sobre como funcionavam perfeitas ao vivo aquelas m\u00fasicas pesadas e sisudas do primeiro LP, que j\u00e1 traziam sim as melodias redondas que Cobain t\u00e3o facilmente compunha, isso \u00e9 ineg\u00e1vel, mas as propor\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es dos elementos ainda tendendo muito mais para aquilo que ouviam e com o que conviviam nos pequenos clubes de Seattle antes da cidade se transformar na menina dos olhos da MTV e de todos os p\u00fablicos jovens mundo afora. Esse bootleg em particular, *Blind Pig Beginnings*, com a grava\u00e7\u00e3o de um show que aconteceu no dia 10 de abril de 1990 em Michigan (EUA), \u00e9 fascinante. O *Nevermind* j\u00e1 devia estar em gesta\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o h\u00e1 m\u00fasicas dele aqui, tampouco h\u00e1 tra\u00e7os da est\u00e9tica sonora que piscava olhos lascivos para as possibilidades de vendas mais numerosas que iria aparecer nesse segundo LP --- acho que j\u00e1 escrevi sobre isso aqui, mas o pr\u00f3prio Butch Vig relatou que a orienta\u00e7\u00e3o de Cobain era, sempre que este se encontrasse numa encruzilhada durante seu trabalho de produ\u00e7\u00e3o, que Vig escolhesse ent\u00e3o o caminho que mais rapidamente pudesse levar o Nirvana a um p\u00fablico mais amplo; a revela\u00e7\u00e3o est\u00e1 na biografia de Cobain escrita por Charles R. Cross, livro indispens\u00e1vel aos f\u00e3s da banda e do rock dos anos 90. Mas como eu dizia, o *Nevermind* n\u00e3o existia ainda e nesta grava\u00e7\u00e3o de 1990 s\u00f3 h\u00e1 sons do *Bleach*, b-sides e covers, e a despeito da qualidade da grava\u00e7\u00e3o apenas mediana, o show \u00e9 hipnotizante, com vers\u00f5es extraordin\u00e1rias de *Floyd the Barber*, *Scoff* e *Big Cheese*, que soam selvagens e pulsantes, o melhor resultado poss\u00edvel das habilidades e influ\u00eancias da banda, e Cobain cantando como talvez nenhum outro cantor de rock tenha jamais cantado, um misto prodigioso de total falta de qualquer senso de auto-preserva\u00e7\u00e3o e irrestrito comprometimento com a responsabilidade que vem da compreens\u00e3o de que um show de rock \u00e9, por menor que seja o n\u00famero de pessoas envolvidas, um evento de certa forma sagrado. N\u00e3o d\u00e1 de negar os m\u00e9ritos do *Nevermind*, mas \u00e9 tentador pensar que \u00e9 aqui no *Bleach* e nos seus shows que est\u00e1 a melhor fase da banda, o Nirvana em sua forma mais pura e inspirada. Passado tanto tempo, acho que j\u00e1 d\u00e1 de dizer isso publicamente, sem correr o risco de ser interpretado como aquele pessoal que gosta simplesmente de ser do contra (os que dizem [preferir os Stones aos Beatles](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2014_04_01_discos_do_mes_marco_de_2014)), ou aquela outra turma que deixa de gostar de uma banda assim que ela obt\u00e9m algum sucesso comercial, etc... certo? Pois ent\u00e3o eu o digo: \u00e9 aqui mesmo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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In those days you didn\u2019t have much choice other than to learn via word of mouth, to go out to hear things firsthand played by DJs, and put in your own research based largely on trial and error. You couldn\u2019t just sit in front of a computer and set e-snipe bids (which I do as well, believe me \u2013-- we all do \u2013-- even though it\u2019s tough to find a lot of joy in that act). I mean we all want the records we want. But spiritually it\u2019s a little more interesting and fulfilling to let your interest in the music lead you to some places you didn\u2019t necessary expect. So sure, get the records you want, or as true record addicts would say, \u201cNEED!\u201d But when it takes a while, you know, enjoy that part of it too.\r\n\r\n-- Jeff \u0022Chairman\u0022 Mao","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Ok, parte do que escrevi \u00e9 um exagero; posso compreender sim algu\u00e9m preferir Jagger \u0026 Richards (e os outros) \u00e0 Lennon \u0026 McCartney \u0026 Harrison (e o Ringo --- ali\u00e1s, ser\u00e1 verdade que certa vez perguntaram ao Lennon se ele achava que Ringo era o melhor baterista do mundo ao que ele respondeu que o Ringo n\u00e3o era sequer o melhor baterista dentre eles quatro? Verdade ou n\u00e3o, \u00e9 a melhor anedota da hist\u00f3ria da m\u00fasica, com folga), mas ainda assim me soa um tanto estranho colocar os Stones na frente dos Beatles, se estiver se falando estritamente de m\u00fasica, claro. O problema maior talvez seja esse monstrengo em que os Stones se transformaram, uma banda que hoje mais parece um imenso neg\u00f3cio totalmente desconectado dos princ\u00edpios b\u00e1sicos de desobedi\u00eancia do rock \u0027n\u0027 roll, a banda (ou marca) preferida do mundo publicit\u00e1rio e seus conceitos e est\u00e9ticas tolos e rasos, quase que a trilha-sonora oficial de tudo que \u00e9 \u0022descolado\u0022 e envolve muito dinheiro e festas regadas \u00e0 champagne caro em beiras de piscinas iluminadas. Os Beatles j\u00e1 iam finados fazia um quarto de s\u00e9culo, John Lennon se retirara da vida e se transformara em santo fazia 15 anos enquanto os Stones, serelepes, faziam propaganda para o Windows 95 (quem lembra?). Os Beatles encerraram no auge, sua obra ficando ent\u00e3o congelada de um modo que nunca perder\u00e1 seu poder de fasc\u00ednio, enquanto os Stones, ano ap\u00f3s ano, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, continuam protagonizando essa decad\u00eancia p\u00fablica que, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil deduzir, \u00e9 movida por incont\u00e1veis quantidades de dinheiro, toda uma m\u00e1quina que parece hoje impar\u00e1vel de tanto que tem de peso e modorra e pequenas outras m\u00e1quinas juntas se arrastando e contabilizando milh\u00f5es e milh\u00f5es a qualquer min\u00fascula a\u00e7\u00e3o dos quatro senhores. Como preferi-los aos Beatles e sua m\u00edtica trajet\u00f3ria? Mas \u00e9 claro que tamb\u00e9m gosto da obra dos Stones --- sou humano, e at\u00e9 tomo champagne de vez em quando. Meu primeiro disco da banda foi o *Voodoo Lounge*, a estrela da primeira turn\u00ea que os Stones fizeram pelo Brasil, em 1995 (o \u00e1lbum tendo sido lan\u00e7ado no ano anterior). Botei para tocar algumas vezes este meu velho CD nos \u00faltimos dias, relembrando com nostalgia dos hits daquela \u00e9poca, *Love Is Strong*, *Sparks Will Fly*, e uma outra que n\u00e3o virou hit, mas eu adorava, a \u00faltima faixa do disco, *Mean Disposition*, e lembrei-me tamb\u00e9m da decep\u00e7\u00e3o que tive quando ouvi o disco de cabo a rabo pela primeira vez e percebi que n\u00e3o estava em seu tracklist uma m\u00fasica que eu adorava e que eu conhecia s\u00f3 de ouvir um trecho numa propaganda televisa que divulgava os shows que a banda faria pelo Brasil, e que s\u00f3 depois de conhecer os discos mais antigos fiquei sabendo que se tratava de um dos velhos cl\u00e1ssicos do repert\u00f3rio dos Stones e se chamava *Jumpin\u0027 Jack Flash*. Se eu n\u00e3o me engano, um daqueles shows no Brasil teve transmiss\u00e3o ao vivo pela TV (ou ent\u00e3o eu vi uma grava\u00e7\u00e3o depois), e lembro-me de achar esquisito a figura destrambelhada do Keith Richards naquele enorme palco cheio de luzes e fogos de artif\u00edcio... Era como uma bizarra cerim\u00f4nia f\u00fanebre pelo ocaso do grunge, a plat\u00e9ia brasileira colaborando com seu intr\u00ednseco talento de transformar em carnaval at\u00e9 mesmo um funeral. Enfim, a banda j\u00e1 era naquela \u00e9poca esse enorme paquiderme que parecia ainda mais anacr\u00f4nico depois do reinado das bandas de Seattle, mas o *Voodoo Lounge* era um bom exemplar do que eles tinham de bom, o rock meio blues b\u00eabado e despretencioso que nem parece obra dessa mega-corpora\u00e7\u00e3o que os Stones s\u00e3o hoje.\r\n\r\n**Bob Marley: Exodus**\r\n\r\nCoisa de uns dois anos atr\u00e1s foi lan\u00e7ado um document\u00e1rio sobre o Bob Marley, e pelo menos na Inglaterra, onde eu morava na \u00e9poca, o filme foi bem recebido, a cr\u00edtica elogiou, as pessoas comentaram, e eu fiquei feliz com a esperan\u00e7a de que pudesse acontecer a partir dali uma ampla reabilita\u00e7\u00e3o da figura lend\u00e1ria e inigual\u00e1vel de Marley, coisa que o filme propunha. Afinal, a marginaliza\u00e7\u00e3o do jamaicano foi erigida gradualmente sobre uma funda\u00e7\u00e3o muito tosca, a do \u00f3dio cego pela pobre plantinha que Marley fumava e que aparenta ser, para algumas pessoas, o pr\u00f3prio veneno destruidor da humanidade enviado por Satan\u00e1s em pessoa e protocolado por todas as outras inst\u00e2ncias mal\u00e9ficas do inferno. Essa vis\u00e3o intolerante parece ter vingado em grande escala, e tudo aquilo que Bob Marley pregava em primeiro lugar --- principalmente o amor \u00e0 natureza e ao pr\u00f3ximo --- foi ficando desprezado em segundo plano, como se fossem causas menos importantes diante ao crucial silenciamento dessa subvers\u00e3o abomin\u00e1vel que \u00e9... cultivar uma planta. Um neg\u00f3cio lament\u00e1vel demais, pois sua m\u00fasica e suas mensagens fazem um bem para alma como poucas outras podem fazer. Esse disco *Exodus*, por exemplo, parece um prolongado mantra de tranquilidade, m\u00fasica captada diretamente dos esp\u00edritos da natureza e entoada sem ru\u00eddos ou distor\u00e7\u00f5es por um porta-voz destitu\u00eddo de qualquer vaidade e de qualquer outro prop\u00f3sito que n\u00e3o o de restituir nossa paz e serenidade. Essa pureza de Marley parece ser, no fim das contas, o que assusta tanta gente, que sente-se inconformada e ofendida com sua pr\u00f3pria pequeneza incontornavelmente evidenciada diante da majestade natural e esfarrapada do cantor, a liga\u00e7\u00e3o deste com a cannabis funcionando ent\u00e3o --- e convenientemente em conson\u00e2ncia com tantos lobbys e preconceitos --- como argumento para atac\u00e1-lo e defenestr\u00e1-lo. Claro que aquela minha esperan\u00e7a citada na primeira frase morreu na praia; como eu especulava dia desses a respeito de Jim Morrison, n\u00e3o vivemos dias muito promissores para as figuras mais rebeldes e originais, pelo menos n\u00e3o no \u00e2mbito do grande p\u00fablico cada vez mais prisioneiro de porta-vozes de outras entidades.\r\n\r\n**Midnight Oil: Scream in Blue**\r\n\r\nOk, n\u00e3o vou me alongar novamente sobre o Midnight Oil, j\u00e1 que eles encabe\u00e7aram o texto do m\u00eas passado, mas n\u00e3o posso evitar de ao menos cit\u00e1-los brevemente, j\u00e1 que este fant\u00e1stico disco ao vivo foi de longe a coisa que eu mais ouvi esse m\u00eas. Tenho-o desde dezembro de 1992, como atesta a anota\u00e7\u00e3o \u00e0 caneta feita na parte interna do encarte (h\u00e1bito que eu tinha quando crian\u00e7a: registrar a propriedade nos meus livros e discos), presente de uma tia naquele Natal, e provavelmente o terceiro disco da minha cole\u00e7\u00e3o. A melhor descri\u00e7\u00e3o sobre o *Scream in Blue* eu li numa revista Fluir, na \u00e9poca do lan\u00e7amento, e nunca a esqueci: \u0022um barril de combust\u00edvel em chamas\u0022. \u00c9 isso a\u00ed mesmo; as guitarras man\u00edacas e incendi\u00e1rias deste disco mudaram minha vida, posso dizer sem incorrer em exagero algum. ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Nessas horas, e tamb\u00e9m naquelas em que voc\u00ea simplesmente p\u00e1ra num lugar quieto e fica observando as coisas ao redor enquanto tenta absorver de forma um pouco mais ordenada o turbilh\u00e3o de novidades, n\u00e3o h\u00e1 companhia melhor do que aquela m\u00fasica altamente familiar e querida que reestabelece certos v\u00ednculos e estados de esp\u00edritos. Lembro de ouvir muito o *Breathe* num ver\u00e3o de f\u00e9rias, o de 1997, logo depois do seu lan\u00e7amento, e na sequ\u00eancia lev\u00e1-lo comigo numa pequena viagem de fam\u00edlia, um fim-de-semana com pai-m\u00e3e-irm\u00e3o numa cidade pequena qualquer n\u00e3o muito longe, e j\u00e1 ali naqueles primeiros tempos de conviv\u00eancia, o CD --- que durante a viagem eu ouvia duas ou tr\u00eas vezes por dia a partir de um discman --- ganhou status de um dos discos da minha vida e parceiro insepar\u00e1vel de explora\u00e7\u00f5es em outras terras. Eu j\u00e1 era muito f\u00e3 do Oil antes, e ainda por cima assisti \u00e0 banda em a\u00e7\u00e3o pela primeira e \u00fanica vez naquela mesma \u00e9poca, em um show da turn\u00ea de divulga\u00e7\u00e3o deste disco cujas lembran\u00e7as mais fortes s\u00e3o: fomos ao show eu e um amigo que n\u00e3o conhecia muito a banda, e a cada m\u00fasica que iniciava eu gritava no ouvido dele, \u0022essa \u00e9 do disco tal\u0022, \u0022essa eu gosto muito\u0022, \u0022essa eu gosto menos\u0022 etc.; o show abriu com a sensacional *Bring on the Change*; me surpreendi com o tamanho do Peter Garrett, o vocalista careca que eu n\u00e3o sabia at\u00e9 ent\u00e3o que tinha mais de 1,90m; e durante o hit *Beds Are Burning* aconteceu uma queda de energia no local que apagou todas as luzes e emudeceu bruscamente todos os sons do palco. Pena n\u00e3o ter anotado na \u00e9poca o setlist completo... Enfim, esses fatores todos, para al\u00e9m do fato do disco ser \u00f3timo, contribu\u00edram para consolidar meu enorme apego por ele, mas hoje em dia, principalmente nessas ocasi\u00f5es de viagem --- e ainda mais principalmente quando o destino \u00e9 alguma metr\u00f3pole dessas de vida acelerada ---, o motivo fundamental que faz com que eu continue escutando-o, o fator quase m\u00edstico que me faz permanecer um obstinado devoto de suas can\u00e7\u00f5es \u00e9 a imagem (e demais sensa\u00e7\u00f5es) intensamente evocada por suas 13 faixas: a imagem do mar. O mar, abundante na minha cidade natal, presente em quase toda minha vida, o mais misterioso e deslumbrante dos s\u00edmbolos da \u0022floresta de s\u00edmbolos\u0022 que \u00e9 a natureza (como dizia Baudelaire, que como poeta se atribu\u00eda ainda a responsabilidade central de elucidar esses s\u00edmbolos), esse colosso ao mesmo tempo muito pr\u00f3ximo e muito desconhecido e sempre associado ao sublime, ocasionador frequente de epifanias no homem que deixa-se estar quieto, por algum tempo, frente \u00e0 imensid\u00e3o da natureza. N\u00e3o que ouvir esse disco no meio de uma grande cidade encrustada no meio de um continente me fa\u00e7a sentir o cheiro da \u00e1gua salgada, ou me fa\u00e7a querer voltar para casa (por sorte nunca padeci de homesickness), mas ele conforta e estimula atrav\u00e9s da reitera\u00e7\u00e3o daquele conhecimento primitivo que temos sobre a perenidade da natureza (\u0022seasons won\u0027t falter, stars won\u0027t fade away\u0022, canta Garrett em uma das minhas faixas preferidas) e sobre a nossa pr\u00f3pria consci\u00eancia de eternidade reconhecida uma vez que nos entendemos como parte dessa m\u00e3e comum que temos todos --- ainda que pare\u00e7amos impermanentes e fr\u00e1geis quando nos assumimos como indiv\u00edduos separados, isolados, excepcionais. Se n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estar sempre em frente ao mar para experimentar e refor\u00e7ar em nossas esp\u00edritos essa comunh\u00e3o, esse disco funciona como um instrumento alternativo para isso, seja l\u00e1 onde for que as circunst\u00e2ncias da vida tenham nos carregado. Por isso, assim como o canivete su\u00ed\u00e7o para abrir as garrafas de vinho (outro poderoso instrumento...), o *Breathe* est\u00e1 sempre na bagagem, quero dizer, nos equipamentozinhos port\u00e1teis de som (j\u00e1 que o discman h\u00e1 muito foi aposentado), tornando todas as viagens ainda mais proveitosas, e tamb\u00e9m depositando na volta para a casa a expectativa do reencontro com o peda\u00e7o de mar que eu conhe\u00e7o plenamente, unindo assim todas as pontas e fazendo da vida uma \u00fanica grande jornada.\r\n\r\n**Black Rebel Motorcycle Club: Beat the Devil\u0027s Tattoo**\r\n\r\nE viajar ainda por cima nos permite ver, ocasionalmente, shows que nunca ver\u00edamos se n\u00e3o sa\u00edssemos para um pouco mais longe de casa, para longe do litoral... Comentei j\u00e1 por aqui que eu vi recentemente um show extraordin\u00e1rio do BRMC, e por conta disso, como de costume, andei ouvindo repetidamente os discos da banda. No fim do ano passado eu [escutei bastante o Specter at the Feast](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_12_03_discos_do_mes_novembro_de_2013), e depois resolvi dar mais uma chance ao *Beat the Devil\u0027s Tattoo*, que havia passado meio batido na \u00e9poca em que foi lan\u00e7ado. Passei a gostar mais dele: h\u00e1 no tracklist pelo menos duas faixas espetaculares que justificam plenamente sua exist\u00eancia, *Aya* e *Half-State*. Pena que n\u00e3o tocaram nenhuma dessas no show.\r\n\r\n**Iron Maiden: No Prayer for the Dying**\r\n\r\nEsse disco deve aparecer frequentemente nas listas dos cinco menos preferidos dos f\u00e3s da banda (f\u00e3s de Iron Maiden adoram fazer listas), mas eu tenho boas lembran\u00e7as dele: foi um dos primeiros que eu conheci, tendo pegado-o emprestado meio aleatoriamente com um amigo que tinha toda a cole\u00e7\u00e3o do Maiden. N\u00e3o lembro se esse meu amigo fez alguma advert\u00eancia ou deu algum conselho sobre outras escolhas possivelmente melhores, mas naquela \u00e9poca o *No Prayer for the Dying* era tamb\u00e9m um dos mais recentes, e talvez isso tenha influenciado. Enfim, sem saber muita coisa sobre a banda, sem saber quais eram os cl\u00e1ssicos, os discos habitualmente mais adorados, nada disso, eu gravei minha tradicional fitinha K7 com uma c\u00f3pia do CD, me pus a escut\u00e1-la e gostei muito logo de cara da introdu\u00e7\u00e3o de *Tailgunner*, que permanece ainda hoje como uma das minhas faixas preferidas do Maiden. Claro, depois eu conheci outros discos bem melhores da banda e depois, o que \u00e9 ainda mais natural, parei de escutar Iron Maiden, mas vez ou outra, quando bate a saudade daqueles tempos, do Bruce Dickinson se esgoelando para cantar aquelas letras tolas divertidas todas e das capinhas com o monstrengo Eddie onde uma das nossas divers\u00f5es era procurar pela assinatura escondida do [Derek Riggs](http:\/\/metalbandart.com\/?p=698), nessas ocasi\u00f5es n\u00e3o \u00e9 raro eu puxar o *No Prayer for the Dying*.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Sometimes you want the microphone to be in another room to the one you\u0027re playing in. Dave Fridmann always has these secret ambient mics going on all the time; you don\u0027t know where they are or what instruments they\u0027re picking up. Which I want him to do - I want to be surprised. Sometimes you\u0027re a bit frustrated or bored with what you\u0027ve recorded, he\u0027ll grab one of these little ambient mics and say \u0027What about that one?\u0027 and I\u0027ll be like \u0027Oh, fuck yeah\u0027. There\u0027s some other nuance, some other atmosphere that\u0027s in there.\r\n\u003E \r\n\u003E So I think Bitches Brew is most in line with that. Sometimes the best thing you can do with a song is just make it and then completely fuck with it later.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Esse espa\u00e7o de quase um ter\u00e7o de um ano (!) entre o despacho de *Reflektor* e minha primeira audi\u00e7\u00e3o me deixou num limbo onde, munido apenas do v\u00eddeo da faixa-t\u00edtulo e das informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas a respeito do disco, estranhei a repercuss\u00e3o \u0022pouco\u0022 expressiva nas listas de melhores de 2013, algo que Arcade Fire supostamente dominaria mundo afora.\r\n\r\nMas *Reflektor* \u00e9 um \u00e1lbum estranho, esquisito, quase esquizofr\u00eanico. A banda se notabilizou por considerar o m\u00e1ximo de possibilidades sonoras que desaguam magn\u00e2nimas e indiscut\u00edveis, sendo catapultada do frio Canad\u00e1 r\u00e1pida e diretamente para o cora\u00e7\u00e3o pulsante da m\u00fasica alternativa. Tal trajet\u00f3ria se deu muito pela voca\u00e7\u00e3o deles de trazer o ouvinte para pr\u00f3ximo de si com uma acolhedora sinceridade, mesmo que normalmente embebida em pretens\u00e3o, num ar de quem est\u00e1 sempre cheio de ideais. Do urgente *Funeral*, passando pelo globalizado *Neon Bible* e retornando aos microcosmos de *The Suburbs*, eles se afirmaram entre os grandes nomes da m\u00fasica desta d\u00e9cada. Mas o ent\u00e3o vindouro *Reflektor* j\u00e1 se desenhava \u0022torto\u0022 desde sua concep\u00e7\u00e3o: produzido pelo LCD Soundsystem James Murphy e gravado em locais inusitados como a Jamaica, o disco busca refer\u00eancias em uma obra do fil\u00f3sofo S\u00f8ren Kierkegaard, bem como no filme *Orfeu Negro* e tra\u00e7a uma sa\u00edda tangencial para muitos roteiros sedimentados pela banda ao longo do tempo.\r\n\r\nPrimeiramente, *Reflektor* sugere o Arcade Fire desinteressado em usar explicitamente a for\u00e7a de sua m\u00fasica em prol de ideais (como a habitual como\u00e7\u00e3o com a realidade haitiana), embora ainda haja refer\u00eancias, principalmente est\u00e9ticas, no disco. Eles soam indiferentes ao ex\u00e9rcito musical que foram outrora, optando por um posicionamento distante e c\u00ednico, menos incisivo nas letras e acobertado pela frigidez usual da linguagem da m\u00fasica eletr\u00f4nica, apesar do disco apenas tomar emprestado alguns aspectos do g\u00eanero. Embora pregui\u00e7osamente abordados por f\u00e3s e cr\u00edticos como um disco baseado em dance music, *Reflektor* est\u00e1 muito mais para world music onde as longas faixas n\u00e3o se situam nos espectros explorados anteriormente pela banda e avan\u00e7am por \u00e1reas mais intrincadas e imprevis\u00edveis. A op\u00e7\u00e3o por faixas longas lhes concedeu a quebra com a sua habitual linguagem direta, criando uma conota\u00e7\u00e3o \u00e9bria onde predominam ritmos e climas que tomam o primeiro plano e conduzem as m\u00fasicas, sugerindo influ\u00eancias de *dub* e *trance*. Essa abordagem fica bem clara em *Flashbulb Eyes* e *Here Comes The Night Time* onde a World Music \u00e9 celebrada indiscriminadamente. Um pouco de rock sessentista, de jaqueta de couro, \u00e9 explorado em *Normal Person* e *You Already Know*, esta \u00faltima, com uma pegada que remete a Stray Cats. E em *Joan Of Arc* eles reafirmam que a concis\u00e3o n\u00e3o tem vez ao ensaiarem ecos de punk rock para rapidamente se dispersarem em um *indie rock* bem menos objetivo, novamente dando espa\u00e7o para que a faixa cres\u00e7a sem pressa e compromisso, arrependidos do ensejo rebelde que se manifestou a instantes atr\u00e1s.\r\n\r\n*Reflektor* \u00e9 dividido em duas partes e, embora se presumisse que o ingresso na segunda etapa apresentasse algum tipo de virada ou retomada de um Arcade Fire de outrora, a banda mant\u00e9m a op\u00e7\u00e3o por composi\u00e7\u00f5es esparsas e clim\u00e1ticas, fazendo das duas fases um \u00fanico conglomerado musical. Entretanto, se na segunda parte h\u00e1 provavelmente a faixa mais fraca e enfadonha gravada nos quatro discos da banda (*Awful Sound (Oh Eurydice)*, t\u00edtulo conveniente, por sinal), est\u00e3o ali pelo menos duas m\u00fasicas capazes de \u0022salvar\u0022 o \u00e1lbum para quem esperava material alinhado com *The Suburbs*: *It\u0027s Never Over (Hey Orpheus)* aposta nas eletr\u00f4nicas dan\u00e7antes oitentistas combinadas com guitarras cheias de pegada e vocais em un\u00edssono, meio que restaurando a abordagem visceral que tanto se preza na banda. \u003CAfterlife*, por sua vez, \u00e9 a faixa que nunca falta nos \u00e1lbuns do coletivo, com ares \u00e9picos e derradeiros, meio que uma exce\u00e7\u00e3o para redimir o disco de todos os riscos assumidos.\r\n\r\n*Refletor* \u00e9 o trabalho mais desafiador do Arcade Fire por quebrar muitos par\u00e2metros constru\u00eddos ao longo do tempo, respons\u00e1veis pela sua celebra\u00e7\u00e3o e culto. \u00c9 meio que uma daquelas brincadeiras de golpear um canivete entre os cinco dedos sem atingi-los e embora quaisquer iniciativas de guinar pela tangente em discografias de bandas sejam sempre bem-vindas, \u00e0s vezes as inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o correspondem ao \u00edndice de satisfa\u00e7\u00e3o que se teria caso a banda tivesse optado por ser menos desbravadora. S\u00e3o riscos que fizeram do \u00e1lbum o ponto menos obrigat\u00f3rio da discografia da banda, com o qual tende-se a permanecer enamorado por bem menos tempo. Sua extens\u00e3o pouco objetiva e repleta de necessidades de encher o conte\u00fado com ideias e sons vol\u00e1teis fazem da audi\u00e7\u00e3o uma experi\u00eancia exaustiva e por vezes pouco assertiva. Talvez seja essa a raz\u00e3o pela \u0022t\u00edmida\u0022 repercuss\u00e3o no final de 2013, enquanto minha encomenda amontoava poeira em algum galp\u00e3o dos Correios.\r\n\r\n\r\n**Slint** : *Spiderland* (1991)\r\n\r\n\u00c9 uma obviedade exaltar em pleno 2014 mas o an\u00fancio de uma reedi\u00e7\u00e3o em formato de caixa resgatando o disco, demos, um document\u00e1rio e mais alguns itens revigoraram o ent\u00e3o inerte cl\u00e1ssico e suas recentes audi\u00e7\u00f5es me fizeram sucumbir ao *preorder*, o que promete muitas emo\u00e7\u00f5es num futuro pr\u00f3ximo (principalmente a partir do momento que a Touch \u0026 Go remeter o pacote at\u00e9 o ponto em que chegar por aqui - oremos).\r\n\r\n*Spiderland* \u00e9 diferenciado j\u00e1 nos primeiros momentos de *Breadcrumb Trail*, instiga a aten\u00e7\u00e3o e embora tenha sido al\u00e7ado ao posto de disco referencial do post rock, classific\u00e1-lo em um determinado g\u00eanero \u00e9 quase criminoso, mesmo que grande parte das bandas do post rock tenham sugado litros desta fonte. \u00c9 uma obra que se isola em si mesma, como s\u00e3o muitos dos grandes discos, e n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel enfileira-la junto a outras candidatas, nem mesmo ao disco anterior da banda. Sempre soou como um \u00e1lbum cuja efic\u00e1cia depende de clima: voc\u00ea pode escut\u00e1-lo num determinado dia e celebrar cada segundo de seu brilho claustrof\u00f3bico mas, no dia seguinte, retom\u00e1-lo e perguntar-se onde foi parar todo o \u00eaxtase testemunhado no dia anterior. E esse \u00e9 um de seus pontos m\u00e1gicos, cabe ao ouvinte encontrar a brecha, o portal para mergulhar naquelas \u00e1guas obscuras estampadas em sua capa.\r\n\r\nSuas seis faixas se complementam num emaranhado nebuloso, econ\u00f4micos por\u00e9m providenciais vocais, timbres fant\u00e1sticos e ciclos r\u00edtmicos que incansavelmente parecem vagar em busca de algo que nunca ser\u00e1 encontrado. *Spiderland* soa como uma obra lentamente constru\u00edda e tra\u00e7ada a duras penas por artistas sobreviventes de uma longa trajet\u00f3ria. Entretanto, como revela o trailer do document\u00e1rio que acompanha a vindoura reedi\u00e7\u00e3o, algumas das m\u00fasicas foram compostas por um Slint ainda p\u00fabere, no por\u00e3o da casa dos pais de algum deles, provavelmente durante as tardes onde eles deveriam estar estudando para uma prova de matem\u00e1tica. \u00c9 no m\u00ednimo ir\u00f4nico que poucos vest\u00edgios de adolesc\u00eancia tenham se refletido no \u00e1lbum e que essa conjuntura derrube a m\u00edtica de que um disco como este s\u00f3 possa ser concebido a partir de um h\u00e1bil e experiente compositor que sentiu na pele as agruras de uma vida errante. Ao contr\u00e1rio, ele sugere que assim como nos esportes, alguns triunfos musicais s\u00e3o diretamente ligados \u00e0 combina\u00e7\u00e3o de talento inato dos compositores com o fator fortuito de uma determinada ocasi\u00e3o no tempo. Os caras certos na hora certa.\r\n\r\nMais intrigante \u00e9 o fato do Slint ter sucumbido ali adiante e nunca ter consolidado uma poss\u00edvel sequ\u00eancia a esta p\u00e9rola, o que talvez fa\u00e7a de *Spiderland* algo ainda mais especial, \u00fanico. Fica a impress\u00e3o de que as coisas foram como foram para culminar nessas seis m\u00fasicas, assim como *Loveless* parecia ser at\u00e9 o ano passado. Mas a exemplo dos irlandeses, que recome\u00e7aram a partir de turn\u00eas de reuni\u00e3o, os norte-americanos se reencontraram em alguns palcos e tiveram sua obra reverenciada por toda uma gera\u00e7\u00e3o que mant\u00e9m *Spiderland* em sua cole\u00e7\u00e3o de cabeceira. E, como \u00e9 poss\u00edvel visualizar nos v\u00eddeos dessas turn\u00eas, os urros derradeiros de \u0022I\u0027m Sorry\u0022 proferidos pela plateia durante a fat\u00eddica *Good Morning Captain* abastecem prerrogativas para que a banda entenda a for\u00e7a de sua obra-prima e, eventualmente, considere novos v\u00f4os, mesmo que desprovidos do sangue juvenil que pulsava disfar\u00e7adamente no long\u00ednquo 1991.\r\n\r\n**Sunn O))) \u0026 Ulver** : *Terrestrials* (2014)\r\n\r\nTanto o Sunn O))) quanto o Ulver t\u00eam alguns fatores em comum que justificariam o burburinho proveniente do grupo de potenciais interessados quando *Terrestrials* foi anunciado. Ambas bandas apresentam ra\u00edzes solidificadas no metal que com o passar dos anos enveredaram para o experimentalismo, desfigurando-as ao ponto de ganharem conceitos vanguardistas e sofisticados. Al\u00e9m disso, as duas nutrem uma esfera significativa de f\u00e3s que as acompanham fielmente e disputam a tapas seus lan\u00e7amentos limitados, al\u00e9m de promoverem seus trabalhos de modo que atinjam com naturalidade outras esferas de ouvintes. Entretanto, nem mesmo essas otimistas prerrogativas de c\u00edrculos de interesse convergiram para a repercuss\u00e3o real que o am\u00e1lgama atingiu desde que foi disponibilizado em *preorder* pela Southern Lord: trata-se do disco que mais rapidamente se esgotou na hist\u00f3ria do selo. Paralelamente, a repercuss\u00e3o em blogs musicais foi digna de nota, com incensados reviews que exaltaram o disco como candidato a destaque no ainda prematuro 2014.\r\n\r\nOs ouvintes j\u00e1 tinham o que consideravam uma pr\u00e9via da parceria, *CutWOODed*, uma faixa que n\u00e3o entrou nos discos brancos do Sunn O))) e acabou servindo de b\u00f4nus para um box limitado editado em 2006. A faixa soa como um *remix* de alguma sobra de est\u00fadio da dupla desvirtuada ao extremo pelo Ulver, por\u00e9m ainda dentro da linguagem que representava o Sunn O))) naquela era. Se algo podia ser esperado, era que a parceria entre as duas bandas girariam em torno de dois pontos: a oportunidade de presenci\u00e1-los atuando como um \u00fanico ente (superando a iniciativa de *CutWOODed*) e a retomada do universo mais sombrio que as bandas um dia representaram. Mas *Terrestrials* \u00e9 um tanto frustrante quanto a esta abordagem, pois peca em n\u00e3o transmitir uma contribui\u00e7\u00e3o equilibrada dos entes e tampouco ingressar em terrenos c\u00e1usticos que fariam da parceria uma experi\u00eancia a altura das perspectivas.\r\n\r\n Com os reviews surgiram algumas entrevistas com Stephen O\u0027Malley que clarificam um pouco o processo de composi\u00e7\u00e3o e concretiza\u00e7\u00e3o da obra e ajudam a explicar essa diverg\u00eancia entre premissas e o produto final. Segundo ele, as grava\u00e7\u00f5es que ocorreram em uma noite com todos os integrantes foram maturadas ao longo de alguns anos, onde o n\u00facleo inicial n\u00e3o esteve plenamente presente (Greg Anderson, por exemplo, participou apenas dos registros iniciais) e ficou a cargo do Ulver trabalhar os mixes a partir do material bruto. O\u0027Malley participaria de circunst\u00e2ncias seguintes do projeto, prestando consultoria e registros adicionais ao *mix*. Se houve unicidade a partir do momento inicial, ela foi muito mais em termos da preocupa\u00e7\u00e3o de O\u0027Malley, representando a por\u00e7\u00e3o Sunn O))), de estar fisicamente presente nos passos seguintes do que de instigar *Terrestrials* a ser forjado dentro de uma linha equilibrada. O produto final acaba muito mais relacionado com o Ulver do que com o Sunn O))). A sonoridade pomposa e orquestrada dos n\u00f3rdicos est\u00e1 l\u00e1 em primeiro plano, conduzindo os caminhos musicais e sugerindo que as question\u00e1veis paredes de guitarras, se estiverem presentes, estejam soterradas no *mix* de sopros, orquestras e eletr\u00f4nica. Fica proeminente a ideia de que o Ulver estava com as tr\u00eas faixas compostas antes dos norte-americanos ingressarem, embora seja poss\u00edvel tamb\u00e9m que o Sunn O))), por sua natureza flex\u00edvel, tenha contribu\u00eddo com instrumentos que n\u00e3o os caracterizam e a\u00ed ter\u00edamos um influxo muito maior de O\u0027Malley do que de Anderson, musical e esteticamente. \r\n\r\n*Terrestrials* seria mais coerente se tivesse sido lan\u00e7ado como um disco do Ulver ou um projeto com Stephen O\u0027Malley em seu selo Ideologic Organ. A m\u00fasica ali representa muito melhor essa abordagem, a exemplo dos remixes que o Nurse With Wound produziu para o Sunn O))) em 2007. Por mais que o Sunn O))) tenha se desvencilhado de r\u00f3tulos no decorrer de sua trajet\u00f3ria, \u00e9 dif\u00edcil escutar o disco e encontrar tra\u00e7os fortes de genuinidade, mesmo que as bandas possam estar plenamente em sintonia com o processo e o \u00e1lbum representar exatamente a face de ambas naquele per\u00edodo de tempo. Reuni\u00f5es pontuais de grandes m\u00fasicos costumam frustrar expectativas e se apoiar sobre conceitos ao inv\u00e9s de conte\u00fado e n\u00e3o foi dessa vez que essa regra foi superada.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":538,"title":"Poster: Queens of the Stone Age","post_timestamp":"2014-02-11T16:39:55+00:00","url":"2014_02_11_poster_queens_of_the_stone_age","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Criado por [Neal Williams](http:\/\/epicproblems.com) e copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.com.br\/2014\/02\/queens-of-stone-age-neal-williams-Posters-Columbia-El-Paso-Jacksonville.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Bem, no cemit\u00e9rio onde ele est\u00e1 enterrado em Paris sempre tem quatro ou cinco fumando uma erva ou dividindo uma garrafa de vinho em sua homenagem, mas em Paris voc\u00ea v\u00ea de tudo, ent\u00e3o n\u00e3o conta. Nos EUA n\u00e3o sei como \u00e9, mas tenho a impress\u00e3o de ser um pa\u00eds (assim como muitos outros) cada vez mais anestesiado pelo capitalismo selvagem e sua ciranda de futilidades, onde a hostilidade do substrato conservador religioso da sociedade acaba colaborando tamb\u00e9m para o silenciamento de comportamentos desviantes que n\u00e3o sejam convenientes ao status quo, de modo que uma figura como Morrison (um dos primeiros grandes artistas a criticar a sanha militar americana) n\u00e3o deve mais encontrar muita boa vontade sempre que \u00e9 sugerida sua rever\u00eancia, tornando-se pouco a pouco apenas um \u00edcone exc\u00eantrico do passado, sem reverbera\u00e7\u00e3o no presente. De resto, pelas minhas andan\u00e7as mundo afora, eu o vejo ocasionalmente na camiseta de ex-hippies ou f\u00e3s de m\u00fasica pr\u00e9-internet, mas poucos demais para assegurar que ele v\u00e1 seguir vivo por mais algum tempo... A quest\u00e3o \u00e9 que, na minha opini\u00e3o, o mito estaria vivo se o seu legado estivesse sendo transmitido, e n\u00e3o apenas sobrevivendo debilmente na mem\u00f3ria de quem j\u00e1 tem mais de 50 anos. Pode-se at\u00e9 argumentar que tamb\u00e9m na camiseta de alguns jovens \u00e9 poss\u00edvel encontr\u00e1-lo de vez em quando, mas a\u00ed voc\u00ea olha para o garoto ou garota por inteiro e o entusiasmo de ver uma camiseta do Doors se torna melancolia com a constata\u00e7\u00e3o de que se trata de algu\u00e9m que seguramente n\u00e3o faz a m\u00ednima do que \u00e9 aquilo estampado em sua roupa. Ali\u00e1s, virou moda usar camisetas de bandas de rock, \u00e9 isso? J\u00e1 vi senhoras usando camisetas do Ramones, pe\u00e7as coloridas com o emblema do Ramones prateado (na primeira vez, espantado, me perguntei se n\u00e3o seria aquela a forma que uma m\u00e3e muito espirituosa encontrou de se desculpar com o filho pelas muitas broncas que ela deu nele, no passado, enquanto ele ouvia *Sheena Is a Punk Rocker* alto em seu quarto, desculpas que ela sentimentalmente julga necess\u00e1rias agora que o filho se tornou adulto e deixou a casa da fam\u00edlia e ela sente falta de sua presen\u00e7a e at\u00e9 mesmo do som alto, como afinal acontece com todas as m\u00e3es). E vi tamb\u00e9m, dia desses, uma camiseta legal do pr\u00f3prio Doors numa loja de shopping center que, pelo visto, embarcou nessa \u0022tend\u00eancia\u0022, e eu n\u00e3o me importaria de compr\u00e1-la, at\u00e9 que vi o pre\u00e7o: R$ 89,00. O roteiro \u00e9 simples e previs\u00edvel: o mito verdadeiro, para al\u00e9m de sua silhueta, morreu ou est\u00e1 morrendo, mas as tend\u00eancias da moda, a adora\u00e7\u00e3o por rostos jovens e bonitos, os shoppings e a multid\u00e3o de consumidores que vive escrava dessa l\u00f3gica podem fazer com que alguns incautos achem que n\u00e3o, cegos para o fato \u00f3bvio: a apropria\u00e7\u00e3o da figura altamente fotog\u00eanica de Jim pelo mercado. Pois como poderia estar vivo, em alguma medida mais ampla e realista nesses dias atuais, o esp\u00edrito de algu\u00e9m que praticamente bebeu at\u00e9 morrer, e nessa curta vida amou alucinadamente a poesia e a filosofia --- algu\u00e9m que tinha como her\u00f3is Nietzsche e Rimbaud! ---, um subversivo que desprezava autoridades e conven\u00e7\u00f5es, que tentava sempre contrariar as expectativas, um beatnik permanentemente intoxicado que fez uma m\u00fasica teatral \u00fanica e aut\u00eantica e perigosa --- algu\u00e9m que era, afinal, um artista genu\u00edno e de voz pr\u00f3pria, e n\u00e3o uma marionete adestrada pelas cartilhas da m\u00eddia e do mercado? Me parece que n\u00e3o h\u00e1 mais muito espa\u00e7o para gente desse tipo, fora dos [nichos rom\u00e2nticos e liter\u00e1rios cada vez menores](http:\/\/charllescampos.blogspot.com.br\/2011\/08\/o-modo-como-vivemos-hoje.html). H\u00e1 no livro \u0022No One Here Gets Out Alive\u0022, biografia de Morrison escrita por Jerry Hopkins e Danny Sugarman, uma passagem (dentre muitas) reveladora: Jim, ainda jovem e desconhecido, fez de tudo para n\u00e3o ter que ir \u00e0 cerim\u00f4nia de formatura escolar, pois detestava aquele tipo de formalidade empolada. Nossa sociedade, j\u00e1 naquele tempo e num processo bastante avan\u00e7ado e totalizante nos dias de hoje, tenta enquadrar todo mundo, tornar a todos engrenagens da mesma m\u00e1quina, consumidores das mesmas coisas, participantes das mesmas redes sociais, espectadores das mesmas cerim\u00f4nias, e qualquer um que negue tudo isso e siga seu pr\u00f3prio caminho \u00e9 logo constrangido de todas as formas. Jim, fosse vivo hoje, seria ainda mais marginal, e sua relev\u00e2ncia seria, no m\u00e1ximo, aquela dos escritores ou poetas que t\u00eam talento mas n\u00e3o est\u00e3o no mainstream art\u00edstico, ou seja, quase nenhuma. S\u00f3 mesmo dessa maneira \u00e9 poss\u00edvel entender essa sua ilus\u00f3ria sobrevida atual: um belo rosto numa camiseta ou numa capa de revista Rolling Stone, uma imagem manipulada e esvaziada de sua ess\u00eancia e conte\u00fado, para o consumo de um p\u00fablico que \u00e9 o oposto do p\u00fablico que o Doors teve em vida. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma outra considera\u00e7\u00e3o a ser feita, e \u00e9 a\u00ed que entra o fato do Doors estar aqui no \u0022Discos do m\u00eas\u0022: venho escutando intensamente a banda nos \u00faltimos dois meses, todos os discos (mas principalmente o *LA Woman* por causa da minha amada *Riders on the Storm*), e n\u00e3o d\u00e1 de negar que a m\u00fasica do Doors n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, nunca foi. Eu a acho \u00f3tima --- e muito em fun\u00e7\u00e3o de sua estranheza --- e ou\u00e7o muitos picos de sublimidade, mas entendo quem a ache esquisita demais e, por isso, veja Jim Morrison com indiferen\u00e7a. Enfim, \u00e9 compreens\u00edvel que Morrison n\u00e3o seja uma unanimidade e que sua m\u00fasica e sua poesia sejam alvo de cr\u00edticas, como afinal todas o s\u00e3o; o que \u00e9 verdadeiramente lament\u00e1vel \u00e9 a profana\u00e7\u00e3o de seu t\u00famulo com o intuito de integr\u00e1-lo ao arsenal de t\u00e9cnicas para fazer dinheiro do mundo contempor\u00e2neo, e tamb\u00e9m saber que isso s\u00f3 acontece porque as circunst\u00e2ncias atuais s\u00e3o perfeitamente prop\u00edcias. Rimbaud tamb\u00e9m era bonito: n\u00e3o vai demorar para que passemos a ver madames que nunca leram um livro na vida e adolescentes que passam seus dias no shopping center trajando camisetas com o rosto do poeta franc\u00eas estampado.\r\n\r\n(Como o texto acima ficou bem maior do que o normal, citarei bem brevemente mais algumas coisas que andei ouvindo por aqui:)\r\n\r\n**Elbow: Dead in the Boot**\r\n\r\nDemorei um bocado para ouvir, e quando ouvi, me surpreendi e gostei muito. A supresa n\u00e3o \u00e9 por esperar pouca coisa do Elbow (de quem sempre espero muito), mas sim pelo fato de se tratar de um disco de b-sides. \u00c9 uma bela compila\u00e7\u00e3o de faixas, em sua maioria, compassadas e atmosf\u00e9ricas, que poderiam perfeitamente estar nos discos principais. A expectativa para o novo disco, que sai agora em mar\u00e7o, s\u00f3 aumentou.\r\n\r\n**Led Zeppelin: Physical Graffiti**\r\n\r\nO melhor lado de um disco de todos os tempos? Me refiro ao lado A do disco 2: dif\u00edcil competir com *In the Light*, *Bron-Yr-Aur*, *Down by the Seaside* e *Ten Years Gone*. Poderes quim\u00e9ricos concentrad\u00edssimos aqui para fazer qualquer um viajar sem sair de casa, sem sequer sair do lugar.\r\n\r\n**Coffins: The Fleshland**\r\n\r\nA crian\u00e7a em mim, pelo visto, n\u00e3o vai morrer nunca. As guitarras de *Here Comes Perdition*, faixa de abertura do *The Fleshland* (d\u00e1 de ouvir o disco todo [aqui](http:\/\/coffins.bandcamp.com\/album\/the-fleshland)), do Coffins, me d\u00e3o certeza absoluta disso. A alegria em ouvir essas coisas s\u00f3 pode ser explicada nesses termos...","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":535,"title":"Janeiro \/ 2014","post_timestamp":"2014-01-31T20:52:03+00:00","url":"2014_01_31_janeiro_2014","post":"**Have A Nice Life** : *Deathconsciousness* (2008)\r\n\r\nInternet tem dessas coisas de voc\u00ea conhecer uma banda relevante de uma hora para outra. Normalmente isso ocorre com bandas novas que est\u00e3o lan\u00e7ando seu trabalhos mas \u00e0s vezes voc\u00ea \u00e9 apresentado a discos que j\u00e1 est\u00e3o a\u00ed \u0022mudando vidas\u0022 h\u00e1 alguns anos. \u00c9 o caso de *Deathconsciousness*, que conheci no final do ano passado quando foi liberada a *preorder* do disco recente deles, *The Unnatural World*. Enquanto o disco novo n\u00e3o vazava, fui atr\u00e1s do t\u00e3o estimado debut, de 2008, de onde provinham coment\u00e1rios nada menos do que fant\u00e1sticos a respeito. E n\u00e3o houve como n\u00e3o me penitenciar por n\u00e3o conhec\u00ea-lo antes.\r\n\r\n*Deathconsciousness* \u00e9 um disco feito por dois caras que gostam mais ou menos das mesmas bandas que eu e fizeram um disco que eu provavelmente tentaria fazer dentro desse contexto, se tivesse uma banda. O disco parte de uma estrutura um razoavelmente simpl\u00f3ria de constru\u00e7\u00e3o, onde \u00e9 onipresente o *feeling* de que tudo foi feito com poucos recursos atrav\u00e9s de quatro m\u00e3os. O interessante \u00e9 que o resultado tem ares gloriosos que transcendem essas \u0022restri\u00e7\u00f5es\u0022 e por consequ\u00eancia, transpira honestidade, o que deixa o ouvinte muito pr\u00f3ximo para se corresponder com a obra. Embora o *shoegazing* prevale\u00e7a, a combina\u00e7\u00e3o sonora envolve *drone*, *post rock* e metal. Esses elementos sustentam uma tem\u00e1tica onde convivem pretens\u00e3o e ingenuidade e que fatalmente eclodem em melancolia e trevas. Quem se interessa por desilus\u00e3o sonora encontra no disco um prato cheio: desde o ritmo arrastado e envolvente de *Bloodhail* at\u00e9 a decad\u00eancia total de *I Don\u0027t Love*. Apenas em *Earthmover*, que fecha o disco, o duo deixa um gostinho de reden\u00e7\u00e3o. \r\n\r\nInfelizmente (ou n\u00e3o), *Deathconsciousness* s\u00f3 pode ser ouvido via MP3 pois as vers\u00f5es f\u00edsicas em vinil e CD esgotaram rapidamente, bem como suas reedi\u00e7\u00f5es. Ambas foram lan\u00e7adas pelo selo da banda com grande esmero (um volumoso livro as acompanham, cabe citar) e na melhor pol\u00edtica *do it yourself*. Entretanto, o selo que lan\u00e7ou o disco mais recente deles tem planos de reeditar *Deathconsciousness* em 2014, o que cria um horizonte perfeito para valorizar nossas cole\u00e7\u00f5es.\r\n\r\n\r\n**Sunn O)))** : *LA Reh 12* (2014)\r\n\r\nSegundo cap\u00edtulo da s\u00e9rie de ensaios onde a dupla desfere toneladas de riffs e reacende a chama que os trouxe \u00e0 Terra em *The Grimmrobe Demos*. \u00c9 o contraponto com a esperada colabora\u00e7\u00e3o com os escandinavos do Ulver em que eles voltam-se para uma abordagem \u0022refinada\u0022, pouco relacionada com o que os seus ouvintes menos (n\u00e3o curto esse termo, mas v\u00e1 l\u00e1) *ecl\u00e9ticos* tolerariam. Mas *LA Reh 12* \u00e9 para quem quer mais doses do combo *guitarras + amplificadores*, com direito a intromiss\u00e3o de samplers de uma multid\u00e3o desesperada em desencanto, dando ares decadentes ao registro. Parece f\u00e1cil, mas eles continuam mestres na arte de criar camadas malignas de riffs para voc\u00ea meditar.\r\n\r\n\r\n**My Bloody Valentine** : *Loveless* (1991)\r\n\r\nVou me privar de comentar a respeito do conte\u00fado do \u00e1lbum, j\u00e1 o fiz in\u00fameras vezes e acho que tem resenha minha aqui na DD dedicada a ele. Mas acho que cabe citar, de passagem, que esse disco insiste em dar as caras, \u00e9 um ref\u00fagio. T\u00f4 sempre tentando me convencer que j\u00e1 me acostumei com as batidas de *I Only Said*, com a hipnose de *To Here Knows When* ou que sei exatamente quantas guitarras foram gravadas e como elas s\u00e3o combinadas em *What You Want*. Mas no final eu sempre concluo que estou equivocado e tenho que ouvir tudo novamente.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":532,"title":"O futuro de acordo com Ray Manzarek","post_timestamp":"2014-01-22T17:08:54+00:00","url":"2014_01_22_o_futuro_de_acordo_com_ray_manzarek","post":"\u003Ciframe width=\u0022520\u0022 height=\u0022390\u0022 src=\u0022\/\/www.youtube.com\/embed\/uzJW9zEgGf8\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\nEsse v\u00eddeo com recortes de entrevistas do Doors tem um trecho muito engra\u00e7ado. Ali por volta dos 1:25, Ray responde a uma pergunta dizendo que no futuro os artistas mais talentosos ser\u00e3o tamb\u00e9m os de maior sucesso comercial. O que me leva a considerar duas possibilidades: ou Ray Manzarek foi realmente um grande vidente sobre tudo que aconteceria, com o capricho c\u00f4mico de antever as coisas todas ao contr\u00e1rio (bastando ent\u00e3o inverter o que ele dizia para saber realmente como seria o futuro), ou ent\u00e3o ele se referia ao glorioso ano de 4.859.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":529,"title":"2013","post_timestamp":"2014-01-10T18:37:37+00:00","url":"2014_01_10_2013","post":"Sem grandes coment\u00e1rios, talvez seja adequado frisar que 2013 foi marcado pela maior inviabilidade de se investir em discos, seja pelo acirramento do trabalho da Receita ou pelo aumento consider\u00e1vel do custo de frete promovido pela USPS no in\u00edcio do ano passado. Se por um lado foi desanimador (foi), por outro obrigou-me a apurar meu instinto de sele\u00e7\u00e3o, bem como de certa forma reviver as \u00e9pocas em que eu me relacionava com meus discos de forma mais prolongada.\r\n\r\n\r\nGOG : *Ironworks* (Utech)\r\n\r\nUm \u0022epit\u00e1fio para a morte do sonho americano\u0022. Sua capa exibe um monolito negro na \u00e1rdua busca por destaque sobre a plena escurid\u00e3o na qual est\u00e1 imobilizado, numa perfeita correspond\u00eancia entre som e imagem que somente um formato como o vinil nos oportuniza. Criado a partir de registros sonoros captados na antiga ferraria de sua fam\u00edlia, Michael Bjella ultrapassa os limites de brutas paredes sonoras e se inebria em texturas que remetem \u00e0 aridez interiorana castigada pelo sol e esquecida no tempo. Entrela\u00e7am-se elementos naturais como manipula\u00e7\u00e3o de metais e ru\u00eddos de ferramentas com a disposi\u00e7\u00e3o de bases obscuras e imut\u00e1veis, combinadas atrav\u00e9s de todo o tipo de manipula\u00e7\u00e3o sonora. O ouvinte adentra o \u00e1lbum com alguma expectativa de contornos e resolu\u00e7\u00f5es \u00e0 medida que a trama se sucede mas invariavelmente conclui que a decad\u00eancia est\u00e1 por todos os lados estabelecendo-se como o tom e destino onipresente.\r\n\r\n\r\nMy Bloody Valentine : *m b v* (MBV)\r\n\r\nUm raro caso onde uma banda cult retorna de um infinito hiato sem avisos, *press releases*, longas entrevistas ou jogadas de marketing. Eu, voc\u00ea, o cr\u00edtico musical e os milhares de integrantes de bandas de shoegaze simplesmente acordamos dia 02 de Fevereiro aptos a comprar um novo, in\u00e9dito disco do My Bloody Valentine. Butcher, Shields, O\u0027Ciosoig e Googe superaram-se em todos os sentidos, lan\u00e7ando um trabalho que ao mesmo tempo reacende praticamente todas as abordagens sonoras da discografia pregressa e at\u00e9 mesmo as contribui\u00e7\u00f5es mais recentes (ou menos antigas) de Shields para o Primal Scream. Atendem a todas as expectativas: dos que queriam mais doses da indefectibilidade do quarteto at\u00e9 quem esperava um passo al\u00e9m de *Loveless*. \u00c9 um disco que ao inv\u00e9s de apresentar uma s\u00e9rie de grandes momentos, torna-se uma homog\u00eanea massa sonora cuja qualidade se aprecia do come\u00e7o ao fim e atesta a import\u00e2ncia de uma banda como esta manter-se criativa, revigorando o status quo musical que temos por a\u00ed.\r\n\r\n\r\nWild Nothing : *Empty Estate* (Captured Tracks)\r\n\r\nDesde seu primeiro \u00e1lbum, uma fita demo gravada no dormit\u00f3rio de Jack Tatum, o Wild Nothing apresentou in\u00fameras qualidades que o destacavam entre as bandas do selo nova-iorquino Captured Tracks. O trabalho seguinte, *Nocturne*, abriu m\u00e3o de m\u00fasicas que remetiam \u00e0 inoc\u00eancia de se fazer m\u00fasica calcada em influ\u00eancias sem qualquer expectativa de acomodar anseios para adentrar um est\u00fadio e apresentar faixas notoriamente imbu\u00eddas de reconstruir a m\u00fasica dos anos 80. O EP *Empty Estate* parte desse \u00faltimo princ\u00edpio apoderando-se de influ\u00eancias mais referenciais como os massivos sintetizadores que remetem a Brian Eno, o que potencializou o som e deixou um sabor de que eles sabiam o que faziam e onde poderiam chegar. *Empty Estate* \u00e9 interessante, principalmente, por ainda conseguir transmitir a imagem de que se faz m\u00fasica livre de conceitos, desprendida, embora comprometida com o que se convencionava como *pop*.\r\n\r\n\r\nOkkyung Lee : *Ghil* (Ideologic Organ)\r\n\r\nDiscos capazes de subverter conceitos e flertar com estilos aparentemente sem rela\u00e7\u00e3o com seus compositores s\u00e3o sempre interessantes. Assim como o Phurpa com seus exerc\u00edcios vocais aproxima-se do drone \u0022pesado\u0022 (ou causa o mesmo tipo de repercuss\u00e3o sensorial), a violoncelista Okkyung Lee alcan\u00e7a a obscuridade e a rispidez comuns a discos de metal e noise, embora por meios t\u00e3o estranhos a esses g\u00eaneros e n\u00e3o necessariamente imbu\u00edda de tal objetivo. Registrada por um dos midas do noise, Lasse Marhaug, Lee destrincha as possibilidades de seu instrumento e transita por sonoridades \u00edmpares, sempre soando interessante, despertando a expectativa do ouvinte pela pr\u00f3xima manobra ou sentimento de viol\u00eancia e opress\u00e3o. Consta no *release* que n\u00e3o houve manipula\u00e7\u00e3o sonora seguinte aos registros, o que seria de se esperar de Marhaug, e isso torna o trabalho de Lee em *Ghil* ainda mais surpreendente.\r\n\r\n\r\nWhirr : *Around* (Graveface)\r\n\r\nO grande disco do Whirr (que era Whirl mas teve que mudar o nome por for\u00e7as maiores \u2013 seria culpa do Corgan?) \u00e9 o seu EP de estreia, *Distressor*, uma verdadeira ode ao exerc\u00edcio de empilhar guitarras e amplificadores testando os limites dos equipamentos e dos protetores auriculares do p\u00fablico. Naquele disco a banda n\u00e3o s\u00f3 definia sua cara como unia a magnitude de uma massa sonora levada ao extremo com a sublime leviandade que apenas os jovens t\u00eam. De *Distressor* para *Around* o Whirr puxou um pouco o freio, conteve os impulsos mais imediatos e ingressou num mantra onde a tarefa \u00e9 soar mais s\u00e9rio e compenetrado, por consequ\u00eancia mais \u0022adulto\u0022. Seu som tornou-se Irremediavelmente lento e introspectivo, \u00e0s vezes deixando um pouco de saudade da inquietude do debut. Entretanto, o efeito de uma massiva carga de guitarras e distor\u00e7\u00f5es disputando espa\u00e7o com vocais e melodias angelicais (e normalmente vencendo a disputa) recorre a uma f\u00f3rmula quase infal\u00edvel, onde o ouvinte delicia-se com a dualidade brutal-inocente onipresente. H\u00e1 algum fator imerso na sonoridade da banda que a destaca entre milhares de moleques guitarreiros.\r\n\r\n\r\nTrepaneringsritualen : *The Totality Of Death* (Silken Tofu \/ Malignant)\r\n\r\nO projeto de Thomas Martin Ekelund j\u00e1 havia figurado na vers\u00e3o 2012 desta lista, com o infal\u00edvel *Deathward, To The Womb*. Seu trabalho n\u00e3o seguiu grandes passos durante 2013, quando resumiu-se em participa\u00e7\u00f5es isoladas em compila\u00e7\u00f5es e edi\u00e7\u00e3o de cassetes limitados. Mas a colet\u00e2nea *The Totality Of Death* veio muito bem a calhar: os dois CDs re\u00fanem composi\u00e7\u00f5es dos principais \u00e1lbuns de Thomas, bem como faixas de itens limitados e algumas m\u00fasicas in\u00e9ditas. O conjunto reafirma o dom\u00ednio de Ekelund sobre temas religiosos e m\u00edsticos, sempre envoltos em penumbra e escurid\u00e3o, levantando mantras e transes representativos do fim do universo. Uma \u00f3tima oportunidade para conhecer o projeto e, para os iniciados, tapar alguns buracos da limitada discografia do Trepaneringsritualen.\r\n\r\n\r\nChelsea Wolfe : *Pain Is Beauty* (Sargent House)\r\n\r\nChelsea Wolfe destacou-se gradualmente desde seus primeiros CD-Rs vendidos em turn\u00eas at\u00e9 seu debut, *\u1f08\u03c0\u03bf\u03ba\u03ac\u03bb\u03c5\u03c8\u03b9\u03c2*, quando obteve razo\u00e1vel reconhecimento em webzines primordialmente ligados a m\u00fasica *hype*. O destaque pode enganar o leitor acostumado ao surgimento de novas divas do mundinho alternativo pois Chelsea n\u00e3o est\u00e1 diretamente relacionada com as capas de revista pop: ela insiste em caminhar sobre p\u00e2ntanos lamacentos, mans\u00f5es abandonadas e vulc\u00f5es em princ\u00edpio de ebuli\u00e7\u00e3o. Apoiados em uma est\u00e9tica que remete \u00e0 desola\u00e7\u00e3o de Nico e a obscuridade do heavy metal, seus registros caminham por diversas trilhas e, independente de calcarem-se em sintetizadores, guitarras ou viol\u00f5es ac\u00fasticos, eles invariavelmente sup\u00f5em uma cantora que vaga pela escurid\u00e3o em uma busca infind\u00e1vel por algo perdido. *Pain Is Beauty* resgata um pouco da verve roqueira subjugada pela predomin\u00e2ncia ac\u00fastica de seu disco anterior, por\u00e9m, ela n\u00e3o se furta de usar batidas eletr\u00f4nicas e ritmos quase dan\u00e7antes, tecendo no \u00e1lbum mais uma faceta de seu habitual desencanto.\r\n\r\n \r\n\u00c4\u00c4NIP\u00c4\u00c4 : *Through A Pre-Memory* (Editions Mego)\r\n\r\nM\u00fasicos como Stephen O\u0027Malley, que visitou recentemente o Brasil para um show solo, convivem com a \u00e1rdua tarefa de soarem constantemente relevantes. Ao colaborarem com uma gama t\u00e3o polarizada de m\u00fasicos e bandas, caem invariavelmente no pecado de frustrarem aten\u00e7\u00f5es que circundam cada nova contribui\u00e7\u00e3o, muitas vezes transmitindo uma imagem de que apenas \u0022cumpriam tabela\u0022 ou \u0022entraram com o nome\u0022. Embora celebrado por Ensemble Pearl, seu recente grupo-projeto psicod\u00e9lico que remete ao rock japon\u00eas, foi em \u00c4\u00c4NIP\u00c4\u00c4 - uma colabora\u00e7\u00e3o com Mika Vainio (do Pansonic), que O\u0027Malley resgatou o alto n\u00edvel de imers\u00e3o e relev\u00e2ncia a que seu nome remete. Dividido em quatro partes, *Through A Pre-Memory* revisita praticamente todas as bandeiras pelas quais \u00e9 comumente incensado: Khanate, KTL e, l\u00f3gico, Sunn O))). Baseado nessas abordagens, o disco recebe enxurradas de eletr\u00f4nicas de Vainio, massivamente despejadas em fun\u00e7\u00e3o da perfeita sinergia entre os dois. Nada \u00e9 gratuito e nada \u00e9 descart\u00e1vel: desde os versos desencantados de Alan Dubin, passando pelas contribui\u00e7\u00f5es eruditas\/m\u00edsticas de Eyvind Kang e revisitando influ\u00eancias como Keiji Haino e Fushitsusha. \r\n\r\n\r\nGostaria de ter comentado sobre o novo Arcade Fire mas a Receita n\u00e3o liberou meus LPs at\u00e9 a data dessa publica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o recorri a MP3s, s\u00f3 de birra. Ainda dentro do conjunto de bandas que \u0022mesmo quando n\u00e3o \u00e9 o bicho, \u00e9 bom\u0022, o Queens Of The Stone Age lan\u00e7ou um cap\u00edtulo com ares grandiosos em sua discografia com convidados cujas contribui\u00e7\u00f5es foram inversamente proporcionais a seus curr\u00edculos. \u00c9 bom mas n\u00e3o o suficiente para figurar na lista: queremos que o Josh passe a adotar o cl\u00e1ssico mantra de \u0022menos \u00e9 mais\u0022 se houver um pr\u00f3ximo \u00e1lbum. *Sunbather* do Deafheaven emplacou v\u00e1rias listas de metal mas os r\u00f3tulos dos releases e cr\u00edticas s\u00e3o muito melhores do que o conte\u00fado de fato: nada muito diferente do que as bandas de black metal americanas fazem e os vocais for\u00e7am demais a barra quando combinados com os arranjos mel\u00f3dicos do disco. A como\u00e7\u00e3o coletiva em seu entorno deve ser efeito dessa necessidade insaci\u00e1vel de se encontrar relev\u00e2ncia em meio \u00e0 mir\u00edade que se tornou a m\u00fasica nessa era.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":526,"title":"Meus discos preferidos de 2013","post_timestamp":"2013-12-30T16:18:27+00:00","url":"2013_12_30_meus_discos_preferidos_de_2013","post":"**Kylesa: Ultraviolet**\r\n\r\n**Black Coffins: III. Graveyard Incantation EP**\r\n\r\nQuando 2013 come\u00e7ou, eu estava ouvindo quase que exclusivamente metal. Sobre o Kylesa, escrevi alguma coisa [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_08_01_discos_do_mes_julho_de_2013) e [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_07_05_discos_do_mes_junho_de_2013); sobre o Black Coffins, basta dizer que o disco que eu mais ouvi esse ano foi provavelmente este fant\u00e1stico *III. Graveyard Incantation*. Infelizmente n\u00e3o d\u00e1 de confirmar essa estat\u00edstica l\u00e1 no Last.fm porque o agrupamento por \u00e1lbuns vai somando a quantidade de faixas de cada \u00e1lbum, ao inv\u00e9s de contar uma unidade para cada audi\u00e7\u00e3o de um \u00e1lbum, de forma que l\u00e1 o EP, que tem s\u00f3 [quatro faixas](http:\/\/theblackcoffins.bandcamp.com\/album\/iii-graveyard-incantation), acaba aparecendo atr\u00e1s de v\u00e1rios LPs... Mas tenho quase certeza que ele leva o t\u00edtulo de mais tocado por aqui em 2013.\r\n \r\n**Bad Religion: True North**\r\n\r\n**Nick Cave and the Bad Seeds: Push the Sky Away**\r\n\r\nAchei esse disco do Bad Religion o melhor lan\u00e7amento da banda desde o *Stranger Than Fiction*, que \u00e9 de 1994, ou seja, o melhor trabalho deles nos \u00faltimos 20 anos. Nessas duas d\u00e9cadas, tudo que a banda gravou me pareceu t\u00e3o dispens\u00e1vel que eu sequer me animei a guardar em mp3 alguns dos \u00e1lbuns... Mas este *True North* foi uma \u00f3tima surpresa. J\u00e1 o Nick Cave junto dos seus Bad Seeds nunca erram, seus discos s\u00e3o sempre \u00f3timos, mas esse *Push the Sky Away* \u00e9 ainda melhor do que os \u00faltimos.\r\n\r\n**Melvins: Tres Cabrones**\r\n\r\nO Melvins lan\u00e7ou dois LPs esse ano, o *Everybody Loves Sausages*, s\u00f3 de covers, e agora em novembro este *Tres Cabrones*. Quando ouvi esse \u00faltimo, me dei conta de que ele \u00e9 praticamente a reuni\u00e3o de v\u00e1rios EPzinhos que a banda soltou nos \u00faltimos tempos, e eu j\u00e1 tinha escutado todos e achado todos sensacionais, de modo que o LP \u00e9, por tabela, sensacional.\r\n\r\n**Russian Circles: Memorial**\r\n\r\nEu j\u00e1 conhecia o Russian Circles, mas a banda n\u00e3o representava nada muito especial para mim, devo ter ouvido umas poucas vezes apenas um ou dois de seus discos anteriores... Mas esse \u00faltimo disco, *Memorial*, \u00e9 realmente excepcional, plenamente merecedor de audi\u00e7\u00f5es atentas, e me far\u00e1 at\u00e9, provavelmente, dar mais algumas chances aos anteriores. Lembro da primeira vez que eu o escutei: botei para tocar enquanto caminhava de volta para casa, voltando de um compromisso aqui por perto. Tinha-o em mp3 por causa de algumas resenhas altamente elogiosas que me deixaram curioso. Antes de chegar em casa eu tinha que passar no supermercado, e foi l\u00e1 dentro, andando por entre as prateleiras abarrotadas de produtos enfiados de qualquer jeito para que o menor espa\u00e7o poss\u00edvel abrigue a maior quantidade poss\u00edvel de amaciantes, bolachinhas e cervejas, foi l\u00e1 dentro que eu reparei que estava ouvindo um neg\u00f3cio realmente muito bom, e o contraste --- na verdade, um abismo que foi se dilatando e aprofundando mais e mais --- entre a beleza do som que eu ouvia com o ambiente abomin\u00e1vel destes supermercados entrou imediatamente para a minha enorme cole\u00e7\u00e3o de momentos singulares ocasionados por caminhadas pelas cidades com fones de ouvidos. E o disco, claro, entrou na lista de melhores do ano.\r\n\r\n**La Luz: It\u0027s Alive**\r\n\r\nO surf music feito pela banda s\u00f3 de meninas La Luz, que eu descobri no final do ano, \u00e9 o respons\u00e1vel pelo meu disco preferido de 2013. Algumas semanas atr\u00e1s elas sofreram um grave [acidente automobil\u00edstico](http:\/\/www.sfbg.com\/noise\/2013\/11\/06\/seattle-surf-rock-band-la-luz-severe-car-accident), tiveram grande preju\u00edzo, mas sa\u00edram todas com vida, e j\u00e1 est\u00e3o se reestabelecendo, retomando a turn\u00ea de divulga\u00e7\u00e3o deste seu primeiro LP, etc. Tamb\u00e9m pudera: elas nasceram para fazer essa m\u00fasica.\r\n\r\n\u003Chr\u003E\r\n\r\nSou obrigado a finalizar da mesma maneira que finalizei o post de prediletos de 2012: observando que tem uma porrada de disco lan\u00e7ado em 2013 que eu n\u00e3o ouvi ainda, discos de bandas que eu gosto muito e alguns com grande potencial para desbancar um ou outro da lista acima, quando eu finalmente escut\u00e1-los em 2014 ou 2015... Mas, tendo que fechar a listinha no fim do ano, os acima s\u00e3o os eleitos. Cito alguns dos n\u00e3o-escutados mais relevantes, de acordo com meus gostos e expectativas: os novos Altar of Plagues, Jesu, Pelican, Boards of Canada, No Age, Arcade Fire, Mount Eerie, Mogwai (a [trilha-sonora](http:\/\/dyingdays.net\/albums\/view\/les_revenants_soundtrack_1)), Lee Ranaldo, Superchunk, NIN, Yo La Tengo, Haxan Cloak e Trail of Dead (acabou de [sair um EP](http:\/\/dyingdays.net\/albums\/view\/tao_of_the_dead_part_iii), que pelo o que eu entendi, se compra [aqui](https:\/\/www.facebook.com\/andyouwillknowusbythetrailofdead\/posts\/10151939313409830)).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":521,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2013","post_timestamp":"2013-12-03T20:37:04+00:00","url":"2013_12_03_discos_do_mes_novembro_de_2013","post":"**R.E.M.: Out of Time**\r\n\r\nApesar de ser um disco manjad\u00edssimo, eu n\u00e3o estou muito certo de que, passados mais de 20 anos de seu lan\u00e7amento, as pessoas ainda se lembrem de como \u00e9 bom o *Out Of Time*, ou mesmo de que tenham realmente se dado conta disso na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento, j\u00e1 que ele acabou por catapultar a banda para uma certa esfera do mundo musical onde a cr\u00edtica mais elaborada n\u00e3o \u00e9 exatamente algo muito pertinente e tampouco os superficiais festejos moment\u00e2neos s\u00e3o pren\u00fancios de relev\u00e2ncia \u00e0 prova do passar do tempo. N\u00e3o que eu pense que a cr\u00edtica de rock\/pop seja como a cr\u00edtica liter\u00e1ria acad\u00eamica ou algo do tipo --- mestres como Lester Bangs que me perdoem ---, mas o que eu quero ressaltar aqui \u00e9 que a inadequa\u00e7\u00e3o para a aten\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e concentrada da grande maioria da m\u00fasica que ocupa essa faixa pode fazer com que um disco que ali inesperadamente apare\u00e7a n\u00e3o receba o escrut\u00ednio mais justo e revelador de suas qualidades que ele mereceria, a aten\u00e7\u00e3o que o sedimentaria na narrativa da hist\u00f3ria da m\u00fasica da \u00e9poca, para al\u00e9m das efem\u00e9rides sobre seus hits. E tem ainda o fato de esse disco preceder a obra-prima inequ\u00edvoca do grupo, o *Automatic for the People*. Ent\u00e3o eu pergunto: a desavergonhad\u00edssima estampa pop que viabilizou a entrada de *Out of Time* nestes c\u00edrculos mais amplos explica plenamente o seu sucesso radiof\u00f4nico e comercial, mas ter\u00e1 ele transcendido isso, quero dizer, permanece ele --- ele inteiro, e n\u00e3o somente os hits --- vivo no cora\u00e7\u00e3o das pessoas? Mais especificamente: os f\u00e3s da banda, ainda hoje o escutam? T\u00eam considera\u00e7\u00e3o por ele? Para mim, o \u00e1lbum tem logo de cara o problema de come\u00e7ar mal; n\u00e3o que eu deteste *Radio Song*, mas acho-a fraquinha, bem pouco digna de ocupar t\u00e3o importante posi\u00e7\u00e3o. Mas, apesar disso, e de mais uma ou duas outras faixas que eu posso perfeitamente passar sem, como ir contra um \u00e1lbum que tem *Near Wild Heaven*, *Texarkana*, *Country Feedback* e *Me in Honey*? O lado B --- o *Memory Side*; os lados das vers\u00f5es em vinil dos discos do R.E.M. sempre t\u00eam t\u00edtulos --- \u00e9 t\u00e3o bom que nele \u00e0s vezes se superp\u00f5em o deleite de uma m\u00fasica com o deleite da antecipa\u00e7\u00e3o da pr\u00f3xima m\u00fasica. Ent\u00e3o, de minha parte, \u00e9 isso: eu nunca deixei de ouvir o *Out of Time*, e amo esse disco. \u00c9 um tracklist t\u00e3o querido que n\u00e3o tem nem como reclamar dos poucos momentos menos apreciados, afinal, para cada *Radio Song* tem duas *Near Wild Heaven* --- quero dizer, tem *Near Wild Heaven* e *Texarkana*, que s\u00e3o quase a mesma m\u00fasica, e isso n\u00e3o \u00e9 nada que denigra uma ou outra, ambas maravilhosas --- e para cada *Shiny Happy People*, m\u00fasica que est\u00e1 gravada eternamente em nossos c\u00e9rebros e at\u00e9 hoje eu n\u00e3o consegui decidir se isso \u00e9 bom ou ruim, tem uma *Losing My Religion*, tamb\u00e9m imortalizada em nossas lembran\u00e7as e neste caso, sim, algo indubitavelmente \u00f3timo.\r\n\r\n**Pearl Jam: Lightning Bolt**\r\n\r\nAcho que o melhor elogio que posso fazer ao novo disco do Pearl Jam \u00e9 o de que ele \u00e9 bem melhor do que o *Backspacer*. O problema \u00e9 que este \u00faltimo \u00e9, na minha opini\u00e3o, um disco indefens\u00e1vel, ruim a ponto das duas ou tr\u00eas \u00f3timas faixas que ele traz passarem longe de salvar o conjunto, de modo que este elogio relativizado ao novo \u00e1lbum n\u00e3o significa necessariamente que ele seja \u00f3timo. At\u00e9 tenho escutado-o com prazer, e devo acrescentar que ele caminha seguro para consolidar-se, no meu ranking pessoal, em uma posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acima a do disco azul (deve estacionar a\u00ed), mas desde a primeira audi\u00e7\u00e3o ficou bastante claro para mim de que se trata de apenas mais um disco, algo protocolar, sem qualquer sinal de alguma relev\u00e2ncia a ser decantada com o tempo. Parece que o papel de habitu\u00e9 desses programas de entrevistas americanos e de headliner de festivais, afinidades finalmente assumidas sem pudores pela banda de uns anos para c\u00e1, para o desalento de uma parcela de f\u00e3s mais antigos e idealistas, e tamb\u00e9m a aceita\u00e7\u00e3o da grandeza de seu pr\u00f3prio nome, reconhecimento publicamente admitido e festejado com o lan\u00e7amento de um filme em auto-homenagem pelos 20 anos de estrada, parece que tudo isso criou uma zona de conforto que exige que recalibremos nossas expectativas diante da not\u00edcia que aparece sempre a cada tr\u00eas ou quatro anos, \u0022Pearl Jam em est\u00fadio preparando seu novo \u00e1lbum\u0022. N\u00e3o acho que o destino do Pearl Jam seja o de se transformar no Rolling Stones de Seattle, mas a \u00e9poca dos discos especiais e da postura anti-comercial parece ter ficado definitivamente para tr\u00e1s. Bem, paci\u00eancia. Pelo menos os shows continuam verdadeiras sess\u00f5es de catarse coletiva.\r\n\r\n(H\u00e1 outro elogio justo de ser feito ao *Lightning Bolt*: a arte do \u00e1lbum \u00e9 \u00f3tima, todo o pacote do vinil \u00e9 muito bonito e bem feito e h\u00e1 ainda, para os surfistas, o agradinho da frase do [Gerry Lopez](http:\/\/encyclopediaofsurfing.com\/entries\/lopez-gerry) inscrita no disco. Pena que fui agraciado com uma das [c\u00f3pias defeituosas](http:\/\/community.pearljam.com\/viewtopic.php?f=4\u0026t=222124).)\r\n\r\n**Black Rebel Motorcycle Club: Specter At The Feast**\r\n\r\nO disco anterior do BRMC, o *Beat The Devil\u0027s Tattoo*, eu ouvi poucas vezes, mas esse *Specter At The Feast* eu tenho ouvido constantemente. S\u00e3o discos bem parecidos, esses dois e mais o *Baby 81*, acho que eles se equivalem entre seus bons e maus momentos, e a prefer\u00eancia atual pelo *Specter At The Feast* \u00e9 puramente casual: \u00e9 o disco mais recente. A longo prazo, ouvir um ou outro tende a ser aleat\u00f3rio, sem nenhuma prefer\u00eancia intencional agindo. O fato \u00e9 que eu n\u00e3o acredito que eles voltem a lan\u00e7ar algo t\u00e3o significativo como o *Howl*, de 2005, obra-prima que parece resultado de um rel\u00e2mpago de inspira\u00e7\u00e3o divina que n\u00e3o voltar\u00e1 a cair, mas tamb\u00e9m estes discos m\u00e9dios que eles v\u00e3o lan\u00e7ando, de algum modo, ganham minha afei\u00e7\u00e3o sem muito esfor\u00e7o. Gosto da f\u00f3rmula deles, do clima das m\u00fasicas, da unidade dos discos, da cren\u00e7a que a banda parece ter no que faz... Me identifico com esse caminho que o BRMC vem seguindo, e sigo com eles desde o primeiro disco. Mais boa vontade com eles do que com o Pearl Jam, sim, eu confesso, sem d\u00favidas. Dessas coisas que n\u00e3o se explicam totalmente de forma racional.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":519,"title":"Poster: Pixies","post_timestamp":"2013-11-27T16:37:46+00:00","url":"2013_11_27_poster_pixies","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Poster criado pela [Munk One](http:\/\/www.munkone.com), copiado [daqui](spot.com.br\/2013\/11\/munk-one-pixies-hammersmith-london-poster.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":515,"title":"Discos do m\u00eas - Outubro de 2013","post_timestamp":"2013-11-06T01:42:59+00:00","url":"2013_11_05_discos_do_mes_outubro_de_2013","post":"**Morphine: Cure for Pain**\r\n\r\nEu tenho essa habilidade, pela qual at\u00e9 me sinto meio culpado de vez em quando, de me recolher em meu canto e me ausentar totalmente do mundo. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil para mim tornar-me alheio aos desastres que se sucedem do lado de fora. Mas eu n\u00e3o sou totalmente insens\u00edvel: discos como este, al\u00e9m daqueles que citarei na sequ\u00eancia, levam boa parte da culpa. Tenho comigo que topar a proposta de isolamento em suas c\u00e1psulas de tempo e espa\u00e7o \u00e9 pr\u00e9-requisito para usufruir plenamente certos discos; aceitar que se ergam essas paredes que nos separar\u00e3o do resto do mundo, por um breve per\u00edodo que seja, \u00e9 obrigat\u00f3rio se quisermos experienciar completamente seus ensinamentos, belezas, dores, etc. Al\u00e9m do que, no que diz respeito \u00e0s dores, se \u00e9 para adicionar \u00e0s nossas pr\u00f3prias as dores de outros, me parece razo\u00e1vel que se d\u00ea prefer\u00eancia \u00e0quelas arranjadas com instrumentos musicais e cantadas por aqueles que de fato olharam nos olhos do abismo, n\u00e3o? O *Cure for Pain*, do Morphine, foi uma das primeiras de uma s\u00e9rie de audi\u00e7\u00f5es marcantes neste m\u00eas que passou, quando mesmo discos que eu ou\u00e7o h\u00e1 anos me deslumbraram e me renovaram como poucas vezes anteriormente. Se m\u00fasica funcionasse para todo mundo como funciona para mim, a ind\u00fastria farmac\u00eautica iria a fal\u00eancia e as igrejas teriam que fechar suas portas devido \u00e0 falta de devotos.\r\n\r\n**Philip Glass: Glassworks**\r\n\r\nEssa \u00e9 uma droga sonora \u00e0 qual recorro regularmente, m\u00fasica sistem\u00e1tica e l\u00facida que, apesar desses predicados, n\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m altamente evocativa. (Antes de continuar: at\u00e9 bem pouco tempo atr\u00e1s eu n\u00e3o me atreveria a escrever essas coisas todas, mas tenho me livrado desses pudores e tentado publicar aqui os relatos mais fi\u00e9is poss\u00edveis das minhas audi\u00e7\u00f5es e das viagens delas resultantes, por mais burlescos que soem, ent\u00e3o l\u00e1 vai.) Esse disco carrega consigo uma esp\u00e9cie de clareza revitalizante, m\u00fasica de conceito e execu\u00e7\u00e3o aparentemente simples (para quem ouve; j\u00e1 no que diz respeito \u00e0 composi\u00e7\u00e3o, partitura, essas coisas, n\u00e3o fa\u00e7o id\u00e9ia), no seu minimalismo residindo um elixir de desanuviamento, um n\u00facleo irradiador de esclarecimento que atua ora por via de ondas de modula\u00e7\u00f5es perfeitamente sim\u00e9tricas e cristalinas, ora atrav\u00e9s de simples pe\u00e7as cl\u00e1ssicas ao piano. Ao contr\u00e1rio de sons do tipo descrito [neste link](http:\/\/dyingdays.net\/reviews\/view\/_1_fabricio_boppre), que parecem habitar as esferas do m\u00edstico, do desconhecido, aqui \u00e9 tudo sempre rigorosamente enquadrado e abalizado pelas nossas leis e entendimentos terrenos, sons que s\u00e3o respostas precisas e contingentes ao racionalizado toque gerador humano e n\u00e3o se rebelam nem se descontrolam nunca. E apesar dessa percep\u00e7\u00e3o de f\u00f3rmula matem\u00e1tica, de confinamento a um roteiro perfeitamente executado e sem qualquer aresta, ainda assim o disco gera efeitos sublimes: aqui eles nascem da beleza crua e desadornada de cada som --- obedientes e repetitivos, sim, mas sempre intrinsecamente belos --- e da urdidura que vai se tecendo hipnoticamente entre eles, pontos de entrela\u00e7amento a passos cronometrados que erguem pouco a pouco um cen\u00e1rio parecido com a caverna de gelo aquela onde o Superman ia recarregar suas for\u00e7as nos velhos filmes com o Christopher Reeve. Nos momentos apote\u00f3ticos do encantamento, com os p\u00e9s firmemente postados em meio ao esplendor ofuscante do cen\u00e1rio que, tal qual a t\u00e9cnica arquitet\u00f4nica de algumas metr\u00f3poles modernas, se vale do astucioso artif\u00edcio de revestir-se de espelhos para tudo ao seu redor absorver e assim conferir-se ainda mais beleza, nestes momentos um racioc\u00ednio mais claro parece poss\u00edvel, um poder de compreens\u00e3o maior \u00e9 apreendido, e qualquer n\u00f3 de qualquer novelo que esteja a travar sua imagina\u00e7\u00e3o parece desatar-se mais facilmente, e at\u00e9 o mais dif\u00edcil e enigm\u00e1tico dos teoremas matem\u00e1ticos ainda n\u00e3o-resolvidos pode lhe parecer simples de ser desvendado.\r\n\r\n**John Coltrane: A Love Supreme**\r\n\r\nAqui a coisa vai para um novo patamar. Para come\u00e7ar, este \u00e9 um daqueles discos que parecem ornados por uma esp\u00e9cie de aura de sacralidade, de vener\u00e1vel obra-prima, que faz com que voc\u00ea o retire da estante e o segure por alguns segundos com rever\u00eancia e solenidade antes de bot\u00e1-lo para tocar. Esse \u00e9 o pr\u00e9-rito: enquanto analisa novamente o olhar ([sempre](http:\/\/www.google.com\/search?site=imghp\u0026tbm=isch\u0026source=hp\u0026q=john+coltrane\u0026oq=john+coltrane)) compenetrado e distante de seu autor na capa, voc\u00ea reflete muito detidamente se o momento \u00e9 realmente adequado para escut\u00e1-lo. E de fato s\u00e3o frequentes as ocasi\u00f5es em que acabo por declinar de coloc\u00e1-lo na vitrola --- e espero que j\u00e1 tenha ficado claro que n\u00e3o se trata aqui da preserva\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica do objeto, nem nada do tipo: \u00e9 realmente uma quest\u00e3o de conson\u00e2ncia entre circunst\u00e2ncias internas e externas e uma m\u00fasica que exige dedica\u00e7\u00e3o, abertura de esp\u00edrito, e que por via desse zelo dever\u00e1 resultar em uma epifania de efeito prolongado, e utiliz\u00e1-la para qualquer prop\u00f3sito diferente disso \u00e9 como uma pervers\u00e3o. Esse manejo envolve coisas que aprendemos com o tempo, e tamb\u00e9m n\u00e3o foram poucas as vezes em que errei na avalia\u00e7\u00e3o dessas condi\u00e7\u00f5es, o que resultou numa conex\u00e3o tardia com o disco. Por\u00e9m, como diz o provavelmente mais famoso e verdadeiro dos ditos populares, antes tarde do que nunca: quando esta liga\u00e7\u00e3o acontece, \u00e9 como se ent\u00e3o tom\u00e1ssemos posse definitiva de um conhecimento inestim\u00e1vel, passamos a ter acesso a algo valioso que ir\u00e1 da\u00ed por diante aliar-se \u00e0s nossas vidas e preencher as lacunas de nossas almas humanas, insufici\u00eancias normalmente t\u00e3o mal disfar\u00e7adas pelas demandas do cotidiano, do trabalho, dos compromissos sociais e tudo mais. Mas n\u00e3o \u00e9, obviamente, como esses rem\u00e9dios aos quais as pessoas est\u00e3o cada vez mais viciadas e tomam para dormir, para trabalhar, enfim, para seguir adiante: h\u00e1 no disco de Coltrane, como dito acima, um predicado de condicionalidade, uma inaptid\u00e3o ao uso cont\u00ednuo e receitado que deriva da radicalidade de sua experi\u00eancia plena. Para todos que procurarem nesta m\u00fasica por aquilo que, para citar outro dos ref\u00fagios mais comuns, as religi\u00f5es ocidentais --- em sua maioria representadas hoje em dia por pregadores de obtusidades medievais no p\u00falpito e na televis\u00e3o, velhacos j\u00e1 sem nenhum resqu\u00edcio de interesse pelo esp\u00edrito dos homens, ocupados que est\u00e3o com estrat\u00e9gias e com o tamanho de suas bancadas e com o refreamento de tantos progressos e liberdades, pois bem sabem que reside nestes progressos e nestas liberdades a sua derrocada definitiva, faltando pouco at\u00e9, ouso dizer, para assumirem publicamente de vez suas voca\u00e7\u00f5es atuais exclusivas de partidos pol\u00edticos e clubes de ped\u00f3filos e outras patifarias diversas --- mas eu dizia, para todos que procurarem neste disco pelos desvendamentos que estas toscas religi\u00f5es n\u00e3o t\u00eam nenhuma condi\u00e7\u00e3o (e muito menos interesse) em conceder e os rem\u00e9dios acabam apenas por amortizar suas lat\u00eancias durante meia d\u00fazia de horas, este sentido *A Love Supreme* concede atrav\u00e9s da pulveriza\u00e7\u00e3o gradual dos contornos e das identidades alienadas umas das outras de tudo que nos rodeia, incluindo a\u00ed n\u00f3s mesmos, desfiguramento seguido pela reformula\u00e7\u00e3o disso tudo em uma nova realidade feita de uma mat\u00e9ria s\u00f3 e de onde nasce finalmente uma serena e enternecedora percep\u00e7\u00e3o de unidade com o universo. A emancipa\u00e7\u00e3o de Coltrane o transformou em canalizador do conhecimento supremo e ancestral cujo efeito \u00faltimo \u00e9 o de reestabelecer o batimento card\u00edaco de seu receptor \u00e0quele ritmo --- embora hesitante --- corajoso e deslumbrado do momento exato em que seu cora\u00e7\u00e3o pulsou pela primeira vez no \u00fatero materno e a vida fez-se presente enquanto ainda biologicamente conectada h\u00e1 algo maior, e \u00e9 precisamente com isso que vem o despertar dessa que \u00e9 a maior das gnoses e que todos n\u00f3s trazemos adormecida conosco e que repousa tamb\u00e9m na natureza e tamb\u00e9m no interior de cada estrela de todo o cosmos: somos individualmente \u00ednfimos e insignificantes, mas fazemos parte de algo infinitamente vasto, belo e eterno. Coltrane, nas liner notes do \u00e1lbum, se refere a essa unidade como \u0022God\u0022; eu n\u00e3o sei como chamar, mas sei que h\u00e1 m\u00fasicas que ajudam a compreend\u00ea-la, e que de todas essas m\u00fasicas, nunca nenhuma outra foi t\u00e3o longe quanto esta.\r\n\r\n**Nota final**: os \u00faltimos dias do m\u00eas foram marcados por repetidas audi\u00e7\u00f5es de R.E.M. e Lou Reed, mas n\u00e3o tive tempo de escrever nada sobre eles, o que foi at\u00e9 providencial, j\u00e1 que o post com os tr\u00eas discos acima ficou bastante extenso. De todo modo, continuo ouvindo-os, ent\u00e3o deve aparecer alguma coisa no relato do m\u00eas que vem... ","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Nas palavras da astr\u00f4noma que me corrigiu: \u0022nebulosas ou s\u00e3o restos de estrelas que morreram ou ber\u00e7\u00e1rios de estrelas\u0022. (Obrigado!)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui].","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":509,"title":"Sobre o novo disco do Pearl Jam (que eu n\u00e3o ouvi ainda)","post_timestamp":"2013-10-15T18:31:27+00:00","url":"2013_10_15_sobre_o_novo_disco_do_pearl_jam_que_eu_nao_ouvi_ainda","post":"Desde que sa\u00edram as primeiras not\u00edcias sobre o lan\u00e7amento do novo disco do Pearl Jam, lan\u00e7amento que acontece exatamente hoje, iniciou-se ent\u00e3o uma campanha de divulga\u00e7\u00e3o intensa atrav\u00e9s dos canais de comunica\u00e7\u00e3o intern\u00e9ticos da banda. Se voc\u00ea acompanha o Twitter oficial do grupo, ent\u00e3o n\u00e3o se passou um dia sem que voc\u00ea tenha lido uns quarenta tu\u00edtes vindos de l\u00e1, que ora falavam da data de lan\u00e7amento, ora divulgavam o link para o v\u00eddeo de uma das novas can\u00e7\u00f5es, ora republicavam tu\u00edtes (sei que existe um termo pr\u00f3prio para isso, mas esqueci qual \u00e9) de f\u00e3s que davam seus depoimentos deslumbrados sobre como essa ou aquela nova m\u00fasica era sensacional, isso tudo repetidas vezes ao dia, e depois toda a ladainha recome\u00e7ava no dia seguinte. Se voc\u00ea faz parte do Ten Club ou assina alguma mailing-list oficial, tamb\u00e9m n\u00e3o se passou um dia sem um novo e-mail na sua caixa postal, que por via de letras garrafais, cuidava de lembrar que o novo disco seria lan\u00e7ado dia 15 de Outubro e que para fazer o pre-order voc\u00ea deveria clicar aqui. (No Facebook, ferramenta que eu n\u00e3o uso, prefiro nem imaginar como foi.) \r\n\r\nA coisa prosseguiu de tal modo que muito provavelmente pro resto da minha vida irei me lembrar que o disco *Lightning Bolt* do Pearl Jam foi lan\u00e7ado em 15 de Outubro de 2013, e isso pode at\u00e9 n\u00e3o ser algo t\u00e3o extraordin\u00e1rio assim em se tratando de alguns casos de record junkies mais compulsivos, mas no meu caso --- acho que minha patologia \u00e9 um pouco menos cr\u00edtica --- no meu \u00e9, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 disco em minha cole\u00e7\u00e3o que eu lembre de sua data de lan\u00e7amento exata --- no m\u00e1ximo, me lembro de meses ou esta\u00e7\u00f5es, tipo, o *Mellon Collie and the Infinite Sadness* saiu no ver\u00e3o de 95\/96, o *In Utero* em setembro de 93, e mais uns tr\u00eas ou quatro casos, se tanto.\r\n\r\nA quest\u00e3o \u00e9 que essa publicidade ostensiva me parece bastante contradit\u00f3ria em se tratando de uma banda que no in\u00edcio parecia ser t\u00e3o avessa a todas as coisas midi\u00e1ticas, \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica em um produto para as massas, etc. O uso intenso desse aparato --- principalmente essas redes sociais que parecem se transformar cada vez mais em ferramentas insanas de fomento de consumo --- n\u00e3o encontra justificativa coerente se levarmos em conta que um f\u00e3 da banda n\u00e3o ir\u00e1 esquecer-se de que um novo disco do Pearl Jam ser\u00e1 lan\u00e7ado em breve, e que certamente estes f\u00e3s ir\u00e3o adquiri-lo, seja via pre-order, seja na sua loja de discos preferida (para aqueles que t\u00eam a sorte de viverem em cidades que ainda possuem lojas de discos), o que por fim abre brecha para a conclus\u00e3o de que a inten\u00e7\u00e3o real desta t\u00e1tica \u00e9 que a coisa se espalhe \u0022viralmente\u0022, que todo mundo fique sabendo, e que todo mundo compre o disco. E \u00e9 da\u00ed que vem o desconforto: o Pearl Jam dava a impress\u00e3o de que seria sempre aquela banda que se contenta em ser relevante para este seu seleto grupo de f\u00e3s fi\u00e9is, sem se preocupar em s\u00ea-lo para todo o mundo. Pelo visto, s\u00f3 parecia.\r\n\r\nEnfim, talvez os caras precisem ainda \u0022garantir o leite das crian\u00e7as\u0022, ou coisa que o valha. Pouco prov\u00e1vel, mas sei l\u00e1, \u00e0s vezes esse tipo de cr\u00edtica come\u00e7a a ficar impr\u00f3pria pois ter\u00edamos que entrar em aspectos pessoais das vidas das pessoas envolvidas (banda), quest\u00f5es financeiras, e esse tipo de coisa eu prefiro n\u00e3o julgar. Talvez tudo isso aconte\u00e7a \u00e0 revelia do grupo, atrav\u00e9s de seus managers, ou do f\u00e3-clube, ou sei l\u00e1 quem. Mas \u00e9 dif\u00edcil evitar o desconforto, para quem \u00e9 f\u00e3 desde l\u00e1 os prim\u00f3rdios. Quero dizer, ser\u00e1 mesmo? Ou \u00e9 tudo frescura minha? Essa \u00faltima hip\u00f3tese n\u00e3o deve ser desconsiderada, ainda mais se eu revelar aqui que sou do tipo de dinossauro ultrapassado que se negou a ouvir o disco pela primeira vez atrav\u00e9s da abomin\u00e1vel iTunes Store, e que continua aqui saboreando a expectativa de faz\u00ea-lo assim que chegar pelo correio o meu vinil.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](http:\/\/www.youtube.com\/all_comments?threaded=1\u0026v=AF9Bci8Eonw).","author":{"name":"Fabricio C. 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Uma caracter\u00edstica nesse disco sempre me atraiu: com seu generoso tracklist de 16 m\u00fasicas, ele \u00e9 longo, denso, uma verdadeira jornada caudalosa que pode at\u00e9 cansar um pouco se enfrentada de cabo a rabo sem interrup\u00e7\u00f5es, mas ainda assim \u00e9 muito compensadora. Dentre tantas faixas, \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil nomear destaques --- cito brevemente a primeira e a \u00faltima, duas preferidas pessoais --- e quase n\u00e3o h\u00e1 momentos dispens\u00e1veis --- digo \u0022quase\u0022 pois h\u00e1 somente uma m\u00fasica no \u00e1lbum de que n\u00e3o gosto, a *Blow Up the Outside World*, que sempre achei excessivamente arqu\u00e9tipa e de letra bobinha demais (n\u00e3o que eu exija sempre obras-primas de literatura nas letras das bandas de rock, mas algum n\u00edvel de toler\u00e2ncia meu fica muito contrariado quando ouve logo de cara \u0022Nothing seem to kill me\/No matter how hard I try\u0022).\r\n\r\n**Yo La Tengo: I Can Hear the Heart Beating as One**\r\n\r\nParece ter sido o m\u00eas de retirar a poeira acumulada sobre alguns discos tipicamente noventistas, n\u00e3o? O *I Can Hear the Heart Beating as One* nem \u00e9 meu disco do YLT preferido, mas fui fisgado por uma faixa dele que apareceu num shuffle que eu ouvia a partir do computador numa certa tarde tediosa, que funcionou como uma piscadela me convidando para um programa mais promissor de noite --- escutar o disco completo. Foi a primeira vez em muitos anos, foi \u00f3timo, e repeti a dose mais algumas vezes durante aquela semana. Adoro as guitarras que parecem habitar uma camada subjacente do disco, um estrato carregado de microfonias cujos ecos d\u00e3o a impress\u00e3o de derramarem-se por todas as faixas ao inv\u00e9s de pertencer a essa ou \u00e0quela, mais ou menos como se certas m\u00fasicas estivessem transbordando umas nas outras --- ou isso de fato acontece, ou ent\u00e3o os problemas auditivos que eu certamente terei devido aos anos e anos de m\u00fasica alta nos fones est\u00e3o come\u00e7ando a se manifestar (ou ainda, quem sabe, seja s\u00f3 uma licen\u00e7a po\u00e9tica que encontrei para descrever o meu manejo com o disco). Enfim, h\u00e1 fantasmas vagando por ali, h\u00e1 tamb\u00e9m can\u00e7\u00f5es que soam como as melhores m\u00fasicas do My Bloody Valentine n\u00e3o gravadas pelo My Bloody Valentine, e h\u00e1 tamb\u00e9m can\u00e7\u00f5es doces e serenas, o trilar de grilos a projetar na imagina\u00e7\u00e3o cenas noturnas de tranquila solid\u00e3o, longe da cidade, longe de todo mundo, mas n\u00e3o muito --- tipo aqueles barrancos t\u00edpicos de filmes americanos, onde os personagens estacionam seus carros e ficam a contemplar, do alto, as luzes da cidade l\u00e1 embaixo. Belo disquinho de uma banda que preciso voltar a ouvir com mais frequ\u00eancia.\r\n\r\n**Amon D\u00fc\u00fcl II: Yeti**\r\n\r\nA minha primeira audi\u00e7\u00e3o deste disco, ocorrida poucos dias atr\u00e1s, teve o efeito ao mesmo tempo frustrante e sublime de fazer com que toda minha cole\u00e7\u00e3o de CDs e vinis e fitas K7 se tornasse boba, sup\u00e9rflua, in\u00fatil. (Um pequeno exagero, claro --- digamos, uns 95% da minha cole\u00e7\u00e3o.) Pois isso aqui sim \u00e9 m\u00fasica, meus amigos: m\u00fasica selvagem, instigante e visceral que parece estar o tempo todo prestes a romper algum inconceb\u00edvel limiar f\u00edsico e ganhar vida pr\u00f3pria, escapando de seus criadores e da ordem natural das coisas e materializando-se numa besta indom\u00e1vel e arrepiante. Foi uma experi\u00eancia e tanto, que me fez relembrar at\u00e9 um certo sentimento h\u00e1 muito adormecido, uma vontade perempt\u00f3ria manifestada pela primeira vez na ocasi\u00e3o em que devorei, na inf\u00e2ncia, uns tantos volumes da [cole\u00e7\u00e3o Vagalume](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S\u00e9rie_Vaga-Lume) e passei ent\u00e3o a incomodar amigos e familiares pedindo que todos lessem tamb\u00e9m aqueles livrinhos, pois eu queria que todos se embrenhassem naquelas aventuras assim como eu tinha feito, queria compartilhar aquele prazer e conversar sobre aquela forma de imers\u00e3o rec\u00e9m-descoberta e nada disso era poss\u00edvel fazer apenas descrevendo os livros para as pessoas --- era \u003Ci\u003Enecess\u00e1rio\u003C\/i\u003E que elas os lessem. Pois ent\u00e3o, reprisei, perplexo, esse epis\u00f3dio ouvindo este fabuloso *Yeti* dos alem\u00e3es do Amon D\u00fc\u00fcl II: eu queria que todos ouvissem esse \u00e1lbum e experimentassem por si mesmos o prazer de descobri-lo (quem ainda n\u00e3o o fez, logicamente), pois eu o achei extraordin\u00e1rio para al\u00e9m do que posso descrever; sua descoberta foi um surpreendente mergulho vertiginoso finalizado com uma passagem para uma nova etapa, assim como foi a leitura daqueles livrinhos da cole\u00e7\u00e3o Vagalume em seu tempo. Espantoso dizer isso a essa altura, mas foi quase como se eu me maravilhasse com m\u00fasica pela primeira vez, e isso me fez pensar seriamente como \u00e9 incr\u00edvel, se voc\u00ea tem interesse e l\u00ea e vai atr\u00e1s, como \u00e9 incr\u00edvel ser poss\u00edvel descobrir m\u00fasica fant\u00e1stica continuamente, sons realmente sui generis gravados nos mais variados cantos do mundo que nos despertam o tempo todo a pergunta \u0022como eu nunca tinha escutado isso antes?\u0022, ao mesmo tempo que toma forma uma vaga consci\u00eancia de que sab\u00edamos o tempo todo de sua exist\u00eancia, pois afinal, como ningu\u00e9m nunca haveria de ter pensando nessas m\u00fasicas sensacionais antes? Elas est\u00e3o a\u00ed, gravados h\u00e1 40 anos ou ontem. Basta olhar na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria da [manada](http:\/\/rockinrio.com\/rio\/), investigar, experimentar, que voc\u00ea logo come\u00e7a a ser recompensado com o genu\u00edno brilho do esp\u00edrito humano, irradiando de todas as \u00e9pocas e de todos os lugares, pairando por cima de todo o lixo despejado diariamente pelas engrenagens da Ind\u00fastria Cultural moderna. (Me perdoem o esnobismo evidente dessa \u00faltima senten\u00e7a, mas discos desse quilate obrigam qualquer um que se aventure na tentativa de dar conta de suas dimens\u00f5es, a expressar-se nesses termos; o contraponto com o pop, com o mainstream, real\u00e7a ainda mais notavelmente suas singularidades, sendo irresist\u00edvel essa pequena covardia... )","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Tamb\u00e9m pudera: al\u00e9m de uma \u00f3tima m\u00fasica, seu t\u00edtulo \u00e9 uma \u003Ci\u003Ecatch-phrase\u003C\/i\u003E prontinha para ser apropriada por praticamente qualquer um nesses tempos onde somos todos \u003Ci\u003Eativistas\u003C\/i\u003E. \u00c9 verdade que a m\u00eddia nomeada pela can\u00e7\u00e3o vem progressivamente perdendo espa\u00e7o para uma outra que em teoria poderia ser bem mais independente e menos alienante, entretanto, o que tenho observado \u00e9 que nessa nova m\u00eddia as mentes das multid\u00f5es parecem convergir em crescente maioria para algumas poucas corpora\u00e7\u00f5es, portais, redes sociais etc, ambientes onde s\u00e3o corriqueiros a colabora\u00e7\u00e3o de seus donos com governos e demais poderes, o uso de dados pessoais para fins comerciais (tendo sido esse item continuamente negado por CEOs e outros cretinos por bastante tempo, s\u00f3 para ser logo na sequ\u00eancia confessado como verdade, ou seja, eles mentem descaradamente), a censura, o narcisismo --- enfim, um contexto do qual n\u00e3o consigo imaginar que, a m\u00e9dio-prazo, prospere algo muito melhor do que a televis\u00e3o, de modo que continuaremos sem not\u00edcias da revolu\u00e7\u00e3o. Ou seja, muda-se apenas uma palavrinha ali no t\u00edtulo da m\u00fasica e \u00e9 capaz de ela permanecer bem atual --- o que n\u00e3o deixa de ser tamb\u00e9m meio paradoxal, pois \u00e9 atrav\u00e9s dessa nova m\u00eddia de massa, onde pelo menos ainda \u00e9 permitido que todos (ou quase todos) se manifestem, \u00e9 justo atrav\u00e9s dela que mais devem ecoar as palavras de Gil apregoando a independ\u00eancia de nossas mentes (assim como as de tantos outros: Bob Marley, poetas etc). E assim mesmo inacabada eu deixo essa an\u00e1lise pois sequer sei se o escrito acima \u00e9 justo, pode ser s\u00f3 m\u00e1-vontade minha; acrescento apenas que, no que diz respeito \u00e0s pessoas que venham a ter um primeiro contato com Gil Scott-Heron via internet, mesmo que seja no intervalo entre a foto do almo\u00e7o do primo que est\u00e1 viajando na Europa e o v\u00eddeo do \u00faltimo gol do Neymar e por meio de uma imagem que associa as palavras The Revolution Will Not Be Televised a alguma causa anti-Rede Globo com o bot\u00e3o de curtir do igualmente ultra-id\u00f4neo Facebook logo abaixo, se o apelo rebelde da frase levar uma parcela desses *internautas* a investigar a obra de Gil, ent\u00e3o ela (a internet) j\u00e1 estar\u00e1 se prestando a um bom papel, para al\u00e9m daquele pretendido de informa\u00e7\u00e3o e cidadania que afinal de contas nem tem grandes chances de gerar um efeito prolongado e efetivo, j\u00e1 que pouca gente se disp\u00f5e a deixar de assistir televis\u00e3o, seja o Jornal Nacional, o Big Brother ou o futebol (que logo estar\u00e3o sendo transmitidos e reinando nesta nova m\u00eddia tamb\u00e9m, se \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o). Essas pessoas poder\u00e3o descobrir, por exemplo, esse disco de 1974, *Winter in America*, um \u00e1lbum magistral que \u00e9 imposs\u00edvel de descrever precisamente em termos de estilos; para isso, prefiro deixar as palavras do pr\u00f3prio Gil: \u00e9 \u0022bluesology, the science of how things feel\u0022. Sem contar que \u00e9 ele tamb\u00e9m um documento de protesto e de den\u00fancia, e mais bem fundamentado e relevante do que a grande maioria dos mais populares e curtidos posts das redes sociais, pode ter certeza.\r\n\r\n**Melvins: 1983 EP**\r\n\r\nO line-up do Melvins \u00e9 uma coisa bem louca de se acompanhar. Para entender quem gravou este EP e o porqu\u00ea do nome *1983*, \u00e9 mais simples eu s\u00f3 deixar esse [link aqui](http:\/\/www.themelvins.net\/wiki\/index.php?title=Melvins_1983), at\u00e9 porque tal coisa n\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma, \u00e9 s\u00f3 para os fan\u00e1ticos (como eu). O que importa \u00e9 a m\u00fasica, certo? Mas estar sempre a par da m\u00fasica de King Buzzo e cia tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 simples, j\u00e1 que eles n\u00e3o param de derram\u00e1-la pelo mundo numa frequ\u00eancia muito acima da m\u00e9dia --- \u00e0s vezes a impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que eles est\u00e3o aproveitando enquanto podem, lan\u00e7ando LPs, EPs, discos de covers e box-sets a cada oportunidade que aparece e enquanto a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica n\u00e3o vai pro saco de vez. E claro que o que torna esse desafio de acompanh\u00e1-los algo verdadeiramente digno de esfor\u00e7o \u00e9 que \u00e9 quase tudo sempre muito bom --- quero dizer, talvez essa seja a opini\u00e3o meio enviesada de um f\u00e3, mas ou\u00e7a esse EP do ano passado e me diga, n\u00e3o \u00e9 demais? O caso \u00e9 que at\u00e9 para n\u00f3s adoradores \u00e9 dif\u00edcil acompanhar esse ritmo acelerado de engordamento da discografia dos Melvins (a [nossa rela\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 bem boazinha](http:\/\/dyingdays.net\/bands\/view\/melvins\/discography\/formats\/lp\/), mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o [completa quanto essa do site oficial](http:\/\/www.themelvins.net\/wiki\/index.php?title=Melvins_Discography)), e essa p\u00e9rola de EP quase me passou desapercebida, tendo sido lan\u00e7ada j\u00e1 em agosto do ano passado. Para que isso n\u00e3o se repita, acho que vou adicionar aqui no meu calend\u00e1rio de tarefas mensais, junto com \u0022pagar condom\u00ednio\u0022, \u0022pagar telefone\u0022 etc, um novo item: \u0022conferir se Melvins lan\u00e7ou mais alguma coisa\u0022. \r\n\r\n**King Crimson - Red, Starless And Bible Black \u0026 Larks\u0027 Tongues in Aspic**\r\n\r\nEu j\u00e1 [citei o King Crimson por aqui antes](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_03_02_discos_do_mes_janeiro_e_fevereiro_de_2013), e aquilo foi um est\u00e1gio pelo qual passou meu gradual aumento de interesse pela banda nesses \u00faltimos tempos (outro mais recente [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_08_02_mixtape_86)). A coisa culminou nesse m\u00eas que passou e durante o qual vivi uma verdadeira obsess\u00e3o por parte da obra da banda, uma imers\u00e3o proporcionada principalmente pela tardia compra de alguns de seus discos --- at\u00e9 ent\u00e3o nunca tivera nada deles em minha cole\u00e7\u00e3o al\u00e9m de velhas fitas gravadas sabe-se l\u00e1, a essa altura, onde e quando, e das c\u00f3pias em mp3, e \u00e9 \u00f3bvio que uma banda como o King Crimson n\u00e3o se ouve no computador enquanto se trabalha ou se l\u00ea ou se joga, King Crimson exige aten\u00e7\u00e3o, dedica\u00e7\u00e3o exclusiva e, se poss\u00edvel, um bom aparelho de som. Da\u00ed que aproveitando a oportunidade recente de estar em uma boa loja de discos (coisa cada vez mais rara, em qualquer continente), larguei mentalmente um \u0022foda-se\u0022 para a conta banc\u00e1ria e catei logo tr\u00eas CDs deles, e s\u00f3 n\u00e3o peguei mais uns tr\u00eas ou quatro outros porque, bem, confesso que n\u00e3o foi exatamente um \u0022foda-se\u0022, foi s\u00f3 um \u0022com licen\u00e7a depois a gente conversa\u0022, algo mais ponderado do tipo. Os discos comprados, *Red*, *Starless and Bible Black* e *Larks\u0027 Tongues in Aspic*, eu ouvi tantas vezes por esses dias que sou obrigado a colocar a imagem dos tr\u00eas ali em cima, ao inv\u00e9s de escolher um somente para represent\u00e1-los todos, como j\u00e1 fiz em outras ocasi\u00f5es similares. E por ora a lacuna na cole\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem resolvida, pois o que esses discos oferecem \u00e9 um deleite prolongado, m\u00fasica riqu\u00edssima e nem de longe pedante ou intrincada ou entediante, que costumam ser os adjetivos que logo v\u00eam a nossa mente quando pensamos em \u0022rock progressivo\u0022. Acho que o KC e o [Pink Floyd](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2012_11_01_discos_do_mes_outubro_de_2012), principalmente esses dois, sofrem injustamente por estarem t\u00e3o grudados ao termo, mas isso \u00e9 mat\u00e9ria para depois. Voltando aos discos, o mais impressionante neles \u00e9, evidentemente, a guitarra do Robert Fripp, cheia de distor\u00e7\u00e3o e riffs memor\u00e1veis; ela dialoga --- \u00e9 preciso esclarecer, para que incauto algum que nunca tenha ouvido KC pense que eu esteja fazendo alguma revela\u00e7\u00e3o surpreendente a uma humanidade at\u00e9 ent\u00e3o ludibriada por um r\u00f3tulo equivocado ---, ela dialoga sim com instrumentos diversos, se estende sim em longas sess\u00f5es intrumentais cujos t\u00edtulos tem subdivis\u00f5es em parte I, II e III, h\u00e1 muitos sil\u00eancios e tamb\u00e9m doses de grandiosidade, mas a quest\u00e3o \u00e9 que a coisa nunca sai do eixo da m\u00fasica para ouvir e apreciar instantaneamente, sem exigir para isso qualquer coisa al\u00e9m de alguma aten\u00e7\u00e3o. E a camada de psicodelia e viagem e experimentalismo que vem junto n\u00e3o se sobrepuja nunca, antes funciona como um tempero na medida perfeita posto que n\u00e3o nasce da mera exibi\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica \u003Ci\u003Eper se\u003C\/i\u003E, ou de virtuosismo, e sim da tentativa de emula\u00e7\u00e3o dos sons do mist\u00e9rio, do transcendente, do c\u00f3smico. Ok, v\u00e1 l\u00e1 que m\u00fasica alguma que lide com esses temas pode ser t\u00e3o pouco exigente como talvez eu tenha dado a entender, mas digamos que o m\u00ednimo que ela exige \u00e9 altamente recompensado pelo muito que ela proporciona. At\u00e9 porque n\u00e3o acho que seja boa coisa que rejeitemos de forma assim t\u00e3o decidida a imagina\u00e7\u00e3o, a concentra\u00e7\u00e3o, o n\u00e3o-prosaico e o n\u00e3o-imediato, nesses tempos de todos \u0022habitando\u0022 estas mesmas massivas \u0022aldeias virtuais\u0022 citadas l\u00e1 no par\u00e1grafo do Gil Scott-Heron. Meu instinto me diz para fugir disso, e parte do meu plano \u00e9 ouvir muito King Crimson enquanto corro na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":495,"title":"Lendo sobre Neil Young e Axl Rose","post_timestamp":"2013-08-21T21:08:09+00:00","url":"2013_08_21_lendo_sobre_neil_young_e_axl_rose","post":"Na verdade, \u0022desistindo de ler sobre Neil Young\u0022, pois sua autobiografia conseguiu a proeza de ser s\u00f3 o quarto ou quinto livro que abandono em toda minha vida. Que neg\u00f3cio chato do cacete! Antes da trig\u00e9sima p\u00e1gina eu j\u00e1 estava derrotado pela amola\u00e7\u00e3o de ler reiteradas vezes sobre seu empreendedorismo, seus trens, seus carros, seu empreendedorismo em fazer carros, seus carros feitos de trens, j\u00e1 nem sei mais --- e muito pouco sobre m\u00fasica. Entendo que ele pode abordar os assuntos que quiser, afinal, \u00e9 sua autobiografia, mas \u00e9 razo\u00e1vel imaginar que a m\u00fasica ocuparia a maioria das p\u00e1ginas, n\u00e3o? Enfim, nem mesmo minha grande devo\u00e7\u00e3o pela obra (musical) de Neil foi suficiente para me fazer seguir em frente. Tenho certeza que perderei as boas hist\u00f3rias sobre as grava\u00e7\u00f5es dos discos, as turn\u00eas, e tudo o mais que verdadeiramente me interessa e que devem estar dilu\u00eddas no restante do livro, mas at\u00e9 onde cheguei calculo que foi menos de um ter\u00e7o de leitura sobre tais assuntos, e como carros e trens e empreendedorismo entram facilmente na listinha dos dez assuntos que menos me interessam na vida, decidi que n\u00e3o vale o sacrif\u00edcio e desisti. Ainda bem que n\u00e3o comprei o volume; eu vinha lendo-o paulatinamente numa livraria que frequento.\r\n\r\nE foi nessa mesma livraria que li um texto sensacional de cerca de 20 p\u00e1ginas intitulado *O \u00faltimo retorno de Axl Rose*, escrito por John Jeremiah Sullivan. Eu j\u00e1 tinha curiosidade de ler *Pulphead*, a compila\u00e7\u00e3o de ensaios de Sullivan [rec\u00e9m-lan\u00e7ada por aqui](http:\/\/www.companhiadasletras.com.br\/detalhe.php?codigo=13455), quando encontrei-a nesta livraria e descobri o texto sobre o homem do Guns N\u0027 Roses enquanto folheava brevemente suas p\u00e1ginas para avaliar a compra. Figuras bizarras como Axl costumam justificar com folga artigos e ensaios, e sendo ainda por cima um personagem da minha inf\u00e2ncia, me pus a ler imediatamente o texto, e depois ainda comprei o livro. Seguem a\u00ed dois trechinhos, um n\u00e3o diretamente relacionado ao Guns, mas que transcrevo para voc\u00eas verem como a pena do cara \u00e9 muito boa, e depois outro sobre o Axl dan\u00e7arino.\r\n\r\n\u003E Enquanto eu chegava no alto do morro, uma banda de rap-rock estava tocando. A justificativa para a exist\u00eancia do rap-rock parece ser a seguinte: se voc\u00ea pegar um rock muito ruim e misturar com um rap muito ruim, o resultado \u00e9 mais ou menos bom, desde que os raps sejam berrados por um cara branco acima do peso com o cabelo raspado e tatuagens no antebra\u00e7o. As mulheres daquelas poucas granjas tinham se reunido diante da cerca; se apoiavam, balbuciavam e sacudiam as bengalas. (...) [Elas] estavam mesmo prestando aten\u00e7\u00e3o no rap-rock, e parte de mim sentiu vontade de correr at\u00e9 elas e garantir que, mesmo que depois que elas morressem, ainda restaria no mundo pessoas conscientes do quanto aquela m\u00fasica era horrenda, e que essas pessoas transmitiriam seu conhecimento a membros cuidadosamente escolhidos das gera\u00e7\u00f5es seguintes, mas as senhoras n\u00e3o pareciam preocupadas. Estavam at\u00e9 rindo. Sem d\u00favida lembravam de circos itinerantes armados naquele mesmo campo em mil oitocentos e noventa e poucos, e no fim das contas qual seria mesmo a diferen\u00e7a? (...)\r\n\r\n\u003E Considero o momento do v\u00eddeo de \u0022Patience\u0022 em que ele [Axl Rose] faz a dancinha da cobra em c\u00e2mera lenta enquanto as m\u00e3os descem flutuando como se fossem penas num c\u00f4modo sem correntes de ar (...) o maior momento de um dan\u00e7arino branco e homem na era do v\u00eddeo. Desculpa, mas o que Axl faz \u00e9 ador\u00e1vel. Se eu conseguisse, faria isso at\u00e9 quando estivesse saindo para comprar alguma coisa. Acordaria todas as manh\u00e3s e dan\u00e7aria (...) e essa seria minha dan\u00e7a. E embora eu n\u00e3o possa afirmar que esta noite Axl esteja dan\u00e7ando t\u00e3o bem quanto no passado, que seus calcanhares se afastem deslizando do centro de equil\u00edbrio do corpo com tanta fluidez que parecem ter sido libertados de resist\u00eancia e peso por uma varinha de cond\u00e3o, e ainda que em determinados momentos possa fazer algu\u00e9m se lembrar de um tio caipira b\u00eabado tentando uma \u0022imita\u00e7\u00e3o de Axl Rose\u0022 ap\u00f3s uma festa de Super Bowl, ainda assim ele est\u00e1 se portando com dignididade. Est\u00e1 fazendo a dancinha de \u0022que saco acabo de derrubar uma bola de boliche no p\u00e9 agora vou girar com o pedestal do microfone\u0022; est\u00e1 fazendo a dancinha \u0022saltitando de lado com o pedestal do microfone como se fosse um guerreiro ritual segurando um bast\u00e3o e pronto para atacar\u0022 entre uma estrofe e outra. E ap\u00f3s cada verso ele encara a plat\u00e9ia com aqueles olhos estranhamente alarmados, mas ainda assim deprovidos de medo, como se tiv\u00e9ssemos acabado de surpreend\u00ea-lo no interior do covil, destro\u00e7ando uma carni\u00e7a. (...)","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Meus pais a assistiam todos os dias, presumo que n\u00e3o necessariamente motivados por algum interesse especial pela est\u00f3ria, mas como parte da rotina(-in\u00e9rcia) de toda fam\u00edlia brasileira de classe m\u00e9dia dos anos 80, assistir \u00e0 Rede Globo no final do dia (e \u00e9 com grande desalento que a gente percebe que nesse sentido pouco mudou de l\u00e1 para c\u00e1). Eu, que j\u00e1 n\u00e3o podia estar na rua jogando bola naquele hor\u00e1rio, ficava junto deles assistindo uma vez que n\u00e3o muito mais coisas me interessavam, naquela circunst\u00e2ncia, al\u00e9m de tentar estender para cada vez mais tarde o hor\u00e1rio de ir para cama, e dormir tarde era a atitude subversiva poss\u00edvel para um projeto de gente que mal sabia ent\u00e3o amarrar os cadar\u00e7os. Bom, voltando \u00e0 novela: havia na trama um lobisomem --- o inusitado disso n\u00e3o me passa desapercebido n\u00e3o, mas vou me abster de comentar porque j\u00e1 estou escrevendo demais e quero chegar logo ao ponto principal ---, criatura cujos pren\u00fancios de apari\u00e7\u00e3o me faziam sempre pedir para que minha m\u00e3e me avisasse quando ele tivesse enfim sa\u00eddo de cena, pois a essa altura eu costumava j\u00e1 estar com o rosto afundado numa amolfada, tal o terror que o bicho me despertava. \u00c9, al\u00e9m de subversivo, eu era medroso, e sabia que se me distra\u00edsse e visse o bicho, o sono me venceria s\u00f3 depois de um bom par de suadas horas com os olhos grudados nos contornos da porta na escurid\u00e3o do quarto. E finalmente a trilha-sonora: h\u00e1 uma m\u00fasica do Z\u00e9 Ramalho no disco (que tenho em vinil, recuperado de velhos ba\u00fas desprezados e cheios de tralhas diversas que lhe renderam camadas de poeira e fungos, somente extirp\u00e1veis na base do algod\u00e3o, detergente e \u00e1gua corrente) e essa do Z\u00e9 Ramalho era a m\u00fasica que tocava nas cenas do pavoroso lobisomem. Isso tudo \u00e9 uma lembran\u00e7a v\u00edvida e inesquec\u00edvel, mas de resto pouco me lembro do enredo de *Roque Santeiro*. No entando, as outras m\u00fasicas todas da trilha-sonora --- Faf\u00e1 de Bel\u00e9m, Elba Ramalho, Moraes Moreira, Dominguinhos, Roupa Nova ---, mesmo que totalmente desconectadas de seus temas e personagens na novela, est\u00e3o indelevelmente impressas na mem\u00f3ria, e \u00e9 algo desconcertante que tantos pequenos detalhes de suas melodias, refr\u00f5es, letras (\u0022O princ\u00edpio do prazer\/\u00c9 t\u00e3o simples de entender\/Para quem tem cora\u00e7\u00e3o aprendiz\u0022), batidas eletr\u00f4nicas, inflex\u00f5es vocais, e tamb\u00e9m alguns truques evidentemente constantes de alguma cartilha para a produ\u00e7\u00e3o de lotes de sucessos musicais naquele pa\u00eds que, nossa, se hoje ainda somos o que somos, o que \u00e9ramos ent\u00e3o em 1985?, \u00e9 realmente impressionante que esses detalhes fiquem enterrados em algum canto do c\u00e9rebro por anos e anos, \u00e0 margem de um certo n\u00edvel de atua\u00e7\u00e3o cerebral de \u0022linha de frente\u0022 e todo o seu tumultuado sistema referencial cuja rede s\u00f3 faz crescer com os anos e que est\u00e1 incansavelmente a trabalhar em todos os momentos de nossos dias --- enfim, detalhes como que mudos nessa consci\u00eancia permanentemente ativa mas prontos para serem despertados, incontinentis, a qualquer instante atrav\u00e9s de um determinado est\u00edmulo e ent\u00e3o apresentarem-se frescos, l\u00edmpidos, como que se estivessem operacionais e nunca esquecidos desde a primeira vez em que foram recepcionados e armazenados. Isso me surpreende sempre que me meto nessas expedi\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas musicais e como efeito colateral delas estou me convencendo, pouco a pouco, de algum dia estudar neuroci\u00eancia, s\u00f3 para tentar entender esses processos fascinantes, e tamb\u00e9m tentar entender porque que eu nunca serei capaz de esquecer de uma m\u00fasica do maldito Roupa Nova, onde se canta assim: \u0022Tan tan tan Bater na porta\/N\u00e3o precisa ver quem \u00e9...\u0022\r\n\r\n(E nem posso finalizar dizendo \u0022voltamos agora \u00e0 nossa programa\u00e7\u00e3o normal\u0022 pois me esperam ali, enquanto secam ao ar livre, vinis de Em\u00edlio Santiago e Gonzaguinha, entre outros menos confess\u00e1veis.)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiada [daqui](http:\/\/entretenimento.r7.com\/famosos-e-tv\/fotos\/veja-quem-fazia-coisa-escondida-na-madrugada-na-tv-20120430.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":488,"title":"Poster: Swans","post_timestamp":"2013-08-03T01:20:22+00:00","url":"2013_08_02_poster_swans","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Criado pelos mestres da [Viral Graphics](http:\/\/viralgraphics.bigcartel.com\/), e copiado [daqui](http:\/\/viralgraphics.bigcartel.com\/product\/swans-warsaw-gigposter).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":486,"title":"Discos do m\u00eas - Julho de 2013","post_timestamp":"2013-08-01T21:14:19+00:00","url":"2013_08_01_discos_do_mes_julho_de_2013","post":"Levando ao p\u00e9 da letra a proposta desta s\u00e9rie \u0022Discos do m\u00eas\u0022, o texto de hoje tende a ficar um tanto repetitivo, visto que minha audi\u00e7\u00f5es mais atentas e frequentes nessas quatro \u00faltimas semanas foram praticamente todas dedicadas a bandas j\u00e1 citadas nas \u00faltimas duas ou tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es. O que fazer? Refleti um pouco aqui e a op\u00e7\u00e3o que se afigurou mais simples seria a de n\u00e3o se dar ao trabalho e simplesmente deixar passar esse m\u00eas, economizando assim o tempo de todo mundo. Mas acabei optando por deixar aqui um relatozinho mesmo assim, para n\u00e3o perder o saud\u00e1vel h\u00e1bito de escrever e tamb\u00e9m, quem sabe, roubar um pouco do tempo que os leitores deste site de outra forma passariam trabalhando ou navegando no Facebook, o que pode vir a ser sem d\u00favida alguma a realiza\u00e7\u00e3o mais elogi\u00e1vel de toda a minha vida.\r\n\r\nA primeira coisa a ser dita \u00e9 que, tendo chegado aqui a encomenda com a linda edi\u00e7\u00e3o em vinil (triplo) do [The Seer](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_05_08_discos_do_mes_abril_de_2013), voltei a ouvir obsessivamente este disco extraordin\u00e1rio. N\u00e3o tenho muito o que acrescentar ao j\u00e1 dito antes; nenhuma revela\u00e7\u00e3o ou epifania nova, apenas o mesmo assombro, mas agora brotando a partir do disc\u00e3o negro girando fleumaticamente e da agulhinha sobre ele repousada e de cuja ponta \u00ednfima insondavelmente flui para as caixas de som esse sublime turbilh\u00e3o sonoro. O que deixa tudo ainda mais fascinante e intrigante, claro.\r\n\r\n(Pra n\u00e3o repetir a capinha do *The Seer* a\u00ed em cima, coloquei sua contra-capa, que \u00e9 at\u00e9 mais surpreendente do que a capa.)\r\n\r\nDa\u00ed no m\u00eas retrasado teve aquele [coment\u00e1rio sobre o Binaural](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_06_06_discos_do_mes_maio_de_2013), que finalizei com uma anota\u00e7\u00e3o para fazer em breve uma an\u00e1lise profunda sobre os discos menos legais do Pearl Jam. Era, evidentemente, uma brincadeira (n\u00e3o sou assim t\u00e3o desprovido de coisas mais interessantes para fazer), mas n\u00e3o \u00e9 que nos \u00faltimos dias eu fiquei com vontade mesmo de ouvir o disco azulzinho auto-intitulado? Botei pra tocar umas duas ou tr\u00eas vezes, para amadurecer finalmente uma opini\u00e3o sobre ele, coisa que minha pouca afei\u00e7\u00e3o inicial pelo \u00e1lbum sempre postergou. E o que eu conclu\u00ed \u00e9 que o CD entra naquela categoria meio enigm\u00e1tica e meio frustrante de discos cujas faixas (ou pelo menos uma maioria suficientemente representativa delas) s\u00e3o de fato apreci\u00e1veis --- um bom refr\u00e3o aqui outro acol\u00e1, um riff bacana aqui uma melodia boa l\u00e1, e at\u00e9 em dois ou tr\u00eas casos uma m\u00fasica verdadeiramente boa (*World Wide Suicide*, *Severed Hand*) ---, mas que de algum modo esse conjunto de m\u00fasicas, e acho que agora digo de modo definitivo, como \u00e1lbum, n\u00e3o me comove, pois soa um tanto uniforme, invari\u00e1vel, sem uma gra\u00e7a que lhe confira alguma identidade singular ou pelo menos exclusiva. Digamos, finalmente, sem meias palavras: o esfor\u00e7o de ouvir o disco inteiro n\u00e3o compensa muito. De certa maneira, \u00e9 o caso oposto ao *Yield*, que me atrai n\u00e3o pelas can\u00e7\u00f5es individualmente, mas pela unidade misticamente cativante.\r\n\r\nCito tamb\u00e9m o Pinback novo, *Information Retrieved*, que n\u00e3o chega aos p\u00e9s do [Blue Screen Life](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_06_06_discos_do_mes_maio_de_2013), e que por conta dessa compara\u00e7\u00e3o injusta j\u00e1 sai perdendo pontos, mas o disquinho, ao seu final, sempre convida humildemente para uma nova audi\u00e7\u00e3o, e aos pouquinhos ele vai ganhando o ouvinte. Assim como o seu antecessor, o *Autumn of the Seraphs*, n\u00e3o \u00e9 nada especial --- tem at\u00e9 uma m\u00fasica ali que sempre me d\u00e1 uma vontade danada de pressionar o skip, o que eu sou absolutamente incapaz de fazer, por quest\u00e3o de princ\u00edpios ---, mas \u00e9 bacaninha, e mant\u00e9m imaculada a discografia do Pinback, uma dessas bandas que d\u00e3o vontade de recorrer ao velho e meio rid\u00edculo clich\u00ea do \u0022se o mundo fosse um lugar justo, todo mundo escutaria o...\u0022 (ou era alguma coisa com \u0022as r\u00e1dios tocariam sempre...\u0022).\r\n\r\nE pra terminar, interrompendo o clich\u00ea e mantendo assim minha reputa\u00e7\u00e3o, troquei finalmente o [From the Vaults, Vol. 1](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_07_05_discos_do_mes_junho_de_2013) do Kylesa pelo seu \u00faltimo \u00e1lbum, o *Ultraviolet*. Antes tarde do que nunca! Disca\u00e7o.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":484,"title":"Poster: Pearl Jam","post_timestamp":"2013-07-30T01:24:54+00:00","url":"2013_07_29_poster_pearl_jam","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Poster criado pela [Emek](http:\/\/emek.net) e copiado [daqui](http:\/\/www.gigposters.com\/forums\/gallery-shows\/154492-art-musical-maintenance-8-goodfoot.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Sim, estou ciente de que o *Pet Sounds* representa para muita gente o momento em que a banda atingiu aquele objetivo citado acima, o da busca da perfei\u00e7\u00e3o --- o pr\u00f3prio ponto culminante incompar\u00e1vel da m\u00fasica pop ---, mas, sei l\u00e1, alguma coisa meio perfeita demais, calculada demais, sempre me brochou um pouco na audi\u00e7\u00e3o desse cl\u00e1ssico (evidentemente, sei reconhecer que \u00e9 um cl\u00e1ssico, apesar do meu desinsteresse). E ainda que *Surf\u0027s Up* traga tamb\u00e9m algumas daquelas famosas harmonias que parecem ter toda uma m\u00e9trica por tr\u00e1s, a coisa \u00e9 bem menos ostensiva, e o disco como um todo me soa bem mais espont\u00e2neo, de m\u00e9ritos mais diversos, mais naturais e menos meticulosamente articulados. Claro, \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de gosto, mas o fato \u00e9 que foi uma audi\u00e7\u00e3o meio incidental de *Surf\u0027s Up* no m\u00eas passado que me fez finalmente criar algum interesse pelos Beach Boys.\r\n\r\n**Bad Religion: The Gray Race**\r\n\r\nFui [ver o Bad Religion na semana passada](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_06_28_mixtape_81), e nos dias que antecederam o show, os \u00e1lbuns da banda tiveram alta rota\u00e7\u00e3o por aqui, com o *The Gray Race* provavelmente liderando a lista de mais tocados. Na \u00e9poca do seu lan\u00e7amento, em 1996, lembro de n\u00e3o ter gostado muito: minha impress\u00e3o inicial foi a de que, pela primeira vez ap\u00f3s a assinatura do contrato com a Atlantic Records (bra\u00e7o da Warner), a banda tinha dado uma arredondada em seu som, com a sempre question\u00e1vel inten\u00e7\u00e3o de torn\u00e1-lo mais atraente para o enorme p\u00fablico gen\u00e9rico t\u00edpico das grandes gravadores. Os dois primeiros discos gravados dentro da Atlantic s\u00e3o dois dos meus preferidos (*Recipe for Hate* e *Stranger Than Fiction*), neles n\u00e3o h\u00e1 sinais muito preocupantes de concess\u00f5es, mas o *The Gray Race* eu acabei n\u00e3o aprovando. E da\u00ed, tendo comprado o CD e tudo mais (naquela \u00e9poca a gente comprava discos sem necessariamente t\u00ea-los ouvido antes), acabei me desfazendo dele n\u00e3o muito tempo depois, trocando ou vendendo, j\u00e1 nem lembro direito. Bom, passados muitos anos, de posse de uma c\u00f3pia digital (eufemismo para \u0022mp3s baixadas da internet\u0022), at\u00e9 que o disco n\u00e3o me soou t\u00e3o mal. Ouvi para relembrar, depois ouvi de novo... No fim, subiu um pouco no meu conceito; talvez n\u00e3o o suficiente para figurar na metade de cima de um ranking dos meu preferidos da banda, mas certamente \u00e9 melhor do que a maioria dos lan\u00e7amentos que o sucederam (uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 este \u00faltimo, *True North*, que \u00e9 bem massa). Seus bons momentos s\u00e3o memor\u00e1veis, como *Punk Rock Song* (letra bobinha mas perfeita para um show), *The Walk*, *Parallel*, *Empty Causes* e *Come Join Us*. Quem sabe hoje talvez eu n\u00e3o teria me desfeito dele --- arrependimento, ali\u00e1s, de tal forma frequente que j\u00e1 tomei a decis\u00e3o de nunca mais me desfazer de disco nenhum que eu tenha comprado.\r\n\r\n**Kylesa: From the Vaults Vol. 1**\r\n\r\nE a cota de m\u00fasica pesada nesse m\u00eas que passou foi quase que totalmente preenchida pelo Kylesa. O rec\u00e9m-lan\u00e7ado *Ultraviolet* \u00e9 muito bom, ainda estou degustando-o aos poucos, mas eu gostei muito mesmo foi do anterior, a colet\u00e2nea de in\u00e9ditas e alternate versions *From the Vaults, Vol. 1*, que saiu no fim do ano passado. Um punhado de faixas nesta compila\u00e7\u00e3o permitem entrever que a banda j\u00e1 vinha ensaiando uma expans\u00e3o de seu som --- o cover de *Set the Controls for the Heart of the Sun*, por exemplo, \u00e9 bastante elucidativo sobre os interesses diversos do grupo ---, expans\u00e3o esta materializada de forma um pouco mais convicta finalmente no *Ultraviolet*. \u00c9 claro que muita gente da Igreja Ortodoxa do Metal Supremo vai torcer o nariz, mas eu, que n\u00e3o sou de igreja nenhuma e gosto muito da mistura de sons pesados e viajantes (ainda hei de achar uma express\u00e3o melhor do que \u0022viajante\u0022), estou adorando. Nem ouvi direito ainda o novo Neurosis, sequer comprei o novo Sabbath (que eu nem ia comprar, mas depois de ler muitas resenhas surpreendentemente positivas, resolvi dar uma chance), e tudo isso muito por culpa do Kylesa. ","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":473,"title":"Discos do m\u00eas - Maio de 2013","post_timestamp":"2013-06-06T12:51:24+00:00","url":"2013_06_06_discos_do_mes_maio_de_2013","post":"**Pearl Jam: Binaural**\r\n\r\nUm fato banal me fez tirar um *Binaural* bastante empoeirado da estante: o anivers\u00e1rio de 13 anos de seu lan\u00e7amento, completados dia 16 \u00faltimo. O Pearl Jam \u00e9 aquele som ultra-familar que funciona quase sempre (meu [perfil no last.fm n\u00e3o me deixa mentir](http:\/\/www.last.fm\/user\/fabricioboppre\/library)), mas tenho ouvido bem pouco ultimamente, e, normalmente, seria bem pouco prov\u00e1vel puxar para ouvir justo esse disco, que no meu ranking da discografia da banda figura na frente apenas do *Backspacer*. Mas a\u00ed vi o lance do anivers\u00e1rio, relembrei com incr\u00edveis detalhes do dia em que o comprei --- chegando em casa de noite, tirando o CD da mochila, abrindo o pl\u00e1stico, o cheiro particularmente forte do papel e da tinta do encarte, botando para tocar antes de sequer tirar os t\u00eanis --- e acabei ficando com vontade de ouvir o punhado de can\u00e7\u00f5es que h\u00e1 ali e que de fato gosto bastante. *Grievance*, *Sleight of Hand*, *Parting Ways*, *Soon Forget* s\u00e3o faixas bastante boas, que me fazem at\u00e9 considerar por alguns instantes que talvez o meu julgamento sobre o \u00e1lbum seja um pouco rigoroso demais... Ser\u00e1 que ele n\u00e3o merece ganhar a posi\u00e7\u00e3o logo acima, ocupada hoje pelo disco azulzinho auto-intitulado? Quest\u00e3o ser\u00edssima a ser analisada com muito cuidado nos pr\u00f3ximos dias.\r\n\r\n**Ramones: Acid Eaters**\r\n\r\nRevelei meu amor insofism\u00e1vel pelo *Acid Eaters* numa [mixtape recente](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2013_05_17_mixtape_75), ocasi\u00e3o em que eu passava novamente por uma semana embalada principalmente por esse disco. Uma coisa curiosa \u00e9 que os tr\u00eas sons que eu mais gosto do *Acid Eaters* s\u00e3o cantados pelo CJ Ramone: *Journey to the Center of the Mind*, *The Shape of Things to Come* e *My Back Pages*. \u00c9 claro que o Joey \u00e9 a voz do Ramones, mas sempre gostei bastante do pique das m\u00fasicas cantadas pelo CJ. E da\u00ed veio a not\u00edcia de que ele, CJ, toca aqui em Florian\u00f3polis agora em junho. Fiquei dias e dias com a d\u00favida: devo ir assistir pois \u00e9 o mais pr\u00f3ximo que poderei ver dos Ramones na minha vida --- ainda mais pr\u00f3ximo do que quando o Marky subiu no palco do Pearl Jam em Porto Alegre, em 2005, e tocaram *I Believe in Miracles*? Ou deixo passar justamente pelo mesmo motivo, ou seja, \u00e9 deprimente demais que s\u00f3 isso \u00e9 o mais pr\u00f3ximo que verei dos Ramones? A d\u00favida permanecia; a chance de v\u00ea-lo cantar esses tr\u00eas sons do *Acid Eaters* fazia a balan\u00e7a pender levamente para a primeira op\u00e7\u00e3o quando ent\u00e3o nova not\u00edcia: estarei viajando no dia do show. E nem deu de lamentar: na cidade onde estarei, exatamente no mesmo dia do CJ em Florian\u00f3polis, l\u00e1 vai rolar Bad Religion. Nada mal.\r\n\r\n**Pinback: Blue Screen Life**\r\n\r\nO Pinback \u00e9 uma dessas raras bandas que teve a manha de ter forjado um som para si --- quero dizer, at\u00e9 onde sei, eles assim o fizeram. Uma certa percep\u00e7\u00e3o auditiva-visual que se forma na minha cabe\u00e7a quando ou\u00e7o o *Blue Screen Life* e o *Summer in Abbadon*, meus dois preferidos da dupla, \u00e9 de um som todo estilha\u00e7ado e costuradinho. As vozes dobradas adicionam mais uma boa camada de delicadeza \u00e0 coisa toda, mas o resultado final n\u00e3o soa a excesso de elabora\u00e7\u00e3o nem nada; \u00e9 um som \u00edmpar para relaxar, ouvir na praia, ou para quaisquer fins de contempla\u00e7\u00e3o ou equil\u00edbrio de press\u00e3o arterial.\r\n\r\n**Midnight Oil: Diesel and Dust**\r\n\r\nFinalizo com o disco que mais devo ter ouvido nesses \u00faltimos dias, o cl\u00e1ssico de 1987 dos australianos do Midnight Oil, *Diesel and Dust*. Minha rela\u00e7\u00e3o com o Oil come\u00e7ou na inf\u00e2ncia, pelos mesmos motivos e circunst\u00e2ncias da grande maioria de seus f\u00e3s, por\u00e9m sempre acreditei que a banda possu\u00eda virtudes para angariar um p\u00fablico mais amplo do que aquele seu nicho praieiro --- e tamb\u00e9m para al\u00e9m, claro, do transit\u00f3rio nicho dos seguidores dos sucessos radiof\u00f4nicos. Mas por falar em sucesso radiof\u00f4nico, \u00e9 nesse LP que est\u00e3o as outrora onipresentes *The Dead Heart* e *Beds Are Burning*, faixas que tocaram tanto por aqui que at\u00e9 os nossos av\u00f3s devem se recordar de seus riffs e tchu-ru-ru-rus marcantes. No entanto, os sons mais legais do \u00e1lbum n\u00e3o foram usurpados pelas r\u00e1dios, como foram estas duas; me refiro a *Sell My Soul*, *Dreamworld*, *Whoah* e *Sometimes*, faixas excepcionais que podem perfeitamente fazer a alegria n\u00e3o somente de surfistas e ambientalistas, mas de qualquer um que goste de um rock ra\u00e7udo e invocado, de textura meio pop mas ro\u00e7ando no punk (e que tenha, claro, uma dose de toler\u00e2ncia --- ou alguma fixa\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica --- com os anos 80, de onde pouqu\u00edssima gente saiu inc\u00f3lume). Acho at\u00e9 que esses sons passam pelo teste do tempo com mais m\u00e9ritos do que as desgastadas *The Dead Heart* e *Beds Are Burning*, que hoje me parecem apreci\u00e1veis apenas quando ouvidas num intenso clima m\u00edstico de nostalgia. Mas ainda assim o disco todo \u00e9 muito bom, e se n\u00e3o fosse pelo *Breathe*, que a banda lan\u00e7aria quase uma d\u00e9cada depois, *Diesel and Dust* provavelmente ficaria como a obra-prima do Oil para a posterioridade, posterioridade que quem sabe ainda venha a conferir \u00e0 banda o seu devido valor.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":469,"title":"Poster: Built to Spill","post_timestamp":"2013-05-10T13:04:53+00:00","url":"2013_05_10_poster_built_to_spill","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Poster de [David Welker](http:\/\/www.davidwelker.com\/index.htm) e copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.com.br\/2013\/05\/built-to-spill-denver-poster-by-david-welker.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Minhas audi\u00e7\u00f5es encerravam-se j\u00e1 clamando pela pr\u00f3xima, compulsivamente, e n\u00e3o simplesmente porque o disco \u00e9 bom e eu queria ouvir de novo, mas porque, de algum modo (e me perdoem a viagem), parece que ele n\u00e3o tem fim: ele fica aberto e continua no pr\u00f3prio come\u00e7o, e assim voc\u00ea \u00e9 tragado por horas e horas para o universo fascinante daqueles sons. Ou talvez seja melhor dizer que ele parece n\u00e3o ter fim e tampouco come\u00e7o: \u00e9 como um peda\u00e7o recortado de algo maior, um trecho incompleto que te faz enfileirar audi\u00e7\u00f5es numa tentativa de, na base da repeti\u00e7\u00e3o --- descobrindo detalhes, multiplicando as experi\u00eancias ---, vislumbrar um pouquinho mais deste enorme e espantoso c\u00e9u. Como toda janela, como todo enquadramento, a coisa tem um limite... Mas que vis\u00f5es esta aqui proporciona.\r\n\r\n**Pink Floyd: Dark Side of the Moon**\r\n\r\nTamb\u00e9m marcou esse m\u00eas mais um bom punhado de audi\u00e7\u00f5es de Pink Floyd. Nem tanto do meu [\u00e1lbum favorito](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2012_11_01_discos_do_mes_outubro_de_2012), mas principalmente dos monumentais *Dark Side of the Moon* e *Wish You Were Here*. Com destaque para o primeiro, que \u00e9 uma destas obras raras de m\u00fasica (praticamente) incontest\u00e1vel, (quase) sobre-humana em sua forma (quase) perfeita e atemporal. Ali\u00e1s, dia desses escrevi que n\u00e3o me ocorria um fim de disco mais bonito do que o do *Monoliths \u0026 Dimensions*. Que cabe\u00e7a a minha! Pode um disco terminar melhor do que aquele que termina com a dobradinha *Brain Damage* e *Eclipse*?\r\n\r\n**Wolves in the Throne Room: Celestial Lineage**\r\n\r\nA coisa mais not\u00e1vel no Wolves in the Throne Room, na minha rela\u00e7\u00e3o com sua m\u00fasica, \u00e9 o poder que ela tem de evocar imagens. Essas vis\u00f5es s\u00e3o inicialmente despertadas pela [arte gr\u00e1fica dos discos](http:\/\/i5.photobucket.com\/albums\/y166\/Zenial\/lsd\/picm-n\/big\/malevole.jpg) e pelas [fotos promocionais da banda](http:\/\/sunnycellars.files.wordpress.com\/2011\/09\/wittttwolvesinthethroneroompng2.png), quase sempre ambientadas em [florestas sombrias](http:\/\/ilarge.listal.com\/image\/2540758\/936full-wolves-in-the-throne-room.jpg) com suas \u00e1rvores retorcidas banhadas por luz vacilante que pouco revela do ch\u00e3o incerto e do verde profundo, mas da\u00ed por diante, a m\u00fasica --- e meramente os sons, porque obviamente n\u00e3o d\u00e1 de entender nada do que \u00e9 cantado ---  \u00e9 incrivelmente poderosa em preencher e dar vida a este cen\u00e1rio. Ali\u00e1s, vida e morte: o ciclo cont\u00ednuo de nascimento e decomposi\u00e7\u00e3o retroalimentando-se num ambiente aparentemente quieto e im\u00f3vel, mas na verdade nunca totalmente silencioso e muito menos inerte. Um ambiente onde parece n\u00e3o haver vida, mas s\u00f3 h\u00e1 vida, e onde parece n\u00e3o haver morte, mas tamb\u00e9m ela est\u00e1 por toda parte. Ouvindo o Wolves, nem sobra espa\u00e7o para imaginar seres sobrenaturais nem quaisquer narrativas surreais, pelo menos n\u00e3o em primeiro plano: minha imagina\u00e7\u00e3o aponta mais para, por exemplo, as fabulosas descri\u00e7\u00f5es da magnanimidade da natureza que l\u00ea-se no livro *O Cora\u00e7\u00e3o das Trevas*, de Joseph Conrad, ou para a fotografia do filme *Anticristo*, de Lars von Trier, onde tudo que h\u00e1 de amea\u00e7ador parece estar sempre pacientemente \u00e0 espreita. Enfim, o ponto \u00e9: a selva sozinha \u00e9 capaz de prover beleza e terror mais do que suficientes, e uma trilha-sonora soberba para essa percep\u00e7\u00e3o ancestral --- embora meio esquecida neste s\u00e9culo, pelo menos na civiliza\u00e7\u00e3o ocidental --- vem sendo gravada pelo Wolves in the Throne Room desde 2004, sendo o \u00e1lbum *Celestial Lineage* o seu cap\u00edtulo mais recente.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":462,"title":"Poster: Bad Religion","post_timestamp":"2013-04-09T19:58:47+00:00","url":"2013_04_09_poster_bad_religion","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Criado pelo est\u00fadio [Mark 5](http:\/\/www.studiomark5.com) e copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.com.br\/2013\/04\/bad-religion-north-american-tour-poster-mark-5.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Mas eu queria conhecer mais m\u00fasica para esses momentos. Jack Rose funciona de vez em quando, um ou outro do Neil Young tamb\u00e9m... Mas acho que isso \u00e9 tudo que eu conhe\u00e7o. Se algu\u00e9m tiver captado o esp\u00edrito da coisa e tiver alguma dica, manda a\u00ed.\r\n\r\nO *Into The Wild* andou tocando bastante aqui, mas isso faz umas semaninhas j\u00e1. Depois, prevaleceram os discos de m\u00fasica mais, \u00e9... col\u00e9rica. Pesada. Bruta. Truculenta. Mal-educada. Come\u00e7ou com muitas doses de Unsane: ouvi e repeti quase todos os \u00e1lbuns da banda, e poderia escolher qualquer um para ilustrar esse post, mas escolhi o *Visqueen* pois \u00e9 o que estou escutando neste exato momento em que escrevo isso aqui. E da\u00ed, depois do Unsane, a coisa desandou. Revisitei a discografia do Sepultura, e redescobri como s\u00e3o animais o *Arise* e o *Chaos A.D.*, principalmente esse \u00faltimo. Indo at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias, catei o nov\u00edssimo do Facada, *Nadir*, sem sequer ouvir nada antes, pois com estes cearenses n\u00e3o tem erro. E valorizar o trabalho caprichad\u00edssimo do pessoal da [Black Hole](http:\/\/www.facebook.com\/blackholeproductions?fref=ts) \u00e9 sempre um prazer.\r\n\r\nMas \u00e9 claro que n\u00e3o d\u00e1 de ouvir durante o dia inteiro a tritura\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas auditivas que essas bandas promovem. Pelo menos uns 20% de audi\u00e7\u00e3o eu ainda quero ter quando chegar aos 60 anos. Da\u00ed que de noite andei recorrendo bastante ao Sunn O))), em especial, aos fant\u00e1sticos *Black One* e *Monoliths \u0026 Dimensions*. O vinil do *D\u00f8mkirke* tamb\u00e9m andou rolando, mas com esse disco eu tenho uma rela\u00e7\u00e3o um pouco mais fria, devido ao som levemente abafado --- sou daqueles que gosta de ouvir nitidamente e bem alto cada borbulhar das tenebrosas guitarras de Stephen O\u0027Malley e Greg Anderson. De todo modo, s\u00e3o todos discos que garantem sonhos lind\u00edssimos se voc\u00ea ouvi-los pouquinho antes de ir dormir. Meu preferido ainda \u00e9 o *Black One*, mas acho que o *Monoliths \u0026 Dimensions* tocou mais, pois tenho uma atra\u00e7\u00e3o profunda pela *Alice*, a faixa que fecha o \u00e1lbum. N\u00e3o me ocorre agora disco que termine de maneira mais bela do que esse. E dessa vez n\u00e3o emprego o termo de forma invertida: \u00e9 belo mesmo, no conceito cl\u00e1ssico tradicional da coisa. Belo para pessoas normais, entende?\r\n\r\nDe b\u00f4nus, outro som que rolou muito aqui, o lindo (dessa vez, lindo para n\u00f3s anormais) EPzinho que voc\u00ea pode ouvir abaixo:\r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022400\u0022 height=\u0022100\u0022 style=\u0022position: relative; display: block; width: 400px; height: 100px;\u0022 src=\u0022http:\/\/bandcamp.com\/EmbeddedPlayer\/v=2\/album=64457528\/size=venti\/bgcol=FFFFFF\/linkcol=4285BB\/\u0022 allowtransparency=\u0022true\u0022 frameborder=\u00220\u0022\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/theblackcoffins.bandcamp.com\/album\/iii-graveyard-incantation\u0022\u003EIII. Graveyard Incantation by The Black Coffins\u003C\/a\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Mas a vida segue, e nessas horas a m\u00fasica \u00e9 como aquele velho grande amigo que j\u00e1 n\u00e3o mora por perto: ela proporciona raros mas riqu\u00edssimos encontros.\r\n\r\nDa\u00ed que por conta da falta de tempo, m\u00eas passado eu j\u00e1 n\u00e3o publiquei o \u0022Discos do m\u00eas\u0022 e novamente esse m\u00eas n\u00e3o daria de elaborar nada muito digno, mas resolvi fazer um esfor\u00e7o e descrever brevemente alguns dos discos que renderam uns poucos mas bons momentos de descanso e consolo nas \u00faltimas semanas. Come\u00e7ando por um velho conhecido, o *Howl*, do BRMC, disco que me arrebatou desde a primeira audi\u00e7\u00e3o e que ainda hoje ou\u00e7o com muito deleite. H\u00e1 algo de muito individual e, n\u00e3o raro, assombroso em cada uma das can\u00e7\u00f5es deste \u00e1lbum que faz at\u00e9 com que --- num efeito tipo \u0022feiti\u00e7o contra o feiticeiro\u0022 --- ele soe meio retalhado, mesmo que as m\u00fasicas todas sigam uma mesma linha estil\u00edstica. Mas acho que isso \u00e9 s\u00f3 uma percep\u00e7\u00e3o subjetiva e isolada minha, que criei rela\u00e7\u00f5es estreitas com cada uma daquelas faixas, deixando um pouco em segundo plano a compreens\u00e3o desse conjunto de can\u00e7\u00f5es soberbas como um \u0022disco\u0022.\r\n\r\nUmas semanas atr\u00e1s andei ouvindo bastante tamb\u00e9m o recente *Sweet Heart Sweet Light*, do Spiritualized. Lembro que as primeiras audi\u00e7\u00f5es ap\u00f3s o seu lan\u00e7amento n\u00e3o chegaram a me entusiasmar muito, mas depois de ver um lind\u00edssimo show da banda no ano passado, aconteceu o que costuma acontecer comigo nessas ocasi\u00f5es: as m\u00fasicas cresceram, ouvi mais e mais o disco, e hoje gosto muito dele. E por falar em disco novo, tamb\u00e9m rodou bastante na vitrola o \u00faltimo do Grizzly Bear. \u00c9 um disco muito bom, mesmo que durante a sua audi\u00e7\u00e3o ecos de Radiohead aconte\u00e7am numa frequ\u00eancia um pouco maior do que eu julgaria saud\u00e1vel, e, por vezes, tamb\u00e9m o grau de similaridade desses ecos \u00e9 not\u00e1vel: a primeira faixa, *Sleeping Ute*, por exemplo, tem um certo deselance muito parecido com o de *Weird Fishes\/Arpeggi*. O curioso \u00e9 que eu s\u00f3 me dei conta dessa proximidade entre as duas bandas neste disco, que j\u00e1 \u00e9 o quarto do Grizzly Bear --- nas vezes que eu ouvi os tr\u00eas discos anteriores (n\u00e3o foram muitas, \u00e9 verdade), isso nunca me passou pela cabe\u00e7a, apesar de muitos j\u00e1 terem apontado a influ\u00eancia antes. Mas \u00e9 um disco muito bom, apesar de tudo.\r\n\r\nE em termos de m\u00fasica do s\u00e9culo passado, o que eu mais ouvi foi o *Islands*, do King Crimson. Eu sei que o r\u00f3tulo do rock progressivo grudado na testa do Crimson afasta provavelmente qualquer um nascido de 1980 para frente (e uma boa parcela do restante nascido em qualquer ano), mas esse \u00e9 um daqueles discos que, acredito eu, cont\u00e9m m\u00fasica que se ouvida sem preconceitos, como se voc\u00ea fosse um viajante intergal\u00e1tico fazendo uma r\u00e1pida parada na Terra e o escutando por acaso, enquanto vislumbra pela primeira vez as vistosas fauna e flora desta que \u00e9 certamente a mais bela ilha destas paragens do mar-universo --- nessas condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 quase imposs\u00edvel que se desgoste desses sons ostentosos e indom\u00e1veis.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":443,"title":"Discos do m\u00eas - Dezembro de 2012","post_timestamp":"2013-01-07T11:25:12+00:00","url":"2013_01_07_discos_do_mes_dezembro_de_2012","post":"**Tom Waits - Swordfishtrombones**\r\n\r\nSempre achei que a m\u00fasica do Tom Waits combina bem com essa \u00e9poca de fim-de-ano e toda sua atmosfera convulsiva feita de \u00f3cio, cerim\u00f4nias, \u00e1rvores de natal, refei\u00e7\u00f5es fartas, pessoas aumentando suas d\u00edvidas e a mis\u00e9ria humana geral --- normalmente vis\u00edvel al\u00e9m da janela --- temporariamente mantida fora do notici\u00e1rio e das conversas (o que s\u00f3 a torna ainda mais pesarosa para aqueles *antiquados* que n\u00e3o conseguem ignor\u00e1-la, nem mesmo nessa \u00e9poca). \u00c9poca de hist\u00e9rico deleite infantil e resguardado cinismo adulto; de exarceba\u00e7\u00e3o de alegrias genu\u00ednas ou fingidas e de tristezas veladas ou rejeitadas. E o Tom Waits na vitrola harmoniza ainda mais perfeitamente com todo esse louco per\u00edodo de ilus\u00e3o-com-hora-para-acabar coletiva quando se est\u00e1 no hemisf\u00e9rio norte, onde tudo isso vem acompanhado de bastante frio e muitas doses das bebidas alco\u00f3licas que ajudam a esquentar (n\u00e3o s\u00f3 a esquentar, claro). Lembro que no fim de 2011 eu coloquei uma do Tom Waits numa das \u00faltimas mixtapes do ano; no ano que acabou de passar eu n\u00e3o repeti o gesto, mas ouvi muito o *Swordfishtrombones*, que \u00e9 o meu preferido dele e o ant\u00eddoto perfeito para que a tirania da felicidade, especialmente ativa nessa \u00e9poca, n\u00e3o nos aborre\u00e7a demais. N\u00e3o fa\u00e7o id\u00e9ia de onde estarei no fim do ano de 2013, mas \u00e9 bem prov\u00e1vel que Tom Waits continue sendo minha trilha-sonora.\r\n\r\n**Sonic Youth - Smart Bar: Chicago 1985**\r\n\r\nEm tese, de um disco ao vivo lan\u00e7ado oficialmente, espera-se uma qualidade de grava\u00e7\u00e3o cristalina; um som limpo, completo e fiel que proporcione ao ouvinte a maior sensa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel de estar testemunhando *in loco* o show ali gravado, certo? Este *Smart Bar: Chicago 1985*, lan\u00e7ado pelo Sonic Youth no ano passado atrav\u00e9s do seu selo Goofin\u0027 Records, n\u00e3o \u00e9 fidedigno nesse aspecto t\u00e9cnico em particular, mas o disco funciona maravilhosamente bem mesmo assim. O som um pouco abafado \u00e9 compat\u00edvel com a m\u00fasica que o grupo gravava em est\u00fadio no meio da d\u00e9cada de 80, per\u00edodo em que acontecia a transi\u00e7\u00e3o dos primeiros discos mais obscuros, furiosos e barulhentos para aqueles ainda barulhentos mas um pouco mais *requintados* --- a m\u00fasica que dentro de mais alguns anos elevaria o Sonic Youth ao degrau mais alto poss\u00edvel (para uma banda que n\u00e3o faz concess\u00f5es). Outras limita\u00e7\u00f5es funcionam tamb\u00e9m para a identifica\u00e7\u00e3o do ambiente em que o show aconteceu: lugar pequeno, pessoas comprando cerveja, p\u00fablico bem pr\u00f3ximo do palco, e a precariedade geral que provavelmente impossibilitaria de qualquer jeito uma grava\u00e7\u00e3o perfeita. E, claro, a m\u00fasica --- a inconfund\u00edvel mistura de melodia, tens\u00e3o e caos que a banda j\u00e1 fazia de forma incompar\u00e1vel em 1985 --- prevalece e soa magn\u00edfica, fazendo deste o melhor disco ao vivo que ou\u00e7o em muitos, muitos anos.\r\n\r\n**Beatles - Let It Be**\r\n\r\nE tem o *Let It Be*, um dos discos mais emblem\u00e1ticos da hist\u00f3ria no que diz respeito a todos esses assuntos sobre grava\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o. O \u00faltimo disco dos Beatles --- ou pen\u00faltimo, se formos priorizar o fato de que ele foi gravado antes do *Abbey Road*, apesar de ter sido lan\u00e7ado depois --- \u00e9 o meu preferido do Fab Four, com algumas l\u00e9guas de dist\u00e2ncia para o meu segundo preferido (o branco). Seu tumultuado processo de concep\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o ocorreu quando a banda j\u00e1 vinha desmantelando-se, e mesmo a etapa posterior \u00e0 grava\u00e7\u00e3o, de mixagem e lan\u00e7amento, foi complicada: a banda vetou algumas vers\u00f5es do \u00e1lbum, alterou a ordem do tracklist, criou novas mixagens, e foi adiando o lan\u00e7amento por conta de todos esses imbr\u00f3glios, at\u00e9 que finalmente o disco saiu em maio de 1970, quando o grupo oficialmente j\u00e1 n\u00e3o existia mais. E da\u00ed que as opini\u00f5es sobre o *Let It Be* --- que inclusive mudou de nome; originalmente, ele se chamava *Get Back* --- s\u00e3o bem variadas, em especial sobre o trabalho do produtor Phil Spector, cujas camadas sonoras de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o que aparecem em algumas das m\u00fasicas costumam ser o motivo da maioria das opini\u00f5es negativas. Mas o neg\u00f3cio \u00e9 que eu ou\u00e7o o *Let It Be* original, ou\u00e7o essa vers\u00e3o mais recente chamada *Let It Be... Naked* (uma vers\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o mais simplificada, sem os salamaleques do Phil Spector), ou\u00e7o alguns bootlegs da s\u00e9rie *Get Back*, e para mim todos s\u00e3o igualmente fabulosos --- a for\u00e7a e a beleza daquelas composi\u00e7\u00f5es \u00e9 tal que bastaria os quatro beatles cantando e batucando com as m\u00e3os sobre os joelhos para termos um disco magistral. *The Long And Winding Road*, por exemplo, \u00e9 o tipo de m\u00fasica transcendente que, no final da audi\u00e7\u00e3o, eu nem lembro se tinha ou n\u00e3o uma orquestra\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da voz do Paul.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":441,"title":"Poster: Primus","post_timestamp":"2013-01-01T10:23:39+00:00","url":"2013_01_01_poster_primus","post":"PS: [Este tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3timo!](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.co.uk\/2012\/12\/tonights-primus-poster-from-san-francisco-zoltron-chuck-sperry.html)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiado [daqui](http:\/\/insidetherockposterframe.blogspot.co.uk\/2012\/12\/new-years-eve-primus-poster-san-francisco-chuck-sperry.html).","author":{"name":"Fabricio C. 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Aaaron Turner e seus parceiros anabolizaram o som dos discos anteriores com mais peso, mais volume e mais graves. \u00c9 a ep\u00edtome do que o Old Man Gloom j\u00e1 produziu, oferecendo muito peso nos momentos de tens\u00e3o e maior objetividade nas passagens *ambient*. A banda nunca se levou a s\u00e9rio e deixa impl\u00edcito que essa prerrogativa contribui para que se tire o melhor dela. Mesmo assim, *No* extrapola o que se conhecia deles at\u00e9 ent\u00e3o, fazendo com que esse \u00e1lbum *descompromissado* ficasse \u00e0 frente de trabalhos \u0022s\u00e9rios\u0022 de muita gente grande.\r\n\r\n**Horseback**: \u0022Half Blood\u0022 (Relapse) \r\nJenks Miller solidificou uma trajet\u00f3ria respeit\u00e1vel sob a alcunha Horseback. Desde *The Invisible Mountain* ele vem confirmando a habilidade de sobressair-se sobre a m\u00e9dia dos artistas que apoderam-se de diversos estilos e influ\u00eancias, cruzando-as com peso e metal. * Half Blood* soa mais conciso, encorpado, onde percebe-se um distanciamento da natureza individualista do projeto para um desenvolvimento do Horseback como banda. Tal iniciativa concedeu ares de acessibilidade ao disco embora n\u00e3o se perceba perda de v\u00ednculo com fatores comuns \u00e0 banda como os vocais r\u00edspidos e os elementos de noise e ambi\u00eancia. O \u00e1lbum, portanto, acomoda-se bem entre a experimenta\u00e7\u00e3o e palatabilidade, mostrando-se relevante em meio a tantas inciativas do metal moderno.\r\n\r\n**Trepaneringsritualen**: \u0022Deathward, To The Womb\u0022 (Merz Tapes \/ Black Horizons \/ Release The Bats) \r\nProjeto do sueco Thomas Ekelund, respons\u00e1vel pelo jovem e proeminente selo Bel\u00e4ten e com um curr\u00edculo extenso sob a alcunha Dead Letters Spell Out Dead Words. A proposta de Thomas aqui \u00e9 de usar sua experi\u00eancia com noise e eletr\u00f4nica a servi\u00e7o de sons ritual\u00edsticos (como o nome do projeto insinua), requerendo espa\u00e7o no pante\u00e3o dos melhores nomes da m\u00fasica ambiente obscura. Apesar de forjar todo seu arsenal a partir de manipula\u00e7\u00f5es eletr\u00f4nicas, Thomas consegue construir as massas sonoras como obras t\u00e1teis e org\u00e2nicas, chegando numa aura obscura, pesada e cinzenta. Seus vocais giram em torno de passagens que remetem a discursos pol\u00edticos, filmes de horror ou mantras religiosos, sempre imersos em manipula\u00e7\u00f5es sonoras que entrela\u00e7am-se com camadas vigorosas de distor\u00e7\u00e3o, ru\u00eddos e efeitos sonoros. Provavelmente o melhor registro de noise e ambient de 2012.\r\n\r\n**The Smashing Pumpkins**: \u0022Oceania\u0022 (Martha\u0027s Music) \r\nAp\u00f3s (alg)uma(s) dezena(s) de audi\u00e7\u00f5es de *Oceania*, percebi que o porqu\u00ea de, embora Billy Corgan n\u00e3o tivesse desistido de mim, eu quase havia desistido dele. *Oceania* \u00e9 um pedido de tr\u00e9gua, um convite \u00e0 gera\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s trint\u00f5es para que vislumbrassem uma forma de encarar a maturidade ciente de nossas limita\u00e7\u00f5es, do conv\u00edvio com os triunfos de outrora que nunca mais se projetar\u00e3o. A op\u00e7\u00e3o de Corgan, levei essas dezenas de audi\u00e7\u00f5es para perceber, foi \u00edntegra: instigou sua voca\u00e7\u00e3o criativa at\u00e9 onde conseguiu, despindo-a do amargor e do cinismo que permeou seu trabalho desde que os *Classic Pumpkins* encerraram atividades. Da\u00ed surgiu um trabalho sincero, leve e focado, que embora carregue algumas defici\u00eancias comuns \u00e0 era p\u00f3s-Pumpkins original, \u00e9 sustentado por m\u00fasicas fortes o suficiente para justificar a iniciativa. Se em *Zeitgeist*, por exemplo, t\u00ednhamos um Corgan jogando na defensiva, lutando contra um mundo de desconfian\u00e7as e incredulidade, em *Oceania* h\u00e1 um mentor ciente do que se pode prop\u00f4r sob a alcunha The Smashing Pumpkins em pleno 2012, evitando ressuscitar clich\u00eas do passado, por\u00e9m, brindando o ouvinte com passagens, melodias e solos inconfund\u00edveis. O fato de contar com parceiros muito mais jovens (e esfor\u00e7ar-se para comunicar aos ouvintes que trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o colaborativa) tirou um pouco do peso de sua figura, nutrindo o \u00e1lbum de um esp\u00edrito renovado, iluminando sua figura como a de um experiente condutor no comando de uma nova m\u00e1quina sonora. O \u00e1lbum inicia muito bem, derrapa um pouco no seu miolo para retomar a inspira\u00e7\u00e3o pulsante em sua etapa final. M\u00fasicas como *Violet Rays*, *Pale Horse* e *Inkless* s\u00e3o das melhores que Billy escreveu desde *TheFutureEmbrace*. *Oceania* me fez pensar sobre como os \u00eddolos de outrora envelhecem, fecham-se e t\u00eam de se reinventar frente \u00e0 essa realidade recrudescida. Acabei me dando conta que, do lado de c\u00e1 do balc\u00e3o, estou neste mesmo processo.\r\n\r\n**S\/V\\R**: \u0022C\u00e9l\u00e9bration Noire\u0022 (Handmade Birds) \r\nO *S\u00e9v\u00e9re* \u00e9 metade do Menace Ruine, dupla que h\u00e1 alguns anos coloca na pra\u00e7a alguns dos mais inovadores crossovers entre peso e eletr\u00f4nica, ao ponto de muitos se surpreenderem com o fato da dupla n\u00e3o usar guitarras, apenas equipamentos eletr\u00f4nicos. Mas o projeto aqui em quest\u00e3o \u00e9 obra de S. de La Moth, respons\u00e1vel pela instrumenta\u00e7\u00e3o do MR, que em alguns pontos deixa-se entrela\u00e7ar com seu outro trabalho: n\u00e3o h\u00e1 economia em distor\u00e7\u00e3o, sujeira e obscuridade. Mas enquanto o Menace Ruine foca na m\u00fasica ritual\u00edstica, materializada pelos vocais pag\u00e3os de Genevi\u00e8ve, o S\/V\\R mescla noise, post punk e new wave g\u00f3tica num turbilh\u00e3o de estrid\u00eancia e hecatombes sonoras. A audi\u00e7\u00e3o do cassete \u00e9 um montante de diferentes extremismos, conduzidos ininterruptamente em 220V.\r\n\r\n**Eagle Twin**: \u0022The Feather Tipped The Serpent\u0027s Scale\u0022 (Southern Lord) \r\nSe atualmente vemos a necessidade de subverter ao m\u00e1ximo as f\u00f3rmulas do metal para que uma banda consiga sobressair-se a suas influ\u00eancias ou ao menos atingir seu cent\u00edmetro de diferencial, h\u00e1 casos onde a pr\u00f3pria ess\u00eancia da banda permite que ela soe diferente sem necessariamente degladiar-se com os estilos que desenvolve. O Eagle Twin carrega um DNA torto em sua ess\u00eancia, escancarado pelos vocais b\u00eabados de Gentry Densley e impulsionado pela necessidade natural de escrever riffs e ritmos inconstantes, quebrados. Isso lhes concede isen\u00e7\u00e3o para escolher uma roupagem tradicional para seu som, guitarra pesad\u00edssima e bateria, pois a qu\u00edmica toda acontece na base dessa combina\u00e7\u00e3o, fazendo o ouvinte trafegar por caminhos repletos de solavancos e mudan\u00e7as de ritmo sob os bra\u00e7os reconfortantes da heran\u00e7a met\u00e1lica de um Black Sabbath que contratou Tom Waits para assumir os vocais.\r\n\r\n**Wreck And Reference**: \u0022No Youth\u0022 (Flenser) \r\nEscutando *No Youth* imagina-se o pior: um por\u00e3o imundo repleto de infiltra\u00e7\u00f5es, cheiro de mofo, tubula\u00e7\u00e3o enferrujada, um usu\u00e1rio de drogas pesadas proferindo desencantos, a bateria em intermin\u00e1vel frenesi e um sem-fim de guitarras. Por\u00e9m, a realidade do Wreck And Reference \u00e9 surpreendente: dois moleques de apartamento, *nenhuma* guitarra e provavelmente um quarto de faculdade com a roupa de cama limpa. A combina\u00e7\u00e3o desses elementos faz de *No Youth* um trabalho inusitado, onde convivem (ou disputam espa\u00e7o) doses de metal, noise, *ambient* e sujeira, resultando numa sonoridade madura e visceral. Mas a ang\u00fastia dos vocais \u00e9 o que se sobrep\u00f5e a tudo, estabelecendo uma paisagem catastr\u00f3fica e insol\u00favel ao resultado final. Incr\u00edvel verificar que com recursos t\u00e3o econ\u00f4micos essa dupla chegou em um desfecho t\u00e3o elaborado e relevante.\r\n\r\n**DIIV**: \u0022Oshin\u0022 (Captured Tracks) \r\nO selo Captured Tracks notabilizou-se por selecionar uma nova gera\u00e7\u00e3o de jovens m\u00fasicos interessados em realinhar a d\u00e9cada atual com o som alternativo\/eletr\u00f4nico dos anos 80 e 90. Pense em um pouco de Creation, 4AD e se come\u00e7a a imaginar as escolas que essas bandas celebram. O DIIV \u00e9 uma banda jovem com integrantes p\u00f3s-p\u00faberes, chuto algo circundando a faixa dos 20 anos de idade. Entretanto, o conte\u00fado musical chega maduro, definido e embasado o suficiente para fazer de *Oshin* um trabalho significativamente conciso que projeta-se al\u00e9m de um promissor disco de estreia. O \u00e1lbum cheira a in\u00edcio de anos 90: bateria datada, clima garageiro, muitas e muitas guitarras. Dif\u00edcil at\u00e9 mesmo apontar qual banda o DIIV incensa pois h\u00e1 a impress\u00e3o de que eles foram influenciados por todas as boas bandas do in\u00edcio daquela d\u00e9cada. J\u00e1 na entrada, em *Druun (part 1)* sobressaem-se belas melodias, estabelecendo interesse suficiente no que estar por vir. Seguem-se ent\u00e3o um leque de diferentes tons, ritmos e propostas, sempre interligados pelas \u00f3timas guitarras e vocais, onde cada faixa tem l\u00e1 seu clima particular e um padr\u00e3o de qualidade muito acima da m\u00e9dia. O DIIV n\u00e3o poupa o ouvinte de hits instant\u00e2neos como *How Long Have You Know*, *Follow*, *Sometime*) al\u00e9m de outros puxados para a introspec\u00e7\u00e3o (*Earthboy*, *Home*) e, se n\u00e3o bastasse, *Oshin* \u00e9 transit\u00e1vel do come\u00e7o ao fim ininterruptamente, n\u00e3o raro sugestionando uma nova audi\u00e7\u00e3o.\r\n\r\n**Sunn O)))**: \u0022Rehearsal Demo Nov 11 2011\u0022 (Ideologic Organ \/ Southern Lord) \r\nNum ano onde, ao menos na esfera independente, os conceitos de demos e *full-lenght* se entrela\u00e7aram, o Sunn O))) aproveitou um per\u00edodo de entressafra criativa para fazer algumas turn\u00eas e, no embalo, disponibilizou esse LP \u00e0s testemunhas interessadas. S\u00e3o tr\u00eas faixas que remetem aos prim\u00f3rdios de *The Grimmrobe Demos*: apenas guitarras, timbres, distor\u00e7\u00f5es e muito peso. Pequenos *samples* do ca\u00f3tico filme *Posetitel Muzya* contextualizam a parede sonora num universo r\u00edspido, bruto e amargo, numa guinada inversa ao intrincado *Monoliths\u0026Dimensions* que reafirma a relev\u00e2ncia da dupla no cen\u00e1rio pesado contempor\u00e2neo. Muitos acham que as montanhas de ondas distorcidas criadas pelos f\u00e3s pode ser emulada por qualquer adolescente com um pedal, uma guitarra e uma (alta) caixa de som. Mas \u00e9 na ess\u00eancia do seu som, reafirmada aqui, que o Sunn O))) prova o contr\u00e1rio.\r\n\r\n**Guilty Ghosts**: \u0022Veils\u0022 (Words \u0026 Dreams) \r\nO Guilty Ghosts \u00e9 literalmente um projeto-de-um-homem-s\u00f3, Tristan O\u0027Donnell. A partir de uma *drum machine*, uma guitarra e um sem-fim de pedais e efeitos o m\u00fasico cria belas texturas e melodias que acomodam-se entre o *post rock*, o *ambient\u0022 e o \u0022dream pop\u0022. Habilidoso ao escolher os timbres de seu instrumento e de seus equipamentos, ele \u00e9 sagaz em harmonizar belas paisagens sonoras com guitarras distorcidas, n\u00e3o sem prestar tributo a bandas como Cocteau Twins, quando conta com vocais femininos em *Everlasting Evening* e *Tinted Windows* e flerta com c\u00e9lulas de pop. *Veils* ainda conta com um disco b\u00f4nus, uma *mixtape* pirata compilada por Tristan reunindo influ\u00eancias como Explosions In The Sky, Zola Jesus, The Cure e Tamaryn que curiosamente foi t\u00e3o ou mais escutada que o pr\u00f3prio disco.\r\n\r\n**OM**: \u0022Advaitic Songs\u0022 (Drag City) \r\nO OM sempre carregar\u00e1 consigo a carga do Sleep, um vez que seu mentor foi respons\u00e1vel por participar da cria\u00e7\u00e3o de discos incensados como o seminal *Dopesmoker*. Paralelamente, o uso da *cannabis* \u00e9 igualmente indissoci\u00e1vel de sua m\u00fasica, ao ponto dos ouvintes relacionarem as audi\u00e7\u00f5es dos trabalhos do OM (e, claro, do Sleep) com o consumo da referida erva. Escutando o OM percebe-se que o trabalho de Al Cisneros enveredou desde o fim do Sleep para o caminho *espiritual* dessa pr\u00e1tica, relacionando m\u00fasica, estados lis\u00e9rgicos e cultura religiosa oriental, n\u00e3o necessariamente de forma objetiva, mas incitando um clima de estados alterados que esses caminhos proporcionam. Entretanto, o grosso da sua discografia entrela\u00e7a-se em torno desses temas, ao ponto de um mesmo disco perder a linha de andamento tornando-se exaustivo ou mesmo a pr\u00f3pria discografia do OM pender para a repeti\u00e7\u00e3o. *Advaitic Songs* quebra essa tend\u00eancia, revisitando os conceitos que definem a banda, denotando ares de frescor \u00e0s longas faixas que mais parecem mantras p\u00f3s-modernos. Seja utilizando bem-vindos vocais femininos, instrumenta\u00e7\u00e3o \u00e9tnica ou encontrando os trechos certos para aplicar suas distor\u00e7\u00f5es, em *Advaitic Songs* o OM supera-se, oferecendo mudan\u00e7as de ritmos e sonoridades ao dobrar de esquinas sem cair na redund\u00e2ncia.\r\n\r\n**John Frusciante**: \u0022Letur-Lefr\u0022 \/ \u0022PBX Funicular Intaglio Zone\u0022 (Record Collection) \r\nAp\u00f3s um rompante de LPs e EPs entre 2004 e 2005, John Frusciante lan\u00e7ou *The Empyrean* em 2009 onde deixou evidente o peso que a m\u00fasica progressiva passou a imprimir sob seu trabalho. Suas participa\u00e7\u00f5es nos discos de Omar Rodriguez-Lopez e Mars Volta escaparam para sua carreira solo, tirando um pouco do brilho que a casualidade de seus discos anteriores tinham. Ap\u00f3s um hiato de tr\u00eas anos, Frusciante trouxe \u00e0 mesa uma vers\u00e3o ainda mais progressiva do que fez em 2009, descaracterizando significativamente sua obra e abrindo um novo universo para seu trabalho e, por qu\u00ea n\u00e3o, para a m\u00fasica contempor\u00e2nea. Baseado em t\u00e9cnicas matem\u00e1ticas de estrutura\u00e7\u00e3o de sua m\u00fasica, John *desaprendeu* a comp\u00f4r e executar seu instrumento, passando uma boa parte desse per\u00edodo desenvolvendo uma nova forma de escrever m\u00fasica. O resultado disso \u00e9 uma abordagem dif\u00edcil de relacionar com o que se ouve por a\u00ed, talvez podendo-se ligar \u00e0 escola de gente como o Robert Fripp, onde John revela-se contido em complexas estruturas musicais que operam como que por mecanismos l\u00f3gicos. Mesmo assim, atropelam-se camadas complexas de sintetizadores e batidas que aparentemente dessincronizadas, fazem sentido no contexto geral das can\u00e7\u00f5es. Igualmente surpreendente \u00e9 o flerte com o hip-hop, segundo John, um g\u00eanero que mostrou-se efetivo ao receber sua nova forma de express\u00e3o. O disco tem todo o potencial para frustrar os f\u00e3s habituais mas se \u00e9 dif\u00edcil elencar suas qualidades com eloqu\u00eancia, \u00e9 fato que escut\u00e1-lo prop\u00f5e ao ouvinte a revis\u00e3o de como a m\u00fasica pode ser abordada e apresentada com o tanto que se fez ao longo das d\u00e9cadas.\r\n\r\n**KTL**: \u0022V\u0022 (Editions Mego \/ Daymare) \r\nPeter Rehberg e Stephen O\u0027Malley j\u00e1 est\u00e3o a alguns discos da proposta original do projeto, que era prover trilhas sonoras para pe\u00e7as teatrais de Gis\u00e8le Vienne. Ainda no disco anterior, \u0022IV\u0022, o duo passou a reunir o conjunto das faixas num conceito de \u00e1lbum, submetendo-as ao exerc\u00edcio de faz\u00ea-las soar com a particularidade e unicidade necess\u00e1ria, ao contr\u00e1rio do processo inicial do KTL onde o compromisso musical limitava-se a preencher o sil\u00eancio com camadas de sons esparsos, embora sempre sobrecarregados de tens\u00e3o. Em *V* o KTL chega em seu melhor momento, com a dupla encontrando seus melhores caminhos de intera\u00e7\u00e3o e, fortemente norteada por refer\u00eancias da *musique concr\u00e8te*, atinge o equil\u00edbrio entre voca\u00e7\u00e3o composicional, concis\u00e3o musical e utiliza\u00e7\u00e3o de recursos. Com isso ela perdeu um pouco do car\u00e1ter repetitivo que por vezes cansava o ouvinte, propondo ambienta\u00e7\u00f5es mais elaboradas e muito bem estruturadas. Destaque para *Phill 2* e suas orquestra\u00e7\u00f5es imponentes.\r\n\r\n**Menace Ruine**: \u0022Alight In Ashes\u0022 (Sige \/ Profound Lore) \r\nN\u00e3o h\u00e1 uma quebra com o que esse duo apocal\u00edptico fez em seus tr\u00eas *full lenghts\u0022 anteriores, na verdade, h\u00e1 uma continuidade dessa trajet\u00f3ria, por vezes induzindo a percep\u00e7\u00e3o de que novas sa\u00eddas possam ter se esgotado. Mas os recursos sonoros de  S. de La Moth s\u00e3o t\u00e3o contundentes e abrasivos que, contrastados com a rusticidade dos vocais de Genevi\u00e8ve, n\u00e3o podem passar despercebidos num balan\u00e7o do que deve ser escutado em 2012. \u00c9 o t\u00edpico caso onde mais doses do que j\u00e1 escutamos s\u00e3o bem-vindas, pois nem tudo precisa ser inovador ao extremo, mesmo que em *Alight In Ashes* prepondere um clima menos ca\u00f3tico que o disco anterior.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"(o pr\u00f3prio autor)","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":434,"title":"Discos do m\u00eas - Novembro de 2012","post_timestamp":"2012-12-11T23:17:07+00:00","url":"2012_12_11_discos_do_mes_novembro_de_2012","post":"**Walkmen - Heaven**\r\n\r\nContando a partir de 2002, quando saiu o primeiro disco do Walkmen, a cada dois anos exatos tivemos sempre um novo lan\u00e7amento destes nova-iorquinos. E quase t\u00e3o certa quanto a aposta de que o pr\u00f3ximo disco deles sai em 2014, \u00e9 a de que ser\u00e1 um disco legal, afinal, s\u00e3o seis LPs at\u00e9 aqui e eles ainda n\u00e3o erraram. \u00c9 uma discografia de respeito, e mesmo que n\u00e3o seja suficiente para inseri-los no c\u00e2none da m\u00fasica ocidental, ao menos j\u00e1 serviu para distingui-los com seguran\u00e7a de uma certa leva de bandas surgidas no come\u00e7o deste mil\u00eanio cujo estridente sucesso chamava tanto a aten\u00e7\u00e3o quanto a absoluta frivolidade. Ali\u00e1s, eu me pergunto, o Strokes existe ainda? N\u00e3o fa\u00e7o id\u00e9ia e nem me importo. Voltando ao Walkmen, este novo LP n\u00e3o s\u00f3 d\u00e1 continuidade a esta carreira como ainda cuida de subir um pouco mais o n\u00edvel: pra mim, \u00e9 o melhor disco dos caras. Tenho a impress\u00e3o de que est\u00e1 mais do que na hora de n\u00f3s \u00f3rf\u00e3os do R.E.M. encerrarmos o luto.\r\n\r\n**Barn Owl - Ancestral Star**\r\n\r\nA coisa come\u00e7a como uma c\u00f3pia bastante escancarada de Earth --- uma c\u00f3pia apreci\u00e1vel, \u00e9 verdade, mas ainda assim, uma c\u00f3pia. A segunda m\u00fasica, *Visions in Dust*, \u00e9 a prova ineg\u00e1vel do crime. O mal-estar, contudo, n\u00e3o dura mais do que tr\u00eas ou quatro faixas: os sons de *Ancestral Star* logo come\u00e7am a variar, as notas come\u00e7am a esticar e a perdurar mais longamente, e mais instrumentos, incluindo viol\u00f5es, d\u00e3o as caras. Um certo \u003Ci\u003ECormac-McCarthy-rock\u003C\/i\u003E, inven\u00e7\u00e3o de Dylan Carlson, ainda \u00e9 o cerne do \u00e1lbum, com sua atmosfera de paisagem ampla e \u00e1rida dominando boa parte das faixas, mas a este panorama terreno se junta um infinito c\u00e9u noturno que abriga ainda mais amea\u00e7as e mist\u00e9rios. E o disco termina bem, muito bem.\r\n\r\n**Yellowman - Mister Yellowman**\r\n\r\nDesde a \u00e9poca do surrado porta-fitas-K7 preto que eu usava para levar minha m\u00fasica de um lado para o outro, sempre tive um espa\u00e7o reservado para os sons da Jamaica. Nunca chegaram a ocupar \u003Ci\u003Emais espa\u00e7o\u003C\/i\u003E do que outros tipos de som --- e hoje ocupam proporcionalmente ainda menos do que antigamente ---, mas nem que seja pelo princ\u00edpio, sempre tive discos de reggae. Voltando \u00e0 \u00e9poca das fitas K7: lembro de uma em particular, h\u00e1 muito perdida, que trazia gravado, al\u00e9m das faixas b\u00f4nus aleat\u00f3rias que as fitinhas de 60 minutos quase sempre permitiam (algumas vezes eu aproveitava para fazer \u0022backups\u0022 das minhas m\u00fasicas preferidas, nesses espa\u00e7os vagos), trazia gravado um \u00e1lbum de um cara conhecido como Yellowman. Eu gostava bastante daquela fitinha, mas infelizmente n\u00e3o consigo me lembrar do t\u00edtulo do \u00e1lbum. Na verdade, talvez eu nunca tenha sabido, pois acontecia bastante dessas fitinhas serem c\u00f3pias de c\u00f3pias de c\u00f3pias e trazerem rabiscos incompletos ou n\u00e3o-confi\u00e1veis para qualquer refer\u00eancia al\u00e9m do nome da banda, e neste caso isso explicaria minha mem\u00f3ria (normalmente boa para assuntos musicias) completamente nula em rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo daquele \u00e1lbum. Da\u00ed que dia desses topei com um disco do Yellowman chamado *Mister Yellowman* e resolvi escut\u00e1-lo, na esperan\u00e7a de reencontrar as can\u00e7\u00f5es da velha fitinha perdida. Trata-se de um disquinho bobo de reggae oitentista, p\u00f3s-Bob Marley, quando o estilo j\u00e1 estava perdendo o que tinha de rebelde e enveredava por outros caminhos --- Yellowman, por exemplo, \u00e9 muito citado como um dos precurssores do dancehall e do ragga. Bobo como provavelmente vai se revelar aos meus ouvidos atuais aquele disco que eu tinha gravado, quando eu enfim escut\u00e1-lo novamente. Mas, apesar desse julgamento negativo, acabei ouvindo este *Mister Yellowman* mais umas tr\u00eas ou quatro vezes nesses \u00faltimos dias, por causa de uma maldita m\u00fasica que eu ainda n\u00e3o consegui tirar da cabe\u00e7a. Ela se chama *Yellowman Getting Married*, e se a id\u00e9ia de voc\u00ea se pegar distra\u00eddo cantarolando uma m\u00fasica absolutamente apalermada e viciante n\u00e3o lhe agrada nada, ent\u00e3o eu lhe recomendo n\u00e3o ouvir este disco.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Novos ou velhos, tanto faz; aqueles que me inspiraram a escrever algumas linhas. A id\u00e9ia surgiu como uma maneira de amenizar minha frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ter mais tempo\/disposi\u00e7\u00e3o para escrever resenhas --- n\u00e3o que algu\u00e9m se importe, mas eu gostava, e eu ainda sinto vontade de escrev\u00ea-las, e vez ou outra ainda anoto id\u00e9ias que surgem enquanto eu ou\u00e7o meus discos, mas hoje em dia isso raramente evolui para um texto que possa ser publicado ali na se\u00e7\u00e3o de resenhas. Ent\u00e3o, enquanto isso n\u00e3o muda, e para n\u00e3o jogar fora essas id\u00e9ias, acho que um canalzinho bacana para elas pode ser essa compila\u00e7\u00e3o mensal. Vamos \u00e0 primeira edi\u00e7\u00e3o:\r\n\r\n**Pink Floyd - Meddle**\r\n\r\nMeu preferido do Pink Floyd rodou algumas vezes aqui na \u00faltima semana. Acho que esse disco dificilmente aparece t\u00e3o bem cotado assim nas listas de preferidos dos floydman\u00edacos, mas tudo bem. Ali\u00e1s, nem posso ser considerado membro dessa congrega\u00e7\u00e3o, pois enquanto um floydman\u00edaco iniciante faixa-branca tem 50 bootlegs da banda, eu acho que tenho s\u00f3 um. Mas voltando ao disco: adoro a sequ\u00eancia de can\u00e7\u00f5es mais simples (e quase todas ac\u00fasticas) que formam o seu miolo, principalmente a linda *A Pillow of Winds*. A longa faixa final, *Echoes*, equilibra magistralmente o lado progressivo\/experimental do Pink Floyd (lado esse que no fim das contas nem \u00e9 t\u00e3o predominante assim na obra do Floyd, percep\u00e7\u00e3o descabida que faz com que muitos deixem passar por suas vidas esta fant\u00e1stica banda) com belas doses de melodia e mist\u00e9rio --- uma transi\u00e7\u00e3o entre os sons mais herm\u00e9ticos de *Ummagumma* e *Atom Heart Mother*, estes sim discos bem desafiantes, para aqueles soberbos e bastante populares de *Wish You Were Here* e *The Dark Side of the Moon*. E n\u00e3o bastasse tudo isso, *Meddle* tem ainda uma faixa onde Gilmour canta acompanhado por um c\u00e3o.\r\n\r\n**Patti Smith - Banga**\r\n\r\nComprei a edi\u00e7\u00e3o especial do novo disco da Patti Smith, e \u00e9 o tipo de coisa na qual eu ainda invisto dinheiro com gosto. O CD vem encartado em um bonito livrinho de capa dura no qual Smith descreve todo o processo criativo por tr\u00e1s de sua concep\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o: as viagens que fez, os sonhos que teve, os livros que leu, as pessoas com quem colaborou, tudo ilustrado por fotos e pelas letras das can\u00e7\u00f5es. O disco \u00e9 bem bacana e mostra uma artista onde, mais do que nunca, as facetas \u0022m\u00fasica\u0022, \u0022poetisa\u0022 e \u0022escritora\u0022 fundiram-se e s\u00e3o poucos distingu\u00edveis. Isso est\u00e1 evidente principalmente no cantar, que em muitos momentos est\u00e1 mais para a declama\u00e7\u00e3o de poesia com fundo musical do que para m\u00fasica convencional. A religiosidade de Smith aparece bastante, mas nunca como louva\u00e7\u00e3o ou restri\u00e7\u00e3o; santos e igrejas s\u00e3o para Smith express\u00f5es art\u00edsticas e de f\u00e9 a serem admiradas, objetos de inspira\u00e7\u00e3o, e nunca s\u00edmbolos dogm\u00e1ticos. \u00c9 para o homem e para a mulher, criadores de hist\u00f3rias e catedrais --- mas tamb\u00e9m de guerras e assassinatos --- que Smith canta e dedica sua devo\u00e7\u00e3o (ou rebeli\u00e3o, como qualquer um que j\u00e1 viu um show dela sabe) inpiradora. Essa edi\u00e7\u00e3o traz ainda uma faixa-b\u00f4nus, *Kids*, escrita em homenagem ao falecido fot\u00f3grafo Robert Mapplethorpe, cuja parceria com Smith quando ambos ainda eram jovens aspirantes a artistas --- quando ainda nem sabiam que tipo de artistas queriam ser --- est\u00e1 descrita no \u00f3timo livro de mem\u00f3rias *Just Kids*.\r\n\r\n**Ozzy Osbourne - Ozzmosis**\r\n\r\nEm 1995, quando *Ozzmosis* foi lan\u00e7ado, eu j\u00e1 era fan\u00e1tico pelo Black Sabbath, mas n\u00e3o conhecia nada da carreira-solo do Ozzy. Aproveitando a ocasi\u00e3o, resolvi enfim preencher a lacuna e aluguei o disco rec\u00e9m-sa\u00eddo do forno. Cheguei em casa, ouvi o CD e n\u00e3o pude acreditar em como era ruim --- seria poss\u00edvel ser aquele o mesmo cara que canta em obras-primas como *Master of Reality* e *Vol. 4*? Mesmo que n\u00e3o fosse a for\u00e7a-criativa do Sabbath, n\u00e3o teria Ozzy aprendido nada? Bem, dando o cr\u00e9dito que ele ainda poderia merecer, aluguei outros dos seus trabalhos solos, mas achei tudo muito ruim, um hard-rock farofa infantil muito indigno de figurar sequer na mesma prateleira onde est\u00e3o os discos sagrados do Sabbath. Alguns dos discos dos anos 80 pareciam pelo menos n\u00e3o se levarem muito a s\u00e9rio, mas nada me convenceu nem um pouco. Bom, fast-forward para o presente e desde aquele long\u00edquo 1995, quando minha m\u00e3e ainda lavava minha roupa, eu n\u00e3o escuto os discos do Ozzy. Mas hoje [quando escrevi esse texto] \u00e9 Dia das Bruxas, e na hora de escolher o primeiro disco do dia, algo que combinasse com a data (e nada muito s\u00e9rio, pois n\u00e3o era este o meu estado de esp\u00edrito), me ocorreu que poderia ser curioso voltar a ouvi-los; vai que, passados 17 anos, eu consigo achar alguma gra\u00e7a? Escolhi justamente este disco de 1995, o primeir\u00e3o que eu ouvi. Catei uma c\u00f3pia em MP3 e... bem, continuo achando uma porcaria. Assim que acabar a faixa que estou ouvindo --- *Denial*, que at\u00e9 tem umas guitarras legais, mas \u00e9 muito pouco --- eu troco pros Misfits, e passo o resto do Dia as Bruxas ouvindo m\u00fasicas sobre lobisomens e alien\u00edgenas.\r\n\r\n**Godspeed You! Black Emperor - \u0027Allelujah! Don\u0027t Bend! Ascend!**\r\n\r\nSobre o fabuloso disco novo do GY!BE eu nem tenho nada para escrever, mas como foi de longe a coisa que eu mais ouvi esse m\u00eas, ent\u00e3o ele fecha esse textinho.","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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And it\u0027s the latter that people care about. Because People Still Want Good Music.\r\n\r\nO trecho acima \u00e9 [deste artigo](http:\/\/thequietus.com\/articles\/06318-how-the-music-industry-is-killing-music-and-blaming-the-fans) publicado j\u00e1 tem uns meses na Quietus, mas que ainda \u00e9 uma \u00f3tima leitura, recheada de boas reflex\u00f5es e, no geral, uma clara e precisa vis\u00e3o sobre o estado das coisas na ind\u00fastria da m\u00fasica.\r\n\r\nAcho que o autor falha apenas ao tentar vislumbrar sa\u00eddas para os dilemas que a internet criou para todo o espectro de interessados na quest\u00e3o --- f\u00e3s, m\u00fasicos e gravadoras. N\u00e3o creio que a sa\u00edda esteja em sistemas de assinaturas ou na manuten\u00e7\u00e3o e suporte ao trabalho de m\u00fasicos (e, analogamente, escritores, cineastas, etc.) nos mesmos moldes do pagamento que fazemos pela eletricidade e pela \u00e1gua que entra em nossas casas. S\u00e3o coisas muito diferentes. Acho que \u00e9 necess\u00e1rio pensar de forma mais ampla.\r\n\r\nQue ningu\u00e9m se engane, ou se deixe enganar: o colapso da ind\u00fastria tem como origem a gan\u00e2ncia que cresceu gradualmente na medida em que o seu modelo de neg\u00f3cio --- baseado na venda supervalorizada de objetos de pl\u00e1stico produzidos em escala industrial e apoiado maci\u00e7amente por toneladas de marketing --- gerou fortunas e estabeleceu uma confort\u00e1vel cultura dominante de artistas descart\u00e1veis e submissos \u00e0s inten\u00e7\u00f5es meramente comerciais desta ind\u00fastria. Uma cultura e um modelo de explora\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o que, em algum momento, para executivos e artistas, pareceu ser fonte infinita de dinheiro. Claro, me refiro \u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es de m\u00eddia e aos artistas-celebridades, mas esta s\u00f3rdida micro-parcela de \u0022criadores\u0022 (com o perd\u00e3o do uso de t\u00e3o bonita palavra para designar essa turma) \u00e9 a que cultiva a aten\u00e7\u00e3o da imensa maioria da multid\u00e3o consumidora de m\u00fasica, e acredito que a pr\u00f3pria natureza desse desequil\u00edbrio e dessa massifica\u00e7\u00e3o geram os danos que, com a chegada da internet e a consequente quebra desse modelo de neg\u00f3cio, hoje estendem-se por toda a pir\u00e2mide.\r\n\r\nA partir da\u00ed, sobre o futuro, a minha percep\u00e7\u00e3o segue uma linha diferente. Um disco, um filme, um livro, tudo isso ainda \u00e9 amplamente comercializado junto de um suporte f\u00edsico, mas em \u00faltima inst\u00e2ncia o que interessa n\u00e3o \u00e9 esse objeto, e sim o seu conte\u00fado, e esse conte\u00fado, em geral, pode ser digitalizado e mantido em um computador ou tablet ou seja l\u00e1 o que for, tornando dispens\u00e1vel o objeto. Claro, h\u00e1 ainda o nicho das pessoas que se interessam pelo objeto no arm\u00e1rio, a arte gr\u00e1fica que vem junto e tudo mais, mas esse grupo tende a diminuir gradativamente, por uma s\u00e9rie de fatores. A quest\u00e3o \u00e9 que uma vez criado o conte\u00fado digitalizado, n\u00e3o h\u00e1 como impedir que as pessoas distribuam c\u00f3pias. Tentativas surgem constantemente, apenas para serem ludibriadas na sequ\u00eancia. E mesmo que Hollywood e as grandes gravadoras consigam um dia impedir o funcionamento de todos os sites de downloads e todos os sistemas de troca de arquivos --- o que \u00e9 improv\u00e1vel, mas consideremos a possibilidade ---, ainda assim existir\u00e1 o e-mail, e as pessoas poder\u00e3o pegar seus arquivos e enviar por e-mail para quem quiserem, afinal, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que algum dia a troca de e-mails seja proibida ou vigiada (pelo menos, assim queremos crer).\r\n\r\nPortanto, n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda. A ind\u00fastria da m\u00fasica tem que passar a funcionar levando isso em conta, tem que desistir de vedar as pessoas de fazerem o que quiserem com as coisas que adquirem. O foco tem que passar da reprodu\u00e7\u00e3o\/replica\u00e7\u00e3o, que a internet universalizou, para a cria\u00e7\u00e3o, que \u00e9, de fato, a execu\u00e7\u00e3o da virtude do artista, al\u00e9m das atividades correlatas. Considerar roubo a c\u00f3pia de uma m\u00fasica, como se ela tivesse que gerar dinheiro continuamente para algu\u00e9m toda vez que fosse parar em um novo computador mundo afora, n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 algo coerente com o mundo atual. O dinheiro f\u00e1cil e as fortunas n\u00e3o ser\u00e3o mais poss\u00edveis, em muito pouco tempo. O que \u00e9 \u00f3timo, pois eu acho um absurdo, por exemplo, que cada um dos Rolling Stones ainda ganhe, provavelmente, algo na ordem das dezenas de milhares de d\u00f3lares mensalmente por uma m\u00fasica ou um disco gravado e lan\u00e7ado d\u00e9cadas atr\u00e1s, enquanto nesse exato instante h\u00e1 gente desesperada atr\u00e1s de um emprego, para trabalhar e receber dinheiro agora, e sobreviver. Ou, pior: enquanto h\u00e1 gente morrendo de fome.\r\n\r\nAcho que existe um contexto bem mais amplo a\u00ed, como indicam as crises econ\u00f4micas e sociais e os subsequentes protestos mundo afora, mas voltando ao quadro mais restrito da ind\u00fastria da m\u00fasica, uma pista de como as coisas ir\u00e3o inevitavelmente passar a funcionar pode ser a seguinte: eu (e provavelmente voc\u00ea), para ganhar o meu dinheiro, negocio com os interessados no meu trabalho, acordamos um valor e um produto ou servi\u00e7o, eu crio esse produto ou executo esse servi\u00e7o e ganho o dinheiro combinado. Esse valor \u00e9 fruto de um c\u00e1lculo que envolve tempo de produ\u00e7\u00e3o, demanda, complexidade, minhas necessidades pessoais durante o per\u00edodo de tempo que estarei dedicado a este trabalho, etc.. E acho que esse \u00e9 o modelo que a revolucion\u00e1ria internet ir\u00e1 imp\u00f4r, gradualmente, a todo mundo, acabando com as obscenas fortunas de celebridades e mega-corpora\u00e7\u00f5es. E tudo isso iniciando-se com o fim da venda de um objeto que \u00e9 produzido ao custo de R$ 1,00 a unidade e vendido por R$ 30,00, fim este que s\u00f3 tornou-se poss\u00edvel a partir do momento em que come\u00e7amos a fazer downloads de discos e assim, talvez meio sem querer, a contestar este estado das coisas.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":416,"title":"When would you stop to think about that? When would you stop being obsessed or upset by that? Never.","post_timestamp":"2012-09-27T11:17:53+00:00","url":"2012_09_27_when_would_you_stop_to_think_about_that_when_would_you_stop_being_obsessed_or_upset_by_th","post":"No livro *Will Oldham on Bonnie Prince Billy*, uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo entre Alan Licht e Will Oldham, algumas p\u00e1ginas s\u00e3o dedicadas \u00e0s impress\u00f5es de ambos sobre apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Will come\u00e7a dizendo que, em suas turn\u00eas, prefere trabalhar com o profissional de som do pr\u00f3prio local do show do que levar um profissional pr\u00f3prio consigo. Um trecho da conversa que se segue:\r\n\r\n\u003E AL: In some venues I feel like the sound person has a set idea about what it\u0027s supposed to sound like, and there\u0027s even a \u0022sound\u0022 that they want to be uniform to the venue, which can compromise what a band is trying to do up onstage.\r\n\u003E \r\n\u003E WO: Yeah, another thing that\u0027s kind of thrilling for us is the idea that every show will be different because of the aesthetic of the sound person, and that people might come away with absolutely different opinions of the way a show sounded, based on what city they went to, because of the sound person, and that\u0027s really exciting [laughs]. In the studio there\u0027s a sound, of course, in the end that\u0027s unknown at the beginning, but as all the elements reveal themselves the sound reveals itself, reveals how it\u0027s supposed to be. But on tour it seems like if you begin to try to think that you have control over the sound, you\u0027d never get any sleep. When would you stop to think about that? When would you stop being obsessed or upset by that? Never. With every different room, every different sound system, every different temperature, time of day or whatever affects the sound, it seems to be more advantageous to think of the room, and the technicians, as part of the novelty of the experience. They\u0027re extra factors, if not members of the ensemble. They\u0027re no quite that, but they\u0027re factors in what makes one show different from another.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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A doutrina teve sua primeira formula\u00e7\u00e3o no final do Renascimento atrav\u00e9s do trabalho de m\u00fasicos florentinos que estavam engajados na ressurrei\u00e7\u00e3o da m\u00fasica da Gr\u00e9cia Antiga e que foram os fundadores da \u00f3pera. De acordo com sua interpreta\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias de Plat\u00e3o, procuravam estabelecer rela\u00e7\u00f5es exatas entre palavra e m\u00fasica. Para eles uma id\u00e9ia musical n\u00e3o era somente uma representa\u00e7\u00e3o de um afeto, mas sua verdadeira materializa\u00e7\u00e3o. (...)\u0022\r\n\r\nPassados alguns s\u00e9culos, isso tudo pode ser visto aqui:\r\n\r\n\u003Ciframe src=\u0022http:\/\/player.vimeo.com\/video\/35971711?color=f0000c\u0022 width=\u0022528\u0022 height=\u0022297\u0022 frameborder=\u00220\u0022 webkitAllowFullScreen mozallowfullscreen allowFullScreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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De b\u00f4nus, mais embaixo, pr\u00e9via do disco novo do Neil Young com o Crazy Horse.\r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022520\u0022 height=\u0022390\u0022 src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZrtLTf5KE68?rel=0\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\n\r\n\u003Ciframe width=\u0022520\u0022 height=\u0022390\u0022 src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/embed\/Ur93x7zN4To?rel=0\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Tal voca\u00e7\u00e3o pode mostrar-se t\u00e3o transcendental que alguns transformaram-se em verdadeiras legendas, abstraindo o foco no artista, convergindo uma base de f\u00e3s capaz de investir cegamente em seus produtos, pura e simplesmente baseados na confian\u00e7a em seus curadores.\r\n\r\nSelos como a *Creation*, *Sub Pop* e *Touch \u0026 Go* s\u00e3o exemplos da d\u00e9cada de 90 enquanto mais recentemente *Merge*, *Southern Lord*, *Hydrahead* e *Touch* seriam, entre tantos outros, cart\u00f5es de visita que sugerem algum padr\u00e3o de qualidade diferenciado no que est\u00e1 se oferecendo. Com a segmenta\u00e7\u00e3o extrema dos selos e o volume incr\u00edvel de artistas e registros sonoros da \u00faltima d\u00e9cada, os independentes dividiram sua incumb\u00eancia de produzir e distribuir registros com a tarefa de agir como curadoria de propostas art\u00edsticas, o que notabilizou em pequena escala gente como *Taiga*, *eMego* e o j\u00e1 defunto *aRCHIVE*.\r\n\r\nDe 2011 para c\u00e1, um selo vem se destacando na habilidade de identificar discos e artistas diferenciados, com um incr\u00edvel \u00edndice de acertos. Criado e mantido por R.Loren (o cara que responde pelo projeto de drone\/noise Pyramids), o **Handmade Birds** colocou uma gama incr\u00edvel de sons inovadores e interessantes, fruto do bom-senso apurado de seu condutor. R.Loren consegue identificar e convergir para seu projeto uma gama heterog\u00eanea de artistas, transitando entre g\u00eaneros teoricamente desvinculados, mas que fazem todo o sentido quando agrupados sob os dom\u00ednios da \u003CHandmade Birds*. Noise, shoegaze, black metal, folk, drone convivem harmonicamente no cat\u00e1logo e, ao contr\u00e1rio de tantos selos que colocam material na rua por necessidade de faturamento ou obriga\u00e7\u00f5es de atender contratos com bandas, o que prevalece aqui \u00e9 unica e exclusivamente a necessidade de liberar um grande disco para o mundo, sublimando a import\u00e2ncia dos artistas e g\u00eaneros, focando num conte\u00fado capaz de derrubar o ouvinte. A voca\u00e7\u00e3o de R.Loren mostrou-se acertada at\u00e9 o momento: muitos de seus lan\u00e7amentos j\u00e1 esgotaram e alguns deles zeraram antes mesmo da data oficial, via *pre-orders*. Outro dado significativo \u00e9 que o selo vende quase que exclusivamente via web, sem contar com uma grande distribui\u00e7\u00e3o, lojas de discos ou banquinha de artistas. No momento, \u00e9 certo e definitivo: aten\u00e7\u00e3o total no mailing do cara e dedos a postos para clicar no *buy now*. Do contr\u00e1rio, s\u00e3o grandes as chances do ouvinte ficar sem sua edi\u00e7\u00e3o limitada.\r\n\r\n\u00c9 dif\u00edcil pin\u00e7ar destaques num cat\u00e1logo t\u00e3o rico, mas os seguintes definitivamente diferenciaram-se (ou se diferenciar\u00e3o) em minha cole\u00e7\u00e3o de discos:\r\n\r\n- SUTEKH HEXEN: *Larvae* LP\r\nA vers\u00e3o colorida do LP esgotou em *preorder* em menos de 24 horas. Ainda existem exemplares em vinil preto at\u00e9 o momento desse post. Esse disco promete ser um dos belos lan\u00e7amentos de 2012: um expoente do noise met\u00e1lico lan\u00e7ado por um dos melhores selos da atualidade. Comprei sem nem procurar *samples*.\r\n\r\n- S\/V\\R: *C\u00e9l\u00e9bration Noire* CS\r\nProjeto de 1\/2 do Menace Ruine. Um mix de metal, synth e noise. Em alguns momentos lembra aqueles technos oitentistas, por\u00e9m totalmente deturpados.\r\n\r\n- PRETERITE: *Pillar Of Winds* CD\r\nA outra metade do Menace Ruine focada no lado pag\u00e3o da dupla, dando um tempo para a parafern\u00e1lia digital, derramando os c\u00e2nticos e ritos medievais sobre pianos e sons mais org\u00e2nicos.\r\n\r\n- DREAMLESS: *All This Sorrow, All These Knives* CD\r\nJ\u00e1 abordado no meu *best-of* de 2011, um encontro do Helmet com o Godflesh. Muitas guitarras empilhadas e conceitos de shoegazing aliados ao metal.\r\n\r\n- DEMIAN JOHNSTON: *If They Even Find Me* CS\r\nTalentoso m\u00fasico e artista gr\u00e1fico, Johnston j\u00e1 tem carreira contribuindo com capas e posteres de gente do calibre de KTL, Sunn O))) e Wolves In The Throne Room. Seu trabalho musical dispara-se para diversas frentes mas aqui seu foco \u00e9 no ambient, ornamentado com passagens do mais puro noise digital.\r\n\r\n- CROOKED NECKS: *Alright Is Exactly What It Isn\u0027t* e *Something Must Break* LPs\r\nBanda dif\u00edcil de descrever, mas acho que algo como um vocalista de black metal torturando-se sobre bases do Joy Division d\u00e3o uma pista. Realmente *sui-generis*.\r\n\r\n- SUN DEVOURED EARTH: *Day After Day, Year After Year, When Will It End* 4xCD\r\nOutro citado mais de uma vez em meus posts anteriores. Lembra Jesu, mas mais sincero, amargurado e soterrado sob toneladas de neve.\r\n\r\n- GATES: *They Hide In The Shadows* CD-R\r\nDoom-Drone que lembra muito Sunn O))), \u00e0s vezes no limiar entre a c\u00f3pia e o tributo. Mas \u00e9 muito bem feito, inten\u00e7\u00f5es genu\u00ednas e a coisa funciona. Clima pesad\u00e3o e obscuro.\r\n\r\n- CIRCLE OF OUROBORUS: *Eleven Fingers* LP\r\nUm grande disco. A banda finlandesa n\u00e3o tem nada de nova mas esse \u00e9 o grande destaque da relativamente extensa discografia dela. Seu fio condutor \u00e9 aquela desola\u00e7\u00e3o t\u00e3o recorrente em discos de black metal, mas a instrumenta\u00e7\u00e3o calcada em bateria e teclados subverte tudo, anulando conex\u00f5es diretas com g\u00eaneros. \u00c9 um disco incrivelmente obscuro sem necessariamente ser pesado, uma ode ao desencanto. Saiu na Pitchfork com cheiro de incenso, a\u00ed o que restava das 500 c\u00f3pias prensadas sumiu.\r\n\r\n- TENHORNEDBEAST: *Ten Horned Moses Descended The Mountain* 3xCD-R\r\nSe n\u00e3o tivesse esgotado ainda na *pre-order*, uma das 150 c\u00f3pias dessa maravilha do drone estaria aqui em casa.\r\n\r\n- BLUT AUS NORT: *Mort* LP\r\nO selo teve a manha de relan\u00e7ar um dos cap\u00edtulos de black metal dos franceses e o p\u00fablico teve a manha de esgot\u00e1-lo rapidamente.\r\n\r\n- SERVILE SECT: \u0022Trvth\u0022 LP\r\nNot\u00f3rios pelas experimenta\u00e7\u00f5es com sci-fi, noise e psicodelia, o Servile Sect j\u00e1 havia conquistado espa\u00e7o no selo de Thurston Moore, refor\u00e7ando sua qualidade com esse aval de R.Loren. Sonoridades inquietas, livres de conceitos e barreiras.\r\n\r\n[http:\/\/www.handmadebirds.com\/](http:\/\/www.handmadebirds.com\/)  \r\n[http:\/\/handmadebirds.tumblr.com\/](http:\/\/handmadebirds.tumblr.com\/)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"handmadebirds.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":366,"title":"Poster: Jesus Lizard","post_timestamp":"2012-01-09T18:01:49+00:00","url":"2012_01_09_poster_jesus_lizard","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiado [deste site](http:\/\/nevermindgallery.com\/derek-hess-1996-jesus-lizard-six-finger-satellite.html).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":362,"title":"2011","post_timestamp":"2011-12-29T17:40:06+00:00","url":"2011_12_29_2011","post":"Algu\u00e9m a\u00ed teve muito tempo? Algu\u00e9m se importou? Quem comprou vinil? Eu continuo comprando, mas sinceramente n\u00e3o curto discos coloridos. Only black is real. Por que hypar um dos poucos produtos que reacende a chama do interesse em se ouvir m\u00fasica de forma genu\u00edna, hein?\r\n\r\nSUN DEVOURED EARTH: *Day After Day, Year After Year*(Handmade Birds)\r\n\r\nProjeto homemade de um norte-europeu, imerso em Jesu e shoegazing. O que se destaca aqui \u00e9 a verissimilitude com o que tudo acontece, prendendo o ouvinte numa atmosfera g\u00e9lida e sombria, sem que o m\u00fasico demonstre muito esfor\u00e7o para contextualizar a proposta de seu trabalho, nem em interlig\u00e1-la com o que provavelmente seja sua personalidade. Muita textura, desola\u00e7\u00e3o e peso.\r\n\r\nSUTEKH HEXEN: *Luciform* (Wands)\r\n\r\nAs in\u00fameras vertentes do metal encontraram alguns pontos de concentra\u00e7\u00e3o em 2011, dentre elas o black metal. Talvez pela facilidade de reproduzir em grava\u00e7\u00f5es caseiras o g\u00eanero n\u00f3rdico, muitos m\u00fasicos partiram para a \u00e1rea em quest\u00e3o, tendo a grande maioria apostado na alus\u00e3o \u00e0s influ\u00eancias, o que aglutinou muito joio e pouco trigo. Apesar disso, alguns usaram o estilo como base para desenvolver suas pr\u00f3prias id\u00e9ias (Servile Sect, Krallice), projetando sons muito mais interessantes e superando a barreira da mera emula\u00e7\u00e3o de um estilo por vezes repetitivo. Deles, o Sutekh Hexen responde pela ala que misturou o noise com o black metal, criando verdadeiros petardos sonoros no decorrer de alguns EPs e deste \u00e1lbum de estreia. Sob uma base devastadora de black metal, a banda aplica um sem-n\u00famero de distor\u00e7\u00f5es, vocais urrados e efeitos eletr\u00f4nicos que une o mundo de um Merzbow com o do Mayhem.\r\n\r\nDREAMLESS: *All This Sorrow, All These Knives* (Handmade Birds)\r\n\r\nOutra banda nova, que flerta com sludge, Godflesh, Jesu e Helmet. O disco j\u00e1 inicia sufocando o ouvinte com s\u00e9rias camadas de distor\u00e7\u00e3o e peso e l\u00e1 pela metade da primeira faixa te mostra que a sisudez vai sim colidir com a melodia e for\u00e7\u00e1-la a coexistir dentro de um mesmo espectro. E \u00e9 justamente isso que move o mundo desde que *Loveless* chegou \u00e0s lojas em 1991: a combina\u00e7\u00e3o entre barulho bruto e desilus\u00e3o. Mas o Dreamless n\u00e3o se encaixa exatamente no perfil do shoegazing cl\u00e1ssico, pois sua voca\u00e7\u00e3o aponta muito mais para o metal do que para o indie. O neg\u00f3cio aqui \u00e9 empilhar guitarras e microfonias sem deixar muito espa\u00e7o para manifesta\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sejam as de desencanto total. Para os que ainda n\u00e3o resistem a uma boa ma\u00e7aroca de guitarras.\r\n\r\nEARTH: *Angels Of Darkness, Demons Of Light* (Southern Lord)\r\n\r\nConfesso que ap\u00f3s *The Bees Made Honey In The Lion\u0027s Skull*, temi pela possibilidade de Dylan Carlson sucumbir \u00e0 redund\u00e2ncia ap\u00f3s uma s\u00e9rie de discos que giravam em torno de uma \u00fanica proposta. O passo seguinte deveria, pela l\u00f3gica, romper com o formato ou reinvent\u00e1-lo completamente, sob pena de comprometer o interesse em torno da banda. Mas Carlson conseguiu revitalizar suas id\u00e9ias sem necessariamente derrubar o que havia constru\u00eddo. Os \u00f3rg\u00e3os gospel deram lugar a violinos lamentosos, as texturas aprimoraram-se significativamente e o panorama ensolarado fechou-se para o de um sal\u00e3o empoeirado e umedecido. O andamento por sua vez \u00e9 desprendido, sem a tens\u00e3o est\u00e1tica (*Hex*) ou as voltas em torno de um centro (*Bees*). \u00c9, de longe, o disco mais din\u00e2mico do Earth e tal proposta n\u00e3o s\u00f3 nutriu a ess\u00eancia do quarteto, como contribuiu com o que pode ser o melhor trabalho de Dylan. Como fui ing\u00eanuo ao duvidar de um mestre...\r\n\r\nKRALLICE: *Diotima* (Gilead Media)\r\n\r\nUma das poucas bandas que daria certo no papel e confirmou quando trazida \u00e0 realidade. Escutando Mick Barr em seu trabalho solo ou no Orthrelm, dava para cogitar seus habilidosos dedilhados a servi\u00e7o de uma banda de black metal. Quer dizer, n\u00e3o havia motivos para n\u00e3o faz\u00ea-lo. *Diotima* \u00e9 o trabalho menos entusiasmante da discografia do Krallice, mas ainda assim \u00e9 dif\u00edcil deixar o disco rodando sem que aos poucos se reaja \u00e0s caixas de som, seja balan\u00e7ando a perna, seja aumentando o volume. Num mundo repleto de m\u00fasicas e bandas exaurindo-se para gravar algo que perfure a indiferen\u00e7a do ouvinte atual, o Krallice estimula sua necessidade de quebrar algo (ou algu\u00e9m) naturalmente. A minha ao menos reagiu.\r\n\r\nMARCELO CAMELO: *Toque Dela* (BMG \/ Z\u00e9 Pereira)\r\n\r\nAt\u00e9 o mais bruto dos metaleiros tem um Calcanhar de Aquiles. O meu \u00e9 o talento desse carioca. Alheio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o \u00f3dio \/ messianismo a ele atrelada, reconhe\u00e7o sua capacidade \u00fanica de combinar diferentes conceitos musicais e extern\u00e1-los sem permitir intromiss\u00f5es de p\u00fablico e cr\u00edtica. Lia-se numa \u00e9poca, em seu MySpace, a designa\u00e7\u00e3o \u0022freestyle\u0022 para seu som, justamente o que Camelo vem fazendo desde que a banda que o destacou pediu \u00e1gua. N\u00e3o vejo outra proposta t\u00e3o saud\u00e1vel para a m\u00fasica nacional e se *Toque Dela* n\u00e3o \u00e9 perfeito (\u00e9 quase, hein?), ele n\u00e3o s\u00f3 transcende o trabalho de estreia como solidifica o papel de seu autor no contexto da m\u00fasica brasileira atual. Do clima de venera\u00e7\u00e3o \u00e0 sua musa aos arranjos criativos que sempre lhe foram caracter\u00edsticos, Camelo atravessa tudo e sai por tangentes, genial ao contar com a melhor banda do Brasil lhe apoiando, o Hurtmold.\r\n\r\nPRETERITE: *Pillar Of Winds* (Handmade Birds)\r\n\r\nProjeto da vocalista do Menace Ruine, Genevieve Beaulieu. Se sua banda principal n\u00e3o teve lan\u00e7amentos em 2011 (embora o imperd\u00edvel *Union Of Irreconcilables* tenha ganhado vers\u00e3o em vinil pela Aurora Borealis), a vocalista n\u00e3o deixou na m\u00e3o os interessados em sonoridades pag\u00e3s e ocultas. A abordagem musical de Preterite n\u00e3o diverge muito da que o Menace Ruine produz: vocais que remetem \u00e0 era medieval, atmosfera sinistra, alus\u00e3o \u00e0 bruxaria. Mas enquanto o Menace Ruine enterra tudo em camadas substanciosas de noise e texturas, o Preterite deixa a voz de Genevieve em primeiro plano, limpa e pura, acompanhada por \u00f3rg\u00e3os, pianos e distor\u00e7\u00f5es incidentais. \u00c9 como a vers\u00e3o diurna para os rituais sat\u00e2nicos que o Menace Ruine embala nas madrugadas.\r\n\r\nSUNN O))): *Agharhi 09-10* (Southern Lord)\r\n\r\nDiscos ao vivo podem limitar-se ao registro da ocasionalidade de uma performance durante uma longa turn\u00ea e isso costuma ocorrer com muita frequ\u00eancia, o que os fatalmente insere na sub-discografia de uma banda. O Sunn O))) \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o uma vez que suas apresenta\u00e7\u00f5es costumam marcar o hist\u00f3rico de quem j\u00e1 o viu em a\u00e7\u00e3o, seja pela celebra\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica de seus concertos ou pelo volume ofensivo ao que submete a audi\u00eancia. N\u00e3o bastassem tais atributos, esse registro marca tamb\u00e9m a oportunidade de se conhecer a tradu\u00e7\u00e3o do elaborado e intrincado *Monoliths\u0026Dimensions* para os palcos. Diante da impossibilidade de agregar a musicalidade de c\u00e2mara e os m\u00faltiplos instrumentos que embasaram o disco, Anderson e O\u0027Malley respondem com brutalidade, confiando nos teclados de Steve Moore e na infal\u00edvel performance vocal de Attila Csihar. O resultado p\u00f5e abaixo as alegorias sonoras, apoderando-se do cerne das faixas, remodelando-as com severas camadas de distor\u00e7\u00e3o e peso. Se *Hunting \u0026 Gathering* j\u00e1 era um primor de volume no \u00e1lbum, ao vivo transforma-se num tanque de guerra inabal\u00e1vel e mesmo as elaboradas *Big Church* e *Aghartha* conseguem ser sintetizadas por Csihar atrav\u00e9s de alus\u00f5es \u00e0 transcendentalidade da m\u00fasica oriental.\r\n\r\nMOON TIDES: *As Loud As The Sun* (Sweat Lodge Guru)\r\n\r\nEmbora \u00e0 revelia do mundo indie, o contato ocasional em 2011 com as tend\u00eancias me passou a imagem da manuten\u00e7\u00e3o do resgate dos anos 80 e seus \u00edcones. Onipresente, o sintetizador (ou o programa que o emula) embalou muitos \u00e1lbuns e aqui em *As Loud As The Sun* n\u00e3o h\u00e1 pudores em seu uso, por\u00e9m de forma comedida e eficaz. A dupla do Colorado revisita a surf music, ornamentando o som das praias com guitarras, vocais e efeitos aparentados com o shoegazing. Mais ou menos como passar um disco dos Beach Boys pelas m\u00e3os do Kevin Shields sem esquecer dum toque de new-wave.\r\n\r\n(Relan\u00e7amentos)\r\n\r\n2011 foi o ano onde os relan\u00e7amentos mostraram-se vitais para a sobrevida da ind\u00fastria convencional. Como n\u00e3o se tem mais poder sobre o conte\u00fado sonoro, aposta-se nas embalagens e no apelo que elas ainda causam nas gera\u00e7\u00f5es pr\u00e9 anos 00, aquelas que ainda tiveram o prazer de entrar numa loja de discos. Vou me furtar de comentar o relan\u00e7amento de *Nevermind* pois n\u00e3o foi em 2011 que tive coragem de colocar US$ 154,55 em risco nos Correios. Entretanto, tive \u00f3timas experi\u00eancias com *The SMiLE Sessions* dos Beach Boys e com *Gish* e *Siamese Dream* dos Smashing Pumpkins. O primeiro, o resgate hist\u00f3rico de um dos n\u00e3o-discos mais esperados de todos os tempos, em embalagem primorosa e conte\u00fado meticulosamente selecionado. O segundo, a primeira etapa de uma promissora celebra\u00e7\u00e3o do cat\u00e1logo dos Pumpkins, em lindas caixinhas com material complementar, faixas b\u00f4nus, DVD e remasteriza\u00e7\u00e3o correta dos seus dois primeiros \u00e1lbuns. Ainda comprei o cl\u00e1ssico *\u00d8\u00d8 Void* do Sunn O))) em vinil, uma justi\u00e7a da Southern Lord a esse belo registro que reacende as expectativas em torno da \u0022viniliza\u00e7\u00e3o\u0022 de *Flight Of The Behemoth*. Ainda houve verba para comprar a boxset do Burning Witch, cultuada banda de doom que teve seu cat\u00e1logo revisitado em quatro vinis e um DVD, sustentados por uma embalagem primorosa. Bom ver a ind\u00fastria cobrando caro mas entregando produtos de qualidade, frutos de pesquisa, sele\u00e7\u00e3o e \u00f3tima consolida\u00e7\u00e3o.\r\n\r\n(Vinil)\r\n\r\nO formato que ressurgiu e consolidou-se, ao menos em minha cole\u00e7\u00e3o. Mais caro, por\u00e9m mais substancioso e prazeiroso. Em 2010 eu ainda tinha a d\u00favida se comprava em CD ou vinil, fazia uma aritm\u00e9tica de valores pessoais. Nesse ano, entretanto, praticamente me voltei para o formato maior. Se bem praticado, prop\u00f5e uma forma diferenciada de se apreciar a m\u00fasica, por mais que soe insignificante perante a renova\u00e7\u00e3o imposta aos h\u00e1bitos musicais dos \u00faltimos anos. Se n\u00e3o renova nada (n\u00e3o h\u00e1 nada de novo no formato, pelo contr\u00e1rio), ao menos reapresenta as qualidades de se ouvir m\u00fasica \u0022f\u00edsica\u0022. Isso vai al\u00e9m de mat\u00e9rias no jornal Hoje e quem compra e sustenta o h\u00e1bito \/ v\u00edcio, sabe que esse nicho compensa cada centavo.\r\n\r\n(Wilco)\r\n\r\nN\u00e3o sei, vou escrever uma resenha, talvez. Mas n\u00e3o foi dessa vez que Jeff Tweedy recuperou sua forma, embora tenha apresentado ideias melhores do que as dos dois \u00faltimos discos. Significativamente melhores. Mas o Wilco me passa uma sensa\u00e7\u00e3o que teve um pico em *Yankee Hotel Foxtrot* \/ *A Ghost Is Born* quando registrou uma crise de identidade que n\u00e3o correspondia com o verdadeiro esp\u00edrito da banda. Ouvindo sua discografia at\u00e9 *Summerteeth*, \u00e9 n\u00edtido que eles ficam mais confort\u00e1veis com os formatos country convencionais, ao ponto de, se tirarmos os dois discos supracitados, o Wilco n\u00e3o passa de uma boa banda de rock de tioz\u00e3o. Pensando bem, talvez eu n\u00e3o escreva a tal resenha.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"self-made","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":360,"title":"Meus discos preferidos de 2011","post_timestamp":"2011-12-21T15:42:51+00:00","url":"2011_12_21_meus_discos_preferidos_de_2011","post":"Esses a\u00ed s\u00e3o os meus discos preferidos de 2011. Algumas considera\u00e7\u00f5es sobre eles: \r\n\r\n* O da PJ Harvey eu ouvi e admirei intensamente durante umas duas semanas, mas depois larguei-o e n\u00e3o ouvi mais. N\u00e3o por alguma desilus\u00e3o --- foi mais uma mudan\u00e7a de interesses mesmo. De todo modo, merece estar aqui;\r\n* O do Fucked Up confesso que me cansa um pouco ouvir inteiro. L\u00e1 pelo quarto final minha mente j\u00e1 n\u00e3o consegue mais distinguir muita coisa, os berros, a massa de guitarras... Mas o neg\u00f3cio \u00e9 inegavelmente glorioso e intenso, como os outros discos da banda. Talvez apenas um pouco mais radical. Eu respeito isso, bandas que t\u00eam coragem de exigir um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o de seus ouvintes;\r\n* O do Eddie Vedder, se eu tamb\u00e9m n\u00e3o chego a achar um disco fant\u00e1stico do come\u00e7o ao fim, tem v\u00e1rios \u00f3timos momentos, e a coragem em se fazer algo t\u00e3o diferente e simples \u00e9 admir\u00e1vel. Na falta de outros merecedores mais plenos, ponho o Vedder aqui, com prazer;\r\n* Um merecedor pleno, ali\u00e1s, acho que s\u00f3 o do Wilco. Disca\u00e7o;\r\n* Yob e Altar of Plagues: muito metal pesad\u00e3o para uma lista aqui neste site, n\u00e3o? Paci\u00eancia; isso reflete o que eu ouvi durante grande parte deste ano. \u00c9, enquanto a maioria das pessoas crescem e evoluem, eu, \u00e0s vezes, pare\u00e7o regredir. Me peguei at\u00e9, outro dia, parado numa loja de discos, na se\u00e7\u00e3o de metal, me lamentando por j\u00e1 n\u00e3o ter nenhum disco do Iron Maiden na cole\u00e7\u00e3o e fazendo anota\u00e7\u00f5es mentais de readquirir uns tr\u00eas ou quatro...","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"[Google Images](http:\/\/www.google.com\/imghp)","author":{"name":"Fabricio C. 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Mas o *Honey\u0027s Dead*, mesmo longe de ser um disco de m\u00fasica pop, perto da radicalidade do *Psychocandy*, soa como, sei l\u00e1, os Monkees.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":355,"title":"Poster: Bob Dylan","post_timestamp":"2011-11-25T14:59:41+00:00","url":"2011_11_25_poster_bob_dylan","post":"No embalo do [post anterior](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2011_11_25_mixtape_4), mais um item para a [galeria](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/index\/search\/poster).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Copiado [daqui](http:\/\/brunogalera.com\/2011\/11\/posters\/).","author":{"name":"Fabricio C. 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Com as vers\u00f5es requentadas em \u00e1lbuns dos pr\u00f3prios Boys, a circula\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria e desordenada de in\u00fameros fragmentos pirateados desde os anos 70, passando pela primeira \u0022vers\u00e3o oficial\u0022 na box de Best-Of nos anos 90 at\u00e9 o livre acesso nos anos 00 de praticamente tudo que vazou via internet, o \u0022\u00e1lbum\u0022 (algo que nunca foi, na verdade) h\u00e1 tempos deixou de pertencer a seu criador, Brian Wilson. J\u00e1 em 2004, quando sua banda (e manager? esposa tamb\u00e9m?) o persuadiu a lan\u00e7ar sua vers\u00e3o definitiva baseada nesses in\u00fameros fragmentos vintage presentes nos PCs e Macs do p\u00fablico-alvo, *SMiLE* j\u00e1 havia tomado vida pr\u00f3pria, atrav\u00e9s de dezenas de vers\u00f5es compiladas, remixadas e recombinadas pelos f\u00e3s ao longo dos anos. \u00c0quela altura, muito do fasc\u00ednio residia na fixa\u00e7\u00e3o em descobrir os caminhos confusos tomados pela cabe\u00e7a de Wilson durante a composi\u00e7\u00e3o e grava\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas nos anos 60, num exerc\u00edcio de enumerar sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o, decifrar suas inten\u00e7\u00f5es e interpretar o que era \u0022quente\u0022 e \u0022frio\u0022 dentre tantos registros de est\u00fadio. O curioso e fascinante \u00e9 que ao mesmo tempo em que todas as vers\u00f5es eram v\u00e1lidas como uma forma de interpretar e \u0022definir\u0022 um \u00e1lbum, convivia-se com o fato dele nunca ter existido, algo que angustiou os f\u00e3s e apreciadores dessa fase dos Beach Boys durante d\u00e9cadas.\r\n\r\nA vers\u00e3o de 2004 gravada por Wilson e sua banda apresentou-se ao mercado como a \u0022conclusiva\u0022, a \u0022vers\u00e3o que Brian sempre quis fazer mas n\u00e3o conseguiu nos anos 60\u0022. Um pequena dose de ceticismo j\u00e1 era suficiente para negar tal proposta, ou ao menos question\u00e1-la, principalmente por quem levou em considera\u00e7\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o debilitada de Wilson desde sua reclus\u00e3o e sua limita\u00e7\u00e3o em n\u00e3o s\u00f3 conectar-se com sua persona dos anos 60, bem como em atuar de forma fidedigna com eventuais inten\u00e7\u00f5es da \u00e9poca que ele conseguisse resgatar para o projeto. O fato \u00e9 que *Brian Wilson Plays SMiLE* foi ovacionado, um sucesso junto ao p\u00fablico, bem como a turn\u00ea que o promoveu durante os meses subsequentes. Se o projeto em quest\u00e3o colocou um ponto final na \u00e1urea m\u00e1gica das grava\u00e7\u00f5es, ao imp\u00f4r um final definitivo (por\u00e9m question\u00e1vel, frisemos novamente), seu grande sucesso foi o ponto de igni\u00e7\u00e3o deste lan\u00e7amento, *The SMiLE Sessions*, que revisita o tracklisting estabelecido por Wilson em 2004, por\u00e9m, usando as sess\u00f5es originais dos anos 60. Resumindo, o engenheiro Mark Linnet (supostamente com a supervis\u00e3o e\/ou aprova\u00e7\u00e3o de Wilson e os outros Beach Boys  vivos) chafurdou os arquivos, reuniu todo o conte\u00fado dispon\u00edvel e o agrupou segundo a estrutura\u00e7\u00e3o de Wilson de 2004.\r\n\r\nO resultado \u00e9, dentro do que se estabeleceu como linha de desenvolvimento, de respeito. N\u00e3o s\u00f3 se tem um exaustivo e organizado trabalho de restaura\u00e7\u00e3o e reinterpreta\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es como uma incr\u00edvel e indispens\u00e1vel preocupa\u00e7\u00e3o com ir al\u00e9m de um copy-paste de trechos, buscando um escopo abrangente e preocupado com uma unicidade at\u00e9 ent\u00e3o inexistente nessas grava\u00e7\u00f5es vintage. H\u00e1 obviamente nas entrelinhas uma inten\u00e7\u00e3o velada em fazer do trabalho a aproxima\u00e7\u00e3o definitiva do que *SMiLE* seria caso tivesse originalmente visto a luz do dia, algo question\u00e1vel por *SMiLE Sessions* tratar-se de um disco duplo, formato inconceb\u00edvel para a \u00e9poca. A interpreta\u00e7\u00e3o mais adequada \u00e9 ver o melhor material dispon\u00edvel soando un\u00edssono, na estrutura recente de Brian (e seus consultores), com a tecnologia e proposta mercadol\u00f3gica contempor\u00e2nea. Nesse sentido, o produto \u00e9 impec\u00e1vel. A qualidade sonora, antes sacrificada pelo car\u00e1ter obscuro dos bootlegs que vieram \u00e0 tona, agora soa cristalina e, melhor, perfeitamente equilibrada entre as diferentes sess\u00f5es que originaram o conte\u00fado. Percebe-se tamb\u00e9m o rigor com o qual as m\u00faltiplas vers\u00f5es foram examinadas e triadas de modo que a interpreta\u00e7\u00e3o do que supostamente entraria no \u00e1lbum prevalecesse. Assim, tem-se a t\u00e3o esperada flu\u00eancia de um material que j\u00e1 em 1967 seguiu diferentes caminhos de desenvolvimentos, andou em c\u00edrculos e muitas vezes terminou em becos sem sa\u00edda.\r\n\r\nMusicalmente, *SMiLE Sessions* talvez seja menos encorpado do que sua contraparte de 2004. Enquanto Linnet trabalhou com m\u00faltiplas vers\u00f5es, algumas com cara definitiva (ao menos para algum ponto do processo original), outras abandonadas ao ponto de n\u00e3o se saber o quanto contribuiriam para a edi\u00e7\u00e3o final, o disco de Wilson passou por toda a revis\u00e3o e regrava\u00e7\u00e3o, dirigindo o resultado para o equil\u00edbrio e flu\u00eancia perfeitas. Em contrapartida, n\u00e3o h\u00e1 paralelos que se aproximem da performance dos Boys originais, tampouco a capacidade de se reproduzir hoje (ou em 2004) o clima das sonoridades sessentistas, qualidades que fazem desse projeto algo t\u00e3o especial. \u00c9 interessante observar que *SMiLE*, ao mesmo tempo que \u00e9 desconexo, \u00e9 repleto de fragmentos ricos em musicalidade. Seu DNA n\u00e3o conseguiu acomodar a multiplicidade de sons que celebrou a t\u00e9cnica de Wilson em *Pet Sounds* e *Good Vibrations*, sugerindo que embora boa parte das can\u00e7\u00f5es estivessem prontas estruturalmente, careciam do preenchimento com sonoridades e instrumentos \u00e0 imagem dos dois trabalhos que as antecederam. Por isso \u00e9 comum escutar os vocais suportados por um ou dois instrumentos, que d\u00e3o lugar a outros dois sucessivamente, mas raramente se tem aquela combina\u00e7\u00e3o massiva de sons, quase orquestrada, que celebrou *Pet Sounds*. Por outro lado, h\u00e1 o esfor\u00e7o not\u00e1vel de Brian em sonorizar id\u00e9ias, hist\u00f3rias e emo\u00e7\u00f5es, como a infame *The Elements (Fire)* com seus sons de sirenes, os legumes mastigados em *Vega-Tables*, o ritmo de locomotiva em *Cabinessence* e os animais em *Barnyard*. Esse parece ter sido um dos calcanhares de Aquiles do projeto original: a dificuldade de, al\u00e9m encontrar o ponto de partida para rebuscar as m\u00fasicas segundo sua celebrada metodologia, dar a elas a conota\u00e7\u00e3o conceitual que Brian idealizou para o disco. Seria um passo a frente de tudo o que ele fez at\u00e9 aquele ponto, mas que mostrou-se herc\u00faleo demais para sua capacidade em 1967.\r\n\r\nO produto final (tenho em m\u00e3os a vers\u00e3o deluxe) \u00e9 fant\u00e1stico. Impecavelmente concebida, a caixa re\u00fane o vinil 12\u0022 duplo, dois singles de 7\u0022, cinco CDs, um livro e um p\u00f4ster. O vinil tenta recriar a configura\u00e7\u00e3o pensada originalmente, respeitando as artes de Frank Holmes, assim como os dois singles. Os CDs concentram o \u0022\u00e1lbum\u0022 seguido de algumas faixas alternativas no primeiro disco enquanto os outros quatro re\u00fanem dezenas de registros de sess\u00f5es, a exemplo da caixa de *Pet Sounds*. Para os f\u00e3s mais dedicados, s\u00e3o horas de grava\u00e7\u00f5es que ilustram o desempenho de Brian e dos m\u00fasicos no est\u00fadio, oferecendo uma vis\u00e3o bastante ampla da cria\u00e7\u00e3o do disco e das indas e vindas que marcaram o processo. O livro \u00e9 um deleite, com apresenta\u00e7\u00e3o sublime, \u00f3timas fotos e artigos interessantes sobre a concep\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es e dados t\u00e9cnicos. Uma \u00fanica queixa recorrente entre os f\u00e3s foi a aus\u00eancia de mixes finalizados pelo pr\u00f3prio Brian em 66\/67 que, se n\u00e3o figurariam na vers\u00e3o final (n\u00e3o se sabe se tais mixes eram vers\u00f5es intermedi\u00e1rias ou definitivas) ao menos mereceriam seu lugar num produto t\u00e3o abrangente e com conte\u00fado \u0022arqueol\u00f3gico\u0022 t\u00e3o rebuscado.\r\n\r\nEsse cap\u00edtulo final de uma saga que come\u00e7ou em 1966 fez justi\u00e7a \u00e0s expectativas do f\u00e3s e principalmente ao legado da \u00e9poca e seu car\u00e1ter m\u00edtico. A Capitol Records respeitou o status inacabado do material, propondo uma interpreta\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s de uma defini\u00e7\u00e3o. Inclu\u00eddos os quatro CDs complementares da caixa, tem-se um registro abrangente dos caminhos explorados, que  reafirmam ao ouvinte sua possibilidade de continuar pensando *SMiLE*, remodelando e questionando suas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, tal qual Brian Wilson o fez no comando das mesas de som dos est\u00fadios nos long\u00edquos anos sessenta. Talvez nas vers\u00f5es de LP e CD duplos a montagem de Linnet assuma papel mais relevante, eclipsando a contribui\u00e7\u00e3o que as sess\u00f5es complementares na vers\u00e3o deluxe trazem para enxergar as *SMiLE Sessions* como uma obra inacabada, por\u00e9m rica em ideias, melodias e criatividade, t\u00e3o triunfantes e ambiciosas que nem mesmo seu criador, no auge de seu brilhantismo, foi capaz de conclui-las.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"2011, Capitol Records","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":348,"title":"Poster: Wilco","post_timestamp":"2011-10-20T17:49:47+00:00","url":"2011_10_20_poster_wilco","post":"(Bem legal o disco novo deles, hein?)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Desconhecido.","author":{"name":"Fabricio C. 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Ali, abandonou toda e qualquer restri\u00e7\u00e3o que sua ex-banda impunha, explorando in\u00fameras influ\u00eancias musicais e toda e qualquer possibilidade de arranjos, explicando musicalmente as raz\u00f5es para a guinada em sua carreira.\r\n\r\nEm *Toque Dela*, seu novo trabalho, Camelo muda o foco, limitando o espectro de g\u00eaneros que explorou em *Sou*, mirando na universalidade do rock. Paralelamente, amplia a possibilidade dos arranjos e instrumenta\u00e7\u00f5es, onde reafira sua voca\u00e7\u00e3o para encontrar alternativas criativas e inusitadas para suas can\u00e7\u00f5es. Novamente apoiado pelos incr\u00edveis Hurtmold, encontra nos m\u00fasicos uma poderosa usina de sons, cujos recursos utiliza em prol da sensibilidade das can\u00e7\u00f5es, seja via t\u00e9cnica, timbres ou ritmos. Enquanto em *Sou* trabalhou suas m\u00fasicas de forma isolada, fazendo de *Copacabana* uma marchinha de carnaval e *Menina Bordada* um bai\u00e3o roqueiro, em *Toque Dela* o conte\u00fado soa un\u00edssono mesmo com todas as particularidades que cada faixa imp\u00f5e. Da\u00ed, tem-se um \u00e1lbum mais coeso e pulsante, um dos maiores m\u00e9ritos do lan\u00e7amento.\r\n\r\nPermeadas de romantismo, as letras sugerem o seu fasc\u00ednio pelo relacionamento com Mallu Magalh\u00e3es (\u0022... parece brincadeira mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que \u00e9 bom demais\u0022 em *Acostumar*), como uma resposta franca aos julgamentos morais levantados pela midia. Embora derrape na poesia excessiva de *Tr\u00eas Dias* e no brasileirismo exacerbado de *Despedida*, o disco gira em torno da ternura oriunda de um relacionamento apaixonado, com as letras encontrando amparo na musicalidade. E Camelo ainda \u00e9 imbat\u00edvel quando escreve para naipes de metais, o que aqui faz com frequ\u00eancia, geralmente os colocando em primeiro plano (*Tudo o Que Voc\u00ea Quiser*). Ainda, consegue manter um fio condutor entre momentos mais reflexivos (*A Noite*) e empolgados (*Pretinha*), refor\u00e7ando a unicidade do trabalho.\r\n\r\nTalvez o maior triunfo de *Toque Dela* seja a ruptura com o cabecismo atribu\u00eddo ao m\u00fasico com o passar dos anos, motivo da vis\u00edvel prolifera\u00e7\u00e3o de detratores de seu trabalho. Esquivando-se da alcunha de *midas da MPB*, Camelo foi muito feliz ao comunicar-se longe de r\u00f3tulos, trazendo o ouvinte para seu universo simples por\u00e9m criativo, ponto que o m\u00fasico faz quest\u00e3o de n\u00e3o abrir m\u00e3o. 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Emoldurados e exibidos orgulhosamente nas paredes e, \u00e0s vezes, vendidos no eBay pela bagatela de 200,00 d\u00f3lares, os mais raros e peculiares.\r\n\r\n\u00c9 justo: costumam ser muito legais mesmo, quase sempre personalizados para o local do show em quest\u00e3o, e desenhados por gente como a [Ames Bros](http:\/\/amesbros.com\/) e o artista [Brad Klausen](http:\/\/www.artillerydesign.com\/). E o encanto que exercem sobre os fi\u00e9is f\u00e3s do Pearl Jam \u00e9 compreens\u00edvel: n\u00e3o h\u00e1 souvenir mais legal para um show que voc\u00ea presenciou. H\u00e1, claro, os [bootlegs oficiais](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pearl_Jam_Official_Bootlegs) com as grava\u00e7\u00f5es dos shows, coisa que a banda vem fazendo desde 2000, mas que hoje s\u00e3o largamente distribu\u00eddos pela internet em formato digital, o que tira um pouco do car\u00e1ter especial da coisa. Um poster, por outro lado, por ser um objeto f\u00edsico e de tiragem limitada, \u00e9 algo que envolve certa exclusividade, distin\u00e7\u00e3o, orgulho em possuir um. Quem coleciona qualquer coisa, sabe do que estou falando.\r\n\r\nEsse acima \u00e9 o poster confeccionado por Klausen para a turn\u00ea que a banda fez na Am\u00e9rica do Sul em 2005. O conceito do poster \u00e9 expl\u00edcito: v\u00ea-se o Tio Sam representado por um su\u00edno esmagando e sugando o sangue de sofridos trabalhadores da Am\u00e9rica do Sul. Segundo Klausen, a inspira\u00e7\u00e3o veio depois da leitura do cl\u00e1ssico [\u0022As Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina\u0022](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/As_Veias_Abertas_da_Am%C3%A9rica_Latina), do uruguaio [Eduardo Galeano](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Eduardo_Galeano). \r\n\r\nO detalhe da fugidia figura prestes a apunhalar o obeso explorador pelas costas \u00e9 emblem\u00e1tico: diz-se que a viol\u00eancia sugerida pela imagem incomodou Stone Gossard, que acabou vetando a venda do poster nos nove shows que a banda fez por aqui naquela ocasi\u00e3o. Mas, quatro anos depois, em 2009, a banda liberou sua venda atrav\u00e9s do Ten Club. N\u00e3o tenho certeza, mas me parece que foram impressas somente 250 c\u00f3pias, que se esgotaram rapidamente --- por toda essa historinha por tr\u00e1s do poster, ele virou o \u0022holy grail\u0022 da cole\u00e7\u00e3o de muita gente, mesmo entre quem n\u00e3o esteve nos shows. \r\n\r\nO poster \u00e9 \u00f3timo, n\u00e3o? Tive a sorte de, dias atr\u00e1s, encontrar um colega americano --- ou, apesar de eu achar bobagem, digamos \u0022estadunidense\u0022, s\u00f3 para ficar nesse clima rebelde anti-imperialista da imagem ---, um colega estadunidense de Ten Club que estava vendendo alguns dos seus posters, e entre eles, l\u00e1 estava o m\u00edtico South American Tour 2005. Saquei meu cart\u00e3o mais r\u00e1pido que os outros e o arrematei por uma fra\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o pelo qual ele aparece sendo vendido por a\u00ed, \u00e0s vezes.\r\n\r\nPS_1: Alguns outros muito legais [est\u00e3o compilados aqui](http:\/\/www.rollingstone.com\/music\/photos\/pearl-jam-in-posters-a-gallery-of-illustrated-tour-art-20071105). \r\n\r\nPS_2: Post escrito sob influ\u00eancia da intensa fase de audi\u00e7\u00f5es de Pearl Jam que venho vivendo aqui, fase cujo estopim foi o lan\u00e7amento do fant\u00e1stico [Vs and Vitalogy Limited Edition Collector\u0027s Boxed Set](http:\/\/dyingdays.net\/albums\/view\/vs_and_vitalogy_limited_edition_collectors_boxed_set). Que venha o box do *No Code* e do *Yield*!\r\n\r\nPS_3: Grandes lembran\u00e7as do [fant\u00e1stico show que assistimos em Porto Alegre, no dia 28 de novembro de 2005](http:\/\/dyingdays.net\/shows\/view\/pearl_jam_alexandre_luzardo).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"[Moonset Gallery](http:\/\/moonsetgallery.com\/catalog\/index.php?manufacturers_id=46\u0026osCsid=422d55c66b9926b048a5274ad624d969)","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":336,"title":"Duas faces de Kurt Cobain","post_timestamp":"2011-02-28T18:09:42+00:00","url":"2011_02_28_duas_faces_de_kurt_cobain","post":"Uns dias atr\u00e1s, Kurt Cobain, se vivo, teria feito 44 anos. Eu queria ter deixado aqui uma homenagem, aproveitando o embalo de estar ouvindo bastante o Nirvana por esses dias. Mas atrapalhado que estou em meio a outros compromissos, acabei esquecendo, portanto, desculpem-me o atraso no registro. L\u00e1 vai:\r\n\r\n\u003E (...) Cada passo do relacionamento de Kurt e Tobi apresentava desafios a sua auto-estima. Era muito dif\u00edcil para Kurt se encaixar no cen\u00e1rio cosmopolita de Seattle, mas mesmo na min\u00fascula Olympia ele se sentia como se fosse um participante de uma vers\u00e3o punk rock de Jeopardy, em que uma \u00fanica resposta errada o mandaria de volta a Aberdeen. Para um garoto que que crescera vestindo camisetas de Sammy Hagar, ele descobriu que tinha de usar constantemente seu eu \u0022Kurdt\u0022 como disfarce para proteger seu passado real. Ele chegava a confessar em um raro momento de auto-revela\u00e7\u00e3o em seu di\u00e1rio: \u0022Tudo que eu fa\u00e7o \u00e9 uma tentativa abertamente consciente e neur\u00f3tica de provar aos outros que sou pelo menos mais inteligente e legal do que eles pensam\u0022. Quando lhe pediram para nomear que influ\u00eancias tinha tido durante entrevistas \u00e0 imprensa em 1990, ele fez uma lista de m\u00fasicas inteiramente diferente da que havia feito um ano antes: passara a compreender que no mundo elitista do punk rock, quanto mais obscura e impopular fosse uma banda, mais avan\u00e7ado era citar o nome dela. Os amigos come\u00e7aram a notar mais o eu dividido: quando estava junto de Tobi, Kurt podia criticar uma banda que, mais cedo, no mesmo dia, ele defendera. (...)\r\n\r\nO trecho acima \u00e9 da excepcional biografia de Kurt Cobain \u0022Heavier Than Heaven - Mais Pesado que o C\u00e9u\u0022, de Charles R. Cross. Esse trecho, e muitos outros ao longo do livro, demoliu a ilus\u00e3o que alguns alimentavam quanto a uma suposta espontaneidade e despojamento no compartamento de Cobain. Dito isso, acredito que nunca, em hip\u00f3tese alguma, deve-se desprezar o talento do cara, capaz de momentos de inspira\u00e7\u00e3o e magnetismo arrebatadores como este abaixo.\r\n\r\n\u003Ciframe title=\u0022YouTube video player\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022390\u0022 src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/embed\/q7AzfiTg_6g\u0022 frameborder=\u00220\u0022 allowfullscreen\u003E\u003C\/iframe\u003E\r\n\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\nPodem me chamar de esquisito, louco, mas o trecho onde Kurt canta \u0022I\u0027m on warm milk and laxatives, cherry-flavored antacids\u0022, sempre foi das coisas mais tocantes e arrepiantes em tudo que eu j\u00e1 vi e ouvi em termos de m\u00fasica, na minha vida toda.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Beeem menos compras, muito menos espa\u00e7o na cabe\u00e7a para acompanhar lan\u00e7amentos. Estou migrando para aquele grupo de ouvintes que acaba confuso com o que est\u00e1 rolando e acaba recorrendo a um disco de suas bandas protegidas. Ou a um cl\u00e1ssico dos 90 qualquer. Temo terminar 2011 na definitiva rabugice, incapaz de me empolgar com a maioria das coisas novas, ao mesmo tempo que estarei enjoado da maioria dos cl\u00e1ssicos modernos que fatalmente girarei durante o ano.\r\n\r\nMas vamos l\u00e1 ent\u00e3o:\r\n\r\n**Arcade Fire** \/ *The Suburbs* (Merge): *Neon Bible* foi bom, mas come\u00e7ou a adornar o Arcade Fire de um ranso que costuma me incomodar: o messianismo. Mais um disco com ares \u00e9picos e o Arcade Fire cairia no meu ranking, mas Win Butler e cia. receberam minhas transmiss\u00f5es telep\u00e1ticas, concordando em gravar um material mais p\u00e9 no ch\u00e3o, mais r\u00e1pido e rasteiro. *The Suburbs* \u00e9 estruturalmente mais simples, por\u00e9m, deixou o Arcade Fire bem mais palat\u00e1vel, isentando-nos de entrar em sintonia com os males do mundo, com os terremotos haitianos ou com os desequil\u00edbrios familiares para entrar em sintonia com o disco. Tem punkzinho, tem folkzinho, tem indiezinho. E tudo soa muito, muito bem. Um disco redondo para ser escutado durante v\u00e1rios anos, quando bate o ponto de interroga\u00e7\u00e3o sobre o que ouvir num determinado dia, naquela hora.\r\n\r\n**The Secret** \/ *Solve Et Coagula* (Southern Lord): Uma porradaria sem precedentes, \u00f3tima trilha para as corridas pelas ruas da cidade. Contribuiu com a melhoria de meus tempos, que ca\u00edram no decorrer do ano. Muitos riffs, ang\u00fastia, ira e peso.\r\n\r\n**Wolf Parade** \/ *Expo 86* (Sub Pop): Olha, meu review na DD n\u00e3o foi dos melhores, mas acho que as can\u00e7\u00f5es do Dan Boeckner meio que salvam a colheita. Nada que aproxime-se dos melhores momentos da banda, mas faixas como *Little Golden Age* e a bela *Yulia* s\u00e3o bastante honestas, de dar vontade de escutar novamente. \u00c9 at\u00e9 bom que o disco divida-se entre altos e baixos. Enquanto escuto, fico torcendo para que as faixas do Spencer Krug terminem e d\u00eaem lugar \u00e0s do Boeckner. Cria um efeito legal.\r\n\r\n**Thou** \/ *Summit* (Gilead Media): Outra pedrada, essa um paralelep\u00edpedo que desloca-se lenta mas massivamente. Doom com toques mel\u00f3dicos, funcionou bem por aqui.\r\n\r\nN\u00e3o t\u00f4 lembrando de mais coisas pass\u00edveis de men\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o posso deixar o *Interpol* (Matador) passar batido, esse sim um eng\u00f4do dos mais brabos. Tirando *Barricade*, que funciona MUITO bem (resumindo, \u00e9 um BELO hit), o disco parece propositalmente constru\u00eddo para mostrar o que de pior a banda pode fazer. Faixas pouco inspiradas, conflitos entre egos, pseudo renova\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Medonho.\r\n\r\nPara 2011, temos os queridinhos Earth com dois discos novos, um ao vivo limitad\u00e3o do Sunn O))). Acho que \u00e9 s\u00f3 isso que tenho na b\u00fassola, por enquanto (quem te viu, quem te v\u00ea).\r\n\r\nPara fechar, julgo interessante saudar a for\u00e7a girando em torno do vinil, com os selos aplicando-se em revitalizar o formato e coloc\u00e1-lo nas prateleiras. \u00c9 definitivamente mais empolgante gastar alguma parte do meu sal\u00e1rio com vinil e os apetrechos que cercam sua cultura. Em 2010 o formato deixou a categoria da curiosidade para recuperar uma parte da seriedade que ele tem como alternativa de formato musical. Viva La Vinil.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":329,"title":"Meus preferidos de 2010","post_timestamp":"2010-12-08T17:57:54+00:00","url":"2010_12_08_meus_preferidos_de_2010","post":"Meus tr\u00eas discos prediletos de 2010 s\u00e3o esses da foto a\u00ed em cima: *Everything in Between* do No Age, *Forgiveness Rock Record* do Broken Social Scene e o *Suburbs* do Arcade Fire. N\u00e3o tenho muito o que dizer --- s\u00e3o fant\u00e1sticos.\r\n\r\nPara completar os tradicionais sete escolhidos, eu citaria ainda o *Root for Ruin* do Les Savy Fav, o *Superguidis* do Superguidis, o *Grinderman 2* do Grinderman e o *Le Noise* do Neil Young.\r\n\r\n**Update em 13 de dezembro**: como fui esquecer o *Sisterworld * do Liars? Minha lista fica, ent\u00e3o, com oito melhores. \r\n\r\nMen\u00e7\u00f5es honrosas: os EPs que [Loomer](http:\/\/sinewave.com.br\/2010\/09\/loomer-coward-soul\/) e [Electric Goat Combo](https:\/\/docs.google.com\/leaf?id=0B6ASLXm4-NXOZDhlMGJhMTUtMTAyNy00YWVmLTlhNzEtNTk0OTk1ZGM5Nzk5\u0026hl=en) soltaram na internet s\u00e3o muito bacanas; \r\no *The Dissent of Man* do Bad Religion \u00e9, enfim, um disco legal do Bad Religion neste novo mil\u00eanio; o *Black Masses* do Electric Wizard e o *Wonder* do Knut s\u00e3o destruidores e, last but not least, o *Highway Rider* do Brad Mehldau \u00e9 uma viagem fascinante.\r\n\r\nDuas bandas que eu acho que n\u00e3o erram nunca lan\u00e7aram discos este ano, o Superchunk e o Manic Street Preachers. O *Majesty Shredding* do Superchunk corrobora a teoria, j\u00e1 o *Postcards from a Young Man* do Manic, sei n\u00e3o, ouvi umas duas ou tr\u00eas vezes e mal lembro do que ouvi. Mas eles t\u00eam muito cr\u00e9dito, e certamente ouvirei o disco novamente. Outra leve decep\u00e7\u00e3o foi o novo do Thermals, *Personal Life* --- \u00e9 o segundo disco deles em sequ\u00eancia que acho meia-boca. Parece que algo se perdeu depois do fant\u00e1stico *The Body, The Blood, The Machine*. Por fim, o \u00e9pico ao vivo *Special Moves*, do Mogwai, ainda estou ouvindo, degustando aos poucos. Na primeira audi\u00e7\u00e3o, fiquei com uma sensa\u00e7\u00e3ozinha estranha, algo como \u0022poderia ser melhor\u0022, mas acho que \u00e9 esse calor de ver\u00e3o, n\u00e3o combina nada com Mogwai. Com o [tracklist que tem](http:\/\/dyingdays.net\/albums\/view\/special_moves), o disco poderia ir l\u00e1 pro primeiro par\u00e1grafo, o que s\u00f3 n\u00e3o acontece por se tratar justamente de uma compila\u00e7\u00e3o.\r\n\r\nPara 2011, as fichas est\u00e3o depositadas em Fleet Foxes, Explosions In The Sky, R.E.M., Mogwai, Iron \u0026 Wine, Shins, Radiohead, Trail Of Dead e Gang of Four.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":328,"title":"Narcisismo a servi\u00e7o da humanidade","post_timestamp":"2010-12-03T20:46:01+00:00","url":"2010_12_03_narcisismo_a_servico_da_humanidade","post":"N\u00e3o \u00e9 incomum um amigo prestar homenagem a outro inserindo casualmente\r\nem uma letra de m\u00fasica o nome, profiss\u00e3o e CPF do tal amigo. Foi isso\r\nque fez Pelle Carlberg em *I Touched You At The Sound Check*,\r\ndivertindo-se \u00e0s custas do Mike Joyce, ex-Smiths:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/8x5cWP8w5UY?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/8x5cWP8w5UY?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nS\u00f3 que isso poderia ser levado ao extremo, e as bandas poderiam sempre\r\ninserir casualmente seu nome nas suas letras. N\u00e3o seria \u00fatil? Isso\r\nteria me poupado horas e horas em que fiquei tentando associar uma\r\nm\u00fasica \u00e0 sua banda criadora. Um que fez isso, cantar seu pr\u00f3prio nome, foi o\r\nJordy:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/7IiLZ0dvDWU?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/7IiLZ0dvDWU?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nEspero que voc\u00ea tenha chegado a esse par\u00e1grafo inc\u00f3lume, depois das\r\nm\u00e1s lembran\u00e7as do v\u00eddeo acima.  Afinal, o melhor ficou para o\r\nfim. Voc\u00ea j\u00e1 ouviu *Cape Cod Kwassa Kwassa*, do Vampire Weekend?\r\nOlha ent\u00e3o esse cover do Peter Gabriel, que teve que cantar o pr\u00f3prio\r\nnome, a muito contragosto:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/-uhi2_oBdXM?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/-uhi2_oBdXM?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":326,"title":"Aya","post_timestamp":"2010-10-22T17:03:36+00:00","url":"2010_10_22_aya","post":"\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/A4Sen2EG8-o?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/A4Sen2EG8-o?fs=1\u0026amp;hl=pt_BR\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nO meu veredito para este \u00faltimo disco do Black Rebel Motorcycle Club \u00e9 o mesmo de outros dois discos deles: levemente decepcionante, algumas m\u00fasicas repetitivas desnecess\u00e1rias, mas pelo menos uma grande can\u00e7\u00e3o antes do disco terminar. 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Essa edi\u00e7\u00e3o especial \u00e9 bem bacana, nem tanto pelas faixas b\u00f4nus, mas principalmente pelo citado livreto, que \u00e9 \u00f3timo, cheio de notas, fotos, entrevistas, muito bom mesmo.\r\n\r\nOra, se n\u00e3o vai ser legal esse Terra Festival? S\u00f3 tenho um receio: vai que o Billy Corgan ainda n\u00e3o sabe que o Pavament t\u00e1 na parada e, ao descobrir, d\u00e1 um ataque e pula fora? Seria lament\u00e1vel. E \u00e9 s\u00e9rio, tenho um medo real disso. Perturbado do jeito que o cara \u00e9...\r\n\r\nO trechinho desta entrevista \u00e9 \u00f3timo, n\u00e3o s\u00f3 pela caso do Pavement com o Pumpkins, mas tamb\u00e9m pelo desfecho com o Scott Weiland --- \u0022or maybe that was the waiter?\u0022.\r\n\r\nPS: perdoem-me a digitaliza\u00e7\u00e3o mal feita, mas d\u00e1 de ler, n\u00e3o?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Digitalizado a partir do livreto que acompanha a vers\u00e3o deluxe de *Crooked Rain, crooked Rain*, do Pavement.","author":{"name":"Fabricio C. 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Naked* lan\u00e7ado uns poucos anos atr\u00e1s, e um vinil velho do *Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band*. O resto, s\u00f3 em MP3. Essa lacuna na cole\u00e7\u00e3o de discos tem a ver com o fato de que n\u00e3o sou l\u00e1 dos maiores entusiastas do Fab Four, apesar de reconhecer que a obra dos caras \u00e9 inegavelmente fant\u00e1stica, e alguns dos discos eu realmente gosto como obra-primas que s\u00e3o (*White Album* e *Let It Be* em especial). Mas, no meu retrospecto de colecionador\/consumidor de m\u00fasica, nunca investi muito nos Beatles em fun\u00e7\u00e3o de outras prefer\u00eancias mais intensas, e acho at\u00e9 que eu ia demorar ainda mais um pouco para fazer uma proposta de casamento \u00e0 uma dessas caixinhas porque, no Brasil, elas n\u00e3o custam menos do que 750,00 reais --- isso pela internet, pois nas lojas de Florian\u00f3polis nunca vi por menos de 1.000,00.\r\n\r\nIsso se n\u00e3o fosse o fato de eu estar viajando pela Fran\u00e7a e, numa Virgin Megastore, v\u00ea-las em promo\u00e7\u00e3o por cerca de 150,00 euros (na cota\u00e7\u00e3o de hoje, cerca de 330,00 reais). A caixinha preta, que traz os discos remasterizados em stereo, um pouco mais barata do que a branca, cujos discos s\u00e3o remasterizados em mono. N\u00e3o podia perder a oportunidade, ent\u00e3o me pus a analisar qual delas levar. A princ\u00edpio, stereo \u00e9 melhor do que mono, certo? [Nem sempre](http:\/\/gizmodo.com\/5216258\/sorry-stereo-but-beatles-in-mono-rocks-a-lot-more). Mas eu n\u00e3o sou nenhum audi\u00f3filo, ent\u00e3o o fato da caixinha preta ser mais barata e trazer todos os discos --- a branca n\u00e3o inclui *Yellow Submarine*, *Abbey Road* e *Let It Be*, devido ao fato destes discos nunca terem sido lan\u00e7ados em vers\u00e3o mono --- definiu minha escolha.\r\n\r\nAqui no nosso apartamento alugado tem um aparelhinho de som vagabundo, e eu pensei em deixar para ouvir os discos no aparelho de som minimamente decente que tenho em casa, assim que voltasse. Mas n\u00e3o resisti \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o e j\u00e1 estou ouvindo alguns deles, e apesar do d\u00e9ficit na qualidade da reprodu\u00e7\u00e3o dos discos, a coisa toda j\u00e1 \u00e9 muito apreci\u00e1vel; a caixinha \u00e9 fant\u00e1stica, com encartes recheados de fotos e hist\u00f3rias, o que n\u00e3o \u00e9 pouco, pois ler as hist\u00f3rias dos Beatles \u00e9 muito mais do que ler hist\u00f3rias de uma banda, \u00e9 ler hist\u00f3rias sobre um bom naco da hist\u00f3ria musical de nosso tempo. \r\n\r\nMas fica a\u00ed a dica, para quem pensa tamb\u00e9m em comprar a caixa, do que levar em conta na hora de decidir qual. Se voc\u00ea for audi\u00f3filo, considere bem o que diz a mat\u00e9ria do Gizmodo referenciada acima e leia tamb\u00e9m [este artigo da Pitchfork](http:\/\/pitchfork.com\/reviews\/albums\/13425-stereo-box-in-mono\/), publicado na \u00e9poca do lan\u00e7amento das caixas, em setembro do ano passado. Em favor da caixinha branca, este trechinho aqui pode fazer diferen\u00e7a:\r\n\r\n\u003E (...) Why mono? Two reasons. First, pop music in stereo was still a novelty through most of the 60s. Radio was dominated by single-channel AM, and the young people who bought LPs were far more likely to have a mono record player as a sound source. Given their audience and the technology of the time, for much of the Beatles\u0027 run, the band themselves considered the mono mix as the \u0022real\u0022 version of the record and devoted more of their attention to it. Mono mixes were prepared first with the involvement of the band, and in some cases, George Martin and EMI engineers completed stereo remixes of the albums later, after the group had left the studio. So mono, first off, presumably hews closer to the intentions of the Beatles themselves. It\u0027s what the Beatles had in mind, their vision of the records. (...)\r\n\r\nE o par\u00e1grafo seguinte, n\u00e3o somente para os audi\u00f3filos, mas para todos os Beatle-man\u00edacos, pode bater o martelo em favor da caixa branca:\r\n\r\n\u003E (...) Secondly, since the mono and stereo mixing sessions happened at different times, there are differences between the two versions, not just in the balance of the sound but also in the actual content. Different takes were sometimes used for punching in overdubs, or an alternate vocal take might make its way into the mix. Sometimes tracks were edited differently, and would be shorter or longer, and in some cases the tape ran at a slightly different speed, changing the pitch slightly. Some of the differences are subtle, and some are not. The mono version of \u0022Helter Skelter\u0022, to take one example, is a minute shorter, as the \u0022false\u0022 ending fadeout is presented as the track\u0027s true ending (and it thus omits the closing scream of \u0022I got blisters on my fingers!\u0022) The significance of these differences will depend on the level of one\u0027s Beatles fandom; of course, those shelling out for the In Mono box will likely enjoy poring over the details. (...)\r\n\r\nAh, mas voc\u00ea ouve m\u00fasica com headphones? Bom, ent\u00e3o continue lendo o artigo l\u00e1 na Pitchfork, pois alguns argumentos que v\u00eam na sequ\u00eancia podem reverter a decis\u00e3o tomada acima...\r\n\r\nEnfim, como n\u00e3o sou um Beatle-man\u00edaco e muito menos um audi\u00f3filo, e portanto mal devo perceber esses detalhes sonoros diferenciados, estou bem satisfeito com a caixinha preta. E n\u00e3o vejo a hora de voltar para casa para ouvir *Helter Skelter* explodindo nos headphones, apropriadamente sentado no meu sof\u00e1, focado na m\u00fasica e nos encartes.\r\n\r\nPS1: Este artigo da Pitchfork, al\u00e9m de falar das diferen\u00e7as no \u00e1udio, fala tamb\u00e9m das outras diferen\u00e7as entre as duas caixas, em termos de conte\u00fado, embalagens, livretos, etc.\r\n\r\nPS2: O curioso \u00e9 que no Brasil, pesquisando os pre\u00e7os pelo site da Americanas, percebi que a [caixinha mono](http:\/\/www.americanas.com.br\/AcomProd\/580\/2850863) \u00e9 mais barata que a [caixinha stereo](http:\/\/www.americanas.com.br\/AcomProd\/580\/2850859), enquanto que aqui na Fran\u00e7a \u00e9 o contr\u00e1rio.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":317,"title":"Modest Mouse @ Londres","post_timestamp":"2010-09-10T09:28:28+00:00","url":"2010_09_10_modest_mouse_londres","post":"[Show fant\u00e1stico](http:\/\/www.lastfm.com.br\/event\/1564563+Modest+Mouse+at+Troxy+on+8+September+2010). Tem poucas bandas por a\u00ed t\u00e3o boas quanto o Modest Mouse. Foto vagabunda tirada com aparelho celular porque esqueci de levar a c\u00e2mera port\u00e1til.\r\n\r\n[Setlist](http:\/\/www.setlist.fm\/setlist\/modest-mouse\/2010\/troxy-london-england-53d5eba9.html):\r\n\r\n1. Dramamine\r\n2. Gravity Rides Everything\r\n3. Dashboard\r\n4. Satin In A Coffin\r\n5. Here\u0027s To Now (Ugly Casanova cover)\r\n6. Tiny Cities Made of Ashes\r\n7. Baby Blue Sedan\r\n8. Cowboy Dan\r\n9. Float On\r\n10. The Whale Song\r\n11. 3rd Planet\r\n12. Custom Concern\r\n13. King Rat\r\n14. Black Cadillacs\r\n15. Spitting Venom\r\n\r\nBis\r\n\r\n16. Bukowski\r\n17. Broke\r\n18. The View\r\n\r\nTextinho sobre o show em breve. E para algumas fotos decentes, [clique aqui](http:\/\/www.flickr.com\/photos\/tags\/lastfm%3Aevent%3D1564563\/interesting\/).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto tirada por Natalia Vale Asari.","author":{"name":"Fabricio C. 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E at\u00e9 relativamente pouco tempo atr\u00e1s, nem essas\r\n\u003E embalagens vinham com imagens, cr\u00e9ditos, notas do artista, nem nada\r\n\u003E --- no come\u00e7o, a embalagem de discos era gen\u00e9rica. As pessoas\r\n\u003E apreciaram suas m\u00fasicas por s\u00e9culos sem nenhum artif\u00edcio visual\r\n\u003E complementar ou embalagens cativantes. Por outro lado, fiquei\r\n\u003E sabendo que quando Alex Steinweiss fez a primeira capa para a\r\n\u003E sinfonia *Eroica* de Beethoven, a embalagem provocou uma explos\u00e3o\r\n\u003E de vendas. Sendo assim, o poder das capas n\u00e3o pode ser\r\n\u003E subestimado. O pacote musical evoluiu para se tornar a\r\n\u003E personifica\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o de mundo representada n\u00e3o s\u00f3 pela\r\n\u003E m\u00fasica, mas tamb\u00e9m pelas embalagens, artistas, bandas, shows,\r\n\u003E roupas, videoclipes e todos os outros materiais perif\u00e9ricos. Mas\r\n\u003E muito em breve tudo isso pode voltar a se resumir apenas ao \u00e1udio\r\n\u003E gra\u00e7as ao mundo digital, em que pessoas podem comprar vers\u00f5es\r\n\u003E digitais apenas da can\u00e7\u00e3o de que elas gostam, enquanto todo o resto,\r\n\u003E materiais secund\u00e1rios e imagens s\u00e3o esquecidos ou ignorados. A era\r\n\u003E da nuvem de dados que fez da m\u00fasica pop um elemento representativo\r\n\u003E da percep\u00e7\u00e3o de mundo pode estar com os dias contados. E Stefan n\u00e3o\r\n\u003E me pareceu muito nost\u00e1gilco em rela\u00e7\u00e3o a isso.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"[Amazon](http:\/\/www.amazon.com\/gp\/customer-media\/product-gallery\/B001NNMJJS\/ref=cm_ciu_pdp_images_0?ie=UTF8\u0026index=0)","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":306,"title":"Most people wouldn\u0027t know good music if it came up and bit them in the ass","post_timestamp":"2010-07-29T20:02:57+00:00","url":"2010_07_29_most_people_wouldnt_know_good_music_if_it_came_up_and_bit_them_in_the_ass","post":"Eu n\u00e3o sabia que o Frank Zappa era tamb\u00e9m um frasista de talento. N\u00e3o \u00e9 assim um [Mark --- As not\u00edcias a respeito de minha morte tem sido bastante exageradas --- Twain](http:\/\/www.frasesfamosas.com.br\/de\/mark-twain.html), mas tem algumas tiradas \u00f3timas. Alguns exemplos a seguir: \r\n\r\n\u0022Jazz is not dead, it just smells funny.\u0022\r\n\r\n\u0022Stupidity is the basic building block of the universe.\u0022\r\n\r\n\u0022There is no hell. There is only France.\u0022\r\n\r\n\u0022Without music to decorate it, time is just a bunch of boring production deadlines or dates by which bills must be paid.\u0022\r\n\r\n\u0022If we can\u0027t be free at least we can be cheap.\u0022\r\n\r\n\u0022Most people wouldn\u0027t know good music if it came up and bit them in the ass.\u0022","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":299,"title":"Meat Puppets ao vivo na Amoeba Records","post_timestamp":"2010-06-29T19:03:08+00:00","url":"2010_06_29_meat_puppets_ao_vivo_na_amoeba_records","post":"Os Meat Puppets t\u00eam feito pequenas turn\u00eas pelo sul dos EUA, e volta e meia param em lojas de discos, tocando de gra\u00e7a. Esta \u00e9 a performance na Amoeba Recs, megaloja em Los Angeles. 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Ouvi algumas coisas como *Red Sparowes* e *Russian Circles*, bandas que numa primeira etapa empolgam, mas na sequ\u00eancia caem num lugar-comum t\u00e3o corriqueiro no post-rock. T\u00eam seus momentos, \u00e9 verdade. D\u00e1 para escutar sem compromisso.\r\n\r\nBom mesmo foi h\u00e1 pouco. Tava escutando *Age Of Innocence*, com saudades do meu viol\u00e3o aposentado e lembrei de rodar o *Adore* depois de um bom tempo sem escut\u00e1-lo. Matei a saudade da tristeza bruta de *Shame*, do desamparo de *Crestfallen* e das eletronices lindas de *Appels + Oranjes*. Que venha o invern\u00e3o.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":295,"title":"Nega do Cabelo Duro e iPad em 2001","post_timestamp":"2010-06-16T10:39:02+00:00","url":"2010_06_16_nega_do_cabelo_duro_e_ipad_em_2001","post":"N\u00e3o bastasse a experi\u00eancia cinematogr\u00e1fica \u00fanica que \u00e9, \u00222001: A Space Odyssey\u0022 ainda tem essa trilha sonora fant\u00e1stica. Uma mistura grandiosa e bizarra de m\u00fasica cl\u00e1ssica, avant-garde, ambient. Vale a pena ter ambos em casa --- filme e disco. \r\n\r\nAinda sobre o \u00222001\u0022, uma curiosidade musical pescada da Wikipedia: \r\n\r\n\u003E (...) Many foreign language versions of the film do not use the song Daisy. In the French soundtrack to 2001, HAL sings the French folk song Au Clair de la Lune while being disconnected. In the German version, HAL sings the children\u0027s song H\u00e4nschen Klein and in the Italian version HAL sings Giro giro tondo. (...)\r\n\r\nAinda bem que, por aqui, n\u00e3o dublaram o HAL cantando *O Cravo e a Rosa*. Se bem que, se ele cantasse *Nega do Cabelo Duro*, talvez ficasse interessante.\r\n\r\nPS: Perceberam o astronauta usando o iPad ali na imagem que faz parte do encarte da trilha-sonora do filme? \u00c9, a Apple atrasou-se em 9 anos para lan\u00e7ar o bagulho.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Encarte do disco da trilha sonora do filme \u00222001: A Space Odyssey\u0022.","author":{"name":"Fabricio C. 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Poucos discos transmitem tamanha legitimidade, ao passo que *Disintegration* n\u00e3o faz for\u00e7a em ser obscuro, desiludido, triste - ele \u00c9. Mesmo inebriado em teclados um tanto datados e com produ\u00e7\u00e3o marcada por algumas tend\u00eancias da \u00e9poca, a percep\u00e7\u00e3o do ouvinte compartilha tristeza e beleza, perfeitamente combinadas. Dos singles, apenas *Lullaby* identifica-se como *upbeat* (isso em par\u00e2metros Cure) pois *Pictures Of You* e *Lovesong*, embora apreciadas pelo p\u00fablico maior, de forma alguma entram em acordo com um perfil \u0022alegre\u0022 radiof\u00f4nico. E se dessas faixas tira-se o conjunto mais claro do disco, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que dali adiante as brumas impregnam seu conte\u00fado. *The Same Deep Water As You* e *Prayers For Rain* s\u00e3o manifestos da m\u00fasica sombria da banda, carregadas de desilus\u00e3o, onde destacam-se as interpreta\u00e7\u00f5es vocais de Robert Smith. E n\u00e3o \u00e9 a toa que neste disco residam as (possivelmente) melhores m\u00fasicas que a banda escreveu: *Disintegration* e *Closedown*, ricas em melodias *downbeat*. Curiosamente, um disco t\u00e3o sobrecarregado quanto esse termina num clima at\u00e9 redentor, com a suave melancolia de *Untitled*.\r\n\r\n*Disintegration* retrata uma \u00e9poca em que os artistas mainstream, embora controlados por anseios de suas gravadoras, eventualmente tiravam obras *sui generis* das gavetas. O p\u00fablico, por sua vez, estranhamente adaptava-se e celebrava determinados discos sem perfil radiof\u00f4nico. Hoje, mesmo com toda a liberdade \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem cria, n\u00e3o se arrisca mais, ao menos no ambiente multinacional. J\u00e1 que a moda \u00e9 ficar com o que se conhece, melhor aproveitar o inverno que se aproxima e investir nessa vers\u00e3o deluxe. Combina perfeitamente com os c\u00e9us cinzentos que se formar\u00e3o.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Rhino Records","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":280,"title":"The answer to life","post_timestamp":"2010-05-09T13:29:38+00:00","url":"2010_05_09_the_answer_to_life","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"Peanuts, por Charles Schulz","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":279,"title":"Uma turminha que apronta mil e uma confus\u00f5es","post_timestamp":"2010-05-04T19:14:50+00:00","url":"2010_05_04_uma_turminha_que_apronta_mil_e_uma_confusoes","post":"**Broken Social Scene : \u0022Forgiveness Rock Record\u0022** (Arts \u0026 Crafts, 2010)\r\n\r\nO Broken Social Scene jamais ser\u00e1 celebrado por economizar. Ao contr\u00e1rio, a voca\u00e7\u00e3o do supergrupo foi, ao longo de seus tr\u00eas discos anteriores, de usar todo e qualquer recurso em prol de um som grandioso e irriquieto, chegando em resultados que apontam para diversificadas influ\u00eancias, principalmente as bandas da d\u00e9cada de noventa. Al\u00e9m do rod\u00edzio fren\u00e9tico de participantes, que funciona muito bem ao definir o funcionamento da banda, h\u00e1 o uso de diversos instrumentos, permitindo que o som migre de guitarras ruidosas a-la Sonic Youth para violinos e sopros em quest\u00e3o de minutos. Vai mesmo do que se passa pela cabe\u00e7a de Kevin Drew e Brendan Canning na hora do REC.\r\n\r\nEntretanto, ao mesmo tempo em que o projeto obteve consider\u00e1vel reconhecimento por revitalizar sonoridades at\u00e9 certo ponto desprezadas durante a d\u00e9cada dos Strokes, seus discos s\u00e3o verdadeiras carretas de informa\u00e7\u00f5es. A linha entre um \u00e9pico indie e o descontrole \u00e9, no caso da banda, t\u00eanue e dependendo da bagagem musical do ouvinte, seus discos podem facilmente sobrecarregar a experi\u00eancia para os menos pacientes (ou experientes, talvez). Assim, os aclamados *You Forgot It In People* e *Broken Social Scene* s\u00e3o excelentes, mas n\u00e3o ficam para a posteridade gra\u00e7as a esses exageros que em certos momentos desvirtuam o andamento do que poderia ser um candidato a cl\u00e1ssico moderno.\r\n\r\nMas *Forgiveness Rock Record* apara algumas arestas, oferecendo uma vers\u00e3o mais objetiva do que a banda pode ser. Obviamente, seguem as m\u00faltiplas influ\u00eancias e possibilidades sonoras que elas sugerem, entretanto, a condu\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada para uma estrutura concisa, o que ajuda bastante o ouvinte a acompanhar o disco do in\u00edcio ao fim. Positivamente, a iniciativa n\u00e3o tirou o brilho que as m\u00fasicas do BSS costumam ter, embora resultem num disco com ares menos \u0022\u00e9picos\u0022 do que os antecessores. Ainda assim, faixas com voca\u00e7\u00e3o para hits (ou singles) favorecem os resultados, ao ponto de se concordar que a banda soa melhor com as r\u00e9deas mais pr\u00f3ximas ao j\u00f3quei. Duro resistir \u00e0s melodias de faixas como *Texico Bitches* (pra quem curte hitzinho indie, \u00e9 um prato cheio) e *World Sick*. Os fantasmas dos 90 rodopiam freneticamente em *Forced To Love* e na instrumental *Meet Me In The Basement*, assim como o BSS mostra alguns de seus atributos infal\u00edveis em *Art House Director* e *Water In Hell*.\r\n\r\nTalvez *Forgiveness Rock Record* n\u00e3o seja um divisor de \u00e1guas capaz de elevar a banda a c\u00e9us mais extensos que os que ela j\u00e1 percorre, mas tem combust\u00edvel suficiente para alcan\u00e7ar as boas listas de final de ano. Para uma banda que prima tanto pelas possibilidades que a m\u00fasica oferece, o disco n\u00e3o poderia soar t\u00e3o equilibrado e capaz de satisfazer a ouvintes menos iniciados.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Arts + Crafts [CA]","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":278,"title":"A melodia","post_timestamp":"2010-05-02T13:11:23+00:00","url":"A_melodia","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"\u0022A Melodia\u0022, de Tranquillo Cremona, copiada [deste site](http:\/\/www.frammentiarte.it\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":277,"title":"Will Oldham, her\u00f3i nacional chileno","post_timestamp":"2010-04-26T14:44:29+00:00","url":"Will_Oldham_heroi_nacional_chileno","post":"","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Notinha de 10.000 pesos chilenos","author":{"name":"Fabricio C. 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Poderia ter sido muito mais, h\u00e3, intenso, mas no fim das contas, s\u00e3o assim os shows nos EUA. O p\u00fablico est\u00e1 cada vez mais passivo. \u00c9 um saco: ao inv\u00e9s de levantar isqueiros, a galera levanta celulares. Essa \u00e9 a \u00fanica vantagem que eu consigo imaginar de n\u00e3o permitir equipamento em show: voc\u00ea tenta guardar as coisas na cabe\u00e7a.\r\n\r\n[Levando tudo em conta, n\u00e3o tirei muitas fotos, porque d\u00e1 pra baixar tudo no Flickr depois, e de gente que estava com c\u00e2meras profissionais. C\u00famulo --- d\u00ea uma busca pela resenha do Sly Stone na New Yorker. O cara fez a resenha baseado no TWITTER. Ele n\u00e3o foi.]\r\n\r\nDe qualquer maneira, a\u00ed est\u00e1: todas as bandas de velhos (\u00e9) pararam em algum momento para tirar sarro ou reclamar. Ian McCulloch (\u0026 the Bunnymen), depois de mandar um *Walk on the Wild Side*, suspirava --- \u0022you know, usually people sing along to this one. It\u0027s by a great songwriter, Lou Reed\u0022. Johnny Rotten: \u0022... I\u0027m not starting till you start\u0022. Mike Patton foi mais de cara, mas n\u00e3o consegui achar o v\u00eddeo [AINDA]: simplesmente parou e come\u00e7ou a encarar o povo com a boca aberta e os olhos esbugalhados por v\u00e1rios minutos. :-D\r\n\r\nAt\u00e9 o DEVO, mas de maneira mais discreta: \u0022... looking around at Coachella...\u0022 (...) \u0022we\u0027re all devol!!\u0022. \r\n\r\nAcho que os dois melhores foram o King Khan (\u0022now I want you to raise a dollar note... and burn it. Doesn\u0027t make any difference here anyway\u0022) [uns $100 foram queimados nessa hora]. E o fiasco de um Sly Stone chapado demais para qualquer coisa fora falar do processo contra o empres\u00e1rio [por sinal, n\u00e3o vi o Gorillaz por causa disso. O Sly Stone foi transferido de palco por atraso tr\u00eas vezes at\u00e9 coincidir com o \u00faltimo show do festival. A banda e a equipe, muito profissionais e pacientes considerando tudo]. \r\n\r\nO Pavement foi relativamente pol\u00edtico, mas recheou o show com refer\u00eancias, e finalmente, Sunny Day Real Estate, que foi a \u00fanica das bandas que vi que n\u00e3o comentou nada. E Raveonettes, que praticamente se desculpou (?!?!!) por ser, erm, diferente do resto (?!?!?!?!?!). Imagino que talvez entre as coisas mais recentes e sem gosto, ou no lado do hip hop, a recep\u00e7\u00e3o estivesse melhor.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022500\u0022 height=\u0022280\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/5f-qS7gaHY8\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/5f-qS7gaHY8\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022500\u0022 height=\u0022280\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nEnt\u00e3o aqui v\u00e3o alguns links... porque n\u00e3o quero entupir o blog com dezenas de videos embedded.\r\n\r\n* [Faith No More (Epic)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4nA6_moHZbk) \r\n* [PIL (Public Image\/Rise)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ap2lrsk_71g)\r\n* [Sunny Day Real Estate (2... mas eles abriram com 8 e eu n\u00e3o achei ainda)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0Lm0GbZK3zw)\r\n* [Pavement (Stereo)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6ZRckfhihcs): (compare com [este](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=GI5akIHu99E)) \r\n* [The Specials (Monkey Man, participa\u00e7\u00e3o especial do yo gabba gabba)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=qMcR_njnxZg)\r\n* [Echo \u0026 the Bunnymen (Lips like Sugar)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Codk0yBd4KU)\r\n* [King Khan (Land of the Freaks... e ningu\u00e9m pra pegar a refer\u00eancia al\u00e9m do desenho)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hoLBW7XYH9Q)\r\n* [Les Claypool (vale pelos coment\u00e1rios)](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=JqxmM4s5zOE)\r\n \r\nO festival tamb\u00e9m contou com LCD soundsystem, Yo La Tengo, Dead Weather, Porcupine Tree, Muse etc (todos devidamente filmados e j\u00e1 encontr\u00e1veis, mas eu esperaria uns dias at\u00e9 come\u00e7arem a ripar o que foi filmado l\u00e1 na frente).","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Jardim de garrafas ($2-4 cada) no final do dia do PIL\/Jay Z.","author":{"name":"Ana D.M.","url":"ana_dm"}},{"id":275,"title":"Uma hist\u00f3ria e um download","post_timestamp":"2010-04-12T01:26:14+00:00","url":"2010_04_11_uma_historia_e_um_download","post":"--- ou Pode parecer, mas isso n\u00e3o \u00e9 uma elegia aos \u0022bons tempos\u0022\r\n\r\nO [bairro onde eu moro](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Kobrasol) costumava ser, na minha inf\u00e2ncia, uma pacata e pequena \u00e1rea residencial, um desses locais onde as portas ficavam abertas e as pessoas se encontravam em frente \u00e0s suas casas de noite para conversar. Hoje \u00e9 um bairro barulhento, sujo e inseguro, um lugar que cresceu muito r\u00e1pida e desorganizadamente, do qual eu s\u00f3 penso em me mudar logo. \u00c9 tamb\u00e9m um local onde o processo geral de [idiotiza\u00e7\u00e3o](http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0387808\/) que acompanhamos por a\u00ed parece um pouco mais acelerado, a julgar por muitos de seus moradores atuais e seus h\u00e1bitos. Mas levarei daqui algumas \u00f3timas hist\u00f3rias, da id\u00edlica inf\u00e2ncia passada jogando bola na rua, indo ao cinema e voltando altas horas da noite sem problema algum, indo \u00e0 casa de amigos de bicicleta cruzando ruas que hoje s\u00e3o avenidas com muito mais autom\u00f3veis do que podem suportar. E em companhia de discos de vinil, de CDs e fitinhas K7, naturalmente.\r\n\r\nEra 1993 ou 1994, n\u00e3o lembro, e no meio da caminhada entre minha casa e o col\u00e9gio onde fiz o segundo grau havia uma padaria, que j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Ainda mais breve foi um sub-neg\u00f3cio que essa padaria abrigou: uma locadora de CDs. Eu costumava ir l\u00e1 com um amigo do col\u00e9gio de gosto semelhante (e o maior f\u00e3 que o Days of the New deve ter tido) e gravamos muitas fitas a partir dos CDs alugados l\u00e1.\r\n\r\nO acervo era pequeno, mas muito curioso. Basicamente rock \u0027n\u0027 roll e suas bandas tradicionais: dois discos do Led Zeppelin aqui, tr\u00eas do Nirvana ali, um do Kiss acol\u00e1... E, de repente, uns vinte ou trinta do Pearl Jam, entre discos oficiais e bootlegs --- muitos bootlegs. Era, claramente, a cole\u00e7\u00e3o pessoal de algu\u00e9m que gostava muito do Pearl Jam e aproveitou o neg\u00f3cio de p\u00e3es da fam\u00edlia para fazer um troquinho com seus discos.\r\n\r\nBom, um dos meus bootlegs preferidos do Pearl Jam --- banda ent\u00e3o onipresente no meu dia-a-dia, banda de forma\u00e7\u00e3o mesmo --- \u00e9 um que alugamos l\u00e1, chamado *Covering \u0027Em (Selves)*, [este aqui](http:\/\/www.discogs.com\/Pearl-Jam-Covering-Em-Selves\/release\/1425889). \u00c9 muito legal; como o nome deixa claro, s\u00e3o basicamente covers, em vers\u00f5es ao vivo, al\u00e9m de algumas de lavra pr\u00f3pria, em sua maioria b-sides. As minhas vers\u00f5es pearljanianas preferidas de *Rocking in the Free World* do Neil Young e *Masters of War* do Bob Dylan est\u00e3o l\u00e1, em grava\u00e7\u00f5es abafadas mas inspirad\u00edssimas, captadas naqueles viscerais anos iniciais da banda. Traz ainda uma vers\u00e3o da m\u00fasica do Neil Young tocada com a participa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio, furiosa, barulhenta, linda. Algu\u00e9m pode se incomodar com a qualidade apenas razo\u00e1vel das grava\u00e7\u00f5es, mas eu particularmente me afei\u00e7oei tanto \u00e0s m\u00fasicas e ao disco, j\u00e1 naquela \u00e9poca em que o alugamos, que hoje acho que isso \u00e9 parte do seu valor, um resqu\u00edcio das imperfei\u00e7\u00f5es e peculiariedades daquela \u00e9poca. (Para um bootleg de qualidade sonora cristalina, eu sempre recomendo aquele [sensacional de 1994, a banda destruindo em Atlanta](http:\/\/greatsouthernbrainfart.wordpress.com\/2010\/04\/02\/live-stuff-pearl-jam-april-3-1994-atlanta-ga\/).)\r\n\r\nEncurtando um pouco a hist\u00f3ria e introduzindo o tal download do t\u00edtulo deste post: corte para os dias atuais e c\u00e1 estou ouvindo a fitinha cassete gravada a partir deste CD, fitinha esta que guardei junto com algumas outras poucas mais relevantes quando, alguns meses atr\u00e1s, resolvi jogar fora a grande maioria delas, que apenas ocupavam espa\u00e7o j\u00e1 fazia um bom tempo. \u00c9 uma fitinha de 60 minutos, o que significa que tive que dar uma resumida do tracklist; provavelmente escolhi as preferidas naquela \u00e9poca, uma sele\u00e7\u00e3o bem acertada --- olhando [o tracklist do bootleg completo](http:\/\/www.discogs.com\/Pearl-Jam-Covering-Em-Selves\/release\/1425889), s\u00f3 me arrependo de n\u00e3o ter inclu\u00eddo *Drop the Leaves*, que imagino ser alguma vers\u00e3o inicial de *Leash*, faixa menor do *Vs.* que gosto bastante. Fui ent\u00e3o procurar por um download do bootleg, para t\u00ea-lo guardado \u00e0 prova de perecimento f\u00edsico, e fui me exasperando \u00e0 medida que n\u00e3o achava. E n\u00e3o achei. Achei s\u00f3 um torrent de um cara que juntou a cole\u00e7\u00e3o digital dele toda do Pearl Jam num pacota\u00e7o de mais de 6 gigabytes, e l\u00e1 no meio est\u00e1 o *Covering \u0027Em (Selves)*. Mas ap\u00f3s um dia todo com o Transmission ligado tentando baixar o bagulho, ele sequer come\u00e7ou, ent\u00e3o desisti e botei a m\u00e3o na massa.\r\n\r\nMunido de cabos, aparelho de som e notebook, transformei a fitinha em MP3 e [ta\u00ed para download](http:\/\/www.mediafire.com\/?sharekey=58f58b2523a2115bd0d290dca69ceb5c80904f24f760e96bf7e866bfb1230ce0) o *Covering \u0027Em (Selves) (60\u0027 K7 Version + Bonus Disc)*. \u00c9, obviamente, essa vers\u00e3o incompleta que eu tinha na fita, por isso acrescentei o \u002260\u0027 K7 Version\u0022 ao t\u00edtulo. Para amenizar a falta dessas faixas que ficaram de fora da minha sele\u00e7\u00e3o de 16 ou 17 anos atr\u00e1s, inclu\u00ed como b\u00f4nus um outro disco chamado *Covering Them*, bootleg de nome similar que acabei baixando erroneamente achando que seria este o que eu procurava. Note na imagem do label da fitinha acima que eu, quando fiz a grava\u00e7\u00e3o do *Covering \u0027Em (Selves)*, escrevi errado o t\u00edtulo do disco, e por isso o engano neste download, que s\u00f3 fui escalarecer depois, pesquisando na internet e comparando os tracklists. Mas como este download inadvertido tem algumas coisas legais, vai junto. Espero que algu\u00e9m goste! E se algu\u00e9m souber ou tiver completinho o *Covering \u0027Em (Selves)*, favor entrar em contato.\r\n\r\nPra fechar a hist\u00f3ria: no embalo da audi\u00e7\u00e3o deste Pearl Jam safra antigona, resolvi dar mais uma chance ao *Backspacer*. Deve ser s\u00f3 a quinta ou sexta vez que eu o escuto, e durante algumas das poucas faixas que eu gosto, como *Unthought Known*, *The Fixer* e *Amongst The Waves*, cheguei a pensar que o disco poderia, eventual e gradualmente, se transformar num *Yield*, disco que eu n\u00e3o posso dizer que seja \u00f3timo, mas que ou\u00e7o com alguma regularidade, pois quase todas suas m\u00fasicas s\u00e3o agrad\u00e1veis e ele \u00e9 bem nivelado nesse patamar razo\u00e1vel. N\u00e3o sei explicar precisamente, mas \u00e9 um disco que gosto pela unidade e pelas n\u00e3o-inesquec\u00edveis-mas-boas can\u00e7\u00f5es. Digamos que o melhor do *Backspacer* junto com o melhor do disco anterior, condensados em um \u00fanico LP, poderia render algo desse tipo. E o Pearl Jam, longe de ser hoje uma banda que esteja no centro (ou mesmo na periferia mais imediata) das minhas aten\u00e7\u00f5es, continua sendo uma esp\u00e9cie de porto-seguro, ao qual volto com frequ\u00eancia quando quero escutar algo familiar e certeiro, mas muito mais devido aos discos antigos, aqueles da \u00e9poca da padaria-locadora e do bairro sossegado e humano, do que estes lan\u00e7amentos irregulares dos \u00faltimos 10 anos.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Label da fita cassete citada no post","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":271,"title":"From the vaults (post #2.456.522)","post_timestamp":"2010-03-31T16:50:53+00:00","url":"2010_03_31_from_the_vaults_post_2_456_522","post":"Vault nem t\u00e3o empoeirado, nem t\u00e3o antigo. Um processo recente me fez colocar as m\u00e3os em meus CDs, um por um, inclusive com limpeza f\u00edsica bastante trabalhosa (o que refor\u00e7ou a consci\u00eancia que MP3 n\u00e3o acumula p\u00f3). Tal atividade n\u00e3o s\u00f3 me apresentou discos abandonados como volta e meia me sugeria algum resgate, o que fiz com mais uma dezena de discos: \u0022Ah, tal disco. Quem sabe n\u00e3o dou uma escutada?\u0022\r\n\r\nLembro que n\u00e3o torci o nariz para *TheFutureEmbrace* durante seu lan\u00e7amento, mas tenho recorda\u00e7\u00f5es de que o \u00e1lbum foi digerido com alguns percal\u00e7os. E lembro tamb\u00e9m de ter me colocado a parte do alvoro\u00e7o que comparava o disco com os dos Pumpkins, fato alimentado pelo pr\u00f3prio Billy Corgan ao recorrer \u00e0s p\u00e1ginas de um jornal para anunciar o retorno de sua finada banda. Mas de 2005 para c\u00e1 *TheFutureEmbrace* nunca foi deletado do iPod que fica aqui no trabalho, fato relevante que atesta a predile\u00e7\u00e3o que nutri pelo disco ao longo destes anos. \u00c9 um trabalho que cresceu com o tempo, ainda mais se confrontado com o que Corgan fez na sequ\u00eancia sob a alcunha dos ab\u00f3boras.\r\n\r\nCreio que me agradam, justamente, os pontos implacavelmente criticados pela base de f\u00e3s: as baterias robotizadas, a bruma oitentista, a falta do sentido de banda. O que talvez n\u00e3o passe seja a poesia de Corgan, que desde *Adore* j\u00e1 mostrava sinais irrevers\u00edveis de perder o seu brilhantismo, embora algumas m\u00fasicas ainda tenham l\u00e1 alguns trechos memor\u00e1veis. Mas o atributo fundamental do disco \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o de um trabalho **solo**, livre de conceitos pumpkinianos e muito mais preocupado em resgatar influ\u00eancias como o New Order, Bowie e o Cure. Algumas coisas me lembram *Disintegration*, outras lembram *Bauhaus* e *My Bloody Valentine*, mas sem que elas celebrem tais bandas e abram m\u00e3o de uma vis\u00e3o pessoal, que muito bem representam a faceta mais obscuta do criador. Vejo as guitarras entrela\u00e7adas de *All Things Change*, os beats de *Mina Loy* e *I\u0027m Ready* e a doce melancolia de *Pretty, Pretty STAR* entre algumas das coisas mais interessantes que Billy fez.\r\n\r\n*TheFutureEmbrace* foi o \u00faltimo trabalho com ares brilhantes de Corgan, embora poucos tenham percebido atributos que comprovem essa perspectiva. Corgan, claro, tem sua parcela de culpa pela forma como o disco foi digerido, mas \u00e9 uma pena que a injusti\u00e7a em torno desse \u00e1lbum tenha comprometido os seus passos seguintes e, talvez, o impedido de criar uma sequ\u00eancia para esse caminho.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"spfc.org","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":270,"title":"P\u00f4ster: Loomer e Telecines","post_timestamp":"2010-03-24T22:30:10+00:00","url":"2010_03_24_poster_loomer_e_telecines","post":"O [Loomer](http:\/\/mmrecords.com.br\/200910\/loomer\/) \u00e9 uma banda bem legal, Telecines eu confesso que n\u00e3o conhe\u00e7o. Mas mesmo que ambas fossem ruins, o \u00f3timo p\u00f4ster deles a\u00ed em cima mereceria a publica\u00e7\u00e3o! Fica a\u00ed a divulga\u00e7\u00e3o pro pessoal que mora em Porto Alegre.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Recebido por e-mail","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":269,"title":"Chinese Democracy e o estado das coisas","post_timestamp":"2010-03-18T22:37:23+00:00","url":"2010_03_18_chinese_democracy_e_o_estado_das_coisas","post":"Que coisa esquisita. Sempre achei que a minha impress\u00e3o quanto ao *Chinese Democracy* --- sendo complacente: um erro, um tremendo e constrangedor equ\u00edvoco --- era uma unanimidade. Sempre achei que o Guns e o s\u00e9culo XXI conviverem era algo em total e clar\u00edssima contradi\u00e7\u00e3o com as leis que regem nosso universo. Ou que um disco do Guns --- particularmente do Guns N\u0027 Roses --- lan\u00e7ado em 2008, \u00e9 algo que tem tanta chance de dar certo quanto um clipe onde um cantor tem uma namorada e um amigo com uma cartola e ele casa com a namorada e o amigo com a cartola deixa a capelinha para tocar guitarra e no almo\u00e7o do casamento cai uma tempestade e a esposa morre e o cantor fica chorando sobre o t\u00famulo da falecida e isso tudo passar no Fant\u00e1stico. \r\n\r\nE sempre achei que todos prontamente concordavam com isso.\r\n\r\nMas agora, lendo as resenhas dos shows do Guns no Brasil, vejo muita gente elogiando esse monstrengo desse disco. E \u00e9 gente que deve ter o vinil do *Appetite For Destruction* h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas em casa, e n\u00e3o meros f\u00e3s de ocasi\u00e3o. Na verdade, eu pensava que at\u00e9 para um f\u00e3 de ocasi\u00e3o seria dif\u00edcil alguma afei\u00e7\u00e3o a *Chinese Democracy*. Na verdade mesmo, o Guns n\u00e3o deve ter f\u00e3 de ocasi\u00e3o.\r\n\r\nComo pode? Gostar do show \u00e9 absolutamente leg\u00edtimo, um show envolve muita coisa, mesmo que para apreci\u00e1-lo tenhamos que adentrar no maior estado de suspens\u00e3o de descren\u00e7a poss\u00edvel (para um show do Guns, acho que eu precisaria de um [Delorean](http:\/\/image.guardian.co.uk\/sys-images\/Arts\/Arts_\/Pictures\/2007\/08\/03\/future460.jpg) --- maldade invejosa minha, eu iria sim, se eles tivessem passado em minha cidade).\r\n\r\nAgora, o *Chinese Democracy*, voc\u00eas t\u00eam certeza? Ser\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de pessoas impression\u00e1veis demais? Pode ser, esse fen\u00f4meno j\u00e1 aconteceu comigo, passar a dar [mais valor a um ou outro disco ap\u00f3s um show](http:\/\/dyingdays.net\/shows\/view\/isobel_campbell_mark_lanegan_fabricio_boppre)... Mas o *Chinese Democracy*? Custo a crer. Talvez alguma esp\u00e9cie de saudosismo cegante? \u00c9 uma boa hip\u00f3tese. Ou uma expectativa t\u00e3o longamente estendida que acabou afetando a capacidade de discernimento do populacho f\u00e3 da banda de hair metal mais apreci\u00e1vel de todas? N\u00e3o, nunca ouvi falar de um trauma emocional desse tipo. Ou talvez eu, distraidamente, escutei o disco errado, um disco esse sim muito ruim (algo do Sebastian Bach, talvez) e o *Chinese Democracy* verdadeiro, que eu n\u00e3o ouvi, tenha de fato algum m\u00e9rito. N\u00e3o, n\u00e3o pode ser. Era a voz do Axl Rose, inconfund\u00edvel, e lembro bem de ter reparado que todos os v\u00e1rios anos que o \u00e1lbum levou para ser lan\u00e7ado estavam l\u00e1, entulhados nas m\u00fasicas. Era o *Chinese Democracy*, sem d\u00favida, e ouvi-lo de novo para tentar elucidar esse mist\u00e9rio \u00e9 uma id\u00e9ia que nesse momento me d\u00e1 dor de cabe\u00e7a --- e olha que eu guardei as MP3s aqui, porque n\u00e3o deixa de ser uma obra peculiar, um pequeno tratado sobre a decad\u00eancia, sobre a dessincronia, sobre os excessos --- em resumo, um bom lembrete sobre como as coisas podem dar muito errado. Ok, isso foi outra maldade. Quero dizer, o disco \u00e9 medonho, mas eu guardei mesmo assim para ter completa a discografia de uma das primeiras bandas que adotei na vida, e tamb\u00e9m para ser utilizado como um estimulante, um potencializador da vontade, quando ela surge --- e ela surge frequentemente, saudoso que sou da inf\u00e2ncia e dos anos 80 ---, de ouvir o destruidor *Appetite For Destruction*, ou mesmo os *Use Your Illusion*.\r\n\r\nAh, tem outra possibilidade, claro. Era tudo ironia, e eu n\u00e3o percebi. Vou ficar com essa hip\u00f3tese e fingir que vai tudo bem no mundo dos homens.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":261,"title":"Bem vindo de volta aos anos 90 [2]","post_timestamp":"2010-03-06T23:13:39+00:00","url":"2010_03_06_bem_vindo_de_volta_aos_anos_90_2","post":"Achei! \r\nSTP em Phoenix em outubro do ano passado.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022528\u0022 height=\u0022321\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/60-54d4qT4o\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/60-54d4qT4o\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022528\u0022 height=\u0022321\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Ana D.M.","url":"ana_dm"}},{"id":257,"title":"Apenas mais um dream team","post_timestamp":"2010-03-01T18:26:36+00:00","url":"2010_03_01_apenas_mais_um_dream_team","post":"Them Crooked Vultures - \u0022S\/T\u0022 (2009 - Sony\/BMG)\r\n\r\nA teoria, a essa altura do campeonato, podia mesmo dar certo na pr\u00e1tica? Em meio a truques para respirar na crise irremedi\u00e1vel da ind\u00fastria musical, a Sony\/BMG recorreu \u00e0 tatica dos supergrupos, dessa vez com nomes de indiscut\u00edvel grandeza de diferentes eras do rock. \r\n\r\nReunidos, Josh Homme, Dave Grohl e John Paul Jones presumiam uma seleta fus\u00e3o do que suas bandas produziram na hist\u00f3ria do rock. Na pr\u00e1tica, o trio n\u00e3o conseguiu sintetizar os pontos chave de Queens Of The Stone Age, Nirvana (ou Foo Fighters?) e Led Zeppelin, embora o som gen\u00e9rico e pouco inspirado do Them Crooked Vultures esforce-se em justamente combinar as tr\u00eas \u0022influ\u00eancias\u0022, sem sequer arriscar alguma inova\u00e7\u00e3o que pudesse ao menos desviar as aten\u00e7\u00f5es de trabalho t\u00e3o irrelevante. Faltam no disco os riffs ganchudos e o ar irrespons\u00e1vel de Homme. A bateria nervosa de Grohl n\u00e3o encontra espa\u00e7o para maiores espasmos, gra\u00e7as \u00e0 limita\u00e7\u00e3o imposta pelo formato conservador das composi\u00e7\u00f5es. E John Paul Jones, bem, qualquer outro baixista sem pedigree teria chegado em resutados bem pr\u00f3ximos. Them Crooked Vultures sofre de um problema nada incomum em projetos como esse: bons m\u00fasicos com pouco a dizer e criar naquela ocasi\u00e3o, o que faz com que eles recorram \u00e0 experi\u00eancia e ao conforto de se contentar com um rock insosso e pouco relevante. O oposto do que suas bandas oficiais representam para suas gera\u00e7\u00f5es, ainda mais se lembrarmos que muito do brilho de *Songs For The Deaf* vem da parceria de 2\/3 desse combo.\r\n\r\nCreio ser poss\u00edvel salvar o single *New Fang* (pelo fator grude) e o riff de *Caligulove*, isso com um esfor\u00e7o de desconsiderar a aura que envolve o projeto. 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Ent\u00e3o,\r\nnada mais justo do que incluir esse ao vivo, com orquestra completa,\r\ncaprichado e com DVD, nos melhores de 2009.\r\n\r\n [show_elbow]: http:\/\/dyingdays.net\/shows\/view\/elbow_natalia_vale_asari\r\n\r\n*Veckatimest*, do Grizzly Bear: Vale s\u00f3 por *Southern\r\nPoint*. *Fine for Now* tamb\u00e9m n\u00e3o fica muito atr\u00e1s.\r\n\r\n*Splitting the Atom*, do Massive Attack: S\u00f3 agora descobri o qu\u00e3o\r\nlegal \u00e9 Massive Attack.\r\n\r\n*200 Tons of Bad Luck*, do Crippled Black Phoenix: Ouvi porque veio\r\ncom o selo de recomenda\u00e7\u00e3o dizendo \u0022Olha, tem gente do Mogwai\r\nenvolvida.\u0022 Ouvi, enfim, e veio parar nos meus destaques de 2009.\r\n\r\nMen\u00e7\u00e3o honrosa para coisas que ainda ou\u00e7o com muita parcim\u00f4mia:\r\n*Crack the Skye* (Mastodon) e *Ephemeral* (Pelican).\r\n\r\n### Grandes esperan\u00e7as, poucas audi\u00e7\u00f5es\r\n\r\nAlguns dos pontos mornos de 2009, que figurariam em listas minhas passadas:\r\n\r\n*Wilco (The Album)*, do Wilco (The Band): Amei o *Sky Blue Sky*,\r\nmas esse s\u00f3 consegui ouvir duas vezes. Acho \u00f3timo que o Jeff Tweedy\r\ntenha melhorado das enxaquecas e dos problemas associados, mas n\u00e3o d\u00e1\r\npara evitar associar a boa fase do Wilco \u00e0 m\u00e1 sa\u00fade de Tweedy.\r\n\r\n*No One\u0027s First, and You\u0027re Next*, do Modest Mouse: Boa compila\u00e7\u00e3o de\r\nsobras de est\u00fadio, mas nada mais do que isso.\r\n\r\n*Beware*, do Bonnie Prince Billy: Mais sombrio e menos inspirado do\r\nque *Lie Down in the Light*. Como ele lan\u00e7a uns dois discos por ano,\r\nespero que 2010 traga dois representantes melhores.\r\n\r\n*Yours Truly, the Commuter*, do Jason Lytle: Parece Grandaddy, como\r\nprevisto, s\u00f3 que mais para o lado dos discos derradeiros de pouco\r\nbrilho.\r\n\r\nMen\u00e7\u00e3o honrosa para *The Eternal* (Sonic Youth) e *The Century of\r\nSelf* (Trail of Dead), discos de duas das minhas bandas preferidas\r\nque mal tocaram aqui.\r\n\r\n### \u003C 2009\r\n\r\nPara terminar em nota positiva, alguns destaques de 2009 lan\u00e7ados em\r\nanos anteriores.\r\n\r\nSegundo a estat\u00edstica altamente confi\u00e1vel e cient\u00edfica do\r\n[Last.FM][lfm], duas bandas que n\u00e3o parei de ouvir foram Idlewild e\r\nPinback. Dica: ou\u00e7a tamb\u00e9m.\r\n\r\n [lfm]: http:\/\/www.last.fm\/\r\n\r\nUm disco de 2008 que descobri neste ano foi o *Dear Science*, do TV\r\non the Radio. Tanto que, nesse natal, comprei o vinil\r\npor mais grana do que deveria.\r\n\r\nFinalmente, estou descobrindo muita coisa muito antiga e muita coisa\r\nmuito nova no programa [Finest Hour][fh], apresentado pelo Guy Garvey,\r\nvocalista do Elbow. Considerando que eu **nunca** ouvi r\u00e1dio e tenho\r\ndificuldade em come\u00e7ar a ouvir coisas antigas e novas (m\u00fasica lan\u00e7adas\r\nentre 10 e 2 anos atr\u00e1s \u00e9 o que normalmente toca na minha vitrola),\r\nnesse ano as mudan\u00e7as foram bruscas e divertidas.\r\n\r\n [fh]: http:\/\/www.bbc.co.uk\/6music\/shows\/garvey\/","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Galeria do [Guy Garvey\u0027s Finest Hour](http:\/\/www.bbc.co.uk\/6music\/shows\/garvey\/galleries\/3036\/1\/), da BBC 6 Music.","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":239,"title":"2009!","post_timestamp":"2010-01-03T15:11:15+00:00","url":"2010_01_03_2009","post":"A pr\u00e9-listinha de 20 discos demonstra que ouvi e gostei de bastante coisa lan\u00e7ada neste pseudo-\u00faltimo ano da d\u00e9cada. Boa chance para uma retrospectiva levada a cabo nestes \u00faltimos dias, que resultou nisso a\u00ed:\r\n\r\n*200 Tons of Bad Luck* do Crippled Black Phoenix: O post-rock j\u00e1 n\u00e3o tem o espa\u00e7o (e o brilho) de outrora, mas n\u00e3o sei se d\u00e1 de reduzir o pessoal do Crippled Black Phoenix a este r\u00f3tulo. A vontade de inventar um outro que mescle dois ou tr\u00eas j\u00e1 existentes \u00e9 grande, mas deixa pra l\u00e1. Apesar de ter gente do Mogwai na forma\u00e7\u00e3o, tem de outras bandas tamb\u00e9m, incluindo um ex-Electric Wizard, e o caldo que esse pessoal faz \u00e9 fascinante, grandioso, m\u00fasica mai\u00fascula mesmo. S\u00f3 para situar, e de repente despertar a curiosidade de algu\u00e9m, o neg\u00f3cio lembra em alguns momentos uma sinfonia que mistura a beleza dum Pink Floyd com a virul\u00eancia tempestuosa dum Godspeed You! Black Emperor. Ouvi falar que este outro \u00e1lbum que lan\u00e7aram h\u00e1 pouco, *The Resurrectionists\/Night Raider*, \u00e9 uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o estendida do *200 Tons of Bad Luck*, mas n\u00e3o escutei ainda.\r\n\r\n*Losing Feelings EP* do No Age: EPzinho brilhante que traz logo na abertura aquela que \u00e9 f\u00e1cil minha m\u00fasica preferida de 2009, a alucinante faixa que d\u00e1 t\u00edtulo ao bagulho. As duas m\u00fasicas seguintes eu concordo que n\u00e3o s\u00e3o inesquec\u00edveis, mas a quarta e \u00faltima fecha com chave de ouro, no mesmo n\u00edvel que abriu o EP. Estas duas me lembram os melhores momentos da melhor \u00e9poca do Trail of Dead, ali entre 1999 e 2003, quando os texanos lan\u00e7aram dois disca\u00e7os e dois EPza\u00e7os. O Trail foi minha banda preferida por um bom tempo --- mudou um pouco, alguns torcem o nariz, eu continuo gostando e quase botei o *Century of Self* aqui na listinha --- mas hoje o No Age me empolga muito mais, em se tratando de guitarras, punk rock e adrenalina.\r\n\r\n*Farm* do Dinosaur Jr: At\u00e9 parece que entre 1997 e 2007 n\u00e3o se passou uma d\u00e9cada --- para o Dinosaur Jr, houve um lapso de tempo a\u00ed. A volta da banda e seus dois discos lan\u00e7ados desde ent\u00e3o s\u00e3o o mais espetacular e convincente contra-argumento para aquela teoria de que reuni\u00f5es de bandas moribundas s\u00f3 servem para ganhar dinheiro e arranhar a reputa\u00e7\u00e3o ilibada que foi adquirida nos bons tempos. Pois \u00e9, pelo menos para a segunda parte da teoria, h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es. *Farm* s\u00f3 \u00e9 melhor do que o *Beyond* porque \u00e9 mais recente e porque termina com *Imagination Blind* --- ta\u00ed uma fraqueza minha, discos que terminam com uma grande can\u00e7\u00e3o.\r\n\r\n*Embryonic* do Flaming Lips: Ver [notinha neste post](http:\/\/dyingdays.net\/posts\/view\/2009_11_04_ultimas_audicoes_pearl_jam_flaming_lips_mission_of_burma_alice_in_chains_e_dirty_projecto).\r\n\r\n*Monoliths and Dimensions* do Sunn O))): N\u00e3o tenho muito o que acrescentar ao que o Vicente relatou [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/blog\/view\/2009_06_06_sunn_o_monoliths_dimensions) e [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/blog\/view\/2009_12_24_2009), al\u00e9m do que est\u00e1 l\u00e1 nos coment\u00e1rios destes posts. Talvez, alertar os leitores de [H. P. Lovecraft](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/H._P._Lovecraft) que, se ainda n\u00e3o ouviram o Sunn O))), est\u00e3o perdendo a mais perfeita tradu\u00e7\u00e3o musical da obra do escritor.\r\n\r\n*Wavering Radiant* do Isis:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/3M-xx1Zn3a8\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/3M-xx1Zn3a8\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\u003Cbr \/\u003E\r\nEu estava l\u00e1! A abertura do show foi com a primeira m\u00fasica do *Wavering Radiant*. Disco e show fant\u00e1sticos.\r\n\r\n*Crack The Skye* do Mastodon: Depois de escalar Sunn O))) e Isis, pensei que minha listinha j\u00e1 estava muito met\u00e1lica, e de repente o Mastodon podia ceder seu lugar ao Manic Street Preachers, quem sabe ao Horrors, ou ao Jello Biafra. Pensei at\u00e9 em ouvir mais o Grizzly Bear, que est\u00e1 aparecendo na cabeceira de muitas listas por a\u00ed, e que numa primeira audi\u00e7\u00e3o n\u00e3o me chamou muito aten\u00e7\u00e3o --- mas depois lembrei que isso \u00e9 bem normal comigo, e que em geral a coisa n\u00e3o muda. Enfim, n\u00e3o tem como, aqui a justi\u00e7a tem que prevalecer. *Crack The Skye* vem bem recheado das coisas que mais gosto em mat\u00e9ria de m\u00fasica --- f\u00faria, guitarras e melodia ---, ent\u00e3o fecha a listinha. E bom 2010 para todos!","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto do Mastodon tirada por Jimmy Hubbard e copiada [deste site](http:\/\/blogs.creativeloafing.com\/cribnotes\/2008\/10\/29\/mastodon-announces-new-album-title-crack-the-skye\/).","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":237,"title":"2009?","post_timestamp":"2009-12-30T19:14:21+00:00","url":"2009_12_30_2009","post":"Novamente vou ter que confessar que parei de acompanhar muitas novidades em m\u00fasica. 2009 pra mim n\u00e3o foi um ano de encontrar bandas novas. Na realidade acho que j\u00e1 falei v\u00e1rias vezes que n\u00e3o achei nada novo legal desde o QoTSA. Sintoma de velhice ou n\u00e3o, estou mais seletiva, \u00e9 verdade. Ent\u00e3o s\u00f3 pra variar n\u00e3o vou fazer uma lista, vou s\u00f3 concatenar men\u00e7\u00f5es honrosas.\r\n\r\nNo come\u00e7o do ano comprei o DVD *Shadow of Light + Archive* do Bauhaus (2005) e devo ter visto umas duzentas vezes. \u0022Shadow of Light\u0022 tem clipes e \u0022Archive\u0022 \u00e9 um \u0022ao vivo\u0022 (tenho minhas d\u00favidas). Em ambos d\u00e1 pra perceber a genialidade da banda. Os clipes s\u00e3o muito BONS, ainda mais considerando serem dos anos 80 (pra quem s\u00f3 conhecia o \u0022clipe\u0022 que tem partes do filme *The Hunger*) e a performance n\u00e3o fica atr\u00e1s, Peter Murphy em seu auge muito antes de gravar a m\u00fasica tema do *Angel* (heheheh).\r\nOutro DVD interessante que vi foi o document\u00e1rio *DIY or Die - How to Survive as an Independent Artist*, que est\u00e1 inteiro [online aqui](http:\/\/www.kittyfeet.com\/diy.htm). N\u00e3o cabe listar as entrevistas aqui, vou s\u00f3 dizer que elas valem MUITO, mesmo para quem n\u00e3o \u00e9 artista independente. Ron Asheton, Lydia Lunch, Ian McKaye e cia. d\u00e3o conselhos no m\u00ednimo interessantes. E, tem Gwar!! \r\n\r\nO blog All Songs Considered, da National Public Radio, publicou sua lista das [melhores capas de \u00e1lbum de 2009](http:\/\/www.npr.org\/blogs\/allsongs\/2009\/12\/the_best_album_covers_of_2009_1.html). Vale a pena dar uma olhada at\u00e9 porque hoje em dia muitos concordam com eles e julgam o CD pela capa. Eu vou mais longe e julgo o CD pelo encarte. Se n\u00e3o tem alguma coisa \u0022a mais\u0022, pra que gastar seu dinheiro em um [pirata \u0022oficial\u0022](http:\/\/v1.dyingdays.net\/Colunas\/Baby_Lets_Rock\/2004-03-06-ten_primeiro_disco_pirata.html)?\r\n\r\nEm termos de \u00e1lbuns:   \r\n* Achei o disco do U2 uma grande porcaria, e acho que eles deviam se aposentar, porque o Bono j\u00e1 encheu o saco.   \r\n* Pearl Jam, reedi\u00e7\u00e3o do *Ten*, e *Backspacer*, que desde *No Code* \u00e9 o primeiro \u00e1lbum completamente decente da banda.   \r\n* Meat Puppets, *Sewn Together*.     \r\n* Vaselines, *Enter the Vaselines*.   \r\n* Jane\u0027s Addiction em turn\u00ea com o Nine Inch Nails, e no [Lollapalooza](http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Z_giKjrG4to) com Joe Perry (?!).   \r\n* Obviamente, Lou Reed no mesmo festival.   \r\n* The Pogues novamente em turn\u00ea e [Shane McGowan n\u00e3o tem mais nenhum dente](http:\/\/www.flickr.com\/photos\/mlsnp\/4057045843\/in\/photostream\/).   \r\n* Alice in Chains, *Black Gives Way to Blue* n\u00e3o chega nem perto do que poderia ser.   \r\n\r\nE, nos poucos dias em que estive em casa em Curitiba, encontrei uma caixa estranha. De alguma forma a caixa escapou de ser jogada fora quando me livrei das outras, ent\u00e3o quando estava procurando por roupas, achei edi\u00e7\u00f5es da Showbizz de 1997 e 1998. Ent\u00e3o, antes de jogar elas fora, como j\u00e1 deveria ter feito assim que recebi, me dei ao trabalho de arrancar algumas p\u00e1ginas que tinham coment\u00e1rios sobre coisas que eu achei minimamente relevantes. Escaneei. E devo postar em algum lugar em breve (dentro da minha no\u00e7\u00e3o de tempo, que \u00e9 diferente da do leitor) a maravilhosa cole\u00e7\u00e3o de jornalismo musical porco, vendido e chauvinista da showbizz, com coment\u00e1rios que eles deveriam ter engolido antes de publicar. Eu n\u00e3o escaneei a entrevista com a Carla Perez (\u00e9, decerto tinha t\u00e3o pouca coisa legal nessa \u00e9poca que eles publicaram um especial com a Carla Perez). Tamb\u00e9m infelizmente n\u00e3o achei a resenha do Triple Platinum do L7 em que eu lembro que o cara se referia \u00e0 banda como \u0022Donita e suas neandertais\u0022 e n\u00e3o era num tom de camaradagem entre bandas toscas em uma revista que p\u00f4s a Courtney Love na capa em v\u00e1rias dessas edi\u00e7\u00f5es, alternando com Kiss, Aerosmith, Bono e Raimundos. \r\n\r\nOk chega de resmungo. LOL\r\nFeliz 2010.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Animal Collective - *Merriweather Post Pavilion* - melhor capa de disco IMHO","author":{"name":"Ana D.M.","url":"ana_dm"}},{"id":236,"title":"2009 ","post_timestamp":"2009-12-24T21:52:38+00:00","url":"2009_12_24_2009","post":"Bagun\u00e7a total na m\u00fasica, poucas refer\u00eancias marcantes. Seria porque o filtro s\u00f3 seleciona coisas boas e acabamos escutando o que h\u00e1 de mais bacana ao ponto de n\u00e3o conseguirmos pin\u00e7ar os melhores nesse banquete? Enfim, sete discos que se n\u00e3o s\u00e3o os melhores, tocaram bastante por aqui. Tor\u00e7o para um belo 2010 para voc\u00eas, que continuemos nesse passo lento, por\u00e9m, conciso.\r\n\r\n**Sunn O))) : \u201cMonoliths\u0026Dimensions\u201d** (Southern Lord)\r\n*Monoliths\u0026Dimensions* n\u00e3o \u00e9 o meu disco preferido do Sunn O))), na verdade, o \u00e1lbum localiza-se nas \u00faltimas posi\u00e7\u00f5es em minha hierarquia de aprecia\u00e7\u00e3o da discografia do duo. O que sempre me atraiu no som da banda \u00e9 a densidade de suas guitarras, empilhadas ad infinitum, provocando inconfund\u00edveis vis\u00f5es de magma expelido das profundezas da Terra. Em *M\u0026D* esse cerne \u00e9 maculado, soando mais quebradi\u00e7o e permissivo, ao ponto de perder representatividade e abrir m\u00e3o do teor maligno que usualmente permeia o cat\u00e1logo do Sunn O))) (OK, o riff de *Hunting\u0026Gathering* \u00e9 implac\u00e1vel). Mas quando tentam soar pesados, parecem que o fazem apenas por serem o Sunn O))), deixando escapar um ar de artificialismo nas seis cordas. Entretanto, *M\u0026D* representa um posicionamento que h\u00e1 muito se cobra da m\u00fasica contempor\u00e2nea, onde todos supostamente copiam todos e requentam o passado j\u00e1 requentado, ao ponto de cr\u00edticos decretarem a estagna\u00e7\u00e3o criativa no que se faz atualmente. Esse disco, por\u00e9m, \u00e9 acima de tudo um manifesto de interesse pela criatividade, pelo prazer de se fazer m\u00fasica e se descobrir caminhos ainda n\u00e3o tra\u00e7ados, mesmo com os pre\u00e7os pagos com a identidade sonora do Sunn O))). Para uma banda que come\u00e7ou brincando de copiar o Earth, \u00e9 de espantar que tenham chegado numa m\u00fasica transcendental como *Alice*.\r\n\r\n**KTL : \u201cIV\u201d** (EditionsMEGO)\r\nCom produ\u00e7\u00e3o de Jim O\u2019Rourke, em *IV* a dupla Pita e Stephen O\u2019Malley parece ter encontrado a maturidade de seu projeto. Depois de tr\u00eas registros focalizados na pe\u00e7a de teatro Kindertotenlieder de Gis\u00e8le Vienne, a dupla concentrou esfor\u00e7os em um \u00e1lbum autoral, que flui com mais naturalidade que seus antecessores. Seguem os climas sombrios e o choque entre eletr\u00f4nico ortodoxo e as guitarras distorcidas. A m\u00e3o de O\u2019Rourke fica clara na fluidez das faixas, que parecem partir de um ponto inicial e realmente chegar numa consolida\u00e7\u00e3o, algo que muitas vezes deixa de acontecer nesse g\u00eanero musical. H\u00e1 ainda a contribui\u00e7\u00e3o de Atsuo (Boris) socando uma bateria de verdade, provocando mais um bom contraste entre o g\u00e9lido som do KTL e a urg\u00eancia do instrumento org\u00e2nico. \r\n\r\n**Incapacitants : \u201cBox Is Stupid\u201d** (Picadisk)\r\nOs Incapacitants s\u00e3o um duo japon\u00eas da escola antiga do noise, verdadeiras legendas que ajudaram a formar a escola barulhenta nip\u00f4nica junto a outros dementes como Government Alpha, Merzbow e Hijokaidan. O selo Picadisk de Lasse Marhaugh tratou de retrabalhar em dez CDs alguns cassetes esquecidos dos Incapacitants, encaixotados num belo trabalho gr\u00e1fico que d\u00e1 uma ampla id\u00e9ia do potencial s\u00f4nico da dupla. Entre registros ao vivo e de est\u00fadio, percebe-se que os Incapacitants n\u00e3o s\u00e3o pioneiros \u00e0 toa, conseguindo soar relevantes em meio a ma\u00e7arocas sonoras que, n\u00e3o tem como defender, \u00e9 barulho mesmo. Entretanto, seus exorcismos parecem contundentes, n\u00e3o s\u00f3 transmitindo a sensa\u00e7\u00e3o de que sabem o qu\u00ea e como fazem, mas que est\u00e3o se divertindo com a barulheira toda. Essa f\u00f3rmula traz para o ouvinte o questionamento de o qu\u00e3o a s\u00e9rio o g\u00eanero deve ser levado, de que j\u00e1 que noise n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica (n\u00e3o \u00e9?), por que n\u00e3o trat\u00e1-lo com a devida ironia? A caixa re\u00fane brutalidade e bom-humor na medida certa, algo bem complicado de se achar nesse tipo de som.\r\n\r\n**Khanate : \u201cClean Hands Go Foul\u201d** (Hydrahead)\r\nA raspa do tacho dessa cultuada banda \u00e9 contrastante: sua primeira parte est\u00e1 entre o que de melhor foi feito pelo quarteto, mas sua sequ\u00eancia final lembra o ouvinte que se trata de um \u00e1lbum de sobras de sess\u00f5es retrabalhadas. *Clean Hands Go Foul* prega concisamente o caix\u00e3o de uma banda devastadora, com tudo o que ela fez de melhor e de pior. Por mais que se tente, \u00e9 dif\u00edcil soar mais pesado e mal\u00e9volo que o Khanate.\r\n\r\n**John Frusciante : \u201cThe Empyrean\u201d** (Record Collection)\r\nFrusciante pegou embalo nas manias de seus colegas do Mars Volta e concentrou-se num disco conceitual, repleto de ganchos progressivos. N\u00e3o bastando as letras, centradas nos ciclos que a vida determina, toda composi\u00e7\u00e3o e instrumenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o impetuosas, incorrig\u00edveis ao buscar toda e qualquer sa\u00edda sonora que o contexto do disco exige. Frusciante n\u00e3o limitou-se a contar uma hist\u00f3ria (ou a refletir sobre um tema), ele fez quest\u00e3o de aplicar essa movimenta\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00fasicas, num disco de rebuscada elabora\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e flu\u00eancia desequilibrada. Seu crescimento como compositor e arranjador \u00e9 not\u00e1vel, menos intimista do que em seus trabalhos anteriores, mas igualmente competente nos resultados alcan\u00e7ados. O motivo dele recentemente ter pedido as contas do RHCP est\u00e1 escancarado nesse disco.\r\n\r\n**Expo \u201870**\r\nJustin Wright lan\u00e7ou um punhado de registros durante o ano de 2009, todos limitados. Seja em cassete, vinil ou CD-R, seu Expo \u201970 evolui lentamente, segundo seu pr\u00f3prio compasso, banhando-se em refer\u00eancias do krautrock, psicodelia e ambient anal\u00f3gico. Aos poucos seu som transp\u00f5e influ\u00eancias e compara\u00e7\u00f5es, ao passo que o reconhecimento e o interesse pelo projeto parecem aumentar. S\u00e3o poucos os casos onde quantidade n\u00e3o interfere na qualidade e, por enquanto, as coisas andam bem para o Expo \u201970 e sua incontrol\u00e1vel necessidade de criar.\r\n\r\n**Kevin Drumm : \u201cImperial Horizon\u201d** (Hospital Productions)\r\nKevin Drumm aproveitou o burburinho gerado pelo disco anterior, *Imperial Distortion*, e aplicou-se em mais uma sess\u00e3o de estudos de tons e texturas com praticamente os mesmos resultados havia obtido. Sua habilidade em revelar caracter\u00edsticas subliminares de sons aparentemente inertes \u00e9 not\u00e1vel, revelando musicalidade que cresce \u00e0 medida que a massa sonora movimenta-se lentamente no decorrer da \u00fanica faixa do CD. Talvez *Imperial Horizon* soe mesmo como um subproduto de sua obra-prima, mas ainda assim h\u00e1 qualidade suficiente para quem se interessa por belos sons imersos em profundas camadas de barulho.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"southernlord.com \/ editionsmego.com \/ picadisk.com \/ hydrahead.com \/ recordcollectionmusic.com \/ exposeventy.com \/ hospitalproductions.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":235,"title":"Natal a car\u00e1ter","post_timestamp":"2009-12-24T18:17:50+00:00","url":"2009_12_24_natal_a_carater","post":"Nada de disco de Natal do Frank Sinatra por aqui, muito menos *Christmastime* rolando no som. O aquecimento do Natal est\u00e1 se dando via uns DVDs baixados do Dimeadozen, de - claro - ningu\u00e9m mais nem menos que o Sunn O))). Entre shows da Grimmrobes\/Shoshin Tour (a que o Fabricio e a Natalia viram in loco) e outros menos recentes, pincei um da turn\u00ea do *Monoliths\u0026Dimensions*, onde a banda revisita o disco sem os recursos oferecidos pelo est\u00fadio. \u00c9 muito interessante presenciar a reestrutura\u00e7\u00e3o do disco num formato mais \u0022econ\u00f4mico\u0022, onde toda a orquestra\u00e7\u00e3o tem de ser substitu\u00edda por peso, o que d\u00e1 \u00e0s m\u00fasicas um teor sujo e pesado, elementos que acabaram fazendo um pouco de falta no disco. Para tanto, contam com Steve Moore nos teclados, trombone (e eletr\u00f4nicos, parece). Mas a estrela \u00e9 mesmo o Attila, que quando entra no palco parece mais uma figura pag\u00e3 resgatada de um t\u00famulo ancestral, destacando o aspecto visual t\u00e3o celebrado nos shows da banda. A banda transiciona perfeitamente as faixas e enche o set de pequenos improvisos, massas sonoras que saem de uma m\u00fasica e eventualmente iniciam a seguinte. \u00c9 sempre bom ver bandas usando o palco como labor\u00e1torio para criar e o Sunn O))) \u00e9 mesmo fera nisso.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":233,"title":"Here\u0027s a story about the last of its kind","post_timestamp":"2009-12-15T11:46:10+00:00","url":"2009_12_15_heres_a_story_about_the_last_of_its_kind","post":"\u0022(...) That\u0027s not a qualitative judgment: The way things are now isn\u0027t better or worse, just different. Technology, of course, is a selection pressure, digital music eroding the arbitrary 45ish-minute barrier that once was dictated by vinyl\u0027s finite diameter. But while a single song will often do, there\u0027s a talent to building and a pleasure in experiencing a dozen songs weaved together into a 40 minutes that\u0027s richer than each individual track, a 12-course meal for special occasions between microwave snacks. Like calligraphy, it\u0027s a fading art, as even Radiohead themselves seem to be disinterested in the format, perpetually threatening to dribble tracks out in ones or fours when the spirit takes them. In the end, one of the many ghosts that haunt the corridors of Kid A is The Album itself, it\u0027s death throes an unsettling funeral for a format that, like so much else, was out of time.\u0022\r\n\r\nTrecho final de uma resenha da Pitchfork para a edi\u00e7\u00e3o especial do *Kid A*, lan\u00e7ada recentemente. Meio exagero dizer que o disco \u00e9 o \u0022last of its kind\u0022, mas vale a [leitura completa](http:\/\/pitchfork.com\/reviews\/albums\/13385-kid-a-special-collectors-edition\/).","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":232,"title":"I see shapes","post_timestamp":"2009-12-09T20:56:46+00:00","url":"2009_12_09_i_see_shapes","post":"Nos anos 90, eu n\u00e3o tinha id\u00e9ia do que eram os anos 90. Agora eu sei. \u00c9 esse clipe do Idlewild. [Ana: que bicho aqu\u00e1tico \u00e9 aquele em ~ 2:49?]\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/xPNFApou5_4\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026rel=0\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/xPNFApou5_4\u0026hl=en_US\u0026fs=1\u0026rel=0\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022385\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":231,"title":"Smashing Pumpkins libera primeira m\u00fasica do Teargarden by Kaleidyscope","post_timestamp":"2009-12-08T11:52:25+00:00","url":"2009_12_08_smashing_pumpkins_libera_primeira_musica_do_teargarden_by_kaleidyscope","post":"Saiu finalmente a primeira m\u00fasica do *Teargarden by Kaleidyscope* --- [clique aqui para copi\u00e1-la](http:\/\/smashingpumpkins.com.s3.amazonaws.com\/player\/mp3\/A-Song-For-A-Son.mp3). [Nesta mat\u00e9ria da Rolling Stone](http:\/\/www.rollingstone.com\/rockdaily\/index.php\/2009\/12\/07\/smashing-pumpkins-unveil-new-teargarden-by-kaleidyscope-track-a-song-for-a-son\/), \u00e9 dito que al\u00e9m do lan\u00e7amento gratuito e gradual das m\u00fasicas do disco na internet, este ser\u00e1 lan\u00e7ado posteriormente em formatos f\u00edsicos diferentes, como um conjunto de EPs e tamb\u00e9m um box set.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":230,"title":"Mais repescagem","post_timestamp":"2009-12-03T15:36:36+00:00","url":"2009_12_03_mais_repescagem","post":"Wolf Parade : \u0022At Mount Zoomer\u0022 (2008)\r\n\r\nSer\u00e1 que alguma banda incensada dessa d\u00e9cada alcan\u00e7ar\u00e1 alguma sobrevida? Os Estroques j\u00e1 ganharam top de lista nessas porcarias de NME, penso que o Arcade Fire possa atingir algum grau de reconhecimento com o fabuloso *Funeral* na posteridade. Mas tirando uma ou outra, a d\u00e9cada acabar\u00e1 em 2010 com grandes discos, grandes singles, mas com pouqu\u00edssimos artistas nas gra\u00e7as da unanimidade. Reconhe\u00e7o que grande parte realmente merece a rela\u00e7\u00e3o de \u0022uma \u00fanica noite\u0022, mas esse descompromisso tamb\u00e9m deixa muita gente boa em segundo plano. O Wolf Parade, que j\u00e1 entregou um disca\u00e7o em 2005 (*Apologies To Queen Mary*), ganhou l\u00e1 seus 5 segundos de destaque mas hoje repousa no mesmo grupo de tantos artistas independentes de moderada express\u00e3o. Uma injusti\u00e7a, diga-se de passagem.\r\n\r\nEncontrei as MP3s de *At Mount Zoomer* aqui num pendrive, baixei-as na \u00e9poca que o disco vazou e por algum motivo digno da mais severa pesquisa psicol\u00f3gica deixei-as de lado. Mas ap\u00f3s a cent\u00e9sima milhon\u00e9sima audi\u00e7\u00e3o de *Apologies*, lembrei da mancada com o disco mais recente e puxei-o das trevas, dedicando-lhe algumas dezenas de execu\u00e7\u00f5es. *At Mount Zoomer* n\u00e3o fez o barulho do debut, ao contr\u00e1rio, passou discretamente por algumas listas de final de ano e foi s\u00f3, prova de que o Wolf Parade j\u00e1 estava inserido naquela roda fren\u00e9tica que engole as bandas e n\u00e3o permite que seus discos sejam escutados com a merecida aten\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio de *Apologies*, *At Mount Zoomer* oferece uma maior unidade. \u00c9 poss\u00edvel perceber o esfor\u00e7o conjunto de desenvolver as m\u00fasicas, mesmo que elas ainda nas\u00e7am individualmente via Spencer Krug ou Dan Boeckner. A diferen\u00e7a est\u00e1 na forma como os arranjos s\u00e3o produzidos, evidenciando a sintonia entre os integrantes. Al\u00e9m disso, a produ\u00e7\u00e3o ficou a cargo do baterista Arlen Thompsom, enquanto Issac Brock foi o chef\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es anteriores. Isso tudo transmite uma id\u00e9ia de desenvoltura e crescimento da banda.\r\n\r\nMusicalmente, alguns pontos predominam sobre outros, igualmente distribu\u00eddos no decorrer do \u00e1lbum. Ficaram em primeiro plano as guitarras (com timbres mais limpos, por\u00e9m mais intrincadas do que as do disco anterior), al\u00e9m dos teclados mas principalmente os sintetizadores, que d\u00e3o \u00e0s grava\u00e7\u00f5es um ar oitentista sem soar clich\u00ea, tampouco nost\u00e1lgico (apesar da ironia de uma das m\u00fasicas chamar-se *Fine Young Cannibals*). Estruturalmente, as m\u00fasicas s\u00e3o ricas em melodias, com a banda brincando com as possibilidades de mudar cursos de ritmos e riffs diversas vezes numa mesma faixa. Tal exerc\u00edcio mostra a maturidade dos caras como m\u00fasicos e como grupo, onde algumas m\u00fasicas s\u00e3o estendidas a mais de seis minutos a fim de acomodar tantas id\u00e9ias. Liricamente a paisagem do Wolf Parade continua imprecisa, com alus\u00f5es a psicodelia e temas recorrentes no disco anterior da banda. \r\n\r\n*At Mount Zoomer* \u00e9 um disco para se ouvir do in\u00edcio ao fim, ao contr\u00e1rio de *Apologies* que apresentava semi-hits como *Shine A Light*. Embora algumas faixas pressuponham efeito imediato (*Language City*, *The Grey Estates*), o sangue pulsa mais forte nas faixas longas e elaboradas como *California Dreamer* e *Fine Young Cannibals*. E, como nas coisas boas o melhor sempre fica no final, o disco fecha com a fant\u00e1stica *Kissing The Beehive*, onde o controle \u00e9 revezado entre Boeckner e Krug durante dez minutos, per\u00edodo em que o Wolf Parade questiona a irrelev\u00e2ncia com que vem sendo tratado pela m\u00eddia \u0022especializada\u0022. \u00c9 uma aula de ritmos, inspira\u00e7\u00e3o e criatividade.\r\n\r\nRelevantes ou n\u00e3o, os canadenses colocaram o dedo na minha cara. Peguei meu cart\u00e3o de cr\u00e9dito e postei um pedido de vinil em subpop.com. Tomara que chegue antes do Natal.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"subpop.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":228,"title":"Blanched para download","post_timestamp":"2009-11-23T20:26:34+00:00","url":"2009_11_23_blanched_para_download","post":"S\u00f3 hoje eu reparei que os discos do Blanched est\u00e3o dispon\u00edveis para download no site da [Sinewave](http:\/\/sinewave.com.br\/2009\/10\/blanched-ter-estado-aqui-avalanched\/). Recomendado!\r\n\r\n\u003Ca href=\u0022http:\/\/sinewave.com.br\/albums\/blanched\/sw09bln02.blanched_terestadoaqui.zip\u0022\u003E\u003Cimg src=\u0022http:\/\/sinewave.com.br\/cards\/card_sw09bln02.png\u0022\u003E\u003C\/a\u003E\r\n\r\n\u003Ca href=\u0022http:\/\/sinewave.com.br\/albums\/blanched\/sw09bln03.blanched_avalanched.zip\u0022\u003E\u003Cimg src=\u0022http:\/\/sinewave.com.br\/cards\/card_sw09bln03.png\u0022\u003E\u003C\/a\u003E\r\n\r\n\u003Ca href=\u0022http:\/\/sinewave.com.br\/albums\/blanched\/sw08bln01.blanched_blanchedtocaangelopoulos.zip\u0022\u003E\u003Cimg src=\u0022http:\/\/sinewave.com.br\/cards\/card_sw08bln01.png\u0022\u003E\u003C\/a\u003E\r\n\r\n\u003Cdiv style=\u0022clear:both\u0022\u003E\u003C\/div\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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O pedacinho de m\u00fasica que aparece no v\u00eddeo \u00e9 da *Mogwai Fear Satan*, um dos cl\u00e1ssicos maiores dos caras. Vi o Mogwai duas vezes ao vivo, e em ambos os shows, tocaram essa m\u00fasica. 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Muitos discos o Rodrigo Lari\u00fa me mandou pelo correio. Agradecimentos ao Eduardo, que mandou a dica.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":223,"title":"\u00daltimas audi\u00e7\u00f5es: Pearl Jam, Flaming Lips, Mission of Burma, Alice in Chains e Dirty Projectors","post_timestamp":"2009-11-04T17:55:00+00:00","url":"2009_11_04_ultimas_audicoes_pearl_jam_flaming_lips_mission_of_burma_alice_in_chains_e_dirty_projecto","post":"Cheguei a pensar que este *Backspacer* seria o primeiro disco do Pearl Jam que eu n\u00e3o compraria. Acabou que a tradi\u00e7\u00e3o falou mais alto e eu fiquei 35,00 mangos menos rico. Mas, no pr\u00f3ximo disco, bem que eles poderiam ajudar e lan\u00e7ar algo um tantinho mais inspirado, n\u00e3o? S\u00f3 pra gente n\u00e3o lamentar o dinheirinho t\u00e3o arduamente ganho e t\u00e3o facilmente perdido. Pois se tem ali quatro ou cinco m\u00fasicas que valem 99 centavos, acho que \u00e9 muito. O *Riot Act* \u00e9 um disco bacana, que n\u00e3o te faz pensar no quanto custou, mas o azulzinho aquele do abacate que veio depois e agora este *Backspacer* me fazem acreditar que os meus pr\u00f3ximos investimentos em Pearl Jam v\u00e3o acontecer somente quando sa\u00edrem vers\u00f5es especiais de anivers\u00e1rio do *Versus*, do *No Code* e do *Vitalogy*.\r\n\r\nBom mesmo achei este novo disco do Flaming Lips. E olha que nem sou f\u00e3 da banda, mas ocorreu de eu botar casualmente os ouvidos neste *Embryonic* e, pasm\u00e9m, gostei pra caramba. Muito legal mesmo, numa linha mais de loucura psicod\u00e9lica suja e abafada do que de loucura psicod\u00e9lica engra\u00e7adinha, que \u00e9 no que eles investem usualmente, e que me afasta frequentemente. Esse mereceria um lugar na prateleira.\r\n\r\nDa\u00ed tem o novo do Mission of Burma, que \u00e9 uma banda que s\u00f3 de manifestar inten\u00e7\u00e3o de gravar qualquer coisa, eu aviso que j\u00e1 gostei do resultado futuro. Nenhuma m\u00fasica do seu *The Sound The Speed The Light* colou no c\u00f3rtex ainda, passadas duas ou tr\u00eas audi\u00e7\u00f5es, mas tenho certeza que \u00e9 s\u00f3 quest\u00e3o de tempo.\r\n\r\nO Alice in Chains novo, alguma curiosidade de ouvir eu tinha, j\u00e1 que gosto do Jerry Cantrell, mas alguma resist\u00eancia \u00e9tico-procrastinat\u00f3ria-sentimental me impediu at\u00e9 ontem de faz\u00ea-lo. Foi s\u00f3 por confiar na avalia\u00e7\u00e3o positiva de um camarada que eu baixei o *Black Gives Way to Blue* e o botei pra tocar aqui, e de fato o \u00e1lbum tem seus m\u00e9ritos. Melhor que o do Pearl Jam o neg\u00f3cio \u00e9, f\u00e1cil.\r\n\r\nPra fechar, uma audi\u00e7\u00e3o instigante: *Bitte Orca*, do Dirty Projectors. Tambem indica\u00e7\u00e3o de um camarada --- n\u00e3o fosse por isso, dificilmente dedicaria algum tempo ao Dirty Projectors, pois tinha plena convic\u00e7\u00e3o de que era uma dessas bandinhas na linha de Bloc Party, Franz Ferdinand e Arctic Monkeys, coisas que abomino. Na falta de tempo para se ouvir tudo que \u00e9 elogiado internet afora, o preconceito \u00e9 um crit\u00e9rio \u00fatil de vez em quando, embora nem sempre confi\u00e1vel. Enfim, n\u00e3o gostei do disco inteiro, mas o tro\u00e7o tem alguns \u00f3timos momentos, \u00f3timos e delirantes. E posso estar ficando maluco, ou manifestando sinais precoces de senilidade, mas me parece que os rapazes do Dirty Projectors ouviam bastante Yes, n\u00e3o? O neg\u00f3cio \u00e9 praticamente um Yes repaginado para as novas gera\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 nascem com dist\u00farbio de d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o. Claro, o caldo dos caras tem outros ingredientes, e sugiro fortemente voc\u00eas provarem do neg\u00f3cio.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto por Fabricio Boppr\u00e9","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":221,"title":"(O \u00c1lbum)","post_timestamp":"2009-11-02T18:13:51+00:00","url":"2009_11_02_o_album","post":"A passagem de *A Ghost Is Born* para *Sky Blue Sky* foi t\u00e3o surpreendente para o f\u00e3 de Wilco como a quebra representada por *Yankee Hotel Foxtrot* frente a *Summerteeth*. Algumas cr\u00edticas e avalia\u00e7\u00f5es de *Sky Blue Sky* amenizaram a vida de Jeff Tweedy com o cr\u00e9dito que merece, como quem diz \u0022ok, voc\u00ea fez um disco para as pessoas cantarem junto, a gente te d\u00e1 esse espa\u00e7o, mas que o pr\u00f3ximo nos soterre de ang\u00fastia e desencanto como voc\u00ea vinha fazendo anteriormente\u0022. E esse posicionamento n\u00e3o deve ter diferido muito do da base de f\u00e3s, que provavelmente conviveu com *Sky Blue Sky* j\u00e1 pensando no que viria na sequ\u00eancia.\r\n\r\nMas *(The Album)* chegou mais como uma continua\u00e7\u00e3o de *Sky Blue Sky*, e mesmo assim, um disco de onde se tira pouco para se falar sobre (ou escrever). Enquanto o \u00e1lbum anterior rendeu linhas sobre seu antagonismo \u00e0s duas obras que o antecederam, *(The Album)* apenas \u00e9 o que \u00e9, um punhado de can\u00e7\u00f5es sem grandes pretens\u00f5es, sem a menor necessidade de atender a posicionamentos art\u00edsticos ou expectativas. Pode-se ainda ir um pouco mais al\u00e9m: *(The Album)* n\u00e3o deve ser levado a s\u00e9rio, como acusa a capa adornada pela festa de anivers\u00e1rio presenciada por um camelo (!)(conceito que se perde em tempos de MP3). As ilustra\u00e7\u00f5es internas refor\u00e7am a tese, com direito a imagens de palet\u00f3s estilo Elvis e um Jeff Tweedy piscando para a c\u00e2mera, eliminando d\u00favidas quanto ao descompromisso do lan\u00e7amento. N\u00e3o \u00e9 aqui, portanto, que se resgatar\u00e1 o lado sombrio e experimental do Wilco.\r\n\r\nO desenrolar das m\u00fasicas confirmam esse direcionamento. *Wilco (The Song)* \u00e9 rock b\u00e1sico, cru, coisa que a banda faz na hora em que bem entender. E refor\u00e7a o descompromisso do disco, afinal de contas, uma m\u00fasica hom\u00f4nima deveria representar o Wilco, e essa faixa dificilmente traduz o conceito que o Wilco tem na cabe\u00e7a dos f\u00e3s. *Deeper Down* at\u00e9 arrisca uns ruidinhos sonoros no arranjo, mas se houve ali algum interesse em fazer deles uma forma de desconstru\u00e7\u00e3o (termo comum em *Yankee Hotel Foxtrot* e *A Ghost Is Born*), talvez tenha sido a tentativa mais frustrada da hist\u00f3ria da banda. De qualquer forma, o trabalho do excelente Nels Cline fica evidente, mesmo que sua voca\u00e7\u00e3o para o avant-garde definitivamente n\u00e3o se encaixe bem no som do Wilco (ao contr\u00e1rio, por exemplo, do finado Jay Benneth). At\u00e9 que *Bull Black Nova* tenta uma aproxima\u00e7\u00e3o com *Spiders (Kidsmoke)*, mas novamente fica a impress\u00e3o que a banda n\u00e3o estava no clima de experimentar. O disco tem alguns flertes com alt-country (\u00f3bvio) em *One Wing*, *Sonny Feeling* e *I\u0027ll Fight*, mas fica demasiado insosso com m\u00fasicas f\u00e1ceis como *You And I*. O destaque para os meus ouvidos foi *You Never Know*, por ser simplesmente uma bela can\u00e7\u00e3o para se cantar junto, com toda sua simplicidade e clima *good vibrations*.\r\n\r\nAgora fica a d\u00favida quanto ao que se pode esperar de Tweedy \u0026 cia. a partir desse \u00e1lbum que \u00e9 assim, t\u00e3o r\u00e1pido e rasteiro. Eles parecem cada vez mais inclinados a comp\u00f4r pensando na estrada, criando can\u00e7\u00f5es de f\u00e1cil transposi\u00e7\u00e3o para os palcos e com maior efeito *rocker* poss\u00edvel. Em algumas faixas eles t\u00eam acertado ao ponto de convencer o f\u00e3 a deixar as demandas art\u00edsticas em segundo plano, em outras m\u00fasicas eles beliscam um mau gosto que faz lembrar da alcunha de \u0022rock de tioz\u00e3o\u0022. Mas se *(The Album)* realmente nasceu para bagun\u00e7ar a discografia de vez, bem, os rapazes tiveram sucesso. Assim como colocar um camelo no meio duma festa de anivers\u00e1rio.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"wilcoworld.net","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":220,"title":"C\u00e9u azulado (demais?)","post_timestamp":"2009-10-22T23:16:18+00:00","url":"Ceu_azulado_demais_1","post":"Quando o Wilco foi mais controverso? Quando a Reprise torceu o nariz para *Yankee Hotel Foxtrot* ou quando a Nonesuch, certa de mais uma dose de experimenta\u00e7\u00f5es de sua banda geniosa, deparou-se com a simplicidade de *Sky Blue Sky*?\r\n\r\nAlvo de cr\u00edticas como *dad rock*, *Sky Blue Sky* \u00e9 voltado para o oposto de tudo o que cercou a banda desde o in\u00edcio da d\u00e9cada. O ar desencantado e amargo de dois discos deu lugar \u00e0 leveza e ao descompromisso que instaurou-se na banda, revelando a faceta relaxada do que se produz no alardeado loft em que ensaiam e gravam. Ao inv\u00e9s de dezenas de masoquismos nos arranjos, a impress\u00e3o que se tem \u00e9 que limitaram-se a pressionar *REC* e deixar os instrumentos rolarem. As can\u00e7\u00f5es oriundas dessa orienta\u00e7\u00e3o mostram um Wilco mais intuitivo e com cara de *banda*, exigindo dos m\u00fasicos sa\u00eddas que normalmente utilizam nos shows, quando tudo tem de acontecer com os recursos dispon\u00edveis naquele momento. Paralelamente, como declara Jeff Tweedy no DVD da vers\u00e3o especial de *Sky Blue Sky*, a tem\u00e1tica das letras s\u00e3o \u0022para cima\u0022 e mesmo que pessoais (muito evidente em *Please Be Patient With Me* e *Hate It Here*), s\u00e3o suaves perto da acidez l\u00edrica dos dois \u00e1lbuns anteriores. Musicalmente, h\u00e1 um forte resgate de influ\u00eancias que v\u00e3o de Bob Dylan a Beatles, culminando na pr\u00f3pria refer\u00eancia ao Wilco de *A.M.* e *Being There*, como se a banda de outrora tivesse passado alguns anos sem gravar e retornasse mais experiente e musculosa.\r\n\r\nEntretanto, *Sky Blue Sky* perde quando enfileirado junto \u00e0 discografia da banda, que evoluiu gradualmente at\u00e9 *A Ghost Is Born*. O descompromisso e a preocupa\u00e7\u00e3o com o prazer de tocar e gravar eliminou um dos pontos fortes do Wilco, que era subverter can\u00e7\u00f5es simples de forma a torn\u00e1-las \u0022estragadas\u0022, desconfort\u00e1veis onde se poderia ter tranquilidade e prazer. Curiosamente, como defende Tweedy, o disco reflete a melhor configura\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e musical que o Wilco conheceu e em alguns momentos essa necessidade de fazer com que todos os m\u00fasicos colaborem se imp\u00f5e, o que resulta em can\u00e7\u00f5es contidas ou objetivas demais, para que todos possam fazer sentido com suas bagagens musicais.\r\n\r\nPara que funcione bem, *Sky Blue Sky* deve ser apreciado isoladamente e encarado como uma obra de abordagem descompromissada. O \u00e1lbum tem pelo menos tr\u00eas grandes can\u00e7\u00f5es, que se n\u00e3o representam tra\u00e7os do Wilco \u0022esquisito\u0022, pelo menos se sustentam como \u00f3timas composi\u00e7\u00f5es dentro da proposta do \u00e1lbum. *Impossible Germany* tem lindas melodias e solos bel\u00edssimos do \u00f3timo Nels Cline. *Sly Blue Sky* (a m\u00fasica) lembra um pouco a simplicidade dos shows solo de Tweedy, embora soe suave e agrad\u00e1vel e de forma alguma pediria lampejos de experimentalismo sobre seu arranjo. O disco fecha com a bela *On And On And On*, forte e convincente, dando ao disco alguns pontos extra justamente nos minutos finais da prorroga\u00e7\u00e3o.\r\n\r\nAo final, fica o impasse do que poderia ser melhor para o ouvinte. Exigir mais uma dose de experimentos (que poderiam ir longe, como mostra o CD em *The Wilco Book*) ou aceitar *Sky Blue Sky* como uma oportunidade para relaxar com a banda em momentos da vida em que belas melodias s\u00e3o suficientes? \u00c9, parece controverso.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"2007 \/ Nonesuch","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":217,"title":"Conhece o M\u00e1rio?","post_timestamp":"2009-10-20T16:43:19+00:00","url":"2009_10_20_conhece_o_mario","post":"(... e outras divaga\u00e7\u00f5es)\r\n\r\nEu fuxicando o Last.FM do Luzardo e vejo estes caras aqui:\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/1a_FGd_FOb8\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowScriptAccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/1a_FGd_FOb8\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 allowScriptAccess=\u0022always\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nSim, a qualidade do video \u00e9 horr\u00edvel!\r\nEu lembro da Maria do Relento numa colet\u00e2nea da Showbizz em meados dos anos 90 (aos curiosos, vide abaixo).  \r\nEm meados dos anos 90 ainda n\u00e3o tinha onde baixar essas p\u00e9rolas. Agora, tem:\r\n\r\n[Maria do Relento na Trama](http:\/\/tramavirtual.uol.com.br\/artista.jsp?id=79117)\r\n\r\nOK, pra completar um post in\u00fatil. Eu fiquei contente de ver que algumas bandas dessa colet\u00e2nea de alguma maneira sobrevivem ao menos na net (ghost site ou n\u00e3o).\r\nAqui v\u00e3o os sites:\r\n\r\n[Os Ostras](http:\/\/www.sitebr.com\/ostras\/inicio.htm)\r\n[Maria do Relento](http:\/\/www.mariadorelento.com.br\/)\r\n[Blues Et\u00edlicos](http:\/\/www.bluesetilicos.com.br\/)\r\n[Mundo Livre](http:\/\/diariodomundolivre.blogspot.com\/)\r\n\r\nMagn\u00e9ticos sumiu no buraco negro de nomes de bandas curitibanas... E Acabou La Tequila exportou gente pro Los Hermanos.\r\n\r\nUm pouco de informa\u00e7\u00e3o revezgay pra quem est\u00e1 vendo em primeira m\u00e3o meninas vestidas como no Barrados no Baile (o primeiro, n\u00e3o o novo), \u00f3culos de sol com arma\u00e7\u00e3o fosforecente, e ahh...\r\n\r\n* [o terr\u00edvel retorno da moda dos anos 90 antes mesmo do halloween](http:\/\/www.guardian.co.uk\/lifeandstyle\/2009\/oct\/14\/90s-fashion-summer-2010) (tremei, inimigos do vestido trap\u00e9zio)\r\n\r\nPr\u00f3ximo post eu mando FOTOS.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Ana D.M.","url":"ana_dm"}},{"id":215,"title":"Poster: Grandaddy","post_timestamp":"2009-10-12T12:54:33+00:00","url":"2009_10_12_poster_grandaddy","post":"Posterzinho de um show do Grandaddy com a ilustre abertura do Super Furry Animals. 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Imagino que em breve ele deve lan\u00e7ar um sucessor para o fant\u00e1stico *The Eraser*.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022295\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/R6cK2toUTN8\u0026hl=en\u0026fs=1\u0026\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/R6cK2toUTN8\u0026hl=en\u0026fs=1\u0026\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022295\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nE isso a\u00ed \u00e9 o Pearl Jam refor\u00e7ado pelo Chris Cornell (conhecido tamb\u00e9m como Temple of the Dog). Ok, \u00e9 velharia, j\u00e1 tinha rolado outra reuni\u00e3o dessa alguns anos atr\u00e1s, mas *Hunger Strike* \u00e9 desses cl\u00e1ssicos atemporais, nunca vai ser demais ver os caras se juntarem para toc\u00e1-la.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022480\u0022 height=\u0022295\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/yLo5miR0dJY\u0026hl=en\u0026fs=1\u0026\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/yLo5miR0dJY\u0026hl=en\u0026fs=1\u0026\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022480\u0022 height=\u0022295\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Ou melhor, um disco baseado em can\u00e7\u00f5es convencionais, apenas pincelado com ru\u00eddos oportunos, fazendo m\u00e9dia com a nova parcela de f\u00e3s oriunda do mundo Pitchfork. Nada como incrementar o escopo de faturamento.\r\n\r\nMas essa vis\u00e3o amarga do disco caiu por terra quando se escutou *Sky Blue Sky*, esse sim um disco simples e direto, que deixou evidente o conteudo \u00e1cido e desiludido de *A Ghost Is Born*. O fato \u00e9 que *Yankee Hotel Foxtrot* beneficiou-se de uma sequ\u00eancia incomum de acontecimentos, plenamente abordados no DVD *I Am Trying To Break Your Heart*, que refletiram em cheio no conte\u00fado da obra. A tens\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es, a indecis\u00e3o quanto \u00e0 mixagem, a presen\u00e7a tardia de Jim O\u0027Rourke e o racha com a Reprise s\u00e3o elementos inexistentes no disco seguinte, quando a banda viu-se no centro das aten\u00e7\u00f5es tendo de lidar apenas com a resposta art\u00edstica \u00e0 sua obra-prima. Tem-se ent\u00e3o um Wilco mais focado e equilibrado, capaz de conciliar can\u00e7\u00f5es bem estruturadas com quaisquer experimenta\u00e7\u00f5es que se atravessassem pelo caminho.\r\n\r\nEm um primeiro momento, a obra transmite um ar de concilia\u00e7\u00e3o, de que a banda reconheceu o feito anterior e decidiu conviver com a impossibilidade de repet\u00ed-lo. Faixas como a pura *Muzzle Of Bees* e *The Late Greats* s\u00e3o de evidente simplicidade, refor\u00e7ando a t\u00f4nica defensiva que as primeiras audi\u00e7\u00f5es erroneamente induzem. Mas a acidez que repousa em *A Ghost Is Born* \u00e9 frequentemente provocada no decorrer do \u00e1lbum, evidenciando-se \u00e0 medida que se conhece-o melhor. A (aparentemente) inofensiva *At Least That\u0027s What You Said* inicia como qualquer can\u00e7\u00e3o de amor desiludido (\u0022When I sat down on the bed next to you \/ You started to cry \u0022), mas Tweedy consegue ser g\u00eanio o suficiente para transferir o amargor da letra para o arranjo, quando despeja toneladas de distor\u00e7\u00e3o e a conclui em um universo totalmente diferente de onde come\u00e7ou. O mesmo ocorre com *Handshake Drugs*, que tematiza sobre drogas e o desencontro amoroso embalado por uma sonoridade *upbeat*, terminando novamente numa nuvem de ru\u00eddos.\r\n\r\nQuando o Wilco n\u00e3o brinca com essas possibilidades de confrontar os arranjos com a tem\u00e1tica, ele permeia as can\u00e7\u00f5es de ironia. O krautrock *Spiders (Kidsmoke)* faz alus\u00e3o \u00e0 sociedade moderna no melhor estilo Thom Yorke, *Company In My Back* usa uma palavrinha que no passado renderia um \u0022Parental Advisory\u0022 ao lado do ovo na capa, *Theologians* mira em cheio no comercialismo das religi\u00f5es e *I\u0027m A Wheel* \u00e9 puro non-sense desafiando o senso de humor do ouvinte. Em *A Ghost Is Born*, a ironia e a suavidade andam de m\u00e3os dadas e assim o \u00e1lbum funciona.\r\n\r\n\u00c0s vezes \u00e9 \u00f3timo retornar a um disco a partir de um outro foco. Ainda mais quando se trata de uma banda capaz de esconder conceitos e id\u00e9ias em suas m\u00fasicas, possibilitando diferentes audi\u00e7\u00f5es com o passar do tempo. H\u00e1 quem sinta falta de um pouco desse exerc\u00edcio nos discos seguintes do Wilco, que mostraram-se propositalmente avessos a essa forma de comp\u00f4r. Mas algo me diz que \u00e9 passageiro, e que Tweedy \u0026 cia. est\u00e3o longe de se acomodar no suposto *dad rock* que algumas cr\u00edticas lhes atribu\u00edram.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"http:\/\/wilco.kungfustore.com\/","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":208,"title":"The Empyrean: Lament\u00e1vel atraso","post_timestamp":"2009-09-25T17:20:04+00:00","url":"The_Empyrean_Lamentavel_atraso","post":"Esse foi mais um atrasado de 2009, por motivos que ainda n\u00e3o defini. Sabedores da minha condi\u00e7\u00e3o de fanboy do Sr. Frusciante, os senhores esperariam que o seu disco mais recente habitasse meus dom\u00ednios j\u00e1 em janeiro, quando saiu. Eu tamb\u00e9m, mas por algum motivo protelei esse prazer at\u00e9 agora, quando finalmente pus as m\u00e3os na obra.\r\n\r\nJohn lan\u00e7ou v\u00e1rios discos nos \u00faltimos anos, todos imperd\u00edveis, que indubitavelmente o diferenciaram do comercialismo dos RHCP e ainda o contextualizaram no rol dos melhores compositores contempor\u00e2neos. \u00c9 o tipo de artista que tem seu pr\u00f3prio mundo musical e quem se permite explor\u00e1-lo passa a compartilh\u00e1-lo com o m\u00fasico, \u0022entendendo\u0022 sua forma de se expressar ao ponto de finalmente perceber o qu\u00e3o diferenciada sua m\u00fasica \u00e9.\r\n\r\nEm comum entre seus \u00e1lbuns, desde o (j\u00e1) cl\u00e1ssico *To Record Only Water For Ten Days*, h\u00e1 o brilhantismo que cada can\u00e7\u00e3o emite individualmente. Seus discos s\u00e3o punhados de excelentes m\u00fasicas, cada qual com sua beleza, unidas pelo senso que normalmente unifica um \u00e1lbum. Entretanto, pela primeira vez, Frusciante partiu de uma tem\u00e1tica que se n\u00e3o difere-se muito de seus assuntos habituais (vida, morte, erros e reden\u00e7\u00e3o), fez uma revolu\u00e7\u00e3o na forma como costuma apresentar sua m\u00fasica. O conceito do disco gira em torno de como a vida \u00e9 c\u00edclica em erros e acertos e de como h\u00e1 a necessidade da dualidade entre as coisas boas e ruins para que ambas fa\u00e7am sentido. Esse conceito \u00e9 ampliado e utilizado como cerne das composi\u00e7\u00f5es, tanto em letras como em arranjos. Ao inv\u00e9s das m\u00fasicas nascerem dos instrumentos, elas nascem da tem\u00e1tica e tudo que John produz \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o disso. Assim, a maneira como se conhece suas can\u00e7\u00f5es foi severamente distorcida, pois ele se desprende dos formatos e faz a m\u00fasica percorrer diferentes caminhos, sem olhar para tr\u00e1s. E *The Empyrean* torna-se assim uma obra cont\u00ednua, que n\u00e3o pode ser apreciada em pequenas doses, mas apenas em sua totalidade.\r\n\r\nAp\u00f3s a longa introdu\u00e7\u00e3o instrumental de *Before the Beginning*, John surpreende com um cover funesto de Tim Buckley, *Song To The Siren*. Covers s\u00e3o sempre sujeitos a cr\u00edticas e embora aqui John n\u00e3o demonstre esfor\u00e7o em prestar tributo ao autor ou tampouco dar uma vis\u00e3o diferenciada da can\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um senso de que sua interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 voltada para o conceito do disco, como se Frusciante e Buckley houvessem pensado em determinados temas que de alguma forma uniram suas m\u00fasicas. Da\u00ed adiante, o \u00e1lbum segue como uma montanha-russa que nunca repete seu trajeto, onde s\u00e3o pensadas as mais diferentes formas de utilizar instrumentos (orquestras, muitos \u00f3rg\u00e3os e pianos). Os destaques individuais (embora a individualiza\u00e7\u00e3o aqui n\u00e3o seja recomendada) ficam com *Dark \/ Light*, onde a dualidade de sentidos fica exposta na pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o, com sua segunda parte primando pela repeti\u00e7\u00e3o. As \u00faltimas tr\u00eas faixas fecham o disco de forma inigual\u00e1vel, com destaque para a energia de *Central* (minha preferida) e os vocais de *One More Of Me*.\r\n\r\nPoucos discos hoje em dia merecem a alcunha de \u0022transcedental\u0022 e de uma forma geral essa denomina\u00e7\u00e3o pode soar muito for\u00e7ada. Confesso que tentei, mas n\u00e3o encontrei uma palavra que melhor caracterizasse *The Empyrean*. Agora falta descobrir como diabos sobrevivi de janeiro at\u00e9 aqui sem a companhia dessa p\u00e9rola.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"recordcollectionmusic.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":201,"title":"As v\u00e1rias encarna\u00e7\u00f5es de Mike Watt","post_timestamp":"2009-09-07T20:06:07+00:00","url":"2009_09_07_as_varias_encarnacoes_de_mike_watt","post":"Por algum motivo \u0022Corona\u0022 andou grudada na minha cabe\u00e7a por *dias*, ent\u00e3o achei que seria uma boa id\u00e9ia compartilhar [esta p\u00e1gina maravilhosa cheia de shows velhos](http:\/\/www.corndogs.org\/) dos diversos projetos do Mike Watt, e [seu profile incr\u00edvel no vimeo](http:\/\/vimeo.com\/user1866126).\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022400\u0022 height=\u0022291\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022allowfullscreen\u0022 value=\u0022true\u0022 \/\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022 \/\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/vimeo.com\/moogaloop.swf?clip_id=5050904\u0026amp;server=vimeo.com\u0026amp;show_title=1\u0026amp;show_byline=1\u0026amp;show_portrait=0\u0026amp;color=\u0026amp;fullscreen=1\u0022 \/\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/vimeo.com\/moogaloop.swf?clip_id=5050904\u0026amp;server=vimeo.com\u0026amp;show_title=1\u0026amp;show_byline=1\u0026amp;show_portrait=0\u0026amp;color=\u0026amp;fullscreen=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 width=\u0022400\u0022 height=\u0022291\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\u003Cp\u003E\u003Ca href=\u0022http:\/\/vimeo.com\/5050904\u0022\u003EMINUTEMEN - \u0027The Tour\u0027 (1985) - the Stone - San Francisco, CA - March 1st, 1985\u003C\/a\u003E from \u003Ca href=\u0022http:\/\/vimeo.com\/user1866126\u0022\u003ECorndogs.ORG\u003C\/a\u003E on \u003Ca href=\u0022http:\/\/vimeo.com\u0022\u003EVimeo\u003C\/a\u003E.\u003C\/p\u003E\r\n\r\n\u003Csmall\u003EUma das notas sobre este v\u00eddeo em espec\u00edfico diz que aquele cara pulando no palco em \u0022Lost\u0022 \u00e9 o Cris Kirkwood dos Meat Puppets, e sim, eu j\u00e1 postei o download dessa fita [aqui](http:\/\/dyingdays.net\/blog\/view\/2009_08_04_husker_du_minutemen_meat_puppets_sachharine_trust_swa_ao_vivo_1985).\u003C\/small\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Ana D.M.","url":"ana_dm"}},{"id":199,"title":"Poster: Melvins","post_timestamp":"2009-09-02T21:30:23+00:00","url":"2009_09_02_poster_melvins","post":"Minha homenagem ao Melvins, banda que j\u00e1 tive a estupidez de achar superestimada.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"[Gigposters](http:\/\/www.gigposters.com\/poster\/100404_%28the%29_Melvins.html)","author":{"name":"Fabricio C. 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O disco, assim como *Lullabies*, \u00e9 diversificado e menos imediato. Entretanto, o que nas primeiras audi\u00e7\u00f5es indica uma banda um pouco perdida, sem convic\u00e7\u00e3o dos rumos que as m\u00fasicas t\u00eam que tomar, aos poucos vai revelando que os n\u00f3s entre as cordas s\u00e3o fortes e que Josh Homme e Chris Gross t\u00eam muito a ofertar embaixo do aparente desleixo. A psicodelia des\u00e9rtica dos dois primeiros discos foi substitu\u00edda por experimentos com diversos timbres e instrumentos, ritmos e possibilidades, e as faixas procuram outros formatos que n\u00e3o apenas o stoner (ou o que o QotSA consagrou a partir dele).\r\n\r\n*Make It Wit Chu*, o single que me afastou do disco num primeiro momento, debutou nas \u00faltimas Desert Sessions e hoje pode ser visto como uma brincadeira sagaz. Josh Homme *galante*. H\u00e1 tamb\u00e9m faixas ganchudinhas como *Sick, Sick, Sick* e *3\u0027s \u0026 7\u0027s* que num primeiro momento soam como c\u00f3pia de algo melhor que eles fizeram antes, mas o car\u00e1ter sujo de seus arranjos e algumas mudan\u00e7as radicais no decorrer de suas estruturas as levam para uma posi\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel. *River On The Road*, *Battery Acid* e *Suture Up Your Future* respondem pela diversidade do \u00e1lbum, cada qual com sua cara que no conjunto fazem de *Era Vulgaris* um disco com muitas possibilidades, todas acertadas. Mas a melhor ainda \u00e9 *Into The Hollow*, infal\u00edvel, que s\u00f3 poderia ser ainda mais perfeita se fosse entoada por Mark Lanegan.\r\n\r\n*Era Vulgaris* mostrou-se uma obra bem acima do que o p\u00fablico mainstream do QotSA tende a assimilar, embora n\u00e3o seja um disco inacess\u00edvel. Fica a torcida que ap\u00f3s a temporada com o Them Crooked Vultures, Homme retorne para sua banda principal com a mesma veia de inspira\u00e7\u00e3o que explorou em 2007.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"http:\/\/www.thefade.net\/","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":197,"title":"Juian Plenti : \u0022Is... Skyscraper\u0022 (2009 \/ Matador Records)","post_timestamp":"2009-08-30T19:16:50+00:00","url":"2009_08_30_juian_plenti_is_skyscraper_2009_matador_records","post":"Ouvindo aqui o debut solo de Paul Banks, \u0022Is... Skyscraper\u0022. Atuando sob a alcunha de Julian Plenti (certamente por quest\u00f5es legais que circundam as gravadoras para as quais trabalha), Banks meio que surpreende por arrega\u00e7ar as mangas e colocar os bra\u00e7os para fora. N\u00e3o \u00e9 do Interpol, banda sisuda e contida, que se espera carreiras solo, uma vez que por mais que Banks seja o l\u00edder e figura central, o som do quarteto sempre traduziu a soma das for\u00e7as ao inv\u00e9s dos destaques individuais que eventualmente poderiam se destacar. Assim, ao mesmo tempo que \u0022Is... Skyscraper\u0022 chega sem grandes alardes, ele tamb\u00e9m goza de uma certa isen\u00e7\u00e3o pela informalidade que representa.\r\n\r\nComo \u00e9 imposs\u00edvel deixar de compar\u00e1-lo com os discos do Interpol, \u00e9 f\u00e1cil concluir que este \u00e1lbum sofre das mesmas dificuldades que tantos outros discos paralelos fazem. Embora Banks n\u00e3o enverede para a tend\u00eancia de for\u00e7ar uma nova personalidade em seu disco (algo muito comum quando os m\u00fasicos querem mostrar outras facetas em discos solo), ele n\u00e3o consegue achar uma receita que d\u00ea peso ao trabalho, de modo que ficam algumas amarras com sua banda principal. \u0022Is... Skyscraper\u0022 acaba soando como um Interpol mais magrinho, sem a aura cinzenta que representa t\u00e3o bem a banda. \r\n\r\nPor outro lado, h\u00e1 uma s\u00e9rie de explora\u00e7\u00f5es que ao menos dignificam a inten\u00e7\u00e3o art\u00edstica da obra. Orquestras, pianos e arranjos s\u00e3o comuns e mostram que Banks ao menos se esmerou em transp\u00f4r o setup b\u00e1sico que caracteriza o som de sua banda. Al\u00e9m disso, mostra-se um m\u00fasico tecnicamente melhor do que conhecemos. Entre erros e acertos, \u0022Is... Skyscraper\u0022 n\u00e3o acrescenta muito, mas n\u00e3o faz feio. Talvez as sucessivas audi\u00e7\u00f5es transmitam algum conte\u00fado a ser revelado, o que \u00e9 at\u00e9 comum com os discos do Interpol. 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Parece mais legal que o Probot.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/WYYdli0P8YI\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowScriptAccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/WYYdli0P8YI\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 allowScriptAccess=\u0022always\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Ningu\u00e9m vaiou o Jane\u0027s Addiction, como diz triunfalmente o t\u00edtulo da mat\u00e9ria. O que houve foi que o tal Ting Tings, bandinha rid\u00edcula que tocou antes do Jane\u0027s, ficou no palco mais tempo do que deveria, bagun\u00e7ando toda a programa\u00e7\u00e3o. Como o grande nome da noite era o Nine Inch Nails, que faz sua turn\u00ea de despedida e tocaria por \u00faltimo, a solu\u00e7\u00e3o dos organizadores foi encurtar o show do Jane\u0027s. A banda vinha fazendo um showza\u00e7o, muito bom, todo mundo aplaudindo efusivamente. Rolaram cl\u00e1ssicos como *Three Days*, *Mountain Song*, *Ocean Size* e *Been Caught Stealing*. Ao final de *Ted, Just Admit It*, parece ter chegado aos ouvidos da banda que eles teriam que sair mais cedo, e da\u00ed deixaram o palco repentinamente, provavelmente revoltados com a palha\u00e7ada. Ficou todo mundo l\u00e1, sem saber o que estava acontecendo, esperando que a banda voltasse. N\u00e3o voltaram. Da\u00ed, aqui e ali, rolou uma vaia frustrada pela sa\u00edda da banda. N\u00e3o para a banda.\r\n\r\nAh, e tamb\u00e9m o coment\u00e1rio sobre o p\u00fablico \u0022sneak into next year\u2019s event, because ticket prices are too high\u0022 \u00e9 rid\u00edculo. Pelo o que eu sei, o Perry Farrell sempre fala alguma gracinha desse tipo antes de *Been Caught Stealing*. \r\n\r\nMas, enfim, m\u00eddia sensacionalista \u00e9 isso a\u00ed, n\u00e3o d\u00e1 de esperar grande coisa. Sem contar que a NME \u00e9 uma das patrocinadoras do evento, ent\u00e3o diante da prov\u00e1vel ira dos caras do Jane\u0027s nos bastidores e da sa\u00edda abrupta do palco, os caras retaliaram assim, publicando essa materiazinha escrota. Pelo menos, os coment\u00e1rios dos leitores que aparecem logo embaixo da pr\u00f3pria mat\u00e9ria tentam fazer alguma justi\u00e7a.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto por Fabricio Boppr\u00e9","author":{"name":"Fabricio C. 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E, poxa, n\u00e3o faz tanto tempo assim que eu [aposentei o meu \u00faltimo walkman](http:\/\/news.bbc.co.uk\/2\/hi\/uk_news\/magazine\/8117619.stm)...","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"[Tapedeck.org](http:\/\/www.tapedeck.org\/)","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":179,"title":"Sonic Youth e Crucifucks","post_timestamp":"2009-06-23T14:45:30+00:00","url":"2009_06_23_sonic_youth_e_crucifucks","post":"Depois de ouvir uma boa dezena de vezes, esse novo do Sonic Youth n\u00e3o me empolgou tanto quanto eu esperava. Totalmente na contram\u00e3o das opini\u00f5es que li por a\u00ed, acho que prefiro os dois anteriores, o *Sonic Nurse* e o *Rather Ripped*. Sem contar o *Murray Street*, claro, que eu acho um disca\u00e7o, um dos melhores deles. Mas enfim, o *The Eternal* n\u00e3o \u00e9 ruim, claro que n\u00e3o. O v\u00eddeo abaixo \u00e9 de uma das m\u00fasicas mais legais:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/pKlbBgQHPqo\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowScriptAccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/pKlbBgQHPqo\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 allowScriptAccess=\u0022always\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nE pra complementar, uma velharia: Crucifucks, banda muito boa que tinha na bateria o Steve Shelley, antes de ele se juntar ao Sonic Youth:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/fGyz16_MfMI\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0026\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/fGyz16_MfMI\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0026\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Ap\u00f3s dois anos de incessante desenvolvimento e impulsionado pelo crescente reconhecimento conquistado pela banda, o disco vai um pouco al\u00e9m da pol\u00edtica de nunca repetir uma mesma abordagem a cada novo trabalho. \r\n\r\nGreg Anderson e Stephen O\u0027Malley potencializaram o uso de contribui\u00e7\u00f5es, pr\u00e1tica que ganhou for\u00e7a a partir dos \u0022Whites\u0022. Dessa vez, al\u00e9m dos escudeiros Attila Csihar e Oren Ambarchi, h\u00e1 um verdadeiro pelot\u00e3o de m\u00fasicos envolvidos, com destaque para Eyvind Kang, Julian Priester, Steve Moore e Dylan Carlson. Kang, cabe destacar, talvez seja a maior for\u00e7a propulsora em *M\u0026D*. Seu vasto conhecimento por m\u00fasica erudita proporcionou ao Sunn O))) a capacidade de integrar guitarras e tons sombrios com v\u00e1rios elementos orquestrais (harpas, violas, pianos, trombones) al\u00e9m de um coral feminino na faixa *Big Church*.\r\n\r\nTais elementos levaram muito al\u00e9m as sonoridades dominadas pelo duo, transformando *M\u0026D* em seu disco mais peculiar. Seu desenvolvimento \u00e9 impec\u00e1vel, meticulosamente projetado e executado, e sempre cauteloso para que o impacto seja inverso ao dos tradicionais discos de \u0022metal com orquestra\u0022 em que o maestro contratado apenas despeja floreios sobre as m\u00fasicas da banda. Em *M\u0026D*, os elementos est\u00e3o plenamente integrados, se complementando e participando da medula de cada faixa. Esse conceito subverte muito do que o Sunn O))) gravou at\u00e9 hoje pois embora a ess\u00eancia da banda ainda esteja intacta, o fio condutor passa muito mais pelos novos elementos do que pelos tradicionais baixos e guitarras da dupla.\r\n\r\nO disco transpira criatividade de forma muito saud\u00e1vel, entretanto, relaciona-se muito mais com os trabalhos recentes do Sunn O))) (*Oracle*, *D\u00f8mkirke*, *Altar*) do que com o cat\u00e1logo anterior. H\u00e1 um perda de identidade em virtude do peso que as contribui\u00e7\u00f5es imp\u00f5em ao resultado (muito percept\u00edvel em *Big Church*, com seus corais femininos), o que pode incomodar quem esperava o Sunn O))) um pouco mais voltado para sua ess\u00eancia. Junto com *Oracle*, talvez seja o disco menos pesado e sombrio da banda. Por outro lado, a maioria das inova\u00e7\u00f5es s\u00e3o t\u00e3o bem executadas e celebradas pelos m\u00fasicos que *M\u0026D* acaba compensando as mudan\u00e7as atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio conte\u00fado.\r\n\r\n*M\u0026D* \u00e9 o disco do Sunn O))) que mais exige aten\u00e7\u00e3o e estado de esp\u00edrito do ouvinte. Na ocasi\u00e3o correta, a audi\u00e7\u00e3o paga-se com honras, principalmente na parte final da sublime \u0022Alice\u0022, onde Priester presenteia a banda com a sabedoria e a sensibilidade que apenas um colaborador de artistas como Sun Ra, John Coltrane e Herbie Hancock poderia faz\u00ea-lo.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"\u00a92009 Javier Villegas (tirado de monoliths.southernlord.com)","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":169,"title":"Umas linhas sobre o Neil Young","post_timestamp":"2009-06-03T09:19:39+00:00","url":"2009_06_03_umas_linhas_sobre_o_neil_young","post":"Tenho ouvido este *Fork in the Road*, do Neil Young, e achado o disco meia-boca. Nesses \u00faltimos 10 anos, Young tem errado mais do que acertado em seus discos de in\u00e9ditas, acho dif\u00edcil que algu\u00e9m conteste isso. Os discos ao vivo que saem com frequ\u00eancia eu costumo achar legais, mas eles n\u00e3o entram na conta, \u00e9 l\u00f3gico. Mas enfim, o cara \u00e9 um mestre, tem cr\u00e9dito, e n\u00e3o chega a lan\u00e7ar discos med\u00edocres, repetitivos --- apenas menos inspirados. Ouvindo-os, eu ainda consigo acreditar no trabalho dele, n\u00e3o me passam a [sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel que o \u00faltimo do Cure me passou](http:\/\/dyingdays.net\/reviews\/view\/4_13_dream_fabricio_boppre), por exemplo. Bem subjetivo, dif\u00edcil de explicar, mas \u00e9 assim mesmo.\r\n\r\nMas eu queria chegar numa lembran\u00e7a de uns anos atr\u00e1s, quando li uma cr\u00edtica na revista Veja sobre um disco ent\u00e3o rec\u00e9m-lan\u00e7ado pelo Young, n\u00e3o lembro se era o *Are You Passionate?* ou o *Greendale*. O que me irritou n\u00e3o foi nem a cr\u00edtica em si --- ambos os discos s\u00e3o mesmo fraquinhos --- mas um certo teor preconceituoso, manifesto no sublinhamento da circunst\u00e2ncia aleat\u00f3ria de que o disco ruim fora lan\u00e7ado por algu\u00e9m, digamos, de mais idade. N\u00e3o lembro se algo nessa linha estava explicitamente escrito (seria bem politicamente incorreto, n\u00e3o?), mas era a conclus\u00e3o que se obtia ao ler o texto tosco do cara, confiando em seu julgamento. Para finalizar, o sujeito ent\u00e3o se achou na condi\u00e7\u00e3o de sugerir que Young deveria se aposentar, e se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, estendeu o conselho a David Bowie. Bom, nem vou me estender discutindo o racioc\u00ednio do cara, apenas recordo que pouco tempo depois, no lan\u00e7amento do lindo *Prairie Wind*, me lembrei desse textinho, e foi com satisfa\u00e7\u00e3o que eu pensei que o jornalista l\u00e1 deve ter pelo menos aprendido uma li\u00e7\u00e3o.\r\n\r\nEm tempo: foi ontem o lan\u00e7amento do primeiro volume da [Neil Young Archives](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Neil_Young_Archives), que cobre o per\u00edodo de 1963 a 1972.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Mission of Burma - [Max Ernst](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Max_Ernst) \r\n11. Smashing Pumpkins - [Starla](http:\/\/www.spfc.org\/songs-releases\/song.html?song_id=166)\r\n12. Hurtmold - Mike Tyson\r\n13. Tortoise - [Ry Cooder](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ry_Cooder)\r\n14. Tool - Jimmy\r\n15. Clash - Jimmy Jazz\r\n16. Beatles - [Julia](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Julia_Lennon)\r\n\r\nAcho que t\u00e1 bem claro o que essas m\u00fasicas todas tem em comum, n\u00e3o? E antes que algu\u00e9m sugira Jeremy, do Pearl Jam, eu n\u00e3o gosto de Jeremy.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Entre elas, se fosse comparar, acho que o Jesus Lizard sempre teve um pouco menos da minha aten\u00e7\u00e3o do que as outras cinco, mas ultimamente tenho ouvido direto a discografia dos caras, para compensar e me preparar prum showzinho deles que vou assistir no fim do m\u00eas.\r\n\r\nAli\u00e1s, trata-se de um [festival](http:\/\/www.villettesonique.com\/) onde tamb\u00e9m vai tocar o Sunn O))) (Vicente, que tal umas f\u00e9rias no velho mundo?), e da\u00ed chego \u00e0 segunda contribui\u00e7\u00e3o citada no t\u00edtulo do post. Trata-se dessa gera\u00e7\u00e3o de bandas que --- n\u00e3o sei bem se \u00e9 esse o termo correto --- reinventaram o metal e seus sub-estilos, criando algo mais apropriado ao s\u00e9culo 21. Estou falando de Mastodon, Sunn O))), Isis, Pelican, Jesu, Lamb of God, dentre outras bandas brilhantes que, cada uma do seu jeito, tocam doom, thrash, death, at\u00e9 mesmo post-metal, para a alegria dos ouvidos ansiosos por m\u00fasica pesada e r\u00edspida, e que nunca se atreveram a desbravar esse universo por achar os cabelos compridos e as camisetas cheias de caveiras e cad\u00e1veres muito constrangedores. E, claro, n\u00e3o d\u00e1 de citar essas bandas sem render a devida homenagem aos outros nomes predecessores como Tool, Helmet, Kyuss e Godflesh, padrinhos conceituais desses novos metaleiros americanos todos.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/blWtVnc7Vts\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/blWtVnc7Vts\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nAli\u00e1s, o disco novo do Isis, *Wavering Radiant*, \u00e9 simplesmente maravilhoso.\r\n\r\n(Vicente, se tu topares o convite acima, de quebra te levo para assistir ao [Mastodon](http:\/\/www.last.fm\/event\/958518), [Mogwai, Isis, e os japas do Mono](http:\/\/www.furia2009.com\/), que tal?)","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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What were you looking to accomplish with the soundtrack?\r\n\r\nJJ: For me, the music is always like the small rowboat I get into at the very beginning of my process. When I\u2019m trying to imagine something, I have a few elements, a few ideas, maybe a certain actor or actress I want to create a certain type of character for, or maybe a certain place. Specific music starts feeding my imagination and gives me a landscape that corresponds somehow, in some abstract way, to the world I\u2019m just starting to imagine. So the music comes very, very early to me, and that\u2019s happened so many times. And usually, a lot of that music or some element of it becomes the score or enters the film in some way. I did that with Dead Man with Neil Young\u2019s music, and I was collecting RZA\u2019s vinyl instrumental B-sides to Wu-Tang stuff, and listening to those while I was writing Ghost Dog. Mulatu Astatke\u2019s music came to me first as I was just starting to write Broken Flowers. In this case, it was Boris particularly, and Sunn O))) and Earth, those bands were really speaking to me. When I\u2019m focusing and developing an idea, what music I listen to is incredibly important, and I then can\u2019t listen to a lot of other music, and I avoid it. In the same way, I\u2019m very careful about what films I watch when I\u2019m preparing a film, if I watch any at all. The music is kind of a primal beginning point, often, for inspiring me. This time it was those cinematic landscapes with feedback and distortion, a form of rock \u2019n\u2019 roll, but a very particular, hard-to-describe genre. It came very strong and was opening me up, so it ended up really being the score of the film, along with the flamenco stuff, and then Franz Schubert\u2019s Adagio For String Quartet. (...)","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Em seu mais recente disco, ela gravou um cover de *Without You*, [musiquinha antiga](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Without_You) cuja vers\u00e3o de maior sucesso \u00e9 uma gravada pela Mariah Carey nos anos 90. Ent\u00e3o, no show de abertura, ela chamou o [bigodudo](http:\/\/www.amiright.com\/album-cover-themes\/images\/album-Bonnie-Prince-Billy-Master-and-Everyone.jpg) no palco e juntos cantaram a tal m\u00fasica, e algu\u00e9m gravou um videozinho do neg\u00f3cio, que segue a\u00ed embaixo.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/j-2RVKGKeJ0\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/j-2RVKGKeJ0\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nEm tempo: o show do Bonnie foi \u00f3timo, divertid\u00edssimo.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Nada muito pretencioso, a inten\u00e7\u00e3o --- se e quando h\u00e1 --- do\r\nautor que colou as palavras e calou-as n\u00e3o \u00e9 mais do que informa\u00e7\u00e3o\r\ncomplementar, um face do prisma, apenas mais uma conchinha coerente\r\nnum mar de significados e abstra\u00e7\u00e3o.\r\n\r\nDe forma direta e com simplicidade \u00e0s vezes. Explorando perigos e\r\ndando margem a \u00f3dios \u00e0s vezes. Tudo \u00e0s vezes, tanto quanto as palavras\r\npermitirem, tudo quanto for relevante. Ou n\u00e3o. Ou apenas detalhes para\r\nserem apreciados.\r\n\r\n\r\n### The real thing\r\n\r\nUma pequena prova de cappuccino e absinto.\r\n\r\n\u003E The more you change, the less you feel  \r\n\u003E --- *Tonight, Tonight*, The Smashing Pumpkins\r\n\r\nLiteralmente: \u0022quanto mais voc\u00ea muda, menos sente.\u0022\r\n\r\nSitua\u00e7\u00e3o 1) S\u00e3o tantas as mudan\u00e7as que uma hora ficamos entorpecidos e\r\nnem mais sentimos as tais mudan\u00e7as.\r\n\r\nSitua\u00e7\u00e3o b) S\u00e3o tantas as mudan\u00e7as que elas nos fazem rudes e sem tato\r\npara a vida. O tempo d\u00e1 bases para continuarmos vivos e as bases\r\nencimentam os sorrisos.\r\n\r\nSitua\u00e7\u00e3o iii) O que acontece \u00e9 que se sente menos dor. Talvez por\r\naprender a lidar com ela, ningu\u00e9m me pergunte como.\r\n\r\nSitua\u00e7\u00e3o D) \u00c9 uma repeti\u00e7\u00e3o do que foi dito anteriormente na m\u00fasica:\r\n\u0022time is never time at all\u0022. Quando voc\u00ea entra no rio de novo, ele n\u00e3o\r\n\u00e9 mais o mesmo. Apesar de voc\u00ea nem se dar conta e inconscientemente\r\nachar que \u00e9 o mesmo.\r\n\r\nSitua\u00e7\u00e3o V) \u00c9 uma frase de efeito com pouco significado.\r\n\r\nSitua\u00e7\u00e3o extrema) H\u00e1 tantos caminhos de pensamento que eu escolho o\r\nque me aprouver no momento.\r\n\r\n\r\n### Afterword: As belezas e idiossincrasias do muito pequeno\r\n\r\nComo se pode perceber, focar detalhes pode deturpar o todo ou o\r\npr\u00f3prio detalhe, mas quem nunca teve curiosidade sobre a fragilidade\r\ndo muito pequeno na vastid\u00e3o do universo? Vis\u00f5es gerais, hist\u00f3ricas,\r\nencadeamentos. \u00c9 tudo muito importante, mas n\u00e3o esque\u00e7amos que h\u00e1\r\npartes menores disso tudo. N\u00e3o s\u00e3o fractais, muito pelo\r\ncontr\u00e1rio... N\u00e3o \u00e9 a soma que faz o todo, mas os caquinhos contra a\r\nluz tamb\u00e9m d\u00e3o um belo mini-arco-\u00edris.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":129,"title":"Mais fermento pro papo das MP3s","post_timestamp":"2009-04-14T19:07:48+00:00","url":"2009_04_14_mais_fermento_pro_papo_das_mp3s","post":"O Sunn O))) vai lan\u00e7ar disco novo no pr\u00f3ximo m\u00eas e a Wire entrevistou os caras. A revista disponibilizou material complementar online, onde destaco a [p\u00e1gina com Greg Anderson](http:\/\/www.thewire.co.uk\/articles\/2345\/).\r\n\r\nEle falou sobre as estrat\u00e9gias da Southern Lord para evitar o vazamento precoce do \u00e1lbum e, mais importante, do porqu\u00ea a banda preocupar-se em barrar as MP3s antes do disco chegar \u00e0s lojas. Muito mais a ver com valores art\u00edsticos do que com o n\u00famero de discos que deixam de vender, no caso deles. \r\n\r\nUm causa ingl\u00f3ria a essa altura do campeonato, mas, ao meu ver, 100% justa.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":128,"title":"Para alegrar","post_timestamp":"2009-04-14T18:38:29+00:00","url":"2009_04_14_para_alegrar","post":"Sem tempo para conversa furada hoje, vai a\u00ed um videozinho do Fugazi, que nunca \u00e9 demais.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/JWkSuacBatM\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/JWkSuacBatM\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\n\r\n","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Mas tenho que ouvi-lo melhor (e, pricipalmente, ouvi-lo sem esperar por um novo *The Body, The Blood, The Machine*).\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/QJu611UdfxA\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/QJu611UdfxA\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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E em breve, um relato do show.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Foto por Fabricio Boppr\u00e9","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":122,"title":"Rain Down (Radiohead em S\u00e3o Paulo)","post_timestamp":"2009-04-07T08:02:29+00:00","url":"2009_04_07_rain_down_radiohead_em_sao_paulo","post":"Bem legal [essa iniciativa](http:\/\/radioheadraindown.blogspot.com\/). A explica\u00e7\u00e3o do que se trata est\u00e1 neste [post](http:\/\/radioheadraindown.blogspot.com\/2009\/03\/radiohead-rain-down-paranoid-android.html).\r\n\r\nUm aperitivo:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/ftXpHL_KubI\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=pt-br\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/ftXpHL_KubI\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=pt-br\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Ou seja, uma esp\u00e9cie de r\u00e1dio, mas que voc\u00ea tem controle, escolhe o que ouvir, e com pitadas de rede social (da\u00ed vem a compara\u00e7\u00e3o com o Lastfm), ou seja, tem l\u00e1 seu perfil, sua biblioteca, estat\u00edsticas e n\u00e3o sei mais o que.\r\n\r\nClaro que se trata de um modelo que se ap\u00f3ia na populariza\u00e7\u00e3o da banda larga. Sem uma boa conex\u00e3o, nada feito, continuar\u00e1 valendo mais \u00e0 pena fazer parte da [rede global de distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica (vulgo pirataria)](http:\/\/4.bp.blogspot.com\/_itCR1d4lerI\/SbZmF3UoaZI\/AAAAAAAABTY\/z2YOX4GwJ2E\/s1600-h\/piracy.jpg) que hoje formamos. E h\u00e1 outro problema: com a sua m\u00fasica alocada na internet somente, n\u00e3o tem como carreg\u00e1-la para outro local, colocar num mp3 player e coisas do g\u00eanero. Voc\u00ea estar\u00e1 pagando mensalmente para ter acesso \u00e0 ela na internet, n\u00e3o para possui-la (que \u00e9 o iTunes hoje, digamos). Imagino que os caras estejam apostando que em breve a internet de r\u00e1pida velocidade estar\u00e1 em todo o lugar. De fato, isso n\u00e3o deve demorar a acontecer, pelo menos no eixo Europa\/EUA --- ali\u00e1s, nem sei se o Spotify j\u00e1 aceita assinaturas vindas do Brasil, me parece que n\u00e3o.\r\n\r\nEnquanto isso, poucos dias atr\u00e1s uma outra not\u00edcia me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Pode ser mais um daqueles turning points, ou pode n\u00e3o ser nada. [Tire suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es](http:\/\/www.nme.com\/news\/nme\/43497).","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":120,"title":"Rom\u00e3s no liquidificador","post_timestamp":"2009-04-03T07:58:42+00:00","url":"2009_04_03_romas_no_liquidificador","post":"_Shuffle_. Hoje podemos ouvir toda a nossa discoteca fora de ordem.\r\nE uma das grandes maravilhas de ouvir m\u00fasicas aleatoriamente, fora dos\r\nseus discos, \u00e9 aquele aperto no cora\u00e7\u00e3o quando surgem primeiros\r\nacordes de uma m\u00fasica preferida, n\u00e3o-anunciada.\r\n\r\nOutra maravilha \u00e9 descobrir m\u00fasicas preferidas que nem se tinha\r\npercebido. Como aconteceu esses dias quando percebi que gostava\r\nbastante da *Fly Trapped in a Jar*, do Modest Mouse, por exemplo.\r\n\r\nOutra vantagem \u00e9 destacar m\u00fasicas de bandas que voc\u00ea n\u00e3o conhece\r\nmuito. Toda vez que toca uma m\u00fasica do Pomegranates, do disco\r\n*Everything Is Alive*, penso: \u0022Que legal! O que ser\u00e1 que \u00e9 isso?\u0022.\r\n\r\nDe tanto acontecer, fui ouvir o disco. E, infelizmente, o conjunto de\r\nm\u00fasicas n\u00e3o me soou muito espetacular. Parece que todas juntas\r\nofuscam-se umas \u00e0s outras.\r\n\r\nVou continuar deixando o Pomegranates s\u00f3 no _shuffle_.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":119,"title":"Novo disco do NIN ser\u00e1 produzido por Timbaland","post_timestamp":"2009-04-01T17:59:13+00:00","url":"2009_04_01_novo_disco_do_nin_sera_produzido_por_timbaland","post":"Sem d\u00favida, [a melhor pegadinha de primeiro de abril de todos os tempos](http:\/\/www.nin.com\/strobelight\/). Impag\u00e1vel! E n\u00e3o deixe de preencher o e-mail e clicar no submit...","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":118,"title":"Homenagem ao Wipers","post_timestamp":"2009-03-31T19:38:44+00:00","url":"2009_03_31_homenagem_ao_wipers","post":"O Wipers \u00e9 daquelas bandas selvagens seminais e impec\u00e1veis. Eu penso em tudo que eu mais gosto em mat\u00e9ria de m\u00fasica, ou\u00e7o os discos do Wipers e est\u00e1 tudo l\u00e1. Pena que achar v\u00eddeos dos caras em a\u00e7\u00e3o seja t\u00e3o dif\u00edcil. Por isso esse pedacinho do document\u00e1rio [Northwest Passage: The Birth of Portland\u0027s D.I.Y. Culture](http:\/\/www.soundohm.com\/vvaa\/northwest-passage-the-birth-of-portland-s-d.i.y.-culture\/id-off\/), onde a banda de Greg Sage aparece tocando *Over the Edge*, \u00e9 imperd\u00edvel:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/q0ykQhxMssg\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/q0ykQhxMssg\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nE abaixo, homenagem de uma banda de Seattle ao Wipers. Que Nirvana e *D-7* que nada, \u00e9 o Melvins brilhantemente mandando ver *Youth of America*:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/hoBaWszBlaw\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/hoBaWszBlaw\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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E a sua?","post_summary":null,"post_image":"image\/gif","post_image_description":"[JPL\/NASA](http:\/\/voyager.jpl.nasa.gov\/spacecraft\/images\/VoyagerCover.jpg_2big.gif)","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":115,"title":"Tadgarden","post_timestamp":"2009-03-30T09:13:11+00:00","url":"2009_03_30_tadgarden","post":"\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/WGGFjKpo0TU\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/WGGFjKpo0TU\u0026hl=fr\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\n\r\n\r\nIsso a\u00ed aconteceu faz alguns dias j\u00e1. Ia escrever algo, mas perdi o timing, ent\u00e3o fica [aqui um link com os detalhes](http:\/\/www.rollingstone.com\/rockdaily\/index.php\/2009\/03\/25\/soundgarden-nearly-reunite-at-tom-morello-justice-tour-stop-in-seattle\/), para quem passou batido. Para quem pegou ojeriza do sujeito, pode ficar tranquilo, Chris Cornell n\u00e3o deu as caras.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Preparam-se para a experi\u00eancia sensorial de suas vidas!\r\n\r\n","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":108,"title":"Chris Cornell vs. Scott Weiland","post_timestamp":"2009-03-17T09:18:44+00:00","url":"2009_03_17_chris_cornell_vs_scott_weiland","post":"N\u00e3o queria escrever um post falando somente do qu\u00e3o rid\u00edculo \u00e9 o disco solo novo do Chris Cornell --- me parece que bastante tem se falado por a\u00ed. Ali\u00e1s, as palavras definitivas foram escritas pela Trent Reznor, no Twitter do NIN:\r\n\r\n\u003E You know that feeling you get when somebody embarrasses themselves so badly YOU feel uncomfortable? Heard Chris Cornell\u0027s record? Jesus.\r\n\r\nPois bem, da\u00ed me lembrei do disco solo novo do Scott Weiland, *\u0022Happy\u0022 in Galoshes*, que eu achei bem bacana. Li algumas resenhas por a\u00ed, para ver se achava alguma impress\u00e3o compat\u00edvel com a minha, mas a maioria taxa o disco apenas como mediano. Normal, minhas opini\u00f5es costumam mesmo n\u00e3o bater com as das \u0022publica\u00e7\u00f5es especializadas\u0022, salvo casos extremos, as coisas inequivocadamente muito boas ou muito ruins.\r\n\r\nVoltando ao disco do ex-frontman do Soundgarden, minha opini\u00e3o parece ser [um desses casos de exce\u00e7\u00e3o](http:\/\/stereogum.com\/archives\/video\/chris-cornell-timbaland-salad_058321.html). Infelizmente, falamos do extremo l\u00e1 de baixo, t\u00e3o baixo que acho at\u00e9 que sai do espectro da m\u00fasica que me diz respeito. E olha que esse  espectro \u00e9 bem largo, cabe muita coisa diversa. Bom, as compara\u00e7\u00f5es frequentes que leio por a\u00ed com Justin Timberlake devem fazer sentido --- n\u00e3o conhe\u00e7o a m\u00fasica do cara, mas sei que na sua turma est\u00e3o Britney Spears, Back Street Boys e assemelhados. Portanto, eu nem deveria opinar, afinal, \u00e9 m\u00fasica que n\u00e3o me interessa e eu n\u00e3o entendo nada. Mas, porra, eu n\u00e3o me contenho: que disco horr\u00edvel e constrangedor esse *Scream*. Consegui ouvir duas vezes, e isso certamente faz de mim alguma esp\u00e9cie de her\u00f3i da toler\u00e2ncia e do zen-budismo.\r\n\r\nJ\u00e1 o Scott Weiland, \u00e9 engra\u00e7ado como ele tem uma carreira similar \u00e0 do Chris Cornell: ambos frontmans de bandas \u00edcones dos anos 90, ambos com uma experi\u00eancia solo n\u00e3o muito bem assimilada pelos f\u00e3s de suas bandas originais (Chris com o *Euphoria Morning* e Scott com o *12 Bar Blues*), depois ambos embarcando em projetos com algum apelo comercial mas no geral mal-sucedidos (Audioslave e Velvet Revolver), e por fim, voltando \u00e0s suas carreiras solos. Mas as semelhan\u00e7as param por a\u00ed, pois o disco solo do Scott \u00e9 bem massa. Enquanto que o Chris Cornell, depois do in\u00f3cuo *Carry On*, agora lan\u00e7ou este *Scream* que... bem, voc\u00ea j\u00e1 sabe.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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E lembro do Vicente falando muito bem dos caras, que eram super-camaradas e tal, conversaram um tempinho, o Vicente at\u00e9 andou saindo depois com uma das mo\u00e7as da banda... brincadeirinha, ele tava at\u00e9 com a dign\u00edssima dele na ocasi\u00e3o.\r\n\r\nMas ent\u00e3o, das duas, uma: ou os canadenses mudaram bastante, ou o Wayne Coyne \u00e9 um cretino.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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De fato, \u00e9 bem f\u00e1cil confundir a opini\u00e3o do cara com uma inveja mal disfar\u00e7ada para com o sucesso do Radiohead.\r\n\r\nDa\u00ed o Robert Smith foi l\u00e1 e publicou uma [nova opini\u00e3o no blog do Cure](http:\/\/thecure.com\/blog\/default.aspx?nid=20628), rebatendo os insultos que recebeu e refor\u00e7ando seu ponto principal, algo do tipo \u0022dar m\u00fasica de gra\u00e7a \u00e9 besteira pois como ir\u00e3o sobreviver os artistas?\u0022. Ele tamb\u00e9m tentou livrar o Radiohead, deixando claro que seus conterr\u00e2neos foram apenas um exemplo que ele escolheu. Mas ao longo do texto rola uma indireta ao Radiohead, sugerindo que eles s\u00f3 puderam fazer o que fizeram com o *In Rainbows* pois possuem uma grande base de f\u00e3s (oras!) e um grande est\u00fadio por tr\u00e1s (aqui posso estar errado, mas o Radiohead j\u00e1 n\u00e3o tem um grande est\u00fadio por tr\u00e1s --- a vers\u00e3o f\u00edsica de *In Rainbows* saiu na Inglaterra pela XL Recordings, um selo independente), e que tudo n\u00e3o passa de golpe de marketing. Bom, isso tudo \u00e9 minha interpreta\u00e7\u00e3o, o post est\u00e1 todo em letras mai\u00fasculas, cheio de erros de digita\u00e7\u00e3o e ironias, e meu ingl\u00eas n\u00e3o \u00e9 nenhuma maravilha, mas me parece que o teor \u00e9 mais ou menos esse.\r\n\r\nEnt\u00e3o, um pitaco meu sobre a quest\u00e3o. Primeiro, \u00e9 l\u00f3gico que a coisa n\u00e3o aponta para isso, para um mundo onde artistas n\u00e3o poder\u00e3o cobrar por seu trabalho. Ningu\u00e9m sugeriu isso, e se o Robert (por quest\u00f5es de conveni\u00eancia, vamos trat\u00e1-lo assim mais intimamente) entendeu dessa forma o que fez o Radiohead, ent\u00e3o d\u00e9cadas de gel no cabelo come\u00e7am a cobrar seu pre\u00e7o, pois ele entendeu bem errado. Artistas t\u00eam que ganhar dinheiro, assim como quaisquer outros trabalhadores. O cara sendo um artista somente, a forma de se atingir esse objetivo \u00e9 comercializando a sua arte e n\u00e3o h\u00e1 nada de errado com isso. Pelo menos enquanto vivermos num [sistema capitalista](http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Capitalismo), assim ser\u00e1. \r\n\r\nAt\u00e9 a\u00ed tudo bem, poderia ser um mero problema de m\u00e1-compreens\u00e3o, mas no desenvolvimento de suas id\u00e9ias, Robert come\u00e7a a dizer bobagens. Algo o faz se achar no direito de julgar como cada banda deve ser recompensada pelo seu trabalho --- e eu lhe diria: meu maquiado amigo, nem ter gravado *Disintengration* e *Pornography* te d\u00e1 esse poder. O cara que j\u00e1 foi at\u00e9 [her\u00f3i num South Park](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Mecha-Streisand), aparentemente, acha que o artista deve etiquetar um pre\u00e7o em tudo que cria, e ao n\u00e3o fazer isso, n\u00e3o pode ser chamado de artista. \u00c9, o que define um artista como tal, para ele, \u00e9 a compet\u00eancia em se colocar pre\u00e7o. A arte, e a forma como se faz cheg\u00e1-la ao p\u00fablico, isso deve ser uma quest\u00e3o menor. \r\n\r\nAs perguntas \u00f3bvias: uma banda que j\u00e1 tem um s\u00e9quito de f\u00e3s grande e fiel o suficiente, se achar justo que um aspecto de seu trabalho --- no caso, a m\u00fasica gravada em est\u00fadio --- chegue sem custos aos f\u00e3s --- ou melhor dizendo, com o custo que estes acharem justo --- e que seus rendimentos venham de outras frentes, \u00e9 menos artista ent\u00e3o? Por que um esquema r\u00edgido, cujo funcionamento cl\u00e1ssico teve como uma de suas consequ\u00eancias o surgimento destes imp\u00e9rios e conglomerados de \u0022entretenimento\u0022, deve ser seguido \u00e0 risca por todos?\r\n\r\nO ponto \u00e9, o Radiohead chegou num est\u00e1gio que pode fazer isso, pode escolher como comercializar sua arte, pode eventualmente abrir m\u00e3o de milh\u00f5es para fazer uma parte de seu trabalho chegar mais longe e mais f\u00e1cil \u00e0s m\u00e3os de quem os apoiou por tanto tempo --- e certamente, paralelo a isso, perder muito dinheiro n\u00e3o \u00e9 algo que a banda queira. No fim das contas, eles s\u00f3 devem satisfa\u00e7\u00e3o aos seus f\u00e3s, e tenho certeza que estes aprovaram o que a banda fez e deram seu suporte para que o esquema seja sustent\u00e1vel. Uma quest\u00e3o de confian\u00e7a, sendo meio idealista. Afinal, mesmo no modelo tradicional, dar pre\u00e7o n\u00e3o cabe ao artista, mas aos selos e gravadoras --- e ser\u00e1 que n\u00f3s n\u00e3o somos ainda mais indicados para esta tarefa?\r\n\r\nMas eu n\u00e3o vi eles (Radiohead) em nenhum momento dizendo que todos devem fazer igual. E \u00e9 \u00f3bvio que 99% das bandas ou artistas n\u00e3o podem fazer algo igual. Estes devem achar o melhor esquema para si, coisa que depende de v\u00e1rias circunst\u00e2ncias. Podem vender sua m\u00fasica de forma independente num site com pre\u00e7o fixo ou vari\u00e1vel, vender sua m\u00fasica por meio de um intermedi\u00e1rio (est\u00fadio ou selo, pequeno, m\u00e9dio ou grande), vender sua m\u00fasica do jeito que for por um pre\u00e7o m\u00f3dico ou alto, distribuir sua m\u00fasica de gra\u00e7a e cobrar somente por outros produtos (v\u00eddeos, shows, edi\u00e7\u00f5es especiais de seus discos), enfim, qualquer coisa \u00e9 v\u00e1lida. Afinal, quem vai dizer se a coisa est\u00e1 justa ou n\u00e3o somos n\u00f3s, consumidores.\r\n\r\nSe o Robert Smith acha justo que seus discos sejam [vendidos no Brasil por 30,00 reais](http:\/\/www.livrariasaraiva.com.br\/produto\/produto.dll\/detalhe?pro_id=2609042\u0026PAC_ID=25387), tudo bem, est\u00e1 em seu direito. \u00c0 essa altura, ele nem deve se importar com o fato de que no Brasil e em muitos outros pa\u00edses, muita gente n\u00e3o pode comprar um disco por esse valor, sem complicar demais seu or\u00e7amento mensal. E, alheio a isso, criticar quem inova, quem busca alternativas diferentes neste ambiente que mudou bastante com o advento da internet, \u00e9 dar mostras de ter parado no tempo. Coisa da qual, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil de acusar o Cure.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Newman tocando Take On Me, do A-Ha](http:\/\/www.zshare.net\/download\/55230375ea207088\/). Esse ficou muito bom, s\u00e9rio mesmo. Quero dizer, talvez eu seja suspeito para dizer, porque eu, devo confessar uma bizarrice, eu, bem, eu gosto do A-Ha. Por fim, [Elbow tocando Running To Stand Still, do U2](http:\/\/eldurogismusic.files.wordpress.com\/2009\/01\/running-to-stand-still.mp3). Essa ficou meia-boca. \r\n\r\nAs duas primeiras est\u00e3o numa colet\u00e2nea chamada *Sweetheart*, lan\u00e7ada pela Starbucks (\u00e9, a rede de caf\u00e9s americana, eles tamb\u00e9m [lan\u00e7am uns discos](http:\/\/www.amazon.com\/Sonic-Youth-Hits-Are-Squares\/dp\/B001CF3BCG)). E a do Elbow estar\u00e1 na colet\u00e2nea *War Child: Heroes Vol. 1.*, que ser\u00e1 lan\u00e7ada no m\u00eas que vem nos EUA e no Reino Unido.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Em *Imperial Distortion*, entretanto, Drumm d\u00e1 um tempo aos tanques de guerra e batalhas de Atari para recolher-se em seis temas de puro drone, densos, pseudo-pac\u00edficos e cheios de pequenos detalhes que se revelam ao passar das audi\u00e7\u00f5es. Quem aprecia o estilo sabe que determinados discos apenas chegam l\u00e1, encontram o ponto certo onde o clima justifica tudo, os primeiros minutos s\u00e3o suficientes para embalar o ouvinte at\u00e9 o final. *Imperial Distortion* \u00e9 um desses, vai ver por isso, mesmo duplo, j\u00e1 esgotou e vai para sua segunda fornada.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"discogs.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":81,"title":"Vinhetas e faixas instrumentais","post_timestamp":"2009-02-03T19:37:31+00:00","url":"2009_02_03_vinhetas_e_faixas_instrumentais","post":"Uma coisa que eu admiro \u00e9 uma banda que tem l\u00e1 o seu vocalista, e que sabe encaixar uma m\u00fasica instrumental num \u00e1lbum. Seja uma m\u00fasica mesmo, ou uma vinhetazinha. Tem que ter o dom para a coisa funcionar bem. Vejo duas compet\u00eancias envolvidas nisso: a primeira e \u00f3bvia, criar uma boa m\u00fasica, e a segunda, n\u00e3o obrigatoriamente necess\u00e1ria, mas que pode tornar a coisa realmente especial, encaix\u00e1-la no momento certo, no contexto certo. Claro, isso exige que haja um contexto. N\u00e3o havendo, uma m\u00fasica instrumental simplesmente boa vai bem tamb\u00e9m. Mas costuma me chamar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a ocorr\u00eancia dessa segunda possibilidade a\u00ed. Como \u00e9 o caso de uma das minhas preferidas, a *Mellon Collie and the Infinite Sadness*, que abre o \u00e1lbum de mesmo nome do Pumpkins. Ela pega o ouvinte meio de surpresa com a coisa do piano, da melodia tristonha. Desarma o esp\u00edrito, cria a expectativa\/curiosidade para a jornada de m\u00fasica que vem a seguir, e da\u00ed a experi\u00eancia \u00e9 mais recompensadora (porque a jornada de m\u00fasica que vem a seguir \u00e9 fant\u00e1stica, como todos sabem). Ent\u00e3o, outras que me ocorrem agora:\r\n\r\n* *Embryo* e *Orchid*, do disco *Masters of Reality* do Black Sabbath: \u00c9 o meu disco preferido do Sabbath, uma das bandas precursoras na m\u00fasica do mal, temas demon\u00edacos e outras bobagens divertidas. E aqui eles abusam e metem duas instrumentais: a primeira, *Embryo*, mais simplezinha, mas que faz uma ponte enigm\u00e1tica e sinistra entre dois cl\u00e1ssicos-monstros, *After Forever* e *Children of the Grave*. E depois ainda rola *Orchid*, uma instrumental ac\u00fastica bem bonita, que torna o clim\u00e3o m\u00edstico do \u00e1lbum ainda mais legal.\r\n\r\n* *Blues for D*, do disco *Field Songs* do Mark Lanegan: Essa se destaca mais por ser uma m\u00fasica muito bonita, individualmente. Meio et\u00e9rea, pouco definida, parece que fica flutuando e sugerindo que h\u00e1 segredos escondidos em certas m\u00fasicas, em certas camadas de som, mesmo que n\u00e3o haja ningu\u00e9m l\u00e1 verbalizando-os.\r\n\r\n* *Kaiowas*, do disco *Chaos AD* do Sepultura: Uma das coisas que n\u00f3s brasileiros podemos nos orgulhar \u00e9 de termos dado ao mundo uma das mais espetaculares bandas de m\u00fasica pesadona, o Sepultura. N\u00e3o me canso de ouvir ainda hoje o *Roots*, obra-prima fod\u00edssima dos caras. A jun\u00e7\u00e3o de sons que eles criaram nesse disco \u00e9 das coisas mais memor\u00e1veis na hist\u00f3ria da m\u00fasica, sem exageros. Mas no disco anterior, o tamb\u00e9m \u00f3timo *Chaos AD*, aparece uma primeira experi\u00eancia com essa fus\u00e3o na lind\u00edssima *Kaiowas*, instrumental ac\u00fastica de batida tribal e viola brasileir\u00edssima. Funciona perfeita no meio dos berros e guitarras insanas, e talvez tenha inspirado a banda a ir ainda mais fundo nas experimenta\u00e7\u00f5es, num caminho que gerou ent\u00e3o o *Roots*.\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/larahPkCwcE\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/larahPkCwcE\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\n* *An Ending* do Brian Eno: Essa \u00e9 uma instrumental de um cara que comp\u00f5e basicamente m\u00fasica instrumental, mas vou citar aqui pois ela, pelo menos em uma ocasi\u00e3o conhecida por mim, foi utilizada pelo Pearl Jam como abertura de seus shows. D\u00e1 de ouvir isso no [bootleg Live In Atlanta, de 1994](http:\/\/troubledsoulsunite.blogspot.com\/2008\/09\/pearl-jam-live-in-atlanta-4-3-94.html), para mim a melhor grava\u00e7\u00e3o de um show do Pearl Jam que h\u00e1. A m\u00fasica rola como abertura, com a banda entrando, os aplausos alucinados, e logo as primeiras notas de *Release* come\u00e7am. Pode parecer absurdo, mas d\u00e1 de sentir a m\u00e1gica do momento, s\u00f3 em ouvir a MP3. *An Ending* aparece ainda na trilha sonora do filme Exterm\u00ednio, e na obra do Brian Eno, pode ser encontrada no \u00e1lbum *Apollo: Atmospheres \u0026 Soundtracks*. \u00c9 bonita al\u00e9m das palavras.\r\n\r\n* *Up The Beach*, do disco *Nothing\u0027s Shocking* do Jane\u0027s Addiction: Tamb\u00e9m faixa de abertura, outra que entra por conta de ser bel\u00edssima individualmente. Bom, na verdade penso muito mais dessa m\u00fasica, \u00e9 uma das minhas preferidas, num universo particular, entrela\u00e7ada em lembran\u00e7as pessoais, coisa e tal. Ent\u00e3o nem vou me estender, apenas dar a dica de que a vers\u00e3o ao vivo que aparece na colet\u00e2nea *Kettle Whistle* \u00e9 definitiva, de arrancar l\u00e1grimas.\r\n\r\n* *Belong* e *Endgame*, do disco *Out of Time* do R.E.M.: Essas nem s\u00e3o de todo instrumentais, t\u00eam l\u00e1 uns \u00f4\u00f4\u00f4-\u00f4\u00f4\u00f4-\u00f4\u00f4\u00f4s e l\u00e1-l\u00e1-l\u00e1s e uma esp\u00e9cie de narrativa por baixo de *Belong*. Mas ambas t\u00eam o efeito de instrumentais, e num disco onde meio tracklist \u00e9 formado por can\u00e7\u00f5es de alt\u00edssima inspira\u00e7\u00e3o, umas pausas para expirar s\u00e3o bem-vindas. Ambas s\u00e3o bonitinhas, nada de especial, mas cumprem bem esse papel.\r\n\r\nQuem tiver alguma outra boa lembran\u00e7a, comenta a\u00ed!","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":79,"title":"Nova m\u00fasica do Smashing Pumpkins para download","post_timestamp":"2009-02-02T19:52:51+00:00","url":"2009_02_02_nova_musica_do_smashing_pumpkins_para_download","post":"[Aqui](http:\/\/download.hyundaigenesis.com\/RegistrationPage.aspx?downloadfilename=billy.mp3). Feita sob encomenda para um comercial da Hyundai nos EUA, pelo o que eu entendi. E bem fraquinha, pelo o que eu ouvi.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Investiguei e descobri que Kurihara \u00e9 figurinha carimbada do rock japon\u00eas. Prestou servi\u00e7os a bandas como Ghost, White Heaven e Stars. Sua m\u00e3o est\u00e1 em discos de Damon \u0026 Naomi e Ai Aso. Enfim, \u00e9 trabalho suficiente para se admirar.\r\n\r\nFinalmente recorri a seu \u00fanico disco solo, *Sunset Notes*. Por mais que eu esperasse muito, o que escutei superou as expectativas. Kurihara \u00e9 um apaixonado por timbres agudos, t\u00edpicos da psicodelia japonesa. Entretanto, ao inv\u00e9s de enveredar por longas viagens como fazem, por exemplo, um Acid Mothers Temple, ele prefere circundar algumas belas melodias, explorando-nas ao m\u00e1ximo. O resultado \u00e9 quase na praia do indie, ainda mais quando ele alivia o ritmo do disco em \u0022Wind Waltzes\u0022 e \u0022The Wind\u0027s Twelve Quarters\u0022 (com os doces vocais de Ai Aso). Um disco para escutar de cabo a rabo.\r\n\r\nFicou f\u00e1cil de encontrar o \u0022culpado\u0022 pela sonoridade do *Rainbow*.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"20-20-20.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":74,"title":"Uns caras tocando Fake Plastic Trees","post_timestamp":"2009-01-20T18:56:29+00:00","url":"2009_01_20_uns_caras_tocando_fake_plastic_trees","post":"No palco do v\u00eddeo abaixo est\u00e3o Jeff Tweedy e John Stirratt (Wilco), Ed O\u0027Brien e Phil Selway (Radiohead), Johnny Marr (Modest Mouse, ex-Smiths) e Liam Finn (filho de Neil Finn). \r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/8aBgJrtfyQs\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/8aBgJrtfyQs\u0026color1=0xb1b1b1\u0026color2=0xcfcfcf\u0026hl=en\u0026feature=player_embedded\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Pudera, o disco \u00e9 orientado para crian\u00e7as. E desconfio tamb\u00e9m que a essa altura eles j\u00e1 extrapolaram quaisquer r\u00f3tulos, eles fazem simplesmente m\u00fasica. E esse \u00e9 um disco de m\u00fasica fabuloso, para crian\u00e7as, jovens, velhos e tamb\u00e9m recomendado para moribundos, que queiram sentir um \u00faltimo e estimulante sopro de vida. \r\n\r\nSigur R\u00f3s - *Med Sud I Eyrum Vid Spilum Endalaust*: Sempre achei o Sigur R\u00f3s meio superestimado, mas resolvi dar uma chance ao novo disco deles quando descobri que eles estavam escalados para um festival que eu fui assistir. E o disco foi me ganhando aos poucos, cada audi\u00e7\u00e3o, calorasamente, convidando para a pr\u00f3xima... o show foi lindo e o \u00e1lbum, bom, est\u00e1 aqui entre os preferidos do ano. \r\n\r\nNick Cave - *Dig!!! Lazarus Dig!!!*: Mr. Cave, em forma exuberante, \u00e9 o respons\u00e1vel pelo meu disco preferido do ano. At\u00e9 com certa folga, se for ver que l\u00e1 em mar\u00e7o, quando ele foi lan\u00e7ado, eu j\u00e1 desconfiava que nada que eu fosse ouvir no resto do ano seria melhor do este disca\u00e7o.\r\n\r\nNo Age - *Nouns*: Dois caras, guitarra, bateria, voz, e garra transpirando por cada poro da dupla. Uma avalanche de m\u00fasicas curtas e alucinantes, entre elas a perfeita *Sleeper Hold*, que lideraria uma hipot\u00e9tica listinha de m\u00fasicas preferidas do ano.\r\n \r\nBonnie \u0027Prince\u0027 Billy - *Lie Down in the Light*: Bonnie \u0027Prince\u0027 Billy \u00e9 destes artistas admir\u00e1veis que fazem muito partindo de pouco: voz, palmas, violinos desafinados, viol\u00e3o, melodias campestres aqui, alguma melancolia ali. Este *Lie Down in the Light* \u00e9 uma das tantas obras de Billy que equilibra com mais perfei\u00e7\u00e3o estes elementos. A faixa de abertura do \u00e1lbum, *Easy Does It*, \u00e9 de uma pureza e alegria emocionantes, sozinha j\u00e1 bastaria para eu incluir este disco aqui.\r\n\r\nNeil Young - *Sugar Mountain: Live At Canterbury House 1968*: Esse entrou aqui na lista aos 45 do segundo tempo. Me amarrei na fidelidade da grava\u00e7\u00e3o, nas falas de Neil Young entre as m\u00fasicas, que me revelaram at\u00e9 uma ou duas coisas sobre a personalidade de Young que eu n\u00e3o fazia id\u00e9ia, j\u00e1 que o cara hoje \u00e9 meio arredio, n\u00e3o muito afeito a entrevistas ou apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. E a m\u00fasica, \u00e9 claro, \u00e9 \u00f3tima, somente Neil e seu viol\u00e3o, dupla mais do que suficiente para arte das grandes.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Feita por Fabricio Boppr\u00e9 a partir das capas dos discos","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":59,"title":"[V.M] Melhores de 2008 9+1\/9+1","post_timestamp":"2008-12-18T23:38:53+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_9_1_9_1","post":"*THE GOSLINGS : \u201cOccasion\u201d* [Not Not Fun]\r\n\r\nO casal Max e Leslie deixou escapar do LAEGD (Laborat\u00f3rio Anal\u00f3gico de Empilhamento de Guitarras Distorcidas) mais uma por\u00e7\u00e3o de faixas meticulosamente trabalhadas e subvertidas. Sem fugir muito do caos estabelecido em *Grandeur Of Hair*, o disco anterior, o Goslings n\u00e3o d\u00e1 bola \u00e0s compara\u00e7\u00f5es infundadas que recebe com o My Bloody Valentine, fazendo de *Occasion* mais uma ode \u00e0s trilhas de guitarras e ru\u00eddos sobrepostas em diversas faixas de fitas anal\u00f3gicas. Embora r\u00edspido para os ouvidos, fica a sensa\u00e7\u00e3o que tudo que acontece est\u00e1 sob controle milim\u00e9trico, desde os ritmos f\u00fanebres at\u00e9 os vocais reprocessados, resultando numa lama sonora quase impenetr\u00e1vel.\r\n","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"notnotfun.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":58,"title":"[V.M] Melhores de 2008 9\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:22:09+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_9_9","post":"*ELEH : \u201cFloating Frequencies \/ Intuitive Synthesis Volume 3\u201d* [Important]\r\n\r\n\u00c9 preciso uma certa cara-de-pau para lan\u00e7ar discos como o Eleh faz, assim como \u00e9 preciso uma dose ainda maior dessa mesma cara-de-pau para escutar uma grava\u00e7\u00e3o dele (o que dizer de indicar um disco dele para uma lista de melhores?). Na verdade, o Eleh sugere que seus discos sejam escutados com os ouvidos posicionados na mesma altura dos alto-falantes, a 2,13 metros de dist\u00e2ncia. Mas e n\u00e3o \u00e9 que funciona?","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"importantrecords.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":57,"title":"[V.M] Melhores de 2008 8\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:21:10+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_8_9","post":"*SUNN O))) : \u201cD\u00f8mkirke\u201d* [Southern Lord]\r\n\r\nEmbora grava\u00e7\u00f5es ao vivo n\u00e3o devam competir com discos de est\u00fadio em listas, o Sunn O))) costuma transformar suas apresenta\u00e7\u00f5es em eventos \u00fanicos, sem setlists e abertos ao improviso. *D\u00f8mkirke* foi gravado em uma catedral secular da Noruega, pa\u00eds que nos anos 90 testemunhou inc\u00eandios de igrejas provocados por seguidores do g\u00eanero black metal. A dupla n\u00e3o perdeu a oportunidade de explorar a dicotomia entre o ambiente sagrado do templo e a natureza pag\u00e3 de suas guitarras ultra distorcidas, apresentando quatro diferentes facetas sonoras que o momento permitiu explorar. Partindo dos vocais gregorianos de Attila Csihar conduzidos pelo velho \u00f3rg\u00e3o da igreja, o grupo passa pelas tradicionais toneladas de guitarras at\u00e9 chegar ao cume de distor\u00e7\u00e3o e ru\u00eddos eletr\u00f4nicos. Um registro amplo que exemplifica o quanto a dupla conseguiu desenvolver seu som a partir da proposta descompromissada de prestar tributo ao Earth.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"southernlord.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":56,"title":"[V.M] Melhores de 2008 7\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:20:15+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_7_9","post":"*GRAVETEMPLE : \u201cAmbient \/ Ruin demo\u201d* [independente]\r\n\r\nCD-R do projeto que re\u00fane Attila Csihar (Mayhem), Oren Ambarchi, Matt Sanders (Damaged) e Stephen O\u2019Malley (Sunn) numa s\u00e9rie de grava\u00e7\u00f5es que dificilmente se transformar\u00e3o em um LP como seria de se esperar. Ao contr\u00e1rio do primeiro registro, um show em Israel vitimado pelo improviso, esta demo surpreende pela concis\u00e3o dos resultados, com faixas bem compostas e muito confort\u00e1veis quanto \u00e0 falta de compromisso do trabalho. Predomina a diversidade de sonoridades e texturas, com o bando atirando contra muitos alvos, mas com um bom ratio de pontaria. Ambient, climas, bacias de \u00e1gua transbordando, vocais fantasmag\u00f3ricos e at\u00e9 black metal.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"wearetherobots.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":55,"title":"[V.M] Melhores de 2008 6\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:18:39+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_6_9","post":"*EXPO 70 : \u201cBlack Ohms\u201d* [Beta-Lactam Ring]\r\n\r\nDevidamente indicado na se\u00e7\u00e3o \u201cVitrola\u201d, *Black Ohms* \u00e9 o ponto alto do trabalho de Justin Wright, um m\u00fasico obcecado por climas e ambi\u00eancias. Seus longos exerc\u00edcios de explora\u00e7\u00e3o de tons e busca de atmosferas s\u00e3o levados \u00e0 melhor combina\u00e7\u00e3o neste \u00e1lbum, permanecendo interessantes durante toda a extens\u00e3o do mesmo. O disco privilegia a tradicional impon\u00eancia de amplificadores valvulados provocados por guitarras distorcidas, gerando ondas sonoras que, no volume adequado, seq\u00fcestram o ambiente. Com alguns toques de pianos e sintetizadores, Wright chega com muita propriedade em sua melhor combina\u00e7\u00e3o sonora, sobressaindo-se no universo sonoro que compartilha com outros compositores.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Beta-Lactam Ring Records","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":54,"title":"[V.M] Melhores de 2008 5\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:17:31+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_5_9","post":"*BORIS : \u201cSmile\u201d* [Diwphalanx \/ Southern Lord]\r\n\r\nO Boris saiu das garras dos independentes para aos poucos abrir turn\u00eas de gente como Nine Inch Nails. Para tanto, sacrificou o comprometimento com o stoner e o drone, ampliando seu som ao encontro de modelagens mais assimil\u00e1veis. *Smile* foi contestado por esse motivo, embora seja um disco ao mesmo tempo acess\u00edvel e destruidor. \u00c9 interessante observar que embora o disco represente essas concess\u00f5es, h\u00e1 uma grande dose de inacessibilidade que caracteriza a banda, seja pelo idioma japon\u00eas, pelas melodias ainda intrincadas ou mesmo pelo peso absurdo que as guitarras e os amplificadores Orange produzem nos ouvidos alheios. Ampliar uma base de ouvintes geralmente implica no pagamento de um pre\u00e7o, mas no caso do Boris, o custo foi uma pechincha.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"Inoxia Records","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":53,"title":"[V.M] Melhores de 2008 4\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:15:58+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_4_9","post":"*STEBMO : \u201cStebmo\u201d* [independente]\r\n\r\nSteve Moore \u00e9 daqueles coadjuvantes que aos poucos se transforma em uma valiosa for\u00e7a propulsora nos projetos em que participa. Seja conduzindo \u00f3rg\u00e3os e trumpetes no Earth e no Sunn O))) ou ornamentando discos de gente como Jesse Sykes, sua contribui\u00e7\u00e3o costuma desobedecer a lideran\u00e7a de outros membros, deixando toques inconfund\u00edveis nas grava\u00e7\u00f5es em que participa. Em seu primeiro disco solo, desprendeu-se dos formatos com que costuma trabalhar, optando pelo flerte com o jazz e o freestyle. Com pianos, \u00f3rg\u00e3os, bandolins e instrumentos de sopro, abriu um grande esquema de possibilidades de ritmos e melodias, estas ricas e inspiradas, fazendo de *Stebmo* um disco preciso e conciso que reafirma o talento do compositor.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"stebmo.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":52,"title":"[V.M] Melhores de 2008 3\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:14:15+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_3_9","post":"*BONES OF SEABIRDS\t : \u201cSacrament\u201d* [Small Doses]\r\n\r\nMais um projeto-de-um-homem-s\u00f3, Bones Of Seabirds \u00e9 um trabalho de Ryan McGill, influenciado por toda essa leva de bandas que exploram amplificadores, guitarras distorcidas e ru\u00eddos indefinidos. Ryan sabe usar muito bem suas influ\u00eancias, ao ponto de ignorar sua condi\u00e7\u00e3o de iniciante e transcender a sombra dos que consagraram o estilo. Empunhado de uma guitarra vigorosa, deixa a mesma ecoar ininterruptamente em resson\u00e2ncia com as ondas sonoras de seu amplificador, criando uma atmosfera bruta e vigorosa, dif\u00edcil de presumir que tal constru\u00e7\u00e3o provavelmente venha de um simples PC localizado num dormit\u00f3rio. Quando brinca com equipamentos eletr\u00f4nicos anal\u00f3gicos, invade conceitos do noise, sem esquecer o comprometimento com as intermin\u00e1veis ondas sonoras. Sangue novo com id\u00e9ias novas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"small-doses.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":51,"title":"[V.M] Melhores de 2008 2\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:12:39+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_2_9","post":"*BLACK BONED ANGEL : \u201cThe Endless Coming Into Life\u201d* [20 Buck Spin]\r\n\r\nEmbora o som do Black Boned Angel debruce-se sobre uma f\u00f3rmula um tanto desgastada nos anos mais recentes, trata-se do melhor dos projetos comandados pelo neozeland\u00eas Campbell Kneale. Figurinha incontest\u00e1vel no meio noise, ele criou em \u201cThe Endless Coming Into Life\u201d mais uma obra de climas sombrios e peso opressor, mesclando mantras religiosos com suas guitarras absurdamente distorcidas e saturadas. Enquanto muitos m\u00fasicos dessa d\u00e9cada se esfor\u00e7am para encontrar o epicentro da mistura entre peso e clima, Cambell faz isso com naturalidade, sem cansar o ouvinte, deixando a massa sonora desencadear ao ponto de se querer que aquela hecatombe n\u00e3o termine mais.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"20buckspin.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":50,"title":"[V.M] Melhores de 2008 1\/9","post_timestamp":"2008-12-18T21:10:39+00:00","url":"2008_12_18_v_m_melhores_de_2008_1_9","post":"Foram muitos discos, a exemplo do que vem acontecendo a cada nova lista que organizamos. Imposs\u00edvel lembrar de todos, mais imposs\u00edvel ainda escutar todos os outros que tamb\u00e9m interessam mas que ficar\u00e3o para 2009. A lista foi ent\u00e3o selecionada com os que mais marcaram os ouvidos e teimaram em abandonar o meu CD\/LP\/K7 player, deixando muita coisa boa de fora. E 2008 foi o primeiro ano em que n\u00e3o escutei\/comprei nenhum disco major, quem diria, as velhas gravadoras perderam mais um velho cliente.\r\n\r\n*EARTH : \u201cThe Bees Made Honey In The Lion\u2019s Skull\u201d* [Southern Lord]\r\n\r\nDylan Carlson entrega mais um cap\u00edtulo da saga sangrenta pelo oeste norte-americano, dessa vez com ares mais contemplativos, como os de quem tenta entender o sentido das vidas ceifadas e parte em busca de reden\u00e7\u00e3o. Para tanto, o Earth balanceou os instrumentos, dando grande espa\u00e7o aos \u00f3rg\u00e3os e pianos, aparando o protagonismo das guitarras. Embora ainda seja n\u00edtido o interesse pela repeti\u00e7\u00e3o e pelo ritmo arrastado, *The Bees...* encontra um formato mais \u00e1gil e assimil\u00e1vel, um tanto surpreendente para quem busca a banda pelo seu pioneirismo no g\u00eanero drone. O resultado gospel (roubando o termo do release da Southern Lord) \u00e9 surpreendente, quase ensolarado, uma evolu\u00e7\u00e3o natural perfeitamente contextualizada frente \u00e0 rispidez dos discos anteriores.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"southernlord.com","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":49,"title":"Elbow: Cast of Thousands","post_timestamp":"2008-12-15T14:01:32+00:00","url":"2008_12_15_elbow_cast_of_thousands","post":"O disco \u00e9 de 2003, n\u00e3o \u00e9 novidade, talvez todo mundo j\u00e1 tenha escutado. Mas quem n\u00e3o o fez ainda, \u00e9 s\u00f3 ir atr\u00e1s deste *Cast Of Thousands*, do Elbow, para passar um natal verdadeiramente feliz. Ou\u00e7o-o desde que foi lan\u00e7ado, mas de tempos em tempos me acomete uma esp\u00e9cie de obsess\u00e3o e ele passa ent\u00e3o a tocar aqui diariamente. T\u00f4 numa fase dessas agora.\r\n\r\nO disco \u00e9 excepcional e tem que ouvir e pronto, mas o que me fascina \u00e9 que em v\u00e1rias passagens voc\u00ea ouve m\u00fasica simplesmente, irrotul\u00e1vel. Melodias de primeir\u00edssima grandeza, execu\u00e7\u00f5es simples e pungentes. O tipo de coisa que faz compensar estar vivo, e n\u00e3o \u00e9 preciso dizer mais do que isso. \r\n\r\nO v\u00eddeo que vai a\u00ed embaixo \u00e9 para a perfeita *Switching Off*, cuja letra vale a pena ler e interpretar:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/eLj9senIroM\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/eLj9senIroM\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":44,"title":"Hits detest\u00e1veis","post_timestamp":"2008-12-10T18:11:20+00:00","url":"2008_12_10_hits_detestaveis","post":"\u00c9 engra\u00e7ado, eu tenho essa implic\u00e2ncia com alguns dos maiores hits de algumas de minhas bandas preferidas. N\u00e3o todos, l\u00f3gico, nem \u00e9 nada premeditado, simplesmente acontece. Por exemplo, *Love Will Tear Us Apart* \u00e9 um caso cl\u00e1ssico. \u00c9 a m\u00fasica mais famosa deles, todo mundo que gosta de Joy Division deve gostar... mas eu detesto. Aquele tecladinho, o ritmozinho semi-alegre, pra mim n\u00e3o funciona de jeito nenhum, n\u00e3o combina com a voz do Ian Curtis, terr\u00edvel, terr\u00edvel. Outros exemplos:\r\n\r\n* Pearl Jam, *Do The Evolution*: Outro caso emblem\u00e1tico. Quando o Pearl Jam tenta fazer essas rockzinhos menos s\u00e9rios, mais, sei l\u00e1, extrovertidos, ou engra\u00e7adinhos, eu acho que a coisa desanda.\r\n* Doors, *Light My Fire*: Aqueles teclados sempre me provocaram risos, no m\u00e1ximo. Ok, \u00e9 m\u00fasica de outra \u00e9poca. Mas desconfio que mesmo naquela \u00e9poca alguns desajustados como eu devem ter achado-a histericamente sem gra\u00e7a.\r\n* Cure, *The Walk*: Ok, essa \u00e9 uma banda de in\u00fameros hits, e eu gosto da grande maioria, mas esse em particular, *The Walk*, eu peguei pois ressalta um certo padr\u00e3o nesta minha implic\u00e2ncia: eu n\u00e3o gosto de m\u00fasicas alegrinhas.\r\n* Supergrass, *Alright*: no p\u00f3dio das detest\u00e1veis, essa ocupa o lugar mais alto. T\u00e3o detest\u00e1vel que eu s\u00f3 fui dar uma chance ao Supergrass em 2006, e descobri que \u00e9 uma banda bem massa, apesar de *Alright*.\r\n* Clash, *Rock The Casbah*: Clash \u00e9 banda de cabeceira, das mais importantes. Mas essa eu acho ruinzinha, chatinha, totalmente dispens\u00e1vel. Mas virou hit. E \u00e9 alegrinha. Bom, t\u00eam outras alegrinhas no repert\u00f3rio do Clash, que fazem parte da veia ska\/reggae\/dub que a banda tamb\u00e9m desenvolvia, e eu gosto da maioria. Mas *Rock The Casbah*, essa eu n\u00e3o consigo ouvir nem por 20 segundos.\r\n\r\nAcr\u00e9scimos \u00e0 listinha, quem se habilita?\r\n\r\nBom, s\u00f3 para provar que n\u00e3o \u00e9 implic\u00e2ncia minha com o fato de serem m\u00fasicas que fizeram sucesso, tem o Smashing Pumpkins, curto todos os hits da banda, *1979*, *Today*, etc. E o Nirvana, *Come As You Are* \u00e9 das minhas preferidas. S\u00f3 para citar duas bandas de hits universais.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":39,"title":"Isaac Brock (Modest Mouse) + Broken Social Scene","post_timestamp":"2008-12-02T19:30:52+00:00","url":"2008_12_02_isaac_brock_modest_mouse_broken_social_scene","post":"Isaac Brock, vocalista e guitarrista do Modest Mouse, tocando *The World At Large*, do disco *Good News for People Who Love Bad News*, em um show do Broken Social Scene:\r\n\r\n\u003Cembed src=\u0022http:\/\/blip.tv\/play\/Ad2+aJGzag\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 width=\u0022528\u0022 height=\u0022421\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\r\n\r\nAconteceu sexta-feira passada em Toronto. N\u00e3o \u00e9 exatamente a m\u00fasica mais legal, nem o disco mais legal do Modest Mouse, e essa vers\u00e3o soa mais chatinha ainda. Mas faz um tempinho que o Modest Mouse est\u00e1 meio parado, ent\u00e3o essa apari\u00e7\u00e3o surpresa do Isaac Brock at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 de toda m\u00e1. ","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":37,"title":"Showzinho na quarta-feira","post_timestamp":"2008-12-01T18:43:22+00:00","url":"2008_12_01_showzinho_na_quarta_feira","post":"\u00c9 verdade que eu n\u00e3o ligo muito pra Isobel Campbell e estes dois discos que eles gravaram juntos eu acho n\u00e3o mais que bonitinhos. Mas podia ser Mark Lanegan \u0026 Faf\u00e1 de Bel\u00e9m que eu iria ver mesmo assim!\r\n\r\nPS.: post dedicado ao meu [irm\u00e3o mais velho](http:\/\/dyingdays.net\/authors\/view\/alexandre_luzardo), que me apresentou ao trabalho solo do Lanegan (cara, andei pesquisando, nos shows com a Isobel ele costuma cantar umas can\u00e7\u00f5es do *I\u0027ll Take Care Of You*!)","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"c\u00f3pia do meu ingresso!","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":30,"title":"Dica de boa literatura musical","post_timestamp":"2008-11-24T14:50:26+00:00","url":"2008_11_24_dica_de_boa_literatura_musical","post":"Pra quem gosta de ler sobre discos e bandas, o blog [Depredando o Orelh\u00e3o](http:\/\/depredando.blogspot.com\/) \u00e9 \u00f3tima dica. Comandado pelo parceiro [Eduardo Carli](http:\/\/dyingdays.net\/authors\/view\/eduardo_carli_de_moraes), que de vez em quando colabora com a Dying Days com seus \u00f3timos tratados discogr\u00e1ficos (meu preferido \u00e9 [esse](http:\/\/dyingdays.net\/reviews\/view\/a_ghost_is_born_eduardo_carli_de_moraes)), o blog publica textos de uma equipe fixa e de outros colaboradores ocasionais. A exce\u00e7\u00e3o para a alto-n\u00edvel da coisa sou eu, que de vez em quando publico l\u00e1 meus textos confusos e extensos. Mas fora isso, vale a visita! Para quem gosta de botar os ouvidos nas mp3 antes de comprar um disco, \u00e9 tamb\u00e9m \u00f3timo canal de downloads, uma vez que quase todos os posts v\u00eam ilustrado por links para os Mediafires e Rapidshares da vida, que armazenam toneladas de \u00e1lbuns.\r\n\r\nPS1: Os estilos musicais objetos dos textos s\u00e3o mais variados do que o encontrado aqui na DD, l\u00e1 se fala de punk-rock, jazz e dub, sem distin\u00e7\u00f5es!\r\n\r\nPS2: Olho na riqu\u00edssima listinha de recomenda\u00e7\u00f5es de sites sobre m\u00fasica que tem l\u00e1.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Os clipes s\u00e3o fant\u00e1sticos:\r\n\r\n\u003Ca href=\u0022http:\/\/vids.myspace.com\/index.cfm?fuseaction=vids.individual\u0026videoid=46837839\u0022\u003ERadiohead - Weird Fishes - by Tobias Stretch\u003C\/a\u003E\u003Cbr\/\u003E\u003Cobject width=\u0022425px\u0022 height=\u0022360px\u0022 \u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\/\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/mediaservices.myspace.com\/services\/media\/embed.aspx\/m=46837839,t=1,mt=video\u0022\/\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/mediaservices.myspace.com\/services\/media\/embed.aspx\/m=46837839,t=1,mt=video\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022360\u0022 allowFullScreen=\u0022true\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\n\u003Ca href=\u0022http:\/\/vids.myspace.com\/index.cfm?fuseaction=vids.individual\u0026videoid=43774435\u0022\u003ERadiohead - Reckoner - by Clement Picon\u003C\/a\u003E\u003Cbr\/\u003E\u003Cobject width=\u0022425px\u0022 height=\u0022360px\u0022 \u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\/\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/mediaservices.myspace.com\/services\/media\/embed.aspx\/m=43774435,t=1,mt=video\u0022\/\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/mediaservices.myspace.com\/services\/media\/embed.aspx\/m=43774435,t=1,mt=video\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022360\u0022 allowFullScreen=\u0022true\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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A \u00faltima faixa \u00e9 uma instrumental interessante. \r\n\r\nA julgar por *Festival Thyme*, que vem a prenunciar o novo disco que os texanos est\u00e3o preparando, ainda n\u00e3o vai ser dessa vez que o Trail of Dead ir\u00e1 fazer a alegria dos \u00f3rf\u00e3os do *Source Tags \u0026 Codes*. Mas se o LP vier com sua cota de m\u00fasicas inquestion\u00e1veis, t\u00e1 valendo. As outras, vai do n\u00edvel de exig\u00eancia de cada um.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"[On Deaf Ears](http:\/\/ondeafears.com\/2008\/06\/24\/trail-of-dead-in-the-studio-launches-label\/)","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":26,"title":"Billy Corgan \u00e9 a Norma Desmond do rock \u0027n\u0027 roll","post_timestamp":"2008-11-21T11:06:58+00:00","url":"2008_11_21_billy_corgan_e_a_norma_desmond_do_rock_n_roll","post":"Se voc\u00ea \u00e9 ou foi f\u00e3 do Smashing Pumpkins, cuidado com o v\u00eddeo abaixo. \u00c9 constrangedor:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/FgcieNseX8Y\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/FgcieNseX8Y\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\n\r\nAconteceu num show recente pelos EUA, na tour de comemora\u00e7\u00e3o dos 20 anos da banda. Billy Corgan vem perdendo a no\u00e7\u00e3o das coisas. Enlouquecendo publicamente. Me parece mais um destes casos de excesso de talento acompanhado de loucura e egocentrismo sem limites. Pena que a parte que diz respeito ao talento parece ter ficado perdida l\u00e1 pelos anos 90...\r\n\r\nPS: N\u00e3o sabe quem foi Norma Desmond? Leia [aqui](http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Norma_Desmond).","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":25,"title":"Fitter Happier Remix","post_timestamp":"2008-11-20T17:05:27+00:00","url":"2008_11_20_fitter_happier_remix","post":"Mais de uma d\u00e9cada depois do *Ok Computer* ser lan\u00e7ado, eis que eu\r\ntenho acesso a um Mac e posso tentar reproduzir o \u0022canto\u0022 em *Fitter\r\nHappier*. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil! Vamos l\u00e1. (Nota: testado em OS X 10.5.)\r\n\r\nPrimeiro, copie a letra de Fitter Happier abaixo e guarde em um\r\narquivo chamado `fitter_happier.txt`. Depois, abra um Terminal, v\u00e1\r\npara o diret\u00f3rio onde salvou o arquivo, e digite:\r\n\r\n`say -v Fred -f fitter_happier.txt`\r\n\r\nAh-h\u00e1! F\u00e1cil, n\u00e3o disse? Para salvar em um arquivo de \u00e1udio:\r\n\r\n`say -v Fred -f fitter_happier.txt -o fitter_happier.aiff`\r\n\r\nSe voc\u00ea tem linux, instale o espeak e rode:\r\n\r\n`espeak -f fitter_happier.txt -w fitter_happier.wav`\r\n\r\nMas acho que precisa brincar com as modula\u00e7\u00f5es da voz e com o sotaque\r\npara deixar mais parecido com o \u0022Fred\u0022 original.\r\n\r\nAgora, bem, s\u00f3 falta adicionar o seu arranjo instrumental!\r\n\r\n------\r\n\r\n\u003E Fitter. Happier.  \r\n\u003E More productive.  \r\n\u003E Comfortable.  \r\n\u003E Not drinking too much.  \r\n\u003E Regular exercise at the gym (3 days a week).  \r\n\u003E Getting on better with your associate employee contemporaries.  \r\n\u003E At ease.  \r\n\u003E Eating well (no more microwave dinners and saturated fats).  \r\n\u003E A patient better driver.  \r\n\u003E A safer car (baby smiling in back seat).  \r\n\u003E Sleeping well (no bad dreams).  \r\n\u003E No paranoia.  \r\n\u003E Careful to all animals (never washing spiders down the plughole).  \r\n\u003E Keep in contact with old friends (enjoy a drink now and then).  \r\n\u003E Will frequently check credit at (moral) bank (hole in the wall).  \r\n\u003E Favours for favours.  \r\n\u003E Fond but not in love.  \r\n\u003E Charity standing orders.  \r\n\u003E On Sundays ring road supermarket.  \r\n\u003E (No killing moths or putting boiling water on the ants).  \r\n\u003E Car wash (also on Sundays).  \r\n\u003E No longer afraid of the dark or midday shadows.  \r\n\u003E Nothing so ridiculously teenage and desperate.  \r\n\u003E Nothing so childish.  \r\n\u003E At a better pace.  \r\n\u003E Slower and more calculated.  \r\n\u003E No chance of escape.  \r\n\u003E Now self-employed.  \r\n\u003E Concerned (but powerless).  \r\n\u003E An empowered and informed member of society (pragmatism not idealism).  \r\n\u003E Will not cry in public.  \r\n\u003E Less chance of illness.  \r\n\u003E Tires that grip in the wet (shot of baby strapped in back seat).  \r\n\u003E A good memory.  \r\n\u003E Still cries at a good film.  \r\n\u003E Still kisses with saliva.  \r\n\u003E No longer empty and frantic.  \r\n\u003E Like a cat.  \r\n\u003E Tied to a stick.  \r\n\u003E That\u0027s driven into.  \r\n\u003E Frozen winter shit (the ability to laugh at weakness).  \r\n\u003E Calm.  \r\n\u003E Fitter, healthier and more productive.  \r\n\u003E A pig.  \r\n\u003E In a cage.  \r\n\u003E On antibiotics.  ","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":22,"title":"Eat your own spaceship","post_timestamp":"2008-11-17T17:26:23+00:00","url":"2008_11_17_eat_your_own_spaceship","post":"Por aqui devem aparecer vez ou outra algumas dicas de downloads, coisas hospedadas em outros lugares, acompanhadas sempre da recomenda\u00e7\u00e3o para que voc\u00ea tamb\u00e9m, na medida do poss\u00edvel, compre os produtos originais de seus artistas e bandas preferidos, beneficiando e recompensando assim o seu trabalho.\r\n\r\nPara come\u00e7ar, algo bem inusitado. Nem tanto, levando-se em conta o diretor: Wayne Coyne, do Flaming Lips, dirige este *Christmas on Mars*, fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica-musical-piscod\u00e9lico. Idealizado na criativa \u00e9poca do lan\u00e7amento de *Yoshimi Battles the Pink Robots* (de 2001) e filmado desde ent\u00e3o pela banda e amigos, s\u00f3 este ano o filme ficou pronto e foi lan\u00e7ado. \r\n\r\nA tagline do filme, que d\u00e1 t\u00edtulo a este post, j\u00e1 adianta o tom da coisa. Confira voc\u00ea mesmo [se Wayne Coyne est\u00e1 mais para Ed Wood ou mais para Stanley Kubrick](http:\/\/boizebu.blogspot.com\/2008\/11\/christmas-on-mars-2008.html).","post_summary":null,"post_image":"image\/png","post_image_description":"[IMDB](http:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0363240\/)","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":17,"title":"Mogwai: um v\u00eddeo e algumas picuinhas","post_timestamp":"2008-11-13T16:51:19+00:00","url":"2008_11_13_mogwai_um_video_e_algumas_picuinhas","post":"O novo disco do Mogwai, *The Hawk Is Howling*, apesar de n\u00e3o ser nenhum *Rock Action* n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ins\u00edpido quando *Mr. Beast*. A\u00ed\r\num clipezinho para a Batcat:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022 value=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/7CjnKXsXPqk\u0026hl=en\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam name=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed src=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/7CjnKXsXPqk\u0026hl=en\u0026fs=1\u0022 type=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022 allowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nE, por falar em Mogwai, como eles t\u00eam a l\u00edngua afiada! Eu migrei a\r\nse\u00e7\u00e3o do Sigur R\u00f3s e a do Mogwai na seq\u00fc\u00eancia. Por isso a hist\u00f3ria\r\nest\u00e1 fresca na mem\u00f3ria. N\u00e3o sei se algu\u00e9m aqui j\u00e1 tinha ca\u00eddo no conto\r\nde que havia por a\u00ed umas mp3s com as duas bandas colaborando. Essa\r\n\u0022colabora\u00e7\u00e3o\u0022, na verdade, eram m\u00fasicas da banda coreana [500won\r\nProject][500won]. Procure \u0022Sigur R\u00f3s \u0026 Mogwai - Luvstory\u0022 que voc\u00ea vai\r\nver a treta.\r\n\r\nEnfim, o Sigur R\u00f3s explica no seu site que nunca houve colabora\u00e7\u00e3o\r\nentre as bandas, [em um tom bem cort\u00eas][sigur ros]. O Mogwai [nega\r\nveementemente][mogwai faq], diz que isso nunca vai acontecer, e aproveita\r\npara [puxar briga com o Sigur R\u00f3s][mogwai entrevista].\r\n\r\nEnfim, os caras do Mogwai t\u00eam um senso de humor peculiar (vide os\r\nt\u00edtulos hil\u00e1rios das m\u00fasicas, como *Kids will be skeletons*), mas de\r\nvez em quando chegam \u00e0 beira da babaquice. E caem.\r\n\r\n[500won]: http:\/\/vodpod.com\/watch\/966245-500won-project-um-han\r\n\r\n[sigur ros]: http:\/\/www.sigur-ros.co.uk\/band\/faq.php#21\r\n\r\n[mogwai faq]: http:\/\/www.mogwai.co.uk\/words\/Frequently_Asked_Questions\/Frequently_Asked_Questions\/\r\n\r\n[mogwai entrevista]: http:\/\/www.morphizm.com\/recommends\/interviews\/mogwai_happyint.html","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}},{"id":16,"title":"Pitchfork Gives Music 6.8","post_timestamp":"2008-11-13T12:20:51+00:00","url":"2008_11_13_pitchfork_gives_music_6_8","post":"Gosto das resenhas da Pitchfork, leio as not\u00edcias diariamente. Mas n\u00e3o tem como n\u00e3o dar boas risadas com [esta s\u00e1tira](http:\/\/www.theonion.com\/content\/news\/pitchfork_gives_music_6_8) do pessoal do The Onion.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":null,"author":{"name":"Fabricio C. 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Mas se eles se divertem ainda, e estando em atividade mant\u00eam nossas chances de v\u00ea-los ao vivo (n\u00e9, [Ana](http:\/\/kokakolabr.wordpress.com\/)?), ent\u00e3o t\u00e1 tudo certo.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":12,"title":"Tr\u00eas doses homeop\u00e1ticas de JESU","post_timestamp":"2008-11-11T16:26:36+00:00","url":"2008_11_11_tres_doses_homeopaticas_de_jesu","post":"Justin K. Broadrick deve sofrer com sua inquietude. Embora tenha sepultado o cultuado Godflesh h\u00e1 alguns anos, elevando-o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de culto, seguiu em frente com in\u00fameros projetos atrav\u00e9s dos quais distribui sua produ\u00e7\u00e3o conforme a vertente musical que explora. O Jesu, em apenas quatro anos, tornou-se refer\u00eancia no panorama pesado\/alternativo atual, gra\u00e7as a uma supreendente produ\u00e7\u00e3o de onze t\u00edtulos editados at\u00e9 agora. \r\n\r\nO Jesu responde pela veia melanc\u00f3lica de Justin. Embora freq\u00fcentente relacionado ao shoegaze, gra\u00e7as \u00e0s guitarras massivas, o projeto se debru\u00e7a sobre a dicotomia das melodias lamuriosas embaladas por paredes saturadas de guitarras. De um lan\u00e7amento para o outro, a coisa n\u00e3o muda muito, mas sempre se consegue extrair pelo menos umas tr\u00eas faixas que acertam em cheio. Broadrick \u00e9 experiente, sabe usar seus instrumentos e conhecimento em favor de suas composi\u00e7\u00f5es, de onde saem melodias vigorosas muito bem produzidas, coisa de profissional mesmo.\r\n\r\nS\u00f3 nesse segundo semestre j\u00e1 sa\u00edram tr\u00eas \u00f3timos EPs do Jesu, dos quais destaco o mais recente, *Why Are We Not Perfect?*. Trata-se de uma reedi\u00e7\u00e3o de um split com o Eluvium, do ano passado, agora anabolizado com remixes das faixas originais. \u00c9 um retrato do Jesu p\u00f3s-*Conqueror*, quando o m\u00fasico passou a focar ainda mais nas melodias, distanciando-se um pouco do car\u00e1ter metaleiro herdado do Godflesh e aproximando-se com mais naturalidade da eletr\u00f4nica. Mas, claro, sem abrir m\u00e3o das guitarras, fortes e inconfund\u00edveis.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"[2004] Dry Run Records","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":9,"title":"Expo 70: um case de sucesso no question\u00e1vel mundo do ambient","post_timestamp":"2008-11-09T15:10:45+00:00","url":"2008_11_09_expo_70_um_case_de_sucesso_no_questionavel_mundo_do_ambient","post":"Nas minhas incessantes procuras por sonoridades exc\u00eantricas, acabei me embrenhando, de uns anos para c\u00e1, pelo r\u00f3tulo que se convenciona como *drone*, e descobri que nesse formato, o inimigo pode manifestar-se ao se dobrar uma esquina. Assim como no *noise*, no momento em que se explora a ambi\u00eancia, a t\u00e9cnica convencional fica em outro plano, dando brechas para que se discuta o talento de quem n\u00e3o necessariamente saiba tocar um instrumento\/equipamento, mas sim tirar sons interessantes dele. Partindo desse pressuposto, qualquer um pode faz\u00ea-lo, e disso sai uma imensid\u00e3o de porcarias e obras desnecess\u00e1rias, colocando o ouvinte em in\u00fameras arapucas.\r\n\r\nQuando aparecem discos como *Black Ohms*, do projeto Expo 70, a satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 instant\u00e2nea, assim como a certeza de que coisas boas surgem quando quem as produz sabe muito bem o que faz. Justin Wright j\u00e1 tinha quase que uma dezena de CD-Rs editados por a\u00ed, al\u00e9m de um CD como convencionalmente conhecemos, onde explorava o encontro de guitarras, viol\u00f5es e sintetizadores em busca de sonoridades ambientes, da for\u00e7a que os tons podem alcan\u00e7ar. Cada um desses cap\u00edtulos merecia sua aten\u00e7\u00e3o especial pois Justin, embora prol\u00edfico, n\u00e3o deixa seus trabalhos sa\u00edrem por a\u00ed sem que antes passem por um filtro de qualidade. *Black Ohms* \u00e9 mais obscuro, baseado em resson\u00e2ncia de guitarras distorcidas, tons graves e amplificadores meticulosamente explorados, tudo intercalado e invadido por sintetizadores, pianos e texturas indecifr\u00e1veis. Embora a linguagem seja arrastada e n\u00e3o cause impacto imediato aos n\u00e3o-iniciados, \u00e9 um trabalho diferenciado que prova o quanto esse tipo de som pode crescer, se manipulado pelas m\u00e3os corretas.","post_summary":null,"post_image":"image\/jpeg","post_image_description":"[2008] Beta Lactam Ring Records","author":{"name":"Vicente M.","url":"vicente_m"}},{"id":8,"title":"Noel Gallagher e a falta de um ensino m\u00e9dio bem feito","post_timestamp":"2008-11-09T08:04:32+00:00","url":"2008_11_09_noel_gallagher_e_a_falta_de_um_ensino_medio_bem_feito","post":"Algumas frases pescadas numa not\u00edcia da NME:\r\n\r\n\u003E Correct me if I\u0027m wrong, they\u0027ve been making the same record since Kid A, have they not?\r\n\r\n\u003E (...) we [Oasis] make very accessible rock and roll music and they constantly make difficult electronic records.\r\n\r\n\u00c9 o l\u00edder do Oasis falando sobre o Radiohead. O *In Rainbows* um disco eletr\u00f4nico dif\u00edcil? O *Kid A*, v\u00e1 l\u00e1. Mas achar que *Kid A* \u00e9 igual ao *In Rainbows* e o *Amnesiac* \u00e9 igual ao *Hail to the Thief* revela alguma limita\u00e7\u00e3o intelectual, com certeza. Fiquei muito curioso para um dia ler uma an\u00e1lise dele para os discos do Oasis.\r\n\r\nEm tempo: n\u00e3o desgosto do Oasis. Nada contra quem grava o mesmo disco sempre -- este novo do AC\/DC \u00e9 \u00f3timo. E o pr\u00f3prio Noel fala que gosta do Radiohead. Mas o que ele disse n\u00e3o faz sentido, nem de longe.","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. Boppr\u00e9","url":"fabricio_boppre"}},{"id":6,"title":"Thermals, No Age","post_timestamp":"2008-11-07T09:04:15+00:00","url":"2008_11_07_thermals_no_age","post":"Ando ouvindo uns sons cuja real experi\u00eancia deve ser v\u00ea-los ao\r\nvivo. Se n\u00e3o, vejamos:\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022\r\nvalue=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/ScxrWz7DK_M\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam\r\nname=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam\r\nname=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed\r\nsrc=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/ScxrWz7DK_M\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\r\ntype=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022\r\nallowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E \r\n\r\n\r\n\u003Cobject width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003Cparam name=\u0022movie\u0022\r\nvalue=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/xPzNnQhmgpc\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam\r\nname=\u0022allowFullScreen\u0022 value=\u0022true\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cparam\r\nname=\u0022allowscriptaccess\u0022 value=\u0022always\u0022\u003E\u003C\/param\u003E\u003Cembed\r\nsrc=\u0022http:\/\/www.youtube.com\/v\/xPzNnQhmgpc\u0026hl=pt-br\u0026fs=1\u0022\r\ntype=\u0022application\/x-shockwave-flash\u0022 allowscriptaccess=\u0022always\u0022\r\nallowfullscreen=\u0022true\u0022 width=\u0022425\u0022 height=\u0022344\u0022\u003E\u003C\/embed\u003E\u003C\/object\u003E\r\n\r\nDe acordo?","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Fabricio C. 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Vale a pena conferir os do\r\n[Vampire Weekend][vampire weekend], por exemplo, sempre simples e com\r\nhist\u00f3rias estapaf\u00fardias. O meu preferido \u00e9 o para *A-Punk*.\r\n(Cuidado com o *Mansard Roof*, o mais fraquinho de todos. \u00c9\r\ninspirado nos clipes do Lemonheads, gente cantando feliz em um barco\r\nem um bra\u00e7o d\u0027\u00e1gua.)\r\n\r\nO melhor mesmo \u00e9 o video-clipe do [Radiohead para House of\r\nCards][radiohead]. O clipe em si n\u00e3o \u00e9 uma beleza suprema, mas acho\r\nsensacional o Radiohead embarcar nessas novas tecnologias. O clipe\r\ntodo foi rodado sem c\u00e2meras; as imagens foram obtidas a partir de\r\nlasers e sensores bacanas. (A captura de imagem funciona como um radar\r\nque detecta um avi\u00e3o, mas \u00e9 uma aplica\u00e7\u00e3o para a luz vis\u00edvel, e n\u00e3o\r\npara ondas de r\u00e1dio). Como se n\u00e3o bastasse, [os dados do video-clipe\r\nest\u00e3o dispon\u00edveis para quem se interessar][radiohead data].\r\n\r\nAcho que os clipes ainda t\u00eam um futuro promissor. Um ano atr\u00e1s nunca\r\nme pegariam dizendo isso, mesmo depois da explos\u00e3o do YouTube.\r\n\r\n[sonic youth]: http:\/\/www.amazon.com\/Sonic-Youth-Corporate-Videos-1990-2002\/dp\/B00028G7J8\/ref=sr_1_1?ie=UTF8\u0026s=dvd\u0026qid=1225988345\u0026sr=8-1)\r\n[vampire weekend]: http:\/\/www.vampireweekend.com\/video.php\r\n[radiohead]: http:\/\/code.google.com\/creative\/radiohead\/\r\n[radiohead data]: http:\/\/code.google.com\/creative\/radiohead\/viewer.html ","post_summary":null,"post_image":null,"post_image_description":"","author":{"name":"Natalia Vale Asari","url":"natalia_vale_asari"}}]}