Tim Festival 2005 (Wilco)

22/10/2005, Palco Lab, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Por Fabricio C. Boppré em 20/11/2005

Créditos da imagem: Site oficial do Tim Festival 2005

A única atração que considerei imperdível, desde que tomei conhecimento da escalação do Tim Festival, era o Wilco. Pelo menos eu pensava assim antes de saber que o Perry Farrell estaria por lá também, mas desse fato só tomei conhecimento após o mesmo ter se consumado. Pelo o que me falaram, ele estava apenas discotecando, mas era bem capaz de eu ter ido para o Rio de Janeiro um dia antes apenas para ver a figura que fundou o Jane’s Addiction. Infelizmente, quando soube, era tarde demais. Confesso que fiquei um pouco decepcionado naquele momento, mas, algumas horas depois, eu nem me lembrava disso, nem me lembrava direito de qualquer outra coisa que estivesse ocupando minha cabeça naquele dia, naquele semana, se bobear, naquele mês. Naquele intervalo de tempo, presenciei o show do Wilco, e também a estupefante apresentação do Arcade Fire, mas o show do Wilco foi aquilo que na hora, e ainda agora, classifico sem titubear como o show da minha vida. O que não significaria muito se eu revelar que não foram muitos os shows assistidos por mim até aqui, mas ganha peso se levar em consideração que tenho expectativa de vir a assistir muitos outros shows, mas dificilmente consigo imaginar que algum deles será mais sensacional do que foi este.

É sempre um experiência formidável assistir no palco uma banda tocando canções que você ouve seguidamente, se torna íntimo delas, cantarola diversas vezes ao longo dos dias, etc. O show de Jeff Tweedy e cia, para começar, foi especial pois o setlist foi irrepreensível neste contexto pessoal. Faço nova confissão: conheço pouco dos três primeiros da banda, até gosto deles, mas nunca me apresentaram nenhum diferencial que me fizesse tê-los como discos prediletos, sob qualquer óptica. O contrário acontece com os dois últimos, Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost Is Born, com os quais possuo grande ligação. E, em seu primeiro show em terras brasileiras, a banda recheou o setlist com todos os grandes momentos destes dois espetaculares álbuns.

Pouco tempo após os insanos músicos do Arcade Fire deixarem o palco totalmente aclamados pela galera, Jeff Tweedy, Glen Kotche, John Stirratt, Nels Cline e Pat Sansone entram e se posicionam sem pressa. Jeff, em um de seus tradicionais paletós surrados, aparência de quem anda se alimentando muito bem, cabelos mais desgrenhados do que nunca, inicia o espetáculo com Poor Places. Taí uma música que, dentre as muitas pérolas de Yankee Hotel Foxtrot, nunca tinha me despertado muita atenção, mas, ao vivo, soou linda como nunca, e funcionou maravilhosamente naquele momento específico. Explicando melhor: no intervalo entre o Arcade Fire e o Wilco, eu estava bastante ansioso. Depois do catártico e barulhento show da primeira banda, a platéia estava com os nervos à flor da pele, adrenalina a mil, e pedia fervorosamente um bis dos canadenses, que rapidamente ficou claro que não iria acontecer. Senti até que o local, pelo menos ali pelo lado direito do palco onte estávamos posionados (na arquibancadinha citada pelo Vicente), esvaziou um pouco quando percebeu-se que o Arcade não voltaria. O som do Wilco difere levemente do Arcade Fire, no sentido de que certamente não daria continuidade ao ritual alucinado que vinha sendo orquestrado pelos canadenses, pelo menos não logo de cara, e eu temia o que aconteceria, qual seria a reação da platéia, até mesmo a minha própria. Mas essa apreensão foi logo dissipada por Poor Places: a bela melodia, a voz incomparável de Jeff e o suave e tristonho crescente da canção foram suficientes para ganhar a platéia, mudar o ambiente, e dar início a cerca de duas hora de magnífica música ao vivo.

Kigpin, do Being There, veio a seguir, canção de veia country, violões misturados a guitarras, a banda esbanjando entrosamento e competência, a despeito de ter em sua formação dois membros praticamente novos (Pat Sansone e Nels Cline entraram na banda em 2004). Na sequência a banda atacou com uma sequência inesquecível: Muzzle of Bees, com seu dócil e preguiçoso arranjo acústico desembocando em uma das já famosas seções de descontrução engendradas pela banda (no disco esse trecho final não chega a ser tão dissonante, mas ao vivo as microfonias foram ensurdecedoras), em execução perfeita, emocionante. Os acordes iniciais de Handshake Drugs quase me fizeram chorar; outra preferência pessoal, uma canção perfeita, dentro dos meus critérios, e foi a primeira vez que eu vi in loco uma música que integra a minha seleta listinha de músicas perfeitas. Cansei de ouvir a versão ao vivo que está no EP bônus de A Ghost Is Born, nos dias que precederam o show, para imaginar como seria. Obviamente, eu não cheguei nem perto. Depois I Am Trying To Break Your Heart, um clássico moderno que dispensa maiores comentários, e Hummingbird, com seu alto astral meio ingênuo, meio rural, meio difícil de descrever, contagiando banda e platéia. Aquelas seis musiquinhas ali já tinha sido o show da minha vida. Sim, eu vi o Pixies ano passado, e mantenho o que eu disse: aquelas seis musiquinhas já tinham sido o show da minha vida. Mas tinha muito mais por vir ainda…

A banda visivelmente se divertindo, Jeff Tweedy à vontade (não é muito do seu estilo trocar idéias com a platéia entre as músicas, e seus problemas pessoais são notórios, mas ele me pareceu um camarada gente fina e, naquele momento, bastante descontraído), a platéia ovacionando, e a noite seguiu perfeita, com o grupo variando bem o cardápio, naturalmente com a predominância de músicas dos dois últimos discos. Alguns destaques: Jesus Etc., com arranjo diferenciado (não importa como a banda toca esta, pode ser jogando ovos na parede e com uma gaita de fole, será sempre um música perfeita), a nova Walken (Jeff jogando pra torcida: “essa foi feita para vocês”), Via Chicago (ao vivo, ainda mais densa e tempestuosa), Spiders, War On War, The Late Greats, Misunderstood, intercalando momentos de caos elétrico e momentos de sublime simplicidade.

O bis prolongado e repetido (“nós quase nunca viemos aqui, por isso continuamos tocando mais e mais!”), para delírio geral, teve Heavy Metal Drummer (canção pedida pelo camarada Gustavo por e-mail, com Jeff Tweedy fazendo questão de dizer que a música foi incluída por causa disso), as clássicas e perfeitas ao vivo Outtasite e Monday, e o cover de Bob Dylan I Shall Be Released fechando com chave de ouro 800 quilates uma noite inesquecível.

Não tem como escapar da discussão sobre o melhor show do evento. Alguns colegas citam o Elvis Costello, outros o Television, alguns falam do Strokes, a maioria ficou impressionada com o Arcade Fire. O Arcade Fire foi de fato sensacional, Elvis Costello e Television eu não vi mas duvido que tenham sido ruins, mas daqui a uns 40 anos, espero que, com dezenas de bons shows assistidos na memória, ainda vou estar lembrando do Wilco emendando Muzzle of Bees e Handshake Drugs, em 22 de outubro de 2005.

Setlist

  1. Poor Places
  2. Kingpin
  3. I Am Trying To Break Your Heart
  4. Muzzle Of Bees
  5. Handshake Drugs
  6. A Shot In The Arm
  7. At Least That’s What You Said
  8. Misunderstood
  9. Hummingbird
  10. War On War
  11. Jesus, Etc.
  12. Walken
  13. I’m The Man Who Loves You
  14. Spiders (Kidsmoke)

Bis 1:

  1. Via Chicago
  2. The Late Greats
  3. Heavy Metal Drummer
  4. Monday
  5. Outtasite (Outta Mind)
  6. I’m A Wheel

Bis 2:

  1. I Shall Be Released

Bandas associadas: Wilco

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