Tim Festival 2005 (Maurício Takara, Jamie Lidell e Vincent Gallo)

21/10/2005, Palco Lab, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Por Vicente M. em 20/11/2005

Créditos da imagem: Foto de Maurício Takara do site oficial do Tim Festival 2005

Intro

Que o ano de 2005 pode ser considerado um marco na história de shows relevantes no Brasil ninguém discorda. Mesmo com a concorrência de apresentações passadas como as de Pixies, Brian Wilson e Mars Volta, o ano está atravessando um segundo semestre insano, que muitos buscarão explicação em alguma teoria do caos ou da entropia, aparentando os eventos com tsunamis e furacões que assolaram outras terras. Alimentando a tendência e injetando combustível na iniciativa estão as operadoras de telefonia celular, que se apoderaram do mercado antes explorado pelas marcas de cigarro. Competidoras naturais, não só investiram na sempre contestada idéia de trazer bandas gringas para o país, mas inauguraram uma corrida para decretar qual delas estaria por trás do melhor dos festivais. A guerra das telefonias virou uma guerra de festivais: o público, ao invés de decidir entre a marca X ou a Y de um modelo, entre a operadora A ou B, acabou decidindo entre qual(is) banda(s) gostaria de ver. Beleza de impasse.

Tim

Nessa ótica, o Tim Festival usou a experiência de outras duas edições e construiu uma estrutura digna de aplauso em sua edição carioca. Mais uma vez apoderou-se da área externa do Museu de Arte Moderna e fez ali um evento até cosmopolita para os padrões com os quais estamos acostumados (pelo menos com a tradicional gambiarra que temos aqui em Porto Alegre). Numa área central do evento, o tal Village, cujo acesso poderia acontecer por R$ 10,00, o carioca podia ter o gostinho de andar às voltas das tendas, comer uma fatia de pizza por R$ 8,00 ou beber uma latinha de ceva por R$ 4,00. A função social do evento.

Lab

As atrações se desdobraram por mais de um palco, cada qual com seu preço e pulseira de acesso diferenciados. De uma maneira geral, o palco Stage (o maior) recebia as atrações mais acessíveis e famosas, o Club recebia jazz, o Motomix fazia as vezes de rave e o Lab trazia alguns nomes de “vanguarda”. Numa noite onde Strokes e Kings Of Leon sugeriam aperto e gritaria de tietes, algum outro palco automaticamente teria de representar a alternativa mais coerente. A tal “vanguarda”, assim, ganhou meus setentões (mais taxas da Ticketmaster), já que se desenhava ali a chance de ver Maurício Takara, Autechre e Vincent Gallo numa parada só. O espaço Lab encarnava a modelagem vanguardista a que se propunha e, mesmo sem ter entrado nas outras tendas, tenho certeza que foi o espaço mais bala: pequenas arquibancadas laterais proporcionavam acomodação a uma proximidade incrível do palco, sendo todo o espaço forrado por um carpete vermelho ao melhor estilo kubrickiano. Para fechar beleza, telões de ótima qualidade e ar-condicionado fumeta, gelando até o osso. E o som? O som foi o melhor que já peguei: bem definido, nítido, perfeitamente dimensionado para um ambiente de cerca de 2.500 pessoas. Teoricamente, o mínimo para que a escalação da noite pudesse se apresentar de forma bastante recompensante.

A vanguarda carioca não é bem a mesma que a daqui do sul

Ao contrário de esperados cabelos vermelhos, roupinhas de brechó e óculos garrafais, o perfil do público na noite mais alternativa do evento não fechou bem com o que era de se esperar. Muitos ali estavam como eu: vieram para ver o Wilco e o Arcade Fire, não quiseram topar com a balbúrdia dos Strokes. E, incrivelmente, a vanguarda carioca é bem comportada, arrumadinha, na qual se identificava sem muito esforço artistas globais queimando fumo pelas arquibancadas. “Devem estar aí para babar o ovo do Vincent Gallo”, pensei. Defendendo a vertente das tribos, apenas os caras com barba, no melhor estilo Los Hermanos de ser, coisa fácil de ser vista no evento carioca.

M. Takara + 3

Quando o som do Takara começou, pouca gente havia se colocado em frente ao palco. Eu mesmo resolvi guardar meu lugar nas pequenas porém confortáveis arquibancadas. Explico: o baterista do Hurtmold já tinha me vendido seus dois discos solo, de forma que já sabia mais ou menos o que devia pintar por ali. Show para assistir sentado, curtindo as eletronices no conforto e conferindo as capacidades da coisa funcionar no palco. Eu tiro um caldinho de seus discos, mas eles em vários momentos se concentram na experimentação massiva, que às vezes cansa um pouquinho, se perde e é sempre um desafio a mais nesse tipo de festival.

Mas o show que vi, só para eu ficar quieto, surpreendeu. Takara é alicerçado por dois comparsas, um controla animações no telão, outro é fincado na bateria. Com essa estrutura, parte para a briga com uma parafernália eletrônica e uma bateria extra, que vez em quando ele espanca com gosto. O que em disco chega a soar por demais artificial ou repetitivo, ao vivo é anabolizado pelo desempenho certeiro do baterista de apoio, que em momento algum se confunde com os ritmos quebrados que produz no instrumento. Takara tem pleno domínio de seus apetrechos e consegue utilizá-los de forma sincronizada com as bases que constrói. Meses de ensaio? Não, cancha mesmo. Fica difícil determinar os momentos em que os músicos estão improvisando ou estão reproduzindo fielmente alguma coisa previamente ensaiada. Todo o serviço é certeiro, com início, meio e fim, o que contribui para um ótimo resultado geral, mesclando pitadas de pós-rock com eletrônica da Warp, com melodias e efeitos bem encaixados. E, mais importante, já prontinho para gringo ver. Por mais que o público tenha terminado a apresentação com a mesma calmaria com que começou, já desconfiava que tinha visto o show da noite.

Autechre, ops, Jamie Lidell

Mesmo que o Gallo representasse o auge do vanguardismo da noite, o Autechre seria uma chance de ver essas bandas que todo mundo diz apreciar mas ninguém na verdade escuta. Figurinha da incensada gravadora Warp, a dupla representa esse lance de eletrônico abstrato, de música inteligente, uma coisa que poderia ter sido ou muito tri ou muito sacal. Mas o emprego do famoso jargão “problemas pessoais e tal” justificou o cancelamento da apresentação dos gringos, desatualizando as informações que constavam no meu ingresso. Em seu lugar, um outro carinha do selo, Jamie Lidell, do qual nunca tinha ouvido falar. Não costumo ir a shows sem conhecer as bandas previamente, o que fez da experiência um exercício de avaliar o som do cara na lata e na hora mesmo traçar um veredicto.

Para quem comprou o ingresso em busca dum techno panorâmico, foi um tanto frustrante receber um Prince reloaded no lugar. Lidell foi acompanhado por um carinha que usava um óculos de papel, responsável por alcançar apetrechos ao músico, filmá-lo e confundir a platéia, que levou uns vinte minutos para se dar conta que ele não era o músico e não fazia nada além de ajustar a câmera e alcançar utensílios (um capacete fazia parte dos cacarecos, por exemplo). Vamos aceitar que mesmo com o som calcado no funk e no soul, algo como um Prince + Jackson 5 + Warp, o show dele era divertido e ele tinha a manha da parafernália que controlava (sua indumentária era um roupão de tigresa e um sapatinho de couro branco). Minha namorada achou a voz dele parecida com a do carinha do Maroon 5, eu admito que ele realmente cantava muito. Mas mesmo com tudo isso a coisa não fluiu delícia e lá pelas tantas resolvi retornar ao ambiente externo, onde patricinhas cariocas davam um outro contexto ao festival de música.

Ali tinha um palco free patrocinado por uma marca de cerveja, onde tocavam naquele momento DJ Marky + B.Negão. Não fiquei muito tempo na volta, mas o povo pulava ensandecido enquanto Marky jogava pesado seu drum n’ bass e B.Negão dava umas enjambradas no microfone. Nada de vocal de protesto — naquele ritmo e com aquela necessidade de apenas “bombar a massa”, o rapper carioca só conseguiu ficar nos “uhus” e “ieiés”. Voltei para o Lab, o Lidell estava fechando a escrita e o povo, vejam só, aplaudia de pé. Lidell, com seu funk/soul assimilável, representou a familiaridade em meio à esquisitice das outras atrações.

Vincent Gallo

O show menos provável de acontecer no Brasil foi, quando resolvi comprar o ingresso, alvo de minhas maiores desconfianças. Mesmo lendo no Gordurama uma crítica favorável de um show do cara em Camden Town, não conseguia me convencer que essa iniciativa poderia dar certo no Rio de Janeiro, por mais que o Lab tivesse a temperatura ideal para isso. When não é o tipo de álbum que, se executado fielmente num palco, desperta o interesse da platéia, uma vez que ele só funciona em momentos de clausura. A platéia tem de estar muito a fim. E Vincent Gallo definitivamente não combina com uma terra onde se anda de chinelos e bermuda. Tinha convicção que, para esse lance rolar, o cultuado artista usaria de artifícios adicionais para encher seu som, tipo pegar os lances do Takara emprestados. Mas Gallo apostou no seu cacife e se deu mal. Para começar, a tal grávida gostosa que tocou o horror em Camden, que àquela altura já devia estar com a criança nos braços, foi substituída por um magrão que não trouxe alternativas que justificassem a ausência feminina no palco. Completando, um outro carinha ficava mais no baixo, sendo que de vez em quando eles alternavam as atividades entre o piano e a bateria, que quase não foi utilizada. Devia ter chamado na amizade com o Frusciante e ter trazido o cara junto. Gallo contou com um clima que o espaço não proporcionou, uma vez que o vocal frágil e o som suave e concentrado em dedilhados de guitarra, tal igual ao disco, simplesmente se perdeu em meio à conversalhada da platéia. Mesmo largando mão de suas faixas mais interessantes (When, cantada pelo magrão interino, Honey Bunny), o público foi aos poucos dispersando, indiferente ao que se passava no palco. Bingo.

Ao final do set, umas três fileiras que ali ficaram em frente ao palco clamaram por um bis, ao qual Gallo fez questão de atender. Voltaram ao palco, tocaram mais uma e veio a derradeira despedida com um emblemático “Thank you for staying”. Ao meu lado, Caetano Veloso todo de branco sararicava em meio aos remanescentes. Procurei à minha direita o povinho da Globo, mas eles já não estavam mais lá.

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