Tim Festival 2005 (Arcade Fire)

22/10/2005, Palco Lab, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Por Natalia Vale Asari em 20/11/2005

Créditos da imagem: Site oficial do Tim Festival 2005

Memórias não são traçoeiras. Memórias apenas condensam, bagunçam e enfeitam a inexorável linha do tempo, de acordo com as sinapses que piscam na mente de cada um. O nascer-do-sol misteriosamente arranca muitos detalhes da minha. Isso significa que não consigo lembrar a ordem das músicas do show do Arcade Fire. De qualquer modo, fiz o meu dever de casa, e espero ter o setlist correto. O importante é que eu não vou esquecer o estrago que esse setlist fez.

Memória falha ou não, o que se passou naquela tenda é, de qualquer modo, irreprodutível. Confesso que a minha expectativa era toda para o Wilco. O Funeral, debut do Arcade Fire, seguiu dias a fio na minha vitrola. Isso nunca se comparou, contudo, à minha fixação pelo Yakee Hotel Foxtrot, do Wilco. A noite estaria feita somente com o Wilco e a sua Jesus etc. Some-se a isso eu não lembrar de ter lido sobre a insanidade dos canadenses ao vivo. O Arcade Fire seria apenas um bônus muito bem quotado.

Isso era o que devia estar pensando quando as preparações se iniciaram. Movimentação no palco, apetrechos a rodo: apreensão. Ora, barulhinhos são bons, desde que não se abuse deles. Nada no Funeral parecia indicar que o Arcade Fire teriam esse mau gosto. De qualquer maneira, citando o Chapolim, gato escaldado tem perna curta. Será que teríamos um teatro sem sentido? Teria eu que me distrair e rir até chegar a vez do Wilco?

Quanta bobagem passa pela cabeça imatura! Um bando de jovens canadenses subiu ao palco, entoou “ô ô ôoooo”, e isso bastou para o resto todo sumir. Só vou falar uma vez do público: êxtase. Só vou falar uma vez de mim: êxtase. Procuro adjetivos para isso tudo. Só achei superlativos. E superlativos não têm mais força numa época em que todas as comédias românticas propagam o “amor da minha vida”. Acho que eu deveria procurar um verbo. Do alto do meu limitado vocabulário, desconfio que não acharia nenhum verbo também, mesmo se escavasse todas as palavras já proferidas em toda a história da humanidade. Quem sabe, no dia em que se matematizar a lingüística, eu consiga uma fração irracional adequada.

E “ô ô ôoooo” era só o começo de Wake Up. A minha atordoação ainda juntava as peças, trabalhando na velocidade do Homer Simpson: sim, a banda estava teatralmente vestida, num show de rock, como se estivesse em um funeral. Sim, eles estavam de luto, mas dizendo que o que se deve fazer nessa hora é celebrar a vida. O que eu tentava entender é como isso não caiu no ridículo. Se fosse qualquer outro grupo de pessoas ali em cima, não haveria outro resultado que não o ridículo absoluto. Disco conceitual com auto-ajuda barata? Não cola. Importação de princípios zens? Jamais. No entanto, tudo fazia perfeito sentido, porque a música que vinha dali simplesmente não deixava a coisa ruir. E ninguém estava profetizando auto-ajuda nenhuma, nem espantando fantasma nenhum. Estavam, sim, fazendo música. A explicação parecia plausível, então aproveitei para apreciar a música como deveria.

Fazer música. É óbvio que fazer música não pede mais do que um indivíduo colocando sua arte em ondas sonoras, não importa se para isso use apenas sua voz, um tambor, ou uma orquestra. O Arcade Fire usa o que estiver no palco. E eles sabem tudo que existe no palco. Sabem toda aquela parafernália assustadora? Ouve-se o som que ela faz. Ela se encaixa perfeitamente na música. Faz todo o sentido do mundo ver os caras correndo de um lado para outro para pegar outro instrumento em microssegundos, para dar continuidade à música, porque você vê que aquele som é essencial ali. Não se sabe como algum dia já se criou música sem um espoleta escalando e batucando a armação do palco. Não se imagina mais um mundo em que capacetes não viraram instrumentos musicais oficiais. Nada era enfeite fútil; tudo, mas tudo mesmo, era música. E os caras suavam para buscar as coisas certas, na hora certa, para virar música.

Neighborhood #2 (Laika) e No Cars Go seguiram em um terreno já conquistado. A tentação é de falar que todos estavam “vivendo o momento”. Sabe quando isso faz sentido de verdade? Sabe quando a música vira Música e simplesmente conta coisas sobre sua mente que você próprio não sabia? O mais assustador é quando isso faz mais sentido do que das outras vezes. Você sabe que está, então, confinado em um show do Arcade Fire.

Prometi não falar do público, certo? O problema é que o Arcade Fire pareceu realmente comovido conosco. Eles estavam se divertindo com as boas centenas de pessoas que sabiam as letras de cor, que cantavam junto e que pulavam desgraçadamente. Foi assim até na calma Haiti, com a voz de Régine reinando. E também vieram Headlight Looks Like Diamonds e Crown of Love. Ah, claro, Crown of Love. Acho que essa era a música à qual eu tinha mais antipatia. E, heresia, não é que ela ficou bonitinha ao vivo? Ou eles são competentes mesmo ou jogaram alucinógenos pelo ar condicionado.

Mal sabia eu o que viria a seguir. Win Butler, líder da banda, anunciou Brazil, e celebrou-se uma versão estilizada e mórbida de Aquarela do Brasil. Dispensarei outras metáforas desnecessárias. Depois dessa, Tunnels alimentou o dia. A minha adoração incondicional a esta música deve ser uma confusão causada pelo tom nabokoviano da letra.

Emendaram Power Out, que tem aquela pitada de the Cure que poucas bandas conseguem aproveitar (fora o próprio Cure, claro). E a seqüência caiu muito bem: Rebellion (Lies). Não houve bis. Tentei me consolar e me convencer de que a tal Música ficou condensada naqueles minutos extremamente intensos. E, com a corroboração de algumas teorias físicas, minutos extremamente mais curtos do que os convencionais. Mas a quem poderia enganar? Vou fazer coro aos que amaldiçoaram a organização por não permitir um miserável bis. É claor que não podia haver melhor final do que “every time you close your eyes, lies, lies” ecoando. Mas, mesmo assim, poderia ter havido um bis.

Para não deixar o tom de contradições de lado, repito as minhas palavras estupefatas: esse foi o melhor show que já vi. Escolho com muito cuidado os tais superlativos, sim. E, mais uma vez, o show do Arcade Fire foi o melhor show que já vi. A explicação não está acima; eu nunca achei nenhuma. Fiquei apenas com a conclusão. E eu encontrei a conclusão quando começaram os “ô ô ôooo”.

Setlist

  1. Wake Up
  2. Neighborhood #2 (Laika)
  3. No Cars Go
  4. Haiti
  5. Headlights Look Like Diamonds
  6. Crown Of Love
  7. Brazil [cover de Aquarela do Brasil]
  8. Neighborhood #1 (Tunnels)
  9. Neighborhood #3 (Power Out)
  10. Rebellion (Lies)

Bandas associadas: Arcade Fire

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