Tim Festival 2005 (Arcade Fire e Strokes)

25/10/2005, Pavilhão (Aeroporto), Porto Alegre (RS), Brasil

Por Vicente M. em 20/11/2005

Créditos da imagem: Foto so Strokes do Terra/Música

Indiscutivelmente, as grandes duas atrações do TIM Festival 2005 foram Wilco e Arcade Fire. O primeiro mereceu todas as celebrações por causa de seus dois últimos grandes discos, pela representação do caráter desbravador que assumiu e pela própria incredulidade instaurada pela banda ter se deslocado ao Brasil, com tantos Franz Ferdinands podendo tomar seu lugar num evento tão incensado. Já no caso do Arcade Fire, a incredulidade pode ser ainda maior, uma vez que os canadenses desembarcaram na pátria amada justamente no meio do olho do furacão, com um disco altamente celebrado e com o apadrinhamento de celebridades caetanovelosísticas lá de fora. Tentei lembrar de bandas que representassem a mesma urgência quando se apresentaram aqui, mas só consegui chegar em australianos que fazem cover do Pink Floyd. Focado o valor inestimável da iniciativa, pode-se ir um pouquinho mais além.

Porto Alegre, desde que vou a shows, sempre foi uma das capitais do refugo, isto é, de atrações internacionais cuja idade e peso dos artistas já estouraram o limite. Salvo algumas iniciativas recentes (Placebo, por exemplo) e outras memoráveis (Faith No More), os gaúchos aqui até têm a oportunidade de ver atrações grandes, porém com décadas de defasagem ou com apelação aos reféns das FMs. No livrinho da irrelevância, tocaram recentemente aqui Dire Straits, Lenny Kravitz, Offspring, Living Colour e mais um monte de artistas que estão claramente capitalizando no início da decadência ou mesmo atirando no mercado terceiro-mundista, contando com a inocência dos selvagens latinos. Com base nisso, é de se tirar o chapéu para a iniciativa do TIM versão Porto Alegre: aproveitar o embalo e trazer Strokes e Arcade Fire para tocar aqui, dando um gostinho do que já vem acontecendo no centro do país há alguns anos.

Justamente por essa defasagem em relação ao centro do país e pela política “caixa-prego” de conduzir eventos desse tipo, Porto Alegre enfrenta alguns problemas para receber visitantes ilustres. Em primeiro lugar, há problemas em acomodar o público em um lugar que ofereça um mínimo de estrutura. No caso do evento, ao contrário do profissionalismo impecável aplicado na edição do Rio de Janeiro, a organização local meteu mais de sete mil cabeças num galpão que um dia foi uma fábrica de máquinas. O local, repito, era uma fábrica e não há ali a menor possibilidade de conciliar os objetivos do evento com a estrutura existente. Com uma proliferação de som horripilante, o local ainda tem colunas de metal que, para quem não está muito metido no meio da platéia, posicionam-se exatamente na frente do palco. Nesse sentido, o lance saiu bem ruim: som mastigado e inúmeros obstáculos na frente de alguma parte do público. Completando, nossa imprensa tem algumas dificuldades de lidar com esses eventos. A divulgação, apontada para as massas, apostou forte na presença dos Strokes, conhecidos por grande parte do público por alguns hits de FM. Obviamente, não soube muito bem como fazer com o Arcade Fire. O resultado só poderia ser (assim como foi em São Paulo) um show dos Strokes com a abertura duns caras aí.

Com a piazada a mil (muitos com visual Strokes devidamente reproduzido), o evento arrecadou de fazocas a manos a fim de mandar brasa nas menininhas. Um plus porto-alegrense, que não vi no RJ, foi uma considerável área VIP para onde nem ingressos haviam sido disponibilizados. Quer dizer, alguns muito especiais tiveram privilégios que os mortais que pagaram de R$ 40,00 a 60,00 não tiveram. Enxergavam melhor o palco e tinham serviço de garçom. Coisas gaudérias. Posto tudo isso, já dava para perceber que, por mais que o Arcade Fire suasse sangue no palco (o que não me surpreenderia), o evento presenciado no Rio já tinha ganhado a medalha de ouro, pelas condições corretas de estrutura e público.

Acústicos & Valvulados tocou seu rock certinho, agradecendo por estar no TIM e de alguma forma agradando bastante o público dos Strokes, já que quem escuta Strokes regularmente aqui na capital gaúcha certamente escuta muito A&V, graças às FMs locais. Enquanto na etapa carioca houve alguma intenção de disponibilizar artistas novos, em Porto Alegre optou-se pela surpresa zero. Não fosse pelos canadenses que se apresentariam depois, o público teria assistido a um evento sem um pingo sequer de renovação, uma vez que A&V e Strokes estavam na ponta da língua da gurizada.

O Arcade Fire entrou no palco com a tarefa de se comunicar com a platéia gaúcha, o que por si só já era uma parada dura. Ilustríssimos desconhecidos, certamente reuniam na platéia meia-dúzia de blogueiros (aos quais me incluo) que sabiam do valor que aquele momento tinha para os prados gauchescos. A grande massa estava mesmo nas pilhas para que o show dos Strokes começasse, o que podia ser claramente percebido na camada de público que estava atrás do burburinho: enquanto a banda tocava o horror no palco, muitos ficavam olhando para as paredes. E falando em tocar o horror, o show foi tão intenso quanto o do Rio, apenas combalido por todas as forças malignas destacadas anteriormente. Toda a intensidade da banda, o coral uníssono, os olhos fechados pareceram mais uma vez autênticos e genuínos e, apenas para não dar contra total, a turma mais à frente aos poucos mostrou sinais de empolgação. Tudo foi mais uma vez exercitado: Régine foi para a bateria, Richard e Will encheram o palco de teatralidade, Win usou toda sua estatura para centralizar um dos shows mais imperdíveis do rock. Deram um bônus (a cover de Storm Trooper, do Bruce Springsteen), fizeram a vez com os locais (Brazil do Ary Barroso), intercalaram novamente Power Out com Rebellion (Lies), o momento mais arrepiante que uma banda já produziu num palco. Will ainda tratou de finalizar com um golpe certeiro, escalando as estruturas metálicas do galpão com seu tambor a tiracolo, simbolizando a proposta diferenciada e a entrega da banda em cima do palco. Reafirmei minha crença na força suprema dessa banda que tantos admiradores arrebanhou em tão pouco tempo justamente quando, ao contrário de esperadas vaias e clamores pelos novaiorquinos, o público assistiu e aplaudiu. Se na quarta-feira compraram o Funeral, bem, aí é outra coisa.

Com a chegada então do momento esperado pela maioria, as gurias de menos de 1,70m de altura começaram a cotovelar o alheio. Já escutei mais Strokes no passado e confesso que a banda de forma alguma incomoda meus ouvidos. Sou mais essa proposta de pop/rock do que os hip-hops que estão por aí. A dificuldade toda foi adaptar a percepção ajustada para o show de antes no show que estava começando. No palco, os caras mandam seus hits, sem grandes inovações, com o público respondendo em alto volume. Muita gente dançando, refrões berrados à volta no mais famoso “portuinglês”. Sintetizando, a banda entrou com o jogo já resolvido, limitando-se a trocar passes no meio campo. As faixas novas acabaram não fazendo grande diferença, ainda mais com o som embolado que se percebia, e músicas como Last Nite, Reptilia e Barely Legal, que foram devidamente celebradas e meticulosamente executadas. Um show de rock que acertou os anseios da maioria da horda que estava no galpão, não chegando nem perto do que a banda anterior propôs e efetuou, mas cumprindo com seu papel.

Com essa saraivada de boas bandas tocando no Brasil, surgiu após o show o comentário que Porto Alegre pretende desenvolver um local mais apropriado para esses raros eventos, de forma até que eles não continuem assim tão raros. Ganham todos se uma nova estrutura for disponibilizada. Ainda assim, o TIM em Porto Alegre marcou uma noite onde uma grande banda internacional e uma grande banda de verdade voltaram sua música para uma platéia sedenta por shows desse patamar. Que a organização fique atenta e aos poucos vá absorvendo um pouco da diferenciação proposta pelos cariocas, investindo num ar-condicionado, num ambiente específico e se possível se dando conta de que a presença de uma banda como Arcade Fire aqui significa muito mais do que esses shows de segunda linha que tentam nos enfiar goela abaixo.

Setlist

Arcade Fire:

  1. Wake Up
  2. Neighborhood #2 (Laika)
  3. No Cars Go
  4. Haiti
  5. Headlights Look Like Diamonds
  6. Brazil [cover de Aquarela do Brasil]
  7. State Trooper [Bruce Springsteen cover]
  8. Crown Of Love
  9. Neighborhood #1 (Tunnels)
  10. Neighborhood #3 (Power Out)
  11. Rebellion (Lies)

Bandas associadas: Arcade Fire

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