Silverchair

14/05/2003, ATL Hall, rio de Janeiro (RJ), Brasil

Por Felipe Barros Pereira em 05/2003

Então, após dois anos, o Silverchair estava de volta ao Rio de Janeiro. E mais uma vez a banda se mostrou em plena forma, provando que, ao menos aparentemente, o vocalista Daniel Johns livrou-se dos problemas físicos que o perseguiram nos últimos anos. Se ainda havia alguma dúvida em relação ao amadurecimento desta banda de australianos que já chegaram aos dez anos de carreira, ela foi dissipada logo durante os primeiros minutos de show.

É preciso ressaltar como Daniel Johns tem presença de palco e uma segurança invejável para conduzir seu show. Ele consegue centralizar todas as atenções e isso não se deve mais à aparência — o rapaz tem brilho próprio, além de estar tocando como nunca.

O público foi um caso a parte. Num ATL Hall quase lotado podia-se encontrar de tudo: das pré-adolescentes grudadas no palco para ver o ídolo executar Miss you Love e Ana’s Song (aliás, foram estas as responsáveis pelos altos índices de desmaios), até os indies, metaleiros (camisas do Helloween e Iron Maiden por toda a parte) e pessoas que não poderiam se enquadrar em qualquer descrição menos detalhada.

Já ressaltada a popularidade do grupo, vamos ao show. A abertura se deu com os Detonautas, que com cinco músicas (sendo uma cover) conseguiram empolgar alguns e chatear uns tantos outros (aí volta o problema do público tão variado). Por volta de 10h30 da noite o Siverchair entrou, e de uma forma espetacular, é preciso frisar. Afinal, poucos esperariam que o show fosse iniciado com a não tão famosa Steam Will Rise, numa versão mais longa e improvisada do que a encontrada no Neon Balroom, disco de 1999. A primeira música seria a tônica do show, completamente diferente de tudo o que eles fizeram e que mereceram as até mesmo justas acusações de cópias de Nirvana e Pearl Jam. Pode-se até mesmo dizer que a banda parecia querer fugir das comparações, visto que nenhuma música do Frogstomp, o primeiro álbum da banda, foi tocada nesta noite.

World upon yours Shoulders já era algo mais previsível mas nem por isso foi menos festejada, assim como Emotion Sickness, em minha opinião a grande música do show e talvez até mesmo da banda. O público cantando junto, a qualidade da canção, a competência dos músicos, tudo isso prova quando uma banda encontra-se no auge e é este o lugar do Silverchair. A música estendeu-se por quinze minutos com uma série de improvisações e já havia ganho, definitivamente, os fãs.

Os que precisavam de hits também não foram embora decepcionados. Greatest View agradou a todos, senão pelo reconhecimento, talvez pelo peso. Miss you Love, em uma versão um tanto quanto burocrática, e Luv your Life mantiveram o caminho do sucesso radiofônico, porém sem a perfeição de Ana’s Song.

Outros grandes destaques do show foram as novas Across the Night, Without You e Tuna in the Brine. Este trio talvez seja o que de melhor a banda já fez até hoje e é incrível como foi possível reproduzi-las sem todos os arranjos e com a ajuda de apenas dois tecladistas. O lado negativo é que, enquanto todos conheciam e cantaram as duas primeiras, Tuna in the Brine não conseguiu cativar a todos. Bom, a música é o que de mais perto a banda chegou da perfeição, o mundo é injusto e tal, e o show iria continuar.

Anthem for the Year 2000 e The Door não foram surpresas e tornaram-se momentos para se recordar, especialmente a última, apresentada como “the funkiest thing Silverchair will ever get close to”. Dá gosto de ver quando a banda está gostando de tocar, e nestas músicas isso não foi difícil de se perceber.

Um corinho que se estendeu por toda a platéia pedindo pela clássica Tomorrow chamou a atenção de Johns, que se fez de desentendido e improvisou Garota de Ipanema (!?). Freak, que normalmente encerra os shows do Silverchair, veio para mostrar o lado mais rock. A banda então deixou o palco.

Para o tradicional bis, Daniel Johns voltou sozinho e sentou-se ao piano para tocar a belíssima Asylum, que não entrou no último álbum da banda, o que é realmente algo a se lamentar. Ao seu término, o resto da banda retorna e o Silverchair fecha o show magistralmente com The Lever. Mais de dez minutos de improvisação e o show termina, com o vocalista já sem camisa, para delírio das fãs (vai entender…), e destruindo os instrumentos.

O maior problema do show foi a sua curta duração. Um pouco mais de uma hora e meia após uma espera de mais de dois anos foi pouco para tantos fãs que talvez estivessem vendo a banda pela última vez, devido aos rumores de que esta seria sua última turnê. Esta curta duração deixou de fora algumas músicas que sempre fizeram parte de seus shows, tais quais Israel’s Son, Pure Massacre e Slave, além de algumas outras que vinham sendo tocadas na própria turnê do Diorama e que seriam realmente gratificantes de se assistir (Petrol and Chroline, Do you Feel the Same), e outras do novo álbum (Too much of not Enough, My Favourite Thing).

O Silverchair já pode ser considerado um dos grandes nomes da atualidade, seja lá qual o som que estejam fazendo, seja aquele mais depressivo do Neon Ballroom ou o mais pop do Diorama. A banda já sabe como fazer um show e deve muito disso ao seu vocalista, que já tinha a platéia na mão logo nas primeiras músicas. Basta torcer agora por uma improvável, porém muito bem vinda, volta da banda às terras brasileiras.

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