R.E.M.

06/11/2008, Estádio São José, Porto Alegre (RS), Brasil

Por Alexandre Luzardo em 05/12/2008

Créditos da imagem: Copiada do site Hagah

De uma perspectiva pessoal, é difícil dizer que outro show teria tanto apelo ‘histórico’ quanto este do R.E.M., banda que acompanho desde os tempos de comprar vinil. Como o Pearl Jam já passou por aqui em 2005, nenhuma outra ou segue na ativa ou despertaria o mesmo interesse (sorry, Suicidal Tendencies), passados cerca de quinze anos desde a aquisição daquele The Best Of para uma incipiente e irregular discoteca pessoal. Mas assistir a um show de uma banda que se conhece há tanto tempo teria tudo para ser uma experiência nostálgica. Esse não é o caso do R.E.M., que até hoje merece que cada disco seja ouvido com o devido carinho e cuidado. Claro, alguns bem mais — este último Accelerate —, outros bem menos — como o Around the Sun.

Dito isso, até atenuo um pouco o tom, pois já está implicitamente escancarado (santa incoerência) que eu mal cabia em mim de tanto contentamento de ver ali pertinho uma das bandas favoritas de sempre, tocando as músicas favoritas de sempre. A improvável notícia do R.E.M. tocando em Porto Alegre, que pintou com cara de trote (Zequinha Stadium?), estava ali, se materializando na minha frente.

Falando no Zequinha Stadium, o local do show passou no teste. Reclamações sempre acontecem e desta vez se voltaram mais para os acessos ao estádio. Das entradas, mais especificamente, pois não houve congestionamento monstro. De fato, a fila para entrar era grande e demorada, mas nada que estragasse a noite. Ainda diria que, para mim, foi até providencial, pois serviu para perder a abertura do Nenhum de Nós. Estrategicamente perfeito.

Assim que superadas as dificuldades da entrada, de imediato se revelou o acerto na escolha do local, que proporcionou todas as benesses de um show aberto em noite agradável. Ao mesmo tempo em que permitiu desenvoltura para buscar um bom lugar sem grandes problemas de espaço, o Passo d’Areia é pequeno o suficiente para não passar aquela intimidação de grande estádio e, especialmente, existia a sensação de ‘casa cheia’ com um público entre 12–15 mil pessoas, o que fatalmente não aconteceria num Olímpico ou Beira Rio onde o público ficaria espalhado entre grandes espaços vazios, reduzindo os ânimos de público e banda.

O show começou com a excelente faixa de abertura de Accelerate, Living Well is the Best Revenge, com a banda esbanjando energia roqueira e estimulando o público, que de cara pôde perceber que estava vendo um show ‘quente’. Os painéis de LEDs posicionados atrás do palco projetavam imagens inspiradas na arte gráfica do álbum misturados à transmissão ao vivo do próprio show. Não se trata de nada revolucionário, o U2 já vem fazendo coisas do gênero desde a Zoo TV Tour no começo dos anos 90, mas, ainda assim, não deixa de impressionar ver uma produção dessas de perto. Na sequência, duas músicas do Monster, que é o disco mais próximo do Accelerate em termos de sonoridade. A obscura I Took Your Name surpreendeu pela escolha enquanto What’s the Frequency, Kenneth? foi a primeira a causar maiores reações na galera sedenta por hits. Só então ocorreu uma pequena pausa para saudar o público e falar no assunto do momento: a eleição de Obama. Imagens do novo presidente apareciam no telão, Stipe mostrou faixa feita pelo público (dizia “North American People, congratulations for choosing Obama”), enquanto o restante da banda improvisava um instrumental. Não dá para dizer que houve unanimidade no público, a maioria até foi no embalo e vibrou bastante, mas um grupo próximo de onde eu estava puxou um coro “Obama, viado” por pura galhofa. Ao mesmo tempo, torcedores colorados e gremistas buscavam informações sobre o jogo do Inter na Bombonera. Afinal, com show do R.E.M. e tudo, não é todo dia que se enfrenta o Boca num mata-mata, e ganhando, mas isso já é outro papo.

O show prosseguiu com Animal e finalmente deu uma relaxada com a climática Drive, bastante aplaudida pelo público. A quebra seguiu com o resgate de Disturbance At The Heron House, mais uma surpresa do setlist. Entre as mais antigas, eu torcia muito para poder para ouvir Driver 8, que já tinha visto em setlists anteriores e depois soube ter sido tocada no Rio de Janeiro, mas quem sou eu para reclamar? Man-Sized Wreath não deixou grandes impressões, das músicas do Accelerate foi a menos entusiasmante. Ignoreland vem sendo tocada em todos os shows desta atual turnê, e de fato funciona muito bem ao vivo. Sem brilho no disco, é uma das únicas faixas do Automatic for the People passíveis de um skip, ao vivo ficou excelente, belíssimo trabalho de guitarra de Peter Buck. Peter, aliás, é o mais reservado dos três, mantendo uma postura ‘elegante’ e serena, que às vezes até transparece um certo ar de enfado, mas é o jeitão dele. Mike Mills é figuraça, altamente carismático, dá para dizer que roubou a cena em alguns momentos. Já Michael Stipe é um showman, mesmo, conduziu o show com desenvoltura, com o público na mão, fez tudo que se esperava dele.

A partir de Hollow Man, que passa a sensação de hit instantâneo, o show entrou na sequência que iria desencadear no ápice. A ganchuda The Great Beyond abriu caminho para a bela Electrolite com Mike Mills no piano. Imitation of Life, até então o maior hit da noite, com o público cantando junto, completamente entregue. Walk Unafraid, representando bem o álbum Up no setlist. E então vieram dois momentos especiais, o primeiro com Let Me In. Assim como Ignoreland, já se sabia que Let Me In era presença certa na atual turnê, mas a performance foi totalmente surpreendente: acústica, com os integrantes todos próximos reunidos em círculo num canto do palco, Stipe de costas para a plateia, mostrou que ainda canta muito, muito mesmo. Foi quase sobrenatural. E, o que veio depois, foi a belíssima Find the River, para mim a maior surpresa da noite, desconcertante. Assim como o Inter tinha derrotado o Boca em La Bombonera, o show a esta altura já era jogo ganho. A incendiária Horse to Water repôs o pique e preparou o terreno para The One I Love assumir, provisoriamente, o posto de maior hit da noite. Foi bonito de ver o coro da galera cantando, assim como foi bonito de ver o singelo e memorável solo de guitarra de Peter Buck ser reproduzido fielmente, ele que já tinha reinterpretado outro solo que não sai da minha cabeça, o de What’s the Frequency, Kenneth?.

O que veio a seguir foi o momento mais curioso da noite. Talvez não tenha ocorrido exatamente desse jeito mas vou seguir a máxima de preferir a lenda. Animada com a resposta do público para The One I Love, a banda se preparou para emendar outro hit. As guitarras ainda não haviam silenciado o feedback da música anterior quando Stipe abriu os braços e começou a conduzir as guitarras, que foram aumentando a intensidade até finalmente entrar na introdução de Bad Day. Certamente foi um movimento de quem anuncia um hit importante, que viria a ser um dos pontos altos do show. Porém, o que talvez eles desconhecessem é que Bad Day nunca foi muito tocada por aqui, ou pelo menos, não teve grande impacto. Sem perceber, ao chegar no refrão, Stipe cantou o trecho “It’s been a bad day” e apontou o microfone para o público cantar a parte “please don’t take a picture”. Pequeno detalhe: quase ninguém cantou. O que se ouviu foi o backing vocal de Mike Mills, que não tem letra, segue acompanhando melodicamente com ‘oh oh oh’. Pois bem, indiferente, Stipe seguiu apontando o microfone nesse trecho e o público, ao invés de cantar a letra, passou a seguir o backing junto com Mills! Lá no final da música o estádio inteiro cantava “OH OOH OOOOH” quando Stipe apontava o microfone. E Stipe, de joelhos, encerrou a música com um gesto para Mike Mills em reverência ao baixista, com um sorriso no rosto como quem diz “parceiro, essa você ganhou!”

Por sinal Mike Mills seguiu brilhando durante a ótima Orange Crush antes do encerramento com It’s the End of the World as We Know It. Desta vez, a interação funcionou bem (“…and I feel?” “FINE!” “…right?” “RIGHT!”) e inclusive um maluco perto de onde eu estava cantou a letra INTEIRA. Pena que não havia nenhum representante do Guiness para registrar tal feito.

Antes do bis, o telão manteve o público entretido até que a banda retornasse re-energizada com Supernatural Superserious, outra que não podia faltar. Porém, dá para dizer seguramente que dois terços do público pagaram o ingresso para ouvir Losing My Religion e quando soaram os primeiros acordes o estádio veio abaixo como em nenhuma outra música. E, de fato, Peter Buck tocando Losing My Religion no bandolim é verdadeiramente algo especial de ser presenciado, é ver uma das cenas mais marcantes e singulares da história recente da música ser reproduzida ao vivo.

Depois da apoteose, um papo com a galera. Stipe falou do quanto eles tinham esperado para poder voltar ao Brasil e do quanto estavam felizes de poder ter concretizado a turnê brasileira. Nós também, Michael. Teve mais Obama também, a banda pediu que um cartaz mostrado por um fã fosse passado para frente até chegar ao palco, onde foi mostrado a todos (dizia “we are Obama too”) e serviu de introdução para Cuyahoga, outra pérola do repertório antigo resgatada por trazer toda uma ressonância ao atual momento político americano. “Let’s put our heads together and start a new country up”, diz a letra.

Nada mais superaria Losing My Religion, mas ainda havia a sempre emocionante Everybody Hurts. E, pessoalmente, digo que foi dureza de ouvir sem pensar nos amigos que estavam e estão longe. E finalmente havia chegado o final com Man on the Moon, executada pela banda e acompanhada pelo público em tom de celebração, encerrando uma noite que será lembrada por muito tempo.

Setlist

  1. Living Well Is The Best Revenge
  2. I Took Your Name, What’s The Frequency, Kenneth?
  3. Animal
  4. Drive
  5. Disturbance At The Heron House
  6. Man-Sized Wreath
  7. Ignoreland
  8. Hollow Man
  9. The Great Beyond
  10. Electrolite
  11. Imitation Of Life
  12. Walk Unafraid
  13. Let Me In
  14. Find The River
  15. Horse To Water
  16. The One I Love
  17. Bad Day
  18. Orange Crush
  19. It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)

Bis:

  1. Supernatural Superserious
  2. Losing My Religion
  3. Cuyahoga
  4. Everybody Hurts
  5. Man On The Moon

Bandas associadas: R.E.M.

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