Planeta Terra 2010 (Hurtmold, Smashing Pumpkins e Pavement)

20/11/2010, Playcenter, São Paulo (SP), Brasil

Por Fabricio C. Boppré em 25/11/2010

Créditos da imagem: Foto de Ricardo Matsukawa, copiada do site oficial do evento.

E foi-se o Planeta Terra, provavelmente minha última incursão num festival desse tipo. Tendo assistido já uns três ou quatro, no Brasil e na Europa, já deu de perceber que esse tipo de maratona não é para mim. Seria legal um dia experimentar um Coachella ou um All Tomorrow’s Parties, cujas escalações e discursos sempre me dão a impressão de serem eventos mais voltados para a música propriamente dita, e não para a festa, a bebedeira, brincadeiras de parques de diversões, esses ambientes e circunstâncias sob medida para gente com roupas esdrúxulas e comportamento idem. Nada contra — só não é para mim.

Eu já tinha tomado essa decisão antes, na verdade, mas quando anunciaram o Pumpkins como atração deste Terra, tive que abrir uma exceção. Não é nem de longe minha banda preferida hoje, mas já foi, e a obra-prima deles, o Mellon Collie and the Infinite Sadness, continua sendo meu disco preferido de todos os tempos. Sendo uma banda de importância pessoal incalculável e nunca vista ao vivo antes, mesmo com o cheiro de necrofilia pairando no ar, comprei os ingressos. O anúncio da participação do Pavement — que pelo visto quem viu, viu, que não viu, não verá nunca mais — tornou a decisão inevitável, e o do Hurtmold, se não acrescentou nada a esta motivação do agora-ou-nunca gerada pela presença das duas bandas amigonas, ao menos tornou a coisa toda mais justificável pela via da música mais arejada.

Minha escalação particular era, então, Hurtmold, Pavement e Smashing Pumpkins. As muitas horas de intervalo entre estas apresentações foram sofridas, mas o sacrifício compensou, no fim das contas. O tempo ajudou: nem chuva, nem sol escaldante. Ter encontrado alguns amigos teria tornado a coisa mais agradável, mas alguns loucos ficaram lá na frente do palco do Pumpkins desde cedo, outros chegaram mais tarde, desencontros gerais. Mas, depois de ver um trecho do Mombojó, banda que gosto moderadamente, finalmente os paulistas do Hurtmold estavam no palco. O show foi bem bacana, com músicas que me pareceram todas inéditas — nada do meu disco preferido, o Mestro, muito menos dos discos anteriores. Sem problemas: Hurtmold é fantástico, das minhas bandas preferidas, e não falo só em termos regionais. Pouca gente parecia entender o que ocorria ali no palco e o ambiente não deve ser mesmo o mais adequado ao som da banda, mas, num esforço de abstração, eu consegui curtir o show. É percussão, clarinete, xilofone, baixo, guitarra, entre outros, a serviço de uma sonoridade jazz-rock (acho que dá de falar isso sem soar pedante, não?) afiada, exata. Muitas vezes uma música começa e ficamos naquela expectativa de um crescendo, de algum assalto elétrico à la post-rock, mas tudo vai caminhando plácido e consciente, ritmo e melodia perseguindo-se e entendendo-se constantemente, à exceção de um ou outro arroubo percussivo, o que também os aproxima das tradições musicais brasileiras e africanas, toque distintíssimo num já muito rico caldo sonoro. Longa vida ao Hurtmold — espero que este tenha sido só o primeiro de muitos shows dos caras que eu ainda verei (ainda que morar em Florianópolis não ajude muito nisso).

Na sequência veio o Holger, ocupando o palco deixado pelo Hurtmold, que saiu aplaudido sem grandes convicções, compreensivelmente. Tinha uma curiosidade de assistir ao Holger pois gostei do disco deles que a Trama colocou de graça na internet, mas o show começou e, apesar das músicas legais mesmo, as palhaçadas da banda sobre o palco foram tirando minha paciência, e quando tocaram um trechinho de Hey, do Pixies, eu já estava numa lanchonete ali perto fazendo o lanche da tarde.

Depois, hora de migrar pro palco principal, para arrumar um lugar bacana para ver o Pavement. Algum tempo esperando e finalmente, ainda com a vinheta de apresentação da próxima atração rolando nos sons e nos telões, a mítica banda sobe ao palco. Stephen Malkmus se apresenta, diz que a banda é da América, começa com “go back…”, interrompe, esclarece dizendo que é da porção setentrional da América, retoma Gould Soundz e o show começa. Achei muito bom — a distância entre Malkmus e os demais é evidente, a ponto do cara dar uns passos pro lado oposto ao da banda quando sua participação vocal finalizava, mas os clássicos foram se sucedendo em ótimas execuções, o resto da banda se esforçando, Nastanovich se esgoelando, Malkmus fazendo a parte dele, e assim transcorreu o, ao que tudo indica, único show do Pavement no Brasil em sua história, pois parece que, terminada esta turnê de reunião, a banda se desfaz definitivamente.

Sobre o setlist basta dizer que foi impecável, e o público me pareceu bastante satisfeito ao fim da apresentação da banda. O que seguiu-se, no fim de Here, não foi a maior ovação que eu já presenciei (seria o excesso de camisetas ZERO no público?), mas a banda agradeceu efusivamente, Malkmus despediu-se sugerindo ao público, com sorrizinho maroto, que aproveitasse o show do Smashing Pumpkins (foi a segunda citação à banda de Billy Corgan na noite — antes, é claro, tocaram Range Life), e foi isso aí. O Pavement foi uma banda que eu demorei para a apreciar devidamente, só recentemente eu percebi a preciosidade que são todos os cinco discos da banda — antes, eu ouvira com atenção só mesmo o Crooked Rain, Crooked Rain, e sempre voltei a ele com regularidade, mas hoje meu respeito pelo legado dos caras é altíssimo, e, ao fim do show, eu já estava plenamente satisfeito com a ida ao Terra.

Então sobem ao palco Billy Corgan e seus empregados. De uma perspectiva pessoal e egoísta, essa ressurreição do Pumpkins se justificou por essa oportunidade enfim aproveitada de ver ao vivo a reluzente cabeça por trás do meu disco preferido. Portanto, no que dependesse de mim, Billy poderia agora sepultar novamente o grupo, deixá-lo enfim descansando em paz, aproveitando que seu legado fonográfico não está ainda irremediavelmente comprometido, e prosseguir daí em diante numa carreira solo que pode sim ser bacana, digna. Porque o que vem produzindo-se em estúdio sob a alcunha Smashing Pumpkins, se eu não chego a achar totalmente ruim, é, na minha opinião, evidentemente bastante deficiente em comparação ao legado que a notabilizou. Pois o Pumpkins criou, em sua maturidade, em seu período de relevância, músicas eternas, geniais, inesquecíveis, coisas realmente transcendentes. Foi isso que aprendemos a esperar deste nome. E hoje a distância é enorme, e não dá de se acostumar com isso. Não se discute Billy Corgan compor e gravar suas canções pelo resto da vida — eu serei um que, certamente, irá ouvi-las todas sempre, nem que seja uma única vez —, mas sim, reconhecer limites, fases, etapas, começo, fim. Sintonia, desapego, humildade. Mas, enfim, são só opiniões de alguém que nutre incomensurável admiração pelo legado Pumpkiniano e não consegue evitar, mal acostumado que foi, de projetar nesta nova encarnação da banda certos ideais aparentemente defasados, não mais possíveis. E, por isso, a decepção. Paro essa reflexão por aqui, mas sei que tem muito fã que me entende.

Ao que interessa, pois: o show. Mas alguns minutos adentro, pois a abertura com The Fellowship e Lonely is the Name foi quase nula, vazia de qualquer substância. Today, finalmente, abre os trabalhos, mas sem engrenar plenamente: Billy parece tocar com alguma resignação os clássicos, algo desanimado em ver que eles despertam euforia e uivos mesmo após tê-los tocado já tantas e tantas vezes. Enquanto que as novas, conforme já opinei, não se sustentam, mas recebem de seu compositor alguma empolgação, o que por sua vez deve compungi-lo ao não vê-la espelhada no público. O careca mostra também empenho em solos desnecessários, em tocar o hino dos EUA com os dentes num prolongamento da fraquíssima United States (eu até acho o Zeitgeist escutável, mas essa faixa de intenções épicas à la Silverfuck e Thru The Eyes of Ruby é tão aquém destas duas que fico até constrangido de colocá-las na mesma frase) que depois é prolongada mais ainda com um trecho de Moby Dick numa jam calculada e asséptica, cuja ironia ou eu não entendo ou está algumas décadas atrasadas.

Para não ser injusto: das novas, Astral Planes soa majestosa, trampo de guitarras que te pega pelo pescoço e afeta o raciocínio — não é uma música ruim, mas não é melhor do que, por exemplo, The Everlasting Gaze, para citar outra pesadona que também não faz lá muito minha cabeça, em contraponto a uma Bodies, por exemplo. A Song of a Son é bacaninha, mas o que ela tem a dizer perto de uma Drown? Sim, rolou Drown, umas das minhas preferidas, e também Zero, Cherub Rock e Stand Inside Your Love. Mas terei sido o único a perceber esta contrariedade de Billy nas canções antigas? Sei lá — ao menos, ela é amenizada numa tentativa de bom relacionamento com seus parceiros de palco, a D’Arcy morena, o guitarrista coadjuvante e Daniel Sam na bateria, e mesmo tendo faltado inúmeras, dezenas, de outras (nem 1979, Billy Ronaldinho?), o Smashing Pumpkins novo é isso aí, tá de bom tamanho para as minhas estrategicamente diminutas expectativas.

Enfim, não foi um show fracassado, tampouco ótimo, mas mediano, algo burocrata nas revisitações de seu catálogo da década passada, com Billy vez ou outra se esforçando em legitimar a coisa toda e chegando a causar alguma compaixão com sua causa, que não durava muito, sob a luz de uma racionalidade que eu não deixo me escapar nunca (ou quase nunca). E se com a insistência nas novas composições a coisa não chega a soar de todo desonesta, fato é que eu preferiria estar ali assistindo algo com um nome diferente, ou uma carreira solo, e quem sabe até umas releituras de Pumpkins seriam bem-vindas, como quando o Paul McCartney tocou, na noite seguinte, não muito longe dali, vários clássicos do Beatles.

Mas era o Smashing Pumpkins no palco e, de um jeito ou de outro, objetivo pessoal cumprido. Quero dizer, não antes do bis com Heavy Metal Machine, um desfecho emblemático: uma música quadradona, antítese do melhor Pumpkins e tão insignificante perto de tantas outras do catálogo, fecha o show e nivela mais para baixo os espíritos que até justamente elevaram-se, nostalgicamente, com uma mais emocionante execução de Tonight Tonight minutos atrás. Tonight Tonight, o ponto alto do show para mim, e uma música tão sublime que eu posso até acreditar que nem o Roberto Carlos cantando pode estragá-la. Mas o show termina com Heavy Metal Machine mesmo, os três prestadores de serviços saem e Billy fica sozinho no palco, agradecendo modestamente a seus súditos — “desculpem-me, mas só assim para trazê-los todos aqui”, é o que eu ouço ele pensar. Pois é. Agora, pelo menos, eu posso dizer: eu vi o Smashing Pumpkins. Ou o mais próximo disso que poderíamos ter em 2010.

Set list do Pavement

  1. Gold Soundz
  2. Grounded
  3. Perfume-V
  4. Stereo
  5. Date With IKEA
  6. Unfair
  7. Shady Lane
  8. Starlings Of The Slipstream
  9. Kennel District
  10. Conduit For Sale!
  11. Rattled By The Rush
  12. In The Mouth A Desert
  13. Summer Babe
  14. Cut Your Hair
  15. Stop Breathin’
  16. Spit On A Stranger
  17. Silent Kid
  18. Frontwards
  19. Range Life
  20. Two States
  21. Here

Set list do Smashing Pumpkins

  1. The Fellowship
  2. Lonely is the Name
  3. Today
  4. Astral Planes
  5. Ava Adore
  6. A Song for a Son
  7. Bullet With Butterfly Wings
  8. Tarantula
  9. United States (The Star-Spangled Banner / Moby Dick [Led Zeppelin])
  10. Spangled
  11. Drown
  12. Shame
  13. Cherub Rock
  14. Zero
  15. Stand Inside Your Love
  16. Tonight, Tonight
  17. Heavy Metal Machine

Bandas associadas: Smashing Pumpkins, Pavement, Hurtmold

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