Pearl Jam

28/11/2005, Gigantinho, Porto Alegre (RS), Brasil

Por Alexandre Luzardo em 12/2005

Créditos da imagem: Copiada do site oficial da banda

Quem acompanha as iniciativas do Pearl Jam para os fãs tinha plena confiança de que os inúmeros pedidos e movimentos organizados clamando por um show no Brasil não seriam ignorados pela banda. Era uma questão de tempo. E a expectativa era alimentada todo ano com a interminável boataria de prováveis shows que não se confirmavam. Qual foi a primeira vez que cogitaram Pearl Jam no Brasil? 1997? Talvez antes até. Mas não importa, o fato é que a turnê finalmente se tornou uma certeza a partir do momento em que Garota de Ipanema começou a ser reproduzida no site oficial da banda. Restava a questão das datas. Uma espera de tanto tempo fazia pensar que o Pearl Jam, quando viesse, não faria apenas um ou dois shows, mas sim uma verdadeira turnê pelo país. E isso foi confirmado quando foram anunciados cinco shows no Brasil, a começar por Porto Alegre, 28 de novembro de 2005.

O local escolhido não era dos melhores, o preço dos ingressos era salgado, mas o público praticamente lotou o Gigantinho, restando apenas alguns espaços nas cadeiras, além dos ingressos que fatalmente morrem nas mãos de cambistas. O palco foi posicionado ao fundo do ginásio, rodeado pelas arquibancadas pelos lados e cadeiras ao fundo. Na pista certamente havia empurra-empurra próximo à grade, mas de uma posição mais intermediária foi possível acompanhar o show com espaço até razoável para se movimentar, não havia superlotação. A produção do palco era a mais simples possível, sem telão, sem projeção de imagens e com uma iluminação até tímida para um show desse porte. Escondido em meio às luzes estava um globo de espelhos, meio sem função específica e pouco efeito prático, apenas para não quebrar a mística. Assim sendo, seria um show baseado unicamente na música. Mas quando a banda subiu ao palco, por volta das 21h15, aos primeiros acordes da belíssima Long Road ficou evidente que qualquer efeito visual ali era dispensável. O som, para os padrões do Gigantinho, estava muito bom, alto, e o vocal de Eddie Vedder soava claro e limpo, plenamente audível mesmo com todo o barulho da platéia, que vibrou muito, provando o bom trabalho dos técnicos de som, mas principalmente mostrando o quão bom vocalista é Vedder. Long Road, por sinal, foi a melhor das escolhas para abrir o set, a letra praticamente ganhou um novo significado. “I have wished for so long, how I wish for you today” não poderia fazer mais sentido naquela noite.

E foi, acima de tudo, um show de rock: após a introspectiva Long Road, o show prosseguiu com uma seqüência de peso com Last Exit (uma dentre as tantas gratas surpresas do setlist), Animal e Do The Evolution, ganhando de vez público. Em Animal, Eddie repetiu o célebre gesto da apresentação do VMA de 1993, apontando com os dedos o “one, two, three, four, five against one” da introdução. E foi também durante Animal que Eddie ouviu pela primeira vez o coro dos porto-alegrenses, deixando que o público cantasse o refrão em um trecho. O público estava completamente entregue, celebrando a banda que esperou tantos anos para ver, enquanto o Pearl Jam soltava seus intermináveis hits com paixão e entusiasmo, com Eddie Vedder falando num português difícil de entender entre as músicas. Teve Jeremy, que soou intensa, grandiosa, solene. Teve uma versão longa de Even Flow com Matt Cameron brilhando na batera e Mike McCready solando olhando para o alto, como se estivesse hipnotizado. McCready, por sinal, parecia rejuvenescido, e tocou muito. Talvez o ponto mais alto do show tenha sido durante Alive, quando no longo solo ao final da música o público, em êxtase, acompanhava com os punhos para o alto e gritos de “yeah”, McCready pareceu integrar o que tocava com os movimentos do público. De arrepiar, mesmo. Vedder disse após a música, em português, “obrigado por nos darem uma linda noite para lembrar”.

O festival de hits contou também com Better Man lindamente conduzida somente por Vedder na guitarra acompanhado pelo público em coro, antes da entrada dos demais instrumentos. Rearviewmirror não podia faltar, e a performance foi sensacional, de incendiar o público, arrasa-quarteirão. Em Given to Fly quem brilhou mais novamente foi o aniversariante da noite, Matt Cameron, que mais tarde foi chamado à frente por Vedder para que o fosse cantado “parabéns pra você”, em português mesmo. Eles jogaram bolo uns nos outros, jogaram pedaços para a platéia, uma festa. Quando a banda tocou Daughter, a expectativa era ver qual a música que seria encaixada depois que as cortinas se fecham, como diz a letra. Não teve música, Vedder preferiu brincar de chamada e resposta com o público desembocando num “hey ho, let’s go” desacelerado. Mais duas pérolas do repertório ficaram reservadas apenas para o segundo bis, quando a banda tocou a emocionante Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town e a sensacional Corduroy, para muitos a melhor música deles.

Dentre as músicas mais recentes, a escolha foi a melhor possível. Rolaram três das melhores músicas do bom, mas pouco ouvido álbum Riot Act, Green Disesase, Save You e Cropduster, além da pulsante e quebrada Grievance, de Binaural. A banda atendeu ainda a pedidos, tocando State of Love And Trust, pedida em um enorme cartaz nas cadeiras e I Got ID, tocada no primeiro bis, quando Eddie mostrou uma camiseta que haviam jogado no palco onde estava escrito “I Got Shit”, o nome não censurado da música. Uma insandecida Blood, onde Vedder não poupou a garganta, Habit e a emocionante Immortality também foram belas surpresas.

Foi um show enérgico, pesado, e a informação da cobertura do Terra de que o Pearl Jam chegou direto do aeroporto para o Gigantinho devido a atrasos no vôo não deixa de ser impressionante. Em nenhum momento a banda demonstrou o cansaço de ter ficado o dia inteiro em salas de espera em aeroportos, aparentando estar completamente entregue à performance. Eddie Vedder, especialmente, parecia relaxado, aproveitando os longos instrumentais ao final das músicas para beber vinho direto da garrafa. No final de Alive ele se dirigiu ao lado esquerdo do palco, junto à mesa de som onde estava sua filha de um ano e meio e ficou ali brincando com ela, que estava mexendo os bracinhos como se estivesse ouvindo a música apesar de seus enormes fones de ouvido que a protegiam da barulheira.

E show do Pearl Jam não seria completo se não houvesse covers. E veio justamente de um cover outro dos momentos marcantes do show. O Pearl Jam tem aproveitado a turnê sul americana para homenagear o Ramones, a partir do fato de aqui o Ramones teve o reconhecimento que o público americano negou à banda. Vedder lembrou da primeira vez que esteve no Brasil acompanhando uma turnê do Ramones, falou do amigo Johnny Ramone, morto em setembro, e chamou Marky Ramone ao palco para assumir as baquetas em I Believe in Miracles. Marky estava na cidade e se apresentaria com uma banda gaúcha num tributo ao Ramones, mas ninguém jamais imaginava que ele participaria do show do Pearl Jam. Aliás, nem o próprio Marky. Segundo a reportagem do Terra, ele esteve no backstage para cumprimentar a banda e foi “convocado” a participar do show, sem qualquer ensaio.

Além do Ramones, outra banda querida de Eddie Vedder ganhou cover no show. Foi o The Who de Baba O’Riley, que rolou já no segundo bis, naquele clima de celebração do rock ‘n’ roll. O público cantou junto, o que não deixou de ser surpreendente até para a banda. Eddie abriu um sorriso e deixou que o público cantasse. Crazy Mary, outro cover constante no setlist da band,a também foi tocado em Porto Alegre, ganhando um intenso solo no final, quando Boom comandou nos teclados.

Aliás, Boom, que fez algumas participações pontuais, principalmente nas baladas, proporcionou o momento mais controverso do show. Entre as músicas, o público fazia cantos típicos de futebol para Grêmio e Inter. Seria totalmente sem sentido, não estivesse Porto Alegre vivendo um momento de nervos expostos em relação ao futebol, com o Grêmio conquistando a segunda divisão de maneira inesperada e o Inter brigando até a última rodada pelo título brasileiro. No grenal do público, Boom marcou o gol do Grêmio ao vestir uma camiseta do clube que foi jogada ao palco. Ganhou aplausos dos gremistas, vaias dos colorados, e com certeza não entendeu nada.

Sobre o setlist, no geral, não há margem para qualquer reclamação. Foi extremamente equilibrado entre confirmadas, zebras e covers. Um exercício bacana entre as músicas era tentar adivinhar qual seria a próxima a ser tocada. Em dado momento, Eddie fez uma frase forte: “Esse é um bom momento para estar fora dos Estados Unidos. Obrigado por nos darem um lugar para ir.” Seria a deixa perfeita para tocar Bushleager, com seu belo refrão. Não aconteceu, mas era óbvio que mesmo num show longo muitas músicas boas ficariam de fora. Era possível fazer um novo show no mesmo Gigantinho no dia seguinte sem repetir uma única música e o show estaria no mesmo nível. Até hits não faltariam, como Last Kiss, I Am Mine, Light Years ou a indefectível Black. E a lista de músicas excelentes que poderiam ser tocadas é interminável: Low Light, Go, Dissident, Once, Tremor Christ, MFC, In Hiding, Hail Hail, Rocking in the Free World

Depois de duas horas e meia de êxtase, o público voltou para casa, provavelmente com Yellow Ledbetter, que encerrou lindamente o show, ainda ecoando na cabeça. Foi digno da primeira apresentação do Pearl Jam no Brasil e ninguém que esteve lá vai esquecer tão cedo. Após o show, dá para dizer com alguma segurança que hoje em dia o Pearl Jam é uma banda muito mais forte em palco do que no estúdio. Por estar relativamente afastado da mídia, a idade de público do show de Porto Alegre passava tranqüilo dos vinte anos em média, com menor presença de adolescentes, mais ligados nos goods charlottes da vida. E menos indies também, já que o Pearl Jam tem um som classicista demais para quem é ávido por novidades. E, estando nessa espécie de limbo restrito aos fãs que viveram a época (ainda que seja uma legião imensa, diga-se), um show como esse mostrou o vigor que a banda tem ao vivo. Havia a plena sensação de estar assistindo a uma banda no auge, apesar dos quase quinze anos de estrada. De todo o jeito, mesmo que o próximo álbum em 2006 seja um clássico, é no palco que as músicas ganharão intensidade e força, transcendendo o que são em disco. E com o tamanho entrosamento e a naturalidade com que a banda tocou em Porto Alegre, nada mais natural do que esperar um futuro de muitos anos ainda pela frente para o Pearl Jam.

Agora resta ouvir os MP3s do show disponibilizados no dia seguinte pelo site oficial, para poder ouvir com todas as nuances os detalhes do som que a acústica do Gigantinho levou embora. Neste momento está tocando Animal, e a sensação de finalmente ouvir Pearl Jam ao vivo sabendo que estive lá não é menos que arrepiante.

Setlist

  1. Long Road
  2. Last Exit
  3. Animal
  4. Do the Evolution
  5. Green Disease
  6. Jeremy
  7. Grievance
  8. Cropduster
  9. Even Flow
  10. Better Man
  11. State of Love and Trust
  12. Daughter
  13. Habit
  14. Given to Fly
  15. Immortallity
  16. Save You
  17. Rearviewmirror

Bis 1:

  1. I Got ID
  2. Crazy Mary
  3. Crazy Mary
  4. I Believe in Miracles
  5. Alive

Bis 2:

  1. Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town
  2. Corduroy
  3. Blood
  4. Baba O’Riley
  5. Yellow Ledbetter

Bandas associadas: Pearl Jam

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