Nick Cave and the Bad Seeds

09/06/2008, Olympia Hall, Paris, França

Por Fabricio C. Boppré em 10/06/2008

Créditos da imagem: Foto por Fabricio Boppré

Ver Mr. Nicholas Edward Cave ao vivo, junto com seus Bad Seeds, é uma experiência memorável, algo religiosa. Sim, eu sei, juntar religião e Nick Cave na mesma frase é já uma platitude, mas é também algo inescapável, mesmo para alguém convictamente ateu como eu. De qualquer forma, não é difícil achar uma impressão mais digna e eloquente para definir o espetáculo: é, acima de tudo, revigorante ver um bando de senhores fazendo aquele barulho e genuinamente se divertindo durante todas as mais de duas horas de show.

Chegamos bem cedo no Olympia Hall, casa de shows situada no centro do Paris, e garantimos um local privilegiadíssimo na frente, apoiados na grade, à esquerda do palco. Nunca fiz muita questão de ficar tão próximo assim nos shows que fui, geralmente é muito empurra-empurra e sufoco, mas, acreditando que dessa vez o público seria mais pacífico, arriscamos. E deu tudo bem certo, pois de fato o público era bem variado e mais tranqüilo: havia crianças com seus pais, jovens e vários senhores e senhoras.

O show de abertura foi surpreendentemente bem legal, um guitarrista/vocalista chamado Ed Kuepper junto com um baterista chamado Jefferey Wegener. Ótimo som tiraram ambos, rock ‘n’ roll bem básico e enérgico, algo tipo Neil Young anos 90. Não conhecia o tal Ed Kuepper, posteriormente pesquisei sobre ele e descobri que o cara tem história, foi membro fundador do The Saints, além do The Laughing Clowns e do The Aints (esses dois últimos eu nunca ouvi), tocou com o Velvet Underground naquela reunião dos anos 90, entre outros itens curriculares de respeito. Nas últimas duas músicas, a dupla contou com o apoio de dois Bad Seeds, o Warren Ellis (violino, guitarra, e muitos outros) e o baixista Martyn Casey.

Finalizado o show da dupla, deu-se início à expectativa, com o lugar já totalmente cheio. Não demorou muito para nos arrepiarmos com o êxtase que tomou conta do local na entrada do Bad Seeds: homem a homem, sob intensos aplausos e histeria, vão tomando seus lugares e começam a tocar Night of the Lotus Eaters, e por fim entra o dono da noite, o dono da palavra, da voz, da poesia maldita, Nick Cave. Ver uma banda tomar o palco, ainda mais quando capitaneada por uma figura tão fantástica como Nick Cave, é sempre essa emoção coletiva, delirante, sempre absolutamente inexplicável, aquele impulso de choro infantil difícil de conter. Ultimamente tenho me achado meio velho para enfrentar shows, as filas, as esperas, as confusões, mas este é o momento que compensa tudo.

Sem mais rodeios, o show foi espetacular: o messias à frente, possuído, encharcado de suor com cinco minutos de apresentação, berrando, sussurrando, conduzindo a hipnose da massa com maestria (pensando cá com meus botões, “messias” e “possuído” talvez configurem um paradoxo, nos sentidos literais religiosos dos termos, mas isso não deve se aplicar em se tratando de Nick Cave). O Bad Seeds logo atrás, bem mais barulhento do que eu imaginava — logicamente, as nuances instrumentais dos álbuns quase que se perdem completamente, talvez parte disso seja atribuída ao local, não sei. Mas, “to hell with that”, deve dizer Nick Cave, uma das pessoas mais apropriadas para se dizer algo desse tipo. O homem parece encarnar com a mesma naturalidade entidades diabólicas e angelicais enquanto empunha o microfone e vocifera suas canções sobre a morte, o amor, Deus, e todo um espectro de assuntos que atormentam o homem desde tempos imemorias. E a banda atrás manda ver com serenidade e afinco o fundo sonoro perfeito para Nick liderar este culto fervoroso, de onde nenhuma alma sai da mesma forma como entrou.

Foram executados muitos clássicos e muitas músicas desse último ótimo álbum (aliás, o show foi o último da turnê de divulgação de Dig Lazarus Dig!!!). Sempre falta uma ou outra que gostaríamos de ouvir, mas faz parte. Dentre minhas preferidas, entre velharias e novidades, rolaram Mercy Seat, Papa Won’t Leave You Henry, Today’s Lesson, Ship Song (bem elétrica, prefiro as versões mais tranquilas ao piano, mas foi legal), I Let Love In, Weeping Song, Tupelo e Red Right Hand. O momento “Nick-sozinho-com-o-piano” ficou por conta de Into My Arms, uma das mais belas canções do repertório do grupo. Eu torcia muito para presenciar Lime Tree Arbour nesse formato, o que não aconteceu; de qualquer forma, em um show desse porte, com platéia grande e orientação claramente rock ‘n’ roll, a coisa não tem o mesmo impacto do que tem num show mais intimista. Mesmo assim, Into My Arms cumpriu bem o seu papel. Fecharam a noite com Stagger Lee, magnífica, com Nick Cave recriando toda aquela dramaticidade incrível da música, olhando nos olhos e apontando para a cara de todo mundo. De meter medo.

Setlist

  1. Night of the lotus eaters
  2. Dig, Lazarus, Dig!!!
  3. Tupelo
  4. Today’s lesson
  5. Red right hand
  6. I let love in
  7. Midnight man
  8. The Mercy Seat
  9. Deanna
  10. Get ready for love
  11. Moonland
  12. Ship song
  13. We call upon the author
  14. Weeping song
  15. Papa won’t leave you Henry
  16. More news from nowhere

Bis:

  1. Into my arms
  2. Hold on to yourself
  3. Hard on for love
  4. Lovely Creature
  5. Stagger Lee

Bandas associadas: Nick Cave And The Bad Seeds

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