Neil Young

04/06/2009, Le Zenith, Paris, França

Por Fabricio C. Boppré em 19/06/2009

Créditos da imagem: Foto de b fabien

Depois de ter perdido a oportunidade de ver o Neil Young em 2001, quando ele se apresentou no Rock In Rio, achei que dificilmente teria outra chance de vê-lo. Pois bem, eu também não fazia idéia de que um dia teria a oportunidade de morar uma temporada na Europa. E foi o advento dessa mudança de logradouro que me possibilitou este acerto de contas com o meu passado, e, no dia 4 de junho de 2009, lá estava eu defronte a um palco decorado com velhos e enormes amplificadores, muitos violões, guitarras, um totem indígena, e que em breve receberia a lenda canadense.

O cara é uma lenda, não há o que discutir, mas a primeira coisa que deve-se ressaltar é que ele não faz uso dessa sua condição em momento algum, durante as cercas de duas horas de show. São 63 anos muito bem vividos, e ele se move de lá para cá de maneira condizente com sua idade, até porque, ao contrário d’um Mick Jagger, ele aparenta a idade que tem e está sempre carregando sobre os ombros uma guitarra ou um violão. Mas fica nisso e nos cabelos brancos os sinais da idade. O gosto com que destroçou suas guitarras (figurativamente e, ao final do show, literalmente) é de alguém com algumas décadas a menos nas costas.

Tivemos há pouco tempo o lançamento deste Fork In The Road, um disco de difícil defesa, como alguns outros que o velho Neil andou lançando nos últimos tempos. Não são trabalhos medíocres, longe disso — ouvindo-os, ainda é possível acreditar que são obras autênticas, que Neil e os vovôs dos quais ele costuma se cercar passam boas horas de farra e trabalho no estúdio, e que, através de suas músicas, Neil dá vazão às suas mensagens e isto tudo lhe faz bem. Mas a inspiração para as melodias anda escassa ultimamente, e Fork In The Road é mais um que, nas listas de melhores trabalhos de Neil Young, há de figurar sempre na metade de baixo da metade de baixo. Pois bem, o receio era que o disco ocupasse um bom naco do show — turnê de divulgação, aquela coisa — mas o show começou, foi se desenrolando e tivemos apenas uma musiquinha em todo o setlist, Get Behind The Wheel, já lá pro fim do show, quando a empolgação com o que presenciávamos era total e absoluta e nem mesmo a execução do álbum inteiro a partir dali nos incomodoria mais.

Senão, vejamos: àquela altura, já havíamos visto Hey Hey, My My (Into The Black), Everybody Knows This Is Nowhere, Pocahontas, Cortez The Killer, Cinnamon Girl, Don’t Let It Bring You Down, Goin’ Back, Comes A Time, Heart Of Gold e Old Man. Alguns clássicos, verdadeiros hinos, de até 40 anos atrás, mas que ganham ares de atemporalidade através das cordas das guitarras indomáveis do mestre que, com um misto de magnanimidade e simplicidade, põe todo mundo num transe de sorrisos rejuvenescidos, põe todo mundo para agradecer fervorosamente, consigo mesmo, a decisão de estar ali e poder dizer pelo resto da vida que viu o Neil Young.

Aliás, quem já viu, sabe, e mesmo uma boa parcela dos que não viram ainda, também sabe que Neil Young tem por hábito estender as músicas, recriá-las, num relacionamento quase comovente com suas guitarras, tocadas em boa parte do tempo com os dedos mesmo, sem palhetas. Bem, eu não entendo nada de guitarras e técnicas envolvidas, mas já vi muitos entendidos por aí tecerem loas à personalidade de Neil Young no instrumento, ao seu estilo. O que eu posso acrescentar, na condição de testemunha, é que os solos rasgados, o feeling do velhinho, é algo inesquecível. E acaba que, neste processo, você não assiste a um show de rock dos anos 60 ou 70 ou qualquer coisa assim, apesar desta grande quantidade de clássicos oriundos de discos lançados nessas décadas. Assiste-se a um show de rock ora visceral e pesado, ora blueseiro, ora baladeiro, mas sempre pulsante e emocionante, com boas doses de distorção, imperfeição e improvisação, protagonizado por senhores sorridentes de calças jeans, tênis e cabelos compridos. Realmente formidável.

Aliás, a banda, não era a célebre Crazy Horse, mas era também formada por colaboradores de longa data, entre eles Ben Keith, que tem seu nome nas fichas técnicas de alguns dos melhores álbuns de Neil, como Harvest, Tonight’s the Night, Comes A Time e Harvest Moon. Estava lá no palco também, fazendo backing vocals, Peggy Young, que não tem esse sobrenome por acaso; é a própria sra. Young.

O final do show foi catártico. Mansion On The Hill, do ótimo Ragged Glory, de 1990, foi só o começo. Rockin’ In The Free World foi fabulosa, com a garotada pulando como se estivesse num show do Pearl Jam. Like A Hurricane é um clássico na mais completa acepção da palavra — vi, no momento em que soaram as primeiras notas, uma senhora empurrando quem estivesse pelo caminho e trazendo pela mão um garotinho, provavelmente seu filho, para assistir à música lá na frente, colados ao palco, e até hoje me divirto elaborando teorias do porquê disso — era a música que tocava no rádio quando ela descobriu que estava grávida do garoto? Quem sabe a música que tocava quando ela conheceu o pai dele? Ou, quem sabe, seria ela a própria inspiração de Neil Young ao compor a música? Não sei. Mas é sem dúvida uma música dessas de figurar na trilha-sonora de uma geração, de embalar grandes momentos. E por fim, o cover de A Day In The Life, dos Beatles, que começa divertida e termina com Neil arrancando as cordas de sua guitarra.

Saímos de lá com os ouvidos zunindo e em meio a um mar de pessoas de todas as idades e sexos, todos claramente compartilhando da mesma felicidade que nós sentíamos, todos animadamente embevecidos da maravilhosa dose de rejuvenescimento recebida parece que diretamente nas veias. E se os últimos discos tinham desgastado um pouco a reverência que Neil merece por parte de todos nós, bem, naquele momento, quando as luzes se acendiam, a reverência estava renovada por mais uns três séculos.

  1. Love And Only Love
  2. Hey Hey, My My (Into The Black)
  3. Everybody Knows This Is Nowhere
  4. Pocahontas
  5. Spirit Road
  6. Cortez The Killer
  7. Cinnamon Girl
  8. Mother Earth
  9. Don’t Let It Bring You Down
  10. Goin’ Back
  11. Comes A Time
  12. Heart Of Gold
  13. Old Man
  14. Mansion On The Hill
  15. Get Behind The Wheel
  16. Rockin’ In The Free World

Bis

  1. Like A Hurricane
  2. A Day In The Life

Bandas associadas: Neil Young

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